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Nenhures

Rui-Nabeiro-na-Adega-Mayor-com-o-Alentejo-no-horiz

(Rui Nabeiro, fotografia que presumo ser de Ricardo Palma Veiga)

Há pouco tempo passei um ano em Bruxelas. Na vizinhança arranjei dois poisos refúgios da intempérie solidão que me acometera: em Etterbeeck o "Etcetera", um barzito de bairro algo "bobo" (como se dizia, não sei se ainda) - ufano do Depardieu por lá ter passado - e com uma simpática clientela, imensamente acolhedora deste excêntrico português, pois cinquentão nem eurocrata nem nas "obras" e que, talvez mesmo mais por isso, sabia bastante de banda desenhada. E em Schaerbeek o "Ponto de Encontro", reduto português mas aberto a quem viesse por bem - lá decorriam encontros do campeonato nacional de dardos, por exemplo -, um simpatícissimo casal proprietário e um gentil núcleo de fregueses. Entre os quais também eu era excêntrico, notado pois não só o único homem que não trabalhava nas "obras" como, gabavam-me, era o único sportinguista que aparecia após as (então) habituais derrotas. Para me encaixarem foi decidido que eu era "jornalista" - coisa que não levei a mal pois percebi ser a forma de não me resumirem ao naúfrago que ali estava. E pareceria.
 
 
Ora se é consabido que décadas antes naquela cidade os portugueses imigrantes se tinham concentrado em Ixelles, em torno da célebre Praça Flagey (onde até se arvorou um Pessoa), ali era um núcleo algo diferente. Pois desde os inícios dos anos 60s se estabelecera um conjunto de portugueses em Schaerbeek. Desde os mais velhos vindos após as suas comissões militares em Angola - e que comigo partilhavam as suas tardes de já reformados, ali resistentes por causa da "retraite", dos filhos e netos que são belgas e, note-se, por causa da "saúde" que lá é bem melhor, deixando correr as suas histórias da guerra em África, em versões tão contraditórias dos discursos oficiais de agora, a comprovarem que as vozes silenciadas são bem mais heterogéneas do que dizem os intelectuais activistas - aos mais novos, chegados então em busca de lugar nas obras, com as suas mulheres nas "limpezas", tal como os ucranianos, romenos e moldavos por cá haviam feito meia dúzia de anos antes...
 
Mas o que caracteriza esse núcleo de compatriotas em Schaerbeek é a origem. Alentejanos, oriundos de Elvas e de Campo Maior - tanto que na avenida Dailly, quarteirão acima, estava a sede da filial do Sporting Campomaiorense, fechada alguns meses antes da minha chegada. Um fluxo regional até hoje se vai ali congregando, quase com "carta de chamada", em modos de acolhimento facilitador por vias de parentesco e vizinhança. E claro que naquelas tardes e noites, entre Super Bocks, uns tintos decentes e até um bagaçozito (para mim branco, sff), as conversas sobre a "terra" também vinham. Omnipresente, e sempre sob um enorme mas risonho respeito, a figura de Nabeiro, o homem-mor da região, ali avivado na memória de inúmeros casos de solidariedade e bemtratar, vividos ou sabidos. Mais surgia até após ter eu, distraído, deixado cair que o conhecera, brevemente, em Maputo - sem entrar em pormenores, não fosse nisso ser despromovido a "doutor" - nos anos em que o fulgurante empresário decidira estender a sua Delta a Moçambique.
 
E julgo ser esse o verdadeiro sucesso de um homem, isso da sua gente, conterrâneos, mesmo se muito longe, e também passados anos e décadas, dele já totalmente autónomos, sempre o referirem com respeito, desvelo, gratidão. E simpatia!
 

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