Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Nenhures

Nenhures

O "Babygro" político: Marcelo Rebelo de Sousa

a funda.jpg

Artur Portela (durante décadas conhecido como Portela Filho) morreu há pouco. Das minhas estantes paternas recuperei-lhe alguns livros, em particular estas colectâneas "A Funda", belo mostruário da década de 1970. Deste quarto volume (Editora Arcádia, 1974) retiro este texto, de Janeiro de 1974, um elogio a Marcelo Rebelo de Sousa. Será interessante 47 anos depois não só ler a memória daquele final do Estado Novo, mas também observar o actual presidente a partir deste texto :

O "babygro" político

Era o filho pródigo do Regime. / Fizera, no Direito, a ideologia, a família moral, o destino histórico. / Estava talhado, calibrado, destinado. / Não era um acidente - era uma raça. / Tinha, sobre a cabeça, a estrela. Na fronte, o halo. No olhar, a certeza. No sorriso, a sorte.

E quando passava, nos corredores pombalinos do poder, soltando a sua risada aguda, o seu gesto largo, todos os barões, acercando, cochichadamente, as cabeças, o seguiam com um olhar terno. / Era Marcello. / Era Rebello. / Era De Souza. / E, excessivamente, Nuno.

Foi o escândalo. / Foi o escândalo quando ele, recusando sob Martinez, a reprise, rechaçando, sob Dias Rosas, a tarimba, apareceu por sobre o ombro Pestana & Brito de Francismo Balsemão, a espreitar. / Era a fronda do Expresso. / Não quiseram crer. 

E, no entanto, era bem ele, a vivacidade Tim-Tim, a barba Trotsky, o olhar Harold Loyd. / E o riso fácil, a voz estaladamente metálica, a inteligência extravasante, o brilho incontrolado. / O próprio excesso. / O Regime empalideceu. / A Esquerda riu. E a 3ª Força, ela mesmo, sentiu, naquele Gotha revoltado, naquela lei de  Mendel às avessas, naquela Divisão Azul, um compromisso, uma má consciência, um lastro, uma trela. / Um chumaço. / Uma bala de madeira. / Uma injustiça.

Esperava-se uma imoderação. / Foi uma táctica. / O Regime habituou-se àquela perda. A Esquerda, um momento desperta, mergulhou na sonolência da sua dor. / E os próprios Liberais, por instantes irritados com o metal daquela voz, com a velocidade daquela análise, com a fome daquela super-alimentação política, soltaram, de alívio, um suspiro quando ele se sentou, Z. Zagallo, atrás de Francisco Balsemão.

De resto, que podia Marcello Nuno perante as figuras colossais dos campeões liberais? / Do Norte, chegava, moralmente gigantesco, Sá Carneiro. Do Sul, assomava, consciência viva da Universidade, Miller Guerra. João Salgueiro lançava, para a mesa, na sua luva, o peso inteiro da Sedes, Magalhães Motta movia todo um Congresso. Xavier Pintado desembaciava, do bafo do poder, as suas lentes poderosas. E Francisco Balsemão, de uma rotativa renitentemente Lopes do Souto, arrancava esse "tour de force" que eram 70 000 cópias do "Expresso".

E quando, de trás, da sombra, Marcello Nuno, lápis trémulo, soerguia uma qualquer sugestão, corria, em redor da mesa, um sorriso paternal. / Parecia ser o fim das mais belas esperanças. / O Regime enxugou, por ele, a sua última lágrima. / Fora o príncipe - era o pobre.

Como foi que aconteceu - sabem-no poucos. / Os Liberais, por instantes sob o fogo dos projectores, apagam-se. Um a um. Como lâmpadas de uma peça proibida. / Sá Carneiro é já um bronze a si próprio. A Sedes converte-se num Rotary de quadros. Magalhães Motta está pulindo, inutilmente, a tabuleta de advogado. Xavier Pintado perde o fôlego. E Francisco Balsemão faz Porsche.

Vai-se a ver - e quem está? / Está - quem o diria? - Marcello Nuno. / Só ele se move. Só ele existe. Só ele manobra. / Ele é, nas eleições, a única carta nova dos liberais. O seu único talento. A sua única voz forte e original. A sua única manobra. 

A 2ª página do "Expresso" é ele. A 3ª página do "Expresso" é ele. É ele que flirta com  a Oposição. É ele que desmantela aquele barão A. N. P. / Os títulos são ele. / Os itálicos são ele. / A manobra é ele. / Sá Carneiro faz grandeza. Miller Guerra faz pitoresco. Francisco Balsemão faz charme. / Marcello Nuno faz política.

Há, em tudo isto, a inteligência descompassad da imaturidade? / Há. / Há, em tudo isto, o intelectualismo, a abstracção, o jogo, o luxo, o revanchismo, o edipismo? / Há. / Há, em tudo isto, Freud e Júlio Verne, Luís XIV quando jovem e Douglas Fairbanks Júnior, José António Primo de Rivera e Mickey Rooney? / Há. 

Mas como é possível que a 3ª Força não tenha envergadura para absorver esta descarga eléctrica, para sublimar este escândalo de qualidade, para disciplinar este brilhantismo avulso e lúdico? / Não tem ela a sua disciplina ideológica, a sua hierarquia moral, a sua separação de poderes, o seu ministério sombra, a sua escrita em dia, a sua poeira assente, o seu espírito de seriedade, a sua mochila, o seu colete, o seu polimento? / O seu primeiro jovem turco vai logo a Ataturk? / Que é isto - uma força ou um terreno vago?

Os Liberais acabaram? / Não necessariamente. Mas já fizeram a sua adolescência histórica. / E ainda não sairam dela. / Isto que prova? / Prova que a 3ª Força é a impaciência da 1ª Força. / Prova que a política não é apenas uma generosidade mas também uma hereditariedade. / Prova que a vida política portuguesa se conta pelos dedos - e que a 3ª Força tem o seu Pulgarzinho. / Acontece com Marcello Nuno esta coisa cara aos monárquicos - a vocação política como bem moral de raiz. 

O pai Miller Guerra ofereceu ao filho Miller Guerra, talvez, um estetoscópio de brinquedo. / O pai Sá Carneiro ofereceu ao filho Sá Carneiro, talvez, uma toga de ganga. / O tio Balsemão ofereceu ao sobrinho Balsemão, talvez, uma rotativa de latão. / A Marcello Nuno deram, talvez, 99 000 quilómetros quadrados de esperança e dez milhões de bonecos de pasta. / É o que se chama - um "Babygro" político. 

Tem ainda outra vantagem. / Decisiva, essa. / O ser meu amigo. / E, claro, meu adversário.

Nota: Troquei os parágrafos utilizados pelo autor pela barra ("/") apenas para tornar o texto menos longo no suporte de blog.

 

A Super-Marta (feat. Artur Portela)

a funda.jpg

Os obituários de 2020 não deverão ter sido mais ricos e variados do que os dos anos anteriores. Mas talvez o ambiente pandémico me tenha feito mais atentar naqueles que findaram. Ou será da idade, isto de me ir vendo cada vez mais desprovido daqueles que me animam ou nos alumiam.

Um dos que morreram foi Artur Portela (Filho, como foi conhecido até ser avô e se ter insurgido contra a manutenção pública desse estatuto júnior). Oposicionista ao Estado Novo e depois julgo que próximo da área do PS. Nas estantes do meu pai estão alguns dos seus livros, dos quais trouxe 3 para este retiro confinado. Dois são volumes de “A Funda”, o 3º e o 4º (Arcádia, 1973 e 1974, respectivamente), recolhas de textos de opinião escritos entre 1972-4. São muito interessantes. É certo que são propositadamente textos de ocasião. Mas em muitos casos é espantosa a sua actualidade, e por mais do que por mera analogia (aliás, no 4º volume está o conhecido “O babygro político”, elogio a Marcelo Rebelo de Sousa – que aqui transcreverei se algum leitor o solicitar, pois não está disponível na internet). Mas também muito pelo que dá a conhecer, a nós mais-novos, do ambiente da “primavera marcelista” e das diferentes figuras que então assomavam.

Mas muito mais do que isso o que convoca é a verve, sarcástica, ferina de cruel. Sem quartel na sua elegância. Para usar este irritante termo que agora acampou na imprensa portuguesa, Portela (então Filho) “arrasava” ambientes e protagonistas – por exemplo José Hermano Saraiva, de tal forma que até me condoí do simpático celebrizado na tv.

Li os volumes neste final de Janeiro de 2021 – e, como sempre acontece quando lhe peço emprestados livros, em diálogo com o meu pai. É o período em que nos tornámos o país mais fustigado pelo Covid-19. Desapareceu o “milagre que é Portugal”. Expirou a imunidade promovida pela vacina da BCG. Descobriu-se que o governo não lê nem ouve as notícias internacionais, sobre “variantes inglesas” e outras … Explodiu uma corrida à célebre “atençãozinha”, umas vacinas para os amigos, tão mostrando o estado do nosso Estado … Ultrapassámos o Brasil de Bolsonaro mas a (tão competente) Mortágua não se indigna. Pior vamos que o reino da Suécia mas os próceres do PS calam a sua voz. Enchem-se os hospitais mas se em algum falta o oxigénio a culpa é do alarmismo da imprensa. Em suma, estamos confinados. E atrapalhados. E, tantos de nós, chorosos. Mas, dizem-nos, não nos cumpre criticar. Pois é hora de “unidade nacional”. E as críticas são “antipatrióticas”.

Pois durante este desatino, desnecessário, acima de tudo desnecessário…, tão fruto de incúria e incompetência, e tanto de inconsciência, fui dar uma volta ao rossio d’agora, o Facebook, a ver as modas. Ali encontro um enorme elogio – exactamente agora, quando isto está como está, depois de um ano disto – à nossa ministra da Saúde. “Super-Marta”, chamam-lhe! Chamou-lhe um, veterano bloguista. E logo a chamam milhares, todos os milhares, e muito são, que partilham o elogio, aplaudindo-o, aplaudindo-a.

Nem estupefacto fico. Pois logo me lembro de Portela – o tal que julgo ter sido próximo do PS, friso. O tal que sinto tão actual. Em Outubro de 1972 escreveu “O Príncipe da Rua do Século” (A Funda 3, Arcádia, pp. 161-163). O mote era um elogio publicado no “A Capital” ao Secretário de Estado da Informação e Turismo, a propósito do 4º aniversário da instauração dessa secretaria de Estado e da nomeação do seu responsável político. Deste, César Moreira Baptista, dizia o jornal tratar-se de príncipe que lá pontifica” e que “conquistou honras de generalato”, entre outras pérolas similares. Portela Filho – com uma nele inusitada placidez e até alguma simpatia (porventura irónica, seria necessário conhecer os meandros daquele tempo para descodificar por completo) pelo membro governamental – investiu impiedoso sobre o articulista:

O dr. César Moreira Baptista não é responsável pelo fundo de “A Capital”. É uma justiça que lhe devemos. Ponho até sérias dúvidas a que se sinta confortavelmente na moldura surrealista que “A Capital” lhe propõe – um Príncipe doublé de general que está servindo uma República.

E eu (…) que sou, definitivamente, contra toda e qualquer espécie de censura – imagino com alguma benevolência o esforço do Secretário de Estado em ultrapassar a tentação de fazer suprimir aquele editorial.

Esforço que resultava de duas contingências: o facto do Secretaria de Estado ser o homem que está levando por diante, no seu campo da Informação, a chamada política liberalizadora, e o facto de o editorial não ser contra mas, embaraçadoramente, dramaticamente, a favor.

É que o Secretário de Estado, seguramente homem de espírito, sabe que há uma coisa mais comprometedora do que um ataque bem feito – é um elogio grotesco.

E isto porque o ataque bem feito enobrece – o elogio grotesco diminui. O ataque bem feito produz o diálogo – o elogio grotesco produz o rubor. O ataque bem feito suscita a atenção – o elogio grotesco suscita a gargalhada. O ataque bem feito merece-nos. O elogio grotesco – compromete-nos.

É que o Secretário de Estado, inevitavelmente homem do mundo, sabe que, se somos um pouco responsáveis pelos nossos adversários, somos muito responsáveis pelos nossos aliados.

O que se torna tremendo quando um dos nossos aliados é o autor do fundo de “A Capital”. Eu serei adversário político do dr. César Moreira Baptista, mas não creio que ele mereça a violência que é este fundo.

Não creio que ele mereça o título de Príncipe. (…)

pela razão, simples e definitiva, de que esse título pertence, inteiramente, ao autor do fundo de “A Capital”. O Príncipe do Jornalismo. O Príncipe da Rua do Século. Manuel José. Homem. De Mello.

Hoje, neste confinamento de facto doloroso, cumpre a cada um encontrar um Manuel José Homem de Mello, reconhecê-lo, reconhecê-los. E, infelizmente, a alguns (muitos, de facto) serem-no.

A piedade

Bartleby.jpg

Começo o confinamento - que afinal não o é tamanha a confusão portuguesa, percebi-o depois - com um regresso ao Bartleby de Melville. 30 anos depois da última leitura, dizem-me os gatafunhos que deixara no livro. O mesmo impacto com este "I would prefer not to" a tudo e todos, aparentemente sem sentido, sem razão, aquela apneia no langor, o sem rumo nada errante da vida da era d'agora mas mais ainda deste por ora ... E depois a desapiedade:

As minhas primeiras emoções haviam sido de pura melancolia e da mais sincera piedade; mas à medida que o desamparo de Bartleby crescia e se desenvolvia na minha imaginação, essa mesma melancolia transformou-se em medo, aquela piedade em repulsa. Tão verdadeiro ele é, e tão terrível também, que até certo ponto o pensamento ou o espectáculo de miséria ganha o melhor dos nossos sentimentos; mas, em certos casos especiais, para além desse limite, não. Erram quantos afirmam que tal se deve, invariavelmente, ao egoísmo inerente ao coração humano. Antes tem a origem num certo desânimo, incapaz de remediar um mal excessivo e orgânico. Para um ser sensível, a piedade é, não raras vezes, sofrimento. E quando finalmente entende que uma tal piedade não pode levar a uma efectiva ajuda, o senso comum obriga o espírito a ver-se livre dela.”

Com Cocteau

41mk5YD7ngL._SX321_BO1,204,203,200_.jpg

No final desta semana perguntam-me porque me irrito eu, e tanto, com o palrar comuno-racista do dr. Ba, com os profissionais de jargão, crentes nas "causas" e sedentos de benesses, com os deslumbrados consigo mesmos que me vêm dar lições sobre história do escravismo, colonial ou de lusotropicalismo? Porque me eriço com o atrevimento de sociólogo estrangeiro que cá vem, aldrabando termos, convocando a nossa "tribalização"? Porque anseio vergastar os efebos que "intervencionam" a pobre estatuária pública - mas nunca quadros ou esculturas arrecadadas, qu'isso lhes fiaria mais fino, e a tanto não lhes chega a "militância"? Porque me enjoa tanto este tão pífio " N'Ámérica" a la Xutos, mas sem o Cabeleira a esgalhar?

Há décadas Cocteau escreveu: "La France est un pays qui se dénigre. (...) L'essentiel est qu'il ne se constate pas. Ce qui se constate se neutralise." Cada um que interprete como quiser - de facto, é para isso que servem as citações. Eu interpreto "à minha maneira", que este denegrir é o culto da vacuidade. E sigo ciente que este algures é Portugal. E que os EUA estão alhures. Constato isso, por assim dizer.

As eleições americanas

presidentialElection.png

Ralf Dahrendorf, François Furet, Bronislaw Geremek conversaram sobre o futuro da Europa após a queda do comunismo, durante o Inverno de 1991/1992, com a moderação de Lucio Caracciolo. Trinta anos passados é interessantíssimo (re)ler este "A Democracia na Europa" (Presença, 1993), recordar as perspectivas sobre o remoldar da União Europeia e da Europa, sobre o papel dos intelectuais, da cultura na construção e manutenção da democracia, etc. É notável a clarividência e a densidade destes três enormes intelectuais liberais (aqui, aos seus  nomes juntei ligações para artigos elucidativos sobre a dimensão de cada um deles). E será também importante recordá-los para comparar com os dislates constantes que se vêm lendo nos últimos largos anos, largados por "liberais" lusos, meros idólatras do mercado e de um profundo autoritarismo (reaccionarismo, dizia-se), que não passa de afascistada aversão à democracia. E, sempre, à cultura e aos intelectuais. Quem leu blogs ditos "liberais" saberá do que aqui falo, desse boçalismo inculto.

Mas o que trouxe este livro ao blog foi estar a folheá-lo no dia do último debate das campanha eleitoral americana, que encheu as estações televisivas nacionais e internacionais. Pois atentei neste meu velho sublinhado.  O qual, mutatis mutandis, muito descreve o que se passa naquele país. 

Abordando a queda do comunismo soviético e europeu disse Geremek (pp. 47-48): 

"Gorbachev é um dos factores decisivos para se compreender a implosão do império soviético. Um dia, estava eu a falar com Jakovlev, conselheiro e amigo de Gorbachev e considerado o pai espiritual da perestroika. Perguntei-lhe: "Como é possível que, a um dado momento, você e Gorbachev tenham decidido empenhar-se numa empresa tão perigosa?" "Trata-se de um facto biográfico", respondeu-me, "eu tinha dito certas coisas que não agradavam aos meus camaradas, que me mandaram para o exílio no Canadá, como embaixador. Um dia, Gorbachev foi visitar o Canadá. Fomos passear para o campo para podermos falar livremente, sem sermos controlados pelos microfones da KGB. E vimos que estávamos de acordo. A crise do nosso país era muito grave, e o contacto com a realidade do Ocidente, com as suas proezas económicas, tinha-nos convencido de que era necessário reformar profundamente o nosso sistema."

"No entanto, depois disso, houve sobretudo um facto que nos fez compreender a necessidade da perestroika. No Comité Central do PC havia um dirigente particularmente imbecil, que não sabia nada de nada, e que era utilizado quando não havia nada de importante a fazer. Chamava-se Chernenko. Ora, depois da morte de Andropov, é ele, Chernenko, que é eleito para secretário-geral do partido. Um homem como Chernenko à cabeça de uma das duas superpotências do mundo! Era intolerável! Se um sistema coloca um homem como Chernenko no seu topo, isso significa que esse sistema está muito doente. E foi por isso que nós, Gorbachev, eu e alguns outros, decidimos que chegara a altura de reagir."

Lobos

Estes últimas dias, as visões e argumentações, fizeram-me lembrar este "Lobos" de Alexei K. Tolstói. Vasculhei as estantes, encontrei. Partilho-o ...

 

Quando, desertas as aldeias, 

caladas as canções do povo, 

se levanta, encanecida, 

sobre o pântano a neblina: 

das florestas, sorrateiros,

um após outro, pelos campos, 

saem os lobos para a caça.

 

Dos valentes, sete andam juntos, 

e à cabeça a comandar

vai o oitavo que é branco.

O cortejo misterioso

pelo nono lobo é fechado,

deitando sangue da pata,

atrás de todos a mancar.

 

Não há nada que os assuste.

Se acaso vão para a aldeia,

nem o cão lhes há-de ladrar,

e o camponês só de vê-los

nem se atreve a respirar,

murmura a sua oração,

fica mais branco que a cal.

 

Contornam a igreja os lobos,

por largo e sorrateiramente.

Entram para o quintal do padre,

as suas caudas remexendo.

À porta da taberna, à coca,

espetam todas as orelhas: 

há blasfémias lá dentro?

 

Olhos como velas, os dentes

mais aguçados que sovelas.

Carrega lá treze metralhas

com pêlo de cabra, amigo,

sem medo, atira a matar.

Primeiro cairá o branco,

trás dele os outros vão tombar.

 

E quando na aldeia o galo

acordar quem ainda dorme,

nove velhas, e todas mortas,

verás espalhadas pela erva.

A da frente é a mais grisalha,

a de trás coxa, e todas nove 

em sangue ... Valha-nos Deus!

("Lobos", de Aleksei K. Tolstói, 1840. Tradução de Nina e Filipe Guerra. Trancrito de Rosa do Mundo: 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim, 2001, pp. 1066-1067).

Sociedade por quotas

campos.jpg

Quando era jovem foi a era do Pessoa. Ou melhor do pessoísmo, dos pessoanos e seus seguidores. Não sei porquê, terá sido o Portugal democrático (e assim país muito mais letrado ou a tornar-se letrado) a absorver o poeta. Ou por causa de coisas mais pequenas, as vasculhas do célebre baú, as inúmeras publicações (que edição escolher?, ra's parta!), os estudos em catadupa, os filmes sobre e a propósito, as ficções em torno ... enfim, todos, ou quase, tinham que ter "o seu Pessoa", nisto do desassossego leitor. As coisas mudaram, talvez porque a obra de Pessoa foi "fixada", canonizada. Ou porque as pessoas mergulharam noutras coisas. E assim, ao contrário dos anos 80s e até 90s, é possível cruzar algumas semanas sem que alguém nos venha falar do "seu Pessoa". Nisso um tipo também se distrai e dedica-se a outras coisas, o Sporting, romances novos, Marcelo Sousa, o chef Sá Pessoa, sei lá, uma miríade de ofertas que a vida nos traz ...

A caminho da casa de banho, no corredor, está a minha estante de literatura portuguesa. Caiu-me isto no regaço, sobre a pança ...

 

 

Não! Só quero a liberdade!

Amor, glória, dinheiro são prisões.

Bonitas salas? Bons estofos? Tapetes moles?

Ah, mas deixem-me sair para ir ter comigo.

Quero respirar o ar sozinho,

Não tenho pulsações em conjunto,

Não sinto em sociedade por quotas,

Não sou senão eu, não nasci senão quem sou, estou cheio de mim.

 

Onde quero dormir? No quintal...

Nada de paredes — ser o grande entendimento —

Eu e o universo,

E que sossego, que paz não ver antes de dormir o espectro do guarda-fatos

Mas o grande esplendor, negro e fresco de todos os astros juntos,

O grande abismo infinito para cima

A pôr brisas e bondades do alto na caveira tapada de carne que é a minha cara,

Onde só os olhos — outro céu — revelam o grande ser subjectivo.

 

Não quero! Dêem-me a liberdade!

Quero ser igual a mim mesmo.

Não me capem com ideais!

Não me vistam as camisas-de-forças das maneiras!

Não me façam elogiável ou inteligível!

Não me matem em vida!

 

Quero saber atirar com essa bola alta à lua

E ouvi-la cair no quintal do lado!

Quero ir deitar-me na relva, pensando "Amanhã vou buscá-la"...

Amanhã vou buscá-la ao quintal ao lado...

Amanhã vou buscá-la ao quintal ao lado...

" Amanhã vou buscá-la ao quintal"

Buscá-la ao quintal

Ao quintal

ao lado...

Contos do Insólito

maup.jpg

Não lia Maupassant há décadas - julgo que nunca o tinha feito em português, e neste Contos do Insólito a tradução [de João Costa] funciona bem, pelo menos para um conhecedor sofrível de francês, como eu sou. Surpreende-me encontrar-lhe tamanha novidade nos contos, frescos, contundentes, finos, sob uma ironia deliciosa (que ilustro em trecho que abaixo transcrevo). E uma absoluta actualidade: por exemplo, o tema do conto "O Horrível" é a vulgarização da desgraça, a sua banalização quotidiana. Desvendando como da mescla de atrocidades mundiais que nos submerge se constitui, por critérios até desconhecidos, o excepcional que realmente sentimos como "horror", afinal os factos que são até aparentes minudências.

maupass.jpg

"O que há sobretudo de encantador para um rapaz solteiro em ter por amante uma mulher casada é que ela lhe dá um interior sereno, amável, em que todos se ocupam de nós e nos apaparicam, desde o marido até aos criados. Encontramos ali reunidos todos os prazeres, o amor, a amizade, até a paternidade, a cama e a mesa, o que constitui enfim a felicidade da vida, com a vantagem incalculável de podermos mudar de família de vez em quando, de nos instalarmos alternadamente em todos os meios, o Verão, no campo, em casa do operário que nos aluga um quarto, e o Inverno em casa do burguês, ou mesmo em casa da nobreza, se tivermos ambição.

Possuo mais uma fraqueza: é gostar dos maridos das minhas amantes. Confesso até que alguns esposos comuns ou grosseiros me fazem repugnar as suas mulheres, por encantadoras que elas sejam. Mas quando o marido possui espírito ou encanto, fico infalivelmente loucamente apaixonado. Tenho o cuidado, se romper com a mulher, de não romper com o esposo. Arranjei assim os meus melhores amigos; e é deste modo que verifiquei, inúmeras vezes, a incontestável superioridade do macho sobre a fêmea, na raça humana. Esta proporciona-nos todos os aborrecimentos possíveis, faz-nos cenas, censuras, etc.; aquele que teria mesmo o direitos de queixar-se, trata-nos pelo contrári como se fôssemos a providência do seu lar."

(Guy de Maupassant, Misti, Recordações de Um Jovem Solteiro [1884], Contos do Insólito, Ulisseia, 2010, 69-70)

 

 

A Festa do Avante e a degenerescência de Pacheco Pereira

avante.jpg

(Festa do Avante, 2020: ninguém para lhe dizer "ó camarada!, toma lá uma T-shirt que não parece bem estares assim vestido ...")

O comentador Pacheco Pereira, conhecido do "grande público" pela participação num programa televisivo de comentário político reinstalado após pressão do secretário-geral do PS, no qual agora ombreia com a adjunta deste, apresentado numa estação propriedade de um conjunto de empresas portuguesas (e de figuras gradas dos espectáculos populares, como Cristina Ferreira, Pedro Abrunhosa e Tony Carreira), publicou em 5.9.2020, no "Público", jornal propriedade do grupo SONAE, este naco: "Mas a fúria actual com a Festa do Avante! é tudo menos inocente. Tem uma clara motivação política, longe de qualquer preocupação com a pandemia ( ...) 

No recinto [da Festa] são comuns formas de reconhecimento tribal entre “camaradas”, quer através das bancas de comida, objectos, artesanato local, quer inclusive com as delegações estrangeiras de outros partidos comunistas e movimentos revolucionários. A Festa é ao mesmo tempo provinciana e cosmopolita, e transmite aos que a visitam esse sentimento de que fazem parte de uma comunidade nacional e de um movimento internacional, com amigos e inimigos. (...) 

[A raiva contra a Festa do Avante] insere-se numa clara deslocação para um radicalismo de direita que se tem vindo a acentuar em várias áreas da sociedade portuguesa, e de que o Chega é apenas a ala populista mais visível, e as redes sociais o viveiro do ódio, mas que encontra expressão numa elite que está órfã do poder, apoiada em think tanks, subsidiados por grupos empresariais, com um peso crescente na comunicação social. Repetirei de novo que uma parte importante desta deriva vem da impotência, mas com o tempo essa impotência transforma-se em raiva. A vida política portuguesa vai ser crescentemente perigosa, num caminho que encontra em Trump um inspirador não nomeado por vergonha, mas real.  ( ...)".

Há três décadas o comentador foi meu professor, e muito bom nisso. Há uma dúzia de anos esteve em Maputo, onde, gratuitamente e apenas por respeito, fiz o possível por ajudar a organização que ali o levara a enquadrá-lo o melhor possível. Espero agora nunca mais me cruzar com o traste que lhe ocupou o corpo. E a mente.

Adenda: há meses um holigão fez a saudação fascista num comício do prof. Ventura (sobre isso escrevi isto). Mas não apreciar os javardos que se passeiam com o Estaline na pança já é ser adepto do Trump, jpp dixit ... 

 

O Cabricionário de Leite de Vasconcelos

boca01a.jpg

Sobre o jornalista e escritor Leite de Vasconcelos (Arcos de Valdevez, 1944 - Maputo, 1996) já aqui deixei uma pequena nota. Mas recordo este "Pela Boca Morre o Peixe", o conjunto das crónicas finais do autor, publicadas na imprensa moçambicana. Já doente, Leite de Vasconcelos não descansou. A verve era abrasiva, denunciando o que considerava desmandos estatais, afrontando a via liberal assumida pelo seu partido Frelimo. E criticando as intervenções estrangeiras - um dos seus alvos era a implantação das transmissões da RTP-África, que considerava afrontarem a soberania e serem instrumento de neo-colonialismo. De facto, 25 anos depois, podemos dizer que eram algo exageradas as suas opiniões. E, mais do que tudo, que não acompanhava a internacionalização das transmissões televisivas, já então em curso. Mas o relevante é a memória que este livro traz, da sua coragem (o que ele dizia do então ministro do Interior), mas também como vibrante exemplo da postura intelectual dos intelectuais da I República, os que se poderão dizer "samoristas". 

Nisto tudo, Leite de Vasconcelos utilizava o sarcasmo de forma agudíssima. Transcrevo aqui o seu "Cabricionário", um dicionário da era do "cabritismo", esse corolário do ascensão da realidade de que "o cabrito come onde está amarrado", o dito tão generalizado em países africanos. Transcrevo-o não apenas para lembrar a verve imparável de Leite de Vasconcelos. Nem para aludir ao poder moçambicano. Mas para (me) lembrar que o "cabritismo", e esta sua enciclopédia, não são um fenómeno moçambicano ou africano. Pois o cabritismo é global, como também qualquer português poderá perceber.

Cabricionário

AC - Acrónimo polémico. Alguns especialistas consideram significar "Antes do Cabritismo"; outros defendem que representa "Antes do Caos". Prefere-se o consensual ANE - Antes da Nossa Era.

Al Cabrone - Personagem da mitologia norte-americana, patrono da liberdade de associação cabrital em grupos informais designados "gangs" e do direito de marrada. 

Bode espiatório - Cabrito que faz a segurança dos pastos.

Bode expiatório - Um cabritinho ainda de cornadas mansas que se apresenta à opinião pública em vez de um bode em vias de ser apanhado com os dentes no capim.

Bodeado - O mesmo que falido. Situação normal de empresa ou sector após seis meses de gestão cabrital. 

Bodismo - Principal religião cabrital, fundada por Judas Chibo, dito o Mééssis, que ensinou o princípio moral "faz aos outros antes que eles te façam a ti".

Bodo - Dinheiro, alimentos, roupa e outras ofertas que a comunidade internacional dá aos pobres, mas enriquece os cabritos. 

Bodum - Cheiro activo e característico de bode sem cabresto em busca de pasto.

Cabra Cega - Jogo infantil através do qual se ensina às crianças o princípio moral "morder sem ver a quem".

Cabraão - Prefiguração do mal. Personagem que preferiu matar um cabrito a imolar uma criança.

Cabriola - Cambalhota ideológica característica do cabrito.

Cabriolé - Carro de cabrito, normalmente do topo de gama e pago pelo Estado.

Cabritalismo - Sistema económico e social caracterizado pela estatização dos pastos para usufruto privado. A política de distribuição faz-se segundo o princípio "de cada um segundo a paciência a cada um segundo o tamanho da corda".

Cada pasto um posto - Lema que resume a política de pleno emprego na administração pública cabrital.

Capricórnio - Signo do Fodíaco sob o qual está tudo zodido.

Conselho de cabritação - Grupo nomeado para digestão do pasto público.

Dente de SISE - O que o cabrito arreganha quando vê o pasto em perigo.

Escabroso - Qualidade ideal dos actos da administração pública cabrital.

Forrobodó - Fase superior da organização política e social do cabritalismo, por isso também designada de Forrobodismo por certos teóricos maximalistas como Cabrando Mèèbuzi e Cabrael Bodúni.

Jacobro - Personagem mítica, filho de Cabraão, patrono das finanças e das alfândegas.

Manual Quelónio - Também chamado Jesus Quisto pelo jornalista Angústias de Cabralho. Dotado de carapaça à prova de vergonha, dirige bandos fardados que cometem assaltos à mão armada e à vista desarmada. 

Ministro sem pasto - Governante descontente.

Pasturiente - Dirigente pronto a despachar favoravelmente um pedido de pasto público.

Pé de cabra - Antigo instrumento de arrombador. Símbolo oferecido pelo município da cidade cabrital aos visitantes ilustres. 

Rendimento per cábrita - Índice económico. Obtém-se dividindo o rendimento anual do cabrito pelo número médio mensal das suas amantes.

(27.5.96).

Quem somos

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Em destaque no SAPO Blogs
pub