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Nenhures

Nenhures

21
Ago21

Salada

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Salada de Alface

Se és algo panteísta e tens vivo / Esse afagado ideal / Do retrocesso ao homem primitivo, / Que nos tempos pré-históricos vivia / Muito perto do lobo e do chacal; / Se um ligeiro perfume de poesia / Que se ergue das campinas / Na paz, no encanto das manhãs tranquilas, / Te dilata as narinas / E enche de gozo as húmidas, - / Leitor amigo, se assim és, vou dar-te / "Se a tanto me ajudar engenho e arte" / Uma antiga receita, / Que os rústicos instintos te deleita / E frémitos te põe na grenha hirsuta. / Leitor amigo, escuta: /

Vai, como o padre cura, cabisbaixo / Pelos vergeis da tua horta abaixo / Quando no mês d' Abril, de manhã cedo, / O sol cai sobre as franças do arvoredo, / Para sorver aqueles bons orvalhos / Chorados pelos olhos das estrelas / Nos corações dos galhos; / Passarás pelas couves repolhudas, - / Cuidado, não te iludas, / Nem te importes com elas, - / Vai andando... / Mas logo que tu passes / Ao campo das alfaces, / Pára, leitor amigo, / E faze o que te digo: / Escolhe d'entre todas a mais bela, / Folhas finas, tenrinhas e viçosas / Como as folhas das rosas, / E enchendo uma gamela / D'água pura e corrente, / Lava-a, refresca-a cuidadosamente. / Logo em seguida (e é o principal) / Que a tua mão, sem hesitar, lhe deite / Um fiozinho de azeite / Vinagre forte e sal, / E ouvindo em roda o lúbrico sussurro / Da vida ansiosa a propagar-se, que erra / Em vibrações no ar, / Atira-te de bruços sobre a terra / E come-a devagar, / Filosoficamente, como um burro!

(António de Macedo Papança, Conde de Monsaraz, "Salada Primitiva", Musa Alentejana.  Reproduzido em Sandra Silva, Ana Matoso, Receitas Literárias, I, 101 Noites, 2000)

03
Jun21

Um batido de morango e banana

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(Batido de Morango e Banana, no sítio Food From Portugal)

Um lisboeta vulgar tem duas maneiras de encarar a sua cidade:
 
1) entretem-se a vociferar "malandro" e "marquise" contra o CR7 por este fazer uma recôndita sala de treino no terraço de um enorme, desnecessário e disruptor falo de vidro a Câmara permitiu. E vai abastecer-se ao supermercado "gourmet" (e caro) - onde consta que os produtos têm sabor - da gigantesca e absurda marquise El Corte Ingles, que a Câmara permitiu naquela vizinhança - saberá o Grande Arquitecto a troco de quê... Este é o abundante tipo de alfacinha que vai contente consigo próprio.
 
2) entretem-se durante o defeso a questionar o destino próximo do CR7 (Juventus?, PSG?, M. United?, Sporting) e de outros futebolistas, enquanto anseia pelo próximo Europeu, no qual a selecção caiu num "grupo de morte". Nos intervalos dessa angústia (ainda que esta omnipresente) abastece-se nos supermercados populares, nos quais vegetais e legumes sabem a quase nada, coisa do como são criados e comercializados. Este é o abundante tipo de alfacinha que anda um bocado chateado com os outros e, em alguns casos, consigo próprio.
 
Para nós, os do grupo 2, há que disfarçar as tralhas que trazemos para casa, "verdes" de imaturas ou já quase-podres, as das "promoções"... Hoje, como é feriado e está dia soalheiro, disfarcei banana e morangos, todos de teor quase neutral, claro, e caminhando rapidamente para a putrefacção, num batido seguindo este tutorial.
 
Refiro-o, ao tutorial, pois denota a grande diferença cultural entre portugueses e brasileiros (abundantes na internet culinária): os brasileiros mesmo para um singelo batido levam infindáveis minutos e usam inúmeros diminutivos. Cá a gente é um "ver se te avias", bons tutoriais, curtos e informativos.

03
Jun21

Uma sopa de beringela

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(Sopa de Beringela com iogurte, chef Continente)
 
No FB e restantes redes sociais as pessoas mostram-se como querem ser, (re)constroem-se: analistas das questões do mundo, vorazes bibliófilas, confinadas telespectadoras, extremosas familiares, iradas e impolutas cidadãs (olá jpt), gulosas aka gourmets, convictas fotógrafas, patuscas convivas, poetisas de versalhadas e arreigadas cronistas, descaradas evangelistas, mimosas zoófilas, atentas melómanas, insuportáveis "comerciais" (os Serafins Lampiões andam por ali), sóbrias enófilas, amantes de "arte contemporânea" e mesmo da de antanho, palestrantes algo balbuciantes, militantes ecologistas. E mesmo raríssimas cozinheiras, estas sempre ufanas dos respectivos empratamentos (como agora se diz aquilo de botar a comida no prato).
 
Acontece que neste imenso rosário de boas pessoas com as quais tenho ligação não há uma alma caridosa que partilhe o como cozinha (exceptuando, in-blog, Maria Dulce Fernandes). Todos comem todos os dias, bem ou mal. Mas anunciar como o fazem? Nada, nada mesmo. Que serão boas pessoas, generosos amigos e conscientes cidadãos, mas partilhar cristãmente o que realmente interessa? Nisso seguem basto egoístas. Por isso, e por dever de cidadania, comecerei aqui a partilhar não tanto as minhas certeiras análises sobre o devir mas o rol dos tutoriais de que me socorro.
 
Hoje - e já aberta a garrafa do decentíssimo Queen Margot adquirido na nova loja Lidl dos Olivais, que gratuitamente muito recomendo - irei fazer esta sopa. É certo que sou militante seguidor do SaborIntenso de Neuza Costa, Senhora que já merece ser comendadora. E admirador do grande Necas Valadares, meu ícone. E consulto amiúde, devido à minha "resiliente" costela burguesota, com prazer intelectual o chef(e) Henrique Sá Pessoa. Mas hoje, e porque tenho ali umas beringelas a fenecer vou-me a isto - que tem todo o ar de me vir a sair uma mistela. Pobre Carolina, às mãos de um pai "solteiro"...

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