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Nenhures

Nenhures

16
Mai25

Lá no "O Pimentel", o outro meu blog

jpt

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No "O Pimentel", o blog que abri há um mês na plataforma substack, os últimos postais são estes: "Rumo de Moçambique" (1)   - a primeira parte de um texto sobre os 50 anos de Moçambique, que publicarei em três fascículos; os textos da minha rubrica "O Clérigo Mouco"; e a crónica de minha recente ida ao Algarve:  "Em Lagos, no Dia Mundial do Livro 2025".

Pode ser visitado, o "O Pimentel". E subscrito, no "botão" que deixo abaixo.

 

 

 

20
Nov24

Um texto sobre Moçambique que não escrevi

jpt

marquês.jpg

No início do bloguismo português, lá pelo 2003/2004, era usual apor-se a cada postal as iniciais do autor, este identificado pelo nome na então célebre "coluna da direita". Assim faziam os meus bloguistas preferidos, o jcd (João Caetano Dias, do "Jaquinzinhos") e o hmfb (Henrique Manuel Bento Fialho). Ou outros então mais célebres, como o jpp (José Pacheco Pereira - que me foi um dos mais importantes professores na universidade, o outro foi o João Leal, que não é de blogs), ou o FJV (Francisco José Viegas), etc.
 
Assim fiz e continuo a fazer, nos blogs identifico-me na informação geral e nos postais aponho jpt. As quais são as iniciais de José Pimentel Teixeira, como assino. Pois nunca gostei do Flávio avoengo com que me acoplaram o nome próprio. E porque o meu apelido patrilinear é compósito - o meu pai era conhecido por Pimentel, pois não foi à tropa, eu fui e logo ali no primeiro dia de Mafra fiquei para sempre "Sô Teixeira".
 
Ou seja, sou José Flávio Taveira Pimentel Teixeira, pois ao registarem-me decidiram amputar-me do nome compósito do meu avô matrilinear (Taveira Pereira). Os meus verdadeiros amigos portugueses chamam-me Zezé. Algumas, poucas, senhoras entretanto afastaram-se, enfastiadas, para Zé. Os meros colegas condenam-me, altaneiros devido aos seus sucessos, ao Flávio. Em Moçambique os amigos tratam-me normalmente por Teixeira, Zé Teixeira ou "mais-velho". Pouquíssimos, mais íntimos, decidiram-se ao "Zé".
 
Às lérias que escrevo assino seguindo o nome do meu pai António e do meu avô Flávio, que os ascendentes não conheci. Sou então José (eu) Pimentel Teixeira (os meus antepassados). Nas ligeirezas que ponho nos blogs aponho a cada publicação as tais iniciais jpt. Algumas delas aqui as transcrevo e ficam como do "José Teixeira", nome algo artificial pois não só apenas aqui [Facebook] o uso como nenhum português é "José", como é consabido.
 
Dito tudo isto, um amigo acaba de me dizer que no frenesim internético moçambicano corre um texto, ao qual me atribuem a autoria. Algo anónimo, pois assinado apenas como J. G. J.
 
Não opino sobre o seu conteúdo. Apenas aviso alguns incautos que aquilo não é meu. As minhas iniciais são as jpt, sempre em minúsculas. E actuo, escrevo, sempre de cara destapada, como comprovo nesta fotografia.

22
Mai24

A razão de falar sobre livros

jpt

calvino.jpg

Meti-me nesta coisa de falar sobre livros que leio - ou (re)li. Em registo despretencioso, e mais do que tudo ambiciono não soar pomposo. Vou ver se tenho energia para ser perseverante nisso... O propósito, disse-o na primeira publicação, é conversar sobre livros com os "amigos" - os reais e os digitais. Já tive bons ecos disso, dois deles a pedirem-me livros emprestados, e sobre livros não há nada melhor do que... emprestá-los. Contrariamente ao que os decoradores de estantes sempre afivelam, muito ciosos de que nessa recusa simbolizam o seu apreço pelas "letras", pobres coitados. E quero ilustrar o que é esta coisa boa de se conversar sobre livros.
 
Um pouco antes disto das "redes sociais" alguns escrevíamos em blogs, tanto que até se falava de uma comunidade blogal, aquela "blogosfera". Interagia-se muito. Em debates, até em questiúnculas, em referências (os chamados "links" por aqueles que desconheciam o termo "elo"). Isso eram conversas, às vezes ombreando, outras conflituando. E nisso ouvíamos-nos (líamos-nos). Para exemplos, por questões políticas passei anos a resmungar com o senador blogal Luis Novaes Tito e por razões do meu encanto com Moçambique outros anos passei a seguir a louvar o belíssimo blog do André José. E assim (através dos tais "links", aliás "elos") ecoando-os, explicitamente... Isso perdeu-se nestas "redes sociais". Às vezes "partilha-se" algo alheio, muitas vezes "gosta-se" ("laica-se", dizem os imberbes e as ainda pré-menarcas). Mas nesse frenesim não se identifica, não se refere, não se... remete. Não se explicita aquele "vão lá ler aquele tipo". Ou seja, até paradoxalmente, a "rede social" impessoaliza-se, torna-se um mero (e extenso) rol de itens, não um agregado de gentes conversando.
 
Vem-me isto a propósito destas minhas "conversas" sobre livros, estes "estou a ler isto". O Carlos Sousa de Almeida (lá está, identifico e remeto) - que tem um bom mural no Facebook, do tão interessante que lá deixa - é gentil, elogia, e reconhece, sorridente (percebo-o), que "você gosta de fazer isso". É verdade, gosto de falar sobre livros, e faltam-me essas conversas. E, também o disse, é melhor falar do que escrever - pois na escrita tendo ao orlar ("tens/tem uma escrita rebuscada", já me escreveram 3 dos poucos incautos que compraram o meu "Torna-Viagem", esse "flop" que fica na minha "história de vida"). Ou seja, mais vale falar, sem ademanes. E sem palavrões (por mais que muitos livros mereçam pragas, devidas à forma e, acima de tudo, ao conteúdo apresentado).
 
Por que gosto eu de conversas sobre livros? É simples, pelas algumas pistas simpáticas que poderão aparecer. Mas principalmente pelas memórias ressuscitadas que acontecem. No pimeiro filme que fiz no meu mural de Facebook comentou o Acácio Manuel Maia Carreira - que eu conhecera há 30 anos quando ele era leitor do Camões em Nampula e que reencontrei agora - dizendo-me que naquele meu registo lhe apetecia reler o Calvino.
 
Sorri, iluminado. E interrompi-me, Fui à estante, até à prateleira do Calvino. E, só por causa do bom do Acácio, reli o "6 Propostas para o Próximo Milénio", um pequeno tesouro de inteligência. Cuja leitura completara no... 25 de Junho de 2001 em Xai-Xai, está lá escrito. Quando eu era imensamente feliz. E seguia, qual verdadeiro milenarista, cheio de propostas para o próximo (este) milénio. O Acácio (e o Calvino também) levaram-me assim, pela mão, até àquele jovem Zé Teixeira de quem eu, apesar de tudo, gostei. E depois, por causa da mesma influência, surgida devido à tal "conversa sobre livros", avancei para a releitura do maravilhoso "As Cidades Invisíveis" desse mesmo Calvino. Para apanhar logo na primeira página este meu veemente sublinhado, aposto em 1995!. Que transcrevo, para que se perceba o quão bom é.... falar sobre livros e assim a eles regressar:
 
"Na vida dos imperadores há um momento, que se segue ao orgulho pela vastidão ilimitada dos territórios que conquistámos, à melancolia e ao alívio de sabermos que em breve renunciaremos a conhecê-los e a compreendê-los; um sentimento como que de vazio que nos assalta uma noite com o cheiro dos elefantes depois de chover e da cinza de sândalo que arrefece nas braseiras; um vertigem que faz tremer os rios e as montanhas historiadas em fila na exuberante garupa dos planisférios, que enrola uns nos outros os despachos que nos anunciam a derrocada dos últimos exércitos inimigos de derrota em derrota, e tira o lacre dos selos dos reis de que nunca se ouviu falar e que imploram a protecção das nossas armadas que avançam em troca de tributos anuais em metais preciosos, peles curtidas e cascas de tartaruga: é o momento desesperado em que se descobre que este império que nos parecera a soma de todas as maravilhas é uma ruína sem pés nem cabeça, que a sua corrupção está demasiado gangrenada para que baste o nosso ceptro para a remediar, que o triunfo sobre os soberanos adversários nos fez herdeiros da sua longa ruína."
 
É perceptível a razão que me leva a gostar de conversar sobre livros?

03
Mar24

Um blog que é iguaria

jpt

MEC sobre blog.jpg

Para tentar preparar um texto sobre bloguismo estive há poucos dias a vasculhar as já muito antigas ligações com blogs. É consabida a redução da escrita e da leitura em blogs. Como também o encerramento de muitos. Isto para além do desaparecimento de vários, o que é lamentável - e faz-me sempre pensar, desde o início da "onda blogal", sobre o arquivo geral disto tudo, a "Torre do Tombo" do bloguismo, que seria preciosa para se perceberem dinâmicas comunicacionais deste primeiro quartel de XXI. 

Mas outra coisa percebi - para além de mais ou menos recentes blogs (e na SAPO continuam a brotar) há vários veteranos que seguem, uns mais espaçadamente, outros tendo criado ou novos blogs ou tendo migrado para outras plataformas blogais, por vezes mantendo os velhos nomes, outras renomeando. Deu tudo isto para remodelar a minha conta no Feedly, indexando os blogs a acompanhar, às vezes após um sorridente "olha, este ainda cá anda...". De facto, um incremento das (entre)leituras não é apenas impedido pela atenção nas "redes sociais" - essas também em notória regressão de utilização quotidiana. Mas muito mais pela redução das interacções entre blogs, convocando as atenções. Ou seja, no fundo o que falta é o sistema Technorati, que nos avisava de quem nos "ligava", verdadeiro motor da interacção. 

Mas para além de tudo isso há um manancial de blogs cujos autores, saudavelmente, não os apagaram (ou esconderam). Deixando materiais interessantes. Como há pouco descobriu o Grande Miguel Esteves Cardoso, em pesquisas sobre doçaria. E deu de caras com o "É uma iguaria portuguesa, com certeza", um blog da minha amiga e colega Alice Patrício, que há anos o descontinuara. E logo deu disso sinal, em tons encomiásticos, na sua coluna no "Público" (3.2.2024). 

E com o belo efeito de ter causado o regresso da Alice ao bloguismo, logo num apetitoso postal "Pastéis de Santo António". E por tudo isto, e não só, escolho o (regressado) É uma iguaria portuguesa, com certeza como blog da semana. (Adaptação do postal no Delito de Opinião, colocado há dias na rubrica "Blogue da Semana"). 

07
Dez23

Vinte anos a blogar

jpt

Blog_(1).jpg

No dia exacto não me lembrei disto, assim falhando a efeméride pessoal, mas notei-o agora. A 3 de Dezembro fez exactamente 20 anos que comecei a blogar, lá de Moçambique integrando-me naquela vaga blogal que cá aconteceu em 2003. Primeiro no ma-schamba, que alguns anos depois se tornou colectivo. Depois, já em Portugal, no Courelas (o mesmo que ma-schamba...). Depois, sozinho, no O Flávio e agora no Nenhures. Entretanto também estive no colectivo sportinguista És a Nossa Fé e estou no Delito de Opinião.

Ou seja, isto de blogar tornou-se-me uma mania. 20 anos de verborreia - durante longos períodos até diária - deu para escrever muita tralha, inútil, às vezes até injusta, imensas vezes injustificada. Mas outras vezes acertei, releio e canto "rio-me de me ver tão bela nesta espelho". Por isso recolhi textos que estão esquecidos nos blogs - os quais não apago, até porque o tema dos arquivos dos blogs sempre me foi importante, ainda que me pareça ter isso sido descurado pelas instâncias arquivísticas nacionais. E dessa amálgama fiz este ano dois volumes que gostaria de tornar livros (vanitas vanitatum et omnia vanitas), um de crónicas de viagens e memórias, que seria (ou será, se vier a acontecer) um "Torna-Viagem", um outro de resmungos que julgo terem sido certeiros, a ser um "O Podcast Mudo". A ver se arranjarei editora para tais coisas, desde que não as pague eu, pois não tenho paciência para esse negócio - hoje em dia viçoso, ao que parece - de cobrar ao autor para lhe publicar o futuro mono e depois ainda o obrigar a impingir os exemplares aos desgraçados amigos, pobre gente que se deixa ir nisso.

Mas para relembrar o meu início blogal aqui repito o meu primeiro postal, este "Lavoura". Faço-o, por saudosismo. Mas também para convidar à leitura do grande Ruy Duarte de Carvalho, magnífico escritor, antropólogo e também cineasta.

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"...a lances de catana e de machado desfaz a rama e a trama dos espaços virgens. Prepara um espaço para a nova lavra, esgotado o humus de uma lavra antiga. Alarga a circunferência de chão raso. Devolve o sol à terra e dá-lhe a mansa forma de um corpo fecundável e passivo. O tronco nu progride mata a dentro. Governa os braços firmes e velozes, confere exactidão ao gesto azado. E os fustes, gemem, fendidos pelo golpe. Martela, vigoroso, a rijeza maior de alguns dos paus, depois transforma em lenha as copas derrubadas..."

(Ruy Duarte de Carvalho, Como se o Mundo Não Tivesse Leste, Cotovia, p. 117 )

02
Out23

Dos blogs às redes sociais

jpt

Bugio-1.jpg

Por cá há vinte anos muitos da minha geração mergulharam no bloguismo, tanto que até se falou do meio ecológico "blogosfera". O primeiro blog de alguém conhecido terá sido o Ponto Media de António Granado. Mas o que disseminou a mania foi o impacto num pequeno meio urbano do Coluna Infame, de um trio de desconhecidos que se vieram a tornar reconhecíveis. Tudo muito alargado quando apareceram o Aviz e o Abrupto, como se o prestígio dos seus autores legitimasse a volúpia palradora que se gerou. Nada disso chocava - nem articulava, parece-me - com as redes sociais de então, o HI5, o Orkut, os grupos de "conversa" (chat), seriam espaços diferentes, gentes e objectivos diferentes.

Passados poucos anos apareceram as redes sociais ainda vigentes. E os bloguistas logo acorreram, nisso dissolvendo a tal "blogosfera". Muitos deles, os mais politizados, avançaram para o Twitter, impávidos diante da evidente contradição: E no frenesim do "microbloguismo político" incompreenderam a contradição - a política não se analisa com frases curtas, as impostas pelos apertados limites daquela rede. Alguns, talvez muitos, ainda por lá continuam, assim guturais clamando contra a... superficialidade dos políticos actuais e a análise política da imprensa.  Enfim, cada um como cada qual. Mas há alguns (e os tuiteristas com toda a certeza) que até metem dó.

Mas outras redes e modos se instituíram. Entre os da tal minha geração alguns, menos viraram-se para o Youtube, de início normalmente de modo mais passivo (mas benéfico) pois restrigindo-s a partilhar obras alheias  e - depois - atrevendo-se a assomarem, tal como alguns outros vieram a fazê-lo neste modo radiotelevisivo de agora, dito "podcast". Mas a maioria transitou primeiro para o albergue espanhol temático do Facebook e/ou, anos depois, para o Instagram, esta rede catapultada pelo miríade de Cristianos Ronaldos, Kardashians e demais "influenciadores" ali vigentes.

É nestas duas macro-redes - ainda que me pareça que o Facebook está em declínio, envelhecida e cansada a mole residente - que tenho conta. E anteontem notei bem a diferença mental que comanda os seus utilizadores, isso através de algo que me aconteceu. Em dia soalheiro, neste Verão insistente que persiste, cruzei o Tejo num até simbólico cacilheiro, algo que não fazia há pelo menos um ano. No cais esperei um pouco pela partida, e depois fui-me até à Margem Sul naquele até lânguido trote do cavalo-de-rio. Fi-lo de telefone na mão, blogando na plataforma do Facebook - que é mais manuseável em telefone do que a do blog -, naquela meia-hora escrevendo um postal. O qual encimei com um fotografia "picada" numa qualquer página digital. Nisso não olhei nem a montante nem a jusante. Publiquei o texto, aportei, e calcorreei o pequeno trajecto até a casa amiga para almoçar umas deliciosas favas com entrecosto.

É isso o comportamento típico do bloguista, encapuçado de facebookista. Pois fosse eu um instagramista militante ter-me-ia agarrado ao mesmo telefone, captando imagens a norte e sul, a oeste e leste, e até lhes chamaria "fotografias", por pobre de pindéricas que fossem... E publicá-las-ia na minha conta. Tal como fiz ao meu textito, por pindérico que seja.

São mesmo dois modos diferentes de estar. E neste Tejo com o Bugio lá ao fundo impõe-se-me a pergunta: são estes modos, o do garimpo das imagens ou o das palavras, o rumo do faroleiro, iluminador, no Bugio. Ou são apenas os modos da macacada, sita nas ilhas do bugio? Parece-me, e cada vez mais, que são estes últimos. Enfim, a ver se na próxima travessia me deixo a apanhar a brisa. E a ver a paisagem. Pois Lisboa, apesar dela-própria e algumas das suas gentes, é lindíssima.

 

03
Ago23

O influencer gastronómico

jpt

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Tenho aqui referido o meu anseio em me tornar um influencer gastronómico, mais do que tudo pois sabido é que a novel profissão d'influencer é muito bem remunerada. Mas como?, perguntam-me amigos, "se nada percebes de cozinha..." e se sigo distraído à mesa!, até comensal preguiçoso!? Defendo-me, convicto, reafirmando que também pouco ou nada sei sobre o resto que vou perorando em blogs - futebol, política endógena e exógena, literatura e adjacências, o devir do mundo e o dever do mundo, e o rol etc. que vai decorrendo.

Os blogs são hoje pouco lidos: se o colectivo Delito De Opinião, carregado de gente interessante e no qual também escrevo, ainda tem mil e tal leitores diários, os restantes tornaram-se esconsos. O meu Nenhures tem 15/20 vezes menos leitores do que tinha, na era blogal, o meu ma-schamba. É-me pouco importante: boto há vinte anos por mania. E para encenar a recusa da minha óbvia irrelevância. Nesta vida que segue há quem faça puzzles, ginástica ou seja andarilho, pinte ou se faça oleiro, se assuma petisqueiro escondendo o alcoolismo, quem se dispense em solidariedades, veja televisão (os folhetins a que chamam "séries") e outros até têm vida "cultural", há os da bricolage, do "activismo", da jardinagem, do sexo, os que viajam, sei lá mais o quê. Há até quem cozinhe, devagar e cuidadosamente! Tudo isso passatempo deste tempo que vai lento no acabar. E eu?, passatempo-me ao blog, na tal pantomima de relevância. Então porque não aspirar a ser um influencer, gastronómico? Mesmo diante da descrença dos amigos próximos...

Tudo isto dito, botei há dois dias um breve postal, um desabafo sobre a inacessibilidade do "Preço do Azeite". Sei lá como o texto já tem 9000 leituras e continuam a chegar visitas em catadupa. O meu postal mais lido em 20 anos de bloguismo - mesmo nada percebendo eu da produção de azeite (faz-se com azeitonas, ao que julgo saber) nem da sua comercialização.

Estou assim feliz. Pois assente neste caso decidi hoje arvorar-me, definitivamente, em influencer. Gastronómico. "Sigam-me". E divulguem.

26
Jul23

Eduardo Pitta

jpt

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Morreu ontem Eduardo Pitta, poeta, ficcionista, crítico literário. E também bloguista. Encetado em 2005 o seu Da Literatura era um dos blogs relevantes na época vibrante da "blogosfera" e Pitta manteve-o activo até recentemente - infelizmente retirou dos arquivos a primeira década do blog. Nele compôs uma mescla de atenção a factos culturais com uma intervenção política. Nascido em 1949 na então Lourenço Marques, Pitta tinha interesse pelos processos moçambicanos. Foi isso que o fez conhecer o meu ma-schamba, que fora o primeiro blog em português escrito no país e que quando ele começou a blogar era ainda um dos poucos ali existentes. Foi afável comigo, num companheirismo bloguístico então comum, e estabeleceu até uma correspondência - lembro que teve a gentileza de me enviar por via postal o seu ensaio "Fractura : a condição homossexual na literatura portuguesa contemporânea". E explicou-me também as razões, mais do que curiais e sem qualquer acinte, que o haviam conduzido a recusar a proposta feita por intelectuais moçambicanos para o inserir no cânone do historial da literatura daquele país - não estou a ser indiscreto, desvendando correspondência privada, pois lembro-me de ter lido declarações suas sobre o assunto. Era essa, apesar do prazer havido com a atenção recebida, uma opção que fundava em termos de identidade pessoal e não de postura político-ideológica.

Depois vieram os anos da crescente degenerescência socratista. No seu blog Pitta foi um dos muitos que manteve não só o proselitismo socialista como a defesa arreigada do então primeiro-ministro. O Da Literatura continuava interessante, elegante e informativo - principalmente para quem estava fora do país. Mas, exasperado com o "estado da nação" e com a cumplicidade de um largo sector da intelectualidade portuguesa com aqueles desmandos antidesenvolvimentistas - a qual raiava o absurdo na "blogosfera" -, deixei de acompanhar a sua actividade. Como a de vários outros desse eixo político, habitualmente bem menos interessantes. 

As notícias de ontem e hoje sobre a morte de Pitta sublinham a sua importância no âmbito de uma literatura homossexual portuguesa - estatuto que ele próprio acarinhava, explicitando a necessidade de afirmação literária dessa temática. Eu sou pouco sensível a essa catalogação. E insisto naquilo que lhe disse e escrevi em pequeno postal, em texto que julgo lhe terá agradado, ainda que seja uma leitura arredia dessa peculiar atenção identitária que lhe dão: o seu breve "Persona" é o grande texto literário português sobre o final do regime colonial em Moçambique - e se calhar até mais do que isso (o  meu texto sobre o "Persona" está aqui). E, mais uma vez, proponho a leitura desse belo livro.

 

(Adenda: estou grato à plataforma SAPO pelo destaque dado a este postal.)

16
Jun23

Foodies

jpt

machado.jpg

Júlio César Machado, Do Chiado a Veneza (Tinta da China)

Ainda me surpreendo um pouco com o efeito (recepção) do que vou colocando no blog, e partilhando nas redes a que o associo. Avance eu com as minhas exaltações totalmente pertinentes, escoradas em finíssimas análises, sobre o "estado da Nação", ou refira - o que me é cada vez mais raro - a situação moçambicana, dedique-me eu a temáticas prementes no mundo, ecoe - o que também me vai escasseando - alguma leitura que me foi mais aprazível, ou me permita a um arremedo de crónica sobre o meu, de facto, vácuo quotidiano, e obtenho reacções de um aprazível grupo mais ou menos constante de "amigos", interlocutores internéticos - "correspondentes", dir-se-ia no milénio passado... Comentários e "gostos" ("likes") que são forma explícita de me confirmarem essas simpáticas pessoas, algumas das quais desconheço, de que "estamos juntos" (como se diz em África) neste vale de lágrimas digital. O que imenso lhes agradeço, verdadeiro bálsamo que me são.

Mas diferente, por mais bojuda e bem mais agradada, é a reacção quando gingo eu sobre outros dois temas - sobre os quais sou vastamente ignorante: o futebol, claro, ainda que o venha descurando desde que abandonei o blog sportinguista És a Nossa Fé!; e a gastronomia, pois qualquer alusão que eu faça a episódios da minha frugal dieta é acolhida com evidente júbilo... Deixo explícito que tal me agrada. E sendo bloguista militante, sempre em busca do próximo postal, sinto que isso até me promove uma maior apetência pelas (aparentes) patuscadas que vão polvilhando esta minha via monástica. Mas agradando-me tal apreço alheio não deixa de me surpreender, e exactamente por não ter eu quaisquer novidades ou saberes próprios sobre a matéria.

Mas esclareci-me agora, e em lugar inesperado, sobre a razão de tais preferências. Uma querida amiga ofertara-me este "Do Chiado a Veneza" de Júlio César Machado, no qual o autor narra a sua viagem a Itália feita em 1866. Não sou eu grande consumidor de livros de viagens contemporâneos, enfastiam-me. Sejam os singelos simpáticos de Gonçalo Cadilhe, os best-sellers (e tão desinteressantes) de Paul Theroux, ou os insuportáveis do gigante Naipaul, um genial romancista mas anacrónico viajante, e até patético analista. Décadas atrás li com imenso apreço os relatos de viagens dos exploradores portugueses, da Ásia e África, e também alguns de estrangeiros que visitaram o Portugal de séculos pretéritos - mas isso é outro material, e diferente o que nele buscava, o tentar desvendar o olhar dos autores daquela(s) época(s), sua argúcia, candura e rispidez. Também por isso, enquanto tive o privilégio de ser docente, durante anos encetei uma disciplina de que estava encarregado por uma abordagem a Marco Polo, no intuito de demonstrar onde estavam os pressupostos no seu texto, tão ao invés do que rezam as ladainhas vigentes...

Mas enfim, já divago, trato então de regressar ao Machado. O qual li agora, exactamente por me ter sido ofertado pela já referida "mana" querida. E a páginas tantas (16) concede-me o oitocentista, muito popular cronista e folhetinista no seu tempo, a tal resposta à minha já antiga dúvida, esta da tamanha adesão aos "foodies", mesmo que estes básicos, como é o meu caso:

"Todos os escritores que conhecem os segredos da arte de escrever, sabem que nunca deve deixar-se em silêncio o que se come, porque os leitores distintos que lêem uma descrição prendem-se sempre com mais simpatia a esse ponto do que a outro qualquer."

Percebo, finalmente. E sossego-me, ainda mais. Pois nestes tempos nem é preciso ser dono dos tais "segredos da arte de escrever", até desnecessários face ao manuseio do telefone para se filmar ou fotografar os pitéus. Apenas falta transmitir os aromas. Lá virá o dia, Apple o permita.

 

Bloguista

Livro Torna-Viagem

O meu livro Torna-Viagem - uma colecção de uma centena de crónicas escritas nas últimas duas décadas - é uma publicação na plataforma editorial bookmundo, sendo vendido por encomenda. Para o comprar basta aceder por via desta ligação: Torna-viagem

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