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Nenhures

Nenhures

O banquete final

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Este maldito vírus quebra-nos a vida, angustia-nos presente e até futuro. A morte de Uderzo, ainda que tão natural aos seus 92 anos, e felizmente ocorrida na placidez do sono, sem qualquer ligação a esta pandemia, encontra-nos confinados. Trazendo isto de nem podermos fazer o requerido banquete final, exigível ao final deste episódio, o uderziano. Majestoso.

Que o seu legado, e não só Astérix, nos acompanhe agora, até avivado na memória pela sua morte. No seu humor e beleza servindo mesmo de estratégia da necessária mitigação. Banqueteemo-nos com os livros. E com as memórias das anteriores leituras.

Deixo aqui ligação a um bom e muito informativo texto sobre a obra do autor: Uderzo (na Comiclopédia). Bem recomendável.

 

Festival de Angoulême 2020

O rol de premiados está bem explícito e ilustrado neste postal de Bandas Desenhadas. Texto no Le Soir sobre o festival. E o texto no Le Monde, com maior atenção aos protestos dos autores contra a actual sub-remuneração do seu trabalho. O grande vencedor do ano é o álbum "Révolution" de Florent Grouazel (blog) e Younn Locard (sítio) (blog). 

 

Guibert saiu com o Grande Prémio. O artigo que lhe é dedicado no Le Point.

Tintin

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Adoro Tintin. Cresci com ele, "li-lhe" as aventuras (em português e francês) bem antes de saber ler (ainda tenho um esfarrapado "Sceptre de Ottokar", daqueles de lombada de pano, sobrevivente destas cinco décadas de usos e ofertas e contra-ofertas). Tenho a colecção (quase) toda do "Tintin" semanal, que começou aos meus 4 anos. E sou, existencialmente, um verdadeiro haddockiano. Nisso releio Tintin, sempre. No último ano em Bruxelas visitei, religiosamente, alguns dos "seus" sítios (a "sua" "primeira casa", por exemplo). E reli-o, na sua pátria.

Para mais serve-me, desde que sou trintão, para medir algumas das pessoas da paisagem. Pois vou-me deparando com gente, académica e jornalística, que perora sobre o racismo em Tintin, o de Hergé, porque o "Tintin no Congo etc e tal" .... É "tiro e queda", mal ouço a ladainha fica o diagnóstico feito: eis um panfletário ignorante e/ou aldrabão. Adepto das simplificações e da indústria das "denúncias". Uns apenas invectivam, com ar abespinhado e sapiente, menosprezando as leituras alheias. E uns, ainda mais mariolas, escrevem artigos (que vão a "revisão por pares") em revistas. E até teses. Assunto? Repito, o racismo em Tintin, porque o "Tintin no Congo etc e tal ...". Quanto a isso de ler, ler, pensar? Para quê, se pode por em causa a "denúncia"? A(s) causa(s)?

Vem isto a propósito (verbalizar o desprezo por estes mariolas vem sempre a propósito) de que um vizinho bloguista ontem me deu a conhecer um sítio onde estão acessíveis todos os 23 livros de Tintin (mais o Lago dos Tubarões e o incompleto Alpha-Art) e ainda alguns extras. Sei que ler BD no computador não é a mesma coisa. Mas isto é um pequeno tesouro.

Gravação rápida e acesso sem publicidades ou inscrições necessárias. Fica aqui o acesso: http://www.delplanche.be/integrale_tintin/

 

Integral de Iznogoud

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O primeiro volume da colecção integral das aventuras do ignóbil grão-vizir Iznogoud, celebrizado pela sua monomania, essa tão deliciosamente narrada que ficou como sua marca-d'água - mas a qual não será seu monopólio, se se olhar para a política, a histórica e a actual.

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O infame grão-vizir Iznogoud nasceu em 1962, filho do mag(n)o Goscinny e de Jean Tabary, tendo o seu parto decorrido no primeiro número da revista Record, numa era de imensas revistas periódicas de banda desenhada (Tintin, Pilote, Spirou, etc.) - destinadas (pensadas) para um público infanto-juvenil, predominantemente masculino. Goscinny desdobrava-se em argumentos para as aventuras de várias personagens por ele criadas, publicadas num alargado naipe de revistas - uma "integral" de Goscinny seria uma colecção gigantesca. Iznogoud, como tantas das personagens de banda desenhada que se tornaram "reais", sobreviveu ao seu pai.

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Como tal esta colecção "integral" consiste em 30 volumes, contendo não só as aventuras como os célebres "regressos" do malvado grão-vizir - as (por vezes muito) posteriores explicações de como se safara o horrendo grão-vizir das alhadas em que incessantemente caía, dado o insucesso dos seus malévolos planos.  E ainda outros materiais mais avulsos, bónus, capas de revistas, ilustrações, jogos, etc. Este primeiro volume (meros 2 euros, preço de lançamento da enorme colecção) tem três histórias: "La Chasse au Tigre", "L'Invisible Menace", "Un Sosie", "La Flûte à Toutous", um regresso (uma solução) da "Invisible..." e três da "La Flûte...". E dois artigos sobre a história desta série

Iznogoud (delicioso jogo fonético) é assim uma bela paródia mas também maravilhosa catarse, menos caricatural do que poderá parecer, da vida política. O demoníaco grão-vizir "nãoébom", está escravizado pela sua obsessiva vertigem de poder, que a tudo se sobrepõe, por ela tropeça numa incessante sequência de incompetentes planos e acções. E sempre resiste, sempre regressa. A personagem, na sua fealdade, avareza, pequeneza, impôs-se - tanto que a série começou por ser "As Aventuras do Califa Haroun El Poussah", o bondoso, plácido, e basto aéreo, obstáculo à perfídia do interesseiro grão-vizir. Mas logo se tornou óbvio aos autores, e a Goscinny em especial, que era Iznogoud o coração. Pois era a infâmia de quem queríamos rir, simpatizando.

 

 

 

 

 

 

Je Veux Une Harley, Margerin & Cuadrado

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Margerin é dos poucos autores que se tornaram adjectivo. Pois tal como "kafkiano" ou "dantesco" se  impuseram, a deliciosa etnografia que o autor fez da juventude urbana dos 1980s, acima de tudo nas aventuras do seu magnífico Lucien - esse que ele foi fazendo envelhecer até aos 50 anos -, o tornou símbolo dessa era e seus tiques. "Isso é Margerin" era a expressão que constantemente se impunha quando víamos a realidade a reflectir a obra, como se a parodiando, na abundância de comicidade com que as personagens (nós mesmos também) mimetizávamos o que Lucien e todos os seus patenteavam.

Há anos que não o lia, nem sabia desta nova série "Je Veux Une Harley" - que já conta com cinco álbuns, todos com argumentos de Marc Cuadrado. Encontrei este nº 2 num alfarrabista, meros 3 euros, e nem fiz menção de resistir. Abençoada compra, a regressar ao mundo Margerin. Agora o centro é Marc, um cinquentão já dono de uma Harley e disso fanático - como o devem ser todos os proprietários de harleys -, um monomaníaco para desespero da sua mulher. E em torno dele um grupo de amigos, suaves perdedores da vida sem desesperos mas com as angústias da meia idade e seus desarranjos cómicos. Uma comédia deliciosa, neste álbum promovida pelo desejo de se constituírem em grupo de "motoqueiros", ambicionando a ficção de rusticidade, nada compatível nem com eles-próprios nem com o meio envolvente. E ei-los a criarem os "Asphalt Troopers". Para logo serem surpreendidos e cooptados pela burocracia necessária para a criação de tais associações - um paradoxo total que lhes trituraria o "wild" da coisa ... se ele fosse mesmo a ambição.

A  não perder. Nem este volume nem os outros. Pois, é certo, Margerin ainda "mexe" ... Fresco, cómico. E carinhoso como antes.

 

A construção da catedral

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É o dia seguinte ao incêndio da Notre-Dame, e agora sê-lo-á para sempre. Na manhã sigo ao mercado da praça Dailly, às bancas turcas e belgas, vivas de legumes e frutas, frescos e saborosos. Na Brabançonne, rua ainda com laivos de "património", o alfarrabista aproveitou o tempo soalheiro e, como sempre o faz nos raros dias assim, apôs uma pequena mesa de livros porta fora, como se que a ornamentar o passeio.

Hoje, claro, está centrada em Paris, na sua catedral, como teria que o estar depois da desgraça de ontem. Vejo este livro, "Cathedral: the Story of its Construction", de David Macaulay, que desconheço, a 5 euros. Hesito, folheio, decido comprar, menos legumes, menos fruta levarei, ainda bem que a filha foi de férias, não haverá problemas se mais parca for a ementa.

 

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E como não o levar? O exemplar está em belíssimo estado, como se novo, e numa edição de 1973. E o livro é uma verdadeira pérola. Macaulay ficciona a construção de uma catedral gótica francesa: inventa uma Chutreaux e narra, ilustrando-o, com detalhe todo o processo de construção da catedral.

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O autor deixa então todo esse processo de edificação da imaginária catedral, desde a tomada da decisão em construí-la, em 1252, até à sua conclusão em 1338. E nesse processo demonstra a omnipresença do divino na sociedade, a confluência de toda a cidade na projecto de erigir a maior catedral do país, a congregação de saberes e energias. 

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O texto é elucidativo, breve, explicitando os passos seguidos, numa sobriedade formal que não agride o leitor leigo com excessiva técnica. Bem pelo contrário, torna acessível a compreensão de todos os processos. Mas o cerne do livro são as ilustrações, magníficas, que cobrem as 80 páginas do livro. Descrevendo os ofícios envolvidos, os materiais colectados e produzidos, os passos desde a abertura das fundações até à instalação da sua cumeeira, as técnicas utilizadas, as figuras construídas para ornamentar. E a festa final, o encanto da população - "netos dos que iniciaram o trabalho" como refere (ficciona) Macaulay.

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E nisso mostra não só a tal omnipresença do divino mas também a grandiloquência do construído, explanando o como era assim a dimensão eclesiástica a argamassa unificadora. 

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David Macaulay, tem outros livros, de produção posterior e na mesma linha. A perseguir, decerto, tamanha a qualidade deste.

 

O deus que tresanda ...

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Dieu qui pue, dieu qui pète et autres petites histoires africaines, de Fabien Vehlmann (argumento) e Frantz Duchazeau (desenho), publicado por Milan em 2006. Uma verdadeira pérola, apanhada por acaso. Vehlman - que desconhecia - é um argumentista em crescendo (tem continuado Spirou e Fantasio). As pequenas histórias deste livro são uma delícia, ficções inspiradas em contos africanos, com uma poética irónica mas felizmente desprovidas de explícitos intuitos morais, aquela redutora "moral da história" ou a apoucar a ficção ou a empobrecer o conto recolhido e assim castrado. Os desenhos de Duchazeau são lindíssimos, escapando ao molde "infantil", ainda que com ele namorando, e foram soberbamente coloridos por Brigitte Findakly. Fica assim um livro imperdível:

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São 9 pequenos contos, cada qual mais encantador. "O jovem egoísta", uma magnífica e ternurenta narrativa sobre o envelhecimento; o "a pequena viagem" sobre o poder - dois irmãos são mandados viajar pelo seu pai, o chefe, usando o primeiro animal que virem: um sai no cavalo e percorre o mundo, o outro fica ali, em cima da tartaruga, e a conclusão é magnífica; "algumas palavras no deserto" é uma narrativa linda, muito bem resolvida graficamente, etc. E o magnífico "o deus que tresanda e se peida", sobre um deus que tresandava e se peidava e que aportou a uma aldeia, obrigada a recebê-lo dados os deveres de hospitalidade e temor de castigo divino, um verdadeiro ensaio sobre a acção humana.

Em apanhando esta pérola é de agarrá-la.

 

Edelweiss, de Mayen e Mazel

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Edelweiss, de Cédric Mayen (argumento) e Lucy Mazel (desenho), publicado por Vents D'Ouest.

 

Comprei o livro devido ao título, que me convocou a canção de Rodgers e Hammerstein do "Música no Coração". Acertei, ao encontrar um belo romance.

 

É a história de amor de Edmond e Olympia, operário e filha burguesa, que percorre a segunda metade de XX francesa, desde o imediato pós-II Guerra Mundial. Sobre esse idílio se aborda, com sobriedade temática e sensibilidade melodramática, a ascensão estatutária do operariado no novo contrato social sob o Estado-Providência, nunca aludido, a causa feminista (Simone de Beauvoir tem um "cameo"), no trajecto autonomizador de Olympia, exigindo uma carreira profissional e a liberdade de praticar desporto de alta competição - o montanhismo, a ascensão do Monte Branco, que é o objectivo da sua vida, da trama do livro. E, ainda, o papel algo homogeneizador, assim construtor da cidadania moderna, do serviço militar obrigatório - é através dele que Edmond ganha estatuto de montanhista, equiparando-se à namorada, para a qual se tratava de uma tradição de família. Como também surgem as questões do regresso da frente de batalha (quando nem se falava nem havia sensibilidade para o stress pós-traumático). Tudo isto apresentado sem panfletarismo, como condimento da vida do casal. E há ainda as difíceis questões da maternidade, deixando antever formas de isolamento familiar (individualismo). Tudo isto caldeando uma belíssima história de paixão, décadas narradas com grande fluidez: um belo argumento de Mayen. Cruzado por um encantador desenho de Mazel, a excelente na reconstrução histórica, com subtis modificações para acompanhar as décadas decorridos, e a bem suceder nas paisagens de montanha. E a encontrar um tom exacto para a coloração, adequando-se ao ambiente sentimental que a história propõe. Ou permite, sendo alcançado exactamente através do acertado binómio desenho-cor.


O final, melodramático, é o da felicidade possível. Não o final feliz. Mas do sucesso apesar dos imponderáveis, o relativo. Da edelweiss, a flor da montanha, entrevista.

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