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Nenhures

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O Discurso do 10 de Junho (3)

jmt

Discurso de João Miguel Tavares em Cabo Verde.

Para um tipo como eu, português que passou duas décadas numa antiga colónia portuguesa, e que sonha com a hipótese de um dia (algo distante, se possível) lá ir morrer , e que ainda para mais por lá leccionou durante 15 anos, ler um texto destes, proferido num discurso comemorativo do dia nacional português, é momento de júbilo. O que Tavares diz sobre o colonialismo (português) mas não só, o que desmonta da perene ficção da "excepcionalidade portuguesa", o que se afasta explicitamente da loa "lusotropicalista", o que diz sobre "responsabilidades históricas" nacionais, o que diz sobre a reprodução das desigualdades no nosso território nacional, a perenidade da estratificação social que se alimenta dos fenómenos migratórios oriundos do anterior contexto colonial, o que diz sobre a necessidade de as combater, entendendo-as como fenómenos de "classe" ainda que sem descurar as suas componentes culturais e linguísticas, e, fundamentalmente (porque intelectual português), o que diz sobre o ensino multilinguístico, e a necessidade de fixar, preservar as línguas africanas e introduzi-las no ensino, em particular considerando a responsabilidade histórica de Portugal de nisso contribuir e de a isso proceder no próprio ensino oficial português, é um inusitado acto de civilização. Totalmente ao invés do pensamento dominante português, seja no espectro dos intelectuais profissionais, seja, e principalmente, no mundo das organizações estatais e para-estatais e seus funcionários.

Será talvez mais fácil perceber que Tavares aqui repudia a reemergência da ideologia racialista, actualmente conduzida pelos movimentos da esquerda neo-marxista, identitarista. Mas o que é importante perceber, que será talvez mais difícil de atingir às pessoas distantes destes contextos laborais, é que Tavares, em plena comemoração do dia de Portugal decorrida numa ex-colónia, clama pelo abandono - quem me dera que fosse definitivamente - da  noção de lusofonia, e todos os seus implícitos efectivos. Uma noção que é a cristalização dos pressupostos coloniais - não digo colonialistas, nem mesmo neo-colonialistas mas coloniais. Uma noção que foi desenvolvida pelos intelectuais socialistas no após-descolonização, e foi-o porque eles eram culturalmente herdeiros do Partido Republicano, o grande partido colonialista português (e convirá lembrar a tardia recusa do colonialismo pela oposição portuguesa: os comunistas, grosso modo, somente a partir de meados de 1950s, a "oposição democrática" de facto apenas desde finais de 1960s por Mário Soares, mas mesmo assim com  pouca adesão de outros, como se vê mesmo durante o início de 1970s). E que de imediato colheu agrado junto de outros núcleos intelectuais, desde os mais ligados ao antigo regime aos então oposicionistas brasileiros, que sonhavam um Brasil potência - algo que veio a encetar-se durante a presidência Lula.

É um grande texto, é uma grande reflexão, é uma grande visão. Vénia, caramba, vénia a João Miguel Tavares. O que está aqui é um verdadeiro discurso de "esquerda", naquele velho sentido que se lhe deu, "progressista", "crítico", "iluminador". Confesso que não esperava que surgisse em tamanho contexto, ainda para mais vindo de um tipo que conheço de nacos do "Governo Sombra" - programa que não sigo - e de textos de opinião no Público, de que às vezes gosto outras não tanto.

E será também um texto que poderemos confrontar com o que os "lusófonos" do Estado ou com o Estado,  esse núcleo cultural e profissional PS, esses que durante estas últimas décadas têm usado uma lente ignorante e ineficaz nas relações com África (não apenas a das ex-colónias portuguesas), pensam sobre o real. Ou, por outras palavras, para perguntarmos: afinal quem é que é de "direita"?

Em suma, até porque escrevo isto de rajada, repito-me: minha Vénia a João Miguel Tavares.

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