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Nenhures

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O bode expiatório da Câmara Municipal

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O programa televisivo de ontem de Paulo Dentinho. A partir dos 13,20 minutos o painel de jornalistas, com correspondentes estrangeiros - mais libertos das pressões muito nossas - debatem com pertinência o "affaire Medina".

Hoje Medina veio falar. Até agora ele, o PM Costa, locutores do PS, foram tentando elidir o facto. Costa quis resumir isto a um caso de "balcão". Mas afinal não é. Vários textos tentaram "sacudir a água para cima do capote" do quadro municipal Laplaine Guimarães (seja como directo responsável seja como chefe do responsável), com a imprensa a explicitar - "como quem não quer a coisa" - que é um militante do CDS, num óbvio alijar de responsabilidades partidárias. Mas nenhum jornalista refere que L.G. não será um "submarino" da (extrema-)direita: foi colaborador do presidente da câmara Sampaio e daí transitou para seu assessor durante a presidência da República. Ou seja, há três décadas (porventura ininterruptas) que é credor de confiança pessoal e política por parte de dirigentes socialistas, facto saudável em democracia e que se deverá, decerto, à sua competência e, também, à sua consabida afabilidade. Alongo-me neste caso pois é denotativo da manipulação da informação que acompanhou esta notícia.
 
A tentativa de elidir a importância disto, como se de um mero erro se trate, foi também reforçada pelo irritante "engraçadismo" que por aqui grassa. A profusão de imagens jocosas associando Medina a uma ex-URSS, buscando gargalhadas alvares, ajudou a centrar a questão na relação com a autocracia russa (até no início deste debate televisivo isso se nota), permitindo a ideia desculpabilizadora de que se trataria de um erro, "lamentável", apenas com uma ocorrência. Um triste episódio, por assim dizer.
 
Ora o relevante não é isso. Hoje Medina veio dizer o que de imediato havia surgido como óbvio: trata-se de um problema sistémico. Ele reconhece que houve pelo menos 52 situações destas ao longo de praticamente uma década. Ou seja, sob a sua guarda (primeiro como nº2, depois como presidente) o gabinete presidencial transmitiu a potências estrangeiras os dados pessoais de cidadãos portugueses e estrangeiros que exerciam de forma legítima os seus direitos constitucionais.
 
O "bode expiatório" para este problema sistémico está encontrado, um qualquer tipo exonerado. Decerto que não foi ele que promoveu as 52 violações mas quer-se que sirva para calar o povo. Não tenho qualquer simpatia pelo dito "bode". Não se trata de um lumpen, contratado à jorna, com a prole faminta em casa, como se saído dos romances de Dickens, obrigado a abdicar de belos princípios em função da sobrevivência da família. É um quadro médio da administração pública, tem um ordenado decente e, acima de tudo, serviços médicos reforçados e elevada segurança laboral. Assim sendo, teve este "bode", tal como os seus antecessores e seus colegas, mais do que condições para se recusarem a fazer estes envios, a procurar alterá-los internamente. E, caso isso fosse impossível, a denunciá-los publicamente em tempo devido. Mas não, o que temos é um quadro da administração camarária com um "bode" e muitos seus colegas propensos a actividades policiescas. E que se permitem actuar dentro do que cai no espectro da traição, termo em desuso mas que define o acontecido: prejudicar de modo ilegal os direitos de cidadãos nacionais e/ou residentes em favor de interesses ilegítimos de potências estrangeiras.
 
Mas imolar um escasso "bode" não chega. Pois uma década de escandalosa violação da lei, de radical espezinhar do espírito democrático e do tal favorecimento ilegítimo de países estrangeiros, por apenas inconsciente incúria que tenha sido, exige... responsabilização política. Ou seja, que ao "bode" se junte a "vaca sagrada".
 
De facto, tratar-se-á apenas de um "boi de piranha". Pois tudo continuará na mesma. Dado que não há mesmo forma de sairmos deste triste estado das coisas.

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