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Nenhures

Nenhures

Lobos

Estes últimas dias, as visões e argumentações, fizeram-me lembrar este "Lobos" de Alexei K. Tolstói. Vasculhei as estantes, encontrei. Partilho-o ...

 

Quando, desertas as aldeias, 

caladas as canções do povo, 

se levanta, encanecida, 

sobre o pântano a neblina: 

das florestas, sorrateiros,

um após outro, pelos campos, 

saem os lobos para a caça.

 

Dos valentes, sete andam juntos, 

e à cabeça a comandar

vai o oitavo que é branco.

O cortejo misterioso

pelo nono lobo é fechado,

deitando sangue da pata,

atrás de todos a mancar.

 

Não há nada que os assuste.

Se acaso vão para a aldeia,

nem o cão lhes há-de ladrar,

e o camponês só de vê-los

nem se atreve a respirar,

murmura a sua oração,

fica mais branco que a cal.

 

Contornam a igreja os lobos,

por largo e sorrateiramente.

Entram para o quintal do padre,

as suas caudas remexendo.

À porta da taberna, à coca,

espetam todas as orelhas: 

há blasfémias lá dentro?

 

Olhos como velas, os dentes

mais aguçados que sovelas.

Carrega lá treze metralhas

com pêlo de cabra, amigo,

sem medo, atira a matar.

Primeiro cairá o branco,

trás dele os outros vão tombar.

 

E quando na aldeia o galo

acordar quem ainda dorme,

nove velhas, e todas mortas,

verás espalhadas pela erva.

A da frente é a mais grisalha,

a de trás coxa, e todas nove 

em sangue ... Valha-nos Deus!

("Lobos", de Aleksei K. Tolstói, 1840. Tradução de Nina e Filipe Guerra. Trancrito de Rosa do Mundo: 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim, 2001, pp. 1066-1067).

Sociedade por quotas

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Quando era jovem foi a era do Pessoa. Ou melhor do pessoísmo, dos pessoanos e seus seguidores. Não sei porquê, terá sido o Portugal democrático (e assim país muito mais letrado ou a tornar-se letrado) a absorver o poeta. Ou por causa de coisas mais pequenas, as vasculhas do célebre baú, as inúmeras publicações (que edição escolher?, ra's parta!), os estudos em catadupa, os filmes sobre e a propósito, as ficções em torno ... enfim, todos, ou quase, tinham que ter "o seu Pessoa", nisto do desassossego leitor. As coisas mudaram, talvez porque a obra de Pessoa foi "fixada", canonizada. Ou porque as pessoas mergulharam noutras coisas. E assim, ao contrário dos anos 80s e até 90s, é possível cruzar algumas semanas sem que alguém nos venha falar do "seu Pessoa". Nisso um tipo também se distrai e dedica-se a outras coisas, o Sporting, romances novos, Marcelo Sousa, o chef Sá Pessoa, sei lá, uma miríade de ofertas que a vida nos traz ...

A caminho da casa de banho, no corredor, está a minha estante de literatura portuguesa. Caiu-me isto no regaço, sobre a pança ...

 

 

Não! Só quero a liberdade!

Amor, glória, dinheiro são prisões.

Bonitas salas? Bons estofos? Tapetes moles?

Ah, mas deixem-me sair para ir ter comigo.

Quero respirar o ar sozinho,

Não tenho pulsações em conjunto,

Não sinto em sociedade por quotas,

Não sou senão eu, não nasci senão quem sou, estou cheio de mim.

 

Onde quero dormir? No quintal...

Nada de paredes — ser o grande entendimento —

Eu e o universo,

E que sossego, que paz não ver antes de dormir o espectro do guarda-fatos

Mas o grande esplendor, negro e fresco de todos os astros juntos,

O grande abismo infinito para cima

A pôr brisas e bondades do alto na caveira tapada de carne que é a minha cara,

Onde só os olhos — outro céu — revelam o grande ser subjectivo.

 

Não quero! Dêem-me a liberdade!

Quero ser igual a mim mesmo.

Não me capem com ideais!

Não me vistam as camisas-de-forças das maneiras!

Não me façam elogiável ou inteligível!

Não me matem em vida!

 

Quero saber atirar com essa bola alta à lua

E ouvi-la cair no quintal do lado!

Quero ir deitar-me na relva, pensando "Amanhã vou buscá-la"...

Amanhã vou buscá-la ao quintal ao lado...

Amanhã vou buscá-la ao quintal ao lado...

" Amanhã vou buscá-la ao quintal"

Buscá-la ao quintal

Ao quintal

ao lado...

Contos do Insólito

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Não lia Maupassant há décadas - julgo que nunca o tinha feito em português, e neste Contos do Insólito a tradução [de João Costa] funciona bem, pelo menos para um conhecedor sofrível de francês, como eu sou. Surpreende-me encontrar-lhe tamanha novidade nos contos, frescos, contundentes, finos, sob uma ironia deliciosa (que ilustro em trecho que abaixo transcrevo). E uma absoluta actualidade: por exemplo, o tema do conto "O Horrível" é a vulgarização da desgraça, a sua banalização quotidiana. Desvendando como da mescla de atrocidades mundiais que nos submerge se constitui, por critérios até desconhecidos, o excepcional que realmente sentimos como "horror", afinal os factos que são até aparentes minudências.

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"O que há sobretudo de encantador para um rapaz solteiro em ter por amante uma mulher casada é que ela lhe dá um interior sereno, amável, em que todos se ocupam de nós e nos apaparicam, desde o marido até aos criados. Encontramos ali reunidos todos os prazeres, o amor, a amizade, até a paternidade, a cama e a mesa, o que constitui enfim a felicidade da vida, com a vantagem incalculável de podermos mudar de família de vez em quando, de nos instalarmos alternadamente em todos os meios, o Verão, no campo, em casa do operário que nos aluga um quarto, e o Inverno em casa do burguês, ou mesmo em casa da nobreza, se tivermos ambição.

Possuo mais uma fraqueza: é gostar dos maridos das minhas amantes. Confesso até que alguns esposos comuns ou grosseiros me fazem repugnar as suas mulheres, por encantadoras que elas sejam. Mas quando o marido possui espírito ou encanto, fico infalivelmente loucamente apaixonado. Tenho o cuidado, se romper com a mulher, de não romper com o esposo. Arranjei assim os meus melhores amigos; e é deste modo que verifiquei, inúmeras vezes, a incontestável superioridade do macho sobre a fêmea, na raça humana. Esta proporciona-nos todos os aborrecimentos possíveis, faz-nos cenas, censuras, etc.; aquele que teria mesmo o direitos de queixar-se, trata-nos pelo contrári como se fôssemos a providência do seu lar."

(Guy de Maupassant, Misti, Recordações de Um Jovem Solteiro [1884], Contos do Insólito, Ulisseia, 2010, 69-70)

 

 

A Festa do Avante e a degenerescência de Pacheco Pereira

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(Festa do Avante, 2020: ninguém para lhe dizer "ó camarada!, toma lá uma T-shirt que não parece bem estares assim vestido ...")

O comentador Pacheco Pereira, conhecido do "grande público" pela participação num programa televisivo de comentário político reinstalado após pressão do secretário-geral do PS, no qual agora ombreia com a adjunta deste, apresentado numa estação propriedade de um conjunto de empresas portuguesas (e de figuras gradas dos espectáculos populares, como Cristina Ferreira, Pedro Abrunhosa e Tony Carreira), publicou em 5.9.2020, no "Público", jornal propriedade do grupo SONAE, este naco: "Mas a fúria actual com a Festa do Avante! é tudo menos inocente. Tem uma clara motivação política, longe de qualquer preocupação com a pandemia ( ...) 

No recinto [da Festa] são comuns formas de reconhecimento tribal entre “camaradas”, quer através das bancas de comida, objectos, artesanato local, quer inclusive com as delegações estrangeiras de outros partidos comunistas e movimentos revolucionários. A Festa é ao mesmo tempo provinciana e cosmopolita, e transmite aos que a visitam esse sentimento de que fazem parte de uma comunidade nacional e de um movimento internacional, com amigos e inimigos. (...) 

[A raiva contra a Festa do Avante] insere-se numa clara deslocação para um radicalismo de direita que se tem vindo a acentuar em várias áreas da sociedade portuguesa, e de que o Chega é apenas a ala populista mais visível, e as redes sociais o viveiro do ódio, mas que encontra expressão numa elite que está órfã do poder, apoiada em think tanks, subsidiados por grupos empresariais, com um peso crescente na comunicação social. Repetirei de novo que uma parte importante desta deriva vem da impotência, mas com o tempo essa impotência transforma-se em raiva. A vida política portuguesa vai ser crescentemente perigosa, num caminho que encontra em Trump um inspirador não nomeado por vergonha, mas real.  ( ...)".

Há três décadas o comentador foi meu professor, e muito bom nisso. Há uma dúzia de anos esteve em Maputo, onde, gratuitamente e apenas por respeito, fiz o possível por ajudar a organização que ali o levara a enquadrá-lo o melhor possível. Espero agora nunca mais me cruzar com o traste que lhe ocupou o corpo. E a mente.

Adenda: há meses um holigão fez a saudação fascista num comício do prof. Ventura (sobre isso escrevi isto). Mas não apreciar os javardos que se passeiam com o Estaline na pança já é ser adepto do Trump, jpp dixit ... 

 

O Cabricionário de Leite de Vasconcelos

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Sobre o jornalista e escritor Leite de Vasconcelos (Arcos de Valdevez, 1944 - Maputo, 1996) já aqui deixei uma pequena nota. Mas recordo este "Pela Boca Morre o Peixe", o conjunto das crónicas finais do autor, publicadas na imprensa moçambicana. Já doente, Leite de Vasconcelos não descansou. A verve era abrasiva, denunciando o que considerava desmandos estatais, afrontando a via liberal assumida pelo seu partido Frelimo. E criticando as intervenções estrangeiras - um dos seus alvos era a implantação das transmissões da RTP-África, que considerava afrontarem a soberania e serem instrumento de neo-colonialismo. De facto, 25 anos depois, podemos dizer que eram algo exageradas as suas opiniões. E, mais do que tudo, que não acompanhava a internacionalização das transmissões televisivas, já então em curso. Mas o relevante é a memória que este livro traz, da sua coragem (o que ele dizia do então ministro do Interior), mas também como vibrante exemplo da postura intelectual dos intelectuais da I República, os que se poderão dizer "samoristas". 

Nisto tudo, Leite de Vasconcelos utilizava o sarcasmo de forma agudíssima. Transcrevo aqui o seu "Cabricionário", um dicionário da era do "cabritismo", esse corolário do ascensão da realidade de que "o cabrito come onde está amarrado", o dito tão generalizado em países africanos. Transcrevo-o não apenas para lembrar a verve imparável de Leite de Vasconcelos. Nem para aludir ao poder moçambicano. Mas para (me) lembrar que o "cabritismo", e esta sua enciclopédia, não são um fenómeno moçambicano ou africano. Pois o cabritismo é global, como também qualquer português poderá perceber.

Cabricionário

AC - Acrónimo polémico. Alguns especialistas consideram significar "Antes do Cabritismo"; outros defendem que representa "Antes do Caos". Prefere-se o consensual ANE - Antes da Nossa Era.

Al Cabrone - Personagem da mitologia norte-americana, patrono da liberdade de associação cabrital em grupos informais designados "gangs" e do direito de marrada. 

Bode espiatório - Cabrito que faz a segurança dos pastos.

Bode expiatório - Um cabritinho ainda de cornadas mansas que se apresenta à opinião pública em vez de um bode em vias de ser apanhado com os dentes no capim.

Bodeado - O mesmo que falido. Situação normal de empresa ou sector após seis meses de gestão cabrital. 

Bodismo - Principal religião cabrital, fundada por Judas Chibo, dito o Mééssis, que ensinou o princípio moral "faz aos outros antes que eles te façam a ti".

Bodo - Dinheiro, alimentos, roupa e outras ofertas que a comunidade internacional dá aos pobres, mas enriquece os cabritos. 

Bodum - Cheiro activo e característico de bode sem cabresto em busca de pasto.

Cabra Cega - Jogo infantil através do qual se ensina às crianças o princípio moral "morder sem ver a quem".

Cabraão - Prefiguração do mal. Personagem que preferiu matar um cabrito a imolar uma criança.

Cabriola - Cambalhota ideológica característica do cabrito.

Cabriolé - Carro de cabrito, normalmente do topo de gama e pago pelo Estado.

Cabritalismo - Sistema económico e social caracterizado pela estatização dos pastos para usufruto privado. A política de distribuição faz-se segundo o princípio "de cada um segundo a paciência a cada um segundo o tamanho da corda".

Cada pasto um posto - Lema que resume a política de pleno emprego na administração pública cabrital.

Capricórnio - Signo do Fodíaco sob o qual está tudo zodido.

Conselho de cabritação - Grupo nomeado para digestão do pasto público.

Dente de SISE - O que o cabrito arreganha quando vê o pasto em perigo.

Escabroso - Qualidade ideal dos actos da administração pública cabrital.

Forrobodó - Fase superior da organização política e social do cabritalismo, por isso também designada de Forrobodismo por certos teóricos maximalistas como Cabrando Mèèbuzi e Cabrael Bodúni.

Jacobro - Personagem mítica, filho de Cabraão, patrono das finanças e das alfândegas.

Manual Quelónio - Também chamado Jesus Quisto pelo jornalista Angústias de Cabralho. Dotado de carapaça à prova de vergonha, dirige bandos fardados que cometem assaltos à mão armada e à vista desarmada. 

Ministro sem pasto - Governante descontente.

Pasturiente - Dirigente pronto a despachar favoravelmente um pedido de pasto público.

Pé de cabra - Antigo instrumento de arrombador. Símbolo oferecido pelo município da cidade cabrital aos visitantes ilustres. 

Rendimento per cábrita - Índice económico. Obtém-se dividindo o rendimento anual do cabrito pelo número médio mensal das suas amantes.

(27.5.96).

Racismo cultural

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O racismo português muito assenta, como estudos recentes o demonstram, no "racismo cultural", esse preconceito que desvaloriza as culturas alheias, em particular as das raças outras, ideia que se disseminou devido ao colonialismo europeu. O lamentável é que os textos que transpiram essa perspectiva continuam a ser editados sem quaisquer ressalvas (estudos contextualizadores, prefácios ou posfácios elucidativos, meros rodapés que sejam).

Este é um exemplo desse racismo, um trecho de célebre ficcionista ocidental, desprovido de qualquer consciência "decolonial" ou "póscolonial", publicado em Portugal em 1999, sem quaisquer cuidados explicativos por parte da sua editora.

"Para aqueles homens e aquelas mulheres, não existia doença natural e talvez nenhuma coisa o fosse. O seu universo permanecera no caos e, todos os acontecimentos, mesmo os mais simples, eram para eles mistérios, mas uns eram mais frequentes do que outros, aos quais o uso os acostumava. As fases da Lua, a produção do fogo no seu fogão de cozinha não eram menos inconcebíveis, para eles, do que a abertura de cavernas em pulmões doentes; apenas eram naturais, isto é justas, a seus olhos, as mortes de velhos. E como eram, no entanto, seres humanos, condenados, pelo instinto da sua espécie, à procura e talvez à invenção das causas, atribuíam o definhamento de Amande àquela que era para eles a mais simples, a mais humana, à força cujos efeitos tinham muitas vezes, nas suas vidas, verificado: a inveja, os ciúmes de uma mulher por uma mulher."

(edição de Livros do Brasil, pp. 95-96).

Alterglobalização

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Moinho Saint-Pierre (o moinho de Alphonse Daudet)

"Antigamente fazia-se aqui um grande comércio de moagens e, tôda a gente das herdades, dez léguas em redor, nos trazia o seu trigo para moer ... Em volta da aldeia, as colinas estavam tôdas cobertas de moinhos de vento. À direita e à esquerda não se viam senão asass que volteavam tocadas pelo mistral, por cima dos pinheiros, récuas de burricos carregados de sacos, subindo e descendo ao longo dos caminhos; e tôda a semana era um prazer ouvir lá nos altos o estalido dos chicotes, o ranger da tela e os gritos à esquerda! à direita! dos moços dos moleiros ... esses moinhos faziam a alegria e a riqueza da nossa região.

Infelizmente, uns Franceses de Paris tiveram a ideia de estabelecer uma fábrica de moagem a vapor na estrada de Tarrascon. Outros tempos, outros ventos. Tôda a gente se habituou a mandar o trigo aos moageiros e os pobres moinhos de ventos ficaram se ter que fazer. Durante algum tempo, tentaram lutar, mas o vapor foi mais forte e um após outro, todos êles, coitadinhos, foram obrigados a fechar ... O mistral bem soprava, mas as asas conservavam-se imóveis. Depois, um certo dia, o conselho municipal mandou deitar abaixo êsses casebres em ruina e no seu lugar plantaram-se vinhas e oliveiras.

Contudo, no meio da derrocada um moinho tinha resistido e continuava a fazer girar corajosamente as suas asas no cimo da colina, nas próprias barbas dos moageiros. Era o moinho do tio Corneille, êste mesmo em que estamos agora a fazer o nosso serão.

O tio Corneille era um velho moleiro, que vivia há sessenta anos no meio da farinha e sempre desesperado com a sua situação. A instalação das moagens tinha-o posto como doido. Durante oito dias viram-no correr para a aldeia, juntado em volta de si muita gente em alvorôço, gritando com tôdas as suas forças que queriam envenenar a Provença com a farinha dos moageiros. "Ninguém vá lá abaixo, dizia ele; aqueles bandidos, para fazerem pão, servem-se do vapor que é uma invenção do diabo, enquanto eu trabalho com o mistral e o vento norte, que são a respiração de Nosso Senhor  ...".

(Alphonse Daudet, "O segrêdo do tio Corneille", Cartas do meu Moinho, Livraria Chardron, c. 1915 [1869], pp. 17-19).

 

Um Portugal

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"A falperra, mal. Àquela altura já se havia de andar a semear o milho nas terras de sequeiro, mas o codo não o permitia. O calendário há muito que não regulava. Noutros tempos, chegado o mês da Páscoa, cantava o cuco e recantava. Quem o ouviria? O solo não produzia, cansadinho, cansadinho a mais não poder! Chamavam a Portugal a nação das sete sementes como ao mundo de Cristo o mundo dos sete pecados. Qual, quando se semeava um alqueire e se colhiam quatro, era um louvar. Também ninguém queria mais amanhar a terra! O solo era negro e sujava as mãos. A gente boa sumia-se na emigração. O que sobrenadava era o rebotalho. Pudera, tanto o lavradorzinho da arada como o cabaneiro viviam frigidos com tributos, mais escravos que os negros. Davam de comer à cáfila toda. Sustentavam o fidalgo, o ministro, o doutor, o escrivão, o padre; sustentavam o pedinte, o citote, o ladrão; desfaziam-se em maná, e ficavam nus e viviam nus que nem castanheiros depois de abanados. Queria saber o que lhes valia a eles e aos casacas? Era não fazerem contas."

(Aquilino Ribeiro, Quando os Lobos Uivam, Bertrand Editora, 1995 [1958], 8º edição, p. 29).

É consabido, e se por vezes louvado outras tantas resmungado, que o léxico de Aquilino Ribeiro é amplo, alargado, intenso, extenso. E que muitos de nós, urbanos de gerações televisionadas, com outros usos e costumes e outras palavras para os nomear, algo nos perdemos nessas fragas verbais (olhai eu, como se que a tentar copiá-lo). Então por isso mesmo talvez seja bom referir que "casacas" vem aqui com o significado de "pessoas decentes" ...

Adenda: por mera curiosidade, encontro via google o "relatório da censura sobre o Quando os Lobos Uivam". Outros tempos, outras visões. Hoje em dia olhares tão acerados como este não são "censurados". Mas apenas censurados como "ressabiados", "ressentidos". Até "populistas".

 

Moralismo hoje em dia

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"... a disposição mental que leva ao conto de fadas é a da moral ingénua, isto é, a moral que se exerce sobre os acontecimentos e não sobre os comportamentos, a moral que sofre e rejeita a injustiça dos factos, a tragicidade da vida, e constrói um universo em que a cada injustiça corresponde uma reparação." (Italo Calvino, Sobre o Conto de Fadas, Teorema, p. 100).

Necrofagia

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"- Vou dizer a Cornoiller que mate alguns corvos. Estas aves dão o melhor caldo que há.

- Mas não é verdade que os corvos comem os mortos?

- És tola, Nanon! Comem, como tôda a gente, o que encontram. Não vivemos nós dos mortos? Que são então as heranças?"

(Balzac, Eugénia Grandet, Livraria Chardron, c. 1930, p. 71)

 

 

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