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Nenhures

Nenhures

Contrata-se "colaborador" (breve ensaio sobre a esquerda lisboeta)

(The Clash, Revolution Rock)

Postal, também autobiográfico, muitíssimo antipático, sobre o linguajar. E sobre a "direita"/"esquerda". E as auto-representações corporativas. Um postal "punk", se o quiserem assim chamar ...

1. Há dias uma queridíssima amiga, que também colega, dizia-me ao jantar, que eu, para além de "direita" por vezes escrevo coisas de "extrema-direita". Pedi-lhe exemplos, não lhe ocorreram ali de imediato, o jantar estava muito agradável e a conversa derivou para outros assuntos.

2. Há anos voltei de Moçambique. No primeiro seminário profissional a que fui uma colega, nitidamente viçosa lisboeta revolucionária, utilizou o termo "empoderamento". Sorri e indaguei sobre a necessidade de usar o termo: é um anglicismo, e feio que se farta. Respondeu irritada, fulminando-me qual patrioteiro hiper-reaccionário, dizendo-me, com notório desprezo, “purista”. Não pode ocorrer a um espécime daquela pobre raça que temos "potenciação". E que, muito mais importante, os termos assentam em diferentes concepções do social e do político, e exsudam-nas: “empoderar” implicita a noção de que se está a dotar algo de “poder” (como se este fosse algo, e como se haja núcleos societais que o distribuam) e “potenciar” deixa entender que se estão as criar condições para a sua produção e/ou aquisição, nos processos conflituais que são a sociedade. Repito, são bem duas concepções de processo político que ali estavam: a da (ignara) revolucionária e a do vetusto (patrioteiro), não haja dúvida. Para além de outra coisa, também cómica: a quase-certa bloquista meneando o jargão do Banco Mundial e do FMI, o “quase-fascista” torcendo o nariz a esse linguajar. Enfim, aprendi-o logo ali, naquele meu período de recente “torna-viagem”, o que nesta terra e meio o que importa são as auto-representações, o quão belo o revolucionário se vê no espelho …

3. Quando voltei integrei uma instituição de pesquisa, agregadora de pólos articulados com várias universidades públicas e de centenas de investigadores, grande parte deles sem vínculos laborais com essas universidades e/ou com o Estado. O ambiente cultural (a “episteme”, se lhe quiserem chamar assim) é algo enviesado, o que é normal entre as ciências sociais (desde que não sejam os engravatados – e endinheirados - Direito ou a Economia), assim um pouco “gauchiste” ainda que heterogéneo. Nesse âmbito e nesta época muitos, ainda que não todos, pavoneiam muito atenção à forma de falar (e escrever). Assim recebia ou lia mensagens destinadas aos “Car@s”/”Prezad@s”, “etc@”. Na época eu tentava fazer um doutoramento e constatei até a existência de um grupo de “doutorand@s”. Ou seja, há uma atenção máxima aos mecanismos de poder que estão implícitos (e até explícitos) na fala, e a aversão ao masculino genérico (o universal masculino) é particularmente vigente, pois entendido como denotando e reproduzindo as relações de espoliação e opressão das mulheres.

“Em Roma sê romano”, dizia-se antes da era multiculturalista, e por isso lá fui sendo @. Mas entretanto recebi várias “convocatórias” para actividades de uma das universidades públicas para as actividades que nela decorriam. Um dia, dado o ambiente de atenção às formas de falar e às relações de poder que transpiram e reproduzem, e dado o meu pendor pouco estatista (aquilo da “extrema-direita”) resmunguei que os funcionários públicos académicos, que haviam sido eleitos entre os seus pares para um breve período de gestão da sua universidade pública, não tinham qualquer prerrogativa para me “convocarem” – termo cuja semântica, explícita e implicitamente, demonstra uma relação hierárquica e uma obrigatoriedade. Nem a mim nem a qualquer dos meus colegas, alguns dos quais também colegas (“pares”) desses funcionários públicos académicos. Fui mal acolhido na minha oposição, porventura considerado indivídu@ descabid@ devido à minha atenção às coisas da cidadania, e da república. E à minha aversão aos mecanismos de “empoderamento”, da aquisição e apropriação de poderes. Ou, de forma chã, que um tipo lá porque foi eleito para um conselho de reitoria de uma universidade pública não tem qualquer poder sobre os seus colegas e, muito menos, sobre investigadores de outras universidades ou de nenhuma universidade.

Assim, e como sou de “(extrema-)direita”, e mesmo alérgico a essas mentalidadezinhas estatistas, abandonei a instituição que me transmitia as convocatórias dos funcionários públicos eleitos.

4. Os anos passam, a luta contra o masculino genérico e outras formas de exploração da mulher e d@ transsexual pelo homem (tóxico, pois pérfido heterossexual aprisionado - como diziam mas deixaram de dizer - pela "sexualidade reprodutiva"), e d@ negr@ pelo branco, reproduzidas no linguajar continua, e tem tido vários sucessos e etapas discursivas. A esquerda intelectual, orgânica, um dia vilmente insultada pelo reaccionário Bourdieu, ideólogo da direita francesa, como “radicais de campus”, tem sido fundamental neste campo de batalha.

Vejo agora mesmo, aqui no FB, um anúncio de emprego para funções de secretariado, no qual se explicita que se esperam candidatos ou candidatas (contra o tal “universal masculino” "marchar, marchar ..."). Colocado por uma associação profissional (uma "ordem", se assim tivesse sido instituída), dessas que congrega muitos desses praticantes desta luta de libertação vocabular. Que nisso se revêm como de “esquerda”, mais ou menos libertária, mais ou menos “socialista”, depende dos casos. Ainda que sempre, ou quase, com um sorriso de mesura face aos poderes fácticos, se estes do PS.

Tenho uma particular apreço pelos trabalhos de secretariado (hoje em dia muito ditos de “assistência de direcção”). A minha mãe foi secretária, professora e coordenadora de pioneiros cursos de secretariado durante décadas. Por isso digo “àquel@s e àquel@s” que se candidatem a esse posto de trabalho: tenham cuidado com os esquerdistas, tão puristas da língua opressora, mas que chamam “colaboradores” aos trabalhadores. Ou seja, cuidem-se com os esquerdistas que papagueiam jargões. Pois esses, sempre, tendem a tiranetes. Ou, de outro modo, caros candidatos, boa sorte. E potenciem-se, nunca esperem que vos “empoderem”

Diz-vos este gajo da “(extrema-)direita”.

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