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Nenhures

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(JOKER Final Trailer)

Só ontem vi este "Joker", filme já de 2019, com realização de Todd Philips e argumento dele próprio e de Scott Silver, o qual foi na época bastante elogiado, tendo ganho o prestigiado prémio Leão de Ouro no Festival de Veneza. E que lhe valeu os celebrados prémios Óscar para melhor argumento e para melhor actor. Não pude deixar de me indignar com o que ali vi. Pois a trama do filme centra-se na vida de Arthur Fleck, um doente mental que ambiciona tornar-se comediante e cujo rumo delirante o tornará um assassino. Ora a convulsa personagem está a cargo do actor Joaquin Phoenix - o qual, repito, ganhou o Oscar desse ano devido a esta actuação. Acontece que se consultada a biografia de Joaquin Phoenix poder-se-á constatar que o actor não tem essa condição psicológica, não lhe sendo conhecidos distúrbios mentais graves nem tendências homicidas. É assim uma falsidade o que a indústria fílmica norte-americana, "Hollywood", nos apresenta, pois é inaceitável que este actor possa representar os indivíduos que apresentam essas condições - os quais, ainda por cima, são em quase todas as áreas profissionais francamente desvalorizados. Um verdadeiro caso de "crazyfake"...

É certo que no mundo do espectáculo nem tudo é assim tão mau. Hoje mesmo assisti ao filme "O Comediante", no qual o actor Robert de Niro pertinentemente interpreta um actor, papel para o qual não lhe falta legitimidade social. E até por cá as coisas vão melhorando, como se vê no recente caso do teatro municipal S. Luiz, no qual a inaceitável apropriação de um papel de uma personagem transexual por actor heterossexual (um ilegímo caso de "transfake") foi já revertida pela iluminada direcção após justificados protestos públicos. O caminho faz-se caminhando - ainda que citando eu António Machado seja também uma apropriação indevida, um verdadeiro caso de "writerfake"...

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É ético, pois requerido, que amanhã entre a Pátria em pousio, todos nós no dever de seguirmos "concentrados na selecção", assim no empenho comum de que os Nossos venham a regressar das (luxuosas) areias arábicas com o místico - e regenerador - "caneco", qual Graal actual. A rota começará às 16 horas, num temível embate com os ferozes ganeses, sempre protegidos pelos seus ímpios manipanços. Cruzado esse Cabo, e se assim nos acudirem São Jorge e o Grande Engenheiro Santos, nos dias seguintes esperam-nos outras tormentas impostas por acoitadas hostes nórdicas, dinamarquesas, alemãs, belgas. Ou, pior ainda, pela maldosa vizinha, esta vil peçonha espanhola.

Mas apesar da grandeza da Missão há indulgência para que entretanto.nos ausentemos desse dadivoso estupor frenético, nisso simularmos o normal quotidiano - desde que o façamos apenas por breves momentos, que não abalem ou mesmo rompam a comunhão que nos engrandece lusos.

E o primeiro desses momentos autorizados ocorre já amanhã, logo após a conclusão do glorioso episódio dos das "Quinas" - às 19 horas na Cinemateca Nacional é estreado o filme "Editor contra", de Luis Alvarães, centrando na vida do peculiar editor Fernando Ribeiro de Mello (haverá quem logo o associe à editora Afrodite - até pelo recente livro de Pedro Piedade Marques que lhe foi dedicado).

Ou seja, e para os da Grande Lisboa: jogo terminado, cinzeiros despejados, vasilhame apartado, restos dos víveres guardados. E ala que se faz tarde, que o Metro ou qualquer bolt ou uber (n)os colocará na Cinemateca a tempo.

E depois do filme poderemos regressar à Nação televisiva, congregando-nos nos comentários à patriótica demonstração dos nossos bem-amados "Quinas".

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Basto caminhei e estou já aqui, quase naquele topo onde o antiquíssimo castelo (a la Estado Novo, claro) domina Sado e Tejo, numa lição de estratégia dos tempos em que ter fronteiras era legítimo e não malvado neoliberalismo, e nos quais se podia chamar "piratas" aos piratas que do estrangeiro nos vinham pilhar.
 
Enfim, aqui estou de mochila às costas - velhote a fingir-se andarilho, nisso sempre na esperança de que alguma sexagenária ou mesmo cinquentona se condoa e me deite um rabo de olho, assim dando-me um laivo de ânimo ao ego naquele sempre desejado "ah, se fosse no meu tempo..." - esperando o machimbombo desta (sempre atrapalhada) Carris Metropolitana que me leve além-Tejo.
 
O rumo que persigo é o do cinema São Jorge, pois é dia de "Abertura" (oficial) do festival cinematográfico (e cinéfilo) "Olhares do Mediterrâneo" - filmes feitos por "mulheres" (se é que o termo ainda é aceitável, tão pouco inclusivo me parece), já um tradição lisboeta. Esta semana, desde 14 até ao domingo 20, há um ror de filmes. E este ano com particular atenção às produções do Líbano.
 
São (quase) sempre olhares um bocado diferentes dos apresentados nas Netflixes. Não costuma haver o do meu amado Clint mas há, sempre, filmes interessantes. Enfim, passarei lá o dia - e até na expectativa de uma bebida partilhada com os amigos do Zezé, um ou outro colega do Flávio, quiçá alguém que saiba quem é o jpt. E, mesmo, um qualquer "amigo-FB" do José Teixeira. Ou até, e será um bela surpresa, um companheiro austral do Teixeira. Pois sou muito mais simpático do que me dizem ser. Com aquele pequeno senão, o de insistir em dizer "todos" ou "todas" - e jamais o abjecto de tonto "todes". E, nisso, talvez ali um pouco desajustado.
 
Adenda: aqui deixo o programa do festival. E o seu (sempre apetecível) catálogo.

Fui ver o "Nhinguitimo" de Licínio Azevedo, curta-metragem refractando o conto de Luís Bernardo Honwana, ontem projectada no DocLisboa. Uma pequena pérola - e pequena porque são apenas 20 e tal minutos! Adoro, literalmente adoro, o conto - que, como poucos, tem a arte de em breves páginas ser uma súmula da História mas sem a isso se restringir, pois desprovida de panfletarismos. E muito gostei do filme. Vou velho, alquebrado, desprovido, notei-o com as lágrimas que me brotaram na breve cena romântica - essa que há anos, eu vigoroso, me teria feito sorrir, talvez até cáustico...
 
Mas nada desse meu encantamento me fará esquecer a dor sofrida, ali no escuro da sala da Cinemateca Nacional. Explico-me, desvendando-me, assim deixando-me nu diante dos amigos-FB. Como tantos tive os meus devaneios de vida: em miúdo sonhei-me Hector Casimiro Yazalde, o "Chirola", e logo depois Rui Manuel Trindade Jordão, eternos ídolos. Amadureci e quis-me Dexter, o Gordon, seu sax e desengonço. Mais tarde, já adulto e mais lido, ambicionei-me qual Sir Edmund, Leach esse mesmo, mente privilegiada em andanças únicas. Nada disso cumpri, e menos ainda me aproximei. Mas sobrevivi, não desiludido, fiel a um realismo realista nunca hiper, apenas convicto, resignado coriáceo na aprendizagem recebida em casa: "o mais difícil na vida é habituarmo-nos à nossa mediocridade". Restou-me, a partir dos 30 anos de homem feito, um mero sonho, o de ser cantineiro no cinema, figurante que fosse - cheguei a oferecer-me para tal a uma simpática realizadora patrícia durante uns camarões no célebre "Costa do Sol", algo recebido com evidente desprezo... Ciente desse meu (legítimo) anseio um dia uma querida amiga enviou-me um par das camisas que eu lhe dissera tanto desejar, estas de alças e rendilhadas, deixando perpassar o pelame, obrigatório adereço deste meu alter ego... Este mesmo que eu, há coisa de um ano, aqui convosco partilhei, invocando o referido "Nhinguitimo".
 
Pois hoje vi o filme. E encontrei o António Cabrita a representar o cantineiro - (e vai bem o sacana) -, roubando-me o derradeiro sonho de vida. E, talvez pior do que tudo, apresenta-se ali de camisa de linho branca, manga comprida, bem composta, e ainda por cima impoluta, sem nódoa de vinho ou de gordura e muito menos do encardido suor.
 
Enfim, não me queixo do que me decorreu neste já longo percurso, mais rico até do que terei merecido. Mas agora, depois de hoje, deste filme, deste ocaso, nenhum sonho, nenhuma ambição, me resta. Maldita camisa de linho. Imaculada, repito-o...
 
(Postal para o meu mural de Facebook)

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Esta semana decorrerá o festival DocLisboa. Do vasto cardápio que estará disponível aos cinéfilos e aos amadores anotei dois filmes que me compelem a ascender àquele além-Tejo. Trata-se da apresentação - estreia (?) - de "Margot", um filme de Catarina Alves Costa (2022, 72 minutos) dedicado a Margot Dias e ao seu trabalho etnográfico no norte de Moçambique, junto aos macondes (com "c" e não "k", como consta no programa digital do festival, pois - como um dia bem disse o escritor Mia Couto - nada há de mais "africano", qual "respeitoso" "multicultural", nas "k", "w" e "y" do que nas restantes 23 letras), durante os finais de 1950s e inícios de 1960s - para quem desconheça tratava-se da missão coordenada pelo antropólogo Jorge Dias, com o qual Margot Dias era casada, que originou os célebres tomos "Os Macondes de Moçambique".

O outro filme que me convoca à incursão na capital é "Nhinguitimo", curta- metragem (23 minutos, 2021) do realizador moçambicano-brasileiro Licínio de Azevedo, que bem anseio - não só mas também porque baseada no conto homónimo de Luís Bernardo Honwana incluído no seu célebre "Nós Matámos o Cão-Tinhoso"(e até porque andei anos a botar uma coluna chamada Ao Balcão da Cantina, que juntei aqui, e até usei o mesmo nome para um outro conjunto de crónicas, exactamente por influência desse magnífico conto). Para além disso o novo "Nhinguitimo" será acompanhado da projecção do "A Colheita do Diabo", filme de Licínio de Azevedo e Brigitte Bagnol (1987, 54 minutos) que é agora uma raridade. Ou seja, uma sessão imperdível.

A dupla "Nhinguitimo"/"A Colheita do Diabo" será projectada numa única sessão, terça-feira, 11 de Outubro, às 19 horas, na Sala Félix Ribeiro da Cinemateca Portuguesa.

O "Margot" terá uma dupla projecção: também na terça-feira, 11 de Outubro, às 19 horas, no Auditório Emílio Rui Vilar, Culturgest. E no domingo, 16 de Outubro, no Pequeno Auditório da Culturgest, às 22 horas - um tardio horário presumo que destinado a  punir os desprovidos do dom da ubiquidade.

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