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Nenhures

Nenhures

No hospital

A imagem pode conter: planta, flor e ar livre

Daqui a um mês farei 56 anos! Sou já velho e mais o pareço. Vim à capital acompanhar amigo a uma consulta hospitalar, coisa do ombrear naqueles momentos de "ai o caraças, vamos lá ver o que é isto...". Mas ... os acompanhantes não podem entrar no edificio, ainda ordens da DGS, dizem-me (depois, alguém me dirá que é o critério do hospital a funcionar. Hospital privado, entenda-se ...). Estou por isso, apesar tais meus gastos e visiveis 55 anos, há duas horas sentado nesta esquina. O Sol não está inclemente e não chove, é a minha sorte.

Sorte também têm os turistas que voam para Faro e Porto, como leio. E os nossos que podem seguir nas TAPs todos juntinhos, porque olham para a frente, Freitas dixit. Sorte têm também os que vão ao Coliseu com o PM e a ministra da cultura ver os cómicos que nunca ferem os poderes. Todos mais ou menos juntos. E "mascarados", como eu estou.

Azar têm os putos a quem o Presidente Sousa - esse mesmo, aquele que bem depois da OMS ter apelado à suspensão de congregações ainda recebia bandos de criancinhas vindas de zonas infectadas e seguia para festividades municipais -, a quem Sousa, dizia eu, ralha porque planeiam festas. Vida. E azar tenho eu, com duas salas de espera vazias a duas braçadas de mim. Neste Estado de incoerentes. Raios partam estes tipos que já me doem as costas ...

A Torres Vedras de Nuno Rebelo

Esta atividade integra o programa Emergência Cultural Torres Vedras 2020, organizado pelo Teatro-Cine de Torres Vedras, nisso cruzando esta era Covid-19. 

É um trabalho do Nuno Rebelo (Texto, video, música, sonoplastia e grafismo) - que alguns conhecerão por via do grupo musical Mler Ife Dada - em colaboração com o seu filho Igor Brncic Rebelo (voz e desenhos). Diz o Nuno: "Agora mesmo é aqui que estou é um vídeo autobiográfico da minha vida em Torres, onde nasci em 1960 e onde vivi até 1975. Faço-o a partir dos meus atuais 59 anos e do sítio em que me encontro, confinado como todos por causa do vírus, no meu caso em Barcelona."

É uma pérola. Rara. Linda. Que me encantou. Vede, que decerto gostareis.

 

Uma imperial, dois meses e meio depois

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Dia soalheiro, parei no rossio de uma vila e entrei numa pastelaria fina. Dois meses e meio haviam passado desde a última vez. Levantei a máscara, bebi uma imperial. Estava gelada e com o gás necessário. Animou-me.

(Leio, neste fim de tarde, que um qualquer taberneiro foi detido pela "guarda" por não cumprir as regras de distanciamento das mesas na sua tasca. Entretanto a dra. Freitas, directora da saúde - a do "visitem os idosos", nunca esquecer - diz que podemos viajar juntinhos nos aviões porque vamos de máscara e olhamos para a frente.

E as pessoas gostam desta gente.

Fim de tarde. Duas pedras de gelo em copo cheio de Glenlivet. Pois há que criar ânimo para aguentar esta gente. Entenda-se, os que gostam desta gente)

Covid-19 português: “P’ra melhor está bem, está bem, p’ra pior já basta assim”

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(Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo, Sete Rios, Lisboa, Abril de 2020; inscrição recente no prédio arruinado que foi sede da escola da PIDE-DGS, incidência quase certamente inintencional dado que essa memória não está sinalizada no local.)

Aquilo do estar confinado foi uma era insone. Aqui em Nenhures deu-me para escrever sobre o que se passava alhures. Por isso escrevi um texto sobre o Covid-19 em Portugal, a minha versão. Uma desnecessidade de 42 páginas. Agora como parece que tudo já é passado, nos disseram para regressarmos à vidinha, botei o que escrevi, para o caso de alguém ter paciência para o ler. Aqui fica a ligação para o texto: 

“P’ra melhor está bem, está bem, p’ra pior já basta assim”: o capitão MacWhirr e o Covid-19"

 

O fim do Covid-19

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Tenho marcação para o barbeiro (sublinho, barbeiro, não cabeleireiro) para depois de amanhã, obtida por intermédio de amigo na passada quinta-feira. Entrarei então no pós-covídio, nisso de gente estranha a mexer-me. Não que me agrade, eu não sou um "liberal epidemiológico" - ainda se lembram da expressão?, tão antiga não é? do milénio passado parece, mas tem só dois meses. Que dirão agora esses patetas encartados, doutores, Srs. professores, colunistas empertigados, qu'afinal os tipos da "imunidade de rebanho" não foram os brexiteers ou aparentados, mas o brejnev bielorusso, o olaf palme d'agora e o camarada Ortega, "alterglobalistas de todo o mundo, uni-vos"? Os mandarins, os avençados, dois meses depois? Nem piam, botaram as asneiras, doutorais & militantes, empertigados e analíticos, e seguem agora como quem não quer a coisa, a menear o traseiro ... ("ai Zé, lá estás tu, a ser desagradável, deixa lá os pobrezinhos", diria a Senhora minha Mãe se estivesse aqui em Nenhures, e juntaria "que mau feitio, pareces o teu pai").

Enfim, mas o que me traz aqui é outra coisa. O Estado diz que já posso ir ao baeta, e vi na tv ministros e outros (o dr. Rodrigues, vencido que foi o fascismo, a investida dos pides de Alcoentre e tudo, também apareceu, sentado à mesa da tasca, com companhia importante) em restaurantes e cafés. E tenho duas dúvidas, antes de sair à aventura, a este baeta e à tasca. Espero que aqui me possam elucidar:

1) Estando um tipo de máscara no barbeiro não se lhe armazenam os cabelos cortados entre a boca e o nariz? Não provoca sessão espirral, pânico covidiano alheio, "Aqui d'el-DGS", "Ó do INEM"? Que fazer para obstar a essa situação?

2) Como é que um gajo bebe a bica (ou a imperial) com a máscara posta? Dão uma palhinha, dessas que a ecologia contesta?

Dois meses confinados: rescaldo

(Lou Reed Live, "Vicious")

Daqui a pouco, a 13.5, cumprirei dois meses confinado aquém-Tejo, em magnífica companhia anfitriã. Quero partilhar alguns momentos cruciais deste excêntrico período:

1. Tenho 55 anos e está a tocar, bem alto, o cd "Lou Reed Live".

2. Estreei-me no focinho do porco e nas caras de bacalhau. A minha ética e o meu palato aprovaram.

3. Passei imenso tempo com a minha filha. Julguei que ser pai é a melhor coisa do mundo. Mas agora mesmo, a propósito de um desgraçado filicídio, aprendi na facebookpedia, com doutos lentes, que a família é um mero e vil mito afectivo que, sob tutela do Estado capitalista, reproduz as (exploratórias) diferenças sociais. Voltei a 1983, àquele inicial ISCTE. E duvido se não há gente confinada desde então ...

4. Perdi o meu nome: (ex?)amigos, da geração dos assistentes dos reedfeet dos 80s, desnomearam-me quando me irritei com a ignomínia de me dizerem culpado pela disseminação do Covid-19 em Moçambique. E que pagasse por isso. Falando sem rebuço? Brancos a comprarem o espaço que ninguém lhes vende. Eu estou numa quinta, cuspo para o chão ... (é para ti, Isabel, que eu não desnomeio as pessoas).

5. O vil dr Vitor Gaspar passou 850 milhões de euros ao banco do amigo do prof. Cavaco Silva e o dr. Passos Coelho fingiu que nada sabia disso. Nós, na esquerda, manifestámo-nos contra este neoliberalismo.

6. Os liberais (que significa "fascistas" no linguajar actual dos académicos da esquerda) suecos, bielorussos, nicaraguenses e brasileiros, não confinaram a população.

7. A economia portuguesa desde os 1960s que não estava tão bem, segundo um mandarim (és tu, João, e eu estou numa quinta, escarro para o chão).

8. O Queen Margot não aumentou de preço e a cerveja do Lidl é bebível se bem gelada.

9. A "Vicious" ainda mexe comigo ...

10. Um dia destes desconfinar-me-ei. A ver se chegado além-Tejo não me deparo logo com um mandarim.

Taça Covid-19?

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Acaba hoje o mês e meio de "estado de emergência" proclamado pelo presidente Sousa. O qual foi decidido sem pedido governamental e mesmo com o relativo desacordo do PM, que implicitou a sua desnecessidade. Convém recordar que Sousa tomou essa iniciativa para "recuperar terreno" na popularidade, depois da sua patética clausura, durante a qual se entreteve no "gozo fininho" da lida doméstica. Veio depois para o "gozo grosso" de exagerar a suspensão de direitos, num querer mostrar-se. E este inaceitável final, culminado ontem, mostra bem o vácuo que (des)anima esta presidência.

Belém, para adornar o seu percurso, gaba-se agora de um telefonema laudatório de Trump. E reina por aí uma saudável descompressão, pois "isto" não correu tão mal como o tememos. Até já se foi para a Alameda, ainda que sem patrocínio da Sagres. Mas convirá lembrar algo que acabo de ler: somos o 12º país com mais de meio milhão de habitantes com mais mortos; somos o 10º país da UE com mais mortos per capita. Ou seja, por meneios que queiram fazer convém lembrar: a taça Covid-19 que nos querem fazer crer ser nossa? Nada disso. Muito infelizmente.

É certo que muitos quererão gozar com o exemplo, por pobres razões clubísticas, por politiquice ou, aqui no DO, por lavourismo. Mas dou-vos um exemplo, para ilustrar o que realmente se passou: no dia 5 de Março o Sporting contratou o treinador do Braga pagando para isso uma quantia milionária, algo que foi motivo de grande polémica (ainda se falava em tais coisas, na imprensa e entre o público). A Itália estava já devastada, a Espanha começara o seu purgatório. Mas o Estado português calava-se, de tal maneira que os grandes agentes económicos seguiam como se nada fosse, a imprensa falava da "bola" e o povo assistia. Insisto, pode-se pegar neste exemplo e gozar com o clube, seus dirigentes, etc. Mas se se deixar esse rasteiro estatuto, se se ascender a cidadão? Então lembra-nos-emos que o Estado (e o seu palrador presidente) estava calado sobre a matéria, atarantado. Não foi capaz de sinalizar os cidadãos e os grandes grupos económicos do que se aproximava - e este exemplo, tão mediático, da excêntrica e polémica contratação de Amorim é grande mostrador disso mesmo. 

A memória é curta, e está a sê-lo. Estou confinado numa quinta, num grupo de famílias amigas. Eles encerraram-se a 6 de Março, no dia seguinte ao anúncio de Amorim no Sporting. Eu vim depois pois esperava a minha filha, que estuda em Inglaterra. Ou seja, estes meus amigos encerraram-se - apenas abrindo portas para nos acolher, o que nunca esquecerei, ainda para mais por ter sido naquela época tão angustiante - exactamente no dia em que Espanha fechou os lares de terceira idade e a nossa directora geral da saúde nos aconselhou a "ser solidários" e a visitar esses mesmos lares. Lembrai-vos disso? Se sim eu pergunto: quem morreu e onde vivia?

Assim, Taça Covid-19? Trump telefonou? Deixemo-nos de coisas, estes tipos estiveram a dormir na forma. Poupem-nos aos auto-elogios.

(E espero mesmo que a comentadora "Graça" aqui regresse para me chamar "energúmeno" de novo. E eu desta vez responder-lhe-ei. Num mero "quem morreu? onde?") 

 

As "celebrações" do 1º de Maio

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Hoje, 1º de Maio e manifestações por aí. Tal como houve celebrações "em sala grande" e sem "mascaradas" no 25 de Abril. Então é dia para recordar esta postura de Mattarella, o presidente italiano, celebrando nesse mesmo 25 de Abril o 75º ano (número ainda mais simbólico) sobre a libertação italiana na II Guerra Mundial. Ou seja, o dia da liberdade, da democracia, do fim do jugo nazi-fascista. E da paz. Fazendo-o de modo tão mais simbólico, tão mais solidário, tão mais cidadão, tão mais democrata. Tão mais respeitador. E tão mais inteligente. Do que este paupérrimo duo Rodrigues-Sousa na festa chocha de São Bento e nas arruadas de hoje.

Porque precisa esta "esquerda" instalada, cinquentona, sexagenária, septuagenária, destas festividades? É um potlatch de incúria intelectual. Revivem um panteão risível, entre louvores aos múltiplos itens do "movimento comunista" e aquilo a que se chamava "terceiro-mundismo", agora dito "pensamento abissal". Utilizando como matéria-prima um grupo seleccionado, pouco orgânico, de militares apolitizados na sua maioria, e que pensaram consoante as suas circunstâncias de época. Disso amputando outros, que não correspondem aos desejos desta gente de agora, já apenas afectivos pois, de facto, mera disfunção ideária. É um ritual que serve para reforçar a "amnésia organizada" sobre a revolta de Abril e a revolução que se lhe seguiu. Manobra que lhes permite dizer, nas outras 51 semanas, todos os que não se revêm nesse vetusto imaginário de radicalismo marxista como "fascistas", "inimigos da democracia", "salazaristas". Não há outra razão para a parvoíce cerimonial desta semana. 

Assim a "vacinada" e "desmascarada" boçalidade de Rodrigues, acolhida pelo pusilânime Sousa, não só se contrapõe a esta simbólica grandeza de Mattarella, ali só a celebrar a queda final de Mussolini/Hitler. De facto, as patéticas manifestações (ditas, hipocritamente, celebrações) de hoje e a cerimónia de 25 de Abril servem para nos dizer, aos imunes ou convalescidos do apego totalitário, como "fascistas". A fronteira é fluída, mas cruza ali ao PS, puxada à "esquerda". 

Este ritual, falsificador da vida portuguesa, sobrevive nos dislates. Sempre desculpados pelo "afecto memorialista" com a "liberdade", com a (nossa) "juventude". Todos os anos se revive essa parvoíce. Nem falo da absurda capa de hoje do "Público", que é onde leva a patetice misturada com uma inenarrável candura, e a querer-se interventiva ...  Agora um bom e antigo amigo enviou-me um filme associando o novo líder do partido demo-cristão, um puto de 30 anos, com o salazarismo. Respondi-lhe, entre homens, invocando genitálias e "imoralidades" sexuais. Uma querida amiga chamou "Sua Excelência" ao abjecto terrorista assassino Carvalho, fui suave na reacção (e nem falei na piroseira) mas presumo-a ofendida. E pelas redes sociais abundam os dislates louvaminheiros do mesmo tipo. E não só cá: no mural de um intelectual moçambicano que, recorrendo a codiciosas demagogias textuais, entende dever ensinar-nos como viver,  um demo-cristão português é invectivado de fascista, neo-nazi, homossexual, (voz de) colono. E, para abrilhantar a festa, de branco. E comunistas portugueses - brancos, já agora, - vão lá aplaudir. Tal como o dono da casa o faz, ainda que muito democrata, como por cá o consideram os libertários. 

Celebrar o 25 de Abril é celebrar a Paz (que todos esquecem pois julgam secundária) e a Liberdade. E o 1º de Maio é celebrar os direitos laborais. Não é mistificar a história, falsificar o presente. E impensar. 

Assim sendo, com a imagem de Mattarella, vai daqui de Nenhures a minha saudação à UGT e aos sindicalistas do BE, que decidiram celebrar o dia dos trabalhadores como, neste momento, manda a ética de cidadania. E sei que muitos deles, ali na rapaziada bloquista, queimam incenso e mirra a uns totens execráveis. Mas portaram-se muito bem neste dia. Ao invés de outros, com mais responsabilidades institucionais. E de outros, profissionais intelectuais com obrigações analíticas.

...Stones, bater no ar

Os Stones por Zoom (a empresa que mais terá beneficiado com esta pandemia), cada um em sua casa, ontem no festival Together At Home, tocando o ícone You Can't Always Get What You Want, uma das (a?) canções da minha vida. E que magnífico Charlie Watts ...

Vendo estes mais-velhos (Watts já com 78) e sabendo do gigantesco "Live Aid" que isto foi ilumina um pouco a dimensão deste confinamento generalizado, melhor até do que as notícias o fazem.

E, entre outras coisas, lembrei-me de alguns liberais lusos (uns até ex ou ainda bloguistas) que desde há um mês andam frenéticos a bradarem que tudo isto, a suspensão dos contactos, o interrupção do trabalho, é fruto da imaginação, uma loucura, etc. (e até um bocadinho daquilo do "marxismo cultural"). Conheço alguns, são boas pessoas. Mas portam-se exactamente como os maluquinhos do BE há 15 anos ou mais. E são agora muito mais velhos, é um bocado pungente vê-los assim histriónicos. E acho que ninguém tem a piedade de lhes dizer isso.

Então digo eu, a ver se eles percebem que só o Charlie Watts pode bater no ar e soar.

Sobre as celebrações do 25 de Abril e do 1º de Maio

Isto das "celebrações" mostra bem o espírito de casta, fermentado na cultura maçónica e da sua estreita abordagem ao simbólico, da gente que gere o país. Acima do povo. Não vale a pena bradar sobre o fraco que é Ferro Rodrigues, pois apenas corresponde ao que há. Ou sobre a superficialidade do PR, também correspondente ao que o povo vota(ou?). Mesmo com o que João Soares disse - ainda que também ele maçónico, note-se -, mostrando senso político, talvez herdado, continuam as patetas proclamações. Imensos clamam que estando a AR a funcionar nada obsta a uma cerimónia com pompa, como se o assunto seja o do horário de uma repartição. E vão convictos nisso, como se defendessem "Abril".

A questão é de como as pessoas recebem isto no seu íntimo. Luis Naves, co-bloguista no Delito de Opinião, perdeu o pai (os meus pêsames). Narra que o funeral apenas teve 11 pessoas, "uma a mais do que o permitido". Na última semana três pessoas que me são próximas vivem situações semelhantes (um funeral paterno, duas impossibilitadas de acompanhar pais nonagenários, muito doentes, sem Covid). São coisas diferentes? São, mas o relevante é o impacto na população, as formas como a acção política é lida e sentida. Quando pessoas que há décadas vivem na e da política não o compreendem isso é sinal da degenerescência do regime. E do quão obtusos são muitos dos cidadãos que, por estreita militância de sofá, sentem que apoiar é tudo aceitar.

João Gonçalves escreveu ontem um postal no FB sobre o facto da rainha de Inglaterra ter, pela primeira vez, suspendido as celebrações públicas do seu aniversário (que têm, no seu simbolismo, uma dimensão política). Veja-se o inusitado eco desse postal, muito significante. Entretanto Putin cancelou as celebrações da vitória na II Guerra Mundial, as quais têm uma dimensão extrema de exaltação nacionalista e de afirmação deste presidente. Ao invés, por cá temos o "poeta de combate" Manuel Alegre a sair à liça, em retórica falsária, a defender "Abril" - quando o que se pede, e ele aldraba na contestação, é uma frugalidade simbólica, uma densidade política.

E tudo se fará para festejar com pompa, ao invés do que mandaria a prudência sanitária (pelos efeitos no comportamento das pessoas, não pela higiene da cerimónia) e a comunhão política (idem). Também para que se possa dar realce simbólico e político a um homem tão básico como Vasco Lourenço. Esse que, exaltado com a proximidade de "Abril" onde terá o seu momento anual de consagração, acaba de apelar ao golpe militar no Brasil. E ao qual os seus correligionários maçónicos tanto abraçarão entre pompas e cerimónias, "para brasileiro ver".

Claro que ao dizer isto convoco que as rasteiras invectivas, os urros de "bolsonarista", "fascista". Exactamente daqueles que andam aí a defender "Abril" deste modo. Para um ou outro escasso imbecil que ainda apoie esta arrogante medida mas que ainda tenha no seu recôndito âmago uma escassa centelha de inteligência (é uma hipótese meramente académica) deixo o trailer deste fraco filme, sobre os dias subsequentes à morte da princesa Diana. O qual valerá apenas por Helen Mirren. Mas há um detalhe que me tem vindo à memória nestes dias em que se discute o simbólico das celebrações ("quer-se dizer", há imensos imbecis que nem percebem o que é "simbólico" mas que para aí andam a falar como "doutores"). Resumo-o:

Diana morreu, comoção generalizada, e crise pois o povo reclama do que considera ser falta de apreço real pela princesa. A quebra de popularidade da Coroa virá a ser enorme, e levará década a sarar. Nos dias prévios ao funeral Blair, muito popular, tenta remediar a situação.

Ora um dos factos que indigna a população, em luto pela "princesa do povo" como lhe chamou Blair, concentrada diante do palácio e das tvs, foi que a bandeira no palácio não fora colocada a meia-haste, como se deveria fazer em sinal de luto. Correu que era o sinal do menosprezo real pela princesa. E estupefacção da rainha quando Blair lhe pede para mandar colocar a meia-haste a bandeira. Pois aquela, no seu simbolismo peculiar, é o pavilhão real, apenas içado para significar a presença da rainha. Tem um significado diferente da bandeira nacional, essa sim passível de ser colocada a meia-haste. Mas as pessoas não conheciam esse detalhe, hoje em dia esquecido. E atribuíam outro significado - político -, julgando-o uma afronta.

É um filminho, não é preciso ser cinéfilo para o ver ou conhecer. João Soares viu-o. O pai dele sabia da poda. Esta gente de agora, aprisionados na sua mentalidade de casta, na jactância, nada percebem. São os coveiros de "Abril". Com a voz cava e vácua de Alegre, e a patetice grosseira de Lourenço e Rodrigues. E dos seus sequazes.

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