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Nenhures

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18
Mai21

Gerhard Liesegang

jpt

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Aos 80 anos morreu Gerhard Liesegang, autor de uma preciosa e vasta obra sobre a História de Moçambique, desde o seu doutoramento sobre a história do Estado de Gaza. Seguiu como praticante de Antropologia Histórica, e nisso foi enorme exemplo da irrelevância destas divisões disciplinares de que alguns são tão ciosos. Ele próprio assim se anunciava, não só na simpatia com que olhava os colegas antropólogos como quando deixava cair ter estudado (aquando na Londres dos anos 1960) com professores como Isaac Schapera, Raymond Firth, Robin Fox, Lucy Mair ou Tom Bottomore. De facto, nele subsistiu com pertinência a ambiciosa tarefa boasiana, da extrema abrangência do exercício individual das ciências sociais. Nisso fazendo-o um verdadeiro sábio.

Era um homem de enorme simpatia, a qual nem a sua (aparente) timidez escondia. E dono de uma dicção dificílima de captar - lendária até, e sempre carinhosamente evocada por colegas e ex-alunos. A qual nos convocava para ainda uma maior atenção para o que ele proferia. Lembro-me que em 1994 no meu segundo dia em Moçambique José Soares Martins (Capela) - sabendo que eu ia para o Norte - me mandou ter com ele. Recebeu-me em casa, ali à Polana, e no seu jardim deu-me um enorme "briefing" sobre o Cabo Delgado, numa total disponibilidade diante do miúdo que ali lhe batera à porta, de modo inopinado. Saí dali estupefacto, tanto pela dimensão da minha ignorância como pela sageza e simplicidade do Professor.

A última vez que o vi foi em 2017, quando apresentou o livro "Costumes Ancestrais do Povo Makhwa-Metto, de Montepuez", uma memória etnográfica de João Eduardo de Conceição, organizada pelo filho do autor, o antropólogo Rafael da Conceição. Decorrendo a cerimónia na Matola, diante das autoridades locais, o Professor dissertou sobre a relevância da obra e, depois, com o seu célebre sorriso plácido, aproveitou para inflectir o discurso e deixar uma radical crítica ao descuido com o património arqueológico daquela zona, triturado pelo "desenvolvimentismo", coisa que, como frisou, "já vem do tempo colonial e não mudou". Assim mostrando-se não só sábio como exemplo de intelectual.

Muito do que escreveu está em alemão, língua que não domino. Mas há um manancial em inglês e em português. E a melhor maneira de homenagear um autor não é botar encómios. É lê-lo e relê-lo. Deixo ligação para a sua página na rede Academia.edu e para uma entrevista sua, realizada em 2010 pelo meu colega Guilherme Mussane. E é para onde vou agora, relê-lo. Pois o Professor Liesegang é daqueles que conta

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