urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:estanNenhuresestanLiveJournal / SAPO Blogsestan2020-06-16T06:21:05Zurn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:estan:82063jpt2020-06-16T07:00:00A Tragédia de Macbeth2020-06-14T08:54:11Z2020-06-16T06:21:05Z<p style="text-align: center;"><iframe src="https://www.youtube.com/embed/rD5goS69LT4" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p class="title style-scope ytd-video-primary-info-renderer" style="text-align: center;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Why should you read "Macbeth"? - Brendan Pelsue (TEDEd); Animação de <a href="https://www.silviaprietov.com/" rel="noopener">Silvia Petrov</a>.</span></p>
<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 320px; padding: 10px;" title="macbeth.jpg" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B511836c8/21835038_oKhYU.jpeg" alt="macbeth.jpg" width="500" height="420" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Para quê reler Macbeth aos cinquenta e tal anos? Talvez para nunca esquecer a dúvida sobre a virtude do poder, aquilo que diz Malcolm </span><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">a Macduff, antes de partir à reconquista do reino de que era legítimo herdeiro, e que fora usurpado por Macbeth: </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">"... <span style="color: #0000ff;">penso que a nossa terra se afunda debaixo do jugo. Chora e sangra e, em cada novo dia que passa, junta-se mais uma ferida às suas chagas.</span> ( ...) <span style="color: #0000ff;">Mas, apesar de tudo isso, quando esmagar a cabeça do Tirano, ou a erguer na ponta da espada, terá a minha pobre Pátria ainda mais vícios do que tinha antes, mais sofrimentos e misérias do que nunca sob o reino daquele que lhe sucede</span>r. (...) <span style="background-color: #ffffff; color: #0000ff;">É de mim próprio que falo, de mim em que conheço tantos vícios que, quando libertos, o negro Macbeth parecerá tão puro como a neve, e o pobre Estado o tomará como cordeiro, se o comparar com as minhas infinitas malfeitorias. </span>(...) <span style="background-color: #ffffff; color: #0000ff;">Sei que ele é sanguinário, libidinoso, avarento, falso, desonesto, violento, mau, pejado de todos os pecados que se podem nomear. Mas não tem fundo a minha libertinagem</span> (...) <span style="color: #0000ff;">É melhor Macbeth do que um tal Rei</span>". (Tradução de João Palma-Ferreira, edição Livros do Brasil 171-173).</span></p>
<p style="text-align: center;"><iframe src="https://www.youtube.com/embed/HohKQCVJkdM" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">(Macbeth de Orson Welles) - é ver já, antes que seja bloqueado</span></p>
<p style="text-align: center;"> </p>
<p style="text-align: center;"><iframe src="https://www.youtube.com/embed/UOpcR9lZBPY" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p class="title style-scope ytd-video-primary-info-renderer" style="text-align: center;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">"William Shakespeare and the Roots of Western Civilization" - Paul Cantor</span></p>
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<p style="text-align: center;"><iframe src="https://www.youtube.com/embed/aIcRdmQK-WM" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p style="text-align: center;"><iframe src="https://www.youtube.com/embed/45c_hzf9xwU" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p class="title style-scope ytd-video-primary-info-renderer" style="text-align: center;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Paul Cantor on Shakespeare and Politics (I, II): <a class="yt-simple-endpoint style-scope yt-formatted-string" dir="auto" spellcheck="false" href="https://www.youtube.com/channel/UCmA54XhpFJWyw_Bsj1jYsMw" rel="noopener">Conversations with Bill Kristol</a></span></p>
<p class="title style-scope ytd-video-primary-info-renderer" style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;"><a href="http://shakespeare.mit.edu/macbeth/full.html" rel="noopener">Livro em inglês</a> ( edição colocada no sítio <a href="http://shakespeare.mit.edu/index.html" rel="noopener">The Complete Works of William Shakespeare</a>);</span></p>
<p class="title style-scope ytd-video-primary-info-renderer" style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;"><a href="https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/187471/A%20trag%C3%A9dia%20de%20Macbeth%20e-book.pdf?sequence=1&isAllowed=y" rel="noopener">Livro em edição bilingue</a> inglês-português (do Brasil), com tradução de Rafael Raffaelli.</span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:estan:81820jpt2020-06-15T07:18:00Serviço público televisivo2020-06-14T01:48:46Z2020-06-15T06:26:47Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 492px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="fc0942db8524778525f15e1a2be24254.jpg" src="https://c10.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B7e1734f3/21835033_YRgAe.jpeg" alt="fc0942db8524778525f15e1a2be24254.jpg" width="860" height="276" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;"><a href="https://www.rtp.pt/noticias/mundo/trump-agradece-eficacia-de-ss-a-protege-lo-contra-manifestantes_n1236527" rel="noopener">Trump agradece eficácia de SS a protegê-lo contra manifestantes (RTPNotícias, 12 de Junho)</a></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Esta é a "notícia" que a empresa de serviço público televisivo publicou, acompanhada desta mesma imagem. O que se pode dizer é curto. Pedir o despedimento de alguém é sempre duro. Mas neste caso é inultrapassável. O Estado não pode ter no seu serviço noticioso alguém que tem este entendimento do jornalismo. Não é um caso de incompetência nem um erro. É a vigência, descarada, da concepção de que ser jornalista é manipular factos e opiniões, e sem qualquer limite. É óbvio que quem redigiu esta aldrabice tem que ser despedido. Tal como é que o responsável deste serviço público noticioso (RTPNotícias) que não só deixou passar esta atoarda como não fez por a apagar nas 40 horas subsequentes também tem que ser afastado. Não apenas dessas funções de chefia mas da empresa pública. Entenda-se bem: despedido. E nós, cidadãos, temos de ser informados pela administração desta empresa pública não só sobre quem são estes dois desonestos profissionais como do momento exacto da sua saída de funções remuneradas por uma empresa estatal.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">E isto não tem nada a ver com Trump. Como é evidente. Tem a ver com a desfaçatez destes profissionais. Aldrabões.</span></p>
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<p style="text-align: justify;"> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:estan:82408jpt2020-06-14T11:24:00Cabo Delgado2020-06-14T10:27:58Z2020-06-14T17:17:55Z<p class="sapomedia images" style="text-align: justify;"><img style="width: 960px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="mw-1280.jpg" src="https://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B17180f87/21835152_Zzyye.jpeg" alt="mw-1280.jpg" width="960" height="640" /><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Fotografia de Marco Longari/AFP Via GETTY IMAGES</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">O <a href="https://expresso.pt/internacional/2020-06-14-Mocambique.-Cabo-Delgado-o-paraiso-infernal?fbclid=IwAR18QAMdncResgntNjvKBa6S14LBBBK4U5rZj0VqhqM1nH6T3Ejmq02gKAw" rel="noopener">artigo de Lázaro Mabunda "Cabo Delgado, o paraíso infernal"</a>, hoje publicado no Expresso, é reservado a assinantes daquele jornal (trata-se de um "ponto da situação"). Mas é significativo: nos últimos meses, já após o início da era Covid-19, a imprensa portuguesa começou a reparar nesta guerra. Nuno Rogeiro tem abordado o tema na televisão e publicou agora um livro - entretanto entrou numa espúria polémica com a imprensa moçambicana, o que é estranho dada a magnitude do fenómeno que abordam - que circulou em pdf, recebido com grande apetência (u<span class="text_exposed_show">m amigo disse-me que recebera 4 num só dia). Antes disso apenas recordo escassas referências, um <a href="https://www.academia.edu/38543157/_Os_rebeldes_misteriosos_Vis%C3%A3o_Lisboa_No._357_6_de_Mar%C3%A7o_de_2019" rel="noopener">artigo de Morier-Genoud</a> na Visão no ano passado..</span></span></p>
<div class="text_exposed_show">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Também em Moçambique (em Maputo, principalmente) o silêncio vingou até há pouco. Resmunguei isso em finais de Março e início de Abril. Como se a incredulidade social convocasse o nojo, o evitamento. Alguns, escassos, textos de investigadores procuraram as causas mas pouco mais havia.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">A situação é complexa, as versões sobre o que se passa são várias. Mas há um ponto: a população é paupérrima mas tem telemóveis. Ou seja, as redes sociais ultrapassam a imprensa estrita como fonte de informação, ainda que esta chegue muitas vezes sem ser editada. O silêncio não é local. Ali há discursos, apelos.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Tenho alguns amigos no Cabo Delgado e outros logo abaixo, em Nampula. Algumas vezes falamos (o gratuito whatsapp) ou trocamos mensagens. Mas não são "fontes", são amigos a quem se abraça. Eu não tenho "fontes", não sou "observador" nem "investigador". Mas todos os dias no FB leio (e muitas vezes vejo) coisas tétricas, dramas horríveis. Não partilho, nem notícias das desgraças, nem fotografias dos cadáveres, nem filmes de populações. Não é o meu papel. Não é para mim.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Eu adoro o Cabo Delgado. Vivi lá. Há dias mais melancólicos em que gostaria de regressar. Se possível antes de todas as árvores terem sido arrasadas e vendidas para a China (sim, sei que para alguma intelectualidade nacional apoucar a bondade chinesa é coisa das campanhas dos pérfidos "ocidentais" mas é o que eu sou ...). Não ambiciono terra ou um ter lodge, ou mesmo uma consultorias quaisquer. Só para estar ali, entre Montepuez e Balama, na terra vermelha em dia de chuvadas. E talvez morrer por lá. Por isso ainda mais me dói tudo isto.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Não sei exactamente o que se passa. Não sei o que se poderá fazer. Mas talvez, imagino, que alguma ajuda internacional possa ser útil. Ajuda estatal. Estatal, friso.</span></p>
</div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:estan:81425jpt2020-06-14T11:18:00O Padre Vieira e a Coordenadora Martins2020-06-13T23:18:42Z2020-06-14T08:14:56Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 548px; padding: 10px;" title="pav.jpg" src="https://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B0d18a4b1/21835006_uhnhh.jpeg" alt="pav.jpg" width="860" height="370" /></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;"><a href="https://www.rtp.pt/noticias/covid-19/be-diz-que-pichagem-na-estatua-do-padre-antonio-vieira-visou-descredibilizar-movimento-anti-racista_a1236581" rel="noopener">(Catarina Martins) diz que pichagem na estátua do padre António Vieira visou descredibilizar movimento anti-racista</a>.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Podemos concordar ou discordar dos conteúdos intelectuais e políticos do movimento anti-racista, ou das suas expressões públicas. Mas isso não nos impedirá de concordarmos no desagrado com os políticos que mentem. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Ora estas afirmações da coordenadora Martins são uma óbvia mentira, e ela sabe-o. A alusão a conspirações e a agentes infiltrados, "provocatórios", foi retórica constante no movimento comunista internacional. E se há proclamação que demonstra a continuidade da filiação daquela coligação no ideário comunista é esta falsária atoarda. Apesar de Martins andar por aí a apresentar-se como de "programa social-democrata".</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">O escárnio gráfico (facilmente reparável) em peças de escasso valor patrimonial não é grave, apenas irritante. E os jovens que meio-militam neste meio-movimento dentro de 10 anos serão doutores, muitos dos quais trabalhando em organismos públicos e nisso ciosos do "seu" património, estatutário no funcionalismo, e o material-simbólico que esteja sob a tutela dos seus chefes. E, pois se agora já algo politizados, logo se inscreverão no PS do momento. Alguns, mais abonados, ainda andarão pelos movimentos que são BE até poderem ambicionar o posto de chefe de secção, e então passarão definitivamente à casa-mãe. Tudo isto sem ondas. Pois não há nada de novo sob este Sol, está escrito num texto que é património.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Mas o agora relevante é a aldrabice da coordenadora comunista, a demonstrar-lhe o âmago. De facto, as pirraças gráficas são um mimetismo do que vem sendo feito noutros países. Mas são também uma tradição portuguesa. E no caso deste movimento dito anti-racista, e que recentemente foi muito propagandeado pela coligação entre secessionistas do BE e plumitivos socratistas, é uma actividade consagrada, e até recomendada, como meio de afirmação. Não é, e Martins sabe-o, obra de "agentes provocadores".</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Exemplifico essa consagração deste meio de afirmação. Na imprensa nacional o jornal que mais tem acarinhado este movimento político é o "Público". Em 2 de Fevereiro publicou um longo texto de autoria de 4 académicos </span><a style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;" href="https://www.publico.pt/2020/02/02/sociedade/ensaio/padre-antonio-vieira-pais-cordiais-eterna-leveza-anacronismo-guardiaes-consenso-lusotropical-1902135" rel="noopener">"O Padre Vieira no país dos cordiais"</a><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">, no qual, entre outras matérias, é zurzida a nova (e tão pobre) estátua. O artigo é interessante e levanta pontos de forma competente. Acima de tudo, para meu gosto, refere que as críticas ao "anacronismo" destes juízes da História estão também elas pejadas de anacronismos. E nisso têm razão os autores. Ainda que não consigam chegar à conclusão óbvia: as causas exacerbadas conduzem ao estupor argumentativo. Mas porventura nunca poderão aí chegar, devido a limites próprios.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Nesse artigo foi, implicita e intrinsecamente, louvada a acção de "recontextualização" das estátuas (a de Vieira e outras), "intervencionadas" pois "pichadas" com "mensagem (,,,) firme". E foi refutada a acusação de "vandalismo" a tais práticas pois tratam-se de "dissidência cívica": "<a href="https://www.publico.pt/2020/02/02/sociedade/ensaio/padre-antonio-vieira-pais-cordiais-eterna-leveza-anacronismo-guardiaes-consenso-lusotropical-1902135" rel="noopener">Porém, trata-se daquilo a que Frédéric Gros chamou dissidência cívica (Désobéir, 2018). Aquilo que os pichadores fazem não é mais do que se reconhecerem a si mesmos como sujeitos políticos, no quadro da reinvenção de uma democracia que se quer crítica e interrogativa. A “merda” que os pichadores do Porto incordialmente demandam que seja retirada é uma estátua mas é também, e sobretudo, a materialidade dos consensos impostos no espaço público; o fim da hegemonia narrativa imposta pelos seus guardiães</a>."</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Não estou a dizer que os 4 autores do artigo são instigadores ou responsáveis, ou vândalos. O que digo é que estes urros gráficos são uma constante neste movimento (e noutros) e que são uma expressão consagrada e louvada pelos intelectuais integrantes, esses com estatuto académico e militância política suficientes para acederem ao "Público". E que, em assim sendo, é óbvio que as invectivas gráficas não são obras dos tais imaginários "agentes provocadores" que a coordenadora Martins vem brandir.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Uns rabiscos e uns palavrões numa estátuas a que poucos ligam não são relevantes - mostra-o o estado "grafitado" das cidades portuguesas. O relevante é termos dirigentes políticos que mentem com toda a desfaçatez. Isso é que é importante. E Martins está aqui a mentir com a boca toda, apesar da máscara que usa. E eu troco a patética estátua do Vieira, e mais algumas, por um dirigente, ou mesmo mais alguns, que não minta(m) com tamanha impudicícia. Este movimento, se não fosse apenas meio-movimento de jovens esparvoados e de académicos demagogos, poderia pensar nisso.</span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:estan:81064jpt2020-06-13T12:18:00As minhas coisas preferidas2020-06-13T11:22:03Z2020-06-13T11:22:40Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 512px; padding: 10px 10px;" title="coisas.jpg" src="https://c3.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Baa18779b/21834464_6Mcpd.jpeg" alt="coisas.jpg" width="512" height="288" /></p>
<p><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt; text-align: justify;">Sobre isto de rever "criticamente" as obras:</span><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt; text-align: justify;"> </span></p>
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<div class="_1mf _1mj" style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Há algum tempo, num jantar já lisboeta, uma querida amiga, daquelas "dos tempos", perguntou-me, cruel indiscreta: "Zezé, já foste feliz?", teria eu já cumprido a nossa utopia? Decerto que terei chocalhado as pedras do final famous, engolido em seco, mas respondi franco, que sim, claro, que o fui naquela era ali à Avenida do Zimbabwe quando todos os dias diante da tv, e devido ao La Feria, mestre de um fantástica produção teatral, ouvia esta canção, e tantas outras, mas mais esta pois a minha preferida de sempre (sim, também Coltrane ...), nisso ombreando-me com a afinal única razão de nisto continuar, e ela ali sempre esfuziante</span></div>
<div class="_1mf _1mj" style="text-align: center;"> </div>
<iframe src="https://www.youtube.com/embed/2G6dd7ikrXs" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></div>
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<div class="_1mf _1mj" style="text-align: center;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;"> (My favorite things, The Sound of Music)</span></div>
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<div class="_1mf _1mj"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Depois disso?, insistiu a então bruxa, malévola pois sabendo que pagaria a conta. Depois?, enfim, ficou o Amber Leaf e o Queen Margot para evitar a mitra, que mais haverá, disparei ? </span></div>
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<div class="_1mf _1mj"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;"> </span></div>
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<div class="_1mf _1mj"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Ou seja, deveremos nós dissecar o encanto a que acedemos? Com toda a certeza que não ...</span></div>
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</div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:estan:80294jpt2020-06-12T10:45:00E Tudo o Vento Levou: expurgar o cinema?2020-06-12T09:46:44Z2020-06-14T08:43:08Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 350px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="stagecoach.jpg" src="https://c9.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B23181b67/21832525_GMAzu.jpeg" alt="stagecoach.jpg" width="350" height="517" /></p>
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<div class="_1mf _1mj" style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">1939 foi um ano lendário no cinema americano: O Feiticeiro de Oz; Mr. Smith Goes to Washington (com o grande Jimmy Stewart a ser magnífico Jimmy Stewart); Wuthering Heights (com Merle Oberon, Laurence Olivier, David Niven); Ratos e Homens adaptando Steinbeck, autor que logo no a seguir daria azo ao grande "As Vinhas da Ira"; uma extraordinária Bette Davis em "Dark Victory", um mergulho na doença bem raro no cinema da época; o épico E Tudo o Vento Levou (que é, talvez, o que mais envelheceu de todos estes, um bocado xaropada, convenhamos). E ... Stagecoach, quando o western passou a ser western, John Ford assumiu que "my name is John Ford and I make westerns" e John Wayne nasceu.</span></div>
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<div class="_1mf _1mj"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;"> </span></div>
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<div class="_1mf _1mj"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Stagecoach é uma obra-prima. E nela surgem uma marionetas ululantes "vestidos à indio". Todos aqueles que agoram berram o racismo do "E tudo o vento levou" nem se lembram deste aspecto, deste e de tantos outros filmes utilizando estereótipos (positivos, neutrais, negativos), pois, de facto, a única coisa de que conseguem falar é da cena Brancos/Negros, como se assim dos únicos pólos do bem e do mal. Se querem discutir um filme (o da "construção da nação" americana) não têm razão, são meros panfletários, marionetas ululantes vestidos à intelectual. </span></div>
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<div class="_1mf _1mj"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;"> </span></div>
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<div class="_1mf _1mj"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Pois discutem-no como? Perdigotando as malvadas gotículas "racistas", "colonos", "brancos"? O que os mariolas da empresa HBO e os patetas dos concordantes querem é estabelecer um filtro protector, para que os espectadores não sejam "contagiados", como se a paixão de Rhett e Scarlet germine uma prole de KKK. É uma infantilização dos espectadores. E uma satisfação para alguns deles, estes radicais, que vivem para um espúrio revanchismo ou para uma onanística auto-punição. Porque neste contexto de gritaria uma "contextualização" não será mais do que isso - ou, pelo menos, os "filtristas" não pedirão menos que isso, do que a condenação do que vêm como "moral" do filme.</span></div>
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<div class="_1mf _1mj"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;"> </span></div>
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<div class="_1mf _1mj"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Nisto há muita gente que protesta com a anunciada "contextualização", como se fosse lesa-majestade. Mas estão enganados. Quando vamos a museus temos lojas. Há quem compre penduricalhos, canecas ou camisolas. Mas também há livros, contextualizando artistas e obras. E folhas de sala. E quando lemos livros, especialmente se obras não contemporâneas, muitas vezes há .... "prefácios", contextualizando obra e autor. Às vezes, e julgo mais adequado, até são "posfácios". E no mercado as edições são muitas vezes (des)valorizadas consoante a tradução e a qualidade do texto enquadrador, o tal pre/posfácio. Ou seja, um enquadramento dos filmes não é uma catástrofe lesa-cultura. É algo a que nós estamos habituados noutras expressões discursivas/artísticas. Como tal, adendas de visualização voluntária serão bem-vindas.</span></div>
</div>
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<div class="_1mf _1mj"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;"> </span></div>
</div>
<div class="" style="text-align: justify;">
<div class="_1mf _1mj"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Mas não se feitas da moralismos viciosos, de "filismos" que não sejam os da cinefilia. Por exemplo, não de quem venha gritar o racismo de Stagecoach e de John Ford. Mas de alguém que perceba que no filme a diligência é um microcosmos do universo Wasp. E que Ford abordou o "west" (os EUA) de várias maneiras. E que quando quis falar das oposições raciais o fez de maneira nada racista e bem problematizadora, como em The Searchers.</span></div>
</div>
<div class="" style="text-align: justify;">
<div class="_1mf _1mj"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;"> </span></div>
</div>
<div class="" style="text-align: justify;">
<div class="_1mf _1mj"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Não dá para ser cândido nisto pois o que agora os movimentos obscurantistas querem é moralizar (e censurar) as obras do passado. Exemplo máximo é a perseguição a "Tintin", de Hergé, como obra racista. Uma boçalidade abjecta. E acredito que haverá alguém que passe por aqui que logo começará a esbracejar com o "Tintin no Congo". O que bem mostra como estes discursos panfletários obscurecem - e tantos deles feitos por académicos que são pagos para o contrário.</span></div>
</div>
<div class="" style="text-align: justify;">
<div class="_1mf _1mj"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;"> </span></div>
</div>
<div class="">
<div class="_1mf _1mj" style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Então, o que fazer? Não comprar as edições com maus "prefácios". Não as ver. Não "clicar" nelas. Exactamente como fazemos com os livros - e às vezes enganamo-nos? Passamos à frente, divulgamos no "tripadvisor" que determinada edição é uma porcaria (por exemplo, um livrito da Taschen, 5 euros, sobre Michelangelo </span><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">passa páginas e páginas a afirmar a homossexualidade do pintor, não vale a pena lê-lo). E temos as redes sociais para trocar informações sobre isso - sem gritarias, sem guerras. E, acima de tudo, sem paciência para os demagogos. E para os cândidos.</span></div>
</div>
</div>
</div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:estan:79967jpt2020-06-11T08:55:00Julgar a História, apear monumentos2020-06-10T23:44:05Z2020-06-11T07:55:40Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 286px; padding: 10px;" title="baudelaire.jpg" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B52185268/21831093_BZdZn.jpeg" alt="baudelaire.jpg" width="250" height="476" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Muitos resmungam ou indignam-se com a campanha contra as estátuas e monumentos, devido à sua mácula colonial ou pré-colonial. Espantam-se também com a censura de uma empresa televisiva ao "E Tudo o Vento Levou". Estão enganados. Todas as gerações que foram actuantes fizeram uma avaliação do seu legado cultural e seleccionaram aquilo que deve ser preservado e retransmitido às novas gerações, construindo mundivisões consideradas adequadas. Chama-se a isso educação.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Entretanto, <span class="text_exposed_show">reli há dias este livrinho, afamado, do poeta francês Charles Baudelaire, um oitocentista ainda algo lembrado. O que ele diz das mulheres é totalmente inaceitável, propagandeando a sua inferioridade, naturalizando-as. Exemplo de discriminação negativa, pura e simplesmente.</span></span></p>
<div class="text_exposed_show">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Urge expurgá-lo, ao poeta, dessa educação. Cercear o acesso à sua obra. Reservá-la, porventura, apenas aos estudiosos dos processos opressivos.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">E há, decerto, mais exemplos. Deitemos "mãos às obras".</span></p>
</div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:estan:79722jpt2020-06-10T08:42:00Vitorino Nemésio por Palmela e cercanias2020-06-10T08:00:53Z2020-06-10T08:31:25Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 394px; padding: 10px 10px;" title="Postais_antigos_P000030_1_1280_720.jpg" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bb3179ac9/21830283_yZNTy.jpeg" alt="Postais_antigos_P000030_1_1280_720.jpg" width="394" height="600" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">"<span style="color: #0000ff;">Este passeio a Azeitão, Bacalhoa, Setúbal, Outão, Palmela e Arrábida varre da minha alma todos os miasmas possíveis. Ao arfar do automóvel vou reconquistando a minha equação com a terra portuguesa, com a sua expressão áspera e suave, independente dos homens que, não podendo arrancar de si próprios as mensagens sinceras que deviam, fazem com ar hamlética rabulazinhas triviais</span>. (...)</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;"><span style="color: #0000ff;">Verifico em Palmela, nos carrapitos do castelo, a minha ignorância do mais puro e lavado de toda a paisagem portuguesa. Abro a respiração a todos os ventos. O horizonte perde a função restritiva: é um índice de infinidades desdobradas em água, serra e céu. Mas a esta enorme roda visual prefiro a nesga de lombas cor de sangue que as quinas das muralhas inscrevem</span> (...). <span style="color: #0000ff;">Desdenho as edificações espúrias do castelo e reduzo Palmela aos adarves do seu princípio</span> (...)</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">... <span style="color: #0000ff;">Setúbal</span> (...)<span style="color: #0000ff;">, apesar de pintada no Verão, parece-me jogar admiravelmente certa com esta cidade híbrida de vila histórica e de população proletária - jogar sobretudo na sua cercadura de águas, planos e serranias. A estrada de Outão dá-lhe um deslumbramento de <em>riviera</em>; a poucas guinadas de automóvel a Arrábida atira-lhe com uma majestada apetecível e pedregosa: <em>Agora que de todo despedido / Nesta serra da Arrábida me vejo / De tudo quanto mal tinha entendido</em></span> (Frei Agostinho da Cruz) (...)</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;"><span style="color: #0000ff;">Volto a Lisboa à noitinha. As minhas companheiras de viagem acham-me mais humano do que quando parti. Andei sòzinho nas fragas e a Arrábida vem comigo</span>."</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">(13 de Janeiro de 1935)</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">(Vitorino Nemésio, "Folha de Viagem", Viagens ao Pé da Porta, Editorial Pórtico, 1967, pp. 13-14)</span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:estan:79252jpt2020-06-07T17:40:00Os mortos de Muidumbe, de Nelson Saúte2020-06-07T16:56:26Z2020-06-07T17:02:49Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 960px; padding: 10px 10px;" title="daesh.jpg" src="https://c10.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B41185fd4/21828124_BYnBO.jpeg" alt="daesh.jpg" width="960" height="462" /></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">(Guerrilheiros islâmicos em vídeo publicado após o ataque a Muidumbe, a 8 de Abril)</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">A 8 de Abril os terroristas islâmicos <a href="https://www.dw.com/pt-002/mo%C3%A7ambique-homens-armados-mataram-52-jovens-em-cabo-delgado/a-53201354" rel="noopener">assassinaram 52 jovens no distrito de Muidumbe</a>, em Cabo Delgado, por terem resistido ao recrutamento por esse movimento. Foi um dos massacres que têm vindo a ocorrer na província. O escritor Nelson Saúte acaba de divulgar este seu poema:</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;"><strong>Os mortos de Muidumbe</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Quem de nós não morre quando todos morremos em Muidumbe?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Quem sobrevive incólume diante dos impiedosos algozes</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">daqueles nossos infaustos concidadãos de Muidumbe?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">O sacrifício dos que foram assassinados em Muidumbe</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">não é bastante para sangrar os jornais além das efémeras notícias</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">que não abalam a nossa moçambicaníssima complacência?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Quem fica de joelhos pelos mortos de Muidumbe?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">A galhardia daqueles que foram metralhados</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">sem comiseração</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">em Muidumbe</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">não sufraga a honra das nossas ruas?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Por que nada exigimos?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Por que razão nenhum clamor fazemos?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Os nossos punhos não se compadecem</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">por todos os que morreram por nós em Muidumbe?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Os mortos de Muidumbe não concitam a nossa dor?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Os mortos de Muidumbe desmerecem a nossa compaixão?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Os mortos de Muidumbe não tributam o nosso sofrimento?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Somos misericordiosos com os outros mortos</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">e postergarmos os nossos mortos de Muidumbe.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">O sangue vertido em Muidumbe não é nosso sangue?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Onde estão as vigílias</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">as velas</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">as praças exaltadas?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">As missas</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">liturgias</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">eucaristias.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Nenhuma cidade se levanta perante os mortos de Muidumbe.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Porquê?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Os mortos de Muidumbe resistem sem rosto.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Os mortos de Muidumbe são apenas um número</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">para a estatística</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">para o cadastro</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">para o catálogo da nossa humilhação colectiva</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">para a recensão da desonra</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">para o arquivo e para o esquecimento.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Os mortos de Muidumbe não cantam.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Os mortos de Muidumbe não falam.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Os mortos de Muidumbe não reclamam.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Os mortos de Muidumbe não sonham.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Os mortos de Muidumbe não gabam a quimera dos seus epitáfios.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Nem esperam o requiem dos outros defuntos.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Os seus gritos não conclamam os deuses</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">porque os deuses estão ensimesmados com outros mortos.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Os mortos de Muidumbe foram enterrados</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">mas permanecem insepultos.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Nenhuma necrologia inscreve os seus nomes.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Os jornais não têm letras de sangue</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">para os que morreram em Muidumbe.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Não há obituários para os mortos de Muidumbe.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Os jornais são omissos quanto ao massacre de Muidumbe</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">o genocídio de Muidumbe</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">os fuzilamentos de Muidumbe</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">o extermínio de Muidumbe</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">a carnificina de Muidumbe.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Os mortos de Muidumbe perseveram no anonimato</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">como os decapitados de Mocímboa da Praia</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Quissanga </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Mueda</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Palma</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Metuge</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Macomia</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">a Norte onde se aniquila o futuro do nosso passado.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Os mortos de Muidumbe não desconsolam o mundo</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">o mundo está assoberbado com outros mortos</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">o mundo urge para os outros mortos</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">o mundo não tem empatia com os mortos de Muidumbe.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Há um pérfido alheamento pelos mortos de Muidumbe.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Os mortos de Muidumbe não fazem parangonas</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">não abrem telejornais.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Quem morremos com os mortos de Muidumbe?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Será que não morremos todos com os mortos de Muidumbe?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Ninguém de nós se condói pelos mortos de Muidumbe?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Que país é este que não se enternece com os mortos de Muidumbe?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Os nossos pêsames</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">a nossa consternação</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">a nossa comiseração</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">a nossa humanidade</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">não são dignos dos mortos de Muidumbe?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Que luto é este que escolhe não velar os mortos de Muidumbe?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Que mortos sufragamos nós para carpir as nossas lágrimas?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Que angústia é essa tão insolente quanto aos mortos de Muidumbe?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Que silêncio é este perante o silêncio dos que foram silenciados em Muidumbe?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Quem de nós não morre quando todos morremos em Muidumbe?</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;"><strong>Nelson Saúte</strong></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Junho de 2020</span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:estan:78710jpt2020-06-05T12:04:00No hospital d'aquém-Tejo2020-06-05T11:04:55Z2020-06-05T13:57:56Z<p style="text-align: center;"><img src="https://z-m-scontent.fopo1-1.fna.fbcdn.net/v/t1.0-9/101381239_10224260199071855_1015319187758776320_n.jpg?_nc_cat=105&_nc_sid=8024bb&_nc_eui2=AeGC6YyIqiM3123iv7PxE22Rjk_72Fj1cjeOT_vYWPVyN4JHiLyxsaFgRhgsENn2Tv4&_nc_ohc=Zpza4w-3CjsAX9cyxBV&_nc_ad=z-m&_nc_cid=1272&_nc_ht=z-m-scontent.fopo1-1.fna&oh=f3b7292c93ce22f426c6f97a15a9762f&oe=5EFFED0C" alt="Nenhuma descrição de foto disponível." width="331" height="330" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Uma indisposição, felizmente não gravosa, de familiar bem próximo conduziu-me ontem ao hospital distrital deste aquém-Tejo. Na triagem a categoria atribuída foi verde (bela cor, claro). Após 2 horas e tal de espera telefono a médica amiga, "fita verde? aí? Tens para oito horas...", e sosseguei, qual esse outro Flávio, o tio-avoengo Marco Aurélio. Enfim, foram mais de sete horas de espera. À porta,<span class="text_exposed_show"> em pé - ali há apenas um pequeno banco, para duas pessoas, alambique de covid-19. O cafézito, pepsi-cola a 1,8 euros? "Posso-me sentar? Sim, durante 20 minutos" diz-me a simpática "colaboradora" (como agora sói dizer-se), imune à decerto ilegalidade da afronta."Porque não foste ao hospital ...!?", o privado, claro, depois, já noite mesmo, e isso neste Junho de ocasos lentos, me barafustaram amigos. Sorrio, não elaboro introspecções, e nunca em público. E muito menos falo deste escândalo do funcionalismo público. Ululantes na verborreia dos "direitos adquiridos" e das nobres causas. Mas na hora doente alheados de nós ali, a obesidade pobre, velhos pouco-validos, os sotaques agudos e ondulantes, ciganos, apatetado eu e talvez algum outro, negros (pós)imigrados. Para quê falar disso se o meu familiar está bem, para quê resmungar?<br /><br />Simpáticos os "seguranças" como agora se chamam os contínuos, desprovidos da arrogância que os uniformes tanto convocam. "Posso entrar só para ir ver o meu ai-Jesus?", pergunto a um deles. "Sim, mas pouco tempo, sff" anui. E lá está a "carne da minha carne", sentada na cadeirinha de plástico fixada à parede, ombreando com a longa de fila de doentes, todos mais juntinhos do que os passageiros da TAP a olharem em frente, como manda a dra. Graça, a Freitas ("vão visitar os idosos", dizia ela quando os tontos espanhós fecharam os lares e o povo gosta da senhora, "tão competente", e a burguesia e o funcionalismo público ainda mais gosta pois "tão PS"). Repito, ombro a ombro, ali estão os doentes, da fita amarela até à menos urgente.<br /><br />Falar disto para quê, se o meu familiar está bem, para quê resmungar? No caminho para casa conta o "sangue do meu sangue", na estupefacção de quem tal nunca vira, "ao meu lado um doente velho dizia ao telefone "não via uma coisa destas desde os tempos da Guiné", e eu imagino-lhe a tatuagem "amor de mãe, 70-73", veterano agora transposto para hospital de campanha. "As velhinhas na maca a pedirem água e ninguém lhes dava" e eu a relativizar, coisas da necessária dureza do trabalho hospitalar. "As enfermeiras aos gritos umas com as outras e a não ligarem aos doentes", e eu aduzindo que talvez sejam "auxiliares", que há destrinça nos uniformes, etc. É a era do Covid-19, dirão. Mas talvez não seja. É este aquém-Tejo, célebre pela rudeza das gentes, cultura ríspida. Talvez, ainda que isto aqui seja de povoamento tão recente. Pois, de facto, apenas é.<br /><br />Portanto, uma indisposição, felizmente não gravosa. À qual se segue uma mudança nas vidas. Deslocações. E quarentenas. Não porque não possamos apanhar o tal covid-19 (tão anunciado no tal hospital). Mas porque não posso conviver com os meus circundantes, os tais "grupos de risco". Porque estivemos num hospital, público. Comandado pela simpática ministra. "O barato sai caro", diz o povo, condenado ao barato.<br /><br />Entretanto, nem eu posso ir à bola nem o tal familiar pode ir às festas, ralhou-lhe Sousa.</span></span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:estan:78516jpt2020-06-05T08:27:00Voto de pesar2020-06-05T06:28:35Z2020-06-05T14:07:10Z<div class="">
<div class="_1mf _1mj" style="text-align: center;">
<p class="sapomedia images"><img style="width: 480px; padding: 10px 10px;" title="20938929_ByMbG.jpeg" src="https://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B0218bb3b/21826220_IqtfN.jpeg" alt="20938929_ByMbG.jpeg" width="480" height="319" /></p>
</div>
<div class="_1mf _1mj" style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: georgia, palatino, serif;">André Ventura está contra o voto de pesar da AR dedicado ao assassinato no Minnesota. A argumentação dele é errónea, compara aquele crime com qualquer outro assassinato. Mas é errado porque se trata de um assassinato policial num país democrático e aliado.</span></div>
<div class="_1mf _1mj" style="text-align: justify;"> </div>
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<div class="" style="text-align: justify;">
<div class="_1mf _1mj"><span style="font-size: 12pt; font-family: georgia, palatino, serif;"><a href="https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/sopesar-os-pesares-9948586" rel="noopener">Eu ligo a um postal com dois anos</a>. A minha questão é a pertinência deste tipo de votos de pesar. A minha outra questão é a cedência a agendas externas, por legítimas matérias que abordem, e a colonização mental que isso significa. A minha última questão é a de que esta via tem uma retórica "moralista" mas é, de facto, estratégia de obtenção de recursos estatais, capitaneada por sectores corrompidos da pequena-burguesia.</span></div>
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<div class="" style="text-align: justify;">
<div class="_1mf _1mj"><span style="font-size: 12pt; font-family: georgia, palatino, serif;">Sobre votos de pesar parlamentares perguntei há dois anos qual a pertinência de se fazer um voto pesaroso pelo assassinato de uma vereadora de um município do Rio de Janeiro quando nada de similar se fizera aquando do recente assassinato do presidente do conselho municipal (câmara) de Nampula? Porque um, negro, teria sido morto por negros? (Ainda que a acusação inicial tenha incidido sobre asio-descendentes, um dos quais meu amigo). E a outra, "parda", deverá ter sido morta por brancos (ou assim se presumiu)? Ou porque o autarca moçambicano era assumidamente heterossexual e a brasileira era assumidamente homossexual? "Todas as vidas contam"? Mas umas mortes doem mais que outras para o Parlamento português, mesmo quando há homologias óbvias, políticos autarcas de países da CPLP mortos por "desconhecidos" e por razões políticas?</span></div>
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<div class="" style="text-align: justify;">
<div class="_1mf _1mj"><span style="font-size: 12pt; font-family: georgia, palatino, serif;">A AR entende ter espaço para votar o seu pesar pelo assassinato do americano George Floyd, às mãos de um gang policial, logo pressurosamente proposto pela coligação comunista. Pesar político, não se trata das nossas meras sensibilidades., do pesar pessoal diante do horror. Ora diante desta novidade googlei agora mesmo, mas não encontrei, fico em dúvida: será que esta AR tão pesarosa é, votou o seu pesar pela morte de Anastácio Matavele, moçambicano (negro, já agora), coordenador de ong "A Sala da Paz", envolvido na observação eleitoral, assassinado por um grupo de polícias moçambicanos (sim, negros) nas vésperas das últimas eleições nacionais? Drama que foi amplamente noticiado na imprensa, e lamentado nas redes sociais.</span></div>
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<div class="_1mf _1mj"><span style="font-size: 12pt; font-family: georgia, palatino, serif;">Não me parece que tenha votado, pois nem o sítio da AR nem o Google me confirmam isso. Julgo que não é preciso avançar muito mais. É o racismo americano tétrico. "Instituído"? Sim, mas o que também está instituída é a importação de uma visão das coisas, das hierarquizações dos problemas, das causas e soluções das questões. A colonização mental. Serve para intelectuais preguiçosos, e para claro, o pobre parlamento que temos poder parlamentar.</span></div>
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<div class="_1mf _1mj"><span style="font-size: 12pt; font-family: georgia, palatino, serif;">Mas serve também, e isso é a minha terceira questão, para suportar a propaganda de "bois de piranha", como se diz no Brasil, a cargo da camada mais corrompida da intelectualidade, mais acerada na demanda de recursos estatais - insistindo em causas e problemas sonantes, que obscureçam as verdadeiras agendas de políticas e económicas dos poderes fácticos (foi assim, lembrem-se, com a questão do casamento homossexual há apenas uma década). De facto, mais interessada nos ganhos com a agit-prop do que com aquilo, essencial, de que "todas as vidas valem". Mesmo as dos negros heterossexuais que não são mortos por brancos lá nos EUA.</span></div>
</div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:estan:77851jpt2020-06-05T08:23:00Os hostels e o covid-192020-06-05T06:25:03Z2020-06-05T06:25:03Z<p style="text-align: center;"><img src="https://bordalo.observador.pt/500x,q85/https://s3.observador.pt/wp-content/uploads/2020/04/19131228/28667882_770x433_acf_cropped.jpg" alt="Hostel evacuado em Lisboa. 169 estrangeiros já foram transferidos ..." /></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">(testes de despistagem do covid-19 em albergue lisboeta, Abril de 2020)</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: georgia, palatino, serif;">No final da era confinada li várias notícias sobre testes de despistagem de covid-19 em "hostels" lisboetas com estrangeiros. Sempre desconfio quando vejo usar termos em língua estrangeiras em vez do português, não por nacionalismo bacoco mas porque é sempre forma de enganar o cidadão, forma-mor de aldrabismo (exemplo extremo será a generalização de "spread", cujos efeitos ainda estamos a pagar, e muito ...).</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: georgia, palatino, serif;">Na altura não compreendi bem o fenómeno. Ainda que tenha aflorado a assunto num texto longo sobre esta era, </span><span style="font-size: 12pt; font-family: georgia, palatino, serif;">“<a href="https://www.academia.edu/43115402/_P_ra_melhor_est%C3%A1_bem_est%C3%A1_bem_p_ra_pior_j%C3%A1_basta_assim_o_capit%C3%A3o_MacWhirr_e_o_Covid-19" rel="noopener">P’ra melhor está bem, está bem, p’ra pior já basta assim”: o capitão MacWhirr e o Covid-19</a>", uma inutilidade pois não lido, mas que me serviu como catarse. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: georgia, palatino, serif;">Não os percebi pois julguei-os albergues (que é como se diz "hostels" quando não se é tonto) privad<span class="text_exposed_show">os e dedicados a uma clientela de imigrantes pobres (legais ou não é indiferente). Assim uma versão "moderna", pois desligada dos empregadores, dos "compoundes", como se diz em Moçambique, celebrizados pelo tétrico alojamento de mineiros migrantes ali na vizinha África do Sul. Ou versão urbana dos contentores que as herdades alentejanas agora usam para alojar os nepaleses que ali aportam como mão-de-obra barata e ... calada. E também os presumi merecedores de visita de alguma ASAE da hotelaria ...</span></span></p>
<div class="text_exposed_show">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: georgia, palatino, serif;">Mas afinal os tais "compoundes" não são exactamente (só) isso. Pois neles vivem, em condições pérfidas, imigrantes que requereram asilo e lá são colocados pelo Estado.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: georgia, palatino, serif;"><a href="https://www.publico.pt/2020/05/31/opiniao/opiniao/covid19-descortinar-praticas-sistema-asilo-portugues-1918690?fbclid=IwAR2UGJLReW3kNNjQEEgkPJ0Pz-wBED4xqpR2w9SXoaOvb8c2nBZJhsocdDM" rel="noopener">Este texto publicado no Público</a> é muito interessante. Até pela linguagem, de relatório ("nós vimos que ...."), rara na imprensa portuguesa onde vigora a retórica "opinativa" ("eu acho que ..."). E é letal para os serviços estatais e autárquicos. Não apontando os seus mandantes, governantes e autarcas (viés típico do tal nosso "eu acho que ..."). Mas desnudando os sectores intermédios e baixos do funcionalismo público (pois ... "nós vimos que").</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: georgia, palatino, serif;">O que se passa no feixe dos organismos estatais envolvidos nesta questão é uma total vergonha - até contrária às intenções superiores. E é um problema dos serviços. Como dizem as autoras: "as diferentes instituições responsáveis pelo “sistema de asilo” continuaram a adotar hábitos endémicos de inoperância e sobranceria".</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: georgia, palatino, serif;">Será conveniente lembrar que essa "cultura" do funcionalismo público é transversal. Não universal. Mas recorrente. E é uma inimiga, vil. Não só dos desprotegidos estrangeiros. Mas de todos nós, do nosso desenvolvimento.</span></p>
</div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:estan:78183jpt2020-06-05T07:25:00Sousa e o 10 de Junho2020-06-05T06:26:49Z2020-06-05T06:26:49Z<p><img style="display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" src="https://external.flis5-1.fna.fbcdn.net/safe_image.php?d=AQCIwTra6osDfdY9&w=540&h=282&url=https%3A%2F%2Fimg.iol.pt%2Fpreset%2F5e8220650cf257847be5afd4%2Fog%2Ftvi24&cfs=1&upscale=1&fallback=news_d_placeholder_publisher&_nc_eui2=AeH023w_zZV9GGN28L0A9aAf5JL5ETP9purkkvkRM_2m6r3oAoaEBjEpdueAZf2U9JA&_nc_hash=AQAazNOIN3h1gcOJ" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Declara o presidente Sousa que o "<a href="https://tvi24.iol.pt/policia/marcelo-rebelo-de-sousa/marcelo-10-de-junho-sera-como-achei-que-deveria-ser-o-25-de-abril-e-o-1-de-maio?fbclid=IwAR2dwtBnCeEtc0qDNiskKG3x-rDhKhmjFlrVquGlvAJ8Q_6NfolZvZTUKwY" rel="noopener">10 de Junho será como achei que deveria ser o 25 de Abril e o 1º de Maio</a>", e que a cerimónia do Dia de Portugal contará apenas com oito presenças. Isto ultrapassa tudo, em termos de aleivosia hipócrita. </span><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">O desplante deste nosso presidente é mesmo ofensivo. O presidente goza com o povo, connosco. E o povo julga que ele está a brincar, com simpatia. Mas está a desprezar ...</span></p>
<div class='ljparseerror'>[<b>Error:</b> Irreparable invalid markup ('<div [...] tn":"k"}">') in entry. Owner must fix manually. Raw contents below.]<br /><br /><div style="width: 95%; overflow: auto"><p><img style="display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" src="https://external.flis5-1.fna.fbcdn.net/safe_image.php?d=AQCIwTra6osDfdY9&w=540&h=282&url=https%3A%2F%2Fimg.iol.pt%2Fpreset%2F5e8220650cf257847be5afd4%2Fog%2Ftvi24&cfs=1&upscale=1&fallback=news_d_placeholder_publisher&_nc_eui2=AeH023w_zZV9GGN28L0A9aAf5JL5ETP9purkkvkRM_2m6r3oAoaEBjEpdueAZf2U9JA&_nc_hash=AQAazNOIN3h1gcOJ" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Declara o presidente Sousa que o "<a href="https://tvi24.iol.pt/policia/marcelo-rebelo-de-sousa/marcelo-10-de-junho-sera-como-achei-que-deveria-ser-o-25-de-abril-e-o-1-de-maio?fbclid=IwAR2dwtBnCeEtc0qDNiskKG3x-rDhKhmjFlrVquGlvAJ8Q_6NfolZvZTUKwY" rel="noopener">10 de Junho será como achei que deveria ser o 25 de Abril e o 1º de Maio</a>", e que a cerimónia do Dia de Portugal contará apenas com oito presenças. Isto ultrapassa tudo, em termos de aleivosia hipócrita. </span><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">O desplante deste nosso presidente é mesmo ofensivo. O presidente goza com o povo, connosco. E o povo julga que ele está a brincar, com simpatia. Mas está a desprezar ...</span></p>
<div id="js_9b6" class="_5pbx userContent _3576" style="text-align: justify;" data-testid="post_message" data-ft="{"tn":"K"}">
<div id="id_5ed7e4e5af2a08f76415514" class="text_exposed_root text_exposed">
<p><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Não sou jurista mas julgo saber que não se pode dizer do PR o que se pensa, há limites legais específicos, julgo por ter a função uma dimensão simbólica. Ficam assim reticências (...) para que cada um imagine o que penso destas declarações presidenciais.</span></p>
<p><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">O homem tem uma agenda política que não está totalmente cumprida, terá que ser continua<span class="text_exposed_show">da. Palmadas nos ombros, abraços e beijos às turbas, servem para a cumprir. Enquanto isso: preservar o Regime, impedir a "república de juízes". E nisso protelar os processos instaurados à elite financeira e ao antigo poder socialista, e trancar o viés investigador sobre o grão-crime político-económico. Nisso é o aliado natural do actual governo.</span></span></p>
<div class="text_exposed_show">
<p><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Novas investigações não existem, isso está cumprido. Mas o resto é comprido pois ainda há gente a preservar. Entretanto vai gozando connosco. </span><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">E as pessoas gostam ...</span></p>
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<p><img style="display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" src="https://external.flis5-1.fna.fbcdn.net/safe_image.php?d=AQDsKoZJ65cKPDMh&w=540&h=282&url=https%3A%2F%2Fstatic01.nyt.com%2Fimages%2F2020%2F05%2F27%2Fautossell%2Fflyod-site-1-white-box%2Fflyod-site-1-white-box-facebookJumbo.jpg&cfs=1&upscale=1&fallback=news_d_placeholder_publisher&_nc_eui2=AeGOpYEeD462CyZXpgG71fQOBoO5bJDEUhwGg7lskMRSHIxhelC6I2vUdlcYOIgw_x0&_nc_hash=AQAaWXv-LmpwC5Xq" width="617" height="321" /></p>
<p id="link-31006492" class="css-rsa88z e1h9rw200" style="text-align: center;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;"><a href="https://www.nytimes.com/2020/05/31/us/george-floyd-investigation.html?fbclid=IwAR1ZAhbrKYJmPPtItdJ4PUVLYWRIWka-YTXlUuPUBGSWUm1YTIi_6ERsA48" rel="noopener">8 Minutes and 46 Seconds: How George Floyd Was Killed in Police Custody</a></span></p>
<p class="css-rsa88z e1h9rw200" style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Como <a href="https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/a-inutilidade-do-protesto-pacifico-11586880" rel="noopener">João Campos</a> e <a href="https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/terrorismo-11586770" rel="noopener">Maria Dulce Fernandes</a> abordaram o caso do cidadão americano assassinado pela polícia reproduzo aqui um postal sobre o assunto que coloquei no meu mural de FB, num registo mais solto e coloquial do que o blogal, até porque lhe integro nacos do que fui colocando em comentários (dada a porrada que fui levando). Mas junto-lhe a grande canção "American Skin" de Bruce Springsteen, que se não diz tudo tudo sente sobre este acontecimento americano. E que aqui fica também para que alguns irredutíveis não resmunguem que eu estou a apoucar o inapoucável:</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: georgia, palatino, serif;">Leio no FB emotivas partilhas do <em>fait-divers</em> de que <a href="https://www.hiper.fm/video-jornalista-da-tvi-chora-em-directo-a-apresentar-noticia-sobre-george-floyd/" rel="noopener">uma jornalista da TVI se comoveu</a> ao apresentar a notícia do assassinato de George Floyd, morto por um polícia após 8 minutos a sufocar, tendo sido incapaz de a concluir. A notícia vem com fotografia e percebo-lhe o fenotipo, presumo-a mestiça ("mulata" como se diz em Moçambique, sem preocupações etimológicas) ou será negra, não posso precisar nem essa destrinça me é relevante. Vejo também aqui vários amigos reais, e imensas ligações-FB, até académicos, mesmo antropólogos, até antropólogos com trabalho em Moçambique, a partilharem insurgências próprias e lamentos contra este horror acontecido em Minneapolis, no estado do Minnesota, EUA.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: georgia, palatino, serif;">Eu tenho duas questões: 1) será que a jornalista da TVI se comoveu até à inacção quando apresentou a notícia do assassinato de um eslavo (lembrai-vos do nome dele? Ihor Homeniuk) cometido por um grupo de agentes do SEF no aeroporto da Portela, na cidade de Lisboa, distrito de Lisboa, Portugal? E, para pormenores aduzo que o tal eslavo - e, já agora, sabeis da ligação etimológica entre "eslavo" e "escravo", e do que isso deixa deduzir sobre as categorias antropológicas negativamente discriminatórias? principalmente diante de um candidato a imigrante ...-, Ihor Homeniuk, não foi asfixiado durante horrorosos oito minutos mas seviciado durante horrorosas não sei quantas horas. Será que a dita jornalista se comoveu tanto que interrompeu a locução do acontecido ali à Encarnação, antes de Sacavém? A menos de 5 euros de taxi da minha casa? E será que estes cândidos, mesmo académicos, até antropólogos com trabalho em Moçambique, se ornamentaram com insurgências, lamentos e perfis eslavófilos? Será que alguém se lembra que Ialta, o apogeu do "compromisso histórico" que obrigou a rasurar tanta da historia de XX, foi há 77 anos? Mas que o 20º congresso do PCUS foi há 64 anos e o fim da URSS há 29. E que com isso não é necessário manter o silêncio, a "dessignificação" da História. Lembrando, por exemplo, que a URSS, avatar da Rússia, e a nossa actual grande aliada Alemanha, mataram mais ucranianos, a deles alteridade, do que todos os mortos, directos e indirectos provocados pelos colonialismos europeus em África durante XX? E nem falo do passado, tão complexo naquela região, como em quase todas as outras. E aduzo, entre não-lágrimas alheias, que nenhum jogador da bola se ajoelhou em homenagem a Homeniuk, nenhum intelectual português usou ícones a propósito de Homeniuk, assassinado, repito, ali à Rotunda do Aeroporto, a 10 minutos do mercado de Alvalade, onde há um bom restaurante de peixe. E mais junto, isto da minha certeza de que um qualquer sueco, alemão ou britânico, também presumivelmente louro, não seria morto ali nos escritórios a cinco minutos da Praça Franciso Sá Carneiro, a sempre Areeiro. Se Homeniuk fosse um sírio, seria uma gritaria a propósito da morte de um "refugiado de guerra". Mas como era ucraniano, provavelmente louro, pouca foi a ira. Se fosse um magrebino, tentando passar a imigrante "indocumentado", seria uma desgraça, mas como era ucraniano, provavelmente louro, nenhuma corrente indignista brotou. Se viesse daquela "África Negra" de antanho seria uma onda de repúdio, mas vindo da eslavónia pouco conta entre os bem-pensantes nacionais. Apesar, não sei se já disse, de ter sido morto a meia dúzia de estações de metro do El Corte Ingles da pequena-burguesia lisboeta.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: georgia, palatino, serif;">2) Há um mês dois polícias <a href="https://www.cmjornal.pt/mundo/detalhe/homem-morre-apos-ser-espancado-pela-policia-na-cidade-mocambicana-da-beira" rel="noopener">espancaram até à morte um homem na cidade da Beira,</a> capital de Sofala, Moçambique, cidade celebrizada pela calamidade de 2019. "Os dois polícias interromperam um jogo de futebol de adolescentes em cumprimento das recomendações do estado de emergência devido à covid-19, e depois começaram a jogar, o que levou Abdul Razak, que se encontrava no local, a ameaçar filmá-los.". Não vi quaisquer imagens, só posso presumir os fenotipos dos dois polícias e do cidadão Abdul Razak (e presumo-o cidadão moçambicano pois se não o fosse muito provavelmente não teria criticado a polícia e teria sido identificado pela imprensa como estrangeiro). Mas a notícia informa que ele morreu não após oito minutos de horrorosa asfixia mas após 3 horas de horrorosas sevícias na esquadra da Munhava.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt; font-family: georgia, palatino, serif;">A minha questão é a mesma. Será que a jornalista da tvi se emocionou até à inacção ao ler a notícia da morte de Abdul Razak? E os indignados do FB, mesmo académicos até antropólogos com trabalho em Moçambique, se ornamentaram com insurgências, lamentos e perfis moçambicanófilos? (Sim, eu sei, a notícia nem correu no rincão ...).</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif;"><span style="font-size: 16px;">Não se trata de discutir a dimensão de um crime, ou a realidade de um qualquer país. Trata-se da pertinência de importar essa realidade, e os seus critérios classificatórios, para entender o resto do mundo. Para direccionar a atenção sobre o resto do mundo. Para balizar e animar os sentimentos, tão bem intencionados, da como a pobre jornalista da tvi. E dos não tão bem intencionados funcionários públicos ou privados pagos para pensarem a realidade. Utilizando este falsário molde sentimentalão para perseguir objectivos próprios em casa própria.</span></span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:estan:79393jpt2020-06-05T06:53:00Sousa e os maçónicos2020-06-08T05:55:12Z2020-06-08T06:00:58Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 396px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="maçcon.jpg" src="https://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B121803fd/21828536_QZdP1.jpeg" alt="maçcon.jpg" width="626" height="396" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;"><a href="https://observador.pt/2020/06/02/marcelo-recebeu-maconaria-em-encontro-discreto-para-falar-da-pandemia-e-fazer-uma-despedida/" rel="noopener">Sousa recebeu alguns mandantes maçónicos</a>. Sem qualquer alarde, entraram e saíram as visitas pela discreta "porta do maçon", ao invés do que todos os outros visitantes fazem. A esquerda gosta do PR por razões óbvias. A direita gosta porque ele "é eles", ainda que resmunguem. O povo gosta porque ele beija e abraça "esses corpinhos". Por isso este comportamento inadmissível para os maçónicos passa se<span class="text_exposed_show">m grande crítica.<br /><br />Eu não sou miguelista (até sou republicano) e da maçonaria idealtípica a única coisa que me ocorre é o que Tolstoi colocou na mente de Pierre Bezukhov.<br /><br />Quanto à real tenho alguns pequenos e pitorescos episódios, pouco relevantes. Das memórias sobre o assunto que mais acarinho são as de quando regressei a Portugal. Por entre os trambolhões da altura frequentei algumas cantinas universitárias, partilhando cafés com velhos colegas, alguns até amigos. Nesses meados de 10s falavam bastante da influência maçónica na gestão dos recursos científico-académicos do Estado (rumores que eu ouvia desde os anos 1980s, já agora), exercida de formas não propriamente dignas do ideal de uma "sociedade aberta".<br /><br />Mas o interessante é que vários desses meus interlocutores eram, e são, cidadãos empenhados e profissionais activos. Opinam nas redes sociais, assinam documentos, manifestam-se publicamente, criticam governantes, exercem até postos de administração pública, académicos ou em funções externas. Mas quando falavam, nas tais cantinas ou cafetarias universitárias, da questão maçónica o que eu notava era o ápice em que corriam os olhos pelas mesas circundantes e o ligeiro, quase imperceptível, baixar de tom de voz. E como eu vinha de outros contextos, outras mesas, e outras colunas erguidas, algumas até tonitruantes, notava isso. Com carinho. Pio.<br /><br />Mas depois dizem que tenho mau feitio.</span></span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:estan:78977jpt2020-06-03T12:54:00Ventura e o Twitter2020-06-05T13:57:29Z2020-06-05T13:57:29Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 405px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="Twitter-Logo-2010–2012.png" src="https://c8.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B8e17036a/21826660_hzUqz.png" alt="Twitter-Logo-2010–2012.png" width="960" height="232" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">O candidato presidencial Prof. Ventura finalmente explicitou ao que vem, assumiu o que tantos lhe atiram. "Sim, sou um faxo do caraças", comentou no twitter. É também um mariola, que julga ter uma pilinha do tamanho da de Xi Jinping, sendo assim capaz de censurar as redes sociais, prometendo-nos que quando for presidente "o Twitter deixará de ser a bandalheira que é, pelo menos em Portugal.". Presumo, e aqui apenas especulo, que também intervirá no Facebook, Instagram, Whatsapp. E, claro, nos múltiplos sistemas dos nossos vetustos blogs.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Ventura é Ventura, e por mais que branda o seu objecto peniano não o engrandecerá. Mas enfatuar-se-á por via do apoio que recebe. Da ralé. E de meia-dúzia de doutores que para aqui andam. Liberais em jejum, venturescos no horário da flatulência.</span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:estan:77468jpt2020-06-02T23:08:00No hospital2020-06-02T22:11:22Z2020-06-02T22:11:22Z<p><img style="display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" src="https://scontent.flis5-1.fna.fbcdn.net/v/t1.0-9/s960x960/101472746_10224229395781792_2094952607377260544_o.jpg?_nc_cat=103&_nc_sid=110474&_nc_eui2=AeG4B5uFnY3SIX3gISSqlqOODyYwXGKs02QPJjBcYqzTZPpe6Z-SIANGvLxrTxZ11PY&_nc_ohc=oEGl9ezqBlYAX-N71OK&_nc_ht=scontent.flis5-1.fna&_nc_tp=7&oh=af3bb7960b6bf1cffb96952831718afc&oe=5EFAC0C9" alt="A imagem pode conter: planta, flor e ar livre" width="373" height="623" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Daqui a um mês farei 56 anos! Sou já velho e mais o pareço. Vim à capital acompanhar amigo a uma consulta hospitalar, coisa do ombrear naqueles momentos de "ai o caraças, vamos lá ver o que é isto...". Mas ... os acompanhantes não podem entrar no edificio, ainda ordens da DGS, dizem-me (depois, alguém me dirá que é o critério do hospital a funcionar. Hospital privado, entenda-se ...). Estou por isso, apesar tais meus gastos e visiveis 55 anos, há duas horas sentado nesta esquina. O Sol não está inc<span class="text_exposed_show">lemente e não chove, é a minha sorte.<br /><br />Sorte também têm os turistas que voam para Faro e Porto, como leio. E os nossos que podem seguir nas TAPs todos juntinhos, porque olham para a frente, Freitas dixit. Sorte têm também os que vão ao Coliseu com o PM e a ministra da cultura ver os cómicos que nunca ferem os poderes. Todos mais ou menos juntos. E "mascarados", como eu estou.<br /><br />Azar têm os putos a quem o Presidente Sousa - esse mesmo, aquele que bem depois da OMS ter apelado à suspensão de congregações ainda recebia bandos de criancinhas vindas de zonas infectadas e seguia para festividades municipais -, a quem Sousa, dizia eu, ralha porque planeiam festas. Vida. E azar tenho eu, com duas salas de espera vazias a duas braçadas de mim. Neste Estado de incoerentes. Raios partam estes tipos que já me doem as costas ...</span></span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:estan:77306jpt2020-06-01T10:33:00A Torres Vedras de Nuno Rebelo2020-06-01T06:34:42Z2020-06-01T06:34:42Z<p style="text-align: center;"><iframe src="https://www.facebook.com/plugins/video.php?href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Fteatrotvedras%2Fvideos%2F671459420361237%2F&show_text=0&width=560" width="560" height="315" scrolling="no" frameborder="0" style="border: none; overflow: hidden;" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Esta atividade integra o programa Emergência Cultural Torres Vedras 2020, organizado pelo Teatro-Cine de Torres Vedras, nisso cruzando esta era Covid-19. </span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">É um trabalho do <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Nuno_Rebelo" rel="noopener">Nuno Rebelo</a> (Texto, video, música, sonoplastia e grafismo) - que alguns conhecerão por via do grupo musical Mler Ife Dada - em colaboração com o seu filho Igor Brncic Rebelo (voz e desenhos). Diz o Nuno: <span class="text_exposed_show" style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">"Agora mesmo é aqui que estou é um vídeo autobiográfico da minha vida em Torres, onde nasci em 1960 e onde vivi até 1975. Faço-o a partir dos meus atuais 59 anos e do sítio em que me encontro, confinado como todos por causa do vírus, no meu caso em Barcelona."</span></span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">É uma pérola. </span><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Rara. Linda. Que me encantou. Vede, que decerto gostareis.</span></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:estan:76843jpt2020-05-25T20:36:00Uma imperial, dois meses e meio depois2020-05-25T19:38:04Z2020-05-25T19:38:04Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 525px; padding: 10px 10px;" title="cerveja.jpg" src="https://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bf318a46e/21817769_7ylNV.jpeg" alt="cerveja.jpg" width="525" height="700" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Dia soalheiro, parei no rossio de uma vila e entrei numa pastelaria fina. Dois meses e meio haviam passado desde a última vez. Levantei a máscara, bebi uma imperial. Estava gelada e com o gás necessário. Animou-me.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">(Leio, neste fim de tarde, que um qualquer taberneiro foi detido pela "guarda" por não cumprir as regras de distanciamento das mesas na sua tasca. Entretanto a dra. Freitas, directora da saúde - a do "visitem os idosos", nunca esquecer - diz que podemos viajar junt<span class="text_exposed_show">inhos nos aviões porque vamos de máscara e olhamos para a frente.</span></span></p>
<div class="text_exposed_show">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">E as pessoas gostam desta gente.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Fim de tarde. Duas pedras de gelo em copo cheio de Glenlivet. Pois há que criar ânimo para aguentar esta gente. Entenda-se, os que gostam desta gente)</span></p>
</div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:estan:76600jpt2020-05-25T20:35:00Dia da Argentina2020-05-25T19:36:33Z2020-05-25T19:36:33Z<p style="text-align: center;"><iframe src="https://www.youtube.com/embed/IaP0P8YDIsQ" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p class="title style-scope ytd-video-primary-info-renderer" style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt;">Verano Porteno -9- ASTOR PIAZZOLLA y su Quinteto Tango Nuevo -live in Utrecht (1984)</span></p>
<p class="title style-scope ytd-video-primary-info-renderer" style="text-align: justify;"><span style="font-size: 12pt;">Hoje, 25 de Maio, é o dia da Argentina. E o de África (aquela que não é um país). E é também o aniversário da minha filha, que chega agora mesmo à maioridade. Que a banda sonora da vida lhe seja bela.</span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:estan:76468jpt2020-05-20T10:40:00Covid-19 português: “P’ra melhor está bem, está bem, p’ra pior já basta assim”2020-05-20T10:07:30Z2020-05-20T10:48:35Z<p class="sapomedia images"><img style="width: 549px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="velho restelo.jpg" src="https://c4.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B1c181ac2/21813116_uug1Q.jpeg" alt="velho restelo.jpg" width="960" height="254" /></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size: 12pt; font-family: georgia, palatino, serif;">(Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo, Sete Rios, Lisboa, Abril de 2020; inscrição recente no prédio arruinado que foi sede da escola da PIDE-DGS, incidência quase certamente inintencional dado que essa memória não está sinalizada no local.)</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Aquilo do estar confinado foi uma era insone. Aqui em Nenhures deu-me para escrever sobre o que se passava alhures. Por isso escrevi um texto sobre o Covid-19 em Portugal, a minha versão. Uma desnecessidade de 42 páginas. Agora como parece que tudo já é passado, nos disseram para regressarmos à vidinha, botei o que escrevi, para o caso de alguém ter paciência para o ler. Aqui fica a ligação para o texto: </span></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="https://www.academia.edu/43115402/_P_ra_melhor_est%C3%A1_bem_est%C3%A1_bem_p_ra_pior_j%C3%A1_basta_assim_o_capit%C3%A3o_MacWhirr_e_o_Covid-19" rel="noopener"><span style="font-size: 12pt; font-family: georgia, palatino, serif;">“P’ra melhor está bem, está bem, p’ra pior já basta assim”: o capitão MacWhirr e o Covid-19"</span></a></p>
<p style="text-align: center;"> </p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:estan:76119jpt2020-05-19T01:44:00O fim do Covid-192020-05-19T00:45:40Z2020-05-19T00:45:40Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 500px; padding: 10px;" title="20200519_010448[1].jpg" src="https://c9.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bcc187c2c/21812121_9SIwo.jpeg" alt="20200519_010448[1].jpg" width="540" height="660" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Tenho marcação para o barbeiro (sublinho, barbeiro, não cabeleireiro) para depois de amanhã, obtida por intermédio de amigo na passada quinta-feira. Entrarei então no pós-covídio, nisso de gente estranha a mexer-me. Não que me agrade, eu não sou um "liberal epidemiológico" - ainda se lembram da expressão?, tão antiga não é? do milénio passado parece, mas tem só dois meses. Que dirão agora esses patetas encartados, doutores, Srs. professores, colunistas empertigados, qu'afinal<span class="text_exposed_show"> os tipos da "imunidade de rebanho" não foram os brexiteers ou aparentados, mas o brejnev bielorusso, o olaf palme d'agora e o camarada Ortega, "alterglobalistas de todo o mundo, uni-vos"? Os mandarins, os avençados, dois meses depois? Nem piam, botaram as asneiras, doutorais & militantes, empertigados e analíticos, e seguem agora como quem não quer a coisa, a menear o traseiro ... ("ai Zé, lá estás tu, a ser desagradável, deixa lá os pobrezinhos", diria a Senhora minha Mãe se estivesse aqui em Nenhures, e juntaria "que mau feitio, pareces o teu pai").</span></span></p>
<div class="text_exposed_show">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Enfim, mas o que me traz aqui é outra coisa. O Estado diz que já posso ir ao baeta, e vi na tv ministros e outros (o dr. Rodrigues, vencido que foi o fascismo, a investida dos pides de Alcoentre e tudo, também apareceu, sentado à mesa da tasca, com companhia importante) em restaurantes e cafés. E tenho duas dúvidas, antes de sair à aventura, a este baeta e à tasca. Espero que aqui me possam elucidar:</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">1) Estando um tipo de máscara no barbeiro não se lhe armazenam os cabelos cortados entre a boca e o nariz? Não provoca sessão espirral, pânico covidiano alheio, "Aqui d'el-DGS", "Ó do INEM"? Que fazer para obstar a essa situação?</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">2) Como é que um gajo bebe a bica (ou a imperial) com a máscara posta? Dão uma palhinha, dessas que a ecologia contesta?</span></p>
</div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:estan:75956jpt2020-05-12T23:52:00Dois meses confinados: rescaldo2020-05-12T22:55:00Z2020-05-12T22:55:00Z<p style="text-align: center;"><iframe src="https://www.youtube.com/embed/yv4kXvlhTio" width="560" height="315" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">(Lou Reed Live, "Vicious")</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Daqui a pouco, a 13.5, cumprirei dois meses confinado aquém-Tejo, em magnífica companhia anfitriã. Quero partilhar alguns momentos cruciais deste excêntrico período:</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">1. Tenho 55 anos e está a tocar, bem alto, o cd "Lou Reed Live".</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">2. Estreei-me no focinho do porco e nas caras de bacalhau. A minha ética e o meu palato aprovaram.</span></p>
<div class="text_exposed_show">
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">3. Passei imenso tempo com a minha filha. Julguei que ser pai é a melhor coisa do mundo. Mas agora mesmo, a propósito de um desgraçado filicídio, aprendi na facebookpedia, com doutos lentes, que a família é um mero e vil mito afectivo que, sob tutela do Estado capitalista, reproduz as (exploratórias) diferenças sociais. Voltei a 1983, àquele inicial ISCTE. E duvido se não há gente confinada desde então ...</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">4. Perdi o meu nome: (ex?)amigos, da geração dos assistentes dos reedfeet dos 80s, desnomearam-me quando me irritei com a ignomínia de me dizerem culpado pela disseminação do Covid-19 em Moçambique. E que pagasse por isso. Falando sem rebuço? Brancos a comprarem o espaço que ninguém lhes vende. Eu estou numa quinta, cuspo para o chão ... (é para ti, Isabel, que eu não desnomeio as pessoas).</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">5. O vil dr Vitor Gaspar passou 850 milhões de euros ao banco do amigo do prof. Cavaco Silva e o dr. Passos Coelho fingiu que nada sabia disso. Nós, na esquerda, manifestámo-nos contra este neoliberalismo.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">6. Os liberais (que significa "fascistas" no linguajar actual dos académicos da esquerda) suecos, bielorussos, nicaraguenses e brasileiros, não confinaram a população.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">7. A economia portuguesa desde os 1960s que não estava tão bem, segundo um mandarim (és tu, João, e eu estou numa quinta, escarro para o chão).</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">8. O Queen Margot não aumentou de preço e a cerveja do Lidl é bebível se bem gelada.</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">9. A "Vicious" ainda mexe comigo ...</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">10. Um dia destes desconfinar-me-ei. A ver se chegado além-Tejo não me deparo logo com um mandarim.</span></p>
</div>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:estan:75263jpt2020-05-11T10:24:00O amor não é um labor2020-05-09T09:25:08Z2020-05-12T18:09:22Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 367px; padding: 10px;" title="mordaz.png" src="https://c3.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Ba418eb04/21801749_Ol4SP.png" alt="mordaz.png" width="735" height="360" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Hoje publica-se o nº 4 da revista "<a href="https://mordaz.pt/" rel="noopener">Mordaz</a>", dedicado ao tema "Trabalho". Aqui partilho o meu texto que lá vem incluído:</span></p>
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<p style="text-align: center;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">O Amor não é um Labor</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">São Martinho do Porto, verão frio como sempre, é sábado, eu no quarto, já não no tempo de Verne ou Salgari pois agora de “Vampiro”s, ouço o transístor vermelho minha companhia e, na tarde desportiva, Orlando Dias Agudo promete grande notícia para dali a uma hora, e logo caio no alvoroço, será o rumor verdade?..., e depois vem o júbilo!, sim, o Senhor João Rocha resgatava Rui Jordão, salvaguardando-o em Alvalade, e eu adoro-o, ao Rui Manuel Trindade Jordão, paixão ganha, traição minha, no 3-5 d’antes, no jogo em que Jázalde, Hector Casimiro Yazalde, dito Chirola, casado com Carmizé, marcou cabeceando junto à relva, mas ali Jordão, então feiticeiro do Benfica, enfeitiçara(-me), ainda que em magnífico ano de campeões, esses que sei de cor, Damas, Manaca, Alhinho, Bastos, Carlos Pereira, Vagner, Nelson, Baltazar, Marinho, o tal imenso Jázalde, Dinis, os quais bateram o Porto no 16 de Março, jogo transmitido em diferido ao fim da tarde, coisa tão rara, devido a não sei o que se passou nas Caldas, mas que não pude ver, maldição, pois a minha mana parira e obrigaram-me a visitá-la, como não vi ali o tal seguinte 3-5, esse de quando o estádio todo, sem clubismos, se levantou a saudar Marcelo, o “tio” deste, mas, logo depois, também ao Chirola e ao Jordão, e não os vi porque o meu pai nunca foi de bola, nem lá ia, nem os meus irmãos, queques da vela e do “rugby”, e sozinho me ganhei sportinguista na 1ª classe, ano de opções em ecrã preto-e-branco, no Barça 4-Valência 3 e assim até ao Futre, no Arsenal 3 (2 golos do Charlie George, cabelo à Beatles)-Leeds 2, lá nas taças deles e, na nossa, num 4-1 ao Benfica, com o King, como o conheci décadas depois, a marcar, e nós (sim, naquele exacto durante fiquei “nós”) com Damas na baliza. Vítor Damas, eu quero ser assim homem como ele, e ainda disso não desisti, no campo mas mais até cá fora, como se barbeia, com Palmolive, e aquela voz, cava, e com ele aprenderei, e não na tropa, a fazer o nó da gravata, naquele algo descaída,</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">e por tudo isso sigo Agostinho na França, meu pai dando-me dinheiro para comprar “A Bola” para lhe ler as aventuras, ele gigante batendo-se com Ocaña, Merckx, Thevenet, até trepando mais que Van Impe, Tourmalets acima, “Tinô!”, “Tinô!”, por lá o cantavam, ao nosso herói, poderia lá eu então perceber o quanto o era de facto, até, bem depois, se morrer numa coisa menor, e nós a esperá-lo, em esquife, na volta ao José de Alvalade, devastado como nunca vi, e seguindo para o túmulo em estrada recoberta pelo nosso povo, num silêncio pesado como nunca ouvi, ledes a minha ainda dor disto?,</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">por isso segunda-feira me baldei às aulas, subi ao aeroporto, junto ao Luís, azarado pois corcunda, nem corria nem nunca correria, merda de vida estará a ter se ainda a tem, a acolher os campeões Aniceto Simões, o barbudo, Carlos Cabral, Mamede e Lopes, o gigante, por quem Mariano Haro, o às espanhol, esperara quando ele caíra na lama, caval(h)eiro como já não havia, ao invés do bárbaro Lá-ce Viren, o maldito, o dopado que tanta dor causou até ao nosso Lopes daquela maratona olímpica, majestoso, correndo pujante, erecto, nada como os desengonçados que vieram a mandar, “vai Lopes!”, “vai, campeão!”, na angústia até às lágrimas mesmo, mas também venerando Mamede, intuindo-o Príamo d’agora, semi-divino nas suas dúvidas e fraquezas, assim vero herói, pois falho como todos, como eu, que nem sequer cheguei ao topo …,</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">esse topo de Livramento, o mago, eu miúdo no pavilhão, esfuziante com Ramalhete, Rendeiro, Sobrinho, Xana e … Livramento, e o triunfo contra os inimigos espanhóis, então únicos, e depois obrigado a crescer, e nesse fervor descer às casas de bilhar, tão saudosas, SG Filtro e bejecas adornando-me da linhagem do Theriaga, que é nosso, e nessa névoa amando Big Mal, o do maior exemplo, pois champanhe, mulheres, charutos, jogo e … vitórias, <em>rock n’roll</em> para os nossos ouvidos, e nisto a vida escorreu, lesta, eu desapercebido disso, e o milénio acabou, fez-me largo trintão e só lembro na tv lá em Maputo de um autocarro estrada afora noite adentro, na via do Salgueiros a Alvalade, e a minha mulher, até surpresa, “andaste dias com um sorriso parvo” …</span></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">e há pouco, já cá, em casa do mano Bill num jogo qualquer, Benfica, Europa, sei lá, e mesmo no fim o tal golo de sempre, a derrota, claro, e após o belo manjar que ali é sempre, indo para o carro, a minha filha já adolescente resmunga “é sempre a mesma coisa, perdemos no fim”, e respondo-lhe “não é importante”, e ela devolve-me “ mas é uma chatice”. Sorrio e insisto “não é importante” e avante … Não lho disse, digo-lhe agora, se ela me ler, que não é importante pois não tem causa, nem razão, nem ganhos. É (como o) amor. Mas sem divórcio. Um arquétipo. E não um labor.</span></p>urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:estan:75532jpt2020-05-09T10:28:00O Dia da Vitória2020-05-09T09:29:15Z2020-05-09T09:29:15Z<p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="width: 534px; padding: 10px;" title="VD.jpg" src="https://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B1018bcff/21802457_wzc7e.jpeg" alt="VD.jpg" width="800" height="306" /></p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">75 anos sobre a derrota alemã. A pior das guerras da História, o fim dum regime que foi realidade e símbolo da "colectivização do mal". E uma data tão simbólica - bodas de diamante com a paz, se se quiser. E ainda, cada vez mais raros, alguns veteranos combatentes (há algum tempo, em 2008, morreu o último "poilu", combatente francês da outra demência europeia de XX, a I GM. E no ano a seguir o último britânico). Que dia tão simbólico, que celebração! E, por toda a Europa, da <span class="text_exposed_show">Rússia de Putin à G-B de Johnson, e mesmo lá fora, com o nada confinável Trump, que contenção cerimonial. Numa data destas! Que mensagem...</span></span></p>
<div class="text_exposed_show" style="text-align: justify;">
<p><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Quando há duas semanas tantos se indignaram por cá com o perfil das "celebrações" das datas simbólicas em Portugal, logo o coro habitual se levantou, gritando "salazarentos". Pois era preciso, disseram, e disse-o Rodrigues, uma animação colectiva para mostrar que não viria aí nenhum "fascismo".</span></p>
<p><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">As formas cerimoniais por esse mundo afora, ontem e hoje, da celebração do dia da Vitória contra o pior dos fascismos reais, e de aversão às suas hipotéticas reanimações, foi a maior demonstração da mediocridade, tétrica, patética, destas figuras gradas que elegemos, deste Sousa e deste Rodrigues. E dos que os rodeiam.</span></p>
<p><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Eu iria dizer que "só não viu isso quem não quis", só não percebeu o significado da diferença entre estas celebrações gerais do Dia da Vitória e as dos dias 25.4 e 1.5., quem realmente não o quer fazer.</span></p>
<p><span style="font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;">Mas não seria verdade. Porque a abissal mediocridade que Sousa, Rodrigues <em>et al</em> mostraram neste pequeno episódio é a mesma que nós temos. Pois só uma população medíocre elege isto e gosta.</span></p>
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