Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Nenhures

Nenhures

As missas no (in)confinamento

missa.jpg

 

Muitos muito discutem estes modos de confinamento. Suas causas, seu processo, suas excepções. E muito haverá para discutir.
 
Mas um desses argumentos criticos tem um fundo estranho: contesta-se que sigam os ritos religiosos enquanto se encerram as actividades culturais (no sentido de consumo público de criações artísticas). É um argumento simpático, solidário com profissionais bastante macerados com esta longa crise.
 
Só que assenta num erro crasso: "cultura" não é religião. Nem vice-versa. Não são comparáveis. Nem os templos abrem para que os pastores recebam honorários. Nem os crentes lá vão quais clientes (ou "consumidores"). Uma coisa é sermos laicos, ateu até à morte no meu caso, avessos à imaginação do transcendente. Outra coisa é confundirmos as coisas ...

Na véspera do novo confinamento

Em 13.3.20 a minha filha chegou do Reino Unido e confinámo-nos em casa de amigo-família, apartados da capital, onde ficámos meses. Ontem ela partiu para longe, com sua mãe. Eu regressarei amanhã, exactos 10 meses depois, a esse meu Nenhures a sul do Tejo, para mim tão mimoso, reconfinando-me entre amigos que são vera família.
 
Como para quase todos este tem-me sido um péssimo ano. Morreu a minha mãe, sem que eu a acompanhasse. Perdi o meu amor, sem a perceber. E - num registo mais difuso, claro - perdi o contacto, efectivo, com vários da minha camarata. No menos importante, estou completamente "liso" - e há dias em que isso assusta, muito em especial quando os dentes "batem leve, levemente", digo "dão de si", anunciando despesas incontornáveis.
 
Mas isso é a minha vida, coisas íntimas que um burguês não deve partilhar com qualquer um. Ou um "gajo que é gajo" deve calar. Disto se fala com um amigo, másculo. Ou ao balcão do bar, quando se podia beber ao balcão, perdigotando.
 
O que posso falar, o que "fica bem", é do que sou e como vou. Contrariamente a muitos destes das modas d'hoje, e que tanto palram, não sou a minha cor, ou os meus genitais, nem o que faço para ter orgasmos. Nem sou a minha descrença mística. Ou quaisquer confusas - e tão iletradas - ideias que alguns julgam ser "ideologia". Sou, há décadas que o decidi, um português, um patriota. É essa a minha ideia, o meu mito, se se quiser. A minha "identidade", para falar como os mariolas. A minha opção, para falar como quero.
 
Por isso, nesta noite antes de retornar ao refúgio, antevendo o quanto vou e vamos penar, ouço de novo o melhor que se ouviu nesta pandemia. Entre a vacuidade dos nossos próceres, o desatino dos locutores avençados e o ulular de nós-ralé, houve uma pessoa que falou o necessário. Uma pessoa ... (Quase) Apenas ele. E o mais grave é que o ano acabou e nos patéticos rescaldos que sempre surgem ninguém o realçou, lembrou. À fala de 2020! Passou-lhes, paupérrima gente.
 
Por isso, malas já feitas, antes da partida findo este dia ouvindo o nosso General António Ramalho Eanes. General militar, verdadeiro Marechal civil

O confinamento britânico e os nossos negacionistas

(BBC: Boris Johnson announces New England Lockdown)
 
Ao jantar juntou-se a família, em zoom - seria o aniversário da nossa matriarca, morta há dias. A notícia - já esperada - caiu durante o convívio: o Reino Unido entra em confinamento. Tenho sobrinhos - hoje no meu ecrã - lá imigrados. E a minha filha lá estuda e agora, aqui a meu lado, só pode lamentar todo este longuíssimo processo que lhe amputa a formação real.
 
Boris Johnson falou. Proclamou o confinamento. Referiu os seus conteúdos em traços gerais. E anunciou o vastíssimo programa de vacinação (em Fevereiro contam ter os 4 grupos prioritários já vacinados), o maior da história britânica. Ele não é, como todos saberão, um interseccionalista ou marxista cultural. Nem abordou a situação com mecanicismo restritivo.
 
Talvez que sendo Boris Johnson a assumir agora estas medidas, e este discurso, isso possa calar os patetas da direitalha, esses que julgam que ser "liberal" é contestar a dimensão desta pandemia e as medidas restritivas que esta impõe. Que lhes demonstre o quão medíocres intelectualmente vêm sendo, dia-a-dia, nestes meses. E, mais do que tudo, lhes mostre a ignomínia que é a, explícita ou implícita, campanha anti-vacina do Covid-19 que alguns - como essa Maria José Morgado, para além de punhados de patetas facebuqueiros - andam por aí fazer. Uma miserável indecência sobre a qual já botei. E à qual agora volto, apontando o dedo.
 

Rescaldo de 2020

24.DSC_2874-1-1200x675.jpg

(Lisboa confinada; Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo)

Entre co-bloguistas, no colectivo Delito De Opinião , estamos a escolher - tal como todos anos o fazemos - o Facto Nacional e o Facto Internacional do Ano, a Figura Nacional e a Internacional do Ano, e a Frase do Ano. Quando (finalmente) entrarmos em 2021 o nosso coordenador blogal, Pedro Correia, publicará os resultados. Deixo aqui a minha votação (até para vos chamar a atenção para o resultado final): 

1. Frase Nacional do Ano: há imensas para escolher (aqui um rol delas, patéticas). Mas escolho uma de Pedro Nuno Santos, o robusto Iznogoud deste governo: "Em 2025, a TAP já estará em condições de devolver algum do dinheiro ao Estado português".

Escolho-a porque as outras são sobre isto que agora decorre. E esta é para o futuro, escrutinável daqui a uns anos. É também dedicada aos interseccionalistas, ou lá como agora se chamam os socratistas. Não tiveram eles a desvergonha abjecta de até com o Berardo gozarem no ano passado? Daqui a cinco anos continuarão na cagança aldrabona da sua superioridade moral e intelectual, o "activismo" como peroram. Será então de lhes perguntar, aos funcionários públicos e aos subsidiados/avençados, aos teclados de aluguer e aos imbecis (in)úteis, se se lembrarão disto. Com toda a certeza que não.

2. Facto Nacional do Ano: O assassinato de Ihor Homeniuk no Aeroporto de Lisboa.

Porque demonstra o estado do Estado. Porque o mísero ministro Cabrita ainda o é. Porque demonstra o miserando estado do "activismo". Porque nos demonstra. 

[Sobre o assunto botei em Junho e em Dezembro]

3. Facto Internacional do Ano: COVID-19. Como é óbvio.

Já agora deixo ligação a um texto mais longo que escrevi sobre isto. Não colheu grande interesse (leitores). Mas foi a única coisa que escrevi neste ano, por isso aqui venho agitar a tralha: “P’ra melhor está bem, está bem, p’ra pior já basta assim”: o capitão MacWhirr e o Covid-19.

4. Figura Internacional do Ano: Li Wenliang
 
Como vénia ao seu percurso, tão breve. De coragem.

Mas também para lembrar os comunistas (aka interseccionalistas do "sul"), que nos odeiam tanto, a nós porque europeus, portugueses, brancos, e democratas - ainda que tantos deles também europeus, também portugueses (aquilo da "dupla"), também brancos, mas nunca democratas, e ainda que também aqui aboletados - que sufragavam a ideia da total irresponsabilidade da "Comunista" China nisto tudo. E que nós - brancos, europeus, portugueses, seus anfitritões/compatriotas e, pior do que tudo, democratas - deveríamos pagar os custos do Covid-19 em África porque nossa culpa.

Acho que nunca desprezei ninguém como esta execrável malta, naquele Março-Abril de 2020.
 

5. Figura Nacional do Ano: Frederico Varandas.

Porque apesar de todas as contingências, mostrou o valor do trabalho, do esforço e da planificação num país dominado pelos lobbies políticos e empresariais, numa área de actividade económica particularmente vilipendiada pelo recurso a actos ilegais por parte dos poderes vigentes.

***

Junto quatro outras escolhas, que me marcaram o 2020. 

 

6. Música (Banda Sonora) do Ano: porque este concerto de Lou Reed [Capitol Theatre, 25 de Setembro de 1984] e alguns outros dele tocaram incessantemente durante as noites de Março, Abril e Maio, lá no bucólico Nenhures.

7. Livro do Ano (ensaio)Les Nouvelles Routes de la Soie, de Peter Frankopan. Enfim, foi releitura (para tirar notas, essa inutilidade viciante) e não foi o melhor. Mas completamente o mais útil. Enquanto os basbaques discutiam Trump e Brexit, já agora:

8. Livro do Ano (ficção): Ilações Sobre um Sabre, de Claudio Magris. Um pequeno-Enorme livro, até já antigo. Daqueles que um tipo ao acabar logo insulta o autor - tanta a raiva invejosa diante de tamanho talento. E, ao mesmo tempo, regurgita de júbilo pela sorte de ter lido.

9. Canção do Ano: "Waves of Fear", de Lou Reed.

Contra a vacina Covid-19

original.jpg

(Cartoon publicado no Expresso, sem indicação de autor)

Por cá há dois tipos de locutores anti-Covid: o PCP, que insiste em reduzir este momento a uma "epidemia". Confesso que não percebi ainda esta deriva. Esperaria muito mais uma posição de defesa do trabalho, uma exigência extrema de medidas de protecção sanitária à mão-de-obra. Uma ofensiva contra as hipotéticas tentativas do capital (e do Estado) de manter o afã pelo lucro, pela actividade laboral, em detrimento da reprodução física e social da classe trabalhadora. Enfim, alguma coisa terei que ler para perceber este aparente flanar do PCP diante da era covídica;
 
e um núcleo alargado da direita democrática, extremado na afirmação do histrionismo mundial, num frenético "no pasa nada" nisto do Covid-19, como se tudo seja um mito, um exagero. Não se trata, como foi afirmado no início deste período, de "liberalismo epidemiológico": de facto, internacionalmente os oponentes à retracção sanitária foram o marxista nicaraguense, o fascista brasileiro, o mercantilista americano, o brejnevista bielorusso e a social-democracia sueca. Parece-me evidente que a refutação dos perigos desta pandemia alimentou-se da simpatia (até indita) por Trump e Bolsonaro, mas o charme discreto da monarquia burguesa sueca veio-se a impor como legitimador. No entanto, o rei Carlos Gustavo já lhes tirou o argumento, numa autocrítica decerto que penosa.
 
Entretanto o mundo contrai-se, procurando que o céu não nos caia em cima da cabeça. Há exageros, lusos e alhures? Há. Por cá houve e há medidas mal tomadas, e muito comportamento errático? Sim. Muita demogogia estatal? Há. E, talvez pior do que tudo, pressupostos ideológicos estatistas minoraram a resposta abrangente a esta pandemia? Parece-me bem que sim.
 
Mas criticar derivas e engasganços é uma postura. Outra é este afã avesso às preocupações. Até pessoalmente sinto como agressões estes discursos (quotidianos, repito) que negam a pertinência de cuidados extremos. A minha mãe findou a sua vida enclausurada face ao perigo, verdadeiramente letal, desta doença. A minha filha contraíu a doença, estando longe, o que exponenciou os meus cuidados. E habita onde surgiu a nova estirpe, dita de maior agressividade sobre os jovens. E há os restantes familiares, septuagenários alguns. E os amigos próximos, que vimos de biografias nada ascéticas. E nisto há que conviver com os tipos que insistem (repito, quotidianamente) "no pasa nada".
 
Têm todo o direito a isso, liberdade de opinião acima de tudo. Mas nos últimos dias há uma alteração nos seus ditos - uma vera involução. Pois leio vários apelando a que não nos vacinemos. Já não se trata de uma visão diferente, crítica e legítima. Nisso até salutar. Mas o apelo a uma resistência a uma política sanitária que não aparenta ter algum efeito negativo. Apenas porque ... Um mero finca-pé. Um não dar o braço a torcer.
 
Ao fim deste horrível 2020 estou cansado. Olho para estes doutorzecos, aparentes "liberais", os anti-vacinas de agora, mero capim. E digo-lhes "desnasçam" - e para quem não perceba o termo, que é, ao que eu saiba, da minha lavra, imagine o que seria preciso para alguém desnascer. E verbalize esse hipotético acto no mais rústico do léxico português.
 
Entretanto por aqui irei apagar das minhas ligações-FB (não bloquear, atenção, que isso é censura inadmissível, apenas apagar) todos os filhosdeputa que por aqui andam a apelar a que não nos vacinemos. E com desprezo dizendo-lhes, insisto, "desnasce, pá!".
 
Adenda: nos comentários um gentil leitor (infelizmente anónimo) recorda-me que "desnascer" surge no FMI de José Mário Branco. "Já não temos começos" disse um sábio dos nossos tempos - já não se enceta, não há espaço para originalidades absolutas. Mas, vã vaidade, continuarei a reclamar (até prova em contrário) a autoria da utilização do termo como forma eufemística do arreigado e tradicional insulto.

Votos de Natal

cartaz natal 1918.jpg

Natal de 1918! Já então os mitos para criarem a sensação de "falsa segurança".

(Claro, é Dezembro, a rapaziada já esqueceu as parvoíces das incompetentes. Sim, é Natal, a rapaziada já perdoou as incompetências das parvas ... Ou seja, a todos desejo um Santo e Estuporado Natal.)

Rescaldo de 2020

2020 vai terminar e é altura de rescaldos. Gerais e pessoais, neste Covidoceno. Para mim foi um ano duro. Perdi a minha mãe, tendo-a visto definhar no isolamento obrigatório. O foco na saúde geral - e o crescente isolamento - trouxe a morte ainda mais para o centro. Assim mais atentei no fim de tanta gente significante, daquela que me faz a paisagem - o último talvez o Le Carré presente desde a minha juventude até ao Magnus Espião Perfeito. E a Branca, a cadela de amigo extremo que me adoptara e que tanto me acompanhou neste(s) ano(s) também morreu. Coisa bem diferente, perdi o meu amor, o que me trouxe uma antevisão de celibato perpétuo, algo mais estranho do que problemático. E, neste ano difícil, percebo que não sei de vários amigos, relações esgarçadas com o tempo. Fica o carinho pelas memórias mas nada mais. Tudo isto algo me desertificou.
 
Mas foi também um ano bom: nenhuma realização, a consciência de muito menos objectivos, anseios, e das escassíssimas possibilidades que restam. Alijar o ego, perder as angústias das responsabilidades para comigo-próprio. Amadurecer. É bom envelhecer! E ainda uma coisa magnífica em 2020: não passei um dia, uma hora que fosse, com gente de que não gostasse. Sempre rodeado daqueles que amo. Ou, vá lá, gosto muito. Pode-se pedir mais na vida? Não creio.
 
Para temperar, o piripiri da vida, restaram-me as irritações com a "coisa pública". Também elas escassas, no fundo meras simulações de vida: com os mandarins, no início do covidoceno (o MNE Silva e o presidente Sousa a dizerem que não se podia fechar fronteiras, aldrabões puros; a tonta da agricultura, a negacionista da saúde); os mandarins da academia - o antropólogo, meu antigo professor, a resumir o covid-19 a imprecações contra o brexit, vs Boris, maldizendo Tatcher, e a dizer que Portugal nunca esteve economicamente tão bem: uma indignidade intelectual [espero que leias isto e percebas o meu desprezo, visceral ...]; e a antropóloga (luso?)moçambicana a salvaguardar a China e a dizer que nós-europeus temos que pagar os custos do Covid-19 em África. Verme ...
 
E, por último, os maluquinhos da direita liberal, durante meses a clamarem todos os dias contra as medidas de protecção, em nome da economia, qu'isto só mata velhos e etc. E, espantoso, a louvarem os suecos sociais-democratas. O rei da Suécia falou, entretanto, a mostrar o quão parvos são estes malucos.
 
A ver se em 2021 continuo no bom caminho de fenecer. E deixo de ligar aos maluquinhos. E aos antropólogos comunistas/comunitaristas. A bem do meu belo envelhecimento.

A morte, agora

cendrário.jpg

Foi agora a morte que me trouxe de Nenhures até este Algures, capital, vindo para ombrear com quem perdeu pessoa muito querida, dia acolhido com pesar mas sem drama, num adeus a anciã partida na paz do seu sono e sem padecimentos. Estremunhados haviam sido com a notícia, insones anuíram a que mestres do ofício a evacuassem do internato onde findou, poupando aquela classe de idade à comoção do que lhes é iminente. Ficou-lhes ela assim resguardada mas também vedada até ao dia que se seguiu, regras, disseram-lhes, desde o último idos de Março. Depois, já no feriado da Imaculada Conceição - esse sempre dia da Mãe para a minha mãe Marília como o fora para as minhas avós Teolinda e Claudina - congregaram-se para a última despedida. Fizeram-no na escassez deste recolher obrigatório, reforçada pelo discreto encanto burguês, avesso ao sonoro. Tiveram então nem uma meia hora diante daquela que partira, em reconfortos mútuos esgarçados pelos medos actuais. Cinco minutos, gentis e apressados, de um padre católico, apenas colhendo um balbuciado eco face a uma dúzia de descrentes no futuro de paz e luz que - dever do seu ofício - tem que augurar. Ali, algo distante, a urna fechada, que a ninguém é possível um último olhar, um beijo até ou afago, o mero perfilar sentido, pois temidos são os sempiternos fantasmáticos miasmas, e é isso possível neste absurdo hoje ... No chão relvado, abandonados à chuva, alguns desolados ramos de flores, também ele afastados do último trajecto, pois decerto que imaginados como estufas desses tais miasmas. Depois, lestos, funcionários levam o caixão para a cremação, agora também católica, passo último também barrado aos presentes parentes.

Retorno na manhã seguinte, hoje mesmo, sentindo-me obrigado - mesmo que ateu todo materialista - à derradeira homenagem, verdadeiro fim de despedida. Sob a chuva miudinha, este frio enublado lisboeta a que fugi durante décadas, entro no cemitério que me é vizinho. E reencontro o cendrário - essa semiológica camuflagem - onde há anos deixei o pó que restou do que foi o meu pai. Estupefacto fico, até fotografo pois irado, e antevejo a minha oposição para o que ali se vai seguir, enceno-a mesmo. Mas afinal deixo-a cair, não só porque benjamim mas muito mais porque desvalido sigo, e sei-o, assim acabrunhado, deficitário de atitude. Há quase duas semanas visitara a minha mãe e a última coisa que então me disse foi "és tão bonito!", coisa tão óbvia de mãe coruja que a acolhi com sorriso (e arremedo de lágrimas, confesso-o agora), ficção que ninguém me conta há décadas - se é que alguém o fez ... -, e nunca mais alguém o fará. Enquanto me lembro disso, com a papaia a assomar na garganta, o funcionário, educado e eficiente, abre o boião e despeja as cinzas da minha mãe. E eu, que a todo este disparate anuí, pois sem forças, até isto aceito. Aceito, ali, sem uma palavra, sem um gesto, que alguém deite o pó do que foi a minha mãe no caminho do mictório.

Isto é o meu país, é a minha era, é a minha cidade. É o meu povo. E, muito mais do que tudo, sou eu. Hoje, muito mais do que em todo o antes, fui eu. Deixei que largassem o pó da minha mãe no anunciado caminho do WC.  E disto, estou certo, nunca passarei. Não sou, mãe, nada bonito.

"Se formos de Ferrari poderemos ir rezar pelos nossos mortos?"

(Mensagem do prior de S. Nicolau, 25.10.2020)

Sou ateu. Não anticlerical - um antropólogo anticlerical seria uma espécie de oxímoro carnal. Mas se há algo em que sou fundamentalista é na defesa do ilimitado direito à blasfémia. Porque é a questão fundamental da liberdade intelectual, fruto de imensas guerras. E é aquele traço ao qual os imigrantes têm que se assimilar e no qual os naturais têm de ser socializados. Ou seja, na nossa (pérfida, dizem os dos ademanes) sociedade ninguém tem o direito de não ser ofendido. E quanto mais idolátricos são os crentes maior a necessidade e legitimidade da iconoclastia, mesmo que eles sejam "minorias" muito pobrezinhas e discriminadozinhas, coitadinhas ... Avanço isto, incompreensível para gentes como Ana Gomes e seus apoiantes, mais a ganga de comunitaristas espontâneos que para aqui andam tão ciosos deles mesmos e das suas militâncias, e que não percebem o que é a laicidade do Estado e da sociedade, para lembrar que tudo isto é siamês de outro princípio fundamental desta nossa laicidade conquistada: a liberdade de culto.

Ora o que este governo tem andado a fazer, no seu ziguezaguear covídico, é, de facto, uma refracção preguiçosa do anticlericalismo republicano. Serôdio, inútil. É um quadro mental patético, porventura até vivido de modo inconsciente. E sinaliza o disparatado em que decorre a administração da saúde, como o resmungam os profissionais.

A excelente prédica deste padre, insurgindo-se contra a proibição do culto aos antepassados, diz tudo o que é preciso ouvir. Que o Deus dele o tenha na sua santa guarda.

A Zoom no Covidoceno

zoom1 (1).jpg

Nesta era do Covid-19 a Zoom terá sido das empresas que mais lucrou, abrindo espaço para novas formas de intercâmbio e aprendizagem.

["Ai, Ze(zé), és sempre desagradável", dir-me-ás. "O que é queres?", respondo-te, "sou um etnógrafo (falhado é certo)" ....]

Mais sobre mim

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.