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Nenhures

Nenhures

Vozes Negras

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Literais "vozes negras" é o must deste pré-Dia de Reis. Ou seja, tudo como antes, "ano velho" como sempre!

Resmungo-me, folheio "Eu, o Povo" de um poeta chamado Mutimati Barnabé João. Que estava completamente enganado, como tanto se mostra agora.
 
Volto ao computador e no youtube sai-me em rifa esta branquelas, loura ainda por cima, num de facto chato easy listening (só ouço coisas destas quando guio, na Smooth, onde não há anúncios nem conversas). Algo chato mas também malvado, a roubar visibilidade a quem tem o literal "direito". E fujo desta racista por desconstruir.

Thelma e Louise

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Ontem "Thelma e Louise" no AMC. Enésima vez. Sempre como se a primeira. Susan Sarandon é mesmo a mulher mais bela de todos estes arredores.

[Não se justifica estar a escrever sobre tão visto filme. Mas, para quem nunca o tenha feito (?, haverá?) ou não se lembre (é sempre possível) aqui está um texto de blog que lhe foi dedicado].

Ainda a "linguagem inclusiva" na tropa

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Gente do ministério da Defesa quer modificar as falas militares, fazendo vigorar as regras do "bons costumes" adequadas aos salões académicos e aos jogos florais. Ao que consta aqueles funcionários públicos, e presumíveis consultores externos, não querem que a vida militar, nos seus processos de formação e no seu exercício corrente, contenha "linguagem depreciativa" - consta que expressões como "deixa-te de mariquices", "pareces uma menina" e "porta-te como homem" passariam a ser desajustadas à prática militar, quais lesa-república. E estou certo que o documento - Diretiva (sic) sobre a Utilização de Linguagem Não Discriminatória -  elencaria outras, e mais peludas, formulações a vetar, de molde a que a defesa da Pátria (Amada) não fosse conspurcada e até, porventura, traída.

Muito apropriadamente o ministro da Defesa desconsiderou a pertinência dessa proposta. Mas com toda a certeza que esta gente da "linguagem neutra" voltará ao assunto, neste sector ou noutro qualquer, nesta legislatura ou na próxima, neste folclorismo que lhes é essência política. Também por isso deixo o que logo me ocorreu ao ler a notícia sobre este documento ...

A tal directiva bem-falante lembrou-me este filme G.I. Jane, realizado pelo grande artífice Ridley Scott e protagonizado pela então célebre Demi Moore, uma actriz bem apessoada que hoje será mais recordada por ter sido casada com Bruce Willis, actor da engraçada série Modelo e Detective (Moonlighting) e que depois seguiu vasta e lucrativa carreira cinematográfica, especializado como "homem duro".

G.I. Jane é uma peça da prolixa produção de Hollywood de filmes destinados a acalentar o patriotismo militarista americano, coisa de império assente numa economia de guerra - é verdade, o que se há-de dizer? Uma produção bem necessária num país que, após a guerra do Vietname, optou pelo recrutamento voluntário das suas tropas, assim a exigir o inculcar do anseio guerreiro - talvez menos necessário seja estarmos nós, literalmente todos os dias, a ver filmes deste tipo, moldando mancebos. De qualquer modo o tal G.I. Jane é bem mauzito, mesmo se considerado neste eixo de produção fílmica, tralha mesmo. Mas tem o interesse de época, isto de agora se moldarem ... mancebas. 

A história é simples, básica mesmo. A personagem de Demi Moore candidata-se às tropas especiais - os sempre elogiados Navy Seals. Uma rapariga em tais andanças é facto visto como impossível pelo oficialato, másculo e machista, que se opõe com vigor. Mas é apoiada nos seus propósitos por uma sabida política influente - papel desempenhado pela lendária Anne Bancroft. E por pressão desta a sua candidatura é aceite. Para defesa desse reduto masculino todos se conluem para impedir o sucesso da militar na sua extenuante recruta, com sevícias psicológicas e extrema pressão física. 

Mas a manceba é rija, dura de roer, e tudo consegue cumprir, nisso não só indo completar a formação como - e é a fundamental mensagem do filme - acabando com o monopólio masculino naquele escol de combate. Nesse seu arreganho vai enfrentando os destratamentos másculos. E o ponto culminante, nisso simbolizando a sua cooptação pelos seus camaradas, é esta cena, a sua irada reacção: "Faz-me um broche!", responde a mais uma afronta, insultando através da sempre desvalorizada, ainda que tão requerida, felação.

Claro que as leituras disto poderão ser as sempre queixosas, afirmando que nesta imprecação "Suck my dick" se reproduz o linguajar masculino, machista, demonstrando que o sucesso e a aceitação da candidata lhe exigiu a assumpção de uma postura masculina, pois propalando um (nela) inexistente falo, apagando a sua identidade feminina.

Ou então poder-se-á ter uma visão algo mais esclarecida. Sob a qual a linguagem não tem um significado facial. E que se insultos e imprecações são dimensões presentes na vida social têm também significações contextuais. Ou seja, que este "Suck my dick!" / "Faz-me um broche!" ganha múltiplos sentidos consoante ..., e que não implica nenhuma translação identitária da locutora, sendo, pelo contrário,  um corolário dessa identidade própria  ... Pois, como um dia um belga iluminou, "ceci n'est pas une pipe". Expressão, como saberá qualquer francófono, muito adequada a esta questão ... Aliás, que a resolve.

Emmanuelle

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Anteontem fiz um zapping para acompanhar o cigarro antes de me deitar. E dei com este "Emmanuelle" a começar na CMTV. Nunca o vira e não pude resistir. Assim, nestes meus 56 anos estreei-me a ver o mítico filme. E logo nesta mesma sala, casa onde cresci, assim a ainda mais me lembrar quando há 45 anos meus pais e seus amigos debatiam o filme - ao qual agregavam o então célebre "La Grande Bouffe", coisa diferente é certo, mas mesclável nos debates naqueles tempos pós-censura.

Enfim. Só para dizer que ainda bem que fiquei a ver, até às 4 da manhã!!! É que este "Emmanuelle" é (e decerto que já o era na época) muito mau. Mesmo muito mau, e sob todos os pontos por que se lhe queira pegar. Pior, bastante pior, do que eu imaginava.

É quase inacreditável o impacto que teve, que tenha havido tempos e gentes tão cândidos (e não falo de sexualidade) na geração anterior. É mesmo quase tão inacreditável como haja hoje quem pense da mesma maneira, na adoração do "espantar o burguesote" ou de uma qualquer "pureza moral". Mas, de facto, nesta terra de grupelhos e abespinhados não faltam motivos para que os nossos filhos se venham a rir de nós, como sorri eu a estas minha memórias. Daqui a uns anitos, quando virem o mundo.

Adenda (intimista): reajo ao "Emmanuelle" e constato (mais uma vez) que estou igualzinho ao meu pai António. Mas ele, seu mérito, logo naquela altura.

Ordem Moral

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Obtido o visto de entrada, o comboio levou-me além-fronteiras, até ao planalto de Saldanha, que não atingia desde o advento do Covidoceno. Cotovelo amigo acolheu-me e ombreou-me no Nimas a ver em plena manhã o "Ordem Moral", um belo filme de Mário Barroso. Depois cruzámos a 5 de Outubro, zona de serviços em teletrabalho, com escassas máscaras ambulantes por ali vagueando. Trocámos meia dúzia de novidades, mortos e desgraças, da terra índica que nos acalenta. Acabamos o mata-saudades em tasca operária já no morro dos Olivais, dados à meia dose e imperial. O companheiro avança à sua vida, eu agito o chiripiti, como se esconjurando os maus espíritos. Faltam acácias, rubras. Mas não se está mal ...

O Amor

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Lisa (Grace Kelly) é a dócil (e por isso perigosa) princesa de New York que quer domar Jeff (James Stewart), um caminhando-para-velho Lancelot, ambivalente pois renitente. Súbito, cúmplice, Lisa participa numa missão perigosa, indo a casa do vendedor Thorwald (Raymond Burr) provocar-lhe reacção denunciadora, momento de frisson para todos. Quando, afinal sã e salva, ofegante da emoção, Lisa regressa ao apartamento Jeff olha-a assim.

Há mais de vinte anos que esta imagem me persegue. Pois este nada-mais-que-sopro do "Rear Window" é a maior expressão do amor da história do cinema. Um prodígio de representação. Talvez Hitchcock. Mas creio que acima de tudo Jimmy Stewart.

(no ma-schamba em 2006)

A Tragédia de Macbeth

Why should you read "Macbeth"? - Brendan Pelsue (TEDEd); Animação de Silvia Petrov.

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Para quê reler Macbeth aos cinquenta e tal anos? Talvez para nunca esquecer a dúvida sobre a virtude do poder, aquilo que diz Malcolm a Macduff, antes de partir à reconquista do reino de que era legítimo herdeiro, e que fora usurpado por Macbeth: 

"... penso que a nossa terra se afunda debaixo do jugo. Chora e sangra e, em cada novo dia que passa, junta-se mais uma ferida às suas chagas. ( ...) Mas, apesar de tudo isso, quando esmagar a cabeça do Tirano, ou a erguer na ponta da espada, terá a minha pobre Pátria ainda mais vícios do que tinha antes, mais sofrimentos e misérias do que nunca sob o reino daquele que lhe suceder. (...) É de mim próprio que falo, de mim em que conheço tantos vícios que, quando libertos, o negro Macbeth parecerá tão puro como a neve, e o pobre Estado o tomará como cordeiro, se o comparar com as minhas infinitas malfeitorias. (...) Sei que ele é sanguinário, libidinoso, avarento, falso, desonesto, violento, mau, pejado de todos os pecados que se podem nomear. Mas não tem fundo a minha libertinagem (...) É melhor Macbeth do que um tal Rei". (Tradução de João Palma-Ferreira, edição Livros do Brasil 171-173).

(Macbeth de Orson Welles) - é ver já, antes que seja bloqueado

 

"William Shakespeare and the Roots of Western Civilization" - Paul Cantor

 

Paul Cantor on Shakespeare and Politics (I, II): Conversations with Bill Kristol

Livro em inglês ( edição colocada no sítio The Complete Works of William Shakespeare);

Livro em edição bilingue inglês-português (do Brasil), com tradução de Rafael Raffaelli.

As minhas coisas preferidas

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Sobre isto de rever "criticamente" as obras: 

Há algum tempo, num jantar já lisboeta, uma querida amiga, daquelas "dos tempos", perguntou-me, cruel indiscreta: "Zezé, já foste feliz?", teria eu já cumprido a nossa utopia? Decerto que terei chocalhado as pedras do final famous, engolido em seco, mas respondi franco, que sim, claro, que o fui naquela era ali à Avenida do Zimbabwe quando todos os dias diante da tv, e devido ao La Feria, mestre de um fantástica produção teatral, ouvia esta canção, e tantas outras, mas mais esta pois a minha preferida de sempre (sim, também Coltrane ...), nisso ombreando-me com a afinal única razão de nisto continuar, e ela ali sempre esfuziante
 
 (My favorite things, The Sound of Music)
 
Depois disso?, insistiu a então bruxa, malévola pois sabendo que pagaria a conta. Depois?, enfim, ficou o Amber Leaf e o Queen Margot para evitar a mitra, que mais haverá, disparei ?
 
Ou seja, deveremos nós dissecar o encanto a que acedemos? Com toda a certeza que não ...

E Tudo o Vento Levou: expurgar o cinema?

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1939 foi um ano lendário no cinema americano: O Feiticeiro de Oz; Mr. Smith Goes to Washington (com o grande Jimmy Stewart a ser magnífico Jimmy Stewart); Wuthering Heights (com Merle Oberon, Laurence Olivier, David Niven); Ratos e Homens adaptando Steinbeck, autor que logo no a seguir daria azo ao grande "As Vinhas da Ira"; uma extraordinária Bette Davis em "Dark Victory", um mergulho na doença bem raro no cinema da época; o épico E Tudo o Vento Levou (que é, talvez, o que mais envelheceu de todos estes, um bocado xaropada, convenhamos). E ... Stagecoach, quando o western passou a ser western, John Ford assumiu que "my name is John Ford and I make westerns" e John Wayne nasceu.
 
Stagecoach é uma obra-prima. E nela surgem uma marionetas ululantes "vestidos à indio". Todos aqueles que agoram berram o racismo do "E tudo o vento levou" nem se lembram deste aspecto, deste e de tantos outros filmes utilizando estereótipos (positivos, neutrais, negativos), pois, de facto, a única coisa de que conseguem falar é da cena Brancos/Negros, como se assim dos únicos pólos do bem e do mal. Se querem discutir um filme (o da "construção da nação" americana) não têm razão, são meros panfletários, marionetas ululantes vestidos à intelectual.
 
Pois discutem-no como? Perdigotando as malvadas gotículas "racistas", "colonos", "brancos"? O que os mariolas da empresa HBO e os patetas dos concordantes querem é estabelecer um filtro protector, para que os espectadores não sejam "contagiados", como se a paixão de Rhett e Scarlet germine uma prole de KKK. É uma infantilização dos espectadores. E uma satisfação para alguns deles, estes radicais, que vivem para um espúrio revanchismo ou para uma onanística auto-punição. Porque neste contexto de gritaria uma "contextualização" não será mais do que isso - ou, pelo menos, os "filtristas" não pedirão menos que isso, do que a condenação do que vêm como "moral" do filme.
 
Nisto há muita gente que protesta com a anunciada "contextualização", como se fosse lesa-majestade. Mas estão enganados. Quando vamos a museus temos lojas. Há quem compre penduricalhos, canecas ou camisolas. Mas também há livros, contextualizando artistas e obras. E folhas de sala. E quando lemos livros, especialmente se obras não contemporâneas, muitas vezes há .... "prefácios", contextualizando obra e autor. Às vezes, e julgo mais adequado, até são "posfácios". E no mercado as edições são muitas vezes (des)valorizadas consoante a tradução e a qualidade do texto enquadrador, o tal pre/posfácio. Ou seja, um enquadramento dos filmes não é uma catástrofe lesa-cultura. É algo a que nós estamos habituados noutras expressões discursivas/artísticas. Como tal, adendas de visualização voluntária serão bem-vindas.
 
Mas não se feitas da moralismos viciosos, de "filismos" que não sejam os da cinefilia. Por exemplo, não de quem venha gritar o racismo de Stagecoach e de John Ford. Mas de alguém que perceba que no filme a diligência é um microcosmos do universo Wasp. E que Ford abordou o "west" (os EUA) de várias maneiras. E que quando quis falar das oposições raciais o fez de maneira nada racista e bem problematizadora, como em The Searchers.
 
Não dá para ser cândido nisto pois o que agora os movimentos obscurantistas querem é moralizar (e censurar) as obras do passado. Exemplo máximo é a perseguição a "Tintin", de Hergé, como obra racista. Uma boçalidade abjecta. E acredito que haverá alguém que passe por aqui que logo começará a esbracejar com o "Tintin no Congo". O que bem mostra como estes discursos panfletários obscurecem - e tantos deles feitos por académicos que são pagos para o contrário.
 
Então, o que fazer? Não comprar as edições com maus "prefácios". Não as ver. Não "clicar" nelas. Exactamente como fazemos com os livros - e às vezes enganamo-nos? Passamos à frente, divulgamos no "tripadvisor" que determinada edição é uma porcaria (por exemplo, um livrito da Taschen, 5 euros, sobre Michelangelo passa páginas e páginas a afirmar a homossexualidade do pintor,  não vale a pena lê-lo). E temos as redes sociais para trocar informações sobre isso - sem gritarias, sem guerras. E, acima de tudo, sem paciência para os demagogos. E para os cândidos.

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