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Nenhures

Nenhures

Emmanuelle

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Anteontem fiz um zapping para acompanhar o cigarro antes de me deitar. E dei com este "Emmanuelle" a começar na CMTV. Nunca o vira e não pude resistir. Assim, nestes meus 56 anos estreei-me a ver o mítico filme. E logo nesta mesma sala, casa onde cresci, assim a ainda mais me lembrar quando há 45 anos meus pais e seus amigos debatiam o filme - ao qual agregavam o então célebre "La Grande Bouffe", coisa diferente é certo, mas mesclável nos debates naqueles tempos pós-censura.

Enfim. Só para dizer que ainda bem que fiquei a ver, até às 4 da manhã!!! É que este "Emmanuelle" é (e decerto que já o era na época) muito mau. Mesmo muito mau, e sob todos os pontos por que se lhe queira pegar. Pior, bastante pior, do que eu imaginava.

É quase inacreditável o impacto que teve, que tenha havido tempos e gentes tão cândidos (e não falo de sexualidade) na geração anterior. É mesmo quase tão inacreditável como haja hoje quem pense da mesma maneira, na adoração do "espantar o burguesote" ou de uma qualquer "pureza moral". Mas, de facto, nesta terra de grupelhos e abespinhados não faltam motivos para que os nossos filhos se venham a rir de nós, como sorri eu a estas minha memórias. Daqui a uns anitos, quando virem o mundo.

Adenda (intimista): reajo ao "Emmanuelle" e constato (mais uma vez) que estou igualzinho ao meu pai António. Mas ele, seu mérito, logo naquela altura.

Ordem Moral

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Obtido o visto de entrada, o comboio levou-me além-fronteiras, até ao planalto de Saldanha, que não atingia desde o advento do Covidoceno. Cotovelo amigo acolheu-me e ombreou-me no Nimas a ver em plena manhã o "Ordem Moral", um belo filme de Mário Barroso. Depois cruzámos a 5 de Outubro, zona de serviços em teletrabalho, com escassas máscaras ambulantes por ali vagueando. Trocámos meia dúzia de novidades, mortos e desgraças, da terra índica que nos acalenta. Acabamos o mata-saudades em tasca operária já no morro dos Olivais, dados à meia dose e imperial. O companheiro avança à sua vida, eu agito o chiripiti, como se esconjurando os maus espíritos. Faltam acácias, rubras. Mas não se está mal ...

O Amor

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Lisa (Grace Kelly) é a dócil (e por isso perigosa) princesa de New York que quer domar Jeff (James Stewart), um caminhando-para-velho Lancelot, ambivalente pois renitente. Súbito, cúmplice, Lisa participa numa missão perigosa, indo a casa do vendedor Thorwald (Raymond Burr) provocar-lhe reacção denunciadora, momento de frisson para todos. Quando, afinal sã e salva, ofegante da emoção, Lisa regressa ao apartamento Jeff olha-a assim.

Há mais de vinte anos que esta imagem me persegue. Pois este nada-mais-que-sopro do "Rear Window" é a maior expressão do amor da história do cinema. Um prodígio de representação. Talvez Hitchcock. Mas creio que acima de tudo Jimmy Stewart.

(no ma-schamba em 2006)

A Tragédia de Macbeth

Why should you read "Macbeth"? - Brendan Pelsue (TEDEd); Animação de Silvia Petrov.

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Para quê reler Macbeth aos cinquenta e tal anos? Talvez para nunca esquecer a dúvida sobre a virtude do poder, aquilo que diz Malcolm a Macduff, antes de partir à reconquista do reino de que era legítimo herdeiro, e que fora usurpado por Macbeth: 

"... penso que a nossa terra se afunda debaixo do jugo. Chora e sangra e, em cada novo dia que passa, junta-se mais uma ferida às suas chagas. ( ...) Mas, apesar de tudo isso, quando esmagar a cabeça do Tirano, ou a erguer na ponta da espada, terá a minha pobre Pátria ainda mais vícios do que tinha antes, mais sofrimentos e misérias do que nunca sob o reino daquele que lhe suceder. (...) É de mim próprio que falo, de mim em que conheço tantos vícios que, quando libertos, o negro Macbeth parecerá tão puro como a neve, e o pobre Estado o tomará como cordeiro, se o comparar com as minhas infinitas malfeitorias. (...) Sei que ele é sanguinário, libidinoso, avarento, falso, desonesto, violento, mau, pejado de todos os pecados que se podem nomear. Mas não tem fundo a minha libertinagem (...) É melhor Macbeth do que um tal Rei". (Tradução de João Palma-Ferreira, edição Livros do Brasil 171-173).

(Macbeth de Orson Welles) - é ver já, antes que seja bloqueado

 

"William Shakespeare and the Roots of Western Civilization" - Paul Cantor

 

Paul Cantor on Shakespeare and Politics (I, II): Conversations with Bill Kristol

Livro em inglês ( edição colocada no sítio The Complete Works of William Shakespeare);

Livro em edição bilingue inglês-português (do Brasil), com tradução de Rafael Raffaelli.

As minhas coisas preferidas

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Sobre isto de rever "criticamente" as obras: 

Há algum tempo, num jantar já lisboeta, uma querida amiga, daquelas "dos tempos", perguntou-me, cruel indiscreta: "Zezé, já foste feliz?", teria eu já cumprido a nossa utopia? Decerto que terei chocalhado as pedras do final famous, engolido em seco, mas respondi franco, que sim, claro, que o fui naquela era ali à Avenida do Zimbabwe quando todos os dias diante da tv, e devido ao La Feria, mestre de um fantástica produção teatral, ouvia esta canção, e tantas outras, mas mais esta pois a minha preferida de sempre (sim, também Coltrane ...), nisso ombreando-me com a afinal única razão de nisto continuar, e ela ali sempre esfuziante
 
 (My favorite things, The Sound of Music)
 
Depois disso?, insistiu a então bruxa, malévola pois sabendo que pagaria a conta. Depois?, enfim, ficou o Amber Leaf e o Queen Margot para evitar a mitra, que mais haverá, disparei ?
 
Ou seja, deveremos nós dissecar o encanto a que acedemos? Com toda a certeza que não ...

E Tudo o Vento Levou: expurgar o cinema?

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1939 foi um ano lendário no cinema americano: O Feiticeiro de Oz; Mr. Smith Goes to Washington (com o grande Jimmy Stewart a ser magnífico Jimmy Stewart); Wuthering Heights (com Merle Oberon, Laurence Olivier, David Niven); Ratos e Homens adaptando Steinbeck, autor que logo no a seguir daria azo ao grande "As Vinhas da Ira"; uma extraordinária Bette Davis em "Dark Victory", um mergulho na doença bem raro no cinema da época; o épico E Tudo o Vento Levou (que é, talvez, o que mais envelheceu de todos estes, um bocado xaropada, convenhamos). E ... Stagecoach, quando o western passou a ser western, John Ford assumiu que "my name is John Ford and I make westerns" e John Wayne nasceu.
 
Stagecoach é uma obra-prima. E nela surgem uma marionetas ululantes "vestidos à indio". Todos aqueles que agoram berram o racismo do "E tudo o vento levou" nem se lembram deste aspecto, deste e de tantos outros filmes utilizando estereótipos (positivos, neutrais, negativos), pois, de facto, a única coisa de que conseguem falar é da cena Brancos/Negros, como se assim dos únicos pólos do bem e do mal. Se querem discutir um filme (o da "construção da nação" americana) não têm razão, são meros panfletários, marionetas ululantes vestidos à intelectual.
 
Pois discutem-no como? Perdigotando as malvadas gotículas "racistas", "colonos", "brancos"? O que os mariolas da empresa HBO e os patetas dos concordantes querem é estabelecer um filtro protector, para que os espectadores não sejam "contagiados", como se a paixão de Rhett e Scarlet germine uma prole de KKK. É uma infantilização dos espectadores. E uma satisfação para alguns deles, estes radicais, que vivem para um espúrio revanchismo ou para uma onanística auto-punição. Porque neste contexto de gritaria uma "contextualização" não será mais do que isso - ou, pelo menos, os "filtristas" não pedirão menos que isso, do que a condenação do que vêm como "moral" do filme.
 
Nisto há muita gente que protesta com a anunciada "contextualização", como se fosse lesa-majestade. Mas estão enganados. Quando vamos a museus temos lojas. Há quem compre penduricalhos, canecas ou camisolas. Mas também há livros, contextualizando artistas e obras. E folhas de sala. E quando lemos livros, especialmente se obras não contemporâneas, muitas vezes há .... "prefácios", contextualizando obra e autor. Às vezes, e julgo mais adequado, até são "posfácios". E no mercado as edições são muitas vezes (des)valorizadas consoante a tradução e a qualidade do texto enquadrador, o tal pre/posfácio. Ou seja, um enquadramento dos filmes não é uma catástrofe lesa-cultura. É algo a que nós estamos habituados noutras expressões discursivas/artísticas. Como tal, adendas de visualização voluntária serão bem-vindas.
 
Mas não se feitas da moralismos viciosos, de "filismos" que não sejam os da cinefilia. Por exemplo, não de quem venha gritar o racismo de Stagecoach e de John Ford. Mas de alguém que perceba que no filme a diligência é um microcosmos do universo Wasp. E que Ford abordou o "west" (os EUA) de várias maneiras. E que quando quis falar das oposições raciais o fez de maneira nada racista e bem problematizadora, como em The Searchers.
 
Não dá para ser cândido nisto pois o que agora os movimentos obscurantistas querem é moralizar (e censurar) as obras do passado. Exemplo máximo é a perseguição a "Tintin", de Hergé, como obra racista. Uma boçalidade abjecta. E acredito que haverá alguém que passe por aqui que logo começará a esbracejar com o "Tintin no Congo". O que bem mostra como estes discursos panfletários obscurecem - e tantos deles feitos por académicos que são pagos para o contrário.
 
Então, o que fazer? Não comprar as edições com maus "prefácios". Não as ver. Não "clicar" nelas. Exactamente como fazemos com os livros - e às vezes enganamo-nos? Passamos à frente, divulgamos no "tripadvisor" que determinada edição é uma porcaria (por exemplo, um livrito da Taschen, 5 euros, sobre Michelangelo passa páginas e páginas a afirmar a homossexualidade do pintor,  não vale a pena lê-lo). E temos as redes sociais para trocar informações sobre isso - sem gritarias, sem guerras. E, acima de tudo, sem paciência para os demagogos. E para os cândidos.

Crónica dos dias do COVID (12): e eu?

(Unforgiven, cena da morte de Little Bill).

Isto não será tão terrível como os relances aos abismos dos nossos medos anunciam. Mas vou, na insónia, sombrio. Sem histeria, sem preces porque ateu. Sombrio. A minha preocupação é a minha filha, felizmente já aqui ao lado. E o rancho de sobrinhos(-netos), os do futuro. Depois, pois não falo de hierarquias de amor, a minha mãe, casais de irmãos, parentela espiritual. Vou, assim, como (quase) todos irão. Num passo à frente, pois coisa diferente, o meu país e a minha paixão Moçambique, este tão mais frágil se isto for tão péssimo como a insónia o teme.

E eu, cinquentão fumador? Um algo venha o que vier. O qual sempre imagino assim, revendo-me, e não só agora: Gene Hackman é um desatinado, truculento. E, acima de tudo, um péssimo carpinteiro que se meteu em patética auto-construção. Clint é o demo justiceiro. E vai matá-lo a sangue-frio. E Hackman diz (-lhe/nos) "eu não mereço isto! Estou a construir uma casa!".

Clint Rules. E o merecimento nada tem a ver com isto. Nem o auto-convencimento ...

A ética

Filming of ‘The African Queen’, 1951 (2).jpg

Ser conservador é isto: perceber que há valores imorredouros, bem para além das notícias (e entrevistas) que fazem a "espuma dos dias" das modas e "boas causas". Há os predestinados, que logo o pressentem. E os outros, nós, o vulgo, que compreendemos isto com a chegada da idade. E depois há os outros, tantos - coitados de nós -, que nunca o entenderão.

(Esta imagem da ética foi realizada em 1951 nas filmagens do "African Queen", de John Huston: galeria de fotografias aqui).

Resolução para o novo ano

julia-roberts-by-michael-tighe-13.jpg

(Julia Roberts, colhida nesta galeria de fotos suas dos anos 80s e 90s)

Durante o nosso telefonema de Boas Festas ("como está tudo?") a minha boa amiga Joana, décadas de caminhos e geografias algo comuns, confirmou o que outros amigos me dizem: "És muito rezingão ...". Não é assim que me vejo. Mas talvez seja defeito meu, uso o blog (e o FB) para libertar a azia provocada pelas más-coisas do meu país. E percebo, aos 55 anos, que isso é um provinciano erro meu, a ideia de que um tipo minimamente informado (um "quase-intelectual", se me permitis a presunção) deve explanar a sua visão dos males do mundo, como se os pudesse influenciar. E guardar para o registo pessoal ("público" vs "privado", dizia-se) os factos da sua privacidade, as boas coisas (e também as más, as maleitas e as infelicidades).

Segui assim um bacoco, a montar uma "persona". E, para este Natal e nova década (sim, aquele meu outro patético "eu" sabe que a década começa em 21), decido mudar de vida internética.

Menos rezingão, mais franco: saudando o magnífico Portugal (que o é), celebrando o excepcional grande punhado de amigos que me fazem o favor de o ser, louvando a Família que me acarinha. Explicitando as belas sessões de convívio, as patuscadas que se vão seguindo apesar das idades dos participantes, as piadas conjugadas e tão gargalhadas. As vitórias e derrotas do meu Sporting, e as risadas e inóquos resmungos que me provocam. Os belos livros, e até imagens (em movimento ou paradas) consumidas. Entre eles, o magnífico legado de textos de antropologia, coisa tão boa de estudar. E, claro, as maravilhosas mulheres que nos rodeiam. Ao vivo. E, já agora, as que nos surgem nos ecrãs, tanto acalentando-nos.

Celebrarei assim este vale de sorrisos. Na realidade, o meu verdadeiro quotidiano, tão diferente do da pantomina daquele "quase-intelectual" que quis afivelar. Começo assim. E não creio que melhor escolha pudesse haver.

Tende um feliz natal. E uma Bela Década de 20.

 

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