Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Nenhures

Nenhures

17
Jan24

Leituras do passado fim-de-semana: um artigo, uma frase e uma reportagem

jpt

Barreto.jpeg

1. Um amigo envia-me o artigo desta semana de António Barreto, também embrulhado num "lê". Clarividente sobre o PS este "Santos e diabos. Polícias e ladrões" que o autor, como sempre, colocou também no blog Sorumbático.

2. Enviaram-me o artigo dizendo-me "lê". E eu li, a coluna de Clara Ferreira Alves no Expresso desta semana. Texto algo escatológico. E que (também) deixa isto: "o Congresso do PS foi um festival de onanismo".

Expresso

3. Ao final do dia é uma jovem portuguesa, mais do que potencial emigrante, que me chama a atenção para uma notícia no "Expresso" - sabendo ela que eu não leio o jornal, nem mesmo o folheio. Diz-me ela que pela sua experiência - os conhecimentos da sua geração - deve até pecar por defeito essa perspectiva de que 30% dos jovens (até aos 39 anos) já emigraram.

O que seria inacreditável - se a realidade não nos obrigasse a acreditar nisso - é que nos últimos 30 anos praticamente só um partido governou. E o fruto deste regime, do conjunto de políticas económicas mais ou menos (des)articuladas que esse partido vem executando, é isto. E não só a sociedade, conservadora, envelhecida, timorata, continua a nele votar como nos seus agentes acredita. E continuam a dizer, tantos os seus avençados como os seus adeptos pagadores de impostos, que a emigração foi no tempo do ... outro (já agora, esse outro que governava um país esmagado pelos constrangimentos do FMI/BM/UE, dada a crise que governo anterior muito alimentara).

O grau de inconsciência dos portugueses - melhor dizendo, dos portugueses que por cá ficam a residir - é incomensurável.

(Aqui junto postais que coloquei no Delito de Opinião: 1, 2, 3)

07
Dez23

Vinte anos a blogar

jpt

Blog_(1).jpg

No dia exacto não me lembrei disto, assim falhando a efeméride pessoal, mas notei-o agora. A 3 de Dezembro fez exactamente 20 anos que comecei a blogar, lá de Moçambique integrando-me naquela vaga blogal que cá aconteceu em 2003. Primeiro no ma-schamba, que alguns anos depois se tornou colectivo. Depois, já em Portugal, no Courelas (o mesmo que ma-schamba...). Depois, sozinho, no O Flávio e agora no Nenhures. Entretanto também estive no colectivo sportinguista És a Nossa Fé e estou no Delito de Opinião.

Ou seja, isto de blogar tornou-se-me uma mania. 20 anos de verborreia - durante longos períodos até diária - deu para escrever muita tralha, inútil, às vezes até injusta, imensas vezes injustificada. Mas outras vezes acertei, releio e canto "rio-me de me ver tão bela nesta espelho". Por isso recolhi textos que estão esquecidos nos blogs - os quais não apago, até porque o tema dos arquivos dos blogs sempre me foi importante, ainda que me pareça ter isso sido descurado pelas instâncias arquivísticas nacionais. E dessa amálgama fiz este ano dois volumes que gostaria de tornar livros (vanitas vanitatum et omnia vanitas), um de crónicas de viagens e memórias, que seria (ou será, se vier a acontecer) um "Torna-Viagem", um outro de resmungos que julgo terem sido certeiros, a ser um "O Podcast Mudo". A ver se arranjarei editora para tais coisas, desde que não as pague eu, pois não tenho paciência para esse negócio - hoje em dia viçoso, ao que parece - de cobrar ao autor para lhe publicar o futuro mono e depois ainda o obrigar a impingir os exemplares aos desgraçados amigos, pobre gente que se deixa ir nisso.

Mas para relembrar o meu início blogal aqui repito o meu primeiro postal, este "Lavoura". Faço-o, por saudosismo. Mas também para convidar à leitura do grande Ruy Duarte de Carvalho, magnífico escritor, antropólogo e também cineasta.

rdc.jpg

"...a lances de catana e de machado desfaz a rama e a trama dos espaços virgens. Prepara um espaço para a nova lavra, esgotado o humus de uma lavra antiga. Alarga a circunferência de chão raso. Devolve o sol à terra e dá-lhe a mansa forma de um corpo fecundável e passivo. O tronco nu progride mata a dentro. Governa os braços firmes e velozes, confere exactidão ao gesto azado. E os fustes, gemem, fendidos pelo golpe. Martela, vigoroso, a rijeza maior de alguns dos paus, depois transforma em lenha as copas derrubadas..."

(Ruy Duarte de Carvalho, Como se o Mundo Não Tivesse Leste, Cotovia, p. 117 )

04
Set23

O quase sexagenário

jpt

ls.jpeg

Este Setembro é um bom mês para se ler chilenos. Herdei uma resma deste, do qual só lera um livro - e sem grande encantamento -, e pego-lhe agora a ver como aquilo ia. Vou ficar mais um bocado:
 
"A sociedade fica estranha quando nos aproximamos dos sessenta anos: falo de livros que os outros não leram, e os outros falam de livros que não me interessa ler." (Luís Sepúlveda, Histórias Daqui e Dali, Porto Editora, 2010, p. 45).

23
Ago23

Borges

jpt

6 cordas.jpg

"Para as 6 cordas", um pequeno conjunto de canções (milongas) de Jorge Luís Borges. Nunca o lera, escondido que me estava num dos tomos das suas Obras Completas, o II (publicado pela Teorema, 1998). Precioso...

Por exemplo: "Como é seu hábito, o Sol / brilha e morre, morre ardente / E no pátio, como ontem, / Há uma lua esplendente, / Mas o tempo, que não pára, / Todas as coisas ofende - / acabaram-se os valentes / E não deixaram semente (...) - Não se aflija. Na memória / Do tempo ainda não presente / Também todos nós seremos / Os primeiros resistentes, / O ruim será generoso / E o frouxo será valente : / Não há coisa igual à morte / Para melhorar a gente."

22
Ago23

A penosa vida

jpt

Xerxes_Image.png

"Assim que viu o Helesponto inteiro coalhado de navios, todas as suas margens e as planuras de Ábidos cobertas pelos seus homens, Xerxes felicitou-se a si próprio, mas em seguida, chorou. Logo que se apercebeu disso, Artábano, aquele que anteriormente aventara livremente a opinião de que não era aconselhável marchar contra a Grécia, esse homem, ao notar as lágrimas de Xerxes, disse-lhe: "Ó Rei, como é diversa a tua atitude de agora e de há pouco! Há momentos felicitavas-te, agora choras!" "É que me veio ao pensamento - disse ele - lamentar a brevidade de toda a vida humana, uma vez que, de tantos homens que aqui estão, dentro de cem anos, nem um só sobreviverá." Artábano respondeu: "Ainda sofremos outra calamidade mais deplorável ao longo da vida. É que, sendo ela tão curta, não há homem algum tão feliz, nem dos que aqui estão, nem de outros, a quem não suceda, muitas vezes, e não uma só, preferir morrer a viver. As desgraças que se abatem sobre nós e as doenças que nos afligem fazem com que a vida pareça longa, a despeito da sua curta duração. E assim a morte se tornou para o homem o refúgio de eleição contra tão penosa vida. E o deus, depois de nos dar a provar um pouco a doçura da vida, nisso mesmo mostra a sua inveja."

[Heródoto de Halicarnasso, Histórias, Livro VII (tradução de Maria Helena da Rocha Pereira)]

(Publicado no ma-schamba, 28.6.2006)

14
Abr23

Uma maionese

jpt

Maionese.jpg

Sei que os meus amigos têm acompanhado com interesse os meus postais sobre temas gastronómicos. Assim sendo aqui regresso a essa matéria. Hoje com uma receita de maionese retórica, bem do agrado dos comensais... "alternativos".

"Os Princípios e as Práticas"

... comecei a analisar a crescente prevalência e maior visibilidade do poder cru em relação ao poder cozido [eu, jpt, detesto esses ditos "emoji" e por isso prefiro assinalar esta grosseira "apropriação cultural" da dicotomia do grande Lévi-Strauss com uns valentes !!!] tendo-me centrado numa das manifestações deste fenómeno, da vitória sobre o adversário ao extermínio do inimigo. Continuo agora a análise, centrando-me na segunda manifestação, a híper-discrepância (sic) entre princípios e práticas.

Uma Híper-Discrepância (sic)

A discrepância entre princípios e práticas é talvez a maior especificidade da modernidade ocidental. Qualquer que seja o tipo de relações de poder (capitalismo, colonialismo e patriarcado) e os campos do seu exercício (político, jurídico, económico, social, religioso, cultural, interpessoal), a proclamação dos princípios e dos valores universais tende a estar em contradição com as práticas concretas do exercício do poder por parte de quem o detém. O que neste domínio é ainda mais específico da modernidade ocidental é o facto de essa contradição passar despercebida na opinião pública e ser mesmo considerada como não existente.  (...)

Este mecanismo de supressão das contradições reside no que designo por linha abissal, uma linha radical que desde o século XVI divide a humanidade em dois grupos: os plenamente humanos e os sub-humanos, sendo estes últimos o conjunto dos corpos colonizados, racializados e sexualizados. 

Se é verdade que a contradição entre princípios e práticas sempre existiu, ela é hoje mais evidente do que nunca. (...)"

Boaventura Sousa Santos, "Os princípios e as práticas", Jornal de Letras, 17 de Novembro de 2021, p. 30.

09
Fev23

O fanatismo

jpt

Roman Sanguszko, príncipe.

"This looks like mere fanaticism. But fanaticism is human. Man has adored ferocious divinities. There is ferocity in every passion, even in love itself. The religion of undying hope resembles the mad cult of despair, of death, of annihilation. The difference lies in the moral motive springing from the secret needs and the unexpressed aspiration of the believers. It is only to vain men that all is vanity; and all is deception only to those who have never been sincere with themselves".

(Joseph Conrad, Prince Roman, Selected Short Stories, Wordsworth, 1997, 218)

(antes deixado aqui)

03
Fev23

O Patriotismo

jpt

"...patriotism - a somewhat discredited sentiment, because the delicacy of our humanitarians regards it as a relic of barbarism ... It requires a certain greatness of soul to interpret patriotism worthily - or else a sincerity of feeling denied to the vulgar refinement of modern thought which cannot understand the august simplicity of a sentiment proceeding from the very nature of things and men". 

(Joseph Conrad, Prince Roman, Selected Short Stories, Wordsworth, 1997, p. 206).

 

 

Neste Fevereiro cumpre-se um ano de guerra na Europa. A qual vem implicando um enorme esforço assente no "patriotismo", o ucraniano. E é interessante ver como na Europa, e por cá, a extrema-direita "soberanista" logo se tombou por simpatias pela força imperial agressora contra o que sempre diz defender, as tais nações, nisso confluindo com a esquerda comunista, esta que sempre se reclama de avessa aos "impérios". Sendo os democratas, mais ou menos confederativos, os grandes apoiantes desse esforço patriótico. De como a realidade bem mostra a falácia das demagogias.

01
Fev23

O inverno ucraniano

jpt

joseph_conrad_part.jpg

"It was the dead of winter. The great lawn in front was as pure and smooth as an Alpine snowfield, a white and feathery level sparkling under the sun as if sprinkled with diamond-dust, declining gently to the lake - a long, sinuous piece of frozen water looking bluish and more solid than the earth. A cold brilliant sun glided low above and undulating horizon of great folds of snow in which the villages of Ukrainian peasants remained out of sight, like clusters of boats hidden in the hollows of a running sea."

(Joseph Conrad, Prince Roman, Selected Short Stories, Wordsworth, 1997, pp. 207-208)

- Sobre o britânico Joseph Conrad e polaco Józef Korzeniowski, e nisso também sobre suas ideias relativamente à Rússia, ver este interessante artigo, muito recorrendo à sua correspondência: "Conrad and European Politics", de Sylvère Monod

(Deixara esta citação há muitos anos no ma-schamba)

15
Set22

Dia de Bocage

jpt

manuel-maria-barbosa-du-bocage-estátua-do-poeta-e

Aqui deixo informação que me chega da vizinha e ciosa capital sadina: hoje é o dia de Bocage, pois o do seu nascimento (1765), e nisso feriado setubalense. 

Leigo que sou nessas coisas literárias ainda assim me parece que o poeta segue destratado. Nem tanto esquecido, pois é ícone dos brejeiros literatos. Será mais poeta reduzido, espartilhado pelo tom pícaro das memórias que se lhe dedicam. Enfim, não serei eu a fazer-lhe justiça, deixo apenas dois dos seus poemas de que muito gosto:

 

O Ciúme

Entre as tartáreas forjas, sempre acesas,

Jaz aos pés do tremendo, estígio nume,

O carrancudo, o rábido Ciúme,

Ensanguentadas as corruptas presas.

 

Traçando o plano de cruéis empresas,

Fervendo em ondas de sulfúreo lume,

Vibra das fauces o letal cardume

De hórridos males, de hórridas tristezas.

 

Pelas terríveis Fúrias instigado,

Lá sai do Inferno, e para mim se avança

O negro monstro, de áspides toucado.

 

Olhos em brasa de revés me lança;

Oh dor! Oh raiva! Oh morte!... Ei-lo a meu lado

Ferrando as garras na vipérea trança.


******


Vós, crédulos mortais, alucinados
de sonhos, de quimeras, de aparências
colheis por uso erradas consequências
dos acontecimentos desastrados.

Se à perdição correis precipitados
por cegas, por fogosas, impaciências,
indo a cair, gritais que são violências
de inexoráveis céus, de negros fados.

Se um celeste poder tirano e duro
às vezes extorquisse as liberdades,
que prestava, ó Razão, teu lume puro?

Não forçam corações as divindades,
fado amigo não há nem fado escuro:
fados são as paixões, são as vontades.

Bloguista

Livro Torna-Viagem

O meu livro Torna-Viagem - uma colecção de uma centena de crónicas escritas nas últimas duas décadas - é uma publicação na plataforma editorial bookmundo, sendo vendido por encomenda. Para o comprar basta aceder por via desta ligação: Torna-viagem

Arquivo

  1. 2024
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2023
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2022
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2021
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2020
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2019
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2018
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2017
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2016
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2015
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Contador

Em destaque no SAPO Blogs
pub