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Crónica dos dias do Covid (10): O colapso de Marcelo

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Há muito mais em que pensar do que criticar políticos e políticas, e falo de mim, dos "nós" que conheço, centrados que estamos nos necessários rearranjos da nossa vida. Mas, como diz o Rui Rocha, o pensamento não está limitado. Uma coisa, e má, é encontrar, com denodo apressado, bodes expiatórios. Outra é olhar em torno  o que se passa. Pode-se gostar mais ou menos do governo, de António Costa e dos seus ministros. Pode-se embirrar com a actual ministra da saúde - ou pensar que cada vez que há uma crise sectorial os ministros falham (Lopes e Constança foram exemplos clamorosos). Pode-se agora protestar com a "prestação" (como sói dizer-se) comunicativa, e com os implícitos que demonstrou, do ministro da educação. Mas também se pode dizer que, de facto, o governo português esteve a par dos seus congéneres vizinhos. Ou, mais em pormenor, que o ministro Vieira esteve muito bem na sua "contra-prestação" comunicativa, salvaguardando os professores. Ou seja, o que quero dizer é que as críticas actuais ao governo derivarão - se já agora, infelizmente muito antes do rescaldo desta enorme crise - das simpatias e antipatias que temos. Assim, pouco relevantes, pois tendencialmente enviesadas. 

Mas bem diferente é o que se pode dizer do Presidente da República. O seu mandato tem sido peculiar, politicamente vácuo, feito de encenação de "afectos" (já aqui o resmunguei,  nada mais é do que a apolitização da política, decalcada da modalidade utilizada pelo seu pai, governador marcelista de Moçambique). De facto, MRS é um populista, e não apenas pelo seu tornear dos partidos aquando da campanha presidencial. Um populismo manso, mas populismo ... O que agora acontece, quando o  país entra em comoção, sem pânico mas com grande comoção, é que o presidente, supra-falador, vero incontinente verbal, desapareceu. Não influenciou a linha governativa, na sua magistratura política. Nem mesmo alertou para o que se adivinhava, dados os acontecimentos no mundo. Não influenciou - pois desprovido, dada a tipologia da crise, do seu método único, feito de meros abraços, beijos e auto-retratos, da tal opereta dos "afectos" - o sentir nacional, numa magistratura moral. Daqui a alguns dias, ou semanas, o seu círculo dir-nos-á que Marcelo Rebelo de Sousa nos deu o exemplo ao encerrar-se em casa, como agora nós estamos. Mas não era esse o seu papel. Era o de marcar a agenda política, de suavemente alertar, consciencializar. E, depois, o de ombrear a agenda executiva. E, agora sim, conversar com o povo, acompanhar as nossas dificuldades, convocar ao caminho difícil. Neste silêncio, de facto devido a que não suspendeu o seu corropio pitoresco, que julga ser o papel presidencial, quando deveria ter sido o primeiro a conter-se aos "convívios sociais", Marcelo mostra agora o óbvio. Desprovido de gravitas - tratando da sua lida doméstica, como pateticamente veio dizer à televisão - comprova a sua inutilidade. De longe, incomparavelmente, o mais inútil e desapropriado presidente da república que a democracia conheceu. 

Temos pela frente uma difícil época. Que não seja tão terrível como os piores dos nossos pensamentos e temores deixam temer. Depois, bem depois, bem que poderíamos, em particular a sua base "inorgânica" de apoio, reflectir e perceber quanto foi tonitruante este silêncio de marcelo. Um colapso. A mostrar o seu vazio. E escolher, à direita, ao centro, à esquerda, um Presidente da República. Depois disto tudo muito iremos precisar de um. Não disto.

(Adenda: escrevera isto antes da "comunicação pessoal" [francamente ....] de Rebelo de Sousa. Escrevo a adenda para realçar uma coisa. Neste momento, nesta crise, neste ... domingo, Sousa convoca uma reunião para quarta-feira para discutir ... a instauração do "estado de emergência". Dizer mais alguma coisa?).

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