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Nenhures

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O Amor nos Tempos do Covid

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Há uma semana surgiu a Mordaz, revista digital criada neste período de confinamento. Ontem foi publicado o seu segundo número, dedicado ao tema do amor. Um dos seus fundadores é um amigo meu dos Olivais, com o qual já ombreei há mais de uma década num blog dedicado ao bairro, o Olivesaria. É óbvio que só um tipo dos Olivais, sítio onde germinou gente algo peculiar, é que se lembraria de convidar este ogre jpt, ainda por cima durante este eclipse, para escrever sobre o amor. Mas como é Páscoa, momento desse amor - o qual se resume a confiança, será melhor dizê-lo porque há muito boa gente que não o sabe nem assim o vive, e esta é tão necessária agora, - e também porque à malta do bairro a gente não se nega, mandei este textinho:

 

O amor nos tempos do covid:

Pai,

lembras-te?, de certeza que sim, de eu, ainda estudante, te ter dito, durante um uísque noite-longa, que a amizade era poder estar calado, naquilo do silêncio?, e de tu te teres espantado, franzido o sobrolho e, em ironia pausada, me teres doutrinado “não, isso é o amor …”?

Sempre o recordo. E mais agora, pois tantos nos enclausurámos, coisa de uma epidemia, praga vinda do oriente, que não Constantinopla, por via mediterrânica, contar-te-ei depois ... Quem nos diria, há anos, uma coisa destas? Vamos aflitos, uma gripe rude que devasta mais os velhos, os já doentes e, claro, os fumadores – eu sei, devia ter deixado, mas agora é tarde, seria só casa roubada, trancas na porta.

Hân?. Sim estou preocupado. Com a miúda, é óbvio, com a mãe – continua no lar (a “residência”, como estes burguesotes têm que dizer) -, os manos e primos, a sobrinhada toda. E os amigos, claro – estamos todos a ficar velhos, tens reparado? Comigo? Que se lixe … Digo, digo, porque não?, deixa-me lá fingir o peito feito.

Semanas atrás quem podia começou a baldar-se para o campo, a tirar os putos das escolas, estas começaram a fechar, mais rápidas as privadas, logo depois também as universidades, e o governo a negar-se. Quem lá está? O Costa, aquele da câmara. Sim, mas é o que se arranja, que queres? O Partido apoia-o, não te podes queixar. É a tua “frente popular”, não me lixes. Mas, dizia eu, quem podia fugiu e o governo lá cedeu, fez como os vizinhos, qu’isto está assim por toda a Europa, e mandou-nos para casa.

Nem todos. As cidades parecem vazias, mas há muitos a trabalhar, os da saúde, polícia e isso. O povo vai à janela à noite e bate-lhes palmas, aprenderam a festarola com o Scolari, aquele da bola. E há mais, mas esses não levam palmas. Na construção civil, em fábricas, os rurais, os biscateiros, as pequenas empresas, continuam mas muito desenfiados no casa-trabalho, trabalho-casa. O que é o que o Partido diz? Não sei, não vos leio, tu sabes. Mas reclamou que se pagassem os salários a quem parou.

Lá no meu meio? Pouco sei. Mas de longe vejo que vibram. Li uma colega a perguntar nas redes sociais se os amigos “de esquerda” e, complacente entre parêntesis, (“e os de direita”) pagam às “empregadas domésticas” enviadas para casa. E eles respondem “sim, claro” – e até que “há empregadas que são como família”. Às dezenas, ufanos! Sim, é isso, o que o Cunhal dizia “radicais pequenos-burgueses …”. Como estou eu? Na mesma, lixado, vetusto, mas isso agora já não conta.

Mas deixa-me contar a história que quero: logo que nos fechámos o pessoal começou a enviar graçolas por telefone (o email já não se usa). Dezenas diárias, das cândidas às pícaras, do plácido ao provocatório. É forma de resistência, manter o ânimo, de estarmos juntos. Mesmo os sisudos, que nunca imaginaríamos nisto. Espantoso, garanto-te.

E uma coisa soou-me. Tu lembras-te?, dantes a sograria era motivo preferido das chalaças, aquilo das sogras ogres, chatas e intrusivas. Ora agora nem uma piada dessas para amostra. Não porque os velhos estejam em risco maior, pois reina o humor negro. É mesmo porque as sogras já não fazem parte, apartadas as gerações, encostadas nas mitras d’hoje. Já não chateiam, não se intrometem, a família apertou-se, os velhos não contam.

E sabes o que ainda é mais interessante? É que de repente confinados em casa, proibidos de sair, correm imensas anedotas como se sobre “as sogras”, da chatice, da canseira com as metediças, da falta de à vontade que causam. Mas agora vêm ditas sobre as mulheres – e também sobre os maridos. Agora as Celestes (e os Antunes) são as sogras de antes, é o que é. Sabes porquê? A gente papagueia, e imenso. Tem medo do silêncio, daquele. Do amor.

(Como estou eu disso? Ah!, agora não vamos falar disso, não vale a pena. Não, não é altura. Acho que sou um sogro, se queres que te diga … Beberemos um rum sobre isso. Depois.)

Palmela, 31.3.2020

 

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