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Nenhures

Nenhures

14
Set21

Notting Hill

jpt

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Eu sei que nisto do jpt blogal acarinho a imagem de um gajo irado com prosápias de intelectual. Mas tenho que "sair do armário", "assumir": o Notting Hill é o meu filme preferido, tê-lo-ei visto cerca de 40 vezes. Mais as inúmeras vezes naquilo do fast forward até à cena dela (vestida de azul) dizer-lhe (a ele, vestido de rosa) "isso da fama não é verdadeiramente real", "sou só uma miúda a pedir para ser amada". E, ainda mais, ao cume de tudo na vida, a cena da resposta final de "Anna Scott", o arquétipo do amor no sorriso do "indefinitely".

Sou, por isso, gozado pela minha família ("ó pai, outra vez não", que me persegue há mais de uma década). Mas agora ao ler que a história tem um fundamento verídico ainda mais me comovo. Afinal é mesmo possível....!

27
Jun21

Sonhámos Um País

jpt

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(Texto para o grupo de Facebook Nenhures - no qual divulgo as publicações deste blog):
 
Algumas impressões ainda a propósito do filme moçambicano "Sonhámos Um País" do Camilo de Sousa e da Isabel Noronha, que foi transmitido na passada semana pela RTP2 :
 
1 - Não vou aqui debater o filme. Pois - e apesar de eu, ao longo dos anos, ter depurado blog(s) e o meu FB dos dichotes alheios mais abrasivos - sobre a temática dos processos independentistas há sempre o risco de se cair num exasperado ambiente de "prós" vs "contras", de invectivas aos "tugas" (neo)colonos e aos "turras" comunistas. E não tenho paciência para isso, o que é razão mais do que suficiente para este meu evitamento.
 
2 - Mas alerto quem não o viu para que se trata de um belíssimo filme. Uma querida amiga - que investigou sobre a história cultural do país mas não é moçambicana e nunca ali viveu -, por mim alertada para a transmissão, escreveu-me "obrigada, chorei ao ver". 
 
Também eu me comovi e não tanto por conhecer o protagonista-realizador. Mas por no filme reencontrar - mesmo num objecto destes, um sofrido memorialismo analítico - os constrangimentos intelectuais impostos pela socialização no nacionalismo e, ainda mais, pelo impacto omnipresente do carisma da I República, em particular de Machel (Samora, como se o nomeia em Moçambique, forma óbvia de exaltante aproximação afectiva). Ilustro isso com a forma como a este se refere um dos três protagonistas do filme, um dos seviciados: repetidamente alude ao "saudoso marechal". Ou como quando Camilo de Sousa refere as instruções recebidas para documentar a situação dos campos de reeducação sendo que depois estes recrudesceram. Isto denota as contradições no poder de então mas também a ambivalência (quase sempre apagada) do próprio Machel. Mas mais interessante ainda, em particular para quem não esteja preso à "avaliação" retrospectiva do processo político - num verdadeiro "ajuste de contas", por vezes apenas revanchista mas na sua maioria devotado a reclamar legitimidade no presente - é reconhecer através do filme a força imensa que teve o moralismo, puritano mas também profundamente racista (e "tribalista", para usar o termo de então), naquela fase política mas também como molde de interiorização de uma forma particular de nacionalismo. Os quais, moralismo e racismo, se mantêm como adubo dos valores que são consagrados, no espaço político e privado.
 
E também por isso, por no filme se encontrarem estes nós górdios ideológicos que demarcam a análise do processo - mesmo num magnífico trabalho como este - que volto a recomendar a entrevista de Camilo de Sousa ao José Navarro de Andrade (a partir dos 30'30'' nesta ligação ao programa "Muito Barulho Para Nada", edição de 22 de Julho de 2020). Ambos sábios, sem oposição nem afronta por parte do entrevistador (como é tão costume na tv) mas uma verdadeira conversa, de facto sobre mundivisões. Desiludidas.
 
3. Nos comentários, no grupo "Nenhures" e em outros murais de FB, percebi que o filme nunca foi projectado ou transmitido em Moçambique. Estreado em 2020 em parte isso dever-se-á à contracção que o Covid-19 provocou. Mas talvez não só, pois presumo que haja algum evitamento local dado que é um objecto de difícil digestão interna: trata-se de uma dolorosa análise crítica "por dentro". Pois o Camilo é um "antigo combatente" e nunca "dissidiu" (para usar a velha terminologia). É então necessário procurar evitar o relativo silenciamento que este tipo de obras sempre promovem - naquele país e em tantos outros. E assim que pelo menos a RTP-África o transmita, o que seria um verdadeiro acto de "serviço público". Mas também que instituições culturais em Moçambique, nacionais ou estrangeiras, organizem a sua projecção pública, nas quais muito mais se induzem debates e memorialismos.
 
4. Sobre o período dos campos não inexistem textos. João Paulo Borges Coelho publicou "Campos de Trânsito" (em 2007) e Ungulani Ba Ka Khosa o "Entre Memórias Silenciadas" (em 2013). Seria interessante saber o impacto que estas obras realmente tiveram no contexto letrado do país. No qual este assunto dos "Campos de Reeducação", e da "Operação Produção", continua a ser mais aludida do que dissecada. E seria ainda mais interessante voltar-se a esses livros, debatê-los, o que é forma de os fazer ler, convocar a curiosidade sobre eles. E também Licínio de Azevedo fez dois filmes incidindo nesse período e na ideologia de moral pública então dominante, "A Última Prostituta" (1999) e "Virgem Margarida" (2012).
 
5. Finalmente quero chamar a atenção para uma excelente tese de doutoramento sobre esta matéria, realizada pelo investigador moçambicano Benedito Machava, "The Morality of Revolution: Urban Cleanup Campaigns, Reeducation Camps, and Citizenship in Socialist Mozambique (1974-1988)" [basta carregar no título que se pode gravar o documento completo]. É tempo desta tese sair do remanso dos esconsos acervos universitários e ser traduzida, publicada e lida. E, acima de tudo, debatida. O mesmo se aplica à tese de doutoramento de Isabel Noronha, co-autora deste filme, intitulada "Tacteando o Indizível", a qual ainda não li mas que decerto será contributo para um debate alargado (e ponderado, se possível) sobre este processo histórico, suas práticas e dimensões ideológicas.

04
Jan21

Vozes Negras

jpt

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Literais "vozes negras" é o must deste pré-Dia de Reis. Ou seja, tudo como antes, "ano velho" como sempre!

Resmungo-me, folheio "Eu, o Povo" de um poeta chamado Mutimati Barnabé João. Que estava completamente enganado, como tanto se mostra agora.
 
Volto ao computador e no youtube sai-me em rifa esta branquelas, loura ainda por cima, num de facto chato easy listening (só ouço coisas destas quando guio, na Smooth, onde não há anúncios nem conversas). Algo chato mas também malvado, a roubar visibilidade a quem tem o literal "direito". E fujo desta racista por desconstruir.

10
Out20

Thelma e Louise

jpt

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Ontem "Thelma e Louise" no AMC. Enésima vez. Sempre como se a primeira. Susan Sarandon é mesmo a mulher mais bela de todos estes arredores.

[Não se justifica estar a escrever sobre tão visto filme. Mas, para quem nunca o tenha feito (?, haverá?) ou não se lembre (é sempre possível) aqui está um texto de blog que lhe foi dedicado].

05
Out20

Ainda a "linguagem inclusiva" na tropa

jpt

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Gente do ministério da Defesa quer modificar as falas militares, fazendo vigorar as regras do "bons costumes" adequadas aos salões académicos e aos jogos florais. Ao que consta aqueles funcionários públicos, e presumíveis consultores externos, não querem que a vida militar, nos seus processos de formação e no seu exercício corrente, contenha "linguagem depreciativa" - consta que expressões como "deixa-te de mariquices", "pareces uma menina" e "porta-te como homem" passariam a ser desajustadas à prática militar, quais lesa-república. E estou certo que o documento - Diretiva (sic) sobre a Utilização de Linguagem Não Discriminatória -  elencaria outras, e mais peludas, formulações a vetar, de molde a que a defesa da Pátria (Amada) não fosse conspurcada e até, porventura, traída.

Muito apropriadamente o ministro da Defesa desconsiderou a pertinência dessa proposta. Mas com toda a certeza que esta gente da "linguagem neutra" voltará ao assunto, neste sector ou noutro qualquer, nesta legislatura ou na próxima, neste folclorismo que lhes é essência política. Também por isso deixo o que logo me ocorreu ao ler a notícia sobre este documento ...

A tal directiva bem-falante lembrou-me este filme G.I. Jane, realizado pelo grande artífice Ridley Scott e protagonizado pela então célebre Demi Moore, uma actriz bem apessoada que hoje será mais recordada por ter sido casada com Bruce Willis, actor da engraçada série Modelo e Detective (Moonlighting) e que depois seguiu vasta e lucrativa carreira cinematográfica, especializado como "homem duro".

G.I. Jane é uma peça da prolixa produção de Hollywood de filmes destinados a acalentar o patriotismo militarista americano, coisa de império assente numa economia de guerra - é verdade, o que se há-de dizer? Uma produção bem necessária num país que, após a guerra do Vietname, optou pelo recrutamento voluntário das suas tropas, assim a exigir o inculcar do anseio guerreiro - talvez menos necessário seja estarmos nós, literalmente todos os dias, a ver filmes deste tipo, moldando mancebos. De qualquer modo o tal G.I. Jane é bem mauzito, mesmo se considerado neste eixo de produção fílmica, tralha mesmo. Mas tem o interesse de época, isto de agora se moldarem ... mancebas. 

A história é simples, básica mesmo. A personagem de Demi Moore candidata-se às tropas especiais - os sempre elogiados Navy Seals. Uma rapariga em tais andanças é facto visto como impossível pelo oficialato, másculo e machista, que se opõe com vigor. Mas é apoiada nos seus propósitos por uma sabida política influente - papel desempenhado pela lendária Anne Bancroft. E por pressão desta a sua candidatura é aceite. Para defesa desse reduto masculino todos se conluem para impedir o sucesso da militar na sua extenuante recruta, com sevícias psicológicas e extrema pressão física. 

Mas a manceba é rija, dura de roer, e tudo consegue cumprir, nisso não só indo completar a formação como - e é a fundamental mensagem do filme - acabando com o monopólio masculino naquele escol de combate. Nesse seu arreganho vai enfrentando os destratamentos másculos. E o ponto culminante, nisso simbolizando a sua cooptação pelos seus camaradas, é esta cena, a sua irada reacção: "Faz-me um broche!", responde a mais uma afronta, insultando através da sempre desvalorizada, ainda que tão requerida, felação.

Claro que as leituras disto poderão ser as sempre queixosas, afirmando que nesta imprecação "Suck my dick" se reproduz o linguajar masculino, machista, demonstrando que o sucesso e a aceitação da candidata lhe exigiu a assumpção de uma postura masculina, pois propalando um (nela) inexistente falo, apagando a sua identidade feminina.

Ou então poder-se-á ter uma visão algo mais esclarecida. Sob a qual a linguagem não tem um significado facial. E que se insultos e imprecações são dimensões presentes na vida social têm também significações contextuais. Ou seja, que este "Suck my dick!" / "Faz-me um broche!" ganha múltiplos sentidos consoante ..., e que não implica nenhuma translação identitária da locutora, sendo, pelo contrário,  um corolário dessa identidade própria  ... Pois, como um dia um belga iluminou, "ceci n'est pas une pipe". Expressão, como saberá qualquer francófono, muito adequada a esta questão ... Aliás, que a resolve.

18
Ago20

Emmanuelle

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Anteontem fiz um zapping para acompanhar o cigarro antes de me deitar. E dei com este "Emmanuelle" a começar na CMTV. Nunca o vira e não pude resistir. Assim, nestes meus 56 anos estreei-me a ver o mítico filme. E logo nesta mesma sala, casa onde cresci, assim a ainda mais me lembrar quando há 45 anos meus pais e seus amigos debatiam o filme - ao qual agregavam o então célebre "La Grande Bouffe", coisa diferente é certo, mas mesclável nos debates naqueles tempos pós-censura.

Enfim. Só para dizer que ainda bem que fiquei a ver, até às 4 da manhã!!! É que este "Emmanuelle" é (e decerto que já o era na época) muito mau. Mesmo muito mau, e sob todos os pontos por que se lhe queira pegar. Pior, bastante pior, do que eu imaginava.

É quase inacreditável o impacto que teve, que tenha havido tempos e gentes tão cândidos (e não falo de sexualidade) na geração anterior. É mesmo quase tão inacreditável como haja hoje quem pense da mesma maneira, na adoração do "espantar o burguesote" ou de uma qualquer "pureza moral". Mas, de facto, nesta terra de grupelhos e abespinhados não faltam motivos para que os nossos filhos se venham a rir de nós, como sorri eu a estas minha memórias. Daqui a uns anitos, quando virem o mundo.

Adenda (intimista): reajo ao "Emmanuelle" e constato (mais uma vez) que estou igualzinho ao meu pai António. Mas ele, seu mérito, logo naquela altura.

16
Jul20

Ordem Moral

jpt

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Obtido o visto de entrada, o comboio levou-me além-fronteiras, até ao planalto de Saldanha, que não atingia desde o advento do Covidoceno. Cotovelo amigo acolheu-me e ombreou-me no Nimas a ver em plena manhã o "Ordem Moral", um belo filme de Mário Barroso. Depois cruzámos a 5 de Outubro, zona de serviços em teletrabalho, com escassas máscaras ambulantes por ali vagueando. Trocámos meia dúzia de novidades, mortos e desgraças, da terra índica que nos acalenta. Acabamos o mata-saudades em tasca operária já no morro dos Olivais, dados à meia dose e imperial. O companheiro avança à sua vida, eu agito o chiripiti, como se esconjurando os maus espíritos. Faltam acácias, rubras. Mas não se está mal ...

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