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Nenhures

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Quase sexagenário continuo a acreditar que de pequenos episódios se podem retirar conclusões sobre questões (ou posições) mais gerais, assim uma espécie de pensamento indutivo. Método de reflexão com muitos limites mas que, pelo menos, é uma muleta para mentes medianas, como esta que tecla. E lembro-me agora disto por causa desta guerra russo-ucraniana e de muitas reacções que fui vendo, dessas que enfatizam a maldade "ocidental". As quais começaram por ser bem explícitas e que foram sendo matizadas - "embrulhadas" - até pela evidente insuportabilidade intelectual desta "russofilia", a qual actualmente não passa de uma necrose da ideologia socialista.
 
Um dos tópicos deste omnicriticismo sobre o "mundo ocidental" é o sublinhar da putativa influência (causal) da indústria de armamento americana, o qual teve muito uso no início da guerra. O que é interessante, em particular quando os locutores são africanos, é que nunca referem que as actuais importações de armamento em África têm como fontes preponderantes as indústrias... russas e chinesas. É certo que este não é material mais sofisticado (e caro). Mas também nunca referem a veemente concorrência entre essas indústrias nacionais de armamento nesse tipo de material muito sofisticado, a qual vem tendo imensas implicações "geoestratégicas". Não é por falta de informação (que está bem disponível, via google ou mesmo em livros generalistas, p. ex. no célebre Frankopan). É apenas porque não lhes dá jeito à retórica...
 
 
Outro tópico dessa crítica ao "Ocidente" -. de facto, às democracias liberais - que vem agora ganhando proeminência, explicitando uma verdadeira "hierarquia de significações", incide sobre a cobertura que a imprensa dos países democráticos vem fazendo desta guerra. Esse afã analítico não incide sobre a imprensa russa, chinesa, iraniana, etc. (Nem mesmo sobre o tom da estatal TVM, como alguns me resmungam desde Moçambique). Nem numa análise sistémica de alguma imprensa "ocidental" de vulto - dita "de referência". Bem pelo contrário, centra-se na crítica à concorrencial miríade da imprensa europeia e americana (em particular portuguesa), num elencar de dislates (o célebre episódio do "porta-aviões voador" é um "must"), erros factuais, armamentos mal descritos, de abordagens histriónicas, especulações infundadas, etc.
 
Pouco importa a estes irredentistas anti-democratas de extracção comunista que num país democrático uma imprensa livre e concorrencial "é capaz de se pôr a si mesma sob julgamento" (como disse Eco, um sábio que não era da "extrema-direita"). O que lhes interessa é reproduzir a velha ideia de que a imprensa "ocidental" é apenas uma súmula de dislates propagandísticos, emitidos com o obscurantista objectivo de alienar as populações, fazendo-as apoiar causas ou acções indevidas e mesmo injustas. O corolário - por apenas implícito que surja - é óbvio: a justiça, mesmo que apenas relativa, reside no "Outro". Neste caso ali a Moscovo...
 
Então sobre esta imagem da imprensa "ocidental" e sobre esta (auto)percepção dos locutores como iluminados e racionais analistas, que se eximem à "alienação" propagandística da imprensa capitalista, eu lembro este episódio - o tal pensamento indutivo:
 
Em Abril de 2020, no cume da angústia covidiana, partilhei no meu mural de Facebook um artigo do britânico "The Guardian". Nesse referia-se que os dados recolhidos de tráfego telefónico apontavam que em meados de Janeiro (o ano novo chinês) cerca de 7 milhões de pessoas tinham saído de Wuhan (o anunciado berço do Covid-19). E que face a isso eram muito suspeitas as estatísticas emitidas pelo governo chinês, que apontavam para apenas 8 mortos em Pequim e 10 em Shangai. E, correlativamente, seriam discutíveis as medidas iniciais de controlo sanitário que haviam sido tomadas. Um querido amigo em Maputo replicou essa minha partilha, encimando-a com qualquer coisa como "esta vem do professor Teixeira". Eu já não sou professor mas mesmo quando o fui nunca como tal me apresentei (em blogs, nas redes sociais e, mais importante, na vida), mas percebi a pequena nota como expressão do carinho (quantas vezes cáustico) que o Nuno me dedica. O que foi ele dizer!
 
Logo uma ex-colega e amiga surgiu irada com o artigo que o "dito professor" (sic) tivera o desplante de publicar, pois apoucar a legitimidade da versão oficial do governo do Partido Comunista Chinês era um inaceitável seguidismo à propaganda "ocidental" (eu registei Isabel). E logo um renomado professor - que agora se tornou versado no história do pensamento filosófico, e que no seu memorialismo demonstra continuar adepto de regimes de monopólio estatal da imprensa e de prevalência de censura e de indução de auto-censura - rematou que não há pior do que a propaganda da imprensa "ocidental", em particular "a que se diz de esquerda" (qual o "The Guardian"). Pois, friso, o que era relevante era denunciar as malevolências dos mass media "ocidentais" e salvaguardar a justeza das decisões (sanitárias) chinesas.
 
Passados alguns meses um outro renomado professor do mesmo núcleo ideológico publicou um texto frisando a capacidade executiva chinesa face ao Covid-19, pois tendo aquele regime recorrido a medidas autocráticas, e apenas a algumas dezenas de fuzilamentos (ainda que estes lamentáveis), tinha resolvido o problema pandémico no país. A isso contrapunha a incapacidade estrutural do decadente e degenerado sistema económico e político do capitalismo ocidental, cujas fragilidades impediam os países de resolver - a contento da necessidades dos trabalhadores - a crise sanitária. E nesse texto colheu o aplauso geral - "respect", como se diz agora, "laiques", "comentários", "partilhas", "assim é que é!", enfim o apreço pela análise ponderada e racional avessa à vil propaganda "ocidental" e "capitalista", "mesmo que se diga de esquerda".
 
Estamos em Abril de 2022. A malvada imprensa "ocidental" propagandística, a hidra "Voice of America", continua a sua falsificação do real inventando que Hong-Kong sofre confinamentos, províncias chinesas sofrem confinamentos, Shangai sofre confinamentos, dezenas de milhões de chineses sofrem confinamentos. Nós, os enganados ou desonestos, sabemos que os vírus não têm ideologia e que se devem discutir as medidas que os combatem. Mas estes ilustres professores continuam, impantes nas suas certezas ideológicas, uma arrogância que é cegueira epistemológica. Falam do Covid-19? Não. Botam que a imprensa "ocidental" falsifica a realidade na Ucrânia. E assim continuarão perorando sobre todos os outros assuntos. Até que a lei da morte os liberte, pois nada aprenderão sobre si mesmos.
 
E as pessoas não lhes recordam isto. E é por isso, por não serem confrontados com os arrogantes dislates próprios, que continuam com a impudicícia de "falar de alto"...
 

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