Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Nenhures

Nenhures

Ponta Gea, de João Paulo Borges Coelho

ponta gea.jpg

Gosto imenso dos livros de João Paulo Borges Coelho. Tanto que até já me atrevi a escrever um texto (mais longo) sobre o conjunto da sua obra, fingindo-me oficial de um ofício que não é o meu. E quando o autor publicou este "Ponta Gea", um conjunto (quase)memorialista de 15 histórias sobre a sua infância e adolescência na Beira - Ponta Gea é um bairro daquela cidade -, botei um outro texto (mais curto) sobre o livro, pois imenso dele gostei. É a minha forma de chamar a atenção para livro e autor, que para mais não servirá este tipo de textos. Um convite (que é mesmo convocatória) à leitura que procura enfrentar algum desconhecimento dos leitores e, acima de tudo, o abandono a que o vota a editora do autor - e o caso deste livro é marcante: meros 500 exemplares publicados, os interessados procurando o livro sem o encontrar. Uma irracionalidade. Injusta.

Quando em Março último Sofala foi devastada pelo ciclone Idai, e a Beira inundada, muito me lembrei do livro. E a ele regressei. Não o escrevi então, por mero pudor, pois alguém poderia julgar que estaria a aproveitar a terrível desgraça para ganhos de um livro, mesmo que não fossem meus. Passado este tempo julgo que não parecerá abusivo fazê-lo, lembrar o livro - que ainda para mais deverá estar esgotado. E sinalizar que acompanhei então, cá tão longe, aquela imensa desgraça humana com a releitura deste livro

Pois essas memórias da Beira (anos 1950s e 1960s), essa que agora foi alagada, começam assim: 

"É a primeira e mais persistente lembrança: a água como substância da cidade. Uma água quieta, no mangal como nos capinzais, nos tandos de arroz e nos baldios urbanos cuja noite o monótono som dos grilos trespassava; insidiosa também, na onda paciente que escavava a areia grossa e se espraiava até lamber a raiz torturada das casuarinas, enchendo os corvos de maus presságios e de indignação; e avassaladora, nas chuvadas súbitas e no ar carregado que toldava o horizonte e nos pesava, derrotados, sobre os ombros. Uma água cálida onde nadam todos, aqueles de cujo rasto ainda a espaços me vou apercebendo, e os outros, os que vogam em círculos como peixes aprisionados no aquário do esquecimento.

E o mangal como origem de todas as coisas. A água respirava, subia como se nascesse do âmago da terra, borbulhando nas tocas dos caranguejos e amolecendo o chão até formar um magma frio e baço, o matope que simula o princípio da matéria, aquilo que as pedras foram antes de ser duras, a lama original onde se contorcem os mussopos e os peixes-sapo, animais anteriores a todos os outros animais, imobilizados no gesto de deixar o casulo e, portanto, condenados eternamente à dolorosa repetição do acto de nascer. A frente está já em terra, com os seus olhos míopes e bracinhos diligentes, enquanto o corpo é p0uco mais ainda que uma cauda de peixe, uma língua pastosa e fremente que arrastam em desespero, achando que é aquilo que os impede de voar."

Fica o desafio a quem encontrar um (esquecido) exemplar. Leia-o, apesar da Leya. 

Mais sobre mim

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.