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Gavetas e Prateleiras

Gavetas e Prateleiras

Integral de Iznogoud

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O primeiro volume da colecção integral das aventuras do ignóbil grão-vizir Iznogoud, celebrizado pela sua monomania, essa tão deliciosamente narrada que ficou como sua marca-d'água - mas a qual não será seu monopólio, se se olhar para a política, a histórica e a actual.

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O infame grão-vizir Iznogoud nasceu em 1962, filho do mag(n)o Goscinny e de Jean Tabary, tendo o seu parto decorrido no primeiro número da revista Record, numa era de imensas revistas periódicas de banda desenhada (Tintin, Pilote, Spirou, etc.) - destinadas (pensadas) para um público infanto-juvenil, predominantemente masculino. Goscinny desdobrava-se em argumentos para as aventuras de várias personagens por ele criadas, publicadas num alargado naipe de revistas - uma "integral" de Goscinny seria uma colecção gigantesca. Iznogoud, como tantas das personagens de banda desenhada que se tornaram "reais", sobreviveu ao seu pai.

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Como tal esta colecção "integral" consiste em 30 volumes, contendo não só as aventuras como os célebres "regressos" do malvado grão-vizir - as (por vezes muito) posteriores explicações de como se safara o horrendo grão-vizir das alhadas em que incessantemente caía, dado o insucesso dos seus malévolos planos.  E ainda outros materiais mais avulsos, bónus, capas de revistas, ilustrações, jogos, etc. Este primeiro volume (meros 2 euros, preço de lançamento da enorme colecção) tem três histórias: "La Chasse au Tigre", "L'Invisible Menace", "Un Sosie", "La Flûte à Toutous", um regresso (uma solução) da "Invisible..." e três da "La Flûte...". E dois artigos sobre a história desta série

Iznogoud (delicioso jogo fonético) é assim uma bela paródia mas também maravilhosa catarse, menos caricatural do que poderá parecer, da vida política. O demoníaco grão-vizir "nãoébom", está escravizado pela sua obsessiva vertigem de poder, que a tudo se sobrepõe, por ela tropeça numa incessante sequência de incompetentes planos e acções. E sempre resiste, sempre regressa. A personagem, na sua fealdade, avareza, pequeneza, impôs-se - tanto que a série começou por ser "As Aventuras do Califa Haroun El Poussah", o bondoso, plácido, e basto aéreo, obstáculo à perfídia do interesseiro grão-vizir. Mas logo se tornou óbvio aos autores, e a Goscinny em especial, que era Iznogoud o coração. Pois era a infâmia de quem queríamos rir, simpatizando.

 

 

 

 

 

 

Je Veux Une Harley, Margerin & Cuadrado

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Margerin é dos poucos autores que se tornaram adjectivo. Pois tal como "kafkiano" ou "dantesco" se  impuseram, a deliciosa etnografia que o autor fez da juventude urbana dos 1980s, acima de tudo nas aventuras do seu magnífico Lucien - esse que ele foi fazendo envelhecer até aos 50 anos -, o tornou símbolo dessa era e seus tiques. "Isso é Margerin" era a expressão que constantemente se impunha quando víamos a realidade a reflectir a obra, como se a parodiando, na abundância de comicidade com que as personagens (nós mesmos também) mimetizávamos o que Lucien e todos os seus patenteavam.

Há anos que não o lia, nem sabia desta nova série "Je Veux Une Harley" - que já conta com cinco álbuns, todos com argumentos de Marc Cuadrado. Encontrei este nº 2 num alfarrabista, meros 3 euros, e nem fiz menção de resistir. Abençoada compra, a regressar ao mundo Margerin. Agora o centro é Marc, um cinquentão já dono de uma Harley e disso fanático - como o devem ser todos os proprietários de harleys -, um monomaníaco para desespero da sua mulher. E em torno dele um grupo de amigos, suaves perdedores da vida sem desesperos mas com as angústias da meia idade e seus desarranjos cómicos. Uma comédia deliciosa, neste álbum promovida pelo desejo de se constituírem em grupo de "motoqueiros", ambicionando a ficção de rusticidade, nada compatível nem com eles-próprios nem com o meio envolvente. E ei-los a criarem os "Asphalt Troopers". Para logo serem surpreendidos e cooptados pela burocracia necessária para a criação de tais associações - um paradoxo total que lhes trituraria o "wild" da coisa ... se ele fosse mesmo a ambição.

A  não perder. Nem este volume nem os outros. Pois, é certo, Margerin ainda "mexe" ... Fresco, cómico. E carinhoso como antes.

 

O deus que tresanda ...

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Dieu qui pue, dieu qui pète et autres petites histoires africaines, de Fabien Vehlmann (argumento) e Frantz Duchazeau (desenho), publicado por Milan em 2006. Uma verdadeira pérola, apanhada por acaso. Vehlman - que desconhecia - é um argumentista em crescendo (tem continuado Spirou e Fantasio). As pequenas histórias deste livro são uma delícia, ficções inspiradas em contos africanos, com uma poética irónica mas felizmente desprovidas de explícitos intuitos morais, aquela redutora "moral da história" ou a apoucar a ficção ou a empobrecer o conto recolhido e assim castrado. Os desenhos de Duchazeau são lindíssimos, escapando ao molde "infantil", ainda que com ele namorando, e foram soberbamente coloridos por Brigitte Findakly. Fica assim um livro imperdível:

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São 9 pequenos contos, cada qual mais encantador. "O jovem egoísta", uma magnífica e ternurenta narrativa sobre o envelhecimento; o "a pequena viagem" sobre o poder - dois irmãos são mandados viajar pelo seu pai, o chefe, usando o primeiro animal que virem: um sai no cavalo e percorre o mundo, o outro fica ali, em cima da tartaruga, e a conclusão é magnífica; "algumas palavras no deserto" é uma narrativa linda, muito bem resolvida graficamente, etc. E o magnífico "o deus que tresanda e se peida", sobre um deus que tresandava e se peidava e que aportou a uma aldeia, obrigada a recebê-lo dados os deveres de hospitalidade e temor de castigo divino, um verdadeiro ensaio sobre a acção humana.

Em apanhando esta pérola é de agarrá-la.

 

Edelweiss, de Mayen e Mazel

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Edelweiss, de Cédric Mayen (argumento) e Lucy Mazel (desenho), publicado por Vents D'Ouest.

 

Comprei o livro devido ao título, que me convocou a canção de Rodgers e Hammerstein do "Música no Coração". Acertei, ao encontrar um belo romance.

 

É a história de amor de Edmond e Olympia, operário e filha burguesa, que percorre a segunda metade de XX francesa, desde o imediato pós-II Guerra Mundial. Sobre esse idílio se aborda, com sobriedade temática e sensibilidade melodramática, a ascensão estatutária do operariado no novo contrato social sob o Estado-Providência, nunca aludido, a causa feminista (Simone de Beauvoir tem um "cameo"), no trajecto autonomizador de Olympia, exigindo uma carreira profissional e a liberdade de praticar desporto de alta competição - o montanhismo, a ascensão do Monte Branco, que é o objectivo da sua vida, da trama do livro. E, ainda, o papel algo homogeneizador, assim construtor da cidadania moderna, do serviço militar obrigatório - é através dele que Edmond ganha estatuto de montanhista, equiparando-se à namorada, para a qual se tratava de uma tradição de família. Como também surgem as questões do regresso da frente de batalha (quando nem se falava nem havia sensibilidade para o stress pós-traumático). Tudo isto apresentado sem panfletarismo, como condimento da vida do casal. E há ainda as difíceis questões da maternidade, deixando antever formas de isolamento familiar (individualismo). Tudo isto caldeando uma belíssima história de paixão, décadas narradas com grande fluidez: um belo argumento de Mayen. Cruzado por um encantador desenho de Mazel, a excelente na reconstrução histórica, com subtis modificações para acompanhar as décadas decorridos, e a bem suceder nas paisagens de montanha. E a encontrar um tom exacto para a coloração, adequando-se ao ambiente sentimental que a história propõe. Ou permite, sendo alcançado exactamente através do acertado binómio desenho-cor.


O final, melodramático, é o da felicidade possível. Não o final feliz. Mas do sucesso apesar dos imponderáveis, o relativo. Da edelweiss, a flor da montanha, entrevista.

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Marjorie, o meu primeiro amor

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Marjorie foi o meu primeiro amor. Marjorie Hart de seu nome completo, uma jovem médica americana. Encontrei-a no emirado Sarrakat, onde ela era missionária adventista e prestava cuidados médicos gratuitos a uma população deles tão carente, isto apesar do tanto petróleo  que o país tinha, coisas típicas do atraso civilizacional. Mulher bondosa, corajosa, séria. E linda, loura de olhos azuis, bem torneada naquela magreza da vida frugal e dedicada que levava, deliciava no seu vestido azul de ganga com que a conheci - e pela sua memória ainda hoje me encanto ao ver uma mulher assim vestida.

 

Nunca lhe disse do meu amor. Um pouco por timidez, a princípio. Depois, uns meses após a ter conhecido, pois percebi-a apaixonada pelo Michel e preferi calar-me, compreendi o quão inútil seria declarar-me. Pois era óbvio que ela o preferiria. Lembro-me ainda, sempre a lembrarei, da angústia desiludida sentida ao entrevê-los beijando-se ...

 

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Ele era piloto de caças, bem apessoado, daquele tipo apreciado pelas mulheres, e ainda por cima célebre. Pois sobre as imensas aventuras do Michel (Tanguy) e do amigo, o Ernest (Laverdure), já havia vários livros e também uma série de tv, "Os Cavaleiros do Céu", muito popular. Enfim, eram umas verdadeiras estrelas, e com tudo isso as mulheres caíam-lhes nos braços. Que hipóteses teria eu? Para tudo piorar nessa época eu só tinha seis anos, como poderia cativar uma adulta? Decidi calar-me e esperar. Presumi que o Michel partiria, deixando-a. Ele era um tipo decente mas com a vida que levava não parecia possível que fosse manter um namoro ali.

 

Ele e o Ernest, tinham vindo de Mirage apoiar Azraf, instruendo deles em França. Sarrakat estava em guerra civil. O anterior emir, Muhammad, o pai de Azraf, fora assassinado pelo seu ignóbil irmão Mokhtar, desejoso de reinar. Para isso aliara-se aos americanos, os da petrolífera Middle East Petroleum, que tinham acorrido para ultrapassar a ELF francesa, a qual até então tinha explorado, de forma justa e respeitadora, o petróleo local. Então eram outros tempos, ainda estava fresca a crise do Suez, e De Gaulle opunha-se às injustas ambições dos americanos. Também por isso Tanguy e Laverdure ali estavam, ajudando o aliado e amigo Azraf, um tipo muito decente, dedicado ao seu povo, e cuja vitória final muito a eles se deveu.

 

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Mas antes disso aconteceu a desgraça. Kaleb, que os acompanhara, fora preso e torturado. A tudo resistiu, menos à malvadez de Ross, o perverso assessor americano de Mokthtar. Este ameaçou-o com aquilo que os yankees, ímpios, já haviam feito nas Filipinas (e os russos copiariam na Tchetchenia): enterrá-lo embrulhado em pele de porco, condenando-o à maldição eterna. A isso o pobre Kaleb não resistiu, e denunciou o refúgio das tropas de Azraf. Então, enquanto estas conquistavam a capital, a aviação de Mokhtar arrasou o esconderijo, apesar deste sinalizado com o Crescente Vermelho, onde Marjorie tratava dos feridos.

 

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A notícia da morte de Marjorie devastou-me. A mágoa durou-me anos, feita desilusão com a vida. E andei cego e surdo ao amor. Há pouco todos festejaram as bodas de ouro do namoro do Ric Hochet com a Nadine, coisa bonita, claro. Mas, e tantos anos decorridos já não parece mal dizê-lo, naquela altura ela muito se me insinuou, dengosa, e eu fiz-me desentendido, desinteressado, pois ainda tão incapaz de esquecer a Marjorie. A Nadine acabou por desistir, ficou com o Ric Hochet, o qual de nada desconfiou, ao que eu saiba, e pelos vistos têm sido felizes. Ou fazem por isso, nunca se sabe. E o pai dela também tanto queria aquele casamento, julgo mesmo ter sido para se rebelar contra ele, coisas da juventude, que ela começou a meter-se comigo.

 

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Mas com o tempo tudo se vai esmoendo, ou pelo menos assim parece. Um dia, na vilória do Iorix, conheci a Ariel, uma francesa. E ficámos juntos por uns tempos. Mas foi difícil, ela seguia tristonha, desinteressada até, como se estivesse comigo por desfastio. Pois não tirava o Alix da cabeça, apaixonada desde que ele por lá passara, uns meses antes. Fui aguentando, na esperança de aquilo lhe passar, tentando verdadeiramente conquistá-la, sendo o compreensivo que consegui. Ela era tão bonita ... Mas a paciência foi-se-me esgotando, a enfrentar aquele seu alheamento mudo. Um dia, e arrependo-me disso, fui cruel, bebera demais, atirei-lhe à cara quem aquele Alix era, mais o seu Enak, qual o tipo daquela gente. Coitada, era uma campónia, jovenzinha naquele ermo, a mãe morrera, não tinha irmãs, o pai era um gaulês bêbedo e os irmãos uns imbecis, nada sabia da vida ou do mundo, sem ninguém que lho ensinasse. Poderia ter sido eu, se tivesse sido um pouco mais paciente. Mas como?, tudo acabou ali ... ficou chocada comigo, "miserável!", "mentiroso!", gritou-me em pranto, descrente e horrorizada. Comigo. Parti. 

 

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Uns anos depois, eu mais maduro, já nos meus dez, aboletei-me no "Triple-Six", o rancho da Comanche. E, claro, pouco depois de ali aportar estava de olho na dona, um naco de mulher, garanto, por máscula que pudesse parecer. Mas logo percebi o quanto seria difícil conquistar-lhe a atenção. Pois entre ela e o Red Dust havia qualquer coisa, ainda que eu julgue que nunca se tenham vindo a juntar. E também por causa do seu feitio, mandona, sempre patroa, agreste. Eu compreendi-a, e a toda aquela sua amargura disfarçada de comando. Mas os outros não a percebiam, e muito menos o Red Dust, que era um básico. Bom tipo, lá no fundo, muito bom vaqueiro, danado para o tiroteio, mas mesmo básico. E se eu abordasse o assunto todos se virariam contra mim. Agora não, posso falar, já todos terão  morrido, pelo menos do Dust tenho a certeza disso, velho e doente, nunca o imaginei tão assim demorado, mas da Comanche nada sei. Estou certo de que ela era assim, rude, seca, exigente, porque era estéril e geria mal isso. A mim não faria diferença. Tivesse-se ela juntado comigo e se quiséssemos filhos poderíamos ter comprado uns índios ou pretos, mulatos de preferência, como agora está na moda, mas então não era costume. Mas não poder parir tornava-a tão amarga, arisca, desiludindo-me de qualquer esperança. Além daquilo com o Dust, claro, mesmo sem andar nem deixar de andar. Mas como o assunto começava a não me sair da cabeça e se calhar já estava a transparecê-lo, pois apanhei o ruivo a dar-me uns olhares de soslaio nada amistosos, decidi avançar.

 

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Naquela altura havia poucas mulheres. E onde cheguei a seguir só havia a Chinook. Esta era uma beleza, e uma doçura. Ainda para mais depois de ter conhecido a Comanche, rude como essa era, fiquei logo encantado com a índia. Mas, caramba, ela e o Buddy tinham acabado de se casar, logo tiveram um filho, estavam felicíssimos. E o Longway era um tipo excelente, como há poucos, talvez o melhor que encontrei. E um homem não se mete com as mulheres dos amigos, isso é sagrado. E assim fiquei, visitava-os, gostava da família, do ambiente. Conversava-se, comia-se, às vezes com algum passante à mesa. De quando em vez perguntava-lhe se não tinha uma irmã parecida para se me juntar, e devia ter, pois ainda por cima os índios confundem as irmãs com as primas. O Buddy sorria, percebia o elogio que a pergunta trazia, mas ela negava, não me devia achar grande peça. Ou então não tinha mesmo. E eu segui sozinho.

 

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Algum tempo depois conheci a Pandora. Todos estavam apaixonados por ela. Ou, pelo menos, interessados. Não havia quem o negasse. Não eu, digo-o com franqueza. Claro, ela era uma beldade. Fina, elegante, bem cheirosa, um pano de seda pura. E insinuante, tanta promessa, sonhava-se ao olhar para ela. Mas era tão pedante ... Percebia-se, nos seus trejeitos e ênfases, ser ela uma daquelas mulheres que nos infernizam a vida, nas suas exigências, nos seus amuos, pois tanto sabendo o quanto nos atraía, amarrava. E seguia já assim sendo apenas uma miúda, então ainda só uma aranhiça a aprender a tecer teias.  O que viria a ser depois, quando já sabida? E também logo percebi não ser ela para mim, haveria sempre de preferir um qualquer tipo de boas famílias, daqueles de estudos em universidades finas, belos empregos, gente respeitável. Era a esses que ela, sedutora, dava esperanças, só por eles aparentava deixar-se perseguir,  fingindo-se presa. Deve ter conseguido.  Guardar um deles. Às vezes imagino-a agora, daquelas que envelheceu magra, seca, decerto. Deve andar por aí, impante camuflando as infelicidades causadas.

 

 

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Acabei por ficar com a Esmeraldita, foi o Hugo que nos apresentou, disse-lhe que tomasse conta de mim e ela assim o fez. Estivemos juntos uns anos, bastantes até. O mal foi nunca ter ela deixado aquela vida, dizia-me não querer depender de mim. Terá sido outra a razão era outra, ela fazia bom dinheiro, os clientes muito a procuravam, e eu nunca fui abonado o suficiente para cobrir tudo isso. E talvez ela não gostasse assim tanto de mim, eu servir-lhe-ia de amparo, e os homens mais a respeitavam por a saberem mulher de alguém, ainda por cima de um branco. E também não me quereria largar por respeito ao Hugo, de quem ela gostava como de um pai, e se calhar ele era-o, apesar de ela ser toda preta, há casos assim, e por isso para ela eu seria uma missão, por assim dizer. Um dia fartei-me daquilo, de estar apenas para os intervalos, deixei-lhe o que tinha, disse-lhe para montar a sua barraca, instalasse-se ela como patroa para aguentar a velhice que haveria de vir, mesmo que ela ainda estivesse muito bem, magnífica, malvada, apetecível, filhadamãe, pois ainda a recordo, dias há que me vem o seu cheiro, e tantos anos passaram. Nunca mais dela soube, espero que não tenha bebido tudo o que lhe dei, não tão pouco assim. E que não tenha apanhado a maldita doença, que a tantas levou.

 

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Passados anos, um dia perto do Alto Ligonha, parei numa cantina ao entardecer. A dona era uma mulata gorda, ainda em bom estado, do Chinde, vim a saber. Pedi algo rápido para comer e seguir viagem mas ela mandou matar galinha e decidiu que nessa noite eu dormiria num dos quartos que alugava nas barracas das traseiras. E foi acordar o marido, que estava na sesta, pois ele decerto que gostaria de falar com um patrício, afiançou. Passado um bocado apareceu-me o homem, estremunhado, um velhote tuga vestido à monhé com um ar já muito acabado. Olhei para ele e pareceu-me que já o vira algures, "você não é o Figueira?", perguntei-lhe. O que gostou de ser reconhecido!, até rejuvenesceu, não se lembrava de mim mas mentiu que sim, e logo nos foi buscar verdadeiro vinho, daquele mesmo de uva, que não vendia à clientela local, "habituados às zurrapas", e perdeu-se em recordações. Contou que a idade viera e se cansara, decidira parar a venda ambulante. Arranjara aquela mulher, "um aconchego" disse, e eu a pensar que sim, que o seria, tanto que me retivera nas paragens, mamana atrevida ... E tinha-se estabelecido por ali, a cantina dava para ir vivendo. Foi simpático, quando lhe disse que estava a pensar em largar África logo me avisou "se você vai para a Europa vá falar com o capitão, um homem muito bem-posto na vida, e boa pessoa, grande amigo meu, diga-lhe que vai da minha parte, vai ver que ele o encaminha". Bom tipo, o Figueira, nunca fez mal a alguém, um enganozito aqui ou acolá, mas nada mais do que isso. Estava já no final, via-se e mais mo disse a sua patroa, depois, já na noite longa, apoquentado por qualquer coisa nas entranhas. E que ficasse eu descansado, ela estaria ali, cuidaria do velho até se acabar, afiançou.

 

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Quando cheguei à Europa procurei o capitão, no pretexto de lhe dar novidades do Figueira. Como não lhe sabia o paradeiro disseram-me para tentar na casa do senhor Hergé, muito seu amigo, que decerto me orientaria. Lá segui até Etterbeek, à rua Philippe Baucq, 33. O morador surpreendeu-se com o meu engano, apenas sabia que o homem ali nascera e crescera pois a casa tem uma placa a anunciá-lo. Mas, fosse como fosse, já há muito que morrera. Expliquei-lhe que quem eu procurava era um amigo dele, o capitão Haddock, se me poderia dar alguma informação. "O senhor capitão também já faleceu, há alguns anos", com homenagens públicas e tudo, do  próprio rei, sublinhou, coisas que haviam sido noticiadas nos jornais, concluiu. 

 

 

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Fiquei abalado, estava a contar com alguma ajuda. Entrei no café da esquina, a precisar de algo para ganhar ânimo. E estanquei, sem querer crer no que via. Meio a dormitar ali estava, sentado numa mesa, o Professor. Como seria possível?, conhecera-o já velho, deveria agora ter para cima de cem anos ... Sentei-me à sua mesa e nem se surpreendeu, percebi que seria habitual os clientes juntarem-se-lhe. Ofereci-lhe uma bebida e aceitou. Pedi cachaça, brasileira, talvez isso lhe avivasse algumas memórias. Mas não havia, então mandei vir tequillas. Perguntei-lhe que fazia por ali, resmungou qualquer coisa, até alheado, e foi o dono, flamão, que se chegara à mesa como se que a proteger o velho, que explicou, "o professor fora um grande sábio", em Praga, na Suíça, noutros sítios. E por isso uma universidade católica dera-lhe uma pensão de velhice. E que agora vive naquela rua, num asilo de velhos, umas portas ao lado. Todos os dias vai àquele café, anima, convive e beberica. E depois, para que não se perca, ao anoitecer vão-no buscar ou algum cliente o vai entregar. Mas, avisou, que não lhe faz bem exagerar nas bebidas. E tequillas? É demais para ele, disse. Aí o velho irritou-se, como se lhe roubassem algo, e começou a falar, de quando andara no Golfo do México, Caraíbas, até Antilhas, mais da Amazónia. Nas terras das tequillas, por assim dizer. Inventou um bocado, mas quem não o faz?

 

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Posto ele a percorrer memórias também as minhas se soltaram. Estar com o Professor lembrara-me o Hugo, também já morto, e deste deixei-me ir à Esmeraldita. E por aí atrás, até, muito pelo desanimado que estava nesse dia, me assomar a Marjorie. Carpi-a ali, de novo, décadas passadas, já entre bebidas em demasia. Nisso o velho, que já cabeceava, despertou. "Marjorie? Hart?", "conheço-a bem ... mas que ideia é essa dela ter morrido? Está viva. Bem viva." Resmunguei, que estaria ele enganado, pensando-o até mais senil do que já vai. Insistiu, que estava certo, filha de um colega dele, Hart, renomado professor de estudos bíblicos da Andrews, uma universidade adventista do Michigan, muito conferenciara com ele ao longo de anos. O pai sim, morrera, quando ensinava no Peru ou na Bolívia, não se lembrava com exactidão, depois de o ter feito na Bahia e no Paraná, onde haviam convivido. Quis crê-lo, apesar de ser impossível, alvoraçado pedi-lhe que me dissesse onde a poderia encontrar. Chamou o flamão, afinal "não sou patrão, só trabalho aqui" respondera-me, e explicou-lhe como me levar até ela, depois de fechar a casa. Pois ele não me podia acompanhar, estava muito cansado e tinha que mudar a fralda, já empapada. Levei-o ao asilo, e regressei, nervoso, impaciente, mais curioso sobre o que o Professor quereria dizer, não podia acreditar que falasse verdade, alguma confusão teria feito.

 

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Fechada a casa o flamão levou-me até  Tanguy e Laverdure, L'Intégrale 6, Bároud sur le Désert.  Azraf leidt de aanval uit de strip Tangy en LaverdO Michel e o Laverdure lá estavam também, com os seus Mirage, febris e heróicos, a combater no deserto, entre a Síria e Sarrakat, nem percebi bem, que confusas são as fronteiras no deserto, contra estes daesh de agora. Azraf, como sempre, com eles ombreia, liderando o seu bravo e fiel povo, enfrentando no terreno as facções sediciosas, umas a soldo dos americanos e outras dos russos, todas apoiadas por mercenários bem armados.  Em torno dele, e com a protecção dos incansáveis pilotos, e através de incontáveis sacrifícios, a vitória está imanente, apesar da inferioridade de meios.

 

E, para meu encanto, maravilhado, extasiado, afinal Marjorie está entre eles, dedicada. Pouco consegui falar com ela, nem me reconheceu, pois tanto mudei, imersa no seu corropio, tão atarefada nos hospitais de campanha, cuidando dos feridos apesar da sua exaustão e da falta de recursos. Fico siderado, surge-me igual, igualzinha, o tempo não lhe deixou qualquer marca, nem uma pequena mácula. Até vestida da mesma forma - pois a ganga não passou de moda, concluo. Olho-a, entre lágrimas, ainda apaixonado e agora até mais, e percebo como tudo lembro das suas linhas, de todas as suas entoações e meneios, do seu olhar, o azul do mar ali no deserto. 

 

De imediato me ofereço para ir buscar medicamentos que tanto escasseiam. Diz-me que estão distantes, e alcançáveis por travessia perigosa, algumas horas através de caminhos de deserto fustigados pelos mercenários pró-russos e pelos últimos rebeldes dos daesh, temíveis. Partirei na alvorada, Kaleb, já recuperado das sevícias sofridas, acompanhar-me-á.

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E percebo o que acontecera naquela época. De facto, não a havíamos visto morta. Aproveitando o raid da aviação de Mokhtar, Marjorie simulara a sua morte. Temera que o Michel, honrado como é, após aquele beijo se sentisse na obrigação de ficar com ela. E não o quis reter, prender, pressentindo que no tempo isso o tornaria infeliz, homem de acção que é. Que abnegação dela! Que sacrifício pelo homem que amava, que despojamento. Que mulher maravilhosa, ainda mais do que eu a recordava.

 

Exulto com este reencontro. Não tenho esperanças. Sei que após esta guerra o Michel partirá, com o Laverdure, para onde a sua França o convocar. Mas também sei que se antes fui uma criança, para ela sou agora um velho. Nem 30 anos ainda tem, e após esta aventura, todo este deserto, regressará ao seu Michigan deixando de ser "Marjorie da Arábia", quererá ter uma família, criar filhos. Precisa de um bom homem para isso, talvez da sua igreja ou, pelo menos, um bom cristão. Para mim para tudo isso é tarde demais. Mas estou feliz, já nada lamento, é bom amar. E lembro-me do que alguém me disse em tempos, julgo que foi o Jonathan, um bom rapaz, um bocado hippie demais, mas bom rapaz mesmo assim, e muito dado a saídas dessas: mais vale amar do que ser amado. É isso mesmo ... 

 

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Kaleb chama-me, já está lá fora com os cavalos, o sol desponta. Bebo o resto do uísque que o flamão me deixou. E vou andando. Será apenas mais um deserto.

***

AdendaTanguy e Laverdure, L'Intégrale 6, Bároud sur le Désert (Dargaud, 2016). Inclui 3 pequenas histórias, e duas histórias editadas em álbum em 1970: "O alferes Bang-Bang" (Lieutenant Double-Bang!), de 1968, publicada no "Tintin" português (#13 a 35, do 3º ano, 1970), e "Luta no Deserto" (Baroud sur le Désert), de 1969, publicada no "Tintin" português (#29 a #51, do 4º ano, 1971)).

Desenho de Jijé, argumento de  Charlier. "Tanguy e Laverdure" surgiu no primeiro número da revista Pilote (1959), e o seu desenhador era Uderzo, que abandonou esta obra em 1966 por estar demais atarefado com Astérix. O livro integra um dossier sobre a série e sobre a folhetim televisivo "Os Cavaleiros do Céu", e uma bela entrevista com Benoît Gillain, filho de Jijé e também autor de BD, sobre a carreira do pai.

 

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