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Nenhures

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(P. M. in: Ilustração Portuguesa, n.º 712, 13 Outubro 1919)

Tenho uma conta na rede Academia.edu, local dedicado a artigos assentes no património profissional, ainda que que muitos lá alojem textos algo distintos - e também por isso ali já alojei oito colecções de textos meus para blogs e jornais (cujas ligações estão no sopé deste blog).
 
Entretanto, tendo-me eu deixado estagnar fui deixando inactiva essa minha conta, até porque a esse estado mental associei uma reduzida pesquisa de textos de cariz académico-científico. Ainda assim há algum tempo, e para minha verdadeira surpresa, dei conta de que apesar desse meu imobilismo estava essa minha conta a ser muito visitada. Por isso decidi reanimá-la, não só divulgando-a (a uns recordo a sua existência, a outros que se possam interessar anuncio-a), como colocando alguns textos que estavam esconsos nas catacumbas dos meus computadores. E também retocando ou reformulando outros que já ali tinha deixado.
 
Deixo agora aqui a nota de que recoloquei, um pouco refundido, um artigo meu, em formato de ensaio, dedicado à visão portuguesa sobre nós-próprios e sobre África, tudo isso cristalizado naquela noção em tempos muito falada, a "lusofonia". O texto tem uma dimensão autobiográfica, dado que passei décadas a ouvir e a ler inanidades sobre o assunto, e escrevi-o como uma tentativa de pôr aquilo em pratos limpos (no meu aparador, pois cada um fará a sua lida doméstica).
 
Mas também tem uma "pequena história" que já posso recordar, passados que são alguns anos, as pessoas vão envelhecendo, reformando-se, demenciando-se, morrendo-se... Há anos escrevi uma primeira versão, menos abrangente e cuidada, para o apresentar num congresso. Acontece que o tal congresso apanhou-me abanado: fizera 50 anos há pouco (o que me amarfanhou, confesso) e não só acabara de me desempregar e retornar de Moçambique - voei na segunda-feira e falei na quarta-feira -, como, muito pior, tinha-me separado exactamente nessa semana. Ou seja, e aceitem-me o plebeísmo, "estava na merda". Assim sendo a apresentação terá sido pungente ou talvez mesmo catastrófica, nem me recordo bem (nem dela nem daqueles meses seguintes). Mas o texto foi divulgado...
 
Passados poucos anos um senior, que eu mal conhecia, convidou-me para um bom emprego institucional, dedicado a estas coisas lusófonas, exactamente porque tinha lido o texto e muito o apreciava. E inclusivamente queria publicá-lo numa revista na qual era influente. Eu fiquei todo contente, claro, a precisar do salário para a boca e, bem secundariamente, a apreciar a publicação, naquela vã vaidade de pretendente a intelectual. Mas tive de me lamentar, à minha impossibilidade, pois ia passar um ano na Bélgica por questões familiares. Ao que me respondeu, sossegando-me, que "não faz mal, vais esse ano, tenho uns trabalhos avulsos para fazeres, entretanto acabas a escrita do doutoramento, e depois quando voltares assumes o cargo". E eu assim ainda mais contente fiquei, ali à mesa do almoço. Mas, e ainda com as quaisquer pataniscas à frente, e porque noblesse oblige, disse-lhe "eu entretanto refiz o texto, aumentei-o e falo de si", o que ele saudou com um "óptimo", "manda-mo, e manda também outros que decerto tens para publicar, que eu os colocarei nas revistas", uma panóplia de periódicos académicos nos quais influi, uma gentileza denotativa do interesse que em mim tinha.
 
Bem, lá apanhei o avião para Bruxelas para junto da minha querida filha, então finalista pré-universitária. O texto foi-me graciosamente traduzido para a língua franca e enviei-o. E, bi-noblesse oblige, meti uma nota no e-mail "veja lá a minha referência às suas ideias", pois eu dissera-o o que era, (mais um) condimento no borbulhante caldeirão lusófono. O senior foi ler. Zangou-se - passados meses, e porque instado a responder, lá clamou: nem publicação, nem trabalhos avulsos, nem emprego... E o silêncio futuro.
 
Lá sozinho na cinzenta Bruxelas fiquei bem lixado. Contei a história a dois ou três amigos íntimos daqui, os quais foram unânimes: "és uma besta Zé, tinhas tirado a referência ao gajo!", "mas é o que eu penso!, bolas" resmungava eu ao Whatsapp, e eles insistiam, cruéis, "és uma besta, sempre o foste e estás cada vez pior". Entretanto fiz-me cliente habitual do simpático café luso "Ponto de Encontro" e do trendy bruxellois "Etcetera" e abusiva visita do querido casal olivalense de Schaerbeek. Territórios livres de lusofonices... A vida continuou.
 
Para quem leia esta nota introdutória e se interrogue "o que é isto?" avanço a resposta: é Etnografia. E sobre os factos (etnográficos) só não estou absolutamente seguro sobre se eram pataniscas ou jaquinzinhos o que eu comia no tal almoço. De qualquer maneira, presunção e água benta..., eu gosto do artigo, espero que (mais) alguém o possa ler:
 
Então aqui deixo ligação para as duas versões, basta aceder e ler (ou gravar) caso haja interesse:
 
 
 
E, insisto, nesta minha conta há outros textos - as já referidas oito colecções (as tais ligações apostas no sopé desta página de blog) e vários outros. Estão lá disponíveis para os que tenham paciência.

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Enquanto o mundo roda o desvio das questões relevantes para os intelectuais, e do perorar que usam para as embrulhar, torna-se cada vez mais patético. Enquadro-me para relatar: no cinema a que prefiro é a Hepburn do Philadelphia Story. É certo que infante brotei com a Loren do A Queda do Império Romano mas depois deliciei-me com a Lange (desde o King Kong, quando ela ainda não era "a" Lange) e a Sarandon (Rocky Horror). E, já quase velho, tombei com a divina Julia. Bem alheias a este perfil. E quem me conhece, nesta "realidade real", sabe que a mulher da minha vida, lindíssima, não corresponde ao molde Lolobrigida. E tão pouco correspondem algumas, pouquíssimas, senhoras que me desvaneceram na vida adulta e real...

Dito isto, encontrar (pois aqui partilhado) um texto de um renomado "intelectual de esquerda" que diz da grande diva Gina Lolobrigida ter ela sido "símbolo de forte carga sensual para um certo padrão de masculinidade hetero" é de bradar aos céus. Nada mais do que um "patois" pretensamente intelectual que mesmo numa invocação na hora da morte tem de intervalar (com "aspas" retóricas), relativizar, a beleza e sensualidade cénica de uma actriz. Como se gente de diferentes genitais e diferentes vontades e devaneios eróticos ("géneros", a tudo isso dizem agora) não se possam conjugar na simples e profunda expressão "a Lolobrigida era um mulherão", pois tamanhas são as suas diferenças - é a mensagem explícita desta tontice rasteira. Ou, por outras e acertadas palavras, olhar para um texto destes é enfrentar um patético onanismo intelectual - que, no desejado correctismo, até da morte de uma actriz faz matéria-prima para propaganda ideológica. 

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O ataque em curso ao sítio b-ok e seus múltiplos locais é uma pérfida manobra do capital corporativo. O livre acesso impõe-se. E não me venham falar de direitos autorais... Cobrar dezenas de dólares pelo acesso a artigos científicos com décadas, por exemplo? Exigir filiações institucionais para aceder aos corpos bibliográficos? Explorar os financiamentos estatais às universidades? Inaceitável. 

Posto de outra forma: o b-ok é uma preciosa, inestimável, fonte da democratização do saber. Não é "pirata", é corsário!!!!

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Fraco leitor de ficção - e ainda pior de poesia -, e cada vez mais enredado em releituras, privilégio da idade, não me surpreende nada ter lido da agora premiada com o Nobel da especialidade, a francesa Annie Ernaux, mas já algo me espanta nunca ter ouvido falar da escritora, sinal de estar ainda mais alheado do que pensava do que se vai escrevendo e lendo.

Entretanto fazem-me chegar a um texto que a "explica", anunciando-a grande leitora de Bourdieu, e de o célebre antropossociólogo lhe ter sido uma grande (determinante?) influência na escrita. É-me isso muito interessante, pois Bourdieu foi-me muito importante quando jovem estudante - é certo que ao fim de alguns livros comecei a resmungar que o homem tinha a deficiência de "tudo explicar", ancorado no que me parecia ser uma sua crença num "homo strategicus". Não sei se estava eu certo nesse meu incómodo, tinha eu 20 e tal anos e depois pouco voltei a lê-lo com verdadeira intensidade, mas foi a ideia que dele me ficou: um bisturi agudíssimo mas demasiado convicto.

Pouco importa, ao anúncio desse laço entre a laureada e o "maître à penser" logo me lembrei de uma deliciosa saída deste último, que me acompanha constantemente, e cito de memória: os sociólogos (entenda-se, os tipos das ciências sociais) têm uma tendência para serem sociólogos dos outros e ideólogos de si mesmos. É uma maravilha, para uso quotidiano, constante... até porque constantemente demonstrada.

Enfim, ainda irei ler Ernaux (é para isso que servem os prémios, são chamadas de atenção). Só espero, mesmo, que seja de escrita menos fastidiosa do que a do velho mestre. Que era, há que dizê-lo, um chato do caraças. 

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Em mural de amiga-FB acabo de encontrar esta esclarecedora imagem, verdadeira análise a la Lombroso dos comportamentos conjugais. Percebo agora, quase aos 60 anos, que a minha penca e a minha (precoce) papada imenso prejudicaram a minha (pobre) reputação entre as (poucas) senhoras que amei. Decerto que por serem elas de boas letras, conhecedoras das teorias antropológicas de antanho... Para mal dos meus (parcos) pecados, injustiçado que sigo.

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