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Nenhures

Nenhures

Os dias do COVID (21): o meu ponto de ruptura

gripe espanhola.jpg

(Texto meio-desconexo em registo diarístico. Ou seja, blog:)

1. Saio na alvorada, após as 3 ou 4 horas de sono que vou tendo. Aqui na quinta aquém-Tejo as nêsperas estão a despontar, colho laranjas,  uma ou outra tangerina, limões para a limonada. Passeio sobre o orvalho. Fumo em jejum e fujo à introspecção. Depois tento escrever um trabalho que me é infinito e será infindo, leve-me ou não a gripe. Ensaio projectos que nunca farei - nem nunca teriam os parcos financiamentos que exigiriam, pois quem quererá antropologias agora, no futuro que aí vem? Procuro ler, o de tudo um pouco que trouxe. Mas a mente salta, leva horas a estacionar, nada avança. E resmungo o mundo, resmungo-o no tom superficial, esse que é o adequado ao (meu) bloguismo, procurando espantar os temores. Resmungo as delongas havidas nas medidas sanitárias no meu país, esperando estar a exagerar seus efeitos. Resmungo os delírios da "nova direita" internacional, mergulhada num ideário que irá custar imensas vidas e - também - mais desastres económicos. Resmungos apenas blogais pois não sou intelectual comentador - e agora tanto me dariam  jeito uns trocos avulsos para as contas domésticas, e assim desnudo-me na inveja que tenho desse dinheiro fácil da opinação. 

Mas, de súbito, choco com versões, discursos, que me são ponto de ruptura. Pois iro-me, na vontade do abismo abaixo dessa perfídia alheia. Diante desse desrespeito, malévolo. Se desonesto se irracional nem julgo. Nem apupo. Apenas desembesto. Aqui. Minha forma de sobreviver.

2. Desde meados de 1918 a "gripe espanhola" devastou mais do que a hecatombe da Grande Guerra, entre 20 a 30 milhões de mortos. Também em Portugal - uma das minhas bisavós foi vítima. Durante as comemorações do centenário do armistício apanhei este cartoon numa bela exposição sobre a I GM na Bélgica.  É notável a sua legenda: "Podendo viajar porque espanhola, ela não se poupa: é a gripe "globe-trotter!...", caricaturando a sua chegada à fronteira belga neste formato torero. A mensagem era explícita, anunciando o que agora se diz pandemia, a sua origem e o seu modo de disseminação. E denotava o contexto político de então: a "espanhola", e este toureiro que a ilustra, podia viajar pois a Espanha mantivera-se neutral na I GM.

Sabemos hoje que a gripe de 1918-1919 não teve origem em Espanha. Porventura brotou nos Estados Unidos. E ter-se-á disseminado na Europa através dos contingentes militares americanos, devastando uma população exaurida por quatro anos de guerra. Ora na Espanha neutral, sob regime democrático e imprensa livre, as notícias da epidemia espalharam-se, em contraste com o silêncio imposto pela censura militar vigente nos países beligerantes. Daí o epíteto "gripe espanhola", uma "má fama" assim devida à liberdade de informação. E à paz. À democracia, sempre frágil, sempre manipulável, sempre corrompível. Mas democracia.

3. Um século depois enfrentamos ameaça homóloga mas os seus efeitos serão menores pois amenizados pela parafernália industrial e o conhecimento médico - a "biomedicina", como a apoucam os (pós-)marxistas multiculturalistas identitaristas de retórica new age. Mas mesmo assim este é o pior momento das nossas gerações. Um confinamento generalizado que convoca cenários quase-apocalípticos, tantas vezes cine-ficcionados que assim julgados irrealizáveis.

Em cada um vinga a angústia pela saúde da familia e parentela espiritual. E até pela própria. E com a sua comunidade particular, com o que se passa(rá) no nosso Portugal e nos países outros, mais naqueles que nos são próximos em geografia ou sentimento. E, vá lá, em alguns, mesmo com o mundo. Mas também uma outra angústia, sobre o futuro: pois a crise económica que aí vem amarfanha as esperanças para os próximos anos. 

Nisto vou algo egocêntrico, alvitro sobre o que acontecerá connosco, comigo e com o meu grupo alargado, etário, social. Trememos agora, terrores com a sorte dos nossos filhos, angústia com a dos nossos pais, já avoengos. Suspendemo-nos à espera de "alisar curvas", como se um gráfico fosse totem e nos proteja. Talvez, talvez ... Mas depois dessa "curva achatada", daqui a um mês, dois meses, que nos sobrará para os próximos cada-vez-menos anos que nos restam, àqueles de nós que sobreviverem ao vírus? Que nos restará a nós, os pequeno-burgueses ditos "classe média", os que toda a vida viemos remediados, agora desempregados, profissionais liberais desvalidos, ou meros eventuais, já cinquentões ou sexagenários, aqui chegados em casais naufragados, endividados e tão taxados? A nós, que conseguimos boiar no rescaldo da crise financeira da década passada, pois então ainda algo mais jovens, mas nisso também feitos tão trôpegos? Que ocaso teremos?

Pesadelo comigo e com os outros que me ombreiam. Só imagino uma hipótese. Esperaremos neste "confinamento", e na "mitigação", algumas semanas enquanto for isso lei. E logo que esta aligeirar, e será em breve, pois "as coisas" precisam de voltar a funcionar, o show must go on, teremos de ser os primeiros a sair, antes da madrugada, a calcorrear a praça de Grève - que o agora propagandeado "teletrabalho" será para os outros, para os já empregados, a "aristocracia da classe média" como se disse naqueles séculos anteriores. Seremos assim a segunda vaga de convívio consciente e voluntário com o vírus. Agora os profissionais de saúde, da ordem, dos transportes, cidadãos até heróicos. E depois seremos nós, mas surgindo como lumpen, mão-de-obra não-institucional, apenas disponível, alguns ainda podendo arriscar negócios de parcas esperanças, a maioria procurando trabalhos para os quais não estávamos preparados, desqualificados assim. E teremos ainda outros problema: se então andarilhos poderemos voltar a casa, conviver com os filhos e pais, arriscar contaminá-los? Ou precisaremos, burguesotes habituados a sanitário próprio e banho diário, de nos recolher a compounds por razões sanitárias? E estes existem? Talvez, se o Estado (e as câmaras) convocarem esse demencial manancial de "hostais" e "hoteis" que brotaram no portugal disneylandico, na patética west coast que o país quis ser.

4. Neste meu remoer, nem duas semanas confinado, de súbito cheguei ao meu ponto de ruptura. Pensava um texto - de blog, claro - tipo "manifesto". Sobre a necessidade de articularmos com os países africanos (sim, a propósito de Moçambique, minha  paixão) o combate a esta pandemia. Nos quais os défices hospitalares são enormes. Certo é que as suas composições demográficas são diferentes, e outros serão os impactos da gripe. Mas também letais. Pois será agora que instâncias como a CPLP ou, e ainda mais, o acordo de Cotonu deverão funcionar. Mesmo que estejamos agora com a "corda na garganta". Pois se nos escandalizamos com as reticências do ministro holandês, algo alheando-se da situação espanhola, se exigimos comunhão na UE para o enfrentar da gripe e o avivar das economias, como poderemos virar as costas às realidades pauperizadas com os quais temos compromissos políticos e de ombrear humano?

Todos estes processos, internos, europeus, globais, exigem congregação. Entender o que se passa, e algo concordar com o que fazer - agora mesmo, amanhã. E depois de amanhã. O socorro sem pressupostos é uma obrigação humanitária. Mas a reconstrução, a reabilitação pós-covídeo, exige acordos. Lisura, mesmo que discordante. Em suma, temos que perceber como isto nos aconteceu, como o combater, e como o ultrapassar.

5. A pandemia tem razões naturais. Mas também tem causas políticas, complexas. A gripe foi potenciada pelos mecanismos ditatoriais do comunismo chinês, que protelou a divulgação da informação e as estratégias de combate à então epidemia. E que permitiu a disseminação da população residente na zona da inicial infecção. Foi uma típica reacção de uma burocracia totalitária, como várias que a história de XX tanto comportou. E para isso contou também com a fragilidade das Nações Unidas, e da sua OMS, que foi cúmplice desse protelar, timorata face ao poderio chinês. Assim assassino e devastador.

Há alguma similitude com 1918: então os países sob censura militar calaram a situação, a democracia pacífica anunciou-a e ficou com o ónus da sua origem, cujos custos não terão sido apenas simbólicos. Agora as democracias, na pluralidade das suas reacções e nas delongas habituais nos seus processos de tomada de decisão, estão sob uma enorme pressão. Um desastre. Com temíveis repercussões futuras, económicas, políticas. E culturais. É tempo para nos congregarmos frente ao vírus mas também em defesa da democracia. Adiar um pouco as querelas entre os mais liberais e mais estatistas, mais "politicamente correctos" e mais conservadores, mais do género mais da nação, mais laicos ou mais soberanistas, etc. Conciliar diferentes perspectivas em defesa do que é fundamental. Ou seja, ceder excepto no que é fundamental. Como meter isto num postal de blog, como meter o Rossio na Betesga?

6. Estava nisto, neste blogar, quando fui abalroado, causando o tal meu ponto de ruptura. Ao deparar-me com um postal de Facebook de uma colega minha, moçambicana. Algo soez, vil, abjecto. E, para minha dor, logo subscrito por meus amigos e antigos alunos. A tese propalada, mas não original, pois já por aí grassa, é simples: fomos nós, europeus (entenda-se, a UE) que contaminámos África. Portanto teremos (com os EUA) de pagar aos países africanos por essa praga que lhes enviámos. Não os chineses, frisa ela (e tantos outros), pois esses "respeitaram a quarentena", ao contrário dos indisciplinados europeus, ao contrário dos americanos (e antes dos britânicos) com suas diferentes políticas de absorção viral. 

Locutora e seus subscritores são pessoas com estatuto reconhecido, não meros "populares" prenhes de atoardas. Estou diante de "intelectuais orgânicos" a quem Estados e algumas fundações pagam para pensar e ensinar. Mas doutrinam estas falsidades. Ímpias. Por mais que sempre alardeando a sua refutação dos preconceitos, das discriminações, logo agora surgem reproduzindo, de facto ipsis verbis, o antigo cartoon que encima este postal. Para eles somos nós o torero de então, o agente disseminador, poluidor. Não porque somos um toureiro espanhol mas porque somos o branco "ocidental" - mesmo que tantos destes locutores sejam brancos, até "ocidentais".

Pois o que os move, o que os conduz na produção desta falsificação da história (hiper-contemporânea), é o ódio à democracia, aquela a que repudiam, com desprezo, como "democracia formal". O seu ódio ao mundo "pan-ocidental" (como disse Wallerstein, para o apartar do leste europeu e lhe agregar as antigas colónias de povoamento britânicas). Por isso, por esse efectivo amor ao comunismo e aversão aos países europeus, e ao mundo  democrático, vêm agora - neste catastrófico momento - reclamar que paguemos a África uma infecção que consideram termos causado. Elidem, como agentes do conto do vigário, as práticas chinesas que nos conduziram a este estado das coisas. Louvam a sua "disciplina" - construída, sabe-se, por formas de controlo totalitário com tecnologia intrusiva das liberdades individuais que resistimos a aceitar como desejáveis na democracia liberal [veja-se o breve filme]. E toda e qualquer informação que lhes questione as malvadas teses, o entoar do seu odioso comunismo, consideram falsidades dos americanos, aquilo da invectiva à "voice of America" como nos tempos soviéticos tanto se ouvia ...

 

(This is How China Beat the Corona Virus - should we copy?, por George Thompson)

Mas não é só a apologia do capitalismo de Estado chinês, através da falsificação consciente da realidade (ou seja, da violação grosseira das regras deontológicas que presidem a expressão pública de funcionários públicos académicos).  É a mistificação, doutrinária, de um "Sul" ("abissal" no jargão): por isso seríamos nós condenados a pagar pela pandemia que espalhámos em África. Não a China, que tem enormes contingentes de nacionais nos países africanos, que atrasou o reconhecimento e o combate à epidemia e que permitiu a fuga de milhões de pessoas da zona original do vírus. E não o Brasil, que segue uma política epidemológica ainda mais liberal - e desconexa - do que a dos EUA (ou da Suécia, ou as que a Grã-Bretanha e Holanda ensaiaram). Ou seja, essa apologia do "Sul" conduz a que nem "amarelos" chineses, nem "pardos" brasileiros sejam imputáveis. Apenas nós, "brancos" euro/norte-americanos. Ainda que tendo sido os nossos contextos abalroados e estejamos, repito, com "a corda na garganta". E para esta via intelectual nada importa o fenotipo do "intelectual", apenas o seu can-can de "orgânico" ...

E, para cúmulo da impudicícia destes locutores (e subscritores), tudo isto assenta na total desresponsabilização dos Estados africanos e das suas sociedades, de facto uma forma elíptica de (auto-)racismo. A epidemia é conhecida há já meses (ainda que tendo sido elidida pelo poder chinês, delenda est Carthago ...), e a sua travessia intercontinental acontece há algum tempo. Que fizeram os Estados africanos para se fecharem? Mesmo para barrarem estes horrorosos "diabos brancos", nós-mesmos, que transportamos malévola ou "indisciplinadamente" a temível maleita? Nem isso é questionado. E se nós o perguntarmos decerto que serão invocados, como explicação causal das ausências administrativas, o perene impacto estruturante, assim inibidor, do comércio de escravaturas, do colonialismo, do neocolonialismo, da discriminação dos afrodescendentes. E mais alguns detalhes, mais ou menos avulsos. 

7. Meu ponto de ruptura? O vírus não é um inimigo, é agente de patologia. O inimigo é este tipo de gente. Falsária. Interlocutora. Interna. Melíflua quando precisa (de subsídios, de investimento, de emprego). Abjecta, como agora. Na crise que aí vem é preciso defender a democracia. Não apenas dos soberanistas xenófobos, a crescente extrema-direita. Mas também destes racistas comunistas. Um democrata não defende caças às bruxas ou saneamentos ou limites à liberdade de expressão. Mas temos a obrigação de os apontar, aos falsários, de os refutar. Desprezar. De os combater, sim. Mas também de escarrar para o chão à sua passagem.

Contrata-se "colaborador" (breve ensaio sobre a esquerda lisboeta)

(The Clash, Revolution Rock)

Postal, também autobiográfico, muitíssimo antipático, sobre o linguajar. E sobre a "direita"/"esquerda". E as auto-representações corporativas. Um postal "punk", se o quiserem assim chamar ...

1. Há dias uma queridíssima amiga, que também colega, dizia-me ao jantar, que eu, para além de "direita" por vezes escrevo coisas de "extrema-direita". Pedi-lhe exemplos, não lhe ocorreram ali de imediato, o jantar estava muito agradável e a conversa derivou para outros assuntos.

2. Há anos voltei de Moçambique. No primeiro seminário profissional a que fui uma colega, nitidamente viçosa lisboeta revolucionária, utilizou o termo "empoderamento". Sorri e indaguei sobre a necessidade de usar o termo: é um anglicismo, e feio que se farta. Respondeu irritada, fulminando-me qual patrioteiro hiper-reaccionário, dizendo-me, com notório desprezo, “purista”. Não pode ocorrer a um espécime daquela pobre raça que temos "potenciação". E que, muito mais importante, os termos assentam em diferentes concepções do social e do político, e exsudam-nas: “empoderar” implicita a noção de que se está a dotar algo de “poder” (como se este fosse algo, e como se haja núcleos societais que o distribuam) e “potenciar” deixa entender que se estão as criar condições para a sua produção e/ou aquisição, nos processos conflituais que são a sociedade. Repito, são bem duas concepções de processo político que ali estavam: a da (ignara) revolucionária e a do vetusto (patrioteiro), não haja dúvida. Para além de outra coisa, também cómica: a quase-certa bloquista meneando o jargão do Banco Mundial e do FMI, o “quase-fascista” torcendo o nariz a esse linguajar. Enfim, aprendi-o logo ali, naquele meu período de recente “torna-viagem”, o que nesta terra e meio o que importa são as auto-representações, o quão belo o revolucionário se vê no espelho …

3. Quando voltei integrei uma instituição de pesquisa, agregadora de pólos articulados com várias universidades públicas e de centenas de investigadores, grande parte deles sem vínculos laborais com essas universidades e/ou com o Estado. O ambiente cultural (a “episteme”, se lhe quiserem chamar assim) é algo enviesado, o que é normal entre as ciências sociais (desde que não sejam os engravatados – e endinheirados - Direito ou a Economia), assim um pouco “gauchiste” ainda que heterogéneo. Nesse âmbito e nesta época muitos, ainda que não todos, pavoneiam muito atenção à forma de falar (e escrever). Assim recebia ou lia mensagens destinadas aos “Car@s”/”Prezad@s”, “etc@”. Na época eu tentava fazer um doutoramento e constatei até a existência de um grupo de “doutorand@s”. Ou seja, há uma atenção máxima aos mecanismos de poder que estão implícitos (e até explícitos) na fala, e a aversão ao masculino genérico (o universal masculino) é particularmente vigente, pois entendido como denotando e reproduzindo as relações de espoliação e opressão das mulheres.

“Em Roma sê romano”, dizia-se antes da era multiculturalista, e por isso lá fui sendo @. Mas entretanto recebi várias “convocatórias” para actividades de uma das universidades públicas para as actividades que nela decorriam. Um dia, dado o ambiente de atenção às formas de falar e às relações de poder que transpiram e reproduzem, e dado o meu pendor pouco estatista (aquilo da “extrema-direita”) resmunguei que os funcionários públicos académicos, que haviam sido eleitos entre os seus pares para um breve período de gestão da sua universidade pública, não tinham qualquer prerrogativa para me “convocarem” – termo cuja semântica, explícita e implicitamente, demonstra uma relação hierárquica e uma obrigatoriedade. Nem a mim nem a qualquer dos meus colegas, alguns dos quais também colegas (“pares”) desses funcionários públicos académicos. Fui mal acolhido na minha oposição, porventura considerado indivídu@ descabid@ devido à minha atenção às coisas da cidadania, e da república. E à minha aversão aos mecanismos de “empoderamento”, da aquisição e apropriação de poderes. Ou, de forma chã, que um tipo lá porque foi eleito para um conselho de reitoria de uma universidade pública não tem qualquer poder sobre os seus colegas e, muito menos, sobre investigadores de outras universidades ou de nenhuma universidade.

Assim, e como sou de “(extrema-)direita”, e mesmo alérgico a essas mentalidadezinhas estatistas, abandonei a instituição que me transmitia as convocatórias dos funcionários públicos eleitos.

4. Os anos passam, a luta contra o masculino genérico e outras formas de exploração da mulher e d@ transsexual pelo homem (tóxico, pois pérfido heterossexual aprisionado - como diziam mas deixaram de dizer - pela "sexualidade reprodutiva"), e d@ negr@ pelo branco, reproduzidas no linguajar continua, e tem tido vários sucessos e etapas discursivas. A esquerda intelectual, orgânica, um dia vilmente insultada pelo reaccionário Bourdieu, ideólogo da direita francesa, como “radicais de campus”, tem sido fundamental neste campo de batalha.

Vejo agora mesmo, aqui no FB, um anúncio de emprego para funções de secretariado, no qual se explicita que se esperam candidatos ou candidatas (contra o tal “universal masculino” "marchar, marchar ..."). Colocado por uma associação profissional (uma "ordem", se assim tivesse sido instituída), dessas que congrega muitos desses praticantes desta luta de libertação vocabular. Que nisso se revêm como de “esquerda”, mais ou menos libertária, mais ou menos “socialista”, depende dos casos. Ainda que sempre, ou quase, com um sorriso de mesura face aos poderes fácticos, se estes do PS.

Tenho uma particular apreço pelos trabalhos de secretariado (hoje em dia muito ditos de “assistência de direcção”). A minha mãe foi secretária, professora e coordenadora de pioneiros cursos de secretariado durante décadas. Por isso digo “àquel@s e àquel@s” que se candidatem a esse posto de trabalho: tenham cuidado com os esquerdistas, tão puristas da língua opressora, mas que chamam “colaboradores” aos trabalhadores. Ou seja, cuidem-se com os esquerdistas que papagueiam jargões. Pois esses, sempre, tendem a tiranetes. Ou, de outro modo, caros candidatos, boa sorte. E potenciem-se, nunca esperem que vos “empoderem”

Diz-vos este gajo da “(extrema-)direita”.

Um texto sobre o desenvolvimento

jpg red bull.jpg

(eu-mesmo, nesta década, durante uma consultoria, decerto que a norte do Save)

Vou com 55 anos. Fui ao médico. Não me deu más notícias (longe vá o [auto-]agoiro). Ainda assim cheguei à idade de olhar para  o retrovisor. Por isso deixei agora mesmo, na minha conta na rede academia.edu, um texto de memórias, sobre a minha formação intelectual, sobre a aprendizagem da antropologia, sobre o que penso da disciplina na qual me licenciei. E sobre o que retirei da minha experiência em trabalhos de antropologia do desenvolvimento. Não é uma coisa teórica, é mesmo uma memória de quase 40 anos de olhos entreabertos, a constituirem este meu "olhar embaciado".

O texto chama-se A Apneia Desengajada: Uma Experiência Desenvolvimentista. A quem tenha a gentileza do interesse, e a simpatia da paciência, bastará "clicar" neste título para aceder e, até, gravar.

 

Um texto sobre antropologia em Moçambique

jpt.jpg

Se alguém quiser utilizar um olhar póscolonial sobre esta fotografia terá um manancial para "análise crítica": o "investigador" manifestamente branco, notoriamente burguês (atentai no ventre rotundo) e, pior do que tudo, presumivelmente - julgo eu - heterossexual. Um vero agente tóxico. Ainda por cima, vede, aqui captado ao centro da fotografia, assim individualizado ("agenciado"?) defronte a uma mole de africanos pós-colonizados, captados em amálgama despersonalizadora e exotizadora, qual paisagem assim desumanizada.

Dito isto, acabei agora de escrever uma memória de quando tinha aquele ventre rotundo. Um texto, longo e escolástico, sobre antropologia em Moçambique. Pode ser que interesse a alguém. Ou até, minha presunção e água benta, ser útil a esse alguém. Bastará clicar e gravar neste título: "Rumos da Antropologia em Moçambique"

O novo hotel brasileiro da Vila Galé

vila gale.png

 

Quando surgiu esta "onda Bolsonaro" gerou-se, por influência dos discursos brasileiros de então, uma onda contrária, invectivando-o fundamentalmente por ser anti-negros e anti-mulheres. Logo me pareceu uma abordagem descabida: o homem não iria legislar contra "negros" (o espectro "pardos/negros") nem contra mulheres. O que era (e é) de esperar é que rompa com políticas de "discriminação positiva", o que é debatível.

Mas o que logo pareceu óbvio é que a grande questão, e a mais importante sob o ponto de vista internacional, seria a sua política amazónica, tanto por declarações explícitas sobre a matéria como pela sua adesão ao totem "mercado". E, acima de tudo, pela importância nos seus apoiantes dos sectores "ruralistas". Entenda-se bem, a depredação ecológica e a refutação dos direitos fundiários das populações ameríndias, na Amazónia e não só, não é uma consequência desta abordagem política, é um projecto político por si só. Claro que então, e depois, isso foi muito (muitíssimo) menos abordado, tanto pela inexistência de movimentos amerindófilos como pelo estado sub-intelectual dos movimentos ecologistas portugueses mais mediatizados, os inscritos no espectro partidário.

Temos agora esta notícia sobre um projecto de explícita rapina dos direitos fundiários de uma população ameríndia. É algo mais do que esperado. A particularidade é que é levada a cabo por uma empresa portuguesa, o segundo maior grupo hoteleiro nacional, Vila Galé Hotéis. A reacção da sua administração à denúncia desta inaceitável acção (que foi descrita pela antropóloga portuguesa Susana Matos Viegas, profunda conhecedora daquela área), não é boçal. É sim um negacionismo estratégico, indigno de tão imoral. A única dúvida que este projecto levanta é a do estatuto da Vila Galé: será pirata, actuando por conta própria? Ou será corsária, devastando com o apoio do Estado português? Assim de longe julgo que será mesmo uma empresa bucaneira. Mas a ver vamos, se haverá reacção governamental que nos demonstre não só a inexistência de "carta de corsário" emanada como também a oposição efectiva (ou seja, com punições legalmente aceitáveis e economicamente penosas) do governo português a práticas destas.

Como portugueses pouco temos a dizer sobre as políticas brasileiras. Mas muito podemos dizer à Vila Galé. Evitarmos os 23 hotéis em Portugal e dos 8 que já têm no Brasil. Neles não fazer turismo ou organizar congressos, nem neles nos acolhermos para viagens laborais. Inclusive repudiando reservas que outros (em contextos laborais) nos façam nessas instalações. Explicitando a causa. E, claro, exigirmos ao nosso governo o explicitar do repúdio por tais gentes, bem como que as instituições estatais e municipais nunca sejam clientes nem apoiantes desta empresa.

Contra este projecto, ainda em deliberação pelo governo brasileiro, foi lançada uma petição. Subscrevê-la será bonito, simpático, uma espécie de suave ombrear com os que defendem direitos justos e tão dificilmente adquiridos e de ainda mais difícil manutenção. Mas não suficiente. Pois diante disto urge mesmo, sensibilidades políticas à parte, bradar "Que se lixe* a Vila Galé". E exigir que o nosso poder ouça o urro.

*Texto censurado por instâncias familiares.

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