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Nenhures

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14
Jun21

O arraial da Iniciativa Liberal

jpt

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Nas últimas legislativas votei IL. Não serei um liberal "stricto sensu" mas não só há várias formas de liberalismo (mais um bocado estou como o professor Pacheco Pereira a mandar o povo estudar...) como penso que o país precisa de um "choque liberal", uma canelada violenta no estatismo, até mais nas concepções e práticas do que no exercício económico. Assim, eu não "sou" da IL (e menosprezo gente que "é" de um partido, como se de uma religião ou nacionalidade herdadas e indiscutidas). Votei na IL com mais ou menos esperança que venha a ser produtiva para o debate nacional, contribuindo com ideias, discutíveis, e práticas.
 
A IL fez um arraial de Santo António, agit-prop em prol da maior abertura sanitária. Não fui. Pois o meu último arraial público foi aos 21 anos e jurei "nunca mais". E nem sequer gosto de sardinhas. E não tenho dinheiro para comer fora. E, já agora, pois ainda não estou vacinado e, ateu materialista que sou, sigo temente ao "não vá o Diabo tecê-las".
 
Dito isto, leio gente invectivando o arraial equiparando-o a eventos políticos de 2020. Isso é uma falácia. A situação é diferente. No ano passado vivemos uma monumental colecção de dislates governativos: a ministra da agricultura a antever exportações crescentes devido ao Covid, mostrando o quanto o governo estava alheado do processo; o MNE e o PR a dizerem que as fronteiras não podiam ser fechadas; a directora-geral a mandar visitar os lares (em 6 de Março - e tendo eu então a minha mãe num deles não me venham chamar demagogo quando digo a senhora absolutamente inaceitável), ela e a ministra da saúde contestando o uso de máscaras e de testes. Tivemos Ferro Rodrigues recusando "ir mascarado" para o 25 de Abril, incapaz de entender a dimensão simbólica do momento. O 1º de Maio, avesso à concentração no confinamento. As demagógicas manifestações do ex-Livre e do Chega. A Festa do Avante. E o GP no Algarve, mais as ondas da Nazaré. Culminou no Natal, com o governo incapaz de medidas confinatórias (ainda que tivesse ministros a defendê-las) e pedindo-nos para fazermos compotas e que as trocássemos no vão de escada. E, cereja em cima do estrume, que tivessemos pequenas consoadas enquanto o PR dizia que iria a três jantares de Natal. Ou seja, uma caótica política comunicacional do governo e um festim de irresponsabilidade política de vários partidos e do próprio PR. Para além de uma óbvia e gigantesca incapacidade executiva de reformulação conjuntural dos serviços sanitários, como a crise dos lares sublinhou. Incapacidade executiva revivida no início do processo de vacinação, com a desorganização rompante e imediata eclosão dos favorecimentos partidários, exigindo o recurso às Forças Armadas (e não apenas ao "Bom Almirante"), mostra do estado em segue o Estado.
 
Grande parte disto esquecemos, fizeram para que esquecessemos. Prova disso é o que se veio dizer sobre a situação na Índia, todos chorando aquela desgraça. Mas, de facto, naquele país com tamanho défice sanitário o pico da sua crise Covid-19 comportou 10/11 vezes mais mortos diários do que o nosso pico. E são 140 vezes mais do que nós, que vivemos com um sistema de saúde bem mais rico. Ou seja, se na Índia foi uma desgraça, como disse a imprensa e nós a lamentámos, que catástrofe vivemos nós! Mas tudo isto nos passa, efeito do peso da comunicação governativa e sua pressão sobre a comunicação social. O exemplo mais execrável dessa manipulação encontrei-o num activista socialista, logo colhendo grande sucesso entre os simpatizantes: no pico da crise Fátima Campos Ferreira entrevistou Marta Temido e confrontou-a com o evidente desatino sanitário. A ministra reagiu desabrida. O apparatchik, oficial de comunicação de uma das mais prestigiadas universidades públicas, sede do ensino das ciências sociais, louvou-a como "Super-Marta" num vídeo que correu com sucesso as redes sociais. Nem um dos cientistas sociais - miticamente atreitos à análise crítica dos processos sociais - ali trabalhando, nem um dos que ali se formaram, levantou voz, pressionou teclas, contra o evidente: o importante é afrontar o jornalismo, pressioná-lo, e elidir o falhanço estatal.
 
Isto foi o que aconteceu. Algumas coisas seriam impossíveis de evitar, o Covid-19 é uma pandemia pesada. Mas imensas outras poderiam ter sido melhor dirimidas. Mas agora estamos noutra situação. Os mais frágeis estão vacinados. Está a chegar o tempo de nos "desmascararmos". Por mim poderemos esperar mais umas semanas, deixar vacinar os quarentões, para maior sossego social. E ter consciência de que vamos viver, em amplexo e convívio, com este Covid. De vez em quando alguém morrerá, e será de lamentar. E esperar um rápido "Antigripe" que melhore a nossa protecção.
 
Ou seja, não é mesma coisa sair hoje à rua para um acto político do que fazê-lo em 2020 ou no início deste ano. É um bocado apressado, em meu entender, mas não é, nem em grau nem em natureza, a mesma coisa, a mesma irresponsabilidade.
 
Este longo postal-FB (e breve texto de blog) serve-me para defender a IL e dela me despedir. Porque a verdadeira irresponsabilidade política, e correlativa vacuidade, não é fazer uma agit-prop agora. Mas é isto, deixar correr um "tiro ao alvo" com as fotos dos políticos adversários. Não haver um militante ou dirigente que passe e diga "tirem lá isso". O que esta pequenina brincadeira mostra é o primado do "engraçadismo", patente no constante afã de cartazes humorísticos e, agora, nesta parvoíce. O pérfido "engraçadismo" vindo dos blogs que há 15 anos potenciou o BE. E que agora, também vindo dos blogs, é retomado pela IL. Mostrando bem que, independentemente de algumas ideias que possam ser relevantes, a IL traz apenas velhas práticas. E a política é, fundamentalmente, feita de práticas. E para estas parvoíces, de burguesotes entusiasmados consigo mesmos, não dou mais.

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