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Nenhures

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Quase sexagenário continuo a acreditar que de pequenos episódios se podem retirar conclusões sobre questões (ou posições) mais gerais, assim uma espécie de pensamento indutivo. Método de reflexão com muitos limites mas que, pelo menos, é uma muleta para mentes medianas, como esta que tecla. E lembro-me agora disto por causa desta guerra russo-ucraniana e de muitas reacções que fui vendo, dessas que enfatizam a maldade "ocidental". As quais começaram por ser bem explícitas e que foram sendo matizadas - "embrulhadas" - até pela evidente insuportabilidade intelectual desta "russofilia", a qual actualmente não passa de uma necrose da ideologia socialista.
 
Um dos tópicos deste omnicriticismo sobre o "mundo ocidental" é o sublinhar da putativa influência (causal) da indústria de armamento americana, o qual teve muito uso no início da guerra. O que é interessante, em particular quando os locutores são africanos, é que nunca referem que as actuais importações de armamento em África têm como fontes preponderantes as indústrias... russas e chinesas. É certo que este não é material mais sofisticado (e caro). Mas também nunca referem a veemente concorrência entre essas indústrias nacionais de armamento nesse tipo de material muito sofisticado, a qual vem tendo imensas implicações "geoestratégicas". Não é por falta de informação (que está bem disponível, via google ou mesmo em livros generalistas, p. ex. no célebre Frankopan). É apenas porque não lhes dá jeito à retórica...
 
 
 

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Fez ontem exactamente um ano que morreu Fernanda Angius, antiga leitora do Instituto Camões em Maputo durante a década de 1990, tendo então exercido na Universidade Pedagógica e no INDE, e que antes ocupara funções similares em Itália e no Zimbabwé. Octogenária, e presumo que padecendo de alguma maleita física, vivia numa residência para a terceira idade em Lisboa. Julgo, mas não o posso afiançar, que terá morrido na sequência de uma infecção com o Covid-19.
 
Não trato aqui de uma homenagem póstuma. Mas sim de partilhar um texto que Fernanda Angius publicou no seu mural de FB pouco antes de morrer, em 2.1.2021., e o qual muito me sensibilizou naquele momento - estando longe (como é óbvio) de imaginar que precedia a sua morte - e que desde então penso em abordar. Em parte porque a minha mãe, que vivera numa residência similar, ainda que felizmente recebendo um enquadramento bem mais mimoso, havia morrido há muito pouco tempo.
 
Mas não só, pois acima de tudo o que me impressionou naquele texto era a demonstração, crua, sem rodeios, de como na nossa sociedade vamos armazenando os nossos mais-velhos, transformando a sua real dependência física numa subordinação moral, esta exercida através de um paternalismo gélido. Desrespeitador. Num fluxo de relações, intergeracionais, que se terá exponenciado durante esta maldita pandemia e seus confinamentos, mas que muito mais é uma característica já pré-existente e que temo vir a enquistar-se neste futuro próximo, transformada num verdadeiro e malvado legado. Pois assume, decerto, um vigor de mundivisão dominante, e não apenas um transitório deslize promovido por práticas constrangidas pelas urgências sanitárias. Nisso tudo traduzindo-se num efectivo destratamento dos velhos.
 
Tudo isso poderá ser pressentido, intuído ou mesmo testemunhado por muitos, ou até conhecido através de queixumes daqueles nossos mais-velhos que sofrem estas rudes despersonalizações. Mas decerto que é raro encontrar alguém já do "outro lado", já "asilado", que mantenha a energia e a pertinência intelectual para nos transmitir o "como é" que vivemos. Os mais-velhos já "lá dentro" e nós, menos-velhos, ainda "cá fora". Por isso aqui partilho este texto, longo, duro de pungente, o relato que Fernanda Angius fez daquele "reveillon", afinal o seu último. Tende coragem para ler...
 
*****
 
Penso na entrada deste Ano Novo que foi, para mim, completamente oposta à entrada do ano anterior. Esperemos que o seu desenvolvimento também se oponha ao desenvolvimento de 2020.
 
A última ceia do Ano Velho foi muito triste embora alguém a tivesse declarado ser de festa. Mas foi uma festa silenciosa pois, na sala de refeições, alguns poucos e tristes balões agarrados às paredes não conseguiam transmitir a ninguém o ambiente de festa que fora anunciada; nem mesmo o pratinho de doces sortidos que, (sobre a mesa de cada residente) aguardava o pós refeição chegava para me fazer sentir a especialidade desta última refeição do ano, tomada em sepulcral silêncio, todas nas costas umas das outras, como colegiais em castigo por mau comportamento.
 
O ambiente festivo resumiu-se aos citados balões e ao pratinho que acompanhava um minúsculo cálice de licor que recebeu uma ginjinha (sem elas).
 
A estagiária que colabora com a Direcção e com a Animadora cultural fazia de ajudante no serviço de mesas e a alegria que a festa normalmente produz não se notava nos silenciosos corpos que apenas ingeriam a refeição como em Vigília fúnebre. Talvez esteja exagerando com o adjectivo, mas o meu sentimento era esse. As lágrimas subiam-me aos olhos pensando na passagem do ano anterior; e não era a saudade daquele último réveillon que me entristecia; eu estava profundamente chocada com o conceito de festa que estaria na cabeça de quem, convictamente, assim tinha classificado aquele jantar de fim de ano.
 
Eu esperava que, a qualquer momento, aparecesse um sinal da tal festa, mas apercebi-me de que as minhas companheiras, à medida que acabavam de comer, começavam a abandonar a sala no mesmo silêncio em que tinham entrado. Então, levantei-me e perguntei às funcionárias que levantavam os pratos se a festa era aquilo. Onde estava o convívio? A música? um aparelho de televisão?...Um rádio?...Enfim, onde um só sinal do respeito pela alegria devida a um ser humano que ainda não morreu e ainda tem direito à diversão tradicional em qualquer final de ano?
 
Afinal a nossa cultura popular e tradicional de séculos é ignorada por desatenção, ou já nos consideram apenas números? Afinal onde ficaram os nossos seres pensantes com memória e lucidez normais? Nenhuma das residentes autónomas foi consultada para se estudar como proporcionar-lhes a tal festa. Não seríamos muitas, mas sei de algumas que estavam tão tristes como eu, embora todas resignadas perante a determinação superior.
Enervada, comecei a expressar o meu descontentamento e as funcionárias, stressadas ao máximo, só me diziam que tinham feito o que lhes tinha sido mandado. Eu sabia-o muito bem mas não consegui calar a minha indignação pois me senti usada como trapo velho que, junta ao facto de estar confinada no interesse da saúde pública, ainda tem de ser tratada como de menor idade, sem direito aos possíveis meios de ocupação dos seus tempos e à comunicação com terceiros.
 
Sabendo que em anos anteriores a solução fora encontrada e de maneira bem simples e racional, não compreendo que em nome de uma eventual proximidade mais arriscada, se imponha o confinamento total, dentro de um Lar de onde não se saiu, não havendo, portanto, risco de se ter apanhado o vírus.
 
De qualquer maneira, é maior o risco para a saúde mental das pessoas autónomas do que o de ser infectada. Como diz a sabedoria popular: não se morre da doença, morre-se da cura...
 
As regras impostas sem justificação são sempre o motivo próximo para a transgressão.
 
Nunca me senti tão desprezada como ser racional de pleno direito e nem nos cinco anos que vivi interna, no colégio fui tão ignorada nos meus direitos de cidadã livre que ainda não passou procuração a ninguém para pensar por ela.
 
Basta de me protegerem! Sei tomar conta de mim e não pretendo infringir regras nacionais. Mas todas as ditaduras se afirmam ser tal em favor dos submetidos a elas. E eu começo a temer que a pandemia dê razão para se inculcarem em certas instituições um paternalismo bacoco que é só garantia de menos preocupação para quem tem de tomar decisões. Guiar um rebanho de ovelhas e mais fácil do que um de cabras. E eu sinto-me mais cabra montês do que carneirinho de Parnúggio.
 
Para culminar um ano que só nos trouxe desgraça, não precisávamos de colocar a cereja no topo do bolo...
 
Mas hoje já passou o primeiro dia do ano; e eu já consegui falar com alguns amigos que me deixaram luz na alma e coragem para afrontar o que mais nos trará este Novo Ano.
 
(Fernanda Angius, 2 de Janeiro de 2021)

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O blog sportinguista És a Nossa Fé! completou esta semana dez anos de publicações. Ao fim desta década de empenhada participação, sem que ela me tenha servido de trampolim, tenho de assumir que já não tem qualquer cabimento a minha utopia de ascender a televisivo comentadeiro da bola (avençado e taxado qual "direitos de autor", a mais rasteira das imoralidades dos políticos portugueses e sobre a qual nenhum dos meus "amigos-FB" ou confrades blogais elabora).
 
Mudo então, neste início de 2022, de utopia pessoal, condutora dos meus passos. Desejo-me "influencer", um vero "digital influencer". Um "influencer" da terceira idade, claro, mas nisso também necessariamente lesto em onomatopeias e mensagens curtas. E patrocinadas, claro.
 
Pelo que este é o início desta minha nova carreira de "influencer": não seja pateta liberal, avesso às precauções anti-Covid. Use máscara ao ar livre. Pois, neste frio gélido, é ela um agradável aconchego para a penca. Ou, em dialecto influencer, a máscara é bué nice...

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Mesmo que vá cultivando esta pose, empiricamente fundamentada, de envelhecido ogre ensimesmado, há dias acorri a um convite convivencial que me fora endereçado por uma beldade amiga - sei que esta expressão convocará a repulsa, quiçá denunciatória, daquel@s que nisto verão a pérfida objectivação das membras da sororidade global, bem como a indignação de todes que a compreenderão como uma vilania homo e transfóbica. Espero que a quadra natalícia propicie alguma distracção nos postos de vigia internética...
 
Anteontem a referida beldade anunciou-me ter descoberto que é portadora do vírus Covid-19, de variante (ainda) desconhecida. Algo que me promoveu sinceras preces ateias em prol da sua delicada saúde. Mas também cuidados próprios, socialmente consagrados. Nesse sentido estreei-me, aos 23.12.21, na auto-vasculha nasal, fazendo-o com a competente intensidade que as feridas que mostro na foto anexa poderão comprovar.
 
O resultado do teste foi negativo e inexistem sintomas da maleita, ainda que isso não exclua a possibilidade de ser eu também portador viral. Como tal recolhi ao isolamento profiláctico, acantonado no meu quarto, rodeando-me de livros que não (re)lerei. E nisso libertando a família mais próxima do ónus da minha presença na consoada e subsequentes repastos.
 
Em conversa com a referida paciente referiu-me ela algo que eu já havia notado: a radical redução das mensagens de Boas Festas. Já nem nos referimos aos arqueológicos cartões. Mas ao fluxo no vetusto email, nas mensagens sms ou mesmo no fb. Aproveito assim para desejar, sem maçar ninguém em especial, umas pessoais "Boas Festas" aos meus amigos reais - sendo que a maioria deles não anda por aqui, e por um simples razão: as "redes sociais" são o oposto do consagrado "charme discreto da burguesia", e nelas botar coisas, ainda para mais de índole pessoal, é sentido como basto "popular".
 
Ainda assim e também para esses meus amigos pessoais, e a alguns familiares a quem ainda não avisei, deixo nota não só do meu bem-estar físico, do meu regular estado psicológico (ou seja, a mesma merda de sempre) ainda que isolado. E esclareço que estou provido de uma boa consoada, pois decidi que será composta de uma Alheira de Mirandela marca "Pingo Doce", um ovo estrelado criado no solo, de similar origem, batatas cozidas debruadas com fio de azeite "Oliveira da Serra", acompanhado de cerveja "Argus" obtida no sempre simpático Lidl e um tinto "Guarda Rios", apresentado como "monovarietal" da casta Syrah produzido num terroir alentejano, que máscula mão amiga me ofertou.
 
Presumo que no final do repasto usarei um cálice do afamado "Queen Margot" para brindar à paz no mundo e para desejar aos meus amigos um Bem Hajam. Ou, em sinónimo, desejando-lhes Parabéns!

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Há dias países europeus vedaram o acesso a voos comerciais vindos da África Austral, na sequência do anúncio da variante Ômicron da Covid-19. Entretanto quatro escritores renomados, residentes em Moçambique, publicaram críticas contundentes dessa decisão, e do que consideram ser a mundivisão que a promoveu, os quais muito se têm repercutido e, também, induzido uma miríade de posicionamentos similares nas redes sociais dominantes: o angolano José Eduardo Agualusa e o moçambicano Mia Couto publicaram o manifesto  "Duas Pandemias", o português António Cabrita o ditirambo "A Vergonha, ou do Diabo à Entropia", e o moçambicano Armando Artur deixou agora o poema "Ómicron e os Outros".

Sobre este assunto vou botar um postal que (me) é antipático. Pois concordo com muito do que os autores referem - sendo que essa medida logo foi criticada pela Organização Mundial de Saúde, e pelo próprio secretário-geral da ONU, ainda que este tendo expressado a sua oposição em termos infelizes e até inaceitáveis (o "apartheid" foi uma política demasiado violenta para servir agora de material para analogias superficiais e mesmo provocatórias, como escorregou Guterres). E porque tenho apreço pessoal por três destes escritores, os que conheço pessoalmente, e por vários daqueles que os secundam e aplaudem. Mas discordo, e imenso, do sub-texto que perpassa estas proclamações, o feixe de mundivisão que os habita.

Dado esse conteúdo antipático do texto começo por uma ressalva (aquilo a que os ignorantes chamam agora, por pirosice arrivista, "disclaimer"), explicitando o que penso (mais do que tudo, o que intuo) sobre a situação. Em primeiro lugar, e ainda que sendo leigo nestas matérias, desde o anúncio da nova variante Ômicron esperei (perspectivei; tive esperança) que, à imagem de outras variantes que foram surgindo (a "brasileira", a "sul-africana"), não tivesse repercussões muito gravosas - mesmo que tenha efeitos preocupantes em nichos populacionais -, uma relativa amenidade que se vem confirmando, ainda que pareça ser mais contagiosa do que as variantes vigentes.

 

 

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