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Nenhures

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Nos últimos tempos fui botando sobre os Olivais - onde resido - e a sua peculiar Junta de Freguesia. Referi (aqui e aqui) o seu inaceitável e desavergonhado comportamento durante o dia de eleições, com o pessoal contratado pela Junta para acompanhar as votações a envergar vestes propagandísticas da lista do PS. Pouco antes antes aludira (por exemplo aqui e aqui -  para além de textos bem anteriores) a essa mediocridade caciquista dos elementos PS que ali dominam desde há décadas. E depois das eleições sublinhei como as perdas de votação do PS naquela freguesia - e que muito se deveram às manigâncias e arrogâncias da sua presidente face aos interesses da população - foram, por si só, suficientes para a derrota da candidatura de Medina à câmara (aqui, aqui, aqui).

Tal insistência minha poderá parecer demasiada a quem não conheça o "bairro" e não possa assim perceber a intensidade do baixo nível daqueles eleitos para a Junta, a indigência intelectual da abrasiva demagogia, o exercício pessoalizado do poder autárquico - histriónico no caso da presidente da junta. E, acima de tudo, o efectivo desrespeito pelos fregueses, patente na forma altaneira e paternalista de exercício de funções. De facto, uma atitude anacrónica, já excêntrica pois situada no centro da capital. E a qual foi, repito, bastante punida nas últimas eleições, ainda que a lista do PS tenha mantido a Junta apesar dessas grandes perdas de votos - insisto, faltou aos restantes partidos a tempestiva apresentação de candidaturas informadas e preparadas para este exercício.

 

 

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Consta que o presidente da câmara de Sintra, o candidato do Partido Socialista Basílio Horta - e antigo presidente do AICEP durante o consulado de José Sócrates - está muito incomodado com um recente oponente eleitoral, Ricardo Baptista Leite, tendo-se agora recusado a cumprimentá-lo numa sessão pública, alegando algumas deselegâncias que aquele terá proferido a seu respeito durante a última campanha autárquica. 

(Basílio Horta vs Mário Soares, arquivo RTP, 4'46'') (Debate completo I, II)

A cena, até patusca, foi filmada e corre na imprensa. E tamanha reacção ofendida devida a ataques políticos logo me fez lembrar uma antiga campanha presidencial, ocorrida no milénio passado. Então o candidato presidencial do Centro Democrático Social, Basílio Horta de seu nome, disse do seu oponente e então presidente Mário Soares pior do que aquilo que os talibãs afegãos dizem das mulheres que estudam. A cena ofendeu Soares e terá originado um corte de relações, o qual - ao que lembro de ter lido na imprensa - veio a ser ultrapassado anos depois, através de benemérita intervenção conjugal.

Agora, 30 anos depois, e seja lá qual for a memória que se tenha daqueles algo desbragados tempos da integração europeia, do cavaquismo e administração soarista de Macau, ocorre-me um até nostálgico "não é Mário Soares quem o quer ser". Principalmente, muito principalmente, quem cruza a vida em tamanhas piruetas políticas.

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A propósito dos hipotéticos efeitos nos resultados eleitorais de Lisboa tidos pela reportagem da "Sábado" sobre as práticas aquisitivas da presidente da junta de freguesia de Arroios, o Polígrafo tem hoje um artigo - de Carlos Gonçalo Morais - que mostra terem sido substanciais as perdas da candidatura de Medina nessa freguesia. E através da comparação com as outras freguesias lisboetas onde o PS não ganhou a freguesia (perdendo a presidência ou repetindo a derrota) evidencia ser Arroios uma das freguesias onde a punição eleitoral do PS, tanto para a Câmara como para a Junta, foi maior, apenas ultrapassada pela acontecida no Lumiar, deixando assim implícito (quase explícito...) que o desvendar daquelas deselegantes práticas da presidente da Junta terão lesado a candidatura camarária do partido incumbente. Para comprovar isso o artigo apresenta uma tabela com os resultados dessas freguesias. E conclui, certeiramente, que "é verdadeiro que a freguesia presidida por Margarida Martins – Arroios - foi uma daquelas em que o PS perdeu mais votos nas últimas autárquicas em Lisboa, quer para a Câmara Municipal, quer para a Assembleia de Freguesia, com a erosão a ser ainda maior para Margarida Martins do que para Fernando Medina."

Eu direi que é "Verdadeiro, Mas...". E recordo este meu postal, "Os Olivais e a derrota de Medina" - nisso para ele apelando à atenção do Polígrafo, se tal for possível. É certo que na freguesia dos Olivais o PS não perdeu a presidência da Junta (o critério que o artigo escolheu para a comparação). Mas as suas perdas foram substanciais, e isso será um dado interessante para esta reflexão sobre o peso global da derrota em Arroios. 

Para o evidenciar vou aduzir Olivais à lista de freguesias apresentadas pelo Polígrafo:

I. Perdas do PS nas freguesias onde deixou de ser a força política mais votada para a Câmara Municipal (Fernando Medina) + Olivais

FreguesiaVotosPontos percentuais
OLIVAIS237712,92
Lumiar1.97711,07
Arroios1.83911,17
Alvalade1.3438,97
São Domingos de Benfica1.2727,74
Avenidas Novas1.0318,43
Areeiro9468,82
Parque das Nações6478,68

 

II. Perdas do PS nas Assembleias de Freguesia onde deixou de ser a força política mais votada (candidatos às juntas) + Olivais

FreguesiaVotosPontos percentuais
OLIVAIS328018,8
Lumiar1.97711,07
Arroios1.83911,17
Alvalade1.3438,97
São Domingos de Benfica 1.2727,74
Avenidas Novas1.0318,43
Areeiro9468,82
Parque das Nações6478,68

 

Por isso este meu sorridente "Verdadeiro, Mas" ao cuidadoso artigo do Polígrafo, pois a derrota do PS não se deve apenas - como aqui comprovo - ao acontecido nas freguesias onde a coligação "Novos Tempos" ganhou a freguesia. Repito o que disse há dias: só as perdas do PS nos Olivais são superiores à distância (2194 votos) entre as candidaturas de Moedas e de Medina.

Enfim, é provável que com tudo o que aconteceu nos últimos quinze dias a concelhia do PS, alguns dos simpatizantes desse partido e até Fernando Medina estejam algo magoados com o desempenho de Margarida Martins em Arroios, e ela própria algo dorida com o ocorrido. Mas sosseguem ela e os seus correligionários. Pois, de facto, quem rebentou com aquilo tudo foi a "nossa" Rute Lima, presidente da Junta nos Olivais e colunista do prestigiado boletim "Público". Como os números o comprovam.

ADENDA: só agora reparo que o Correio da Manhã publicara este esclarecimento gráfico - 

olivais votos.jpg

 

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Eu cresci nos Olivais e um quarto de século depois, já cinquentão, a eles regressei - e fui blogando sobre isso (2.3.2004, 16.6.2016,  31.7.2019). Também estive no Olivesaria, blog colectivo dedicado ao historial do "bairro". Nos últimos anos, e até antes de ter retornado ao país, de vez em quando sobre ele escrevi, até breves textos com alusões políticas - como em 27.3.2013, 28.11.2014, 21.6.2016, 29.3.201721.9.2017, 30-9-20172.10.2017, 3.12.2017,  29.11.2019, etc. Nunca um texto sistemático, fora de blogs, e devia tê-lo feito, nisso pensei e até como resultado de inúmeras conversas com vizinhos amigos sobre a situação do bairro e as deficitárias características dos incumbentes autárquicos. Fiquei-me na preguiça dos meros resmungos bloguísticos.  

Tendo residido 18 anos em Maputo quando regressei aos Olivais três factos - para além de intuir acentuadas alterações sociográficas - chamaram-me a atenção. O mais visível foi o mau estado da recolha de lixo e da manutenção dos muito vastos ajardinados - e se alguém chegado de uma cidade com os problemas urbanos como Maputo tem reparava naqueles disfuncionamentos é porque algo estava mesmo mal . Maldisse sobre isso, até em blog. Mas, justiça seja feita, só depois soube que houvera uma relativamente recente alteração nas responsabilidades municipais, com o aumento das tutelas das juntas de freguesia. As quais, provavelmente, estariam suborçamentadas para enfrentar as novas tarefas e estariam também desprovidas dos recursos humanos adequados para as executar. 

Outras duas características do poder local se notavam. Por um lado, um caciquismo feroz, numa pessoalização radical do exercício político patente na omnipresença pictórica da presidente Rute Lima, seja na imprensa municipal gratuitamente distribuída seja nos cartazes propagandísticos da Junta. Essa concepção de poder, traduzindo uma arrogante anti-democraticidade, realçou-se no processo de introdução da EMEL na freguesia, cujo intenso debate entre a população foi recebido pela equipa autarca com evidente menosprezo, acompanhado de incumprimento de promessas eleitorais e procedimentos administrativos. 

A tudo isto se associa a subordinação do poder freguês a uma mundivisão assistencialista, algo muito reforçado face a uma população socialmente heterogénea e aparentemente muito envelhecida - algo que teve agora como corolário deslustrante uma lista PS pejada de membros das direcções das agremiações locais. Poder-se-á dizer, com benevolência, que isso é a articulação do poder autárquico com as instâncias da "sociedade civil". Mas, de facto, corresponderá apenas aos típicos manuseios de um poder situacionista. É certo que uma Junta não tem as responsabilidades nem as possibilidades do governo ou das câmaras, e que a componente de assistência social é fundamental no seu exercício. E mais ainda num bairro empobrecido, até porque envelhecido, e na ressaca da crise financeira anterior e, agora, da pandémica. Mas não é preciso ser utópico para considerar que esta instância de poder autárquico de base deve também ser uma base para reflexão e indução de práticas e políticas, (re)animadoras da freguesia, nas vertentes sociais e culturais e até económicas. Seja por acção directa, na estreiteza das suas possibilidades, seja como trampolim de preocupações e ideias junto dos órgãos mais elevados da administração pública e, se calhar ainda mais, para discussão pública, na freguesia, no concelho, e até mais longe. Mas nada disso acontece, apenas o exercício do pequeno poder, com tendências micro-autocráticas, um verdadeiro vazio cultural - não de "acção cultural" mas sim de concepção cultural do que é o exercício político a este nível. 

Entretanto, o Partido Socialista domina esta Junta de Freguesia há largas décadas. Julgo que o seu anterior presidente, Rosa do Egipto, terá sido o presidente de Junta com mandato mais longo no país (é o que se diz no bairro). E foi sucedido pela actual presidente Rute Lima, que julgo ter agora avançado para o terceiro mandato. Esta perenidade denotará as características sociológicas da população residente mas também uma relativa satisfação dos habitantes com os serviços prestados, seria absurdo negá-lo. Mas também denota, é legítimo afirmá-lo, uma resignação local, uma falta de hábito e até de ambição em perspectivar que ao poder local se pode pedir mais.

Enfim, alonguei-me neste rescaldo olivalense apenas para introduzir isto que me ocorre. Muita gente, e também minha conhecida, militante ou simpatizante do PS reduz as críticas aos incumbentes socialistas a mero ressabiamento, ressentimento, inveja. Ou, numa visão mais ideológica, ao facto de os críticos serem da abjecta "direita", até mesmo "radical", "neo-liberal" ou quejanda malvadez. Ora é para esses, conhecidos ou desconhecidos, simpatizantes/militantes do PS que falo, presumindo-os algo desalentados com a derrota de Medina e a vitória de Moedas, o malvado agente do "popó" como já o ataca o núcleo socratista.

E o que lhes quero dizer é isto. O PS e Medina perderam a Câmara Municipal de Lisboa por 2194 votos, não tanto assim. Na freguesia dos Olivais em 2017, e com o mesmo cabeça de lista e já em exercício, o PS tivera 7922 votos. Agora teve 5545. Ou seja, perdeu 2377. Só aqui mais do que a diferença que o fez perder a Câmara. Aduzo que para a Junta de Freguesia o PS em 2017 tivera 8444 votos e que agora obteve 5164, perdendo ainda mais votos, 3280. O que demonstra que a insatisfação com a equipa de Rute Lima é ainda maior do que a com a de Fernando Medina. Ou seja, é legítimo pensar que se tivesse o PS mudado a candidatura neste bairro, se tivesse optado por abandonar o aparelhismo caciqueiro, elevando a fasquia intelectual e política dos candidatos, bem para além do histrionismo demagógico e do recurso a cantoras populares para compor o ramalhete, talvez outro resultado final global tivesse acontecido. Muito provavelmente, mesmo. Mas vingou, claro, a submissão acrítica ao aparelhismo, essa anti-democrática concepção do exercício político. Típica naquele partido.

Eu sorrio, algo chateado com a continuidade de Lima por aqui mas muitissimo contente com a vitória de Moedas. E ainda mais sorrio, sarcástico, ao pensar nestes furiosos adeptos do PS que conheço, incapazes - mesmo em privado - de se apartarem de qualquer item desta Situação. Presumindo, claro, que aqueles que me conhecem quando me virem de novo resmungando com a  mediocridade autárquica no meu bairro me invectivarão de "neocon", "lusotropicalista", "ultraneoliberal", "ressabiado", etc. O resultado dessa pobre mentalidade é este: às vezes, infelizmente só às vezes, o apego acrítico a esta gente leva à derrota. Dolorosa ou estrondosa.

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Gargalhadas:

1. A derrota de Medina: sim, há razões mais abrangentes para o meu riso, sobre Lisboa, sobre o que deve ser uma câmara, e que dimensão quantitativa deve ter, sobre que visão da cidade, sobre a arrogância estatal e as punções sobre os munícipes. Mas, acima de tudo, é a derrota do epígono de Sócrates que mais se lhe assemelha. Aleluia!

2. O verdadeiro descalabro eleitoral do BE (depois da sangria nas legislativas e do falhanço presidencial).

Sorrisos: 

1. O PS derrotado em Lisboa, Porto e Coimbra. Tem alguns ganhos devidos à lenta degenerescência do PCP. Mas a derrota nas 3 "grandes cidades" - em cada uma à sua maneira - mostra o estado deste mísero costismo.

2. O silêncio social com que foi recebida a candidatura lisboeta do BE, assente num execrável apelo racialista - e na expectativa de uma reacção adversa que a potenciasse. A sociedade desprezou-a. Mesmo os fazedores de opinião, até surpreendentemente pois sempre tendem a seguir com desvelo os ademanes bloquistas. Assim esvaziando-a, deixando os atrevidos demagogos sós diante do espelho.

3 A candidatura da IL em Lisboa "foi uma merda", parafraseando o tipo que a encabeçou.

4. Aquilo do colunista do Público, Rui Tavares.

5. Amigos meus lisboetas, de "esquerda", não só votando em Moedas como também cruzando mensagens telefónicas, exultantes com a derrota de quem lá estava. Amigos meus de outros concelhos, de "centro" e "direita", abstendo-se ou votando alhures, devido aos mânfios dos seus partidos que lá mandam.

Rictos:

1. Abstenção muito falada e lamentada, como se coisa extrema: votantes foram 53,65% (54,97% em 2017, 52,6% em 2013). Não há um desajuste nestes trinados do comentariado nacional?

2. CHEGA tem 4,16% e 208 000 votos. O tipo é desagradável? É. Mas isto justifica todos estes clamores de que o fascismo está ao virar da esquina? Francamente...

3. Sondageiros & Jornalistas, ltd: já chega, raisparta, são anos disto. 

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