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Nenhures

Nenhures

03
Out21

Os 90 anos de Narana Coissoró

jpt

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Leio aqui que hoje mesmo Narana Coissoró completa 90 anos, uma bela idade, e que haverá uma homenagem em molde convivencial (haverá melhor forma?) agregando familiares, amigos, colegas e correligionários.
 
E logo lembro este seu tão interessante trabalho, publicado em 1966, que li e reli ainda em XX e no qual tanto aprendi. E que está escondido, muito pela nossa (não tanto minha) mania de considerar "datado" o que nos é passado, e nisso apoucar aquilo que, como tudo, é fruto dos quadros teóricos do seu tempo. Infelizmente neste momento disto umas dezenas de quilómetros do meu exemplar, bem que gostaria de o folhear, nisso vasculhando os (imensos) sublinhados e gizar uma rápida recensão, em forma de vénia. Pois se escrever de memória (cada vez mais romba, a minha) nada mais conseguirei do botar meras generalidades sobre o livro, e temo que mesmo essas poluíveis por leituras outras, anteriores e posteriores, sobre essas temáticas e contextos - percebi-o ao tentar encetar coisa pouca que fosse.
 
Fica então apenas a tal vénia por quem, em tão peculiar momento e tão específico contexto de dinamização dos estudos portugueses em África, se abalançou a tamanha investigação, isso das questões de sucessão (e descendência), recenseando e tratando tanta informação. Algo precioso para quem estude Moçambique, já agora.
 
Adenda: Para quem não conheça o livro deixo a transcrição de uma breve recensão feita pelo grande Richard P. Werbner:
 
"The Customary Laws of Succession in Central Africa. By NARANA COISSORÓ. [Doctoral thesis, University of London, 1962.] Lisbon: Junta de Investigag6es do Ultramar, 1966. (Estudos de Ciencias Politicas e Sociais, 78.) Pp. li, 412, bibl. 60 escudos.
 
A reference work for jurists, primarily, this is a comprehensive and highly technical handbook of judicial rulings and jural norms of succession, up to 1962, among Plateau Tonga, Bemba, Ngoni, Nyakyusa, Cewa, and Yao. A chapter is devoted to each separately (except for Cewa together with Yao), following roughly the same legal lines: general background, funeral rites, administration of the estate, property left by the deceased, intestate succession, succession to women, testate succession. Standard ethnographies, government or travellers' reports, and also fourteen unpublished cases are the sources. Finally, there is a discussion of the African Wills and Succession Ordinance (Nyasaland) and of conflicts of law. This examines questions of legal pluralism, showing where African personal law and tribal rules of construction take precedence. The author suggests that, in colonial times, an African could draw up a will, a formally valid instrument, which could still be challenged as not being "essentially valid", because it was not in accord with the testator's tribe's customary laws "governing his civil status regarding succession"'. The author adds, however, "Unfortunately, the Africans are not aware of this legal distinction and sometimes they think that the admission to probate makes the dispositions in the will unchallengeable." Readers familiar with the ethnography will also find other unfamiliar distinctions, as in his argument about the necessity for personal law to apply for the validity of a will; "Otherwise a simple written paper - "nuda cogitatio" - in the eye of law - would change the civil status of an African to that of a non-African pro hac vice." The compendium lacks an index, though the table of contents is very full and does allow cross-reference."
 
[Richard P. Werbner, Africa: Journal of the International African Institute Vol. 41, No. 2 (Apr., 1971), p. 176]

21
Set21

Arte e Religião por Antropólogos

jpt

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Um curso curto - um mês com três sessões semanais -, organizado por gente que bem conheço e muito reconheço, que vem com um olhar algo peculiar. Se eu ainda tivesse energia intelectual inscrever-me-ia... Por tudo isso aqui o recomendo, para quem se possa interessar. Ou o possa divulgar. Deixo o programa:

*****

Apresentação

O curso inquire sobre as relações entre arte, religião e sociedade a partir de uma perspectiva multidisciplinar. O seu objetivo não é o de estabelecer uma elucidação “analítica” e “teórica” do conteúdo dessas noções ou da natureza da relação entre os “domínios” ou “fenómenos” que circunscrevem. Procura-se antes compreendê-las a partir do modo como a sua articulação define formas históricas e culturais plurais de constituição dos planos de partilha intersubjetiva que estão na base do que chamamos de comunidade, povo, nação ou tradição. Para o fazer organiza-se em três módulos que focam a história da arte do ocidente; as raízes metafísicas e os percursos históricos da reflexão sobre a definição e função religiosa e secular da arte; e, por último, os rumos e cruzamentos das perspectivas da fenomenologia e da interrogação antropológica, histórica e filosófica sobre arte.

Docentes: Filipe Verde (CRIA-ISCTE), João Borges, Ricardo Santos Alexandre (CRIA-ISCTE), Guilherme Figueiredo (CRIA-ISCTE)

Público-alvo: Estudantes de ciências sociais, arquitetura e arte, público em geral

Local: Segundas, Terças e Quintas | 18h - 20h | NOVA FCSH - Campus de Campolide

Valor do curso: 140€ | 80€ (membros do CRIA e estudantes, mediante comprovativo)

Nota: Os cancelamentos de inscrição ou pedidos de devolução só poderão ser feitos até ao dia 13 de outubro. O CRIA retém uma taxa de 10% nas devoluções de inscrições.

 

PROGRAMA

 

Módulo 1 - História da Arte Ocidental

  • As primeiras ‘grandes’ civilizações: Egipto, Grécia, Roma - sistemas religiosos e arte
  • A emergência da arte Paleocristã, Bizâncio e o Renascimento Carolíngio
  • A consolidação do sistema feudal e a arte da Alta Idade Média (Românico, Gótico, Mudéjar)
  • Renascimento e Maneirismo, do humanismo à reforma protestante
  • A arte Barroca entre a Contra-Reforma e o ‘petit-genre’ popular
  • O Rococó e o colapso da sociedade aristocrática
  • Voltaire e Jacques-Louis David, as primeiras revoluções burguesas
  • Romantismo - Inglaterra, Alemanha e França
  • O drama doméstico: o caso de Ibsen
  • Decadência e revivalismo: a arte ultra-romântica da era Vitoriana
  • Realismo e expressão: o surgimento da fotografia, a obra de J.W. Turner
  • As primeiras correntes modernistas (fauvismo, cubismo, expressionismo, surrealismo)
  • O cinema como nova forma de arte (e de propaganda)
  • O papel da cultura ‘pop’ no pós-2ª Guerra Mundial
  • Os novos meios e a arte conceptual
  • O papel da cultura ‘pop’ na atualidade

Módulo 2 - Arte e Filosofia

  • Concepções de arte na Antiguidade Egípcia e Grega - techne e poiesis
  • A “Ideia” e o “Belo” em Platão, Aristóteles, Estóicos e Neoplatonistas
  • Concepções de arte na Idade Média
  • Teoria da arte no Renascimento - a naturalização do pensamento sobre arte
  • Teoria da arte no Iluminismo e no Romantismo - aparecimento da estética - Burke, Kant, Schiller
  • Teoria da arte no séc. XX - Crítica da estética - Heidegger e Dewey
  • Religião, arte e as formas do divino
  • O símbolo para além da representação: presença e participação
  • Mircea Eliade - entre a religião e a arte
  • Teofania e Hierofania - a tangibilidade do divino
  • Espaço sagrado e o centro do mundo

Módulo 3 - Arte/Imagem, Religião e Sociedade

  • A tradição das tradições: Atenas e Jerusalém em A Escola de Atenas e A Disputa do Sacramento - Rafael
  • Modernidade e desencantamento - Moby Dick, de Herman Melville
  • A arte tem, ou teve?, uma história. De Hegel a Nietzsche, Heidegger e Gadamer: a crítica da estética e a promessa da superação da metafísica da subjetividade
  • Arte/Imagem e Religião - entre Iconoclastia e Consagração
  • Arte e Ontologia - o Templo Grego, todos os Templos, o que é um Templo
  • Arte, Ritual e Sociedade - lugar, temporalidade e a formação do “nós”
  • Religiões seculares, arte e propaganda - O Triunfo da Vontade, de Leni Riefenstahl; O Couraçado Potemkin, de Sergei Eisenstein

FORMULÁRIO DE INSCRIÇÃO: (Pressionar em "Arte e Religião, Arte e Sociedade"

 

27
Jun21

Sonhámos Um País

jpt

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(Texto para o grupo de Facebook Nenhures - no qual divulgo as publicações deste blog):
 
Algumas impressões ainda a propósito do filme moçambicano "Sonhámos Um País" do Camilo de Sousa e da Isabel Noronha, que foi transmitido na passada semana pela RTP2 :
 
1 - Não vou aqui debater o filme. Pois - e apesar de eu, ao longo dos anos, ter depurado blog(s) e o meu FB dos dichotes alheios mais abrasivos - sobre a temática dos processos independentistas há sempre o risco de se cair num exasperado ambiente de "prós" vs "contras", de invectivas aos "tugas" (neo)colonos e aos "turras" comunistas. E não tenho paciência para isso, o que é razão mais do que suficiente para este meu evitamento.
 
2 - Mas alerto quem não o viu para que se trata de um belíssimo filme. Uma querida amiga - que investigou sobre a história cultural do país mas não é moçambicana e nunca ali viveu -, por mim alertada para a transmissão, escreveu-me "obrigada, chorei ao ver". 
 
Também eu me comovi e não tanto por conhecer o protagonista-realizador. Mas por no filme reencontrar - mesmo num objecto destes, um sofrido memorialismo analítico - os constrangimentos intelectuais impostos pela socialização no nacionalismo e, ainda mais, pelo impacto omnipresente do carisma da I República, em particular de Machel (Samora, como se o nomeia em Moçambique, forma óbvia de exaltante aproximação afectiva). Ilustro isso com a forma como a este se refere um dos três protagonistas do filme, um dos seviciados: repetidamente alude ao "saudoso marechal". Ou como quando Camilo de Sousa refere as instruções recebidas para documentar a situação dos campos de reeducação sendo que depois estes recrudesceram. Isto denota as contradições no poder de então mas também a ambivalência (quase sempre apagada) do próprio Machel. Mas mais interessante ainda, em particular para quem não esteja preso à "avaliação" retrospectiva do processo político - num verdadeiro "ajuste de contas", por vezes apenas revanchista mas na sua maioria devotado a reclamar legitimidade no presente - é reconhecer através do filme a força imensa que teve o moralismo, puritano mas também profundamente racista (e "tribalista", para usar o termo de então), naquela fase política mas também como molde de interiorização de uma forma particular de nacionalismo. Os quais, moralismo e racismo, se mantêm como adubo dos valores que são consagrados, no espaço político e privado.
 
E também por isso, por no filme se encontrarem estes nós górdios ideológicos que demarcam a análise do processo - mesmo num magnífico trabalho como este - que volto a recomendar a entrevista de Camilo de Sousa ao José Navarro de Andrade (a partir dos 30'30'' nesta ligação ao programa "Muito Barulho Para Nada", edição de 22 de Julho de 2020). Ambos sábios, sem oposição nem afronta por parte do entrevistador (como é tão costume na tv) mas uma verdadeira conversa, de facto sobre mundivisões. Desiludidas.
 
3. Nos comentários, no grupo "Nenhures" e em outros murais de FB, percebi que o filme nunca foi projectado ou transmitido em Moçambique. Estreado em 2020 em parte isso dever-se-á à contracção que o Covid-19 provocou. Mas talvez não só, pois presumo que haja algum evitamento local dado que é um objecto de difícil digestão interna: trata-se de uma dolorosa análise crítica "por dentro". Pois o Camilo é um "antigo combatente" e nunca "dissidiu" (para usar a velha terminologia). É então necessário procurar evitar o relativo silenciamento que este tipo de obras sempre promovem - naquele país e em tantos outros. E assim que pelo menos a RTP-África o transmita, o que seria um verdadeiro acto de "serviço público". Mas também que instituições culturais em Moçambique, nacionais ou estrangeiras, organizem a sua projecção pública, nas quais muito mais se induzem debates e memorialismos.
 
4. Sobre o período dos campos não inexistem textos. João Paulo Borges Coelho publicou "Campos de Trânsito" (em 2007) e Ungulani Ba Ka Khosa o "Entre Memórias Silenciadas" (em 2013). Seria interessante saber o impacto que estas obras realmente tiveram no contexto letrado do país. No qual este assunto dos "Campos de Reeducação", e da "Operação Produção", continua a ser mais aludida do que dissecada. E seria ainda mais interessante voltar-se a esses livros, debatê-los, o que é forma de os fazer ler, convocar a curiosidade sobre eles. E também Licínio de Azevedo fez dois filmes incidindo nesse período e na ideologia de moral pública então dominante, "A Última Prostituta" (1999) e "Virgem Margarida" (2012).
 
5. Finalmente quero chamar a atenção para uma excelente tese de doutoramento sobre esta matéria, realizada pelo investigador moçambicano Benedito Machava, "The Morality of Revolution: Urban Cleanup Campaigns, Reeducation Camps, and Citizenship in Socialist Mozambique (1974-1988)" [basta carregar no título que se pode gravar o documento completo]. É tempo desta tese sair do remanso dos esconsos acervos universitários e ser traduzida, publicada e lida. E, acima de tudo, debatida. O mesmo se aplica à tese de doutoramento de Isabel Noronha, co-autora deste filme, intitulada "Tacteando o Indizível", a qual ainda não li mas que decerto será contributo para um debate alargado (e ponderado, se possível) sobre este processo histórico, suas práticas e dimensões ideológicas.

05
Jun21

As amplas liberdades

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(AS CAUSAS MÍTICAS DA DIVERGÊNCIA ECONÓMICA PORTUGUESA - MEL, Movimento Europa e Liberdade)

Não sou economista nem historiador. E fui lendo ao longo da vida mais ou menos o típico (a moda, no duplo sentido: referente à quantidade; aludindo ao que esteve em voga) de um tipo que estudou ciências sociais. (Ainda assim li o suficiente para não ter paciência para os brutos que põem aspas sarcásticas neste "ciências sociais"). Assim apresentado avanço.
 
Nuno Palma (de quem nunca ouvira falar) é professor universitário na Grã-Bretanha. Falou numa convenção - é o primeiro interveniente do filme, durante 20 minutos - sobre, grosso modo, o regime político português ancorando a sua reflexão na história económica portuguesa. Defende, é explícito, uma postura de direita e uma posição liberal. E analisa a produção do discurso oficial sobre o passado recente, a "narrativa" histórica promovida pelas instâncias estatais, dizendo coisas consabidas (ou que o deviam ser). O que ali avança - em particular sobre a economia e educação no Estado Novo, referindo-se ao "atraso económico e político do país", que apresenta como estrutural - não é particularmente inovador (nem ele o terá procurado).
 
Eu, que li alguma coisa sobre a história do sistema colonial português, volta e meia vou ao blog resmungar contra este actual (e serôdio) discurso anti-colonial que demoniza o Estado Novo enquanto higieniza a I República, que foi veementemente colonialista. E sei, por leituras abrangentes, que se o Estado Novo não foi "desenvolvimentista", no sentido que lhe damos agora, não é nele que radica o atraso económico do país, e isso nota-se bem no delinear das políticas coloniais de XIX e XX. De facto, e fazendo-o de forma vulgar, é mais ou menos o que Palma diz, ele com mais sageza e reflexão, e com um âmbito mais alargado: temos uma "narrativa" (na Escola, na Universidade, no jornalismo de "referência") que amputa a história portuguesa de algumas das suas características estruturantes e inventa outras, para com isso moldar a la carte as sensibilidades da acção política actual - também por isso se quer agora, no seio de demagógicos "movimentos sociais", pontapear António Vieira e não Afonso Costa, ou denunciar Afonso de Albuquerque enquanto se louva Humberto Delgado, por exemplos.
 
Enfim, o relevante - para quem não saiba deste caso - é que o académico Nuno Palma nada disse que seja errado. É um intelectual e teve um contributo intelectual condigno, na sua subjectividade, numa convenção política. Logo um ex-ministro e actual nº1 dos eurodeputados socialistas veio deturpar a argumentação, tanto o explicitado como o que lhe está subjacente, acusando-o de fazer a apologia do Estado Novo, o que é uma vilania intelectual. E, bem pior, surge um outro académico, Francisco Santos Silva, do Centro de História de Além-Mar da Universidade Nova, que o denunciou à Universidade de Manchester, empregadora de Palma. A miséria moral e a incompetência deontológica deste tipo de intelectuais activistas chega a este ponto. E hoje no "Público" José Pacheco Pereira, que foi meu professor (e que professor!) segue nesse mesmo ímpio caminho. E são estes "camaradas e amigos" (para citar Pacheco Pereira quando foi à Aula Magna fundar a futura geringonça) que se reclamam paladinos das "liberdades". Pouco amplas, constata-se todos os dias...

21
Mai21

Amadeu Castilho Soares

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(Amadeu Castilho Soares em trabalho de campo na (actual) Guiné-Bissau, 1959-1960)

Aos 90 anos morreu agora Amadeu Castilho Soares, durante décadas gestor de recursos humanos, área laboral na qual foi um dos primeiros presidentes da respectiva associação profissional. Aqui evoco o seu breve período de investigador "africanista" - como então se dizia - e a sua fugaz mas impressiva experiência no governo colonial. Pois esse seu percurso denotou dinâmicas político-administrativas daquele ocaso imperial mas também algumas das suas ambivalências, as quais não deixam de apelar ao matizar de interpretações mais sistémicas dessa era.

Castilho Soares frequentou a Escola Superior Colonial - entretanto renomeada como Instituto Superior de Estudos Ultramarinos (futuro ISCSPU e actual ISCSP) -, instituição na qual logo veio a ser docente. Nesse ambiente formativo foi muito influenciado pelas concepções então reformistas de Adriano Moreira. Foi esse mestre que o integrou em investigações nas colónias, organizadas pela Junta das Missões Geográficas e de Investigações do Ultramar, numa época em que se procurou dinamizar a até então escassa investigação em temáticas antropossociológicas.

Nesse âmbito integrou a Missão de Estudo para a Atracção das Grandes Cidades e Bem-Estar Rural, com estadas de terreno durante as férias lectivas entre 1956 e 1959 em Angola e Moçambique. Nesta podia-se reconhecer a influência de concepções então emergentes, tendentes ao desenvolvimento comunitário rural - consagradas desde o início daquela década pela ONU -, e cooptadas em Portugal também para o esforço reformista do regime colonial em busca da sua legitimação internacional. A posteriori pode-se ainda notar a relação desses intuitos com a preocupação administrativa com o que então se dizia "destribalização", as transformações oriundas dos fenómenos de urbanização, assalariamento e até migrações. Mas o que agora será ainda mais interessante é detectar naquele quadro intelectual  concepções que, salvaguardadas diferenças de objectivos e métodos, ressurgiram décadas depois exactamente sob esse epónimo, o tal "desenvolvimento comunitário" ainda muito em voga neste XXI.

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É interessante para o historial da investigação portuguesa e da sua articulação com os objectivos político-administrativos que dessa longa pesquisa, congregando fundos então algo inusitados, não advieram os resultados colectivos esperados. Pois apenas resultou a tese de licenciatura de Castilho Soares, este “Política de Bem-Estar Rural em Angola”. Tal não se terá devido apenas à particular competência do autor, tornando-o excepção naquele projecto, mas indicia falta de organicidade institucional, a qual fragilizava o desenho e a realização das investigações. E não deixa de denotar que o vínculo entre as pesquisas realizadas e os mandamentos políticos que as convocavam eram, de facto, mais ténues do que interpretações posteriores vieram afirmar, acabando por ser mais um ambiente intelectual do que propriamente uma política cabal.

Foi nesse mesmo contexto que Castilho Soares integrou em 1959-1960, na condição de sociólogo e juntamente com os arquitetos Schiappa Campos e Saragga Seabra, a Missão de Estudo do Habitat Nativo da Guiné, cujo plano indicia o mesmo tipo de preocupações, uma abordagem etnográfica que baseasse o reconhecimento e valorização do modus vivendi populacional. Algo que se pode ligar com os intuitos então proclamados de gerir o povoamento, inclusive através da reorganização administrativa local e de reassentamentos rurais, que viessem a obstar aos fenómenos de "destribalização", estes perspectivados como anómicos e temidos como fonte de processos independentistas. Também neste caso os resultados da investigação não foram imediatos, em parte pela posterior realocação dos investigadores a outros serviços. Assim só em 1970 foi publicado o relatório Habitats Tradicionais da Guiné Portuguesa, abarcando um espectro bem menor do que o objectivo inicial - o que de novo permite referir a fluidez dos laços entre administração e investigação. E só muito recentemente esse precioso material fotográfico foi recuperado, através da exposição "Moranças - Habitats Tradicionais da Guiné-Bissau". (Aqui o folheto). Mas essa esparsa relação entre propósitos políticos e concepção das investigações, bem como o voluntarismo que a estas ancorava, perpassa ainda mais no interessante depoimento que Castilho Soares concedeu à historiadora Cláudia Castelo em 2010. No qual explicitou a disparidade entre os enormes objectivos iniciais e os recursos realmente disponibilizados, bem como a falta de formação metodológica da sua geração. 

Depois, com apenas 31 anos, e também por intermédio de Adriano Moreira, que viria a assumir funções ministeriais, foi nomeado para o governo de Angola, como Secretário Provincial da Educação, Saúde e Trabalho e Segurança Social. Eram, como disse, "as 3 áreas politicamente mais melindrosas quer a nível interno quer face à política internacional", exactamente no período da revogação do Estatuto do Indigenato e de alterações da Lei do Trabalho, ilegalizando a então omnipresente corveia. Nesse período desenhou o inovador projecto de desenvolvimento da Escola rural, o "Levar a Escola à Sanzala", uma verdadeira reforma que procurava alargar a alfabetização, concebida à margem da igreja católica à qual o Estado Novo havia entregue o ensino da população africana e que se veio a opor a esta iniciativa. Também neste caso agora se nota como algumas daquelas concepções foram recuperadas, décadas após as independências africanas, pois são patentes as similitudes com as metodologias actuais das "escolas comunitárias"  construídas pela população rural e sob sua relativa tutela, fornecidas de professores formados pelo Estado. 

Durante esse seu trepidante curto mandato foram criados vários liceus, escolas técnicas, de enfermagem e de serviço social. E iniciou-se o processo de estabelecimento da Universidade em Angola, o qual Castilho Soares acompanhou ainda que dele não fosse responsável. Mas este provocou acesa polémica política e mesmo a eclosão da crise entre os "integracionistas", partidários do centralismo metropolitano, e os crentes nas virtudes descentralizadoras, então emergindo no território angolano. Assim a proclamação provincial da universidade de Luanda veio a ser vetada pelo governo nacional, num processo que aceleraria a posterior abertura dos Estudos Gerais em Lourenço Marques e Luanda (1962 e 1963). Mas esse episódio foi o culminar de uma tensão entre essas correntes políticas e acabou por provocar as demissões do ministro Adriano Moreira e do governo colonial do general Deslandes.

Desse seu fulgurante biénio, e do seu afã reformista, ficaria como fundamental traço o projecto de alargamento da rede escolar, sem tutela eclesiástica. Demitido o governo de que era membro, Castilho Soares regressou a Lisboa sofrendo uma surpreendente represália estatal, bem mostrando como eram fluidas e complexas as concepções então dominantes e espúrias muitas das retóricas propaladas. A esse propósito, e com toda a pertinência, disse o professor Adelino Torres que o "Levar a Escola à Sanzala" se tratou "de um plano em grande escala concebido e corajosamente executado pelo antigo Secretário Provincial da Educação de Angola, Amadeu Castilho Soares. O plano era tão ousado que deu origem à posterior destituição pura e simples deste alto funcionário e ao seu afastamento da carreira universitária, para além de uma perseguição mesquinha de que foi vítima durante anos.

Assim afastado das áreas de investigação a que se dedicara desde a sua juventude Amadeu Castilho Soares inflectiu a sua vida profissional, seguindo uma preenchida carreira na gestão de recursos humanos. Já viúvo deixa agora filhas, netos e bisneto. Foi precedido na morte pelo seu filho, e meu saudoso amigo, João Nuno. O qual tanto recordo nestes dias de pesar.

NotaLista dos textos de Amadeu Castilho Soares

Soares, Amadeu Castilho (depoimento, 2010), IICT, 2011. 16 p. (entrevista concedida a Cláudia Castelo)
 
 
Adenda: para quem tiver interesse sobre esta época deixo - sem quaisquer pretensões de ser exaustivo - estas referências bibliográficas (basta pressionar a ligação para aceder aos documentos em formato pdf): Carla Abrantes, "Repertórios do conhecimento em disputa: trabalhadores indígenas e agricultores no colonialismo português em Angola, 1950"Cláudia Castelo, "Novos Brasis" em África: desenvolvimento e colonialismo português tardio"Fernando Tavares Pimenta, "O Estado Novo português e a reforma do Estado colonial em Angola: o comportamento político das elites brancas (1961-1962)"

29
Dez20

Rescaldo de 2020

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(Lisboa confinada; Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo)

Entre co-bloguistas, no colectivo Delito De Opinião , estamos a escolher - tal como todos anos o fazemos - o Facto Nacional e o Facto Internacional do Ano, a Figura Nacional e a Internacional do Ano, e a Frase do Ano. Quando (finalmente) entrarmos em 2021 o nosso coordenador blogal, Pedro Correia, publicará os resultados. Deixo aqui a minha votação (até para vos chamar a atenção para o resultado final): 

1. Frase Nacional do Ano: há imensas para escolher (aqui um rol delas, patéticas). Mas escolho uma de Pedro Nuno Santos, o robusto Iznogoud deste governo: "Em 2025, a TAP já estará em condições de devolver algum do dinheiro ao Estado português".

Escolho-a porque as outras são sobre isto que agora decorre. E esta é para o futuro, escrutinável daqui a uns anos. É também dedicada aos interseccionalistas, ou lá como agora se chamam os socratistas. Não tiveram eles a desvergonha abjecta de até com o Berardo gozarem no ano passado? Daqui a cinco anos continuarão na cagança aldrabona da sua superioridade moral e intelectual, o "activismo" como peroram. Será então de lhes perguntar, aos funcionários públicos e aos subsidiados/avençados, aos teclados de aluguer e aos imbecis (in)úteis, se se lembrarão disto. Com toda a certeza que não.

2. Facto Nacional do Ano: O assassinato de Ihor Homeniuk no Aeroporto de Lisboa.

Porque demonstra o estado do Estado. Porque o mísero ministro Cabrita ainda o é. Porque demonstra o miserando estado do "activismo". Porque nos demonstra. 

[Sobre o assunto botei em Junho e em Dezembro]

3. Facto Internacional do Ano: COVID-19. Como é óbvio.

Já agora deixo ligação a um texto mais longo que escrevi sobre isto. Não colheu grande interesse (leitores). Mas foi a única coisa que escrevi neste ano, por isso aqui venho agitar a tralha: “P’ra melhor está bem, está bem, p’ra pior já basta assim”: o capitão MacWhirr e o Covid-19.

4. Figura Internacional do Ano: Li Wenliang
 
Como vénia ao seu percurso, tão breve. De coragem.

Mas também para lembrar os comunistas (aka interseccionalistas do "sul"), que nos odeiam tanto, a nós porque europeus, portugueses, brancos, e democratas - ainda que tantos deles também europeus, também portugueses (aquilo da "dupla"), também brancos, mas nunca democratas, e ainda que também aqui aboletados - que sufragavam a ideia da total irresponsabilidade da "Comunista" China nisto tudo. E que nós - brancos, europeus, portugueses, seus anfitritões/compatriotas e, pior do que tudo, democratas - deveríamos pagar os custos do Covid-19 em África porque nossa culpa.

Acho que nunca desprezei ninguém como esta execrável malta, naquele Março-Abril de 2020.
 

5. Figura Nacional do Ano: Frederico Varandas.

Porque apesar de todas as contingências, mostrou o valor do trabalho, do esforço e da planificação num país dominado pelos lobbies políticos e empresariais, numa área de actividade económica particularmente vilipendiada pelo recurso a actos ilegais por parte dos poderes vigentes.

***

Junto quatro outras escolhas, que me marcaram o 2020. 

 

6. Música (Banda Sonora) do Ano: porque este concerto de Lou Reed [Capitol Theatre, 25 de Setembro de 1984] e alguns outros dele tocaram incessantemente durante as noites de Março, Abril e Maio, lá no bucólico Nenhures.

7. Livro do Ano (ensaio)Les Nouvelles Routes de la Soie, de Peter Frankopan. Enfim, foi releitura (para tirar notas, essa inutilidade viciante) e não foi o melhor. Mas completamente o mais útil. Enquanto os basbaques discutiam Trump e Brexit, já agora:

8. Livro do Ano (ficção): Ilações Sobre um Sabre, de Claudio Magris. Um pequeno-Enorme livro, até já antigo. Daqueles que um tipo ao acabar logo insulta o autor - tanta a raiva invejosa diante de tamanho talento. E, ao mesmo tempo, regurgita de júbilo pela sorte de ter lido.

9. Canção do Ano: "Waves of Fear", de Lou Reed.

20
Dez20

Rescaldo de 2020

jpt
2020 vai terminar e é altura de rescaldos. Gerais e pessoais, neste Covidoceno. Para mim foi um ano duro. Perdi a minha mãe, tendo-a visto definhar no isolamento obrigatório. O foco na saúde geral - e o crescente isolamento - trouxe a morte ainda mais para o centro. Assim mais atentei no fim de tanta gente significante, daquela que me faz a paisagem - o último talvez o Le Carré presente desde a minha juventude até ao Magnus Espião Perfeito. E a Branca, a cadela de amigo extremo que me adoptara e que tanto me acompanhou neste(s) ano(s) também morreu. Coisa bem diferente, perdi o meu amor, o que me trouxe uma antevisão de celibato perpétuo, algo mais estranho do que problemático. E, neste ano difícil, percebo que não sei de vários amigos, relações esgarçadas com o tempo. Fica o carinho pelas memórias mas nada mais. Tudo isto algo me desertificou.
 
Mas foi também um ano bom: nenhuma realização, a consciência de muito menos objectivos, anseios, e das escassíssimas possibilidades que restam. Alijar o ego, perder as angústias das responsabilidades para comigo-próprio. Amadurecer. É bom envelhecer! E ainda uma coisa magnífica em 2020: não passei um dia, uma hora que fosse, com gente de que não gostasse. Sempre rodeado daqueles que amo. Ou, vá lá, gosto muito. Pode-se pedir mais na vida? Não creio.
 
Para temperar, o piripiri da vida, restaram-me as irritações com a "coisa pública". Também elas escassas, no fundo meras simulações de vida: com os mandarins, no início do covidoceno (o MNE Silva e o presidente Sousa a dizerem que não se podia fechar fronteiras, aldrabões puros; a tonta da agricultura, a negacionista da saúde); os mandarins da academia - o antropólogo, meu antigo professor, a resumir o covid-19 a imprecações contra o brexit, vs Boris, maldizendo Tatcher, e a dizer que Portugal nunca esteve economicamente tão bem: uma indignidade intelectual [espero que leias isto e percebas o meu desprezo, visceral ...]; e a antropóloga (luso?)moçambicana a salvaguardar a China e a dizer que nós-europeus temos que pagar os custos do Covid-19 em África. Verme ...
 
E, por último, os maluquinhos da direita liberal, durante meses a clamarem todos os dias contra as medidas de protecção, em nome da economia, qu'isto só mata velhos e etc. E, espantoso, a louvarem os suecos sociais-democratas. O rei da Suécia falou, entretanto, a mostrar o quão parvos são estes malucos.
 
A ver se em 2021 continuo no bom caminho de fenecer. E deixo de ligar aos maluquinhos. E aos antropólogos comunistas/comunitaristas. A bem do meu belo envelhecimento.

01
Dez20

Miguel de Vasconcellos

jpt
 

Miguel_de_Vasconcellos_(Diario_Illustrado,_1890).png

Cumprem-se hoje 380 anos do assassinato do primeiro-ministro (e antigo ministro das Finanças) Miguel de Vasconcellos e Brito. Afincado europeísta, foi vítima de uma revolta de cariz soberanista (nacionalista, em linguagem actual) - propagandeando uma conservadora ideologia lusófona -, catapultada por uma profunda crise económica que impusera uma política austeritária e concomitante carga fiscal. 

Passaram quase quatro séculos de poderes políticos, de poderes académicos. E não há, que eu saiba, um mero monumento que o recorde com a dignidade devida. Procuro e nem uma biografia, um estudo compreensivo ... Nada, apenas a continuidade de uma memória vilipendiada, a do "defenestrado". E a dos "gloriosos capitães conjurados".

Enfim, é o que é, somos o que somos ... Fiquemos com os feriados, que é o que se aproveita.
 

04
Out20

Racismo cultural (2): o afã de encontrar racistas ...

jpt

conto azul.jpg

Há algum tempo deixei este postal sobre Racismo Cultural. Com uma citação ilustrativa do que muitos poderão considerar tal coisa: "Para aqueles homens e aquelas mulheres, não existia doença natural e talvez nenhuma coisa o fosse. O seu universo permanecera no caos e, todos os acontecimentos, mesmo os mais simples, eram para eles mistérios, mas uns eram mais frequentes do que outros, aos quais o uso os acostumava. As fases da Lua, a produção do fogo no seu fogão de cozinha não eram menos inconcebíveis, para eles, do que a abertura de cavernas em pulmões doentes; apenas eram naturais, isto é justas, a seus olhos, as mortes de velhos. E como eram, no entanto, seres humanos, condenados, pelo instinto da sua espécie, à procura e talvez à invenção das causas, atribuíam o definhamento de Amande àquela que era para eles a mais simples, a mais humana, à força cujos efeitos tinham muitas vezes, nas suas vidas, verificado: a inveja, os ciúmes de uma mulher por uma mulher." Foi um postal capcioso, e por isso propositadamente não identifiquei nem texto nem autor. O tempo foi passando e ninguém resmungou comigo - o que era o meu objectivo. (E na plataforma Facebook, na qual coloco ligações para os postais do blog, até tive algumas concordâncias).

Trata-se de um trecho do conto "Malefício", incluído no livro "Conto Azul" de Marguerite Yourcenar, o qual inclui três contos de juventude da escritora - um, "A Primeira Noite", tem o particular encanto de ser uma reescrita do único texto ficcional do seu pai. Este "Malefício" foi originalmente publicado em 1933, quando a escritora tinha 30 anos. E o interessante é que aborda um contexto popular italiano. É certo que os mais radicais críticos da actualidade podem clamar que a francesa (e algo belga, pois nascida em Bruxelas e filha de mãe belga, ainda que logo dela orfã) teria um olhar desvalorizador, "racializador" diz-se agora, dos europeus austrais. Poderão também congregar-se na invectiva ao "orientalismo" apoucador da escrita quando abordou - e tanto o fez - a gente do "Mediterrâneo". E que tudo isso constituiria o tal "racismo cultural", desvalorizador de quaisquer outros, mesmo que de tezes similares. Mas tudo isso serão (seriam) construções forçadas. 

Pois o que o pequeno conto narra é uma visão das crenças nas causalidades da doença, tão recorrentes elas são. E as formas como os habituados à medicina moderna (a "biomedicina" na linguagem dos anti-capitalistas new age) encaram as metafísicas construções dessas causalidades da doença e morte. Mais ainda, e mesmo que Yourcenar escrevesse no início da década de 1930 quando os estudos antropológicos não tinham o manancial de reflexão que vieram a ter, e não sendo ela antropóloga, pouco poderá chocar esta sua visão. Certo, não será muito curial aprovar uma formulação como "O seu universo permanecera no caos ...", pois não é disso que se trata. Pelo contrário, a crença na omnipresença do "mau-olhado" letal é um postulado de ordem antropocentrada, remetendo as causas dos incidentes para as práticas humanas. Mas de resto que há a afrontar nesta plácida descrição de uma outra mundivisão? Tão presente nas nossas sociedades, ainda hoje, apesar de séculos de igrejas, católica e protestantes, a tentarem extirpar a crença na feitiçaria/magia, e de alguns outros de medicina moderna. 

Com esta minha citação procurei reforçar duas ideias: a primeira, menos relevante, é o afã das pessoas em gritar "racista" (cultural ou físico), tamanho que até num texto destes o querem reconhecer. Disparam sobre tudo. O que mexe e o que está imóvel. Até sobre a grande Yourcenar ...

Mas a segunda é ainda  mais relevante, denotativa da patetice semi-intelectual que subjaz esta moda que "racistiza" todos os que assomam à soleira da porta ... É que uma coisa é a constatação - construída pelo pensamento "ocidental", em particular pela antropologia - que todos os povos são igualmente racionais, que todas as suas mundivisões (as "culturas") são lógicas e competentes. Outra coisa é esta hipocrisia dos mercenários do "bom-causismo", a da condenação do "racismo cultural" atribuído aos que acreditam que há melhores, pois mais competentes e mais justas, mundivisões ("culturas") do que outras.

Quando essa tralha de gente sai à rua dizendo-nos "racistas" porque acreditamos que há "culturas" mais "civilizadas" do que outras é isso que estão a aldrabar. Pois, de facto, há mundivisões mais justas e mais competentes do que outras. E quando consideramos isso não somos racistas, culturais ou biológicos. Quando uma mulher tem tuberculose não julgamos que foi a vizinha ciumenta que a enfeitiçou - como as personagens do "Malefício" - e procuramos uma cura para os efeitos do bacilo de Koch. Entretanto, alguns de nós, face às perspectivas que nos dominam, usamos instrumentos consagrados, tipo a "dúvida metódica" ou similares. Em outras sociedades isso também acontece. Noutras não. E sabemos destas distinções. Por isso, uns mais conhecedores outros mais espontâneos, hierarquizamos de formas mais ou menos fluídas as "culturas" existentes. Muitos chamam "evolução" à melhoria tendencial das culturas. Outros, mais letrados, evitam julgá-la unilinear. 

O "caos" que Yourcenar assumia lá nos pobres italianos naquela narrativa não existia. O "caos" existe na ladainnha, de facto hipócrita, deste falsário hiper-relativismo. Que afirma "racismo (cultural)" onde existem meras opções, de concepções e noções feitas, do devir social. Que os seus locutores também partilham.

 

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