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Nenhures

 

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O meu pai foi militante comunista até morrer, inabalável nisso. Há nove anos, na cama do hospital, a última coisa que nos disse foi uma resposta a uma das minhas sobrinhas, que ele adorava. Ela, carinhosa, quis animá-lo num "avô, hoje estás com melhor aspecto, mais rosadinho". E ele, ali tão pequeno de mirrado, quase translúcido, murmurou a sua última ironia: "rosa por fora mas vermelho por dentro". Morreu horas depois.
 
Cresci a discutir política com ele. Um dia, ainda na minha adolescência, o debate terá aquecido em demasia. Logo a minha avó materna - que tinha memória adolescente do 6 de Outubro de 1910 em Bragança, e que detestava Mário Soares pois considerava-o igualzinho a Afonso Costa, recordo-o para a enquadrar ideologicamente - chamou-me de parte para me dizer "Zé, o teu pai é comunista. Mas é muito bom homem". E tinha ela toda a razão. De facto, o camarada Pimentel foi um bom homem. Tanto que um dia, bem mais tarde, lhe perguntei porque tinha ele chegado até ali: "Esqueces-te que cresci na guerra de Espanha! E depois veio a segunda guerra mundial", na qual a URSS foi determinante e Estaline "pai dos povos" foi símbolo. Mas mais do que isso, mais do que o crescer, foi o viver depois décadas no medíocre e tétrico Portugal salazarento. Vi-o chorar apenas uma vez na vida: no 25 de Abril. Só aos 51 anos se viu livre daquela abjecção! E se me irrito eu, e de que maneira, com estes Sócrates e seus bajuladores - dos Galambas do Jugular aos Fernandes da "Super-Marta" de agora mesmo - bem que posso imaginar o desesperante daquela época, tão pior que era.
 
Mas sobre os comunistas há algo mais do que esta compreensão contextual, tornada simpatia, alargando-a do meu pai até aos seus correligionários contemporâneos. E nisso também podendo entender a adesão comunista entre operários rurais e urbanos explorados de modo indecoroso no Portugal dos Pequenitos CUF, Champallimaud e belas herdades - e continuo a pensar que o episódio mais belo do pós-25 de Abril foi quando comeram o cavalo de João Núncio, uma equideofagia ritual bem apropriada ao fim de uma malvada era.
 
Pois o relevante é que essas gerações de comunistas acreditavam mesmo na bondade da URSS e seus aliados (protectorados, de facto), assumindo-a irrefutável. Até um homem viajado e lido como o meu pai cria, genuinamente, que as críticas e denúncias daqueles regimes eram mera propaganda americana. No caso dele, um verdadeiro "ortodoxo" como então se dizia, não era falta de informação: bem antes de 1974 estudara e viajava no estrangeiro, de onde vinha com revistas e livros - para a minha formação foi interessante crescer entre estantes com os Basil Davidson, Mondlane, Cabral, etc. em livros de bolso ingleses, e é um carinho tê-los herdado. E também Marx, Engels, Lenine e o resto do panteão - agora encaixados em segundas filas atrás das canónicas "Obras Escolhidas" da Avante -, até mesmo Mao, a maioria em versões francesas, bem como os (algo dúbios) franceses, desde o primeiro Garaudy e tantos outros até já Hue. Mas sempre notei que, ainda que bem vasculhadas essas prateleiras, nada ali estava do que desde há décadas na Europa Ocidental se ia desvendando do terror comunista.
 
Depois do 25 de Abril nenhuma dúvida sobre a justeza comunista era aceite, tudo isso era convictamente reduzido a manobras do capitalismo. Portugueses antigos militantes como Silva Marques, Chico da CUF, Cândida Ventura eram ditos traidores, "comprados". E, com óbvias diferenças, também grassava o desconforto com gente como Berlinguer e Carrillo, e até mesmo com Marchais. Internamente também assim era, sopro de suspeição de mero "eurocomunismo" que fosse em qualquer "camarada ou amigo" era razão para imediata desconfiança. E já bem dentro dos anos 1980s era muito mal visto que algum comunista escrevesse na "imprensa burguesa" - mesmo que fosse para apresentar as posições oficiais do PCP de Cunhal. A URSS era o bem, o caminho correcto, o socialismo virtuoso - pois bondoso mas, acima de tudo, com as potencialidades (aquilo da "aretê") devidas à construção do comunismo. O socialismo era já uma realidade histórica benéfica e o comunismo, a tal "sociedade de lazer" - concepção pouco apelativa para o meu pai, frugal e industrialista que era, e que a remetia para uma mera retórica "filosófica" do teórico - viria como normal continuidade do rumo soviético. O XX Congresso apenas enunciara desmandos causados pelos efeitos internos das agressões imperialistas, na Guerra Civil pós-1918 e na II Guerra Mundial. Dores de parto, por assim dizer. E tudo isso era realçado através de inúmeras publicações, desde a patusca (e deliciosa, afianço) "Vida Soviética" - assinada por deveres de militância mas que lá em casa só eu é que (entre)lia, para recortes iconoclastas -, até aos livros de intelectuais "do partido", Urbano Rodrigues, Tavares Rodrigues, Alexandre Babo (nomeio-os de memória, pois longe das estantes), etc. que narravam, em reportagens e livros, os esplendores do mundo socialista. Nisso denunciando as mentiras da "Voice of America" e quejandos.
 
Com o descalabro da URSS vingou, em particular nas páginas do "Diário" da "verdade a que temos direito", a peculiar teoria explicativa daquele processo, a dos "erros e desvios". E nisso nenhuma autocrítica sistémica nem, muito menos, sombra de dúvida sobre a correcção do ideário. Nessa altura, já adulto e com o "meu Marx", resmungava-lhe que convocar "erros e desvios" não era uma leitura marxista do processo histórico. Mas pouco interessou isso. Foi uma estrondosa derrota histórica, e alguma coisa tinha que ser dita às "massas" para explicar o acontecido. E restou a crença num reinício a breve prazo, algo muito segurado pela espantosa robustez da personalidade de Cunhal. 

Nas duas décadas seguintes decerto que houve alguma reconfiguração do PCP, e também dos seus imãs simbólicos. Mas isso pouco acompanhei. Nem em leituras. E as conversas com o meu pai foram muito mudando de temas, dada a vida, a minha emigração, e as tantas coisas que iam acontecendo. Mas também o não querer eu "mexer na ferida". Mas nunca o ouvi, nem disso registo bibliográfico restou em casa, professar qualquer apagamento da cisão advinda do velho conflito sino-soviético. Como tal algo me surpreendi quando, já neste milénio, lá de Moçambique ia percebendo a junção da retórica do "Partido" aos interesses chineses. Quando o Dalai Lama veio a Portugal o PCP botou um texto violentíssimo, com uma verve qual anos 1930s ou similar, nisso sufragando a ocupação colonial do Tibete. Foi o último texto do velho dirigente Aboim Inglez, que morreria pouco depois. Eu viria a resmungar com o meu pai sobre isso e ele encolheu os ombros, num indito "é o que nos resta", mas não secundou a vil arenga. E quando o então jovem Bernardino Soares meteu os pés pelas mãos por causa da Coreia do Norte, nem sequer me respondeu ao remoque. A adesão, por algo distante que pareça, do PCP às ditaduras orientais - avatares modernos do velho "modo de produção asiático", atirava-lhe eu há 30 e tal anos - era-lhe desconfortável. Intelectualmente desconfortável. Mesmo para um "ortodoxo", pois nunca o deixou de ser.
 
O meu pai morreu. O PCP continuou no mesmo rumo simbólico e ideológico. Em 2014 votou contra uma condenação dos crimes do inenarrável regime norte-coreano. Em 2019 o seu secretário-geral tornou a negar uma denúncia da Coreia do Norte, explicitando a sua diferente concepção do que é "democracia" - em termos que seriam escandalosos se tudo aquilo não tivesse decorrido no medíocre, de culturalmente atávico, Portugal geringôncico. Nestes vinte anos de acelerada extroversão do imperalismo chinês nem uma vez o PCP expressou distâncias. Enfim, durante décadas, desde o 25 de Abril, nunca o PCP sinalizou qualquer afastamento às concepções e práticas que comandaram o regime soviético. E persegue agora num patético seguidismo às remanescentes ditaduras do antigo espectro comunista - ainda que a China tenha uma organização económica capitalista o PCP atrai-se pela aparente "superestrutura" política. 
 
Não se trata de acreditar eu que os militantes comunistas actuais queiram tornar Lisboa numa Pyongyang atlântica. Ou de exterminar pela fome as famílias dos bloguistas menos "amigos" e nada "camaradas". Trata-se sim de ter consciência de duas coisas: a primeira é relativa aos comunistas, que seguem neste magma simbólico e ideológico. A sua visão do mundo é, acima de tudo, meramente anti-americana (no que não vão sozinhos... basta ir até à universidade do Mondego para lhes encontrar congéneres). E ainda que se afirmem defensores dos "direitos" e "liberdades" não têm vínculo, moral ou de ideário, e acima de tudo afectivo, com a liberdade, individual e colectiva. Dela são inimigos, porque a entendem avessa ao futuro que almejam. E ao exercício político do presente. E comprazem-se na memória, e no sonho projectivo, de contextos históricos de atroz esmagamento dessas liberdades. 
 
A segunda questão é-lhes externa. Pois a forma como se entende o PCP é demonstrativa da forma como se entende e actua face ao social. Que muitos locutores auto-percepcionados como de "esquerda" (e até "centristas") surjam agora louvando o PCP será mais do domínio do tacticismo de Costa, que anima este ambiente. Mas há algo de mais profundo, de sociológico. E que melhor exemplo disso do que o do jornalismo de "referência"? Nos últimos anos o jornal "Público" desencadeou uma campanha pelo revisionismo da história portuguesa, muito decalcada de correntes norte-americanas, contando para isso com apoio de alguns académicos portugueses (e, ocasionalmente, de "lusófonos" bem integrados). O "Público" de Manuel Carvalho, e o feixe de académicos e jornalistas que isso vai animando, dizem-nos constantemente que temos de abjurar do respeito por personagens como Diogo Cão ou Duarte Barbosa, devido às formas como pensavam e actuavam. Que temos de nos expurgar desses legados, os quais serão mitos poluentes, factores da construção de uma errónea "identidade" nacional. Da admiração por esses vultos dever-nos-emos autocriticar, desculpabilizar, pois o que os de antanho fizeram - ou escreveram, como António Vieira e Eça de Queirós - moldam-nos as injustas formas de pensar e actuar. E devido a estarmos impregnados de tanto preconceito anterior estamos atreitos a reproduzir, ou a refractar, as injustiças quinhentistas, setecentistas, oitocentistas...
 
E depois, no intervalo desses paleios de activistas missionárias e de intelectuais esfuziantes, o mesmo "Público" faz um número quase-dedicado ao centenário comunista. E dizendo-os - aos nossos compatriotas contemporâneos, agentes políticos empenhados, produtores de textos actuais, influenciadores das práticas e concepções -, como se cândidos utópicos fossem, "em busca de uma sociedade que ainda não existiu". Ou seja, estes comunistas não têm categorias intelectuais ou preconceitos herdados de que se precisem depurar. Apenas procuram o bem. Trata-se do Padroado, por assim dizer. 
 
Se o meu pai fosse vivo no passado domingo eu teria atravessado as fronteiras concelhias para o ir saudar no centenário do "Partido". Teríamos bebido rum - cubano, claro -, ele ter-me-ia dito "calma, bebe mais devagar". Provavelmente teria resmungado mais uma vez "está na altura de deixares de fumar" - ainda que o tenha deixado de fazer apenas aos 77 anos. E eu ter-me-ia defendido agitando o "Público" do dia e resmungando-lhe isto que acabei de botar. E ele ter-me-ia sumarizado: "esses tipos são uns pantomineiros". E eu servir-me-ia de mais um rum.

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