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Nenhures

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Fazer da vida "Um voo cego a nada"

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Na era blogal, aquela primeira década de XXI, raros eram os blogs portugueses que se debruçavam sobre Moçambique de modo interessante. Havia, claro, entre esses alguns tão poucos, o Um Voo Cego a Nada, que seguia sob o verso do grande (e tão esquecido) Reinaldo Ferreira: 

Eu, Rosie, eu se falasse eu dir-te-ia / Que partout, everywhere, em toda a parte, / A vida égale, idêntica, the same, / É sempre um esforço inútil, / Um voo cego a nada. / Mas dancemos; dancemos / Já que temosA valsa começada / E o Nada / Deve acabar-se também, / Como todas as coisas. / Tu pensas / Nas vantagens imensas / De um par / Que paga sem falar; / Eu, nauseado e grogue, / Eu penso, vê lá bem, / Em Arles e na orelha de Van Gogh... / E assim entre o que eu penso e o que tu sentes /A ponte que nos une - é estar ausentes. 

O Um Voo Cego a Nada fora pioneiro, começado em Julho de 2001, antes da onda bloguística se generalizar. E tornou-se veterano, resistiu às modas, flutuações, mudanças. Sempre esteve ali, no mesmo endereço, coisa tão rara nos blogs. O seu autor, um tipo letrado, nitidamente plácido e atento - pois, claro, "cego a nada" ... -, homem (também) de gatos e banda desenhada, vinha com uma bela visão do real, e nele fez o seu diário de "visualizações", das atenções havidas, leituras, memórias, episódios, sem agendas ou manifestos, e que ele considerava uma espécie de diário aberto, um lugar que me dá, ao mesmo tempo, o aconchego da intimidade e a liberdade do anonimato ... Como era a intenção original deste suporte, a de se fazerem diários de bordo, descomprometimento que tantos de nós, bloguistas, desconseguimos continuar, na volúpia do falar de cátedra. E sempre me atraía o que notava sobre Moçambique, país onde crescera - e onde tem família, lá pela Ilha - , num olhar de memória sem saudosismos, de atenção sem revanchismos, de interesse sem ressabiamentos, derivas essas tão presentes em tantos outros sítios, blogais e não só, nos quais o fel do após-império tantas vezes brotava. Um olhar de carinho e encanto que encontrei também no À Sombra dos Palmares, antiquérrimo blog de excertos literários de autores em Moçambique, que se não lhe pertenceu poderia ter pertencido - aliás, sempre associei os dois blogs mas não comprovei, nunca perguntei.

O Um Voo Cego a Nada acabou agora, o autor não resistiu à maldita doença que há tanto o devastava. E que foi, sem rebuço, explicitando / lamentado ao longo dos últimos tempos.

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