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Nenhures

Nenhures

Liberdade?

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O número 3 da revista digital "Mordaz" foi ontem publicado. Está disponível aqui (gratuita, sem publicidades agarradas). Aqui partilho o texto que lá publiquei.

Liberdade?

Durante muito tempo vivi longe. Conheci gente. Alguma de mim gostou, outra nem tanto. Um desses homens não me deu simpatia ou ser-lhe-ia eu indiferente. Vivia de escrever. Um dia mataram-no. Ele tinha um colega, qual concorrente. Esse gostava de mim, e partilhávamos uns uísques noctívagos. Meses antes, em deriva madrugadora, encomendara-lhe cautela com o que botava. Indignou-se, de vozear e perdigoto, como se eu ali censor. Recuei e, por carinho, resmunguei-lhe que pelo menos não guardasse informação, afixando o “nada na manga”. Nem me respondeu, só levantou o queixo em esgar. “Tuga”, terá pensado. Mas pelo menos não mo disse, e isso valeu. No funeral grassava o medo. Denso. Três conhecidos pediram refúgio em minha casa, qual asilo. Anuí, mas lembrando não ser porto seguro. Outrem fez o elogio fúnebre, belo, qual pegando no facho. A meu lado alguém murmurou “ele está a fazer para ser o próximo”. Findo o discurso cruzou-me e disse-lhe “calma, ninguém está seguro…” e ele replicou, cavo, “queres que me cale, Zé?” assim calando-me. Esta era gente do mesmo partido, que cruzara tétrica guerra civil, enormes mudanças, e vivia ríspidas eleições entre os velhos inimigos. Um jornalista, que então já não estava, até ao fim batalhara e batera, até nos seus próprios correligionários, apontando políticos e polícias, estrangeiros e nacionais. Sarcástico, escrevera um “cabricionário”, dicionário do cabritismo, aquilo de “o cabrito come onde está amarrado”, que alguns dizem africano mas é universal. Outro passou anos enfrentando aleivosias do seu partido e dos outros. Prometera clamar “até ficar rouco” e amigos picavam-no, dizendo-o na senda de mártir, ao que ele casquinava. Continuou para além de rouco, já só com um fio de voz, até à sua última semana.

Eu era professor. Então, como acontece nas universidades, a geração do meio empurrava a mais velha. Mas ali e então tudo tinha um tom político. O café do campus era à frente do meu gabinete. Nas mesas as polémicas viviam-se, com críticas magoadas aos poderes. Estrangeiro e jovem estava sem ser parte. E notava os engravatados fatos azuis nas mesas vizinhas. Meneava para os sinalizar e aqueles mais-velhos, gente também do mesmo partido, mas sem locais de recuo, outros ofícios ou riquezas, só professores, encolhiam os ombros. Alguns, a velha guarda mesmo, elevavam a voz. Para que os esbirros não perdessem pitada.

Anos passaram. Escritores foram até ao osso, explícitos ou em subtexto, seguindo os passos do poeta que para isso, convocando os plácidos citrinos, reinventara a literatura do seu país. Investigadores vasculharam, e por isso foram ameaçados. Suportaram o que puderam, e alguns partiram para sabáticas involuntárias ou para outras vivências. Um dia, à saída do café que frequentava, um colega jurista foi morto. Depois um politólogo foi raptado e, avisado de ordens para não o matarem, dispararam-lhe sobre as pernas. A outro raptado iam-no matar decepando-lhe as pernas mas os assassinos fugiram à chegada da população. Todos por terem opinado livremente na tv. E refiro apenas quem conheci. Os sobreviventes continuam, como outros, investigadores, professores, jornalistas, a trabalhar, a criticar. E muitos deles com vínculo afectivo ao partido do poder. E, note-se, num país onde o Estado tem enorme peso na redistribuição, directa ou indirecta, dos recursos.

Cinquentão, voltei a Portugal. País temperado, seguro, pouco crime e nada de violência política, nem da vigilância abrasiva e das ameaças soezes. Afinal democracia já instituída, sinal do envelhecimento da minha geração. E conflitualidade tépida entre linhas políticas, nada do abrasivo a que vinha habituado, pois enormes linhas de consenso real entre os grandes partidos. E grande homogeneidade na população, bem diversa do mosaico que conheci, passível de exacerbar conflitos. E sim, o Estado muito influencia na distribuição de recursos, através de empregos, subsídios, etc. Mas bastantes empregadores alternativos.

Uma coisa me espanta. Não encontro quem bote em público criticando o seu pequeno partido, o seu “nós”. Reina a defesa a todo custo, o pobre catenaccio político. Gente tão diferente, tão mais escassa do que alhures.

Liberdade? Sim, decerto. Mas tão fraca gente.

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