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Nenhures

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Um almoço com dois amigos de infância, 3 tipos da safra de 64 face a um choco frito diante do Sado, a fruir a frescura daquela aragem tão contrastante com a malvada estiagem que me assola nas colinas circundantes. Segue-se uma chinchada aos citrinos - "bio", dizem-nos os burguesotes -, uma sacada deles conquistada. Depois avanço, cruzo o Tejo na ânsia do Trancão, e culmino com uma imperial na tasca operária que bordeja o Fernando Pessoa. 

E por isto tudo só ao um quarto para as oito chego a casa, já ladeado por um outro velho amigo, este lampião - ácido, agreste, malvado, "espero que vocês percam"... "ainda que o Porto..." - e jovem "sobrinho", lagarto, algo nervoso. Ali tristonhos, pois condenados a ouvir o relato, e nesta horrorosa versão televisiva de agora. "Que se lixe", resmungo eu, de súbito em modo estroina, "um dia não são dias" e tiro quinze euros ao rancho, mais do que gasto eu em carne por semana, mais do que duas garrafas do elixir Queen Margot, cinco dias de assinatura dos canais da bola, "isch, é dia de festa!", saúda o meu amigo enquanto o puto esfrega as mãos...

Abro uma aprazível "Argus" do Lidl (como podereis ver, continuo - "como quem não quer a coisa" - sempre em busca do patrocínio desta cadeia comercial) e começa o jogo. Aos 40 e tal segundos já o árbitro dá um cartão amarelo ao nosso Matheus Reis, apenas por um viril encontrão. Clamo a consabida indecência do comportamento sexual da mãe do apitador e, reconhecido áugure que sou, faço o resumo do que acontecerá: "o gajo já perdeu o controlo do jogo". O adepto de Carnide ri-se e ao miúdo, ainda inexperiente nisto, sai-lhe um "achas?", ao que o lecciono, saber de experiência espectadora feito, "claro, quando começam assim acabam com tudo estragado".

Segue o jogo, o Porto muito melhor, pressionante, ágil, dominante, os nossos algo estuporados, atarantados, atrapalhados, "que é isto!!" vou resmungando em dialecto de caserna, pois "o Porto está como naquele jogo com o Benfica!", "a estrafegar-nos", "vamos levar uma sova". De súbito o nosso 1-0, naquele magnífico movimento - amortecimento no ar, cruzamento imediato sem deixar a bola cair no chão - de Matheus Reis ("não tem capacidade técnica para jogar no Sporting", afiançámos), cabeceamento perfeito de Paulinho ("não joga nada" dizem os intelectuais da bola).

O Porto não treme, continua, justiça lhe seja feita, a jogar mais.  E eu resmungo, constantemente, "onde está o Palhinha, falta o Palhinha, porque não joga o Palhinha, o que é que deu ao Rúben, que tirou o Palhinha, isto com o Palhinha era diferente, estão a dormir sem o Palhinha, não ganham uma bola no meio-campo sem o Palhinha, mete o Palhinha, pá!". Mas vem o nosso 2-0, excelente jogada de futebol - na qual também muito participa o tal Reis (sim, esse que não tem qualidade para jogar no Sporting). Entretanto viera um cartão amarelo mesmo despropositado para Coates. Logo repeti, porque o julguei relevante, o que sei de fonte segura sobre a indecência sexual da progenitora do árbitro bem como aludi à consabida volúpia anal que a este sempre acomete. Antes e depois dos jogos.

Enfim, no meio daquela confusão que vai medrando, tudo cada vez mais arisco e desabrido, Pinheiro, o tal árbitro que alguém bem sabido para ali atirou, faz uma coisa raríssima em Portugal - e também "lá fora" - e muito louvável, "à râguebi". Chama os capitães da equipa e convoca uma responsabilização destes para a acalmia disciplinar. Louvo de imediato, a inusitada mas regulamentar acção. Mas logo me desato a rir. Pois o desgraçado tem aquela boa intenção mas é incapaz de afastar os outros jogadores, como é necessário nestes momentos, que em massa rodeiam aquele colóquio, entre óbvias interjeições verbais e imprecações corporais. E para cúmulo dos cúmulos, para total funeral da personalidade de Pinheiro, os dois capitães - Coates e Pepe - saem dessa conversa com o árbitro em evidente desatino mútuo. Desato-me a rir, "eu não dizia? o gajo não tem qualquer controlo dos jogadores, ninguém o respeita!", "olhem para isto!, chama os capitães e eles saem dali aos gritos e ele dá-lhes as costas".

O Porto faz 2-1, num atrapalhada jogada em que eu desespero "o meu reino por um Palhinha". Esgaio leva um amarelo antes do intervalo. Levanto-me do suplício "temos três defesas com amarelo, pelo menos um deles vai ser expulso, e deve ser o Coates". E avanço "até logo". "Onde vais?", interrogam-me. "Vou ao aeroporto, buscar a miúda, que chega agora, uma semana de férias escolares". "E ela não pode apanhar um táxi?", diz o mais-velho, pai tarimbado. "Mas tu achas que eu não vou esperar a minha princesa?", sorrio pai babado e amoroso. "Então assinaste os canais para ver o jogo e agora não vês a bola?". "Que se foda", concluo, até magnânimo "até porque vamos perder, este filhodaputa está a fazer tudo por isso".

E lá vou até ao aeroporto da Portela ("Generalíssimo Humberto Delgado", chamaram-lhe os mariolas e ignorantes que mandam no país). Há já dois meses que não ia lá. E deparo-me com o átrio das "Chegadas" apinhado e animado, como naqueles "velhos tempos" pré-pandémicos, e nisso me animo num "está visto, acabou o Covid!!", e é isso que é importante. Na desembocadura está uma multidão de negros e nisso tenho esperança que seja um avião de Maputo que esteja a chegar, se calhar até apanho caras conhecidas, quiçá um abraço ou outro, mas não, é de Bissau que aterrou um outro. Desliguei os dados móveis do telefone e folheio, distraidamente, o "de bolso" que levei.

Toca-me o telefone, julgo que é a minha filha a dizer-me "já aterrei", mas não. É o "sobrinho", lá em casa: "tinhas razão, o Coates foi expulso". Repito um palavrão, e digo-lhe "Aprende, que eu não duro para sempre".

A minha filha chegou, bem-disposta, encantando o seu pai. Abraçamo-nos. Que se lixe a taça. E toda aquela pantomina. Esta.

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