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Nenhures

Nenhures

13
Set20

Sociedade por quotas

jpt

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Quando era jovem foi a era do Pessoa. Ou melhor do pessoísmo, dos pessoanos e seus seguidores. Não sei porquê, terá sido o Portugal democrático (e assim país muito mais letrado ou a tornar-se letrado) a absorver o poeta. Ou por causa de coisas mais pequenas, as vasculhas do célebre baú, as inúmeras publicações (que edição escolher?, ra's parta!), os estudos em catadupa, os filmes sobre e a propósito, as ficções em torno ... enfim, todos, ou quase, tinham que ter "o seu Pessoa", nisto do desassossego leitor. As coisas mudaram, talvez porque a obra de Pessoa foi "fixada", canonizada. Ou porque as pessoas mergulharam noutras coisas. E assim, ao contrário dos anos 80s e até 90s, é possível cruzar algumas semanas sem que alguém nos venha falar do "seu Pessoa". Nisso um tipo também se distrai e dedica-se a outras coisas, o Sporting, romances novos, Marcelo Sousa, o chef Sá Pessoa, sei lá, uma miríade de ofertas que a vida nos traz ...

A caminho da casa de banho, no corredor, está a minha estante de literatura portuguesa. Caiu-me isto no regaço, sobre a pança ...

 

 

Não! Só quero a liberdade!

Amor, glória, dinheiro são prisões.

Bonitas salas? Bons estofos? Tapetes moles?

Ah, mas deixem-me sair para ir ter comigo.

Quero respirar o ar sozinho,

Não tenho pulsações em conjunto,

Não sinto em sociedade por quotas,

Não sou senão eu, não nasci senão quem sou, estou cheio de mim.

 

Onde quero dormir? No quintal...

Nada de paredes — ser o grande entendimento —

Eu e o universo,

E que sossego, que paz não ver antes de dormir o espectro do guarda-fatos

Mas o grande esplendor, negro e fresco de todos os astros juntos,

O grande abismo infinito para cima

A pôr brisas e bondades do alto na caveira tapada de carne que é a minha cara,

Onde só os olhos — outro céu — revelam o grande ser subjectivo.

 

Não quero! Dêem-me a liberdade!

Quero ser igual a mim mesmo.

Não me capem com ideais!

Não me vistam as camisas-de-forças das maneiras!

Não me façam elogiável ou inteligível!

Não me matem em vida!

 

Quero saber atirar com essa bola alta à lua

E ouvi-la cair no quintal do lado!

Quero ir deitar-me na relva, pensando "Amanhã vou buscá-la"...

Amanhã vou buscá-la ao quintal ao lado...

Amanhã vou buscá-la ao quintal ao lado...

" Amanhã vou buscá-la ao quintal"

Buscá-la ao quintal

Ao quintal

ao lado...

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