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Nenhures

Nenhures

02
Fev25

De Setúbal à Graça

jpt

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Foi um sábado cheio. Dado o gentil convite que a Lígia Águas me fizera fui à biblioteca municipal de Setúbal "apresentar" o meu "Torna-Viagem". Para isso fui acompanhado por umas dúzias de amigos, os quais destemidamente cruzaram o Tejo. Começámos por visitar a bela exposição do Miguel Navas na Casa de Cultura. Depois enchemos uma ala no Adega do Zé, para um cultural almoço.
 

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Saciados os convivas avançou-se até à sessão - enchendo a sala, e nessa reencontrando amigas que não via há trinta anos, assim emocionando-me -, na qual a Patricia Portela fez o favor de me louvar e algo provocar. Eu defendi-me como pude, tentando em atrapalhada verve reclamar o que Nerval um dia disse (ainda que depois tenha escrito coisas bem diferentes): "Como são felizes, os ingleses, por poderem escrever e ler capítulos de observação desprovidos de qualquer mistura da invenção romanesca!".
 
Depois seguiu-se uma inusitada venda de livros, um verdadeiro frenesim comercial. Pois alguns amigos haviam-me ordenado "se vais apresentar o livro tens de levar exemplares...". Assim fiz, encomendando alguns e transportando-os para o efeito. Após isso houve fragmentação da mole, alguns avançaram aos seus destinos, outros derivaram para jantarada na capital do choco. Eu e alguns outros refugiámo-nos num simpático pequeno largo entre a Luísa Todi e a Bocage, bebeu-se algo acompanhado de tremoços. Nesse entretanto um dos convivas, sorridente, disse-me "fizeste bem em pontapear a exposição sobre o colonialismo, estão a remendar aquilo" (irados resmungos que eu fiz há alguns meses) - decerto que os erros factuais, que da anacrónica sanha nunca se expurgarão. Ri-me com isso...
 
Regressei à capital, indo a jantar de sexagésimo aniversário de amiga, ocorrido no para mim desconhecido "A'Paranza", aos Anjos, um simpático restaurante mas... italiano. Era um universo mais "académico", face ao qual me recolhi, restringindo-me a fugaz investida contra a referida "anacrónica sanha decolonial", tendo obtido a rendição total sobre o assunto. Em dia festivo para mim (e não só) logo abdiquei do "sem quartel" oratório, sempre exigível nessa matéria, e retirei-me junto ao pequeno bar onde me dediquei a ensinar aos - simpaticíssimos - italianos da casa os diferentes conteúdos semânticos dos termos "saideira" e "abaladiça". Mais tarde fui recompensado com grapa(s)... Quando os comensais terminaram o longo repasto (vi passar inúmeras iguarias ... italianas) acompanhei uma amiga - que já vinha da passeata sadina - até sua casa, à Graça (um cavalheiro nunca deixa uma senhora sozinha calcorreando as noites dos bairros populares).
  
Cumprida a nobre função, ajoujado pela mochila com os remanescentes exemplares do "Torna-Viagem", esses que não havia conseguido impingir, lá pelas 2 da manhã, constatei que não tomara o pequeno-almoço e que talvez fosse conveniente acomodar-me antes de dormir. Entrei numa tasca nos baixios daquele bairro. Comi uma "sande" de presunto (apesar da tensão alta que me importuna o destino), bebericando uma imperial e olhando o grupo de felizes universitários que ali se divertiam com placidez (e com um punhado de amigas lindíssimas, não apenas jovens), nisso despertando-se-me a nostalgia, pois mesa tão similar a tantas que vivi há décadas.
 

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De súbito apareceu o Zé Maria, amigo moçambicano agora músico residente no Secret Garden LX, não poderia haver melhor conclusão para um dia de "Torna-Viagem"... Aliás, poderia, bastaria para tal que não estivessem ele e seus amigos, bem chateados - pois a eles recusava o velhote tasqueiro servir as apetitosas sandes de presunto, as quais entretanto aviava aos meus patrícios... Pois é, é que "ele" há destas coisas, a gente-nós, "brrrancos", é que nem notamos.
 
Enfim, em suma, hoje acordado fiquei a olhar para o punhado de livros que me sobraram, "raisparta, que vou fazer disto?"... Mas não seja por isso, foi mesmo um belo sábado. Obrigado aos amigos excursionistas...
 
(Para quem se possa interessar: o meu "Torna-Viagem" só se encontra no portal da plataforma editorial Bookmundo, através desta ligação: https://publishpt.bookmundo.com/books/366121 )

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Livro Torna-Viagem

O meu livro Torna-Viagem - uma colecção de uma centena de crónicas escritas nas últimas duas décadas - é uma publicação na plataforma editorial bookmundo, sendo vendido por encomenda. Para o comprar basta aceder por via desta ligação: Torna-viagem

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