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Nenhures

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25
Jun21

Portugal-França (crónica)

jpt

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Aqui só ontem começou o estio. Ao ar livre almoçou-se um delicioso - e bem picante - chacuti de frango (de galinha, no português de outros lugares), só como quem não quer a coisa, apenas "para de vez em quando se mudarem os sabores da comida", assim se legitimou o (excelso) cozinheiro. Fui frugal, para evitar delongas na sesta. Ao fim da tarde transportei um dos comensais à Portela de Sacavém, fazendo-o em modo despreocupado pois afiançara-me ele que antes de embarcar poderia ver o jogo na sala de espera - um desses espaços que por alguma razão levam agora o críptico nome de "lounge".

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E logo regressei à sede do ambicionado sofá-camarote, para isso meneando-me entre algum trânsito pois o povo trabalhador segue livre para se deslocar nesta área, dado que o Estado apenas para o lazer lhe veda a mobilidade. Quando sozinho ao volante ouço rádio e tive ontem a sorte de partir do aeroporto - esse que agora evoca um nazi beatificado pelas suas aspirações a Generalíssimo luso - no exacto início do programa "Floresta Encantada", uma hora dedicada ao já cinquentenário "Blue" de Joni Mitchell, minha eterna paixão desde aquele juvenil "Coyote".  E nisso se me amornou o pé, lânguido auto-estrada afora, retardando-me até, apenas cioso de me apresentar ao entoar do hino pátrio, pois sigo sempre disponível para trautear a invocação dos nossos egrégios avós, que tanto calcorrearam sobre a terra, sobre o mar... Fazendo-o sem serôdias "decolonizações" nem exógenas mãos nos peitos.

E assim aconteceu, aportando ao estádio doméstico ainda a tempo de me dessedentar entre um sortido de "minis" - jamais "Sagres", devido a ter essa marca desrespeitado o nosso Rui Patrício - e nacos de um aprazível queijo eborense. Adiado para depois do jogo ficou o repasto, a especiosa perna de porco caseiro temperada com a suprema sageza do keep it simple, a qual viria, horas depois, a restabelecer saberes e sabores desta nossa moldura humana. Mas ainda antes de soar o hino desapontei-me com as modificações na "equipa de todos nós". Pois duvidei ter o veterano João Moutinho - de quem sou grande apreciador, ao invés de muitos sportinguistas mais atreitos ao ressentimento - a energia suficiente para enfrentar o monumental meio-campo gaulês. Pior por ali ombrear com o rebelde Sanches, um insurrecto capaz do oito e do oitenta na mesma investida. E também, acima de tudo, porque sigo crente na urgência da promoção de Palhinha e Rúben Neves. Não estava ali sozinho na desilusão e mesmo temor descrente, indisposição apenas matizada por sábio presente que augurou "se formos eliminados cai o Costa..." tamanha é a pantomina em curso, dando-me a benesse de um "pelo menos isso, não se perde tudo!". Mas, e ainda de prisca nos lábios, antes do apito inicial confidenciei à ágora local  "mas se passarmos o Engenheiro é o maior!", assim dando primazia ao oficial (general) do ofício.

Do rolar do esférico todos sabem - tal é a inundação futeboleira que devasta a imprensa nacional. Ocorre-me salientar uma França inicial não tão macia assim, talvez nervosa ou mesmo abespinhada, como o demonstraram os vários cartões amarelos distribuídos pelo algo palrador árbitro. E nisso a contrastar com o já notório cavalheirismo luso, uma equipa a notabilizar-se pela extrema correcção nos relvados. A nossa alegria foi amesquinhada junto ao intervalo, naquela grande penalidade provocada pelo infeliz Semedo, a qual nos levantou um coro de injúrias ainda que convictos de que se ocorresse falta semelhante na área transpirenaica logo gritaríamos em uníssono um triunfante "Penálti!!!". Corolário do sucesso goleador do retornado Benzema foi um acentuado decréscimo na degustação nesse intervalo, no meu caso apenas preenchido com o recurso ao sempiterno amigo Amber Leaf. A segunda parte trouxe, finalmente, João Palhinha. Mas logo o golo adversário, a incrementar a angústia já promovida pelos mágicos magiares, cujo surpreendente desempenho então me impelia a estrear-me: nas vésperas dos meus 57 anos torci, o mais arreigadamente que consegui (ainda assim bem pouco, entenda-se) pela Mannschaft. Nesses frémitos, e insensível à referida vetusta idade, reforcei o recurso ao tal Amber Leaf.

Mas tudo está bem quando acaba bem! O extraordinário Cristiano Ronaldo continuou na sua lendária senda de recordes: dois golos contra o actual campeão do mundo tornaram-no o melhor marcador de sempre em fases finais de Mundiais e Europeus e, decerto que por breve ex aequo, melhor marcador de sempre em selecções nacionais. Mas a grande figura nacional do dia foi um outro dos três mosqueteiros que encimam o postal (os quais, como todos os leitores de Dumas sabem, são quatro - e na fotografia aposta falta Moutinho): a Grande Muralha de Marrazes. Pois se é certo que a França foi mais suave na segunda parte, gerindo-se e à sua promoção com "um olho no CR7 e um ouvido em Berlim", ainda nos causou calafrios. E assim os dois momentos do jogo foram do magno Rui Patrício: primeiro ao não seguir os conselhos de Pepe. Este, após anos a treinar e jogar com Benzema, conhece-lhe os trejeitos de ginjeira e mostrou para onde iria ele apontar o remate no penalti que lhe coube. Mas, e para seu desespero, São Patrício teve uma fezada e estirou-se para o lado oposto. E o que seria o futebol sem fezadas? E depois, claro, na estrondosa dupla defesa ao soberbo remate de Pogba e à imediata recarga de Griezmann! 

(Pepe avisa Rui Patrício de como Benzema marcará a grande penalidade)

(Portugal-França 2021, defesa de Rui Patrício a remates de Pogba e recarga de Griezmann)

E nisso guarda-redes, e equipa, seguraram um empate precioso, com muita gestão de jogo de ambas as partes concordantes nos últimos minutos. Foi assim com muito mais alívio do que alegria que logo de seguida enfrentámos a acima aludida perna de porco caseira. Acompanhada por uma - apenas uma, dado o abatimento geral - garrafa de vinho verde. Refeição durante a qual perorei sobre este jogo e a campanha prévia, e "como é óbvio contestei com vigor e sageza veterana o pendor conservador do nosso engenheiro seleccionador, antevendo uma deslustrada campanha sob tal "motorista". E elogiei a extrema capacidade do nosso engenheiro seleccionador - sempre avesso à fugaz embriaguês do espectáculo - montando uma equipa tacticamente irrepreensível, delineada para enfrentar os gigantes que se sucederão, e clarividente nas letais e oportunas alterações que decidiu, mostrando que iremos longe sob tal "motorista"."

A seguir será a Bélgica, a minha segunda selecção europeia, tamanha a simpatia que tenho pelo país, no qual cresceu a minha filha. Bem que gostaria que o encontro fosse na final - até porque se trata de uma grande equipa. Estava eu dissertando sobre as virtudes técnico-tácticas da selecção belga, entrecruzando com doutas considerações sobre o algum encanto de Marolles, a empáfia do Matonge ixellois e as luxuriantes verdes colinas das Ardenas, quando surgiu na tv Sua Excelência o Presidente da Assembleia da República, dr. Eduardo Ferro Rodrigues, a convocar-nos para seguirmos "de modo massivo (sic) para Sevilha", isto enquanto tudo se enrodilha nesta mais-uma vaga de Covid-19. Não há dúvida, não há Cristiano, Pepe, Patrício ou Palhinha que nos valham. O placebo futebol é insuficiente. Pois estes gajos dão-me cabo do juízo. Porque não têm juízo algum. Uma selecção de medíocres mariolas. Campeões disso, mesmo.

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