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Nenhures

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A semana passada ouvi, um pouco "en passant", dois generais portugueses, Costa e Cunha, comentando na televisão a guerra ucraniana. Fiquei um bocado incomodado - em parte, mas não só, pelo vincado tom "compreensivo" da atitude russa e até credibilizador dos seus argumentos. É certo que sobre o que eles avançavam relativamente às movimentações militares nada posso dizer, pois desconheço-as e sou totalmente ignorante nesse ofício, que é o deles. Mas o que mais se me realçou foi o seu fundo cultural, a mundividência que neles transparecia, até mesmo sendo explicitada.  Enfim, monologuei um resmungo, e mudei para um dos canais que venho seguindo. E deixei-me pensar que se calhar a minha reacção se devia apenas ao meu (envelhecido) mau feitio.

Passados dias encontro na imprensa eco que o meu mal-estar não foi único, mais gente resmungando com estes contributos do nosso generalato. Há mesmo quem lhes atire tendências putinescas. Ora nem é isso que me convocou a atenção, foi muito mais a tal mundividência que patentearam, traduzível numa "cultura profissional".

Explico-me, começando por uma ressalva (o tal "disclaimer" que os do "broken portuguese" agora usam), que julgo necessária para me fazer compreender: o militar português contemporâneo cuja memória mais respeito - e sem menosprezo por nenhum outro - é a do general Vassalo e Silva. Ao qual a democracia justamente reabilitou mas ao qual talvez não tenha honrado o suficiente, por razões se calhar incontornáveis. Ressalvo isto para não aparecer aqui como um patético e furioso castrense de sofá. Avante...

Sendo eu um civilista, e pouco lido em história militar e nas ciências desse ramo, tenho uma vaga ideia de que diante de uma invasão de um país por forças estrangeiras bastante mais poderosas haverá, grosso modo, quatro tipos de respostas: 1) rendição imediata, salvaguardando vidas humanas e, secundariamente, bens materiais; 2) uma breve resistência, durante a qual se procura organizar uma hipotética futura guerrilha; 3) resistência extremada, até sacrificial, assente na fanatização nacionalista e na demonização do invasor (como na II Guerra Mundial o foi a japonesa e a alemã na frente oriental); 4) mobilização geral dos recursos humanos com exaltação do patriotismo, possibilitando uma resistência algo prolongada, solicitando apoios externos, políticos-diplomáticos e mesmo militares. Tudo para procurar uma negociação final em termos o menos assimétricos possíveis, salvaguardando o que for possível para os desígnios nacionais.

Parece-me óbvio que é este último o objectivo ucraniano. Ora o que eu ouvi dos dois generais comentadores é uma acusação ao nacionalismo ucraniano (Costa inclusivamente igualizou o nacionalismo ucraniano e o russo, a ambos negativizando), e uma denúncia da atitude do seu governo em mobilizar a população para esta defesa - julgo, mas não afianço, que um deles até chamou a essa opção "criminosa" - dada a disparidade de forças.

Ora aquilo que me choca - para além das perspectivas e dos conhecimentos que estes generais possam patentear sobre as práticas militares em curso e as questões geoestratégicas envolvidas - é ter dois generais portugueses a criticarem desta forma radical uma opção patriótica de defesa de um país. Pois se é para isto que formamos generais, se é para ter generais que julgam errado defender um país para conseguir melhores termos de rendição, acautelando o futuro o melhor possível, se é para termos esta mentalidade de funcionário público do economato no topo das nossas Forças Armadas, então será melhor encerrá-las. E com as poupanças aumentar o contributo à NATO (ou similar) que nos trate da Defesa. Ou contratar umas empresas mercenárias. 

Pois com estes generais não iríamos lá.

 

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