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Nenhures

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O "Ponto de Encontro"

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[Postal para a rubrica Delito à mesa, no Delito de Opinião]

O "Ponto de Encontro" é o meu porto de abrigo aqui em Schaerbeek. Por cá a um estabelecimento como este chamam "petite restauration", o que pode esconder muito, até apoucando-o. Por isso prefiro, e muito, tratá-lo pelo nosso antigo termo casa de pasto, o qual deixa antever um local de alimento e estada, convívio.

A gente sabe-o, negócios destes não vivem das "estrelas" dos críticos ou da publicidade. Mas muito dependem dos patrões, de como estes sabem acolher a clientela, vinculá-la. E aqui é mesmo a casa do casal Belchior, o Luís e a Sónia, que muito justificam o "cinco estrelas", pois são gente com muito boa onda. Daquela rara de encontrar. Da qual se gosta não por qualquer atendimento particular, por alguma "atençãozinha" feita, pequeno favor ou informação. Simpatiza-se, e chega. E volta-se no dia seguinte.

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Alentejanos de Elvas, mas o Luís cresceu aqui no bairro (na "comuna") até à adolescência, quando a sua família fez "torna-viagem". Chegada a recente crise, trancada a actividade económica na zona, para cá voltou, num verdadeiro regresso à "origem". E se a história local da imigração portuguesa sempre remete para a praça Flagey, em Ixelles, onde se agregaram os patrícios desde os anos 1960s (por lá está o Fernando Pessoa a simbolizá-lo), desde então que também houve um menos conhecido fluxo alentejano ancorando a Schaerbeek - e tanto que no quarteirão acima está ainda a antiga sede do clube "Campomaiorense", encerrado há um ano. Por isso chegar ao "Ponto de Encontro" é encontrar um núcleo alentejano residente, de elvenses e de campomaiorenses em particular. Desde uns poucos de jovens recém-chegados, ainda quase glabros, até outros bem mais antigos, com meio século de Bruxelas, alguns também veteranos da guerra de Angola, com tanto mundo marchado.

Mas o que é muito significativo, demonstrando a qualidade do serviço e a excelência dos donos, é que tendo aberto o "Ponto de Encontro" em Outubro - antes exploraram um café distante apenas dois quarteirões - a casa não se encerrou na clientela portuguesa. Pois abundam os belgas, tantos deles acotovelando-se para o jogo das setas (o Luís é jogador federado, os jogos do campeonato nacional são constantes). Chegam espanhóis, romenos, ocasionais turcos, há um inglês habitual, e brasileiros, pois claro. É Schaerbeek, é Bruxelas, com a bela marca "Elvas", "Alentejo" mas não nela encerrada. Anima.

E há a comida. Sim, com a tal marca alentejana. Almoços durante a semana, e também jantares aos fins-de-semana. Nos quais a cozinha é reforçada pela amiga Sandra Madeira, elvense, claro está, imigrada há pouco e que antes explorou restaurantes em Elvas e Borba ("Sabores do Alentejo"). O cardápio é curto e variado, 3 pratos do dia nos sábados e domingos, 2 nos dias úteis. E o sistema é o de preço pelo "menu" (exceptuando a sobremesa).

Aqui partilho a bela memória do almoço de sábado passado:

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sopa Juliana, que estava como deve-de-ser, e que fora antecipada pela mini Super-Bock e por um apetitoso cacho de azeitonas, que se apresentavam em estado muito meritório.

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cesto de pão, com legítima manteiga Gresso, aqui acompanhado da até mítica água de Carvalhelhos.

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E o que convocara a atenção, migas com entrecosto. Não me é necessário adjectivar a qualidade do prato. Apenas refiro que os três convivas à mesa não deixaram migalha de migas, e roeram, despudoradamente, todas as fibras do saudado entrecosto. Saciados, com extremo agrado, foi como ficámos. Foi esta parte do repasto acompanhado de vinho da casa, dois copos de tinto Ermelinda Freitas por pessoa.

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Para a sobremesa aportou o não tão regional pudim Molotov, símbolo do acima referido cosmopolitismo da casa. Foi comido com agrado geral.

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E para rematar o café e a aguardente Mosca. A "bica" bem tirada, algo não tão usual assim por estas paragens (e outras). E a água-da-vida bem aprazível. Foi, aliás, repetida.

Preço? Com Molotov à parte - e, pormaior que julgo relevante, a dez minutos pedestres do coração do "bairro europeu", a praça Schuman e sua chusma de restaurantes "italianos", "irlandeses" e quejandos - o "menu" importa em 13 euros.

Em suma, belo repasto, excelente acolhimento, clientela simpática, e preço mais do que acessível. Quereis melhor conselho?

Ponto de Encontro, Av. Dailly, 150, 1030 Bruxelles (encerra às segundas-feiras)

 

Marjorie, o meu primeiro amor

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Marjorie foi o meu primeiro amor. Marjorie Hart de seu nome completo, uma jovem médica americana. Encontrei-a no emirado Sarrakat, onde ela era missionária adventista e prestava cuidados médicos gratuitos a uma população deles tão carente, isto apesar do tanto petróleo  que o país tinha, coisas típicas do atraso civilizacional. Mulher bondosa, corajosa, séria. E linda, loura de olhos azuis, bem torneada naquela magreza da vida frugal e dedicada que levava, deliciava no seu vestido azul de ganga com que a conheci - e pela sua memória ainda hoje me encanto ao ver uma mulher assim vestida.

 

Nunca lhe disse do meu amor. Um pouco por timidez, a princípio. Depois, uns meses após a ter conhecido, pois percebi-a apaixonada pelo Michel e preferi calar-me, compreendi o quão inútil seria declarar-me. Pois era óbvio que ela o preferiria. Lembro-me ainda, sempre a lembrarei, da angústia desiludida sentida ao entrevê-los beijando-se ...

 

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Ele era piloto de caças, bem apessoado, daquele tipo apreciado pelas mulheres, e ainda por cima célebre. Pois sobre as imensas aventuras do Michel (Tanguy) e do amigo, o Ernest (Laverdure), já havia vários livros e também uma série de tv, "Os Cavaleiros do Céu", muito popular. Enfim, eram umas verdadeiras estrelas, e com tudo isso as mulheres caíam-lhes nos braços. Que hipóteses teria eu? Para tudo piorar nessa época eu só tinha seis anos, como poderia cativar uma adulta? Decidi calar-me e esperar. Presumi que o Michel partiria, deixando-a. Ele era um tipo decente mas com a vida que levava não parecia possível que fosse manter um namoro ali.

 

Ele e o Ernest, tinham vindo de Mirage apoiar Azraf, instruendo deles em França. Sarrakat estava em guerra civil. O anterior emir, Muhammad, o pai de Azraf, fora assassinado pelo seu ignóbil irmão Mokhtar, desejoso de reinar. Para isso aliara-se aos americanos, os da petrolífera Middle East Petroleum, que tinham acorrido para ultrapassar a ELF francesa, a qual até então tinha explorado, de forma justa e respeitadora, o petróleo local. Então eram outros tempos, ainda estava fresca a crise do Suez, e De Gaulle opunha-se às injustas ambições dos americanos. Também por isso Tanguy e Laverdure ali estavam, ajudando o aliado e amigo Azraf, um tipo muito decente, dedicado ao seu povo, e cuja vitória final muito a eles se deveu.

 

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Mas antes disso aconteceu a desgraça. Kaleb, que os acompanhara, fora preso e torturado. A tudo resistiu, menos à malvadez de Ross, o perverso assessor americano de Mokthtar. Este ameaçou-o com aquilo que os yankees, ímpios, já haviam feito nas Filipinas (e os russos copiariam na Tchetchenia): enterrá-lo embrulhado em pele de porco, condenando-o à maldição eterna. A isso o pobre Kaleb não resistiu, e denunciou o refúgio das tropas de Azraf. Então, enquanto estas conquistavam a capital, a aviação de Mokhtar arrasou o esconderijo, apesar deste sinalizado com o Crescente Vermelho, onde Marjorie tratava dos feridos.

 

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A notícia da morte de Marjorie devastou-me. A mágoa durou-me anos, feita desilusão com a vida. E andei cego e surdo ao amor. Há pouco todos festejaram as bodas de ouro do namoro do Ric Hochet com a Nadine, coisa bonita, claro. Mas, e tantos anos decorridos já não parece mal dizê-lo, naquela altura ela muito se me insinuou, dengosa, e eu fiz-me desentendido, desinteressado, pois ainda tão incapaz de esquecer a Marjorie. A Nadine acabou por desistir, ficou com o Ric Hochet, o qual de nada desconfiou, ao que eu saiba, e pelos vistos têm sido felizes. Ou fazem por isso, nunca se sabe. E o pai dela também tanto queria aquele casamento, julgo mesmo ter sido para se rebelar contra ele, coisas da juventude, que ela começou a meter-se comigo.

 

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Mas com o tempo tudo se vai esmoendo, ou pelo menos assim parece. Um dia, na vilória do Iorix, conheci a Ariel, uma francesa. E ficámos juntos por uns tempos. Mas foi difícil, ela seguia tristonha, desinteressada até, como se estivesse comigo por desfastio. Pois não tirava o Alix da cabeça, apaixonada desde que ele por lá passara, uns meses antes. Fui aguentando, na esperança de aquilo lhe passar, tentando verdadeiramente conquistá-la, sendo o compreensivo que consegui. Ela era tão bonita ... Mas a paciência foi-se-me esgotando, a enfrentar aquele seu alheamento mudo. Um dia, e arrependo-me disso, fui cruel, bebera demais, atirei-lhe à cara quem aquele Alix era, mais o seu Enak, qual o tipo daquela gente. Coitada, era uma campónia, jovenzinha naquele ermo, a mãe morrera, não tinha irmãs, o pai era um gaulês bêbedo e os irmãos uns imbecis, nada sabia da vida ou do mundo, sem ninguém que lho ensinasse. Poderia ter sido eu, se tivesse sido um pouco mais paciente. Mas como?, tudo acabou ali ... ficou chocada comigo, "miserável!", "mentiroso!", gritou-me em pranto, descrente e horrorizada. Comigo. Parti. 

 

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Uns anos depois, eu mais maduro, já nos meus dez, aboletei-me no "Triple-Six", o rancho da Comanche. E, claro, pouco depois de ali aportar estava de olho na dona, um naco de mulher, garanto, por máscula que pudesse parecer. Mas logo percebi o quanto seria difícil conquistar-lhe a atenção. Pois entre ela e o Red Dust havia qualquer coisa, ainda que eu julgue que nunca se tenham vindo a juntar. E também por causa do seu feitio, mandona, sempre patroa, agreste. Eu compreendi-a, e a toda aquela sua amargura disfarçada de comando. Mas os outros não a percebiam, e muito menos o Red Dust, que era um básico. Bom tipo, lá no fundo, muito bom vaqueiro, danado para o tiroteio, mas mesmo básico. E se eu abordasse o assunto todos se virariam contra mim. Agora não, posso falar, já todos terão  morrido, pelo menos do Dust tenho a certeza disso, velho e doente, nunca o imaginei tão assim demorado, mas da Comanche nada sei. Estou certo de que ela era assim, rude, seca, exigente, porque era estéril e geria mal isso. A mim não faria diferença. Tivesse-se ela juntado comigo e se quiséssemos filhos poderíamos ter comprado uns índios ou pretos, mulatos de preferência, como agora está na moda, mas então não era costume. Mas não poder parir tornava-a tão amarga, arisca, desiludindo-me de qualquer esperança. Além daquilo com o Dust, claro, mesmo sem andar nem deixar de andar. Mas como o assunto começava a não me sair da cabeça e se calhar já estava a transparecê-lo, pois apanhei o ruivo a dar-me uns olhares de soslaio nada amistosos, decidi avançar.

 

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Naquela altura havia poucas mulheres. E onde cheguei a seguir só havia a Chinook. Esta era uma beleza, e uma doçura. Ainda para mais depois de ter conhecido a Comanche, rude como essa era, fiquei logo encantado com a índia. Mas, caramba, ela e o Buddy tinham acabado de se casar, logo tiveram um filho, estavam felicíssimos. E o Longway era um tipo excelente, como há poucos, talvez o melhor que encontrei. E um homem não se mete com as mulheres dos amigos, isso é sagrado. E assim fiquei, visitava-os, gostava da família, do ambiente. Conversava-se, comia-se, às vezes com algum passante à mesa. De quando em vez perguntava-lhe se não tinha uma irmã parecida para se me juntar, e devia ter, pois ainda por cima os índios confundem as irmãs com as primas. O Buddy sorria, percebia o elogio que a pergunta trazia, mas ela negava, não me devia achar grande peça. Ou então não tinha mesmo. E eu segui sozinho.

 

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Algum tempo depois conheci a Pandora. Todos estavam apaixonados por ela. Ou, pelo menos, interessados. Não havia quem o negasse. Não eu, digo-o com franqueza. Claro, ela era uma beldade. Fina, elegante, bem cheirosa, um pano de seda pura. E insinuante, tanta promessa, sonhava-se ao olhar para ela. Mas era tão pedante ... Percebia-se, nos seus trejeitos e ênfases, ser ela uma daquelas mulheres que nos infernizam a vida, nas suas exigências, nos seus amuos, pois tanto sabendo o quanto nos atraía, amarrava. E seguia já assim sendo apenas uma miúda, então ainda só uma aranhiça a aprender a tecer teias.  O que viria a ser depois, quando já sabida? E também logo percebi não ser ela para mim, haveria sempre de preferir um qualquer tipo de boas famílias, daqueles de estudos em universidades finas, belos empregos, gente respeitável. Era a esses que ela, sedutora, dava esperanças, só por eles aparentava deixar-se perseguir,  fingindo-se presa. Deve ter conseguido.  Guardar um deles. Às vezes imagino-a agora, daquelas que envelheceu magra, seca, decerto. Deve andar por aí, impante camuflando as infelicidades causadas.

 

 

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Acabei por ficar com a Esmeraldita, foi o Hugo que nos apresentou, disse-lhe que tomasse conta de mim e ela assim o fez. Estivemos juntos uns anos, bastantes até. O mal foi nunca ter ela deixado aquela vida, dizia-me não querer depender de mim. Terá sido outra a razão era outra, ela fazia bom dinheiro, os clientes muito a procuravam, e eu nunca fui abonado o suficiente para cobrir tudo isso. E talvez ela não gostasse assim tanto de mim, eu servir-lhe-ia de amparo, e os homens mais a respeitavam por a saberem mulher de alguém, ainda por cima de um branco. E também não me quereria largar por respeito ao Hugo, de quem ela gostava como de um pai, e se calhar ele era-o, apesar de ela ser toda preta, há casos assim, e por isso para ela eu seria uma missão, por assim dizer. Um dia fartei-me daquilo, de estar apenas para os intervalos, deixei-lhe o que tinha, disse-lhe para montar a sua barraca, instalasse-se ela como patroa para aguentar a velhice que haveria de vir, mesmo que ela ainda estivesse muito bem, magnífica, malvada, apetecível, filhadamãe, pois ainda a recordo, dias há que me vem o seu cheiro, e tantos anos passaram. Nunca mais dela soube, espero que não tenha bebido tudo o que lhe dei, não tão pouco assim. E que não tenha apanhado a maldita doença, que a tantas levou.

 

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Passados anos, um dia perto do Alto Ligonha, parei numa cantina ao entardecer. A dona era uma mulata gorda, ainda em bom estado, do Chinde, vim a saber. Pedi algo rápido para comer e seguir viagem mas ela mandou matar galinha e decidiu que nessa noite eu dormiria num dos quartos que alugava nas barracas das traseiras. E foi acordar o marido, que estava na sesta, pois ele decerto que gostaria de falar com um patrício, afiançou. Passado um bocado apareceu-me o homem, estremunhado, um velhote tuga vestido à monhé com um ar já muito acabado. Olhei para ele e pareceu-me que já o vira algures, "você não é o Figueira?", perguntei-lhe. O que gostou de ser reconhecido!, até rejuvenesceu, não se lembrava de mim mas mentiu que sim, e logo nos foi buscar verdadeiro vinho, daquele mesmo de uva, que não vendia à clientela local, "habituados às zurrapas", e perdeu-se em recordações. Contou que a idade viera e se cansara, decidira parar a venda ambulante. Arranjara aquela mulher, "um aconchego" disse, e eu a pensar que sim, que o seria, tanto que me retivera nas paragens, mamana atrevida ... E tinha-se estabelecido por ali, a cantina dava para ir vivendo. Foi simpático, quando lhe disse que estava a pensar em largar África logo me avisou "se você vai para a Europa vá falar com o capitão, um homem muito bem-posto na vida, e boa pessoa, grande amigo meu, diga-lhe que vai da minha parte, vai ver que ele o encaminha". Bom tipo, o Figueira, nunca fez mal a alguém, um enganozito aqui ou acolá, mas nada mais do que isso. Estava já no final, via-se e mais mo disse a sua patroa, depois, já na noite longa, apoquentado por qualquer coisa nas entranhas. E que ficasse eu descansado, ela estaria ali, cuidaria do velho até se acabar, afiançou.

 

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Quando cheguei à Europa procurei o capitão, no pretexto de lhe dar novidades do Figueira. Como não lhe sabia o paradeiro disseram-me para tentar na casa do senhor Hergé, muito seu amigo, que decerto me orientaria. Lá segui até Etterbeek, à rua Philippe Baucq, 33. O morador surpreendeu-se com o meu engano, apenas sabia que o homem ali nascera e crescera pois a casa tem uma placa a anunciá-lo. Mas, fosse como fosse, já há muito que morrera. Expliquei-lhe que quem eu procurava era um amigo dele, o capitão Haddock, se me poderia dar alguma informação. "O senhor capitão também já faleceu, há alguns anos", com homenagens públicas e tudo, do  próprio rei, sublinhou, coisas que haviam sido noticiadas nos jornais, concluiu. 

 

 

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Fiquei abalado, estava a contar com alguma ajuda. Entrei no café da esquina, a precisar de algo para ganhar ânimo. E estanquei, sem querer crer no que via. Meio a dormitar ali estava, sentado numa mesa, o Professor. Como seria possível?, conhecera-o já velho, deveria agora ter para cima de cem anos ... Sentei-me à sua mesa e nem se surpreendeu, percebi que seria habitual os clientes juntarem-se-lhe. Ofereci-lhe uma bebida e aceitou. Pedi cachaça, brasileira, talvez isso lhe avivasse algumas memórias. Mas não havia, então mandei vir tequillas. Perguntei-lhe que fazia por ali, resmungou qualquer coisa, até alheado, e foi o dono, flamão, que se chegara à mesa como se que a proteger o velho, que explicou, "o professor fora um grande sábio", em Praga, na Suíça, noutros sítios. E por isso uma universidade católica dera-lhe uma pensão de velhice. E que agora vive naquela rua, num asilo de velhos, umas portas ao lado. Todos os dias vai àquele café, anima, convive e beberica. E depois, para que não se perca, ao anoitecer vão-no buscar ou algum cliente o vai entregar. Mas, avisou, que não lhe faz bem exagerar nas bebidas. E tequillas? É demais para ele, disse. Aí o velho irritou-se, como se lhe roubassem algo, e começou a falar, de quando andara no Golfo do México, Caraíbas, até Antilhas, mais da Amazónia. Nas terras das tequillas, por assim dizer. Inventou um bocado, mas quem não o faz?

 

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Posto ele a percorrer memórias também as minhas se soltaram. Estar com o Professor lembrara-me o Hugo, também já morto, e deste deixei-me ir à Esmeraldita. E por aí atrás, até, muito pelo desanimado que estava nesse dia, me assomar a Marjorie. Carpi-a ali, de novo, décadas passadas, já entre bebidas em demasia. Nisso o velho, que já cabeceava, despertou. "Marjorie? Hart?", "conheço-a bem ... mas que ideia é essa dela ter morrido? Está viva. Bem viva." Resmunguei, que estaria ele enganado, pensando-o até mais senil do que já vai. Insistiu, que estava certo, filha de um colega dele, Hart, renomado professor de estudos bíblicos da Andrews, uma universidade adventista do Michigan, muito conferenciara com ele ao longo de anos. O pai sim, morrera, quando ensinava no Peru ou na Bolívia, não se lembrava com exactidão, depois de o ter feito na Bahia e no Paraná, onde haviam convivido. Quis crê-lo, apesar de ser impossível, alvoraçado pedi-lhe que me dissesse onde a poderia encontrar. Chamou o flamão, afinal "não sou patrão, só trabalho aqui" respondera-me, e explicou-lhe como me levar até ela, depois de fechar a casa. Pois ele não me podia acompanhar, estava muito cansado e tinha que mudar a fralda, já empapada. Levei-o ao asilo, e regressei, nervoso, impaciente, mais curioso sobre o que o Professor quereria dizer, não podia acreditar que falasse verdade, alguma confusão teria feito.

 

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Fechada a casa o flamão levou-me até  Tanguy e Laverdure, L'Intégrale 6, Bároud sur le Désert.  Azraf leidt de aanval uit de strip Tangy en LaverdO Michel e o Laverdure lá estavam também, com os seus Mirage, febris e heróicos, a combater no deserto, entre a Síria e Sarrakat, nem percebi bem, que confusas são as fronteiras no deserto, contra estes daesh de agora. Azraf, como sempre, com eles ombreia, liderando o seu bravo e fiel povo, enfrentando no terreno as facções sediciosas, umas a soldo dos americanos e outras dos russos, todas apoiadas por mercenários bem armados.  Em torno dele, e com a protecção dos incansáveis pilotos, e através de incontáveis sacrifícios, a vitória está imanente, apesar da inferioridade de meios.

 

E, para meu encanto, maravilhado, extasiado, afinal Marjorie está entre eles, dedicada. Pouco consegui falar com ela, nem me reconheceu, pois tanto mudei, imersa no seu corropio, tão atarefada nos hospitais de campanha, cuidando dos feridos apesar da sua exaustão e da falta de recursos. Fico siderado, surge-me igual, igualzinha, o tempo não lhe deixou qualquer marca, nem uma pequena mácula. Até vestida da mesma forma - pois a ganga não passou de moda, concluo. Olho-a, entre lágrimas, ainda apaixonado e agora até mais, e percebo como tudo lembro das suas linhas, de todas as suas entoações e meneios, do seu olhar, o azul do mar ali no deserto. 

 

De imediato me ofereço para ir buscar medicamentos que tanto escasseiam. Diz-me que estão distantes, e alcançáveis por travessia perigosa, algumas horas através de caminhos de deserto fustigados pelos mercenários pró-russos e pelos últimos rebeldes dos daesh, temíveis. Partirei na alvorada, Kaleb, já recuperado das sevícias sofridas, acompanhar-me-á.

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E percebo o que acontecera naquela época. De facto, não a havíamos visto morta. Aproveitando o raid da aviação de Mokhtar, Marjorie simulara a sua morte. Temera que o Michel, honrado como é, após aquele beijo se sentisse na obrigação de ficar com ela. E não o quis reter, prender, pressentindo que no tempo isso o tornaria infeliz, homem de acção que é. Que abnegação dela! Que sacrifício pelo homem que amava, que despojamento. Que mulher maravilhosa, ainda mais do que eu a recordava.

 

Exulto com este reencontro. Não tenho esperanças. Sei que após esta guerra o Michel partirá, com o Laverdure, para onde a sua França o convocar. Mas também sei que se antes fui uma criança, para ela sou agora um velho. Nem 30 anos ainda tem, e após esta aventura, todo este deserto, regressará ao seu Michigan deixando de ser "Marjorie da Arábia", quererá ter uma família, criar filhos. Precisa de um bom homem para isso, talvez da sua igreja ou, pelo menos, um bom cristão. Para mim para tudo isso é tarde demais. Mas estou feliz, já nada lamento, é bom amar. E lembro-me do que alguém me disse em tempos, julgo que foi o Jonathan, um bom rapaz, um bocado hippie demais, mas bom rapaz mesmo assim, e muito dado a saídas dessas: mais vale amar do que ser amado. É isso mesmo ... 

 

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Kaleb chama-me, já está lá fora com os cavalos, o sol desponta. Bebo o resto do uísque que o flamão me deixou. E vou andando. Será apenas mais um deserto.

***

AdendaTanguy e Laverdure, L'Intégrale 6, Bároud sur le Désert (Dargaud, 2016). Inclui 3 pequenas histórias, e duas histórias editadas em álbum em 1970: "O alferes Bang-Bang" (Lieutenant Double-Bang!), de 1968, publicada no "Tintin" português (#13 a 35, do 3º ano, 1970), e "Luta no Deserto" (Baroud sur le Désert), de 1969, publicada no "Tintin" português (#29 a #51, do 4º ano, 1971)).

Desenho de Jijé, argumento de  Charlier. "Tanguy e Laverdure" surgiu no primeiro número da revista Pilote (1959), e o seu desenhador era Uderzo, que abandonou esta obra em 1966 por estar demais atarefado com Astérix. O livro integra um dossier sobre a série e sobre a folhetim televisivo "Os Cavaleiros do Céu", e uma bela entrevista com Benoît Gillain, filho de Jijé e também autor de BD, sobre a carreira do pai.

 

Flândria

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Tão (abissalmente) estuporado ando que esquecera o aviso que um patrício me dera para hoje, para ter cuidado "que o problema destes gajos é com os turcos, os pretos e os árabes mas depois começam e vai tudo, nós, os espanhóis, todos ...". Saio de manhã, como sempre viro à direita, na via de Schaerbeck, o "bairro turco" como ironizo, a 200 metros a mercearia portuguesa, plácida conversa sobre o cartaz (ontem afixado) de "Roberto Carlos em Bruxelas" enquanto me abasteço das cápsulas Nicola. Avanço mais 500 metros, ao café-restaurante compatriota, nada bebo que ainda não é meio-dia, resmunga-se o pequeno nevão de ontem e a reviravolta do Porto, ainda hesito se beberei um bagacinho "só para aquecer", mas há que manter o nível. Volto a casa, enquanto cozinho uma destas minhas trapalhadas vou fumar à varanda e ouço tantos estampidos e gritaria que julgo haver festa ali ao Cinquentenário, que raio de dia, com este frio, para a fazerem. Senil estou, é a minha filha que me convoca para todas estas sirenes. Pois aqui mesmo, a 500 metros, se virando à esquerda, na via do "bairro europeu" estão os fascistas flamengos (ou flamões, como aqui dizemos) a manifestar-se, a armarem confusão entre o tal Cinquentenário e o Berlaymont, esse que dista cá de casa tanto como o café Luanda se aparta do café Polana (ao lado do Frutalmeidas, para os distraídos). Não que seja eu europeísta radical, e que apupe a "nação", patriota que sou (sim, sei que o termo provoca o sorrisinho adamado dos esquerdinhas funcionários públicos). Mas um tipo vê, na vizinhança literal, esta turba fascista - não muitos, 5000 numa cidade onde há pouco 75000 desfilaram por uma melhor política climática. Mas violentos. -, carregada de estandartes nacionalistas, os desses que apoiaram a ocupação alemã na I GM, o dos rexistas que apoiaram a Alemanha nazi, e percebe-os. Têm tanta legitimidade como os catalães, e têm os mesmos propósitos, não nos enganemos com as retóricas e os meneios.

Os estampidos já pararam, agora escasseiam as sirenes, a família está na calma dominical. E o pai a blogar o seu desprezo pelos fascistas portugueses, esses que desde Bolsonaro gozam com os "moderados", pequena gente sem mundo ("sem cabaret" como li o outro dia) e sem dignidade. Gente incapaz de perceber o até egoísta "mas depois quando começam vai tudo, nós, os espanhóis, todos ...". E para com os patetas que foram à escola e chegaram a doutores que vêm falar da importância das "identidades históricas", como se estes nacionalismos fossem um minério semi-precioso, coisa natural, inultrapassável. Pois se assim é convirá lembrar que os primos destes gajos emigraram para a África do Sul onde eram uns pés-rapados imundos. E horríveis seguidores da jihad da sua igreja reformada. E que os avós destes gajos emigraram para o Congo. E disso é melhor nem falar. Ou seja, para quem não gosta de imigrações bem que podiam ter vergonha na cara. Tal como os "venturinhas" e os CDS-Bolsonaros que se meneiam por Lisboa. É mandá-los para Ramallah. Parece que ficarão bem servidos.

O Clima, aqui em Bruxelas

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(21.11.18)

Ontem cerca de 300 estudantes liceais manifestaram-se contra a global apatia institucional face às emissões poluentes e seus (muito) presumíveis efeitos climatéricos. Foi aqui mesmo na minha vizinhança, geográfica e pessoal, uma congregação de alunos de várias escolas bruxelenses na praça Schuman, centro das instituições europeias, o coração do “bairro europeu” da capital administrativa da UE.

Os jovens apontam aos organismos multilaterais e governos nacionais o escamotear dos dados reais da situação ecológica actual e dos concomitantes indícios para o futuro. Exigem a divulgação da gravidade da situação e aceleração de novas políticas. Não há aqui o bucólico do sonho pastoral, anti-industrialista e anti-capitalista, que alimentou ecologistas de décadas passadas. Há sim a consciência da necessidade de preservação ambiental – algo que este mais-velho poderá sintetizar como implicando novos moldes produtivos, novas formas de consumo, com novos processos de produção identitária. É um novo radicalismo, bem distinto dos anteriores radicalismos estetizantes, e nisso eunucos, dos ecologismos ocidentais.

A reacção a esta demonstração foi muito interessante. Um dos vice-presidentes da Comissão Europeia, o finlandês Jyrki Katainen, desceu à praça para conversar com os jovens manifestantes (algo que um político da Europa Austral dificilmente faria). E chegou, simpaticamente, com os argumentos de medidas já tomadas ou anunciadas sobre reclicagem ou substituição de plásticos, temas actuais, decerto que importantes e saudáveis, mas de facto apenas presumidas panaceias face à grandeza dos desafios que se enfrentam, até símbolos da modorra político-institucional. Ou seja, Katainen veio, simpática e até paternalmente … desconversar, elidir o fundamental que os manifestantes colocam, assim tentar inconsciencializá-los (algo que um político da Europa Austral facilmente faria), acantoná-los no comezinho do “ecologicamente aceitável” e do folclore a que muitos bem-intencionados ainda se deixam vincular.

À melíflua iniciativa de Katainen a reacção deste jovens foi fantástica. Mal ele enunciou as suas ideias apaziguadoras, o rame-rame do costume, face a quem apela a um debate sobre verdadeiras soluções, um dos manifestantes, um tipo para aí com 17 anos (!) , teve o sangue-frio de improvisar, clamando “Temos uma mensagem para o Vice-Presidente da CE“: “Dois minutos de silêncio“. E todos se calaram, olhando para o homem.  Pois para resposta à desconversa que melhor do que o silêncio?

Isto sim, é um grande radicalismo. O radicalismo nada folclórico do realismo. Exigente.

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Adenda: Deixo um trecho de um documento dos manifestantes. Pode ser que os adultos, ainda que decadentes e já degenerados, possam aprender algo:

People have underestimated the power of silence. The omission of climate change facts and solutions has prevailed for way too long in our society – and this needs to change immediately. Indeed, politicians, the media and institutions themselves censor each other due to their inherent conflict and because of external pressure. However, people do not yet know the scale of this censorship and how self-censorship has taken over in modern days and become a power that in fact, culminates in the control of everyone, everywhere. This is so ingrained in society that the population does not seem to either notice it, realize it, or care. We live in an increasingly smaller world, under the impression that it is a more open place, where public and private spheres have blended together and become almost undistinguishable. In this intensely globalized world people do trust politicians and institutions because, after all, in who would they trust? However, people do not see through the curtain. So many powers lie behind these organizations, but their sole interests are all the same: to not scare people and cause endemic panic to society, yet most importantly: to protect our economy, our insatiable economy.

Os gilets jaunes em Bruxelas

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Ainda estou a por o gorro e as luvas e vejo-os passar, a estes “tiagos amarelos” de cá, tão poucos que os julgo a cauda da manifestação, mas logo me afianço que não, pois mais à frente vão uns poucos mais, tudo apressado com ar de quem já está na hora do almoço. Mesmo assim desço e chego-me à praceta – para um lisboeta Schuman é até risível –, feito mirone. Encontro-a vedada, só numa esquina dela saem alguns transeuntes, numa pequena passagem que apenas habitantes podem cruzar, ainda que por mim passem mais de uma vintena de filipinos (ou serão indonésios?, percebo que, estuporadamente, não os distingo de imediato), vindos sem o olhar embasbacado de turista ou os necessários apetrechos dessa condição. Serão talvez um distraído grupo de culto ou, se calhar, só comensal. Deste lado do arame, literal, está um grupo meio desasado, ouço o espanhol muito andino por aqui usual, três casais de velhotes gringos, gordões não-obesos, falam alto, como lhes é geneticamente necessário, e estão a adorar esta Europa que lhes coube, e mesmo à minha frente um jovem casal português, indeciso, a ela percebo-a, no seu casaco justo, muito bem torneada, muito bem mesmo, raiosparta que é raro ver alguém assim, e ele tem postura funcionária, cabelo ralo a escassear-se, e tudo nele me lembra um qualquer de Tennessee Williams. No pequeno impasse sorrio ao meu óbvio (e profético) estereótipo. E dada a gaguez muda na minha dianteira, avanço à polícia e pergunto como aceder ao metro ao que junto, feito sonso, um “o que se passa?”. Ela dá-me um sorriso lindo, resplandecente, flamengo di-lo-ei, que também é a única coisa que desvenda, sob aquele capacete e a armadura (parecida com aquelas com as quais os másculos oficiais da GNR espancam os recrutas), explica como contornar até a próxima estação e pede enfáticas desculpas pelo incómodo, devido a “uma manifestação”. Todos damos meia-volta e seguimos, os patrícios trintinhas fazendo por não notar, nem com aquele laivo de aceno ou recanto de sorriso, ser eu, barbudo encanecido sob gorro e ganga, um português, isso que o sotaque grita, e de ter feito para os esclarecer, talvez por coincidência, talvez por simpatia, vão lá eles saber ... Sigo atrás do pelotão, os do espanhol são tipo ciclistas da Colômbia, já estão quase em Ambiorix, os avulsos caminham em ritmo de sábado, os gringos bamboleiam palrando, o ainda casal (desculpem-me mas tenho que o dizer …) vai lento, mesmo à minha frente, nem sequer lhes vi as caras, mas repito-me o mudo apreço pela patrícia, ouvem-se sirenes ao longe, e zumbidos de helicópteros, e têm soado estrondos, daqueles que eu diria tiros se estivesse em Moçambique. Hesito, devo ir atrás destes até ao metro?, percorrer a cidade a ver a agitação, assim conhecer um pouco desta Bélgica, mais Valónia do que a outra mas ainda assim, fingir-me o ainda andarilho interessado, com prosápias de intelectual que fui, e até disso fazer um postal de blog, daqueles aos laiques e até comentários? Mas lembro-me que daqui a bocado o Chelsea joga com o City, acho que é esse, e inflicto, na via de casa vou a uma loja, onde nunca entrara, para comprar filtros, “bonjour” e é isso que quero, sff, e o lojista, indiano, responde-me “bom dia”, e eu surpreso, a perguntar-lhe no meu atrapalhado francês como me percebera, e depois até se é de Goa, e ele segue, em português também trapalhão que não, mas “na minha loja anterior – e diz um bairro que eu não fixo – tinha muitos clientes portugueses”, “aprendi a falar um pouco” (e aprendeu) e, saltando para o francês, “quando o senhor entrou vi logo que o senhor é português”. Rio-me, agradado com a surpresa, e nisto de haver qualquer coisa de óbvio. E mais me rio, já caminhando para casa, com o tão óbvio “bon chic bon genre” do casalinho – não sei se já disse, a rapariga era mesmo interessante, o rapaz, enfim … O mesmo bon chic bon genre dos intelectuais lisboetas, agora em reboliço entusiástico com estes “tiagos”, 1000 aqui, 8000 ali em Paris, ouvirei, por causa deles a clamarem o fim da República, da Europa, etc. Em elogios de “pastoral” à justeza do “povo” “rural”, como há anos elogiaram os “tiagos berberes” e “árabes” que pilhavam. Pois estes finos adoram o “povo” – desde que não seja o que aparece no “Preço Certo” da RTP ou nas tralhas das outras estações. E que não lhes perturbe o sábado bruxelense. Como dirá o lojista vizinho “vê-se logo que são portugueses”.

40 anos após Brel

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(9.10.18)

Há 40 anos, passam hoje, morreu Brel e como o homem nasceu aqui na vizinhança, nem dez minutos andando, é só subir a patriotes, virar na plasky e ir até à praça, essa mesmo, seguir na diamant e foi aí no 138, um prédio inócuo sem nada que o faça falar, que já lá estivera, há semanas quando aportei desarvorado, a pedir licença para aqui estar, a benção diriam os crentes, a benção digo eu também, e volto pois é o dia, enfim, e porque não?, e recolher-me-ei mesmo sem saber entoar a bourgeois ou trautear aquela do só nos resta o amor, caramba essa sempre a tocar fundo, e muito menos tendo fôlego para me lembrar da marieke ou de tantas daquelas outras, e hei-de ficar um pouco defronte, fumarei um cigarro e esperarei, espera de esperança, com os olhos na cerveja, aqueles marinheiros do norte, de amsterdão ou assim, ali chegados, vindos hoje pois é o dia, a beberem e a rebeberem e eu rirei, direi arrivei e sentar-me-ei à mesa deles, reclamando-me também marinheiro, de águas-terra porque o fui, mas dizendo ainda o ser, tant pis si je suis menteur, e beberemos às putas de amsterdão ou de hamburgo ou lá de onde vieram estas, com eles mesmo ou então aqui da comuna, atraídas pelo barulho, e chegados ao daqui a umas horas, sempre nisto do amigo enche-me o copo, cantando e felizes, e poderei dizer nesta língua um assim ils pissent comme je pleure sur les femmes infidèles, mas chego lá e só há isto, a rua toda composta,  pintadinha e sossegada, o maldito silêncio desta cidade, e o prédio, inócuo já o disse, a placa descorada, tanto que nem se lê isso do “aqui nasceu Brel” e logo abaixo, até debruando-a, uma outra de fulano de tal, notário, anuncia-se o flamengo, e todos os sacos e saquinhos de lixo, tão arrumadinhos e cuidados, cada um da sua cor, própria a cada dejecto seleccionado, será o dia da recolha decerto, e nada mais, o silêncio, já disse, esse que fere, nem um marinheiro holandês, nem uma puta de hamburgo ou isso, nem mesmo o só espaço para o grito, suave e até timorato, de os burgueses, nós, c’est comme les cochons, como posso? se tudo tão decente, e organizado, e curial, e higiénico, sacos de cada cor e tudo, insisto, e nem uma puta infiel, nem um marinheiro rebebido, e nem um amigo para remplis mon verre …

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