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Nenhures

Nenhures

Elísio Macamo sobre Portugal

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(À esquerda Joacine Katar Moreira, então deputada do partido Livre; ao centro de óculos e calças o seu assessor; à direita, com identificação ao peito, o GNR que a escoltou na Assembleia da República, a primeira vez que um deputado português requereu protecção policial nas instalações do parlamento)

O sociólogo moçambicano publicou um texto sobre Portugal, "Ser apenas negra, feminista radical e gaga", incidindo sobre a questão do racismo, seu legado e presente. Isto a propósito do "caso Livre". Infelizmente Macamo escolhe uma via mais fácil (bem diversa daquela que usa habitualmente para analisar com rara profundidade a situação moçambicana - será algo normal, pois a atenção sobre o nosso país ser-lhe-á um pouco secundária). A via fácil? Pega num texto de Sousa Tavares e zurze-o. E daí conclui sobre algumas características do presente português e, acima de tudo, sobre as potencialidades meritórias do movimento agora ex-Livre. Alguns dirão que MST é criticável pois exemplar, por representativo de um pulsar luso agora acometido por Katar Moreira ("Eu sou o incómodo", exclamou ela, biblicamente, há algum tempo). E nisso não deixarão de ter razão, o "Miguel" (MST é um dos "miguéis" que alguma classe média urbana portuguesa da minha geração reclamava como "seus" locutores naqueles 80/90s da CEE) fala e escreve há tantos anos que acaba por representar um médio denominador comum. Mesmo que sinuoso, aparentemente a la carte consoante a semana. Ou melhor, talvez por isso mesmo.

Mas o pontapear, ainda que com a sua usual elegância, do luso-articulista tem alguns custos, por mais abrangente que seja a finta com que Macamo antecede o remate. Assim de repente custa-lhe dois desperdícios, inabituais nas suas reflexões: em primeiro lugar, desconsidera dinâmicas da sociedade portuguesa. Ou, como diziam os antigos (desculpar-me-ão o eurocentrismo etnocêntrico desta in/evocação), arrisca-se a "tomar a nuvem por Juno". E, o que é muito pior, quer inibir o debate, ao reificar os agentes. Que mais pode significar uma tirada destas: "... aquele fosso pós-colonial entre ideias e a prática, um fosso que leva o articulista a esperar que uma deputada afro-descendente tenha que ser perfeita em tudo para ter legitimidade para se fazer ouvir."? Ou seja, porque Portugal foi um país colono, porque vivemos uma situação pós-colonial, estamos vedados a criticar uma política negra pelas suas propostas, seus diagnósticos ou metodologias? A negar a sua demagogia? A assobiar para o lado diante dos dislates? Porque é mulher, negra e gaga (características que ela própria invoca como capital político) as críticas que lhe são feitas derivam de uma exigência à perfeição da "afrodescendente" (parece que agora nós, "latinos", temos que falar e escrever à americana, por isso uso o termo)?

É certo que o texto de Macamo é basto saudado, por intelectuais lusos ou residentes. Pelos que se consideram lúcidos resistentes. É, para eles, um texto bem-vindo a este país, ditatorial. Pois, como dizem, reproduzem ou, pelo menos, anuem, Portugal vive num apartheid. Que nós, portugueses, brancos, pelos vistos cultivamos, reproduzimos, defendemos. Cônscia e/ou inconscientemente.

E se não concordamos com esta aberração demagógica? Com este agit-prop? Com este "fraccionismo", o identitarismo comunitarista, o "velho" "tribalismo" se falando em terminologia mais usual na discussão política moçambicana? O qual é, a um nível mais imediato, apenas uma visão estratégica estadocentrada, sequiosa e mesmo esfaimada de subsídios, a serem geridos in vitro, nas modalidades patrimoniais típicas destes núcleos sociológicos, tão pejados de veterania socratista. E, num nível mais profundo, essencial mesmo, um aggionarmento maoísta e guevarista, na ânsia de produção de raças(e quejandas)-para-si, como se estas motores de uma história à medida dos anseios destes intelectuais oníricos, presos a pulsões de heroicidade.

Macamo, de longe e elegantemente, alheio à sociedade portuguesa, dir-nos-á oriundos de um magma "póscolonial", disso frutos. E, quiçá, vítimas, pois seguindo numa bruma, algemados ao "inconsciente histórico" colonial. E não perceberá, por desinteresse, porque está feito o seu ombrear, o seu "número" entre "pares", quão diferente é o seu rumo analítico sobre o seu país, provocatório pois complexificador, problematizador, inquietador, e verdadeiramente inquieto, do que estas simplificações a la carte, interesseiras e espaventosas, a que agora decidiu associar-se.

E não notará, porventura, que entre estes demagogos histriónicos alguns são mulheres mas outros não, quase nenhum é negro, pelo menos com visibilidade pública (há apenas um, Ba, que defende a instauração de "policiamento comunitário") e não se conhece outro gago para além de JKM (a qual defende a instauração de "comissários políticos" nos serviços do Estado). Ou seja, Macamo desencontrar-se-á com o facto de que aqui não se está a exigir perfeição à preta (e gaga) para que ela possa falar, como ele atrevidamente reduz. Onde "mulher, negra e gaga" são argumentos próprios desta tropa, e não invectivas alheias. Que o que se passou e passa com esta mulher é uma vilania rasteira. Por iniciativa própria. E que estamos num debate político onde Katar Moreira é a cara de perspectivas peculiares, anti-democráticas, secundada por um conjunto de "intelectuais orgânicos" radicalmente demagogos. E estamos num debate poluído pois quem grita demagogias colhe demagogias. E é esse lixo demagógico adverso que procuram incentivar, crendo-o estrume da sua luta.

De quando em vez, um determinado autor francês, veterano investigador sobre Moçambique, publica algo  na imprensa moçambicana. E é usual  Elísio Macamo surgir a refutá-lo. Assim como se lhe criticando um "atrevimento", ou um "simplismo", sorrio eu. É mesmo recorrente que entre nós, alguns leitores, comentemos "haverá algo de pessoal naquilo?", mas é provável que não haja, será mesmo apenas o crivo crítico particularmente acerado. Percebo-o agora melhor, a Macamo. Naquela sua irritação. Que agora é a minha. Nesta exigência, irritada, patriótica (coisa que Macamo compreende e respeita, mas que estes agit-propeiros  portugueses tanto desprezam, idólatras que são de todas as "identidades" excepto da nacional, da qual são iconoclastas), de que quem escreva sobre o meu país seja tão profundo e analítico como quando escreve sobre o seu próprio. Ou então que fale de pataniscas de bacalhau e de vinho verde. E do nosso Sporting.

 

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