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Nenhures

Nenhures

Sonhámos Um País

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(Texto para o grupo de Facebook Nenhures - no qual divulgo as publicações deste blog):
 
Algumas impressões ainda a propósito do filme moçambicano "Sonhámos Um País" do Camilo de Sousa e da Isabel Noronha, que foi transmitido na passada semana pela RTP2 :
 
1 - Não vou aqui debater o filme. Pois - e apesar de eu, ao longo dos anos, ter depurado blog(s) e o meu FB dos dichotes alheios mais abrasivos - sobre a temática dos processos independentistas há sempre o risco de se cair num exasperado ambiente de "prós" vs "contras", de invectivas aos "tugas" (neo)colonos e aos "turras" comunistas. E não tenho paciência para isso, o que é razão mais do que suficiente para este meu evitamento.
 
2 - Mas alerto quem não o viu para que se trata de um belíssimo filme. Uma querida amiga - que investigou sobre a história cultural do país mas não é moçambicana e nunca ali viveu -, por mim alertada para a transmissão, escreveu-me "obrigada, chorei ao ver". 
 
Também eu me comovi e não tanto por conhecer o protagonista-realizador. Mas por no filme reencontrar - mesmo num objecto destes, um sofrido memorialismo analítico - os constrangimentos intelectuais impostos pela socialização no nacionalismo e, ainda mais, pelo impacto omnipresente do carisma da I República, em particular de Machel (Samora, como se o nomeia em Moçambique, forma óbvia de exaltante aproximação afectiva). Ilustro isso com a forma como a este se refere um dos três protagonistas do filme, um dos seviciados: repetidamente alude ao "saudoso marechal". Ou como quando Camilo de Sousa refere as instruções recebidas para documentar a situação dos campos de reeducação sendo que depois estes recrudesceram. Isto denota as contradições no poder de então mas também a ambivalência (quase sempre apagada) do próprio Machel. Mas mais interessante ainda, em particular para quem não esteja preso à "avaliação" retrospectiva do processo político - num verdadeiro "ajuste de contas", por vezes apenas revanchista mas na sua maioria devotado a reclamar legitimidade no presente - é reconhecer através do filme a força imensa que teve o moralismo, puritano mas também profundamente racista (e "tribalista", para usar o termo de então), naquela fase política mas também como molde de interiorização de uma forma particular de nacionalismo. Os quais, moralismo e racismo, se mantêm como adubo dos valores que são consagrados, no espaço político e privado.
 
E também por isso, por no filme se encontrarem estes nós górdios ideológicos que demarcam a análise do processo - mesmo num magnífico trabalho como este - que volto a recomendar a entrevista de Camilo de Sousa ao José Navarro de Andrade (a partir dos 30'30'' nesta ligação ao programa "Muito Barulho Para Nada", edição de 22 de Julho de 2020). Ambos sábios, sem oposição nem afronta por parte do entrevistador (como é tão costume na tv) mas uma verdadeira conversa, de facto sobre mundivisões. Desiludidas.
 
3. Nos comentários, no grupo "Nenhures" e em outros murais de FB, percebi que o filme nunca foi projectado ou transmitido em Moçambique. Estreado em 2020 em parte isso dever-se-á à contracção que o Covid-19 provocou. Mas talvez não só, pois presumo que haja algum evitamento local dado que é um objecto de difícil digestão interna: trata-se de uma dolorosa análise crítica "por dentro". Pois o Camilo é um "antigo combatente" e nunca "dissidiu" (para usar a velha terminologia). É então necessário procurar evitar o relativo silenciamento que este tipo de obras sempre promovem - naquele país e em tantos outros. E assim que pelo menos a RTP-África o transmita, o que seria um verdadeiro acto de "serviço público". Mas também que instituições culturais em Moçambique, nacionais ou estrangeiras, organizem a sua projecção pública, nas quais muito mais se induzem debates e memorialismos.
 
4. Sobre o período dos campos não inexistem textos. João Paulo Borges Coelho publicou "Campos de Trânsito" (em 2007) e Ungulani Ba Ka Khosa o "Entre Memórias Silenciadas" (em 2013). Seria interessante saber o impacto que estas obras realmente tiveram no contexto letrado do país. No qual este assunto dos "Campos de Reeducação", e da "Operação Produção", continua a ser mais aludida do que dissecada. E seria ainda mais interessante voltar-se a esses livros, debatê-los, o que é forma de os fazer ler, convocar a curiosidade sobre eles. E também Licínio de Azevedo fez dois filmes incidindo nesse período e na ideologia de moral pública então dominante, "A Última Prostituta" (1999) e "Virgem Margarida" (2012).
 
5. Finalmente quero chamar a atenção para uma excelente tese de doutoramento sobre esta matéria, realizada pelo investigador moçambicano Benedito Machava, "The Morality of Revolution: Urban Cleanup Campaigns, Reeducation Camps, and Citizenship in Socialist Mozambique (1974-1988)" [basta carregar no título que se pode gravar o documento completo]. É tempo desta tese sair do remanso dos esconsos acervos universitários e ser traduzida, publicada e lida. E, acima de tudo, debatida. O mesmo se aplica à tese de doutoramento de Isabel Noronha, co-autora deste filme, intitulada "Tacteando o Indizível", a qual ainda não li mas que decerto será contributo para um debate alargado (e ponderado, se possível) sobre este processo histórico, suas práticas e dimensões ideológicas.

As amplas liberdades

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(AS CAUSAS MÍTICAS DA DIVERGÊNCIA ECONÓMICA PORTUGUESA - MEL, Movimento Europa e Liberdade)

Não sou economista nem historiador. E fui lendo ao longo da vida mais ou menos o típico (a moda, no duplo sentido: referente à quantidade; aludindo ao que esteve em voga) de um tipo que estudou ciências sociais. (Ainda assim li o suficiente para não ter paciência para os brutos que põem aspas sarcásticas neste "ciências sociais"). Assim apresentado avanço.
 
Nuno Palma (de quem nunca ouvira falar) é professor universitário na Grã-Bretanha. Falou numa convenção - é o primeiro interveniente do filme, durante 20 minutos - sobre, grosso modo, o regime político português ancorando a sua reflexão na história económica portuguesa. Defende, é explícito, uma postura de direita e uma posição liberal. E analisa a produção do discurso oficial sobre o passado recente, a "narrativa" histórica promovida pelas instâncias estatais, dizendo coisas consabidas (ou que o deviam ser). O que ali avança - em particular sobre a economia e educação no Estado Novo, referindo-se ao "atraso económico e político do país", que apresenta como estrutural - não é particularmente inovador (nem ele o terá procurado).
 
Eu, que li alguma coisa sobre a história do sistema colonial português, volta e meia vou ao blog resmungar contra este actual (e serôdio) discurso anti-colonial que demoniza o Estado Novo enquanto higieniza a I República, que foi veementemente colonialista. E sei, por leituras abrangentes, que se o Estado Novo não foi "desenvolvimentista", no sentido que lhe damos agora, não é nele que radica o atraso económico do país, e isso nota-se bem no delinear das políticas coloniais de XIX e XX. De facto, e fazendo-o de forma vulgar, é mais ou menos o que Palma diz, ele com mais sageza e reflexão, e com um âmbito mais alargado: temos uma "narrativa" (na Escola, na Universidade, no jornalismo de "referência") que amputa a história portuguesa de algumas das suas características estruturantes e inventa outras, para com isso moldar a la carte as sensibilidades da acção política actual - também por isso se quer agora, no seio de demagógicos "movimentos sociais", pontapear António Vieira e não Afonso Costa, ou denunciar Afonso de Albuquerque enquanto se louva Humberto Delgado, por exemplos.
 
Enfim, o relevante - para quem não saiba deste caso - é que o académico Nuno Palma nada disse que seja errado. É um intelectual e teve um contributo intelectual condigno, na sua subjectividade, numa convenção política. Logo um ex-ministro e actual nº1 dos eurodeputados socialistas veio deturpar a argumentação, tanto o explicitado como o que lhe está subjacente, acusando-o de fazer a apologia do Estado Novo, o que é uma vilania intelectual. E, bem pior, surge um outro académico, Francisco Santos Silva, do Centro de História de Além-Mar da Universidade Nova, que o denunciou à Universidade de Manchester, empregadora de Palma. A miséria moral e a incompetência deontológica deste tipo de intelectuais activistas chega a este ponto. E hoje no "Público" José Pacheco Pereira, que foi meu professor (e que professor!) segue nesse mesmo ímpio caminho. E são estes "camaradas e amigos" (para citar Pacheco Pereira quando foi à Aula Magna fundar a futura geringonça) que se reclamam paladinos das "liberdades". Pouco amplas, constata-se todos os dias...

Amadeu Castilho Soares

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(Amadeu Castilho Soares em trabalho de campo na (actual) Guiné-Bissau, 1959-1960)

Aos 90 anos morreu agora Amadeu Castilho Soares, durante décadas gestor de recursos humanos, área laboral na qual foi um dos primeiros presidentes da respectiva associação profissional. Aqui evoco o seu breve período de investigador "africanista" - como então se dizia - e a sua fugaz mas impressiva experiência no governo colonial. Pois esse seu percurso denotou dinâmicas político-administrativas daquele ocaso imperial mas também algumas das suas ambivalências, as quais não deixam de apelar ao matizar de interpretações mais sistémicas dessa era.

Castilho Soares frequentou a Escola Superior Colonial - entretanto renomeada como Instituto Superior de Estudos Ultramarinos (futuro ISCSPU e actual ISCSP) -, instituição na qual logo veio a ser docente. Nesse ambiente formativo foi muito influenciado pelas concepções então reformistas de Adriano Moreira. Foi esse mestre que o integrou em investigações nas colónias, organizadas pela Junta das Missões Geográficas e de Investigações do Ultramar, numa época em que se procurou dinamizar a até então escassa investigação em temáticas antropossociológicas.

Nesse âmbito integrou a Missão de Estudo para a Atracção das Grandes Cidades e Bem-Estar Rural, com estadas de terreno durante as férias lectivas entre 1956 e 1959 em Angola e Moçambique. Nesta podia-se reconhecer a influência de concepções então emergentes, tendentes ao desenvolvimento comunitário rural - consagradas desde o início daquela década pela ONU -, e cooptadas em Portugal também para o esforço reformista do regime colonial em busca da sua legitimação internacional. A posteriori pode-se ainda notar a relação desses intuitos com a preocupação administrativa com o que então se dizia "destribalização", as transformações oriundas dos fenómenos de urbanização, assalariamento e até migrações. Mas o que agora será ainda mais interessante é detectar naquele quadro intelectual  concepções que, salvaguardadas diferenças de objectivos e métodos, ressurgiram décadas depois exactamente sob esse epónimo, o tal "desenvolvimento comunitário" ainda muito em voga neste XXI.

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É interessante para o historial da investigação portuguesa e da sua articulação com os objectivos político-administrativos que dessa longa pesquisa, congregando fundos então algo inusitados, não advieram os resultados colectivos esperados. Pois apenas resultou a tese de licenciatura de Castilho Soares, este “Política de Bem-Estar Rural em Angola”. Tal não se terá devido apenas à particular competência do autor, tornando-o excepção naquele projecto, mas indicia falta de organicidade institucional, a qual fragilizava o desenho e a realização das investigações. E não deixa de denotar que o vínculo entre as pesquisas realizadas e os mandamentos políticos que as convocavam eram, de facto, mais ténues do que interpretações posteriores vieram afirmar, acabando por ser mais um ambiente intelectual do que propriamente uma política cabal.

Foi nesse mesmo contexto que Castilho Soares integrou em 1959-1960, na condição de sociólogo e juntamente com os arquitetos Schiappa Campos e Saragga Seabra, a Missão de Estudo do Habitat Nativo da Guiné, cujo plano indicia o mesmo tipo de preocupações, uma abordagem etnográfica que baseasse o reconhecimento e valorização do modus vivendi populacional. Algo que se pode ligar com os intuitos então proclamados de gerir o povoamento, inclusive através da reorganização administrativa local e de reassentamentos rurais, que viessem a obstar aos fenómenos de "destribalização", estes perspectivados como anómicos e temidos como fonte de processos independentistas. Também neste caso os resultados da investigação não foram imediatos, em parte pela posterior realocação dos investigadores a outros serviços. Assim só em 1970 foi publicado o relatório Habitats Tradicionais da Guiné Portuguesa, abarcando um espectro bem menor do que o objectivo inicial - o que de novo permite referir a fluidez dos laços entre administração e investigação. E só muito recentemente esse precioso material fotográfico foi recuperado, através da exposição "Moranças - Habitats Tradicionais da Guiné-Bissau". (Aqui o folheto). Mas essa esparsa relação entre propósitos políticos e concepção das investigações, bem como o voluntarismo que a estas ancorava, perpassa ainda mais no interessante depoimento que Castilho Soares concedeu à historiadora Cláudia Castelo em 2010. No qual explicitou a disparidade entre os enormes objectivos iniciais e os recursos realmente disponibilizados, bem como a falta de formação metodológica da sua geração. 

Depois, com apenas 31 anos, e também por intermédio de Adriano Moreira, que viria a assumir funções ministeriais, foi nomeado para o governo de Angola, como Secretário Provincial da Educação, Saúde e Trabalho e Segurança Social. Eram, como disse, "as 3 áreas politicamente mais melindrosas quer a nível interno quer face à política internacional", exactamente no período da revogação do Estatuto do Indigenato e de alterações da Lei do Trabalho, ilegalizando a então omnipresente corveia. Nesse período desenhou o inovador projecto de desenvolvimento da Escola rural, o "Levar a Escola à Sanzala", uma verdadeira reforma que procurava alargar a alfabetização, concebida à margem da igreja católica à qual o Estado Novo havia entregue o ensino da população africana e que se veio a opor a esta iniciativa. Também neste caso agora se nota como algumas daquelas concepções foram recuperadas, décadas após as independências africanas, pois são patentes as similitudes com as metodologias actuais das "escolas comunitárias"  construídas pela população rural e sob sua relativa tutela, fornecidas de professores formados pelo Estado. 

Durante esse seu trepidante curto mandato foram criados vários liceus, escolas técnicas, de enfermagem e de serviço social. E iniciou-se o processo de estabelecimento da Universidade em Angola, o qual Castilho Soares acompanhou ainda que dele não fosse responsável. Mas este provocou acesa polémica política e mesmo a eclosão da crise entre os "integracionistas", partidários do centralismo metropolitano, e os crentes nas virtudes descentralizadoras, então emergindo no território angolano. Assim a proclamação provincial da universidade de Luanda veio a ser vetada pelo governo nacional, num processo que aceleraria a posterior abertura dos Estudos Gerais em Lourenço Marques e Luanda (1962 e 1963). Mas esse episódio foi o culminar de uma tensão entre essas correntes políticas e acabou por provocar as demissões do ministro Adriano Moreira e do governo colonial do general Deslandes.

Desse seu fulgurante biénio, e do seu afã reformista, ficaria como fundamental traço o projecto de alargamento da rede escolar, sem tutela eclesiástica. Demitido o governo de que era membro, Castilho Soares regressou a Lisboa sofrendo uma surpreendente represália estatal, bem mostrando como eram fluidas e complexas as concepções então dominantes e espúrias muitas das retóricas propaladas. A esse propósito, e com toda a pertinência, disse o professor Adelino Torres que o "Levar a Escola à Sanzala" se tratou "de um plano em grande escala concebido e corajosamente executado pelo antigo Secretário Provincial da Educação de Angola, Amadeu Castilho Soares. O plano era tão ousado que deu origem à posterior destituição pura e simples deste alto funcionário e ao seu afastamento da carreira universitária, para além de uma perseguição mesquinha de que foi vítima durante anos.

Assim afastado das áreas de investigação a que se dedicara desde a sua juventude Amadeu Castilho Soares inflectiu a sua vida profissional, seguindo uma preenchida carreira na gestão de recursos humanos. Já viúvo deixa agora filhas, netos e bisneto. Foi precedido na morte pelo seu filho, e meu saudoso amigo, João Nuno. O qual tanto recordo nestes dias de pesar.

NotaLista dos textos de Amadeu Castilho Soares

Soares, Amadeu Castilho (depoimento, 2010), IICT, 2011. 16 p. (entrevista concedida a Cláudia Castelo)
 
 
Adenda: para quem tiver interesse sobre esta época deixo - sem quaisquer pretensões de ser exaustivo - estas referências bibliográficas (basta pressionar a ligação para aceder aos documentos em formato pdf): Carla Abrantes, "Repertórios do conhecimento em disputa: trabalhadores indígenas e agricultores no colonialismo português em Angola, 1950"Cláudia Castelo, "Novos Brasis" em África: desenvolvimento e colonialismo português tardio"Fernando Tavares Pimenta, "O Estado Novo português e a reforma do Estado colonial em Angola: o comportamento político das elites brancas (1961-1962)"

Rescaldo de 2020

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(Lisboa confinada; Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo)

Entre co-bloguistas, no colectivo Delito De Opinião , estamos a escolher - tal como todos anos o fazemos - o Facto Nacional e o Facto Internacional do Ano, a Figura Nacional e a Internacional do Ano, e a Frase do Ano. Quando (finalmente) entrarmos em 2021 o nosso coordenador blogal, Pedro Correia, publicará os resultados. Deixo aqui a minha votação (até para vos chamar a atenção para o resultado final): 

1. Frase Nacional do Ano: há imensas para escolher (aqui um rol delas, patéticas). Mas escolho uma de Pedro Nuno Santos, o robusto Iznogoud deste governo: "Em 2025, a TAP já estará em condições de devolver algum do dinheiro ao Estado português".

Escolho-a porque as outras são sobre isto que agora decorre. E esta é para o futuro, escrutinável daqui a uns anos. É também dedicada aos interseccionalistas, ou lá como agora se chamam os socratistas. Não tiveram eles a desvergonha abjecta de até com o Berardo gozarem no ano passado? Daqui a cinco anos continuarão na cagança aldrabona da sua superioridade moral e intelectual, o "activismo" como peroram. Será então de lhes perguntar, aos funcionários públicos e aos subsidiados/avençados, aos teclados de aluguer e aos imbecis (in)úteis, se se lembrarão disto. Com toda a certeza que não.

2. Facto Nacional do Ano: O assassinato de Ihor Homeniuk no Aeroporto de Lisboa.

Porque demonstra o estado do Estado. Porque o mísero ministro Cabrita ainda o é. Porque demonstra o miserando estado do "activismo". Porque nos demonstra. 

[Sobre o assunto botei em Junho e em Dezembro]

3. Facto Internacional do Ano: COVID-19. Como é óbvio.

Já agora deixo ligação a um texto mais longo que escrevi sobre isto. Não colheu grande interesse (leitores). Mas foi a única coisa que escrevi neste ano, por isso aqui venho agitar a tralha: “P’ra melhor está bem, está bem, p’ra pior já basta assim”: o capitão MacWhirr e o Covid-19.

4. Figura Internacional do Ano: Li Wenliang
 
Como vénia ao seu percurso, tão breve. De coragem.

Mas também para lembrar os comunistas (aka interseccionalistas do "sul"), que nos odeiam tanto, a nós porque europeus, portugueses, brancos, e democratas - ainda que tantos deles também europeus, também portugueses (aquilo da "dupla"), também brancos, mas nunca democratas, e ainda que também aqui aboletados - que sufragavam a ideia da total irresponsabilidade da "Comunista" China nisto tudo. E que nós - brancos, europeus, portugueses, seus anfitritões/compatriotas e, pior do que tudo, democratas - deveríamos pagar os custos do Covid-19 em África porque nossa culpa.

Acho que nunca desprezei ninguém como esta execrável malta, naquele Março-Abril de 2020.
 

5. Figura Nacional do Ano: Frederico Varandas.

Porque apesar de todas as contingências, mostrou o valor do trabalho, do esforço e da planificação num país dominado pelos lobbies políticos e empresariais, numa área de actividade económica particularmente vilipendiada pelo recurso a actos ilegais por parte dos poderes vigentes.

***

Junto quatro outras escolhas, que me marcaram o 2020. 

 

6. Música (Banda Sonora) do Ano: porque este concerto de Lou Reed [Capitol Theatre, 25 de Setembro de 1984] e alguns outros dele tocaram incessantemente durante as noites de Março, Abril e Maio, lá no bucólico Nenhures.

7. Livro do Ano (ensaio)Les Nouvelles Routes de la Soie, de Peter Frankopan. Enfim, foi releitura (para tirar notas, essa inutilidade viciante) e não foi o melhor. Mas completamente o mais útil. Enquanto os basbaques discutiam Trump e Brexit, já agora:

8. Livro do Ano (ficção): Ilações Sobre um Sabre, de Claudio Magris. Um pequeno-Enorme livro, até já antigo. Daqueles que um tipo ao acabar logo insulta o autor - tanta a raiva invejosa diante de tamanho talento. E, ao mesmo tempo, regurgita de júbilo pela sorte de ter lido.

9. Canção do Ano: "Waves of Fear", de Lou Reed.

Rescaldo de 2020

2020 vai terminar e é altura de rescaldos. Gerais e pessoais, neste Covidoceno. Para mim foi um ano duro. Perdi a minha mãe, tendo-a visto definhar no isolamento obrigatório. O foco na saúde geral - e o crescente isolamento - trouxe a morte ainda mais para o centro. Assim mais atentei no fim de tanta gente significante, daquela que me faz a paisagem - o último talvez o Le Carré presente desde a minha juventude até ao Magnus Espião Perfeito. E a Branca, a cadela de amigo extremo que me adoptara e que tanto me acompanhou neste(s) ano(s) também morreu. Coisa bem diferente, perdi o meu amor, o que me trouxe uma antevisão de celibato perpétuo, algo mais estranho do que problemático. E, neste ano difícil, percebo que não sei de vários amigos, relações esgarçadas com o tempo. Fica o carinho pelas memórias mas nada mais. Tudo isto algo me desertificou.
 
Mas foi também um ano bom: nenhuma realização, a consciência de muito menos objectivos, anseios, e das escassíssimas possibilidades que restam. Alijar o ego, perder as angústias das responsabilidades para comigo-próprio. Amadurecer. É bom envelhecer! E ainda uma coisa magnífica em 2020: não passei um dia, uma hora que fosse, com gente de que não gostasse. Sempre rodeado daqueles que amo. Ou, vá lá, gosto muito. Pode-se pedir mais na vida? Não creio.
 
Para temperar, o piripiri da vida, restaram-me as irritações com a "coisa pública". Também elas escassas, no fundo meras simulações de vida: com os mandarins, no início do covidoceno (o MNE Silva e o presidente Sousa a dizerem que não se podia fechar fronteiras, aldrabões puros; a tonta da agricultura, a negacionista da saúde); os mandarins da academia - o antropólogo, meu antigo professor, a resumir o covid-19 a imprecações contra o brexit, vs Boris, maldizendo Tatcher, e a dizer que Portugal nunca esteve economicamente tão bem: uma indignidade intelectual [espero que leias isto e percebas o meu desprezo, visceral ...]; e a antropóloga (luso?)moçambicana a salvaguardar a China e a dizer que nós-europeus temos que pagar os custos do Covid-19 em África. Verme ...
 
E, por último, os maluquinhos da direita liberal, durante meses a clamarem todos os dias contra as medidas de protecção, em nome da economia, qu'isto só mata velhos e etc. E, espantoso, a louvarem os suecos sociais-democratas. O rei da Suécia falou, entretanto, a mostrar o quão parvos são estes malucos.
 
A ver se em 2021 continuo no bom caminho de fenecer. E deixo de ligar aos maluquinhos. E aos antropólogos comunistas/comunitaristas. A bem do meu belo envelhecimento.

Miguel de Vasconcellos

 

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Cumprem-se hoje 380 anos do assassinato do primeiro-ministro (e antigo ministro das Finanças) Miguel de Vasconcellos e Brito. Afincado europeísta, foi vítima de uma revolta de cariz soberanista (nacionalista, em linguagem actual) - propagandeando uma conservadora ideologia lusófona -, catapultada por uma profunda crise económica que impusera uma política austeritária e concomitante carga fiscal. 

Passaram quase quatro séculos de poderes políticos, de poderes académicos. E não há, que eu saiba, um mero monumento que o recorde com a dignidade devida. Procuro e nem uma biografia, um estudo compreensivo ... Nada, apenas a continuidade de uma memória vilipendiada, a do "defenestrado". E a dos "gloriosos capitães conjurados".

Enfim, é o que é, somos o que somos ... Fiquemos com os feriados, que é o que se aproveita.
 

Racismo cultural (2): o afã de encontrar racistas ...

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Há algum tempo deixei este postal sobre Racismo Cultural. Com uma citação ilustrativa do que muitos poderão considerar tal coisa: "Para aqueles homens e aquelas mulheres, não existia doença natural e talvez nenhuma coisa o fosse. O seu universo permanecera no caos e, todos os acontecimentos, mesmo os mais simples, eram para eles mistérios, mas uns eram mais frequentes do que outros, aos quais o uso os acostumava. As fases da Lua, a produção do fogo no seu fogão de cozinha não eram menos inconcebíveis, para eles, do que a abertura de cavernas em pulmões doentes; apenas eram naturais, isto é justas, a seus olhos, as mortes de velhos. E como eram, no entanto, seres humanos, condenados, pelo instinto da sua espécie, à procura e talvez à invenção das causas, atribuíam o definhamento de Amande àquela que era para eles a mais simples, a mais humana, à força cujos efeitos tinham muitas vezes, nas suas vidas, verificado: a inveja, os ciúmes de uma mulher por uma mulher." Foi um postal capcioso, e por isso propositadamente não identifiquei nem texto nem autor. O tempo foi passando e ninguém resmungou comigo - o que era o meu objectivo. (E na plataforma Facebook, na qual coloco ligações para os postais do blog, até tive algumas concordâncias).

Trata-se de um trecho do conto "Malefício", incluído no livro "Conto Azul" de Marguerite Yourcenar, o qual inclui três contos de juventude da escritora - um, "A Primeira Noite", tem o particular encanto de ser uma reescrita do único texto ficcional do seu pai. Este "Malefício" foi originalmente publicado em 1933, quando a escritora tinha 30 anos. E o interessante é que aborda um contexto popular italiano. É certo que os mais radicais críticos da actualidade podem clamar que a francesa (e algo belga, pois nascida em Bruxelas e filha de mãe belga, ainda que logo dela orfã) teria um olhar desvalorizador, "racializador" diz-se agora, dos europeus austrais. Poderão também congregar-se na invectiva ao "orientalismo" apoucador da escrita quando abordou - e tanto o fez - a gente do "Mediterrâneo". E que tudo isso constituiria o tal "racismo cultural", desvalorizador de quaisquer outros, mesmo que de tezes similares. Mas tudo isso serão (seriam) construções forçadas. 

Pois o que o pequeno conto narra é uma visão das crenças nas causalidades da doença, tão recorrentes elas são. E as formas como os habituados à medicina moderna (a "biomedicina" na linguagem dos anti-capitalistas new age) encaram as metafísicas construções dessas causalidades da doença e morte. Mais ainda, e mesmo que Yourcenar escrevesse no início da década de 1930 quando os estudos antropológicos não tinham o manancial de reflexão que vieram a ter, e não sendo ela antropóloga, pouco poderá chocar esta sua visão. Certo, não será muito curial aprovar uma formulação como "O seu universo permanecera no caos ...", pois não é disso que se trata. Pelo contrário, a crença na omnipresença do "mau-olhado" letal é um postulado de ordem antropocentrada, remetendo as causas dos incidentes para as práticas humanas. Mas de resto que há a afrontar nesta plácida descrição de uma outra mundivisão? Tão presente nas nossas sociedades, ainda hoje, apesar de séculos de igrejas, católica e protestantes, a tentarem extirpar a crença na feitiçaria/magia, e de alguns outros de medicina moderna. 

Com esta minha citação procurei reforçar duas ideias: a primeira, menos relevante, é o afã das pessoas em gritar "racista" (cultural ou físico), tamanho que até num texto destes o querem reconhecer. Disparam sobre tudo. O que mexe e o que está imóvel. Até sobre a grande Yourcenar ...

Mas a segunda é ainda  mais relevante, denotativa da patetice semi-intelectual que subjaz esta moda que "racistiza" todos os que assomam à soleira da porta ... É que uma coisa é a constatação - construída pelo pensamento "ocidental", em particular pela antropologia - que todos os povos são igualmente racionais, que todas as suas mundivisões (as "culturas") são lógicas e competentes. Outra coisa é esta hipocrisia dos mercenários do "bom-causismo", a da condenação do "racismo cultural" atribuído aos que acreditam que há melhores, pois mais competentes e mais justas, mundivisões ("culturas") do que outras.

Quando essa tralha de gente sai à rua dizendo-nos "racistas" porque acreditamos que há "culturas" mais "civilizadas" do que outras é isso que estão a aldrabar. Pois, de facto, há mundivisões mais justas e mais competentes do que outras. E quando consideramos isso não somos racistas, culturais ou biológicos. Quando uma mulher tem tuberculose não julgamos que foi a vizinha ciumenta que a enfeitiçou - como as personagens do "Malefício" - e procuramos uma cura para os efeitos do bacilo de Koch. Entretanto, alguns de nós, face às perspectivas que nos dominam, usamos instrumentos consagrados, tipo a "dúvida metódica" ou similares. Em outras sociedades isso também acontece. Noutras não. E sabemos destas distinções. Por isso, uns mais conhecedores outros mais espontâneos, hierarquizamos de formas mais ou menos fluídas as "culturas" existentes. Muitos chamam "evolução" à melhoria tendencial das culturas. Outros, mais letrados, evitam julgá-la unilinear. 

O "caos" que Yourcenar assumia lá nos pobres italianos naquela narrativa não existia. O "caos" existe na ladainnha, de facto hipócrita, deste falsário hiper-relativismo. Que afirma "racismo (cultural)" onde existem meras opções, de concepções e noções feitas, do devir social. Que os seus locutores também partilham.

 

Joseph Bottum

Entrevista a Joseph Bottum por Mark Tooley no canal Providence Magazine. Aborda a influência das visões auto-punitivas e escatológicas na política nos EUA, devido ao que considera ser o colapso das igrejas protestantes no país. Vinte e cinco minutos muito interessantes ...

Para quem quiser deixo ligação a um breve artigo, 6 páginas: Disenchantment and Its Discontents. Demonstra a sua visão e é, provocatoriamente, muito actual para o "debate" português - se é que há tal coisa. (Quase) Termina assim:  "Earlier this year, Richard Dawkins reiterated his insistence that bringing up children religiously is a kind of “child abuse.” But I worry more about the rest of us in our modern culture—we children of science, brought up by anti-religious dogmatists in narrow, cramped little doctrines. No art, no richness, no sense of living symbols, nothing poetic, nothing sacramental: That is a truer kind of child abuse—a thinning of the experienced world, a willed privation."

Empoderamento?

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Com duas amigas de Maputo cruzo um fim de tarde, excêntrico para mim, pois poisando naquelas desinteressantes esplanadas intra-prédios, que em tempos associei ao sonoro nicho "bobo" pós-alfacinha. Falamos das memórias do que lá se fez, e ainda faz, as coisas do "desenvolvimento" que aqui tão longínquas parecem, país tropeçado de abundantes "boas causas", o tal pensamento "bobo" tão ufano, tão de ademanes, como se tudo isto não passe daquele Príncipe Real, ralo de turistas, artistas e pederastas.

Nisso, como é norma quando se juntam (ex-)(actuais) operários do tal "desenvolvimento", soa o ícone "empoderamento". Como sempre resmungo contra o anglicismo, tão desnecessário num país língua que carrega o "potenciar", pois feito de horrível fonética e mais do que tudo carregado de ideologia paternalista, conservador-obscurantista como quase nenhum outro, verdadeiro símbolo deste vazio das boas-causas de papagueares feitas. Entre risos - pois conhecem-me os tiques - as amigas defendem o termo, até sarcásticas. Levantamo-nos, que faz frio, e avançamos a tasca ao Largo da Misericórdia, umas boas pataniscas com arroz de feijão a preço mais do que acessível. Para trás fica o tal "empoderamento" mais as apatetadas "boas causas" e respectivos maneirismos, e fala-se da vida ...

Depois, já regressado a casa, lembro-me desta (já velha) citação: "Todas as palavras em voga tendem a partilhar um destino semelhante: quantas mais experiências pretendem tornar transparentes, mais se tornam elas próprias opacas. Quanto mais numerosas são as verdades dogmáticas que afrontam e suplantam, mais depressa se transformam em cânones inquestionáveis".

[Zigmunt Bauman, 1998, Globalization - The Human Consequences, Columbia University Press, 1998, 1)

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