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Nenhures

Nenhures

Moçambique

SILENCIO_ESCANCARADO_1428815255444556SK1428815255B

Amigos perguntam-me o que penso sobre o que se passa em Moçambique, em especial sobre o conflito de Cabo Delgado, diante de tão díspares versões sobre as causas. Será aquilo efeito das maquinações dos "americanos", abordagem dos "franco-atiradores" mercenários, rapina dos "cleptocratas", globalização da ideologia integrista islâmica?

Não sei, nem respondo (respondi). Estou longe, longe demais para sopesar a realidade dessas várias interpretações. E para tentar depurar as versões da poluição que os seus locutores lhes colocam, essa por vezes proveniente dos interesses desses "intérpretes" mas muito mais do olhar embaciado de cada um de nós, até embaciadíssimo em tantos.

Mas respondo. Comigo está, trouxe-o num saco, este "Silêncio Escancarado" de Rui Nogar, poeta interventivo (para o situar aos leitores portugueses poderei dizer que uma espécie de Manuel Alegre local). Homem do seu tempo, como todos o somos, ainda que alguns se eximam um pouco a essas algemas. Como? Na dúvida, essa única máquina do tempo de que dispomos. 

Nogar foi, repito, um homem do seu tempo, sua característica não defeito. E é um exemplo das nossas limitações. As ideológicas, do como cada um procura o pobre conforto das certezas alheias. E as vivenciais, de como o nosso sítio nos limita o entendimento. Conjugadas essas algemas, as da crença e as do tempo/espaço, a bruma é enorme. Até com efeitos formais, nisso estéticos.

O que quero dizer? Em 1967 o poeta, preso na cadeia da Machava, deixava este elogio  "Diante das cinzas dispersas de Che" [ lágrimas rastejando / pela agreste crosta / desta angústia lacerante / dois guerrilheiros / na última emboscada / contra a iniquidade / dos muros vidrados  / da nossa madrugada / dois guerrilheiros / combatendo lado a lado / tu e a humanidade inteira], preso (algemado) à mistificação da figura de Ernesto Guevara que o movimento comunista internacional promoveu (e de que Manuel Alegre foi um já serôdio e anacrónico paladino). Não conheci Nogar, morrera já quando eu cheguei a Moçambique. Mas pelo que me contaram dele, empenhado escritor e divulgador literário, não seria homem de questionar a produção iconográfica do movimento ideológico que abraçara. Mas mais importante do que isso, como homem do seu tempo e mesmo que quisesse demarcar-se dessa iconologia dificilmente o faria: nem em 1967 nem depois ele teria conhecimento de quem era Ernesto Guevara. Sim, saberia da sua brutalidade, que talvez até louvasse. Talvez não da sua arrogância boçal, do "fuzilamos e continuaremos a fuzilar" em plena ONU. Que se calhar também por ele seria louvada. Mas não sabia, decerto, da incompetência política e militar do argentino e, acima de tudo, do seu profundo racismo, patenteado na sua passeata africana. 

É isso que ditaduras, arquivos fechados, prisões, falta de informação provoca. Não apenas meros, e mesmo maus, versos mas um desconhecimento que alimenta malvados ídolos de pés de barro, pobre estatuária, ineptas versões do real. E, pior, sonhos pesadelos.

Mas numa "alma" (uma vontade) poética há quase sempre um vislumbre do caminho a ter. Mostrou-o Nogar, em 1964, ano do meu nascimento e também do início da guerra de independência moçambicana, no seu "Escreveram de longe pedindo-me versos". No qual terminou "oh não, não me peçam versos agora". Julgo que será a melhor forma de responder a quem me pergunta o que penso sobre Moçambique: "não me peçam versos agora". 

Pois não estou, não sinto, não apalpo, não sei ... Permito-me apenas lembrar livros - e é essa uma das vantagens da democracia, não termos tutelas sobre o que se pode ou não ler [e esta é afirmação suficiente para sustentar o princípio de que cada académico ou intelectual, catedrático ou não, que ande a higienizar ditaduras que praticam a censura oficial é um desprezível inimigo]. E então, nessa liberdade de leituras que iluminem possibilidades interpretativas, mas não as limitem num mero seguidismo, talvez coisas de há 30 anos sejam boas pistas. Quando Mbembe chamou a atenção para a necessidade de novas linguagens do poder em África, e Bayart e Geshiére (por exemplo) ligaram os discursos religiosos - a que nós, em pobre topologia evolucionista, chamamos feitiçaria - às dinâmicas políticas continentais. Velhos e novos conflitos e porosas e flutuantes linguagens sobre estes. 

Dá mais jeito, é mais higiénico, negar isso e convocar teorias da conspiração? Nisso, de facto, apenas clamar feitiços alheios, qual chupa-sanguismo? Bem, se se é académico é um pouco estranho. Mas não há tantos deles religiosos, assim supersticiosos? Assim sendo, aqui no aquém-Tejo, deixo o discurso aos crentes. Eu estou blindado, aliás. Talvez a "vacina" tenha já prescrito, tantos anos passaram. Mas o meu remédio, a vacina biomédica chamada "dúvida" continua a funcionar. Apenas, e repito, "ah, não me peçam versos agora".

 

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