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Nenhures

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A "New Yorker" traz uma boa peça sobre Bill Frisell (ligação com acesso livre). Enquanto a leio abro outra "janela" e deixo-o tocar. Mas, oops, cansar-me-ei - sim, sei que o homem é infindável, quase infinito, mas o concerto que abrira aborrecia-me. E por isso recuei às suas declarações na tal peça, dizendo que fora influenciadíssimo pelo grande Boubacar Traoré... "Ih, há quanto tempo não o ouço!", resmungo-me. Deixo o Frisell lite (lamento, mas é a verdade), vou à referida Spotify e inscrevo-me como ouvinte do gigante maliano. Isto foi na alvorada. Passei o dia a ouvi-lo, a Boubacar Traoré. Que belo dia!

Boubacar Traoré  - Je Chanterai Pour Toi (documentário de Jacques Sarasin, 2001)

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Em meados da década de 1970, a nossa revista semanal "Tintin" era um verdadeiro luxo. Sob os célebres arrais Vasco Granja e Dinis Machado - este que viria a botar o tão influente "O Que Diz Molero", uma pérola...-, agregava o que era publicado na "Tintin", na "Pilote" e ainda na "Spirou", conjugando a "ligne claire" (dita de Bruxelas) com  "escola de Marcinelle".*  Pouco depois dos meus 10 anos, na era do PREC, nela houve uma "revolução coperniciana". Foi a introdução de autores que então pareciam menos atreitos canónicos, como Derib, Auclair, Cosey, etc. E Pratt, ainda para mais chegado no preto-e-branco que a tantos desagradou. Essas novidades provocaram uma enorme polémica no sempre animado "correio dos leitores" - verdadeiro prenúncio das "redes sociais", poderemos dizer se hoje revisitarmos a revista -, opondo os (jovens) "conservadores", militantes dos heróis já estabelecidos, aos "(jovens) turcos", paladinos das inovações havidas. Descobri-me "centrista", na concertação entre o afã jubiloso com que perseguia as odisseias de Comanche, Alix, Clifton, Blueberry e as de Jonathan, Simon du Fleuve ou Buddy Longway.

Pouco depois, e ainda na minha puberdade, surgiu a brevíssima revista dedicada ao Spirit (talvez seis números apenas), assim descobrindo Will Eisner que logo me encantou. Depois fui crescendo e chegando a outras revistas, outros autores e heróis. Mas antes havia tido uma excepção no meu encantamento: nunca tinha entrado em Tardi, de que fora publicada o início da série Adèle Blanc-Sec ainda na minha adolescência. Pois a este autor só quando adulto vim a aderir. E muito. 

E sim, ele é o homem da I Guerra Mundial, da absurda hecatombe dos poilus, obsessão temática que ele próprio reconhece. Quando se celebrou o centenário do Armistício em Portugal - entre um gigantismo militarista totalmente anacrónico e um discurso falsário do presidente da República (que teve o desplante de apresentar a participação portuguesa como se fosse dotada do conteúdo de uma participação na II Guerra Mundial, se associada aos Aliados) - botei, em cima das minhas memórias de Tardi, a minha repugnância por tais dislates. Sublinhada por estar então a viver na Bélgica, onde as comemorações (bem mais sentidas, como é óbvio) estavam despojadas de tais militarismos, patéticos triunfalismos e falsidades históricas. Enfim, foi a Tardi que recorri, tamanha a influência que ele teve na minha visão da nossa História. E o encanto que tenho diante da sua obra gráfica. 

Por isso aqui deixo duas entrevistas em registo autobiográfico: estaao longo de cinco "fascículos" radiofónicos. E uma entrevista audiovisual: 

* Para uma breve história da revista "Tintin" portuguesa ver este artigo de Carlos Maria Bobone; sobre as "escolas" (tendências) da banda desenhada belga ver este postal de Agnés Deyzieux. 

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[Postal em registo de diário não intimista, para quem ainda me ature. Que leva uma modesta dedicatória à memória de Pierre Bourdieu, bem importante na minha formação e que morreu há 20 anos, exactamente cumpridos há 4 dias]
 
O meu ontem foi de "actividades culturais", nas quais se poderão reconhecer as minhas "disposições" (aquilo do celebrizado "habitus") mas também encontrar opções político-ideológicas, estas mais relevantes de sublinhar em período pré-eleitoral. E aqui as descreverei pois sei que tenho alguns amigos, e decerto que vários "amigos"-FB, que me consideram um pernicioso direitista, vinculado a prejudicar os compatriotas explorados ("desfavorecidos", como dizem os eunucos), os trabalhadores ("colaboradores", dizem os outros direitalhas e... tantos outros ainda que pejados de tiques linguísticos de "género"), aqueles que estão no sopé da "escadaria" social (como ilustram os reaccionários). E quero alijá-los de quaisquer dúvidas sobre essa minha malevolência que ainda os possam atormentar. 
 
À alvorada fui abastecer-me a um mercado municipal, em demanda de víveres frescos. Assim numa postura iliberal, pois aceitando a tutela estatal sobre o comércio. E até (verdadeiramente) socialista, pois eximindo-me ao verdadeiro oligopólio das "grandes superfícies" - as quais, de facto, tendem a constituir-se em monopsónios face a sectores dos produtores nacionais. Almocei um magnífico arroz de choco com a sua tinta, de confecção caseira, opção gastronómica evidenciando um conservadorismo cultural que raia o nacionalismo mais exaltado.
 
À noite vi o Sporting-Santa Clara, atenção futebolística demonstrativa do meu vínculo ao obscurantismo, à alienação do povo, típico da minha adesão às forças políticas mais conservadoras e avessas aos interesses populares. Depois assisti a um precioso documentário sobre Ingmar Bergman, transmitido anteontem (25.1) na RTP2 e disponível na RTP Toca (dita Play, na grafia do socialista-"lusófono" Acordo Ortográfico de 1990), mais uma opção iliberal patente no consumo de uma programação estatal, pejada que está esta de "marxismo cultural" - apesar das características peculiares do tal Bergman. Muito recomendo a quem se possa interessar que o veja, bem como aproveito para recordar aos que podem aceder ao canal privado HBO que neste está disponível um punhado de filmes deste mestre. Estou consciente que estas referências me aproximam de uma postura pedagógica, em tempos própria de uma esquerda fabiana, até mesmo depois transformada em social-democrata.
 
Finalmente, recolhi ao leito onde reli alguns trechos - até devido à memória do belo almoço havido - do "Un homme dans sa cuisine", um delicioso auto-retrato enquanto cozinheiro de Julian Barnes, minha apetência que evidentemente refracta a minha condição de género, homem branco heterossexual e pequeno-burguês (ainda que empobrecido). E depois continuei a minha releitura de "Nónumar", um mimoso livro - muito dedicado ao Ibo - do poeta moçambicano Júlio Carrilho, que há pouco morreu. Opção que decerto demonstra a minha costela neo-colonial, nesta atenção dedicada a uma antiga parcela do Império português, e até, quiçá, uma "nostalgia colonial" epistemologicamente poluente.
 
Tentei então dormir. Mas estava insone, porventura devido à excitação futeboleira. Ou talvez a algum excesso comensal cometido. E fui até ao Facebook, deparando-me com imensas proclamações políticas entre os meus "amigos-FB", alguns reais, a maioria apenas virtuais. Nisso me demonstrando um eleitor fragilizado, produto das campanhas de desinformação que grassam nestas redes sociais, desprotegido da mediação correcta, exercida pelos jornalistas e comentadores avalizados ("anunciados na tv"), e assim propenso a opções direitistas.
 
Muitos falam da (política de) Saúde. É normal que após dois anos desta monumental pandemia, e do monopólio de atenção que esta congregou, este tema seja dominante. É normal, mas não é saudável. Pois escasseiam os debates e as reflexões (para além do "achismo" avulso) sobre os "modelos" (eu prefiro dizer "estratégias") de desenvolvimento deste país estrafegado, pela gigantesca dívida, pela estrutura económica, pela composição demográfica, etc. E assim a política de Saúde torna-se qual um Grand Canyon ideológico, com imensa gente a clamar contra os que querem "privatizar" a Saúde, alguns mesmo falando dos defensores dos "barões da medicina" (imagem literária de antanho), nisso "demonizando" (de facto criminalizando) uma "direita" de pulsões assassinas, até gerontófobas.
 
E assim, já noite longa, lá li mais alguns e algumas clamando contra a maldita direita que quer privatizar a Saúde, invectivando os defensores do "apetecível negócio" que esta é. O que é engraçado é que eu os conheço, pessoalmente. Sei que são quarentões, cinquentões e até sexagenários, sendo há décadas professores de universidades públicas. Ou seja, têm ADSE. Vivem, e fruem, como os grandes financiadores da medicina privada, dos convénios público-privados nesta área. E nunca, mas mesmo nunca, aludem a isso quando saem a terreiro clamando, a teclas juntas e voz exaltada, contra os "liberais", sabujos dos interesses privados na Saúde.
 
Foi então que, já cabeceando sonolento, me lembrei da velha frase de Pierre Bourdieu sobre os cientistas sociais: "os sociólogos têm a tendência de serem sociólogos dos outros e ideólogos deles mesmo". E assim, com a sageza que me é própria, produto das minhas vastas leituras, proferi dois ou três peludos palavrões dedicados a estes "sociólogos" no Facebook. E adormeci, no sono dos injustos (de direita).
 
Hoje, ao acordar, e enquanto sacudia as remelas, ocorreu-me a dúvida: quando (ou se) um dia reencontrar algum destes "democratas" devo dizer-lhes de viva-voz o palavrão que resume o que deles penso? Ou deverei sorrir, alegrando-me num "há quanto tempo, como tens passado?" Sendo assim um hipócrita filhodaputa tal e qual eles o são. No seu quotidiano opinativo. Mas já me conheço, dependerá do dia. E, acima de tudo, se se trata de uma bela amiga ou de um destes emplastros armados em parvo - opção beligerante que, mais uma vez, refracta o machismo estrutural deste tal homem, heterossexual, branco e pequeno-burguês. E que nessa horrível condição segue carregadinho de desprezo por estes hipócritas.

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