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Nenhures

Nenhures

17
Set23

Sobre as mudanças no "A Bola"

jpt

Jornal A Bola - Armazém Leonino

 
 
Li há uns dias que o jornal "A Bola" fora vendido a um grupo internacional (dizem-no "suíço", mas presumo que seja uma bandeira de conveniência), especializado no comércio noticioso digital. É, evidentemente, a "crónica de uma morte anunciada". As primeiras informações sobre o processo são... as habituais: à "aquisição" (o jargão "científico" para "compra") seguiu-se o despedimento de uma percentagem (muito) elevada dos trabalhadores. Ou, para falar como agora, a "descolaboração" com os "colaboradores". Dá-me a sensação, leigo na Economia, que é o primado do misticismo na referida ciência económica: o que interessa é a "marca" (entidade metafísica) e não o "produto" (a mezinha).
 
Enfim, parece-me evidente que pouco mais durará o já velho periódico, fundado em 1945 pelo mítico Cândido Oliveira (também seleccionador de futebol), Ribeiro dos Reis e Vicente de Melo, um trio sempre invocado.
 
Ainda que com alguma mescla de sentimentos, pois o jornal estava muito fraco, lamento tudo isto. Lembro-me que há pouco mais de uma década o "A Bola" lançou uma edição moçambicana. A Maputo deslocou-se o então ministro Miguel Relvas e saudando essa iniciativa disse "aprendi a ler no "A Bola"". Cairam-lhe as críticas furibundas em cima, da intelectualidade subsidiada/avençada pelo PS e do magma trotskista-maoísta agregado no BE, invectivando-o de "inculto" para baixo. Eu então sorri, desdenhando a mole socratista e a tropa esquerdista. Pois, ainda que não gostando de Relvas com ele partilhava esse dado biográfico. Eu aprendi a ler com "A Bola". Vindo de Hergé, Goscinny, Martin, estúdios Disney, Enid Blyton, dos colectivos que produziam as colecções "Apache" ou "Falcão", o Major Alvega, Karl May, Verne, Salgari, Féval, etc os primeiros textos adultos que li, ainda na primária, foram os célebres apontamentos de reportagem "Hoje jogo eu" que o jornal desportivo tinha... De facto, tal como Relvas, e decerto que muitos outros da minha geração, também eu aprendi a ler no "A Bola".
 
Depois, décadas depois, o jornal - que agora entra em cuidados paliativos - muito degenerou. Por isso aqui recupero, para quem tenha interesse, um postal antigo - que já publicara aqui no Nenhures - as minhas memórias com "A Bola".
 
***
 

O meu pai António nunca leu um jornal desportivo – lá em casa lia-se o “Século” de manhã e o “Diário de Lisboa” à tarde, e as coisas da bola eram-lhe indiferentes, até incomodativas. Nas férias, em São Martinho do Porto, eu ia-lhe buscar os jornais à papelaria na “rua dos cafés” e ele dava-me dinheiro para que eu também comprasse “A Bola”, que saía 3 vezes por semana. Ele achava piada (ou seja, bem) que eu lesse jornais, eu queria-os pelos nomes do ciclismo, do “Tour” e também da “Vuelta”, com os quais decorávamos as caricas para os “grandes prémios” nas pistas de praia, e também pelas notícias de Deus Nosso Senhor Vítor Damas, do Yazalde, do Nelson, do Marinho e Manaca, do Dinis e Bastos e Alhinho, e depois do Fraguito (sempre) de meias-caídas, também do Carlos Lopes, Fernando Mamede, Aniceto Simões, Nelson Albuquerque, da belíssima Conceição Alves, Jorge Theriaga, Manuel Brito, Ramalhete, Rendeiro, Sobrinho, Xana e Livramento e tantos outros.

Assim cresci, desde a escola primária, a ler “A Bola” daquela ínclita geração de jornalistas, aqueles que também animavam a memorável coluna “hoje jogo eu”, em que botavam o olhar sobre o mundo, deriva então tão escassa: o director Carlos Miranda, das epopeias do ciclismo, o jovem Santos Neves dos automóveis, o entrevistador Rebelo Carvalheira que veio a morrer assassinado nuns quaisquer meandros, o intelectual da bola Victor Santos, o genial benfiquista-comunista irónico-mor Carlos Pinhão, o direitista estorilista Alfredo Farinha, o sisudo camarada Homero Serpa, o analista Aurélio Márcio, vários tantos outros, e punhados de correspondentes, locais ou de “lá fora”, como então se chamava ao estrangeiro (José Augusto na malvada URSS, Renato Caldeira no longínquo e inatingível Moçambique, Bruno Santos em Paris de França, Duda Guennes, que falava em Lisboa do Brasil, sei lá quantos mais). “A Bola” era um bocado, até bastante, vermelha (o que lhe dava bastante crédito junto do meu pai, comunista encartado) e imensamente encarnada. E era um belíssimo jornal.

As décadas passaram. Ali nos finais de 80s, já nas mudanças geracionais, para lá entraram camaradas olivalenses, o Afonso de Melo, que fora meu adversário de subbuteo, o João Matias, meu vizinho de rua, amigo e colega de turma de liceu e faculdade. O encanto desvanecera-se, talvez porque o jornal já diário, sem largar tinta nos dedos de quem o folheava, e nem aquele lençol sempre esvoaçante, ou até porque eu crescera. Mas era jornal. Ainda.

Depois foi decaindo. Imenso, imensamente. Há décadas que não o compro, apenas folheio, nos cafés. E nele clico, espreitando até com fastio, após ler o “Record”, jornal com o qual tenho relação utilitária. Mas com “A Bola” tenho esta relação, a da enorme primeira paixão feita amor desavindo. Mas ainda ciumento. E a sua degenerescência dói-me.

Nos últimos dias vem noticiando (sublinho, noticiando) a transferência de um treinador (Jesus) para o estrangeiro. Não aventa a hipótese. Não ecoa rumores. Não explicita vontades. Nem afirma cenários. Coisas que cabem no jornalismo. Mas não faz isso. Anuncia, ou seja, noticia o processo em curso. Um processo que, dizem de Paris de França, é “ridículo”, desadequado à realidade. Há quem diga que “não há fumo sem fogo”. Mas o certo é que há, e qualquer leitor o poderá dizer, quem ateie … fumos. O velho “A Bola” hoje em dia é isto, tipos a atearem fumos. Mentiras. E há muito tempo que o é. Ou seja, apenas um jornal que encena “factos” para se vender. A autoridade para a comunicação, a ordem dos jornalistas (ou sindicato ou lá o que é) nada dizem. Os tribunais também nada … Se algum jornal/jornalista mente sobre cultura (saiu um livro, um filme, abriu uma exposição, que, afinal, não existe) é rebaixado. Se sobre clima, falhando escandalosamente o boletim meteorológico, é gozado. Se sobre política é desacreditado. Se sobre economia pode até ser processado. Mas se mente sobre a bola, se “A Bola” mente sobre o futebol – e os clubes estão na bolsa, as mentiras sobre os plantéis têm influência na bolsa – isso passa incólume. Ninguém protesta. Nem, e isso é uma vergonha, os colegas da corporação. Nem o Estado que deveria ser regulador. Pois é só bola (mas depois vão-se abanicar nos triunfos patrióticos).

A minha “A Bola”, o meu primeiro amor, tornou-se uma velha prostituta. De esquina, barata. E eu tenho imensa pena. E, envergonho-me até disso, nojo.

(Postal no "O Flávio")

 

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