18
Mai24
Ser feliz
jpt

Com a idade chega o desencanto, na morte dos queridos e dos conhecidos - qual bosque a desmatar-se -, no sopesar dos falhanços próprios, na escassez de vontades, no esboroar de horizontes, qual o punk "No future". No pesadelo com a "Mitra". Em tudo isso germina, e de que maneira, a acidez, ensimesmada. Em suma, a tristeza. Quotidiana.
Ontem um grande amigo, daqueles "dos tempos", chamou-me a jantar, deu-me excelentes notícias suas, para minha satisfação. E coligámo-nos com casal de amigos, mais recentes. E excelentes. Corremos até uma das últimas tascas da Lisboa velha - 12 euros por cabeça, invejai-o. Resmungámos, noblesse oblige, a Lisboa agora turística - qu'eu diante da "Taberna Minhota" feita miserável kebab, depois de cruzar tantos "bistro"(s), "pizzeria"(s) e "wine bar"(s) fico quase qual o energúmeno Ventura. E avançámos por nós mesmos, discorrendo risonhos sobre projectos e modos de os conseguir, mariolices várias também, aquilatámos o futuro próximo do país, recordámos escritores (Nemésio, Onésimo, outros e outras mas não outr@s), eu nisso até de sorriso já escarificado, como se eterno, entenda-se.
A palavras tantas toca-me o telefone. Lá de longe três queridas, queridíssimas mesmo, amigas, falando-me da Ponta do Ouro, num "lembrámo-nos de ti e telefonámos", dito entre risos ("de que se teriam lembrado/falado?", "nem quero saber...", pensei, timorato). Que estavam diante do mar, sem luzes e no silêncio, dizem-me. Assoma-me uma vaga de nostalgia do Índico, aquela do "que faço eu aqui?", o estilete que ainda me vai ferindo. E reajo, irónico, num "estão a querer magoar-me", no jingar daquele bem-estar? "Stronzo!", recebo de volta, "estamos a partilhar contigo", e é óbvio que é isso, e assim o recebo, inundando-me, chapinhando na Ponta enquanto aqui na bela Lisboa de ontem à noite.
Na alvorada vejo ter recebido no telefone esta fotografia, também lá do Índico outra querida amiga num "olha o que eu descobri", mensagem saudosa, carinhosa. Vejo-me ali, com a Ana Loforte, minha chefe durante década e meia, a tão saudosa Amélia Souto, a Conceição Osório e a Teresa Cruz e Silva. O escol da academia moçambicana, e eu ali no meio, em algum almoço de trabalho. Com ar feliz! Estremunhado ainda, surpreso, deixo cair diante da fotografia-memória o tão clássico "era feliz e não sabia".
Depois bebo o café matinal, fumo o primeiro Amber Leaf. Regresso à fotografia para a gravar. E também às memórias de ontem. E digo-me "Stronzo!", com veemência. Pois com este convívio vivo, estas lembranças de antes e de agora, estas amizades, "eu sou feliz e devo sabê-lo!".
"Eu sou feliz, e devo sabê-lo!". E para mim estipulo que escreverei isso 100 vezes no quadro! Num como o que está na fotografia. Para não me deixar esquecer isso.
Esta é a primeira da série.






