Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Nenhures

Nenhures

O Retorno

retorno.jpg

Já alguns amigos me haviam aconselhado este "O Retorno", publicado em 2011. Fui adiando, algo desconfiado. Cada vez leio menos ficção - e cheguei à idade das releituras - e nesta ainda menos vou lendo a portuguesa. Fiz mal. Pois trata-se de um belo livro. A trama é conhecida, uma família de colonos pobres que se atrasam na partida de Angola, com o pai crente que seria possível ali continuar após a independência. O pai será preso, a mãe e os filhos adolescentes, Milucha e Rui, ele o protagonista, pelo menos sujeito da narrativa, partem na ponte área, serão acolhidos num hotel perto de Lisboa (e do mar), enquadrados pelo IARN, onde ficarão um ano. Depois, a vida continuar-lhes-á noutros moldes.

 

Belo ritmo, belíssima prosadora, excelente recriação dos últimos dias de Angola. E bastante ilustrada a descrição, raríssima, do mundo do "retorno", da acomodação dos colonos pobres, esses que vinham sem propriedades na metrópole ou famílias prontas a acolhê-los, ficando acantonados nos hotéis. A narrativa mostra ainda o acinte com que os "metropolitanos" receberam os colonos, inculpados de "exploradores de pretos" no processo de higienização da auto-representação da sociedade portuguesa: os colonos malvados vs os metropolitanos vítimas do fascismo e colonialismo.

 

O livro terá coisas a mais, a homossexualidade avuncular é não só desnecessária à economia do texto- e muito assunto de "moda" actual. Mas, pior do que isso, ao associar a adesão do jovem tio à revolução angolana a uma deriva sexual - de facto, nesta ancorando a adesão -, uma espécie de exotização, a autora perde a oportunidade de aludir à muito mais interessante questão (naquela época) da adesão militante de alguns extractos da sociedade colona, em particular os jovens, aos movimentos independentistas. Também a questão da doença "nervosa" da mãe do protagonista, ainda que sirva para delimitar alguma especificidade daquela família no seu contexto vicinal - e assim permitindo um olhar sobre os processos de sociabilidade entre aqueles núcleos -, parece-me mal resolvida, algo que paira e deixa de pairar, numa abrupta "cura" final que não esconde a inutilidade do detalhe dramático.

 

Finalmente, as personagens do hotel, os retornados acolhidos pelo IARN, o Pacaça e outros, são verdadeiras caricaturas. Cardoso é hábil ao fazê-las mas, de facto, não são mais do que isso. É defeito? A obra de Eça de Queirós é uma colecção de caricaturas ... Assim sendo, é característica. Mas talvez seja de lamentar que a autora não tenha aproveitado para criar mais algumas verdadeiras personagens, cruzando-as, menos tipificando o processo.

comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Mais sobre mim

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.