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Nenhures

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O manuseamento da História e o Racismo (2)

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Antes: O manuseamento da História e o Racismo (1)

4. Nesta matéria é interessante a superstição dos crentes. É como se as representações pictóricas do passado, monumentais ou não, tenham a capacidade mágica de transformar os passantes, aspergindo-os e assim impregnando-os com as malevolências em tempos desejadas (ou aceites) por aqueles que elas evocam. Cruzamos a estátua de um marinheiro de mentalidade medieval, de um cronista humanista, de um funcionário já renascentista? E logo nos tornaremos, de modo sonâmbulo que seja, epígonos das suas vontades e crueldades, mesmo daquelas que aquele nunca terá imaginado - mas nunca das suas qualidades, claro ... Isto nem é uma espécie de "totemismo d'hoje", é mesmo uma simplória redução do simbólico ao linear, a mero reflector de uma qualquer essência pré-determinada. 

Mas esse garimpo dos defeitos desses egrégios avós é selectivo pois o critério único, a pobre peneira, é mesmo uma desbragada orgia de um putativo "hoje em dia", nada mais do que uma redução das diversidades do passado e da actualidade aos trinados deste "festival da canção" contestatário. Desafinados coros trauteando a nossa maldade não só como excruciante como até ab ovo, como se genética e assim apenas minorável por quaisquer mesclas. De facto, torpes discursos racistas, de fedor "moçarabista", que saúdam o Bem sinalizando-o como de "cor" diferente, mais tisnada.

D. Henrique, o tal infante que o Estado Novo redescobriu e até retabulizou, é um verme escravista. Mas, por exemplo, Pedro, o 1º? A esse podemos visitar sem temores, a proximidade física não nos fará, subrepticiamente, adeptos daquela união que aquela disposição de mosteiro tanto alardeia, entre Estado e Igreja - ainda que não seja de bom tom aludirmos com menosprezo às vivências teocráticas de alguns dos nossos vizinhos, pois a única igreja verdadeiramente criticável é, como se sabe, a católica, dado que qualquer outra laicidade, iconoclasta ou não, é doutamente entendida como "racismo cultural". Nem a sua visão nos fará abjurar da república, desfraldando-nos Paivas Couceiros.  Olho o monumento a Pedro I, que por ciúmes mandou castrar o amante e por vingança matou com as próprias mãos o assassino da mulher - pobre agente que cumpria ordens régias - e lhe terá trincado o coração, dizia na colecção de cromos, porventura tendo-o degustado? Ficarei nessa visão qual Ventura a querer castrar, quimicamente que seja, os pedófilos e alongar indefinidamente as penas actuais, ou até mesmo - lá lhe chegará o dia, ao mariola -, a clamar pela cadeira eléctrica? Não, neste caso o monumento não é eficiente. Pois não me retira da república, nem me faz reclamar o vínculo homossexual como fidelizador, nem mesmo a pena de morte e o canibalismo. Mas folheio um livro de Pessoa, que terá alguns escritos menos actuais sobre negros? E logo em mim brotará uma volúpia agressiva, perseguirei com denodo os "afrodescendentes" que, assim vistos como malvados e impuros, me circundam.

Neste olhar sobre os monumentos é também interessante a união desta crença na eficácia mágica com a Física. Pois são condenáveis e injuriáveis aqueles itens que tenham proximidade física, quase palpáveis, estátuas de pequeno porte e curto pedestal, imagens impressas, livros ou mesmo filmes - pois ainda não chegámos às "intervenções" nos quadros expostos, reclamando o estatuto de sujeito político dos tais interventores, como dizem os desvairados Doutores desta gente, mas lá chegaremos, lá chegaremos ... Mas está o figurado algo apartado?, altaneiro ou ermo? Pois se assim, e devido a essa distância, as gentes não serão transfiguradas pelos  miasmas da peçonha maldosa, e ficam os monumentos, mesmo que gigantescos, resguardados deste afã purificador.

Ao de facto quase esquecido seiscentista levanta-se uma recôndita estátua à escala humana? Ergue-se a escritora - essa "democrata" que fotografa imigrantes acicatando as fúrias xenófobas da "esquerda" que apelam à expulsão dos brasileiros -, ululam académicos do eixo Forças Armadas/Berna, berram os da imprensa, chegam delegações de homens bons da província para apoiar a insurgência contra o malvado conivente com a escravização dos negros. (Infelizmente) Quase todos os anos juntam-se hordas do povo da Grande Lisboa, em delírios festivos, místicos até, no sopé do Protector Marquês? Esse que foi o grande planificador, o do grande fomento do comércio de escravaturas, e que serve ainda de argumento até ao patusco presidente Sousa para aldrabar a história do país? Nesse caso não há problema, pois a estátua é tão alta que não nos transforma em negreiros, nem os milhares de "afrodescendentes" guinchando enrouquecidos o estribilho "SLB" se reverão como os seus "afroantepassados", esses que incessantemente cruzaram o gigantesco continente raptando, pilhando, massacrando, transportando, vendendo no litoral a tipos de peles algo mais claras as suas "alteridades" (e tantas vezes as próprias "identidades") que gulosamente haviam transformado em objectos escravos. Ou seja, António Vieira não foi suficientemente original na luta contra a escravatura, condenam-no os Doutores de agora enquanto reclamam o bota-abaixo da estatueta que nos mantém quase negreiros e que tanto fere as sensibilidades dos "afrodescendentes" por cá residentes. Mas o malvado SLB é (mais uma vez) campeão? A malta toda, preta, branca, mulata, vai para o "Marquês" comemorar e ninguém dali sai transformado em negreiro pós-colonial ou em comovido, ferido, até choroso e acima de tudo explorado tetraneto de escravo.

E é a esta tralha de gente, e aos seus Doutores, que se dá atenção?

(cont.)

 

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