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Nenhures

Nenhures

Rescaldo de 2020

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(Lisboa confinada; Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo)

Entre co-bloguistas, no colectivo Delito De Opinião , estamos a escolher - tal como todos anos o fazemos - o Facto Nacional e o Facto Internacional do Ano, a Figura Nacional e a Internacional do Ano, e a Frase do Ano. Quando (finalmente) entrarmos em 2021 o nosso coordenador blogal, Pedro Correia, publicará os resultados. Deixo aqui a minha votação (até para vos chamar a atenção para o resultado final): 

1. Frase Nacional do Ano: há imensas para escolher (aqui um rol delas, patéticas). Mas escolho uma de Pedro Nuno Santos, o robusto Iznogoud deste governo: "Em 2025, a TAP já estará em condições de devolver algum do dinheiro ao Estado português".

Escolho-a porque as outras são sobre isto que agora decorre. E esta é para o futuro, escrutinável daqui a uns anos. É também dedicada aos interseccionalistas, ou lá como agora se chamam os socratistas. Não tiveram eles a desvergonha abjecta de até com o Berardo gozarem no ano passado? Daqui a cinco anos continuarão na cagança aldrabona da sua superioridade moral e intelectual, o "activismo" como peroram. Será então de lhes perguntar, aos funcionários públicos e aos subsidiados/avençados, aos teclados de aluguer e aos imbecis (in)úteis, se se lembrarão disto. Com toda a certeza que não.

2. Facto Nacional do Ano: O assassinato de Ihor Homeniuk no Aeroporto de Lisboa.

Porque demonstra o estado do Estado. Porque o mísero ministro Cabrita ainda o é. Porque demonstra o miserando estado do "activismo". Porque nos demonstra. 

[Sobre o assunto botei em Junho e em Dezembro]

3. Facto Internacional do Ano: COVID-19. Como é óbvio.

Já agora deixo ligação a um texto mais longo que escrevi sobre isto. Não colheu grande interesse (leitores). Mas foi a única coisa que escrevi neste ano, por isso aqui venho agitar a tralha: “P’ra melhor está bem, está bem, p’ra pior já basta assim”: o capitão MacWhirr e o Covid-19.

4. Figura Internacional do Ano: Li Wenliang
 
Como vénia ao seu percurso, tão breve. De coragem.

Mas também para lembrar os comunistas (aka interseccionalistas do "sul"), que nos odeiam tanto, a nós porque europeus, portugueses, brancos, e democratas - ainda que tantos deles também europeus, também portugueses (aquilo da "dupla"), também brancos, mas nunca democratas, e ainda que também aqui aboletados - que sufragavam a ideia da total irresponsabilidade da "Comunista" China nisto tudo. E que nós - brancos, europeus, portugueses, seus anfitritões/compatriotas e, pior do que tudo, democratas - deveríamos pagar os custos do Covid-19 em África porque nossa culpa.

Acho que nunca desprezei ninguém como esta execrável malta, naquele Março-Abril de 2020.
 

5. Figura Nacional do Ano: Frederico Varandas.

Porque apesar de todas as contingências, mostrou o valor do trabalho, do esforço e da planificação num país dominado pelos lobbies políticos e empresariais, numa área de actividade económica particularmente vilipendiada pelo recurso a actos ilegais por parte dos poderes vigentes.

***

Junto quatro outras escolhas, que me marcaram o 2020. 

 

6. Música (Banda Sonora) do Ano: porque este concerto de Lou Reed [Capitol Theatre, 25 de Setembro de 1984] e alguns outros dele tocaram incessantemente durante as noites de Março, Abril e Maio, lá no bucólico Nenhures.

7. Livro do Ano (ensaio)Les Nouvelles Routes de la Soie, de Peter Frankopan. Enfim, foi releitura (para tirar notas, essa inutilidade viciante) e não foi o melhor. Mas completamente o mais útil. Enquanto os basbaques discutiam Trump e Brexit, já agora:

8. Livro do Ano (ficção): Ilações Sobre um Sabre, de Claudio Magris. Um pequeno-Enorme livro, até já antigo. Daqueles que um tipo ao acabar logo insulta o autor - tanta a raiva invejosa diante de tamanho talento. E, ao mesmo tempo, regurgita de júbilo pela sorte de ter lido.

9. Canção do Ano: "Waves of Fear", de Lou Reed.

Rescaldo de 2020

2020 vai terminar e é altura de rescaldos. Gerais e pessoais, neste Covidoceno. Para mim foi um ano duro. Perdi a minha mãe, tendo-a visto definhar no isolamento obrigatório. O foco na saúde geral - e o crescente isolamento - trouxe a morte ainda mais para o centro. Assim mais atentei no fim de tanta gente significante, daquela que me faz a paisagem - o último talvez o Le Carré presente desde a minha juventude até ao Magnus Espião Perfeito. E a Branca, a cadela de amigo extremo que me adoptara e que tanto me acompanhou neste(s) ano(s) também morreu. Coisa bem diferente, perdi o meu amor, o que me trouxe uma antevisão de celibato perpétuo, algo mais estranho do que problemático. E, neste ano difícil, percebo que não sei de vários amigos, relações esgarçadas com o tempo. Fica o carinho pelas memórias mas nada mais. Tudo isto algo me desertificou.
 
Mas foi também um ano bom: nenhuma realização, a consciência de muito menos objectivos, anseios, e das escassíssimas possibilidades que restam. Alijar o ego, perder as angústias das responsabilidades para comigo-próprio. Amadurecer. É bom envelhecer! E ainda uma coisa magnífica em 2020: não passei um dia, uma hora que fosse, com gente de que não gostasse. Sempre rodeado daqueles que amo. Ou, vá lá, gosto muito. Pode-se pedir mais na vida? Não creio.
 
Para temperar, o piripiri da vida, restaram-me as irritações com a "coisa pública". Também elas escassas, no fundo meras simulações de vida: com os mandarins, no início do covidoceno (o MNE Silva e o presidente Sousa a dizerem que não se podia fechar fronteiras, aldrabões puros; a tonta da agricultura, a negacionista da saúde); os mandarins da academia - o antropólogo, meu antigo professor, a resumir o covid-19 a imprecações contra o brexit, vs Boris, maldizendo Tatcher, e a dizer que Portugal nunca esteve economicamente tão bem: uma indignidade intelectual [espero que leias isto e percebas o meu desprezo, visceral ...]; e a antropóloga (luso?)moçambicana a salvaguardar a China e a dizer que nós-europeus temos que pagar os custos do Covid-19 em África. Verme ...
 
E, por último, os maluquinhos da direita liberal, durante meses a clamarem todos os dias contra as medidas de protecção, em nome da economia, qu'isto só mata velhos e etc. E, espantoso, a louvarem os suecos sociais-democratas. O rei da Suécia falou, entretanto, a mostrar o quão parvos são estes malucos.
 
A ver se em 2021 continuo no bom caminho de fenecer. E deixo de ligar aos maluquinhos. E aos antropólogos comunistas/comunitaristas. A bem do meu belo envelhecimento.

Miguel de Vasconcellos

 

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Cumprem-se hoje 380 anos do assassinato do primeiro-ministro (e antigo ministro das Finanças) Miguel de Vasconcellos e Brito. Afincado europeísta, foi vítima de uma revolta de cariz soberanista (nacionalista, em linguagem actual) - propagandeando uma conservadora ideologia lusófona -, catapultada por uma profunda crise económica que impusera uma política austeritária e concomitante carga fiscal. 

Passaram quase quatro séculos de poderes políticos, de poderes académicos. E não há, que eu saiba, um mero monumento que o recorde com a dignidade devida. Procuro e nem uma biografia, um estudo compreensivo ... Nada, apenas a continuidade de uma memória vilipendiada, a do "defenestrado". E a dos "gloriosos capitães conjurados".

Enfim, é o que é, somos o que somos ... Fiquemos com os feriados, que é o que se aproveita.
 

Racismo cultural (2): o afã de encontrar racistas ...

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Há algum tempo deixei este postal sobre Racismo Cultural. Com uma citação ilustrativa do que muitos poderão considerar tal coisa: "Para aqueles homens e aquelas mulheres, não existia doença natural e talvez nenhuma coisa o fosse. O seu universo permanecera no caos e, todos os acontecimentos, mesmo os mais simples, eram para eles mistérios, mas uns eram mais frequentes do que outros, aos quais o uso os acostumava. As fases da Lua, a produção do fogo no seu fogão de cozinha não eram menos inconcebíveis, para eles, do que a abertura de cavernas em pulmões doentes; apenas eram naturais, isto é justas, a seus olhos, as mortes de velhos. E como eram, no entanto, seres humanos, condenados, pelo instinto da sua espécie, à procura e talvez à invenção das causas, atribuíam o definhamento de Amande àquela que era para eles a mais simples, a mais humana, à força cujos efeitos tinham muitas vezes, nas suas vidas, verificado: a inveja, os ciúmes de uma mulher por uma mulher." Foi um postal capcioso, e por isso propositadamente não identifiquei nem texto nem autor. O tempo foi passando e ninguém resmungou comigo - o que era o meu objectivo. (E na plataforma Facebook, na qual coloco ligações para os postais do blog, até tive algumas concordâncias).

Trata-se de um trecho do conto "Malefício", incluído no livro "Conto Azul" de Marguerite Yourcenar, o qual inclui três contos de juventude da escritora - um, "A Primeira Noite", tem o particular encanto de ser uma reescrita do único texto ficcional do seu pai. Este "Malefício" foi originalmente publicado em 1933, quando a escritora tinha 30 anos. E o interessante é que aborda um contexto popular italiano. É certo que os mais radicais críticos da actualidade podem clamar que a francesa (e algo belga, pois nascida em Bruxelas e filha de mãe belga, ainda que logo dela orfã) teria um olhar desvalorizador, "racializador" diz-se agora, dos europeus austrais. Poderão também congregar-se na invectiva ao "orientalismo" apoucador da escrita quando abordou - e tanto o fez - a gente do "Mediterrâneo". E que tudo isso constituiria o tal "racismo cultural", desvalorizador de quaisquer outros, mesmo que de tezes similares. Mas tudo isso serão (seriam) construções forçadas. 

Pois o que o pequeno conto narra é uma visão das crenças nas causalidades da doença, tão recorrentes elas são. E as formas como os habituados à medicina moderna (a "biomedicina" na linguagem dos anti-capitalistas new age) encaram as metafísicas construções dessas causalidades da doença e morte. Mais ainda, e mesmo que Yourcenar escrevesse no início da década de 1930 quando os estudos antropológicos não tinham o manancial de reflexão que vieram a ter, e não sendo ela antropóloga, pouco poderá chocar esta sua visão. Certo, não será muito curial aprovar uma formulação como "O seu universo permanecera no caos ...", pois não é disso que se trata. Pelo contrário, a crença na omnipresença do "mau-olhado" letal é um postulado de ordem antropocentrada, remetendo as causas dos incidentes para as práticas humanas. Mas de resto que há a afrontar nesta plácida descrição de uma outra mundivisão? Tão presente nas nossas sociedades, ainda hoje, apesar de séculos de igrejas, católica e protestantes, a tentarem extirpar a crença na feitiçaria/magia, e de alguns outros de medicina moderna. 

Com esta minha citação procurei reforçar duas ideias: a primeira, menos relevante, é o afã das pessoas em gritar "racista" (cultural ou físico), tamanho que até num texto destes o querem reconhecer. Disparam sobre tudo. O que mexe e o que está imóvel. Até sobre a grande Yourcenar ...

Mas a segunda é ainda  mais relevante, denotativa da patetice semi-intelectual que subjaz esta moda que "racistiza" todos os que assomam à soleira da porta ... É que uma coisa é a constatação - construída pelo pensamento "ocidental", em particular pela antropologia - que todos os povos são igualmente racionais, que todas as suas mundivisões (as "culturas") são lógicas e competentes. Outra coisa é esta hipocrisia dos mercenários do "bom-causismo", a da condenação do "racismo cultural" atribuído aos que acreditam que há melhores, pois mais competentes e mais justas, mundivisões ("culturas") do que outras.

Quando essa tralha de gente sai à rua dizendo-nos "racistas" porque acreditamos que há "culturas" mais "civilizadas" do que outras é isso que estão a aldrabar. Pois, de facto, há mundivisões mais justas e mais competentes do que outras. E quando consideramos isso não somos racistas, culturais ou biológicos. Quando uma mulher tem tuberculose não julgamos que foi a vizinha ciumenta que a enfeitiçou - como as personagens do "Malefício" - e procuramos uma cura para os efeitos do bacilo de Koch. Entretanto, alguns de nós, face às perspectivas que nos dominam, usamos instrumentos consagrados, tipo a "dúvida metódica" ou similares. Em outras sociedades isso também acontece. Noutras não. E sabemos destas distinções. Por isso, uns mais conhecedores outros mais espontâneos, hierarquizamos de formas mais ou menos fluídas as "culturas" existentes. Muitos chamam "evolução" à melhoria tendencial das culturas. Outros, mais letrados, evitam julgá-la unilinear. 

O "caos" que Yourcenar assumia lá nos pobres italianos naquela narrativa não existia. O "caos" existe na ladainnha, de facto hipócrita, deste falsário hiper-relativismo. Que afirma "racismo (cultural)" onde existem meras opções, de concepções e noções feitas, do devir social. Que os seus locutores também partilham.

 

Joseph Bottum

Entrevista a Joseph Bottum por Mark Tooley no canal Providence Magazine. Aborda a influência das visões auto-punitivas e escatológicas na política nos EUA, devido ao que considera ser o colapso das igrejas protestantes no país. Vinte e cinco minutos muito interessantes ...

Para quem quiser deixo ligação a um breve artigo, 6 páginas: Disenchantment and Its Discontents. Demonstra a sua visão e é, provocatoriamente, muito actual para o "debate" português - se é que há tal coisa. (Quase) Termina assim:  "Earlier this year, Richard Dawkins reiterated his insistence that bringing up children religiously is a kind of “child abuse.” But I worry more about the rest of us in our modern culture—we children of science, brought up by anti-religious dogmatists in narrow, cramped little doctrines. No art, no richness, no sense of living symbols, nothing poetic, nothing sacramental: That is a truer kind of child abuse—a thinning of the experienced world, a willed privation."

Empoderamento?

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Com duas amigas de Maputo cruzo um fim de tarde, excêntrico para mim, pois poisando naquelas desinteressantes esplanadas intra-prédios, que em tempos associei ao sonoro nicho "bobo" pós-alfacinha. Falamos das memórias do que lá se fez, e ainda faz, as coisas do "desenvolvimento" que aqui tão longínquas parecem, país tropeçado de abundantes "boas causas", o tal pensamento "bobo" tão ufano, tão de ademanes, como se tudo isto não passe daquele Príncipe Real, ralo de turistas, artistas e pederastas.

Nisso, como é norma quando se juntam (ex-)(actuais) operários do tal "desenvolvimento", soa o ícone "empoderamento". Como sempre resmungo contra o anglicismo, tão desnecessário num país língua que carrega o "potenciar", pois feito de horrível fonética e mais do que tudo carregado de ideologia paternalista, conservador-obscurantista como quase nenhum outro, verdadeiro símbolo deste vazio das boas-causas de papagueares feitas. Entre risos - pois conhecem-me os tiques - as amigas defendem o termo, até sarcásticas. Levantamo-nos, que faz frio, e avançamos a tasca ao Largo da Misericórdia, umas boas pataniscas com arroz de feijão a preço mais do que acessível. Para trás fica o tal "empoderamento" mais as apatetadas "boas causas" e respectivos maneirismos, e fala-se da vida ...

Depois, já regressado a casa, lembro-me desta (já velha) citação: "Todas as palavras em voga tendem a partilhar um destino semelhante: quantas mais experiências pretendem tornar transparentes, mais se tornam elas próprias opacas. Quanto mais numerosas são as verdades dogmáticas que afrontam e suplantam, mais depressa se transformam em cânones inquestionáveis".

[Zigmunt Bauman, 1998, Globalization - The Human Consequences, Columbia University Press, 1998, 1)

Textos sobre o conflito no Cabo Delgado

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Desde há mais de dois anos que amigos, conhecidos e colegas em Moçambique me dizem do silêncio sobre o conflito que vem acontecendo no Cabo Delgado. Um silêncio estatal, mediático e mesmo conversacional. Esse silêncio esmoreceu nos últimos três meses, devido ao crescente impacto das acções dos chamados "insurgentes". 

É certo que nos últimos anos algumas pesquisas têm sido feitas. O crivo de recepção a esses trabalhos tem dois problemas, excêntricos aos seus efectivos conteúdos, verbalizados por nacionais e por alguns residentes alhures (nacionais ou estrangeiros): por um lado, a crítica a priori, assim sui generis, àqueles que reflectem sobre aquela realidade sem estarem (ou terem estado) no "terreno". Vinda do senso comum, tendencialmente empiricista, essa crítica não espanta, mas oriunda de praticantes de qualquer ramo das ciências sociais/humanidades, essa crítica é pavorosa, de tamanha maneira que nem elaborarei sobre o assunto, pois tem que ser evidente. O trabalho de terreno é fundamental para quem utiliza determinados prismas analíticos mas não é fundamental nem mesmo necessário para quem utilize outros prismas. E um profissional que perora na imprensa e nas redes sociais invectivando investigadores porque "nem sequer foram lá" sem atentar nesta realidade laboral básica faz uma triste figura. Mesmo.

Por um outro lado, surge a crítica de que alguns dos trabalhos, e investigadores, obtêm "primazia" devido a serem mais visíveis, por estarem no "estrangeiro", por serem mais "mediáticos", etc. É evidente que as investigações em ciências sociais também estão num "mercado" (no académico, no desenvolvimentista, no organizacional, etc., e nas articulações de todos estes). Assim um mercado compósito que é concorrencial e não igualitário, pois há quem tenha mais "capital" - visibilidade própria, inserção nas esferas mediáticas e/ou políticas, capacidade institucional, país de acolhimento, língua de produção, etc., para além das melífluas e tão procuradas "redes" pessoais de contactos. Mas este tipo de jeremiada tem muito de anacrónico. Pois não só ecoa uma implícita patrimonialização dos "terrenos" ("isto é nosso, nós - nacionais ou estrangeiros "companheiros de estrada" - é que temos a "virtude" necessária para investigar", uma "virtude" moral e não a "aretê" qual potencialidade), que conduz à invectiva aos que estão num qualquer "lá fora", "cheios" de visibilidade. Mas também porque esquece que na actualidade é muito mais fácil divulgar textos, alcançar a tal "visibilidade" - ou, num sentido elevado, ser mais lido para participar no debate sobre o fenómeno em questão. Não que se tenha atingido a equidade nesses mercados textuais. Mas com o pdf (e similares), do email às redes comunicacionais - não falo das dengosas "redes" individuais mas sim das "redes (ditas) sociais" - informáticas, e da agora disseminada teleconferência, é muito mais fácil e democrática a disseminação da informação sobre os trabalhos realizados. Basta querermos.

Pronto, feito este desabafo, que é uma reacção irritada a alguns comentários recebidos ou lidos alhures, vou colocar aqui uma lista de textos analíticos sobre a situação no Cabo Delgado, a qual irei actualizando à medida que for conhecendo outros (e se algum visitante me puder ajudar muito agradecerei). Um elenco que é um modesto contributo.

1. Bernhard Weimer, 2018, "Vampires, Jihadists and Structural Violence in Mozambique. Reflections on Violent Manifestations of Local Discontentand their Implications for Peacebuilding: An Essay";

2. Liazzat Bonate, 2018, "Islamic Insurgency in Cabo Delgado: Extractive Industry, Youth Revolt and Global Terrorism in Northern Mozambique - A Hypothesis";

3. Liazzat Bonate, 2018, "The Islamic side of the Cabo Delgado crisis"; 

4. Africa Report, 2018, "Al-Shabaab Five Years after Westgate: Still a Menace in East Africa"; 

5. Hussein Mohammed Gari, 2018, "Al-Shabab Template Insurgence and the Expansion of the extremist-type Violence’s Parameters in northeastern Mozambique"; 

6. Saide Habibe, Salvador Forquilha e João Pereira, 2019, "Radicalização Islâmica no Norte de Moçambique: O Caso de Mocímboa da Praia"; 

7. Liazatt Bonate, 2019, "Why the alliance of Mozambique Government with the Islamic Council might not end insurgency in Cabo Delgado"; 

8. Rufino Sitoe, 2019, "Terrorismo em Moçambique? Que Soluções de Políticas? Um olhar aos ataques de Mocímboa da Praia"; 

9. David Matsinhe, Estacio Valoi, 2019, "The Genesis of Insurgency in Northern Mozambique";

10. Luca Bussotti, Charles Torres, 2020, "The risk  management of islamic terrorism in a fragile state: the case of Mozambique";

11. Eric Morier-Genoud, 2020, "The jihadi insurgency in Mozambique: origins, nature and beginning" (não tem acesso livre);

12. Nuno Rogeiro, 2020, "O Cabo do Medo - o Daesh em Moçambique" (livro, sem acesso livre - mas há um pdf a circular);

13. Francisco Almeida dos Santos, 2020, "Guerra no Norte de Moçambique, uma Região Rica em Recursos Naturais – Seis Cenários"; 

14. Bulama Bukarti, Sandun Munasinghe, 2020, "The Mozambique Conflict and Deteriorating Security Situation", Tony Blair Institute for Global Change;

15. Joan Swart, 2019, "Countering Ahlu Sunnah Wa-Jamo (Al -Shabaab) Insurgency in Mozambique";

 

Os dias do COVID (21): o meu ponto de ruptura

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(Texto meio-desconexo em registo diarístico. Ou seja, blog:)

1. Saio na alvorada, após as 3 ou 4 horas de sono que vou tendo. Aqui na quinta aquém-Tejo as nêsperas estão a despontar, colho laranjas,  uma ou outra tangerina, limões para a limonada. Passeio sobre o orvalho. Fumo em jejum e fujo à introspecção. Depois tento escrever um trabalho que me é infinito e será infindo, leve-me ou não a gripe. Ensaio projectos que nunca farei - nem nunca teriam os parcos financiamentos que exigiriam, pois quem quererá antropologias agora, no futuro que aí vem? Procuro ler, o de tudo um pouco que trouxe. Mas a mente salta, leva horas a estacionar, nada avança. E resmungo o mundo, resmungo-o no tom superficial, esse que é o adequado ao (meu) bloguismo, procurando espantar os temores. Resmungo as delongas havidas nas medidas sanitárias no meu país, esperando estar a exagerar seus efeitos. Resmungo os delírios da "nova direita" internacional, mergulhada num ideário que irá custar imensas vidas e - também - mais desastres económicos. Resmungos apenas blogais pois não sou intelectual comentador - e agora tanto me dariam  jeito uns trocos avulsos para as contas domésticas, e assim desnudo-me na inveja que tenho desse dinheiro fácil da opinação. 

Mas, de súbito, choco com versões, discursos, que me são ponto de ruptura. Pois iro-me, na vontade do abismo abaixo dessa perfídia alheia. Diante desse desrespeito, malévolo. Se desonesto se irracional nem julgo. Nem apupo. Apenas desembesto. Aqui. Minha forma de sobreviver.

2. Desde meados de 1918 a "gripe espanhola" devastou mais do que a hecatombe da Grande Guerra, entre 20 a 30 milhões de mortos. Também em Portugal - uma das minhas bisavós foi vítima. Durante as comemorações do centenário do armistício apanhei este cartoon numa bela exposição sobre a I GM na Bélgica.  É notável a sua legenda: "Podendo viajar porque espanhola, ela não se poupa: é a gripe "globe-trotter!...", caricaturando a sua chegada à fronteira belga neste formato torero. A mensagem era explícita, anunciando o que agora se diz pandemia, a sua origem e o seu modo de disseminação. E denotava o contexto político de então: a "espanhola", e este toureiro que a ilustra, podia viajar pois a Espanha mantivera-se neutral na I GM.

Sabemos hoje que a gripe de 1918-1919 não teve origem em Espanha. Porventura brotou nos Estados Unidos. E ter-se-á disseminado na Europa através dos contingentes militares americanos, devastando uma população exaurida por quatro anos de guerra. Ora na Espanha neutral, sob regime democrático e imprensa livre, as notícias da epidemia espalharam-se, em contraste com o silêncio imposto pela censura militar vigente nos países beligerantes. Daí o epíteto "gripe espanhola", uma "má fama" assim devida à liberdade de informação. E à paz. À democracia, sempre frágil, sempre manipulável, sempre corrompível. Mas democracia.

3. Um século depois enfrentamos ameaça homóloga mas os seus efeitos serão menores pois amenizados pela parafernália industrial e o conhecimento médico - a "biomedicina", como a apoucam os (pós-)marxistas multiculturalistas identitaristas de retórica new age. Mas mesmo assim este é o pior momento das nossas gerações. Um confinamento generalizado que convoca cenários quase-apocalípticos, tantas vezes cine-ficcionados que assim julgados irrealizáveis.

Em cada um vinga a angústia pela saúde da familia e parentela espiritual. E até pela própria. E com a sua comunidade particular, com o que se passa(rá) no nosso Portugal e nos países outros, mais naqueles que nos são próximos em geografia ou sentimento. E, vá lá, em alguns, mesmo com o mundo. Mas também uma outra angústia, sobre o futuro: pois a crise económica que aí vem amarfanha as esperanças para os próximos anos. 

Nisto vou algo egocêntrico, alvitro sobre o que acontecerá connosco, comigo e com o meu grupo alargado, etário, social. Trememos agora, terrores com a sorte dos nossos filhos, angústia com a dos nossos pais, já avoengos. Suspendemo-nos à espera de "alisar curvas", como se um gráfico fosse totem e nos proteja. Talvez, talvez ... Mas depois dessa "curva achatada", daqui a um mês, dois meses, que nos sobrará para os próximos cada-vez-menos anos que nos restam, àqueles de nós que sobreviverem ao vírus? Que nos restará a nós, os pequeno-burgueses ditos "classe média", os que toda a vida viemos remediados, agora desempregados, profissionais liberais desvalidos, ou meros eventuais, já cinquentões ou sexagenários, aqui chegados em casais naufragados, endividados e tão taxados? A nós, que conseguimos boiar no rescaldo da crise financeira da década passada, pois então ainda algo mais jovens, mas nisso também feitos tão trôpegos? Que ocaso teremos?

Pesadelo comigo e com os outros que me ombreiam. Só imagino uma hipótese. Esperaremos neste "confinamento", e na "mitigação", algumas semanas enquanto for isso lei. E logo que esta aligeirar, e será em breve, pois "as coisas" precisam de voltar a funcionar, o show must go on, teremos de ser os primeiros a sair, antes da madrugada, a calcorrear a praça de Grève - que o agora propagandeado "teletrabalho" será para os outros, para os já empregados, a "aristocracia da classe média" como se disse naqueles séculos anteriores. Seremos assim a segunda vaga de convívio consciente e voluntário com o vírus. Agora os profissionais de saúde, da ordem, dos transportes, cidadãos até heróicos. E depois seremos nós, mas surgindo como lumpen, mão-de-obra não-institucional, apenas disponível, alguns ainda podendo arriscar negócios de parcas esperanças, a maioria procurando trabalhos para os quais não estávamos preparados, desqualificados assim. E teremos ainda outros problema: se então andarilhos poderemos voltar a casa, conviver com os filhos e pais, arriscar contaminá-los? Ou precisaremos, burguesotes habituados a sanitário próprio e banho diário, de nos recolher a compounds por razões sanitárias? E estes existem? Talvez, se o Estado (e as câmaras) convocarem esse demencial manancial de "hostais" e "hoteis" que brotaram no portugal disneylandico, na patética west coast que o país quis ser.

4. Neste meu remoer, nem duas semanas confinado, de súbito cheguei ao meu ponto de ruptura. Pensava um texto - de blog, claro - tipo "manifesto". Sobre a necessidade de articularmos com os países africanos (sim, a propósito de Moçambique, minha  paixão) o combate a esta pandemia. Nos quais os défices hospitalares são enormes. Certo é que as suas composições demográficas são diferentes, e outros serão os impactos da gripe. Mas também letais. Pois será agora que instâncias como a CPLP ou, e ainda mais, o acordo de Cotonu deverão funcionar. Mesmo que estejamos agora com a "corda na garganta". Pois se nos escandalizamos com as reticências do ministro holandês, algo alheando-se da situação espanhola, se exigimos comunhão na UE para o enfrentar da gripe e o avivar das economias, como poderemos virar as costas às realidades pauperizadas com os quais temos compromissos políticos e de ombrear humano?

Todos estes processos, internos, europeus, globais, exigem congregação. Entender o que se passa, e algo concordar com o que fazer - agora mesmo, amanhã. E depois de amanhã. O socorro sem pressupostos é uma obrigação humanitária. Mas a reconstrução, a reabilitação pós-covídeo, exige acordos. Lisura, mesmo que discordante. Em suma, temos que perceber como isto nos aconteceu, como o combater, e como o ultrapassar.

5. A pandemia tem razões naturais. Mas também tem causas políticas, complexas. A gripe foi potenciada pelos mecanismos ditatoriais do comunismo chinês, que protelou a divulgação da informação e as estratégias de combate à então epidemia. E que permitiu a disseminação da população residente na zona da inicial infecção. Foi uma típica reacção de uma burocracia totalitária, como várias que a história de XX tanto comportou. E para isso contou também com a fragilidade das Nações Unidas, e da sua OMS, que foi cúmplice desse protelar, timorata face ao poderio chinês. Assim assassino e devastador.

Há alguma similitude com 1918: então os países sob censura militar calaram a situação, a democracia pacífica anunciou-a e ficou com o ónus da sua origem, cujos custos não terão sido apenas simbólicos. Agora as democracias, na pluralidade das suas reacções e nas delongas habituais nos seus processos de tomada de decisão, estão sob uma enorme pressão. Um desastre. Com temíveis repercussões futuras, económicas, políticas. E culturais. É tempo para nos congregarmos frente ao vírus mas também em defesa da democracia. Adiar um pouco as querelas entre os mais liberais e mais estatistas, mais "politicamente correctos" e mais conservadores, mais do género mais da nação, mais laicos ou mais soberanistas, etc. Conciliar diferentes perspectivas em defesa do que é fundamental. Ou seja, ceder excepto no que é fundamental. Como meter isto num postal de blog, como meter o Rossio na Betesga?

6. Estava nisto, neste blogar, quando fui abalroado, causando o tal meu ponto de ruptura. Ao deparar-me com um postal de Facebook de uma colega minha, moçambicana. Algo soez, vil, abjecto. E, para minha dor, logo subscrito por meus amigos e antigos alunos. A tese propalada, mas não original, pois já por aí grassa, é simples: fomos nós, europeus (entenda-se, a UE) que contaminámos África. Portanto teremos (com os EUA) de pagar aos países africanos por essa praga que lhes enviámos. Não os chineses, frisa ela (e tantos outros), pois esses "respeitaram a quarentena", ao contrário dos indisciplinados europeus, ao contrário dos americanos (e antes dos britânicos) com suas diferentes políticas de absorção viral. 

Locutora e seus subscritores são pessoas com estatuto reconhecido, não meros "populares" prenhes de atoardas. Estou diante de "intelectuais orgânicos" a quem Estados e algumas fundações pagam para pensar e ensinar. Mas doutrinam estas falsidades. Ímpias. Por mais que sempre alardeando a sua refutação dos preconceitos, das discriminações, logo agora surgem reproduzindo, de facto ipsis verbis, o antigo cartoon que encima este postal. Para eles somos nós o torero de então, o agente disseminador, poluidor. Não porque somos um toureiro espanhol mas porque somos o branco "ocidental" - mesmo que tantos destes locutores sejam brancos, até "ocidentais".

Pois o que os move, o que os conduz na produção desta falsificação da história (hiper-contemporânea), é o ódio à democracia, aquela a que repudiam, com desprezo, como "democracia formal". O seu ódio ao mundo "pan-ocidental" (como disse Wallerstein, para o apartar do leste europeu e lhe agregar as antigas colónias de povoamento britânicas). Por isso, por esse efectivo amor ao comunismo e aversão aos países europeus, e ao mundo  democrático, vêm agora - neste catastrófico momento - reclamar que paguemos a África uma infecção que consideram termos causado. Elidem, como agentes do conto do vigário, as práticas chinesas que nos conduziram a este estado das coisas. Louvam a sua "disciplina" - construída, sabe-se, por formas de controlo totalitário com tecnologia intrusiva das liberdades individuais que resistimos a aceitar como desejáveis na democracia liberal [veja-se o breve filme]. E toda e qualquer informação que lhes questione as malvadas teses, o entoar do seu odioso comunismo, consideram falsidades dos americanos, aquilo da invectiva à "voice of America" como nos tempos soviéticos tanto se ouvia ...

 

(This is How China Beat the Corona Virus - should we copy?, por George Thompson)

Mas não é só a apologia do capitalismo de Estado chinês, através da falsificação consciente da realidade (ou seja, da violação grosseira das regras deontológicas que presidem a expressão pública de funcionários públicos académicos).  É a mistificação, doutrinária, de um "Sul" ("abissal" no jargão): por isso seríamos nós condenados a pagar pela pandemia que espalhámos em África. Não a China, que tem enormes contingentes de nacionais nos países africanos, que atrasou o reconhecimento e o combate à epidemia e que permitiu a fuga de milhões de pessoas da zona original do vírus. E não o Brasil, que segue uma política epidemológica ainda mais liberal - e desconexa - do que a dos EUA (ou da Suécia, ou as que a Grã-Bretanha e Holanda ensaiaram). Ou seja, essa apologia do "Sul" conduz a que nem "amarelos" chineses, nem "pardos" brasileiros sejam imputáveis. Apenas nós, "brancos" euro/norte-americanos. Ainda que tendo sido os nossos contextos abalroados e estejamos, repito, com "a corda na garganta". E para esta via intelectual nada importa o fenotipo do "intelectual", apenas o seu can-can de "orgânico" ...

E, para cúmulo da impudicícia destes locutores (e subscritores), tudo isto assenta na total desresponsabilização dos Estados africanos e das suas sociedades, de facto uma forma elíptica de (auto-)racismo. A epidemia é conhecida há já meses (ainda que tendo sido elidida pelo poder chinês, delenda est Carthago ...), e a sua travessia intercontinental acontece há algum tempo. Que fizeram os Estados africanos para se fecharem? Mesmo para barrarem estes horrorosos "diabos brancos", nós-mesmos, que transportamos malévola ou "indisciplinadamente" a temível maleita? Nem isso é questionado. E se nós o perguntarmos decerto que serão invocados, como explicação causal das ausências administrativas, o perene impacto estruturante, assim inibidor, do comércio de escravaturas, do colonialismo, do neocolonialismo, da discriminação dos afrodescendentes. E mais alguns detalhes, mais ou menos avulsos. 

7. Meu ponto de ruptura? O vírus não é um inimigo, é agente de patologia. O inimigo é este tipo de gente. Falsária. Interlocutora. Interna. Melíflua quando precisa (de subsídios, de investimento, de emprego). Abjecta, como agora. Na crise que aí vem é preciso defender a democracia. Não apenas dos soberanistas xenófobos, a crescente extrema-direita. Mas também destes racistas comunistas. Um democrata não defende caças às bruxas ou saneamentos ou limites à liberdade de expressão. Mas temos a obrigação de os apontar, aos falsários, de os refutar. Desprezar. De os combater, sim. Mas também de escarrar para o chão à sua passagem.

Contrata-se "colaborador" (breve ensaio sobre a esquerda lisboeta)

(The Clash, Revolution Rock)

Postal, também autobiográfico, muitíssimo antipático, sobre o linguajar. E sobre a "direita"/"esquerda". E as auto-representações corporativas. Um postal "punk", se o quiserem assim chamar ...

1. Há dias uma queridíssima amiga, que também colega, dizia-me ao jantar, que eu, para além de "direita" por vezes escrevo coisas de "extrema-direita". Pedi-lhe exemplos, não lhe ocorreram ali de imediato, o jantar estava muito agradável e a conversa derivou para outros assuntos.

2. Há anos voltei de Moçambique. No primeiro seminário profissional a que fui uma colega, nitidamente viçosa lisboeta revolucionária, utilizou o termo "empoderamento". Sorri e indaguei sobre a necessidade de usar o termo: é um anglicismo, e feio que se farta. Respondeu irritada, fulminando-me qual patrioteiro hiper-reaccionário, dizendo-me, com notório desprezo, “purista”. Não pode ocorrer a um espécime daquela pobre raça que temos "potenciação". E que, muito mais importante, os termos assentam em diferentes concepções do social e do político, e exsudam-nas: “empoderar” implicita a noção de que se está a dotar algo de “poder” (como se este fosse algo, e como se haja núcleos societais que o distribuam) e “potenciar” deixa entender que se estão as criar condições para a sua produção e/ou aquisição, nos processos conflituais que são a sociedade. Repito, são bem duas concepções de processo político que ali estavam: a da (ignara) revolucionária e a do vetusto (patrioteiro), não haja dúvida. Para além de outra coisa, também cómica: a quase-certa bloquista meneando o jargão do Banco Mundial e do FMI, o “quase-fascista” torcendo o nariz a esse linguajar. Enfim, aprendi-o logo ali, naquele meu período de recente “torna-viagem”, o que nesta terra e meio o que importa são as auto-representações, o quão belo o revolucionário se vê no espelho …

3. Quando voltei integrei uma instituição de pesquisa, agregadora de pólos articulados com várias universidades públicas e de centenas de investigadores, grande parte deles sem vínculos laborais com essas universidades e/ou com o Estado. O ambiente cultural (a “episteme”, se lhe quiserem chamar assim) é algo enviesado, o que é normal entre as ciências sociais (desde que não sejam os engravatados – e endinheirados - Direito ou a Economia), assim um pouco “gauchiste” ainda que heterogéneo. Nesse âmbito e nesta época muitos, ainda que não todos, pavoneiam muito atenção à forma de falar (e escrever). Assim recebia ou lia mensagens destinadas aos “Car@s”/”Prezad@s”, “etc@”. Na época eu tentava fazer um doutoramento e constatei até a existência de um grupo de “doutorand@s”. Ou seja, há uma atenção máxima aos mecanismos de poder que estão implícitos (e até explícitos) na fala, e a aversão ao masculino genérico (o universal masculino) é particularmente vigente, pois entendido como denotando e reproduzindo as relações de espoliação e opressão das mulheres.

“Em Roma sê romano”, dizia-se antes da era multiculturalista, e por isso lá fui sendo @. Mas entretanto recebi várias “convocatórias” para actividades de uma das universidades públicas para as actividades que nela decorriam. Um dia, dado o ambiente de atenção às formas de falar e às relações de poder que transpiram e reproduzem, e dado o meu pendor pouco estatista (aquilo da “extrema-direita”) resmunguei que os funcionários públicos académicos, que haviam sido eleitos entre os seus pares para um breve período de gestão da sua universidade pública, não tinham qualquer prerrogativa para me “convocarem” – termo cuja semântica, explícita e implicitamente, demonstra uma relação hierárquica e uma obrigatoriedade. Nem a mim nem a qualquer dos meus colegas, alguns dos quais também colegas (“pares”) desses funcionários públicos académicos. Fui mal acolhido na minha oposição, porventura considerado indivídu@ descabid@ devido à minha atenção às coisas da cidadania, e da república. E à minha aversão aos mecanismos de “empoderamento”, da aquisição e apropriação de poderes. Ou, de forma chã, que um tipo lá porque foi eleito para um conselho de reitoria de uma universidade pública não tem qualquer poder sobre os seus colegas e, muito menos, sobre investigadores de outras universidades ou de nenhuma universidade.

Assim, e como sou de “(extrema-)direita”, e mesmo alérgico a essas mentalidadezinhas estatistas, abandonei a instituição que me transmitia as convocatórias dos funcionários públicos eleitos.

4. Os anos passam, a luta contra o masculino genérico e outras formas de exploração da mulher e d@ transsexual pelo homem (tóxico, pois pérfido heterossexual aprisionado - como diziam mas deixaram de dizer - pela "sexualidade reprodutiva"), e d@ negr@ pelo branco, reproduzidas no linguajar continua, e tem tido vários sucessos e etapas discursivas. A esquerda intelectual, orgânica, um dia vilmente insultada pelo reaccionário Bourdieu, ideólogo da direita francesa, como “radicais de campus”, tem sido fundamental neste campo de batalha.

Vejo agora mesmo, aqui no FB, um anúncio de emprego para funções de secretariado, no qual se explicita que se esperam candidatos ou candidatas (contra o tal “universal masculino” "marchar, marchar ..."). Colocado por uma associação profissional (uma "ordem", se assim tivesse sido instituída), dessas que congrega muitos desses praticantes desta luta de libertação vocabular. Que nisso se revêm como de “esquerda”, mais ou menos libertária, mais ou menos “socialista”, depende dos casos. Ainda que sempre, ou quase, com um sorriso de mesura face aos poderes fácticos, se estes do PS.

Tenho uma particular apreço pelos trabalhos de secretariado (hoje em dia muito ditos de “assistência de direcção”). A minha mãe foi secretária, professora e coordenadora de pioneiros cursos de secretariado durante décadas. Por isso digo “àquel@s e àquel@s” que se candidatem a esse posto de trabalho: tenham cuidado com os esquerdistas, tão puristas da língua opressora, mas que chamam “colaboradores” aos trabalhadores. Ou seja, cuidem-se com os esquerdistas que papagueiam jargões. Pois esses, sempre, tendem a tiranetes. Ou, de outro modo, caros candidatos, boa sorte. E potenciem-se, nunca esperem que vos “empoderem”

Diz-vos este gajo da “(extrema-)direita”.

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