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Nenhures

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22
Out23

Os Custos da Idade

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Isto de envelhecer traz vários problemas. Um deles - que não é o pior - é o crescendo de impaciência, a total falta de pachorra para as "novidades" e "excitações" que se vão sucedendo, isto porque em tempos recuados já se ouviram tais coisas, e até repetidas vezes, (res)surgindo estas agora apenas como tralha estafada, requentada, verdadeira fancaria.
 
Quero fazer-me entender, a impaciência é uma qualidade, um precioso método analítico. Mas faz correr riscos, pois tem dois corolários que são contraditórios, ainda que muitos não os apreendam como tal. Pois o impaciente tende ao menosprezo - de factos, ideias e pessoas -, o qual é uma virtude extrema. "Virtude" num velho duplo sentido, o de impregnado de bem e o de potencialidade para a acção. Pois é uma peneira, tornada instrumento de optimização da reflexão e acção. Mas o impaciente tende também para o desprezo - de factos, ideias e pessoas -, o qual é um pecado, pois inibe a acção, ao promover a distracção sobre o mal - esse que habita em factos, ideias e pessoas. Pecado esse a evitar, de molde a impedir a tal distracção face aos inimigos, que letal pode ser.
 
Um querido amigo acabou de comprar no OLX (já agora, eu estou a vender livros, lindíssimos e baratos, no OLX e no Facebook e não aparecem compradores, raisparta a vida...) a colecção quase completa da "Gaiola Aberta" e a da "Fala Barato", publicações do grande José Vilhena. Passei hoje um bom bocado da tarde em sua casa a folheá-las, rindo-nos todos à gargalhada, com a coragem, o talento e o desplante de Vilhena. Mas também ufanos do ambiente em que crescemos, em que este registo abrasivo era não só aceite como aclamado.
 
E esta capa serve-me, que nem luva, como exemplo do que quero dizer sobre os efeitos distintos da tal "impaciência". Este ano saíram duas biografias de Pessoa, que foram muito compradas e talvez até lidas, e também tópicos na imprensa e nas redes sociais. Nas quais amiúde se discutiu as respectivas abordagens, ditas relevantes e até inovadoras, à vida sexual do poeta. Um biógrafo afiançou-o homossexual, outro garantiu-o heterossexual. Debateu-se o tamanho do seu membro viril. Resmunguei em monólogo com a conversa de "ir ao cu", se literalmente falando. Menosprezando a tralha, livros (para quê ler uma - grande - biografia de Pessoa?, para quê comprar uma - grande - biografia de Pessoa?) e conversas dedicadas. E lá está, é um menosprezo não agressivo, liberal ("vive e deixa viver" transposto para o "lê e deixa ler"), vindo da tal impaciência do envelhecido, de quem tem estrada atrás. Pois esta capa de Vilhena, que acabo de recordar, é de Julho de 1988 - tinha eu 24 anos! Como é óbvio não posso deixar de menosprezar, mas sem qualquer desprezo, estes taralhoucos de agora.
 
Mas este meu snorkeling em Vilhena recorda-me a necessária distinção, os cuidados a ter com o tão propalado "desprezo", distractivo. Pois ao folhear as revistas é evidente que a liberdade que Vilhena tinha - em texto e em imagem - é passado. Por exemplo, a forma desassombrada como enfrentou uma jovem socialista em ascensão - e 30 e tal anos antes dessa gente roubar vacinas do COVID para dar aos seus familiares - seria hoje perseguida. Apesar do roubo de vacinas... E nós temos tendência para "desprezar" os tais ladrões de vacinas e assim neles desatentamos, esquecemos como mantêm influência determinante.
 
E esquecemos também - muito pelo tal "desprezo" - o persistente esforço dos donos do regime em fazer reduzir a liberdade de expressão, "escatológica" que seja. Compare-se o sarcasmo hiperbólico de Vilhena e veja-se as reacções ao "cartoon" do professor sobre Costa em 2023... Lembro eu aquele que o PS fez quase juiz do Tribunal Constitucional, no Parlamento a considerar que um "terroristas e cartoonistas estão bem um para o outro", ou o "cultural" socialista Oliveira Martins a considerar que há barreiras "de bom gosto" para a liberdade cartoonística (e decerto que para outras). Já para não falar daquele Magalhães, dito "pai da internet portuguesa", a fazer uma lei com potencialidades ("virtudes") censórias, defendida na tv pública por uma mulher que nele se esfregava. Esta gente não é menosprezável. Nem desprezível. Pode ser, e é, repugnante. Mas são inimigos, e há que neles ter atenção. O "apreço" da atenção vigilante.
 
Uma adenda, para melhor fazer entender este peso da velhice impaciente? Perguntam-me o que penso eu daquilo em Israel. Eu lembro-me de estar em casa dos meus avós maternos, ali na Luís Bívar, diante do já extinto Hospital Particular. Ora o meu avô morreu quando eu tinha oito anos. E estávamos ainda todos à mesa, ao jantar, o telejornal a preto-e-branco tinha como introdução um globo terrestre girando. Depois apareceu Moshe Dayan, o ministro israelita com pala no olho, que me cativava por ser "pirata". E também Yasser Arafat. Como é evidente 50 anos depois menosprezo os doutores ("politólogos", alguns dizem-nos, "comentadores", outros grasnam) que me vêm explicar os "direitos históricos" de uns e de outros dos contendores, carregados de prosápias certeiras.
 
Mas não menosprezo, e muito menos desprezo, o político energúmeno que informava a embaixada russa sobre os oponentes ao regime de Moscovo, aqui residentes ou visitantes. E que também informava a embaixada israelita das actividades de palestinianos (e outros) avessos ao regime de Telavive (ou Jerusalem, escolham), aqui residentes ou visitantes. Não o desprezo porque é o inimigo. Será repugnante mas nunca desprezível, pois há que nele atentar. Nele e na infecunda mole dos seus apoiantes - "ai o Medina respondeu muito bem ao ter levado com a tinta verde", ouço e leio os seus sequazes que tanto grassam no meu desgraçado país.

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