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Nenhures

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Tenho deixado no Facebook, e por vezes aqui no blog, alguns ecos de passeatas gastronómicas que me acontecem. E, com franqueza, até me surpreende o apreço com que são recebidos esses postais, muito maior do que que quando me ponho a perorar sobre assuntos sobre os quais julgo ("presunção e água benta...") ter muito mais pertinência. Pois nada sou especialista na matéria. Não só sou frugal nos "comes" (nos "bebes" por vezes alonga-se-me o apetite), até avesso às comezainas, como - e isso é que é o fundamental - não sou "gourmet" pois demasiado distraído (entenda-se, inculto) para aquilatar das verdadeiras qualidades do que vou comendo, da miríade dos seus condimentos, dos modos da sua maturação e das genealogias do que enfrento. Enfim, aprecio o convívio à mesa, mesmo que este apenas comigo mesmo quando sigo algo andarilho, e é apenas disso que por vezes falo, da comida como pretexto...
 
Algo muito diferente, sabedor e refinado, é o que se passa neste belíssimo blog Gastronautas. Feito a meias por Filipe Gill-Pedro (que se apresenta no seu inglês natal) e por Luís Neves (que segue lusófono). Textos concisos e bem escritos - o que implica que ali não se emulam os mestres Alfredo Saramago ou José Quitério, como ainda é tão cansativo hábito nas páginas sobre estas matérias -, e com bonita apresentação.
 
No Gastronautas discorre-se sobre os modos típicos da cozinha portuguesa - para inglês ver, literalmente falando, mas que muito faz falta aos nacionais vítimas da cozinha globalizada. Surgem textos sobre alimentos, recônditos e até excêntricos aos urbanos. Fala-se de alguns restaurantes e seus cozinheiros, sem a prosápia de distribuir estrelas, pneus ou consagrar os gentrificados "chefs". Desvendam-se daqueles agricultores que renovam o cardápio dos condimentos a que temos acesso, ou mesmo os ressuscitam. Em tudo isso, e mais, fala-se acima de tudo do manuseio do tempo, no civilizado primado do devagar.
 
Ide espreitar, sff. Espero que possais desfrutar tanto estas leituras como eu o tenho feito...

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A era do Covidoceno muito devastou. Tanto que desde o seu advento eu não ia ao santuário lisboeta da culinária moçambicana, esse Restaurante Moçambicano Roda Viva (sito no Beco do Mexias, ali ao Largo de Chafariz de Dentro, em Alfama). Agora na companhia de dois bons amigos, de visita a Lisboa - e ambos com larga experiência do interior do país, "mato" como se insiste em dizer, o mais novo tarimbado em Zavala, o seu mais-velho graduado em Sofala, Manica e Tete - lá fomos ver como param as modas naquela Ka-Chamba, a "casa" do Octávio Chamba...

Confesso que ia com algum temor, sabedor que - quantas vezes - os pequenos restaurantes têm tendência a ir fenecendo. E, mais do que tudo, conhecendo os efeitos tectónicos que nas casas de pasto têm as vagas de turistas que têm ocupado a Lisboa central.

Pois o resultado não poderia ser mais reconfortante. Os preços aumentaram ligeiramente - como tal poderia não ter acontecido? -, mas mantendo-se no acessível às bolsas remediadas. E a refeição foi recebida com júbilo por estes três veteranos: o mais novo, que ali se estreava, ainda pediu xiguinha (de feijão nhemba) ou cacana, nisso comprovando a sua sapiência na matéria - mas esses pratos não são acessíveis no quotidiano, dada a inexistência dos condimentos no mercado nacional.

Por isso as nossas opções foram outras. Os três comemos mais do que o suficiente para nos saciarmos, em qualidade e quantidade: foi-nos tal conseguido apenas com duas doses de um bela matapa de camarão, apresentada como deve ser, tanto em consistência como em sabores (com aquele leve traço amargo que muitos por cá tentam esconder), e um caril do mesmo, verdadeiramente "de trás da orelha". Tudo bem misturado com xima, a qual surge - tal como sempre ali - exactamente "no ponto". Entretanto o serviço fora gentilíssimo, como é tradição na casa
. Pausado, "vakani-vakani" (o até lânguido e sempre filosófico "pouco-pouco") disse o mais-novo, em arroubo macuófono (afinal?), como é tão melhor para estes sítios e momentos.

No final do repasto estávamos... felizes. E se assim foi, se felizes ficámos, para quê procurar outros, e mais rebuscados, adjectivos? Para celebrar tamanho agrado bebemos duas "aguardentes da CPLP " (um belo grogue cabo-verdiano), recordando e augurando (talvez utópicos) as nossas andanças.

Saí reconfortado com a vida, como sempre ali me acontece, mas agora ainda mais dado o tempo que passara desde a última visita. Carregando um frasco do picante da casa, o verdadeiro "Ka-Chamba" - já alvo, soube-o agora, de encómios em página inteira do "Público", atenção do MEC, esse único verdadeiro influencer nacional. 

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(Postal no meu mural de Facebook)

Fiel à minha vocação de influencer logo em Janeiro avisei: o pão básico havia aumentado de preço "apenas" 25% na minha "grande superfície" preferida (o Lidl, Queen Margot oblige). Era o início... Pois qualquer indivíduo, perdão, consumidor com um mínimo de tino percebe bem a pancadaria que está a levar - e falo só do rancho básico mais água, electricidade e gás. Pois os restantes itens ficam para os sonhos de futuro dos jovens e as (nutridas) memórias da geração CEE.
 
A inflação grassa, o custo de vida dói, tudo parece como nos tempos de Ivone Silva, Henrique Viana, Badaró. Não quero parecer um desses "ex"-trotsquistas", avessos aos cisgéneros brancos da congregação capitalista, mas algo incompreendo como é que ao mesmo tempo que a manteiga aumenta 40% ou mais e a luz para aí segue, as grandes retalhistas anunciam enormes crescimentos dos lucros anuais. Ainda acredito que os economistas da IL (nos quais votei) explicarão esse aparente oxímoro em 280 caracteres bem humorados, e por isso espero sem apelar "de pé, ó vítimas da fome!".
 
Apesar desse credo, e enquanto vou enrolando o Amber Leaf em cigarros cada vez mais finos, vou duvidando daquilo da livre concorrência proteger os meros clientes, pobres de nós, sal da terra. De qualquer forma, e porque a esperança é a última a cremar, venho saudar a emergência da Mercadona a sul do Trancão. Com efeito, por efeitos da pérfida regionalização, esta cadeia comercial, dita protectora dos sans-culottes (os tatuados e/ou falidos), estava monopolizada pelo Norte laborioso. Mas, e até que enfim, a sua influência foi democraticamente alargada ao Vale do Tejo, também ele vítima do Terreiro do Paço.
 
E ontem estreei-me como consumidor destes "nuestros hermanos" - sem que isso seja minha traição ao Lidl (recordo que o Queen Margot aumentou apenas 10 cêntimos e a Argus manteve o preço, mostra do "contrato social" que essa empresa quer, apesar de tudo, manter com os seus consumidores, pesem embora os efeitos da "transição energética" e da "intervenção militar" russa). Consistiu tal inauguração numa refeição, rápida, eficiente, decente e barata, de filetes de pescada da Mercadona.
 
E no final disse: Avante!

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Não sou muito de doces. Aliás, tenho a ideia - que me é dogma - que homem que é homem não segue dado à doçaria, a esta deixando, em risonho e justificado mansplaining, como monopólio da volúpia do belo sexo. A nós os óleos e banhas da crocante chamuça, do rústico rissol, da bacalhauzada, do entrecosto a roer. A elas - e, vá lá, aos do convento - os açúcares que amainam os espíritos. É certo, é-nos permitida, e até requerida, a mera colher de café do pudim esponsal, sinal da partilha infindável que é o amor, e mesmo a de chá na musse alheia, marca do furor lascivo do amantismo. Mas só isso...
 
Na alvorada de hoje visitei a pastelaria fina da vila. Já lá havia estado, meia dúzia de vezes, "ao pão" e café. Após uma noite insone, encetei-me, em busca de alento para o dia, com uma para mim antiquérrima dupla, a Coca-Cola e a bica. Mas tamanho era o défice próprio que lhe associei - com a impudicícia permitida pela solidão e total anonimato - um "jesuíta", bolo que terei comido com agrado na juventude impúbere.
 
E fiquei absolutamente espantado. O tal "jesuíta" é ali uma verdadeira delícia, única. Um memorável momento... E enquanto o mastigava, surpreendido, lembrei-me de que já me haviam recomendado, com fartos encómios, a pastelaria desta "Largo da Feira", em Palmela.
 
Garanto-vos, vinde ao vinho, vinde ao belo castelo panorâmico, vinde às magníficas tulipas e entremeadas do "Miradouro" virado ao (agora fustigado) Vale dos Barris. Mas passai - até para agrado das Senhoras da vossa vida - pela pastelaria "Largo da Feira" a abastecerem-se dos tais açúcares de fabrico próprio, que estes amainam mesmo os espíritos.

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Devido ao meu recente contributo para a situação sanitária nacional, tendo então proposto a Açorda de Bacalhau para mitigar os perigos do veraneio, fui agora convocado para um Encontro de Culinária Política, ontem ocorrido.

Tratou-se de mais uma acção de resistência, vero prenúncio de agit-prop, contra as soluções únicas, majoradas pela proclamação da sua indiscutibilidade. As quais vão sendo defendidas pelos seguidores das expressões ditatoriais, que actualmente tanto ressurgem, esses crentes na fusão da Razão de Estado com a Razão da História, assim sempre lestos a anunciarem as suas opções como fundamentadas num desígnio Moral a que chamam Futuro. E também outras, quantas vezes daquelas distintas, apresentadas pelos adeptos de vias totalitárias, sentidas como virtuosas pois valorizando características e tendências ditas ônticas de alguns "grupos" sociais entendidos como telúricos - ainda que venham sendo entretanto delineados -, e assim sacralizadas quais Ética irredutível.

Neste seminário foi proposta a tese do Arroz de Bacalhau, através de um documento gizado por mãos viris - e nisso alheias ao empratamento pequeno-burguês de fachada gastronómica. De antemão fui informado que se tinham firmado robustas barricadas contra a Salmonela - essa arma da reacção que vem sendo manuseada contra o nosso Serviço Nacional da Saúde -, conformes à mobilização das brigadas sanitárias.

Sem qualquer rebuço, e ainda menores delongas, desde logo me foram apresentados os argumentos, e de modo bem estruturado. Tudo assenta na multicultural tradição pátria, o azeite, em ror generoso mas não espúrio, irmanado em refogado ao alho e à cebola. Quando essa Santíssima Trindade está já consagrada acolhe o convívio do pimento, o mais colorido possível, e do tomate. Num brando depois, e seguindo os ditâmes da perspectiva empiricista, é apresentado o arroz, neste caso o Carolino - por opção patriótica mas nunca xenófoba -, e estipula-se uma pausada mas ágil coreografia destes elementos, para obstar a quaisquer ensimesmamentos. Momento após o qual o já agregado é aspergido por uma farta dose, triplicando a de arroz, da água oriunda da prévia cozedura do fiel amigo.  Sobre tudo isto será deixado um punhado de sal - cuja medida dependerá não só das perspectivas dos comensais relativamente ao futuro próprio, como também do prévio estado do bacalhau, se de salga como é nosso timbre identitário pelo menos desde o herói Corte-Real e o pirata Cabot, se congelado, como vem sendo globalizado. E, finalmente, é este - entretanto grosseiramente desfiado - albergado em tudo isto que para o acolher foi preparado, seu último descanso, verdadeira nave na qual ascenderá ao além. Depois, já lume desligado, tudo é ornado com ramos de salsa viçosa e odorífera, sinal do júbilo celebratório.

Apresentada a tese, o trio presente no seminário encetou o debate - em formato qual podcast, assim muito actual - cerca das 13.30, esmiuçando os argumentos com um piripiri caseiro de excelente confecção, cuja honestidade ideológica se traduz no facto da sua assertividade não poluir o paladar. Em tudo isso se socorreu de uma honestíssima garrafa de vinho branco, apresentada à temperatura adequada, à qual se seguiu - numa descontinuidade quebrando os habituais trâmites mas devida a opção conjunta - de um outra de tinto, da mesma lavra qualitativa. Tripla dose de conduto consumida, devido à profundidade da temática em questão, houve um ligeiro "intervalo para café", após o qual se acolheram algumas aguardentes oriundas das resilientes zonas católicas das ilhas britânicas, tão do nosso agrado - as referidas ilhas e as aguardentes. 

Entretanto, já cerca das 17.30, e ainda em acalorado debate sobre bens e males do mundo, e por deveres da militância de cidadania automobilística, transitei para o consumo de um elixir que não bebia há muitas décadas, um tal de "Ginger Ale" de sabor desejavelmente esquecível, enquanto vários cafés iam agredindo o meu horizonte de hipertenso. Depois, e já noite bem feita nestes longos dias de Junho, terminou o colóquio. Norteei-me então, rumo a Sul, e o casal anfitrião, ainda que exausto, terá produzido as exigíveis Actas. Decerto que exarando um "bolas, o gajo nunca mais se ia embora!".

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