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Nenhures

Nenhures

Educação para a Cidadania e o Desenvolvimento (3)

(Bianca Catasfiore - The Jewel Song)

"Ah je ris de me voir si belle en ce miroir..." [Ah, rio de me ver tão bela neste espelho] é o lendário refrão ... Desde 2015, feito torna-viagem, que quase todos os dias me lembro deste cume de Hergé. Pois um dos grandes problemas culturais de Portugal (o maior?) é mesmo o catasfiorismo dominante, a turba em ademanes, nos lavabos roncando trinados desafinados, cantarolando a perspicácia própria diante dos espelhos - em vez de retirarem os cabelos e pelos púbicos dos imundos ralos sobre os quais patinam.

Esta cena, minudência, da disciplina da Educação para a Cidadania e Desenvolvimento é mais um exemplo. Agora um coro de 500 cantores, mais a plebe ululante na plateia, vem guinchar que são belos nas suas doutas opiniões - entre os quais, no palco e em aplausos, um punhado de Catasfiores que eu conheço. Hoje mesmo, 7.9.2020, no final do telejornal da TVI (abençoado zapping) David Justino explicou pausada e competentemente tudo aquilo que é preciso pensar sobre o assunto - a reportagem sobre a matéria começa à 1.03.20 e a intervenção do antigo ministro da Educação começa à 1.05.40. E fê-lo apesar de repetidamente interrompido, em registo morcão, por Sousa Tavares.

De pouco servirá, as patetas e os patetas continuarão, em trinados, ciosos do que julgam sageza. Mas não é, é apenas o pouco que são.

Haddock, O Captain! My Captain ...

O banquete final

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Este maldito vírus quebra-nos a vida, angustia-nos presente e até futuro. A morte de Uderzo, ainda que tão natural aos seus 92 anos, e felizmente ocorrida na placidez do sono, sem qualquer ligação a esta pandemia, encontra-nos confinados. Trazendo isto de nem podermos fazer o requerido banquete final, exigível ao final deste episódio, o uderziano. Majestoso.

Que o seu legado, e não só Astérix, nos acompanhe agora, até avivado na memória pela sua morte. No seu humor e beleza servindo mesmo de estratégia da necessária mitigação. Banqueteemo-nos com os livros. E com as memórias das anteriores leituras.

Deixo aqui ligação a um bom e muito informativo texto sobre a obra do autor: Uderzo (na Comiclopédia). Bem recomendável.

 

Festival de Angoulême 2020

O rol de premiados está bem explícito e ilustrado neste postal de Bandas Desenhadas. Texto no Le Soir sobre o festival. E o texto no Le Monde, com maior atenção aos protestos dos autores contra a actual sub-remuneração do seu trabalho. O grande vencedor do ano é o álbum "Révolution" de Florent Grouazel (blog) e Younn Locard (sítio) (blog). 

 

Guibert saiu com o Grande Prémio. O artigo que lhe é dedicado no Le Point.

Tintin

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Adoro Tintin. Cresci com ele, "li-lhe" as aventuras (em português e francês) bem antes de saber ler (ainda tenho um esfarrapado "Sceptre de Ottokar", daqueles de lombada de pano, sobrevivente destas cinco décadas de usos e ofertas e contra-ofertas). Tenho a colecção (quase) toda do "Tintin" semanal, que começou aos meus 4 anos. E sou, existencialmente, um verdadeiro haddockiano. Nisso releio Tintin, sempre. No último ano em Bruxelas visitei, religiosamente, alguns dos "seus" sítios (a "sua" "primeira casa", por exemplo). E reli-o, na sua pátria.

Para mais serve-me, desde que sou trintão, para medir algumas das pessoas da paisagem. Pois vou-me deparando com gente, académica e jornalística, que perora sobre o racismo em Tintin, o de Hergé, porque o "Tintin no Congo etc e tal" .... É "tiro e queda", mal ouço a ladainha fica o diagnóstico feito: eis um panfletário ignorante e/ou aldrabão. Adepto das simplificações e da indústria das "denúncias". Uns apenas invectivam, com ar abespinhado e sapiente, menosprezando as leituras alheias. E uns, ainda mais mariolas, escrevem artigos (que vão a "revisão por pares") em revistas. E até teses. Assunto? Repito, o racismo em Tintin, porque o "Tintin no Congo etc e tal ...". Quanto a isso de ler, ler, pensar? Para quê, se pode por em causa a "denúncia"? A(s) causa(s)?

Vem isto a propósito (verbalizar o desprezo por estes mariolas vem sempre a propósito) de que um vizinho bloguista ontem me deu a conhecer um sítio onde estão acessíveis todos os 23 livros de Tintin (mais o Lago dos Tubarões e o incompleto Alpha-Art) e ainda alguns extras. Sei que ler BD no computador não é a mesma coisa. Mas isto é um pequeno tesouro.

Gravação rápida e acesso sem publicidades ou inscrições necessárias. Fica aqui o acesso: http://www.delplanche.be/integrale_tintin/

 

Integral de Iznogoud

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O primeiro volume da colecção integral das aventuras do ignóbil grão-vizir Iznogoud, celebrizado pela sua monomania, essa tão deliciosamente narrada que ficou como sua marca-d'água - mas a qual não será seu monopólio, se se olhar para a política, a histórica e a actual.

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O infame grão-vizir Iznogoud nasceu em 1962, filho do mag(n)o Goscinny e de Jean Tabary, tendo o seu parto decorrido no primeiro número da revista Record, numa era de imensas revistas periódicas de banda desenhada (Tintin, Pilote, Spirou, etc.) - destinadas (pensadas) para um público infanto-juvenil, predominantemente masculino. Goscinny desdobrava-se em argumentos para as aventuras de várias personagens por ele criadas, publicadas num alargado naipe de revistas - uma "integral" de Goscinny seria uma colecção gigantesca. Iznogoud, como tantas das personagens de banda desenhada que se tornaram "reais", sobreviveu ao seu pai.

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Como tal esta colecção "integral" consiste em 30 volumes, contendo não só as aventuras como os célebres "regressos" do malvado grão-vizir - as (por vezes muito) posteriores explicações de como se safara o horrendo grão-vizir das alhadas em que incessantemente caía, dado o insucesso dos seus malévolos planos.  E ainda outros materiais mais avulsos, bónus, capas de revistas, ilustrações, jogos, etc. Este primeiro volume (meros 2 euros, preço de lançamento da enorme colecção) tem três histórias: "La Chasse au Tigre", "L'Invisible Menace", "Un Sosie", "La Flûte à Toutous", um regresso (uma solução) da "Invisible..." e três da "La Flûte...". E dois artigos sobre a história desta série

Iznogoud (delicioso jogo fonético) é assim uma bela paródia mas também maravilhosa catarse, menos caricatural do que poderá parecer, da vida política. O demoníaco grão-vizir "nãoébom", está escravizado pela sua obsessiva vertigem de poder, que a tudo se sobrepõe, por ela tropeça numa incessante sequência de incompetentes planos e acções. E sempre resiste, sempre regressa. A personagem, na sua fealdade, avareza, pequeneza, impôs-se - tanto que a série começou por ser "As Aventuras do Califa Haroun El Poussah", o bondoso, plácido, e basto aéreo, obstáculo à perfídia do interesseiro grão-vizir. Mas logo se tornou óbvio aos autores, e a Goscinny em especial, que era Iznogoud o coração. Pois era a infâmia de quem queríamos rir, simpatizando.

 

 

 

 

 

 

Je Veux Une Harley, Margerin & Cuadrado

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Margerin é dos poucos autores que se tornaram adjectivo. Pois tal como "kafkiano" ou "dantesco" se  impuseram, a deliciosa etnografia que o autor fez da juventude urbana dos 1980s, acima de tudo nas aventuras do seu magnífico Lucien - esse que ele foi fazendo envelhecer até aos 50 anos -, o tornou símbolo dessa era e seus tiques. "Isso é Margerin" era a expressão que constantemente se impunha quando víamos a realidade a reflectir a obra, como se a parodiando, na abundância de comicidade com que as personagens (nós mesmos também) mimetizávamos o que Lucien e todos os seus patenteavam.

Há anos que não o lia, nem sabia desta nova série "Je Veux Une Harley" - que já conta com cinco álbuns, todos com argumentos de Marc Cuadrado. Encontrei este nº 2 num alfarrabista, meros 3 euros, e nem fiz menção de resistir. Abençoada compra, a regressar ao mundo Margerin. Agora o centro é Marc, um cinquentão já dono de uma Harley e disso fanático - como o devem ser todos os proprietários de harleys -, um monomaníaco para desespero da sua mulher. E em torno dele um grupo de amigos, suaves perdedores da vida sem desesperos mas com as angústias da meia idade e seus desarranjos cómicos. Uma comédia deliciosa, neste álbum promovida pelo desejo de se constituírem em grupo de "motoqueiros", ambicionando a ficção de rusticidade, nada compatível nem com eles-próprios nem com o meio envolvente. E ei-los a criarem os "Asphalt Troopers". Para logo serem surpreendidos e cooptados pela burocracia necessária para a criação de tais associações - um paradoxo total que lhes trituraria o "wild" da coisa ... se ele fosse mesmo a ambição.

A  não perder. Nem este volume nem os outros. Pois, é certo, Margerin ainda "mexe" ... Fresco, cómico. E carinhoso como antes.

 

A construção da catedral

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É o dia seguinte ao incêndio da Notre-Dame, e agora sê-lo-á para sempre. Na manhã sigo ao mercado da praça Dailly, às bancas turcas e belgas, vivas de legumes e frutas, frescos e saborosos. Na Brabançonne, rua ainda com laivos de "património", o alfarrabista aproveitou o tempo soalheiro e, como sempre o faz nos raros dias assim, apôs uma pequena mesa de livros porta fora, como se que a ornamentar o passeio.

Hoje, claro, está centrada em Paris, na sua catedral, como teria que o estar depois da desgraça de ontem. Vejo este livro, "Cathedral: the Story of its Construction", de David Macaulay, que desconheço, a 5 euros. Hesito, folheio, decido comprar, menos legumes, menos fruta levarei, ainda bem que a filha foi de férias, não haverá problemas se mais parca for a ementa.

 

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E como não o levar? O exemplar está em belíssimo estado, como se novo, e numa edição de 1973. E o livro é uma verdadeira pérola. Macaulay ficciona a construção de uma catedral gótica francesa: inventa uma Chutreaux e narra, ilustrando-o, com detalhe todo o processo de construção da catedral.

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O autor deixa então todo esse processo de edificação da imaginária catedral, desde a tomada da decisão em construí-la, em 1252, até à sua conclusão em 1338. E nesse processo demonstra a omnipresença do divino na sociedade, a confluência de toda a cidade na projecto de erigir a maior catedral do país, a congregação de saberes e energias. 

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O texto é elucidativo, breve, explicitando os passos seguidos, numa sobriedade formal que não agride o leitor leigo com excessiva técnica. Bem pelo contrário, torna acessível a compreensão de todos os processos. Mas o cerne do livro são as ilustrações, magníficas, que cobrem as 80 páginas do livro. Descrevendo os ofícios envolvidos, os materiais colectados e produzidos, os passos desde a abertura das fundações até à instalação da sua cumeeira, as técnicas utilizadas, as figuras construídas para ornamentar. E a festa final, o encanto da população - "netos dos que iniciaram o trabalho" como refere (ficciona) Macaulay.

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E nisso mostra não só a tal omnipresença do divino mas também a grandiloquência do construído, explanando o como era assim a dimensão eclesiástica a argamassa unificadora. 

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David Macaulay, tem outros livros, de produção posterior e na mesma linha. A perseguir, decerto, tamanha a qualidade deste.

 

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