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Nenhures

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(Chagall, "Uma Família Ucraniana")

Ao seu "A Vida e Opiniões de Tristram Shandy" - que alguns vieram a considerar como fundacional da narrativa moderna - Laurence Sterne apôs como epígrafe um dito do grego Epicteto: "Não são as próprias coisas, mas as opiniões acerca das coisas o que atormenta os homens". E, ajuizadamente ou não, isso continua a perseguir-nos. E nesta época ainda mais se faz sentir.

Foi o que me aconteceu diante da publicação, na penúltima edição do "Expresso", de uma carta aberta - "Pela paz, contra a criminalização do pensamento" -, assinada por 20 indivíduos de renome. Escritores (entre os quais a galardoada Ana Margarida Carvalho), técnicos (entre os quais a médica e ex-activista política Isabel do Carmo), jornalistas (como Pedro Tadeu), artistas (como César Viana), universitários (como Soromenho Marques), militares (como Raul Cunha).

 

Entre este colectivo, e sem querer desmerecer nenhum dos seus membros, e mesmo atentando a que alguns deles se têm destacado no opinar na imprensa sobre a actual situação internacional (Tadeu publicita os seus textos no Facebook, Cunha e Cunha e Sá são figuras recorrentes na televisão), será pacífico considerar Boaventura Sousa Santos como o mais destacado, não só pela sua presença constante na imprensa escrita - na qual vem amiúde discorrendo (no "Jornal de Letras" e no "Público") sobre a actualidade mais premente - como pela influência que desde há décadas vem tendo em feixes da intelligentsia portuguesa. Para mais, todos que tenham ouvido ecos da sua personalidade assertiva, e até altaneira, concordarão que não será homem de surgir como "verbo de encher" em manifestações desta natureza, podendo assim ser entrevisto como ponto focal de um documento destes, mesmo que não seja o seu autor material. Poder-se-á até dizer, ainda que arriscando o exagero, que a "carta aberta" nos chega qual um Boaventura Sousa Santos et al. E assim possibilitando contrapor os recentes artigos que o autor vem apresentando com o conteúdo deste texto. Nos quais, tal como nas declarações de outros signatários sobre a actual guerra, sempre se dá primazia à denúncia da maldade "ocidental" e ucraniana, para isso recorrentemente usando os dizeres propagandísticos russos.

O texto - e não só pela sua atrapalhada sintaxe - surge pouco explícito, uma mediocridade algo estranha num documento que se quer proclamação pública, ainda por cima sendo da autoria de um colectivo que evidentemente convoca como legitimação o capital social e cultural dos seus componentes. Mas essa bruma textual não é um mero défice, é mesmo uma estratégia discursiva, e falsária - na escassez de argumentos os signatários  preferem não ser explícitos, preferindo agregar invectivas generalistas e nebulosas que assim julgarão menos rebatíveis. É uma retórica melíflua.

Isso nota-se, e em primeiro lugar, porque o seu cerne é apresentado como um geral apelo à paz, quando é óbvio que se centra na guerra na Ucrânia, a qual no entanto é apresentada como um mero exemplo - "tal como hoje acontece na Ucrânia" -, sem que seja de novo aludida. O tal tom melífluo é ainda mais notório pois o texto se reclama, logo de início, como uma enfática defesa dos tratados internacionais ("o inequívoco repúdio de qualquer violação dos acordos internacionais que ameace a integridade e a soberania dos povos, tal como hoje acontece na Ucrânia onde urge parar a guerra e fazer cumprir os princípios da Carta da ONU e da Acta Final da Conferência de Helsínquia"). Mas acontece que as conclusões de Helsínquia foram amplamente explícitas, consagrando logo no seu início que: "1. I. Within the framework of international law, all the participating States have equal rights and duties. They will respect each other's right to define and conduct as it wishes its relations with other States in accordance with international law and in the spirit of the present Declaration. They consider that their frontiers can be changed, in accordance with international law, by peaceful means and by agreement. They also have the right to belong or not to belong to international organizations, to be or not to be a party to bilateral or multilateral treaties including the right to be or not to be a party to treaties of alliance; they also have the right to neutrality.".

Ora é consabido que no eixo discursivo que abarca estes 20 signatários (como está patente aqui e ainda mais - pois referindo Sousa Santos - aqui, e em várias afirmações públicas de alguns deles) é constante a refutação da legitimidade da Ucrânia em aderir à NATO. É evidente que se pode discutir - e será avisado fazê-lo - a pertinência dessa adesão, em especial termos de "real politik". Mas é algo hipócrita encetar uma posição pública defendendo os Acordos de Helsínquia quando o substrato das opiniões dos signatários é a contestação do seu ponto inicial. E, paralelamente, é também medíocre repetir amiúde - como alguns dos signatários o fazem - a crítica do "expansionismo" da NATO sem referir (nesta "carta aberta" ou na miríade de artigos e "comentários" em que se desdobram) o impasse em que esta organização tem estado, em particular durante a presidência de Trump e, acima de tudo, devido à inflexão pacífica da política externa norte-americana.

Esta ligeireza, aparente desatenção pela história, é ainda mais de realçar face à postura convicta dos 20 signatários, que não têm pejo em denunciar a mediocridade intelectual geral, inversa à qualidade superior deles mesmos, eles que "recusam alinhar com os que colocaram de quarentena a faculdade de pensar". São assim eles os pensadores, enfrentando a mole propagandística e a plebe alienada. Nós todos, os outros.

O tal tom melífluo, pouco explícito, tem um segundo ponto: a crítica a uma "censura necessária" que surge "por toda a Europa", "que afasta desportistas" e artistas - que os leitores presumirão ser russos, algo que nem sequer é dito. Dois factores são completamente esquecidos por esta vintena de pensadores, apesar do alto apreço intelectual por si mesmos com que se apresentam: a vertente eminemente política, e nacionalista, que as representações desportivas têm nas actuais sociedades, o que torna politicamente pertinente a suspensão desse tipo de relações, até pelo eco popular que isso tem no país visado.

Tal como o têm as "embaixadas" culturais, ainda que num registo diferente, pois menos promotoras das paixões populares de índole nacionalista. Mas em relação a esta "censura" aos artistas, misturando-a com a dos desportistas, os signatários assumem, conscientemente, a prática da falsidade obscurantista: pois essas recusas de contratação de artistas têm sido episódicas, não são um processo institucional e estatalmente determinado, e têm sido alvo de grandes críticas. E são, acima de tudo, fruto de um ambiente cultural e político actual, muito brotado no campo universitário norte-americano, isso do "cancelamento" ("cancel culture"). O qual estes signatários nunca surgiram a contestar, pelo menos de modo tonitruante como agora - sendo que se trata de um ambiente "censório" do qual alguns deles são promotores, na patética deriva auto-punitiva sobre o "ocidente". Pois, de facto, os patetas italianos que quiseram encerrar o estudo de Dostoiévski e os seus pares galeses que retiraram Tchaikovsky do programa musical são siameses dos intoxicados com as abissais ideias "pós-coloniais" que querem apear Hume ou expurgar Twain.

O terceiro meneio melífluo é a contestação de uma directiva da União Europeia "promovendo a flagrante e grosseira violação dos direitos de liberdade de expressão e informação". Também nesta matéria os signatários não são explícitos, uma manobra retórica que quer criar no leitor a ideia de que está diante de uma "nuvem" censória, tão manipuladora que nem a consegue distinguir, e que lhe é desvendada por estes prestigiados analistas. É muito provável que tal se refira às emissões da imprensa russa, as quais foram vedadas. Decisão, de facto, muito discutível, pois enfrenta de modo problemático os princípios democráticos.

Mas é interessante que não ocorra a estes "20 magníficos" qualquer enquadramento do assunto, percebendo ter-se tratado não só de um acto político de evidente simbolismo mas também de vedar órgãos de propaganda estatal falsificadora. Tratou-se de fechar o acesso à opinião pública europeia da propaganda de um Estado que em 2006 assassinou a jornalista Anna Politkovskaia, celebrizada pela sua denúncia das violações russas na guerra da Chechénia. E que pratica a censura, agora tão acrescida que conduziu ao encerramento do Novaya Gazeta, cujo director Dmitry Muratov recebeu o Nobel no ano passado, evidente constatação da oprimida situação da imprensa russa. Ou, para resumir a situação, uma imprensa cujo estado o oposicionista russo Navalny descreveu há dias: "I learned about the monstrous events in Bucha yesterday morning from the news that Russia was convening the UN Security Council in connection with the massacre by Ukrainian Nazis in Bucha".

É certo que em regimes democráticos a ideia de vedar o acesso a órgãos de imprensa, mesmo que transmitam este tipo de desinformação e sejam submetidos a esta coerção, é algo problemático. Mas é bastante significativo que estes signatários prefiram condoer-se com isso e não com a situação da imprensa russa, a independente, espezinhada. E a obediente, divulgadora das célebres fake news ao serviço da propaganda do regime. E face a essa compungida preocupação com a vedação aposta às falsidades do regime de Putin não posso deixar de contrapor com um artigo de Boaventura Sousa Santos, "As democracias também morrem democraticamente" (Jornal de Letras, 24.10.2018), no qual o autor alerta para o perigo da falsidade noticiosa, o seu "o potencial destrutivo através da desinformação e da mentira que espalham". Preocupações que, pelos vistos, são suspensas quando o emissor é a Rússia após invadir a Ucrânia, decerto devido a ter esta solicitado apoio ao malvado "ocidente" e aos pérfidos Estados Unidos.

Finalmente, um quarto meneio melífluo. Os "20 magníficos", pensadores ao invés daqueles que seguem "a mediocridade, encenação e informação espectáculo", queixam-se de serem vítimas "de um ambiente tóxico, em muitos casos vinculado e estimulado por meios de comunicação social e por responsáveis do poder político, de hostilização, desacreditação pessoal e intimidação de todos os que não sigam a cartilha de uma opinião que se arvora ao estatuto de pensamento único", assim sendo eles (e alguns outros como eles) "obje[c]to de escárnio, desacreditação social e pressões", um alvo "perseguido, deturpado". E até "criminalizado". 

E este último trejeito é o cúmulo de desplante, desta empáfia hipócrita. Pois ninguém persegue estes "20 magníficos". E muito menos alguém os "criminaliza". Para além do normal decorrer das suas vidas - que nenhuma instituição, pública ou privada, prejudica, nem nenhum cidadão incomoda -, vários deles têm acesso constante à imprensa onde apresentam as suas visões: há algumas semanas recebi um email comercial do "Público", dizendo que havia tido 5 milhões de visitas no seu "sítio digital" durante o dia do início da guerra ucraniana - e a advogada Carmo Afonso, uma destes "magníficos", tem no jornal uma coluna em grande destaque; Tadeu julgo ser da direcção do Diário de Notícias; Isabel do Carmo é, com toda a certeza, a médica endocrinologista mais activa na "imprensa de referência"; Sousa Santos escreve no Jornal de Letras e no Público, para além das suas redes universitárias; o general Cunha [o que diz na tv coisas como "Agora o mau é o Putin... por amor de Deus!", "Quando o puseram num beco sem saída, o que é que ele fazia a seguir? Tinha de atacar a Ucrânia, obviamente"] é comentador televisivo; Cunha e Sá é comentadora televisiva, etc.

Ou seja, nada nem ninguém persegue, "cancela" e muito menos "criminaliza" esta gente. O que enfrentam é a crítica pelas opiniões que têm, e pela efectiva sensibilização pela "causa russa" que demonstram, na desvalorização da inadmissibilidade desta agressão e do significado real que comporta. Mas estes "20 magníficos" pensam tão bem si mesmos, têm-se em tão alta consideração, que consideram ser uma perseguição, mesmo uma "criminalização", os apupos que recebem. Os quais são bem merecidos. Mais que não seja devido à patética e despudorada empáfia com que se apresentam. E, ainda mais, pela hipocrisia que lhes é mente. Como tão bem demonstra esta melíflua "carta aberta".

Adenda: tendo lido este meu  postal um amigo enviou-me ligação para este texto de uma ucraniana, cuja origem será insuspeita para estes "20 magníficos" e seus sequazes. E é uma enorme demonstração da sua mediocridade e baixeza: "A guerra na Ucrânia e os dilemas da esquerda ocidental".

 

 

 

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