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Nenhures

Nenhures

Crónica dos dias do COVID (22): conselheiro de Estado

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1. Num dia indignamo-nos com as declarações de um ministro holandês sobre as finanças do Estado espanhol, em plena crise desta temível pandemia.

2. No dia seguinte, o Professor Francisco Louçã, conselheiro de Estado e vulto-mor da esquerda "urbana" diz-nos, sobre a referida temível pandemia, que "A Alemanha gosta desta situação", pois "beneficia com estas crises". A tal "esquerda urbana" que o subscreve, e tantos deles seus colegas, anuiu pelo silêncio e - imagino, pois sigo confinado - num "o Louçã tem razão, sim senhor ...".

3. No dia seguinte suicida-se Thomas Schafer, ministro das finanças de Hesse, um dos estados da Alemanha Federal, e seu provável futuro ministro-presidente. Pois, e para além de outros hipotéticos problemas pessoais, se encontrava avassalado com os efeitos económico-financeiros desta ... temível pandemia.

Conselheiro de quê? ..

O "caso Mila" e a blasfémia em França

(Nicolle Belloubet, ministra francesa da Justiça, "L’insulte à la religion est une atteinte à la liberté de conscience", 29.1.2020)

No mural-FB de uma boa amiga francesa conheço o "caso Mila", a francesa (16 anos) que está ameaçada de morte por ter invectivado o Islão nas redes sociais. Googlo para saber da coisa. E vejo isto: a ministra da Justiça de França a por em causa o direito à blasfémia! O recuo civilizacional já chegou até aqui. Em França! Insultar a religião é um atentado à liberdade de consciência, diz esta mulher (que ainda para mais é jurista).

O direito ao desprezo pela religião, à blasfémia, é estruturante. É a base deste nosso isto! Custou séculos, guerras. Temos a liberdade de cultuar. Só porque temos a liberdade de desprezar toda a imbecilidade metafísica alheia, as patetices e crendices. Podemos ter o "bom senso", o charme discreto da burguesia, de conviver com a superstição alheia sem a invectivar. Mas não é uma obrigação, é mera educação. Ou, meu caso, falta de paciência para discutir com os patetas. Essa é a base de tudo o que há por aqui, nesta "pérfida (e colonialista) Europa".

E de súbito (ou quase) até em França se recua diante da barbárie culturalista. A propósito do Islão. Não por causa do Islão. Até em França. Isto vai mal.

Pós-Brexit

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Uma belíssima capa do Guardian, algo escatológica, típico lamento dos "remainers". Inclino-me para que daqui a poucos anos nem nos lembremos deste episódio. Ou seja, que a saída da G.-B. da UE não cause o fim do mundo tal como o conhecemos.

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Mas faz-me lembrar um pequeno episódio. No ano passado, nas estantes da casa de Bruxelas onde vivi, reencontrei este livro, institucional, "As Novas Fronteiras da Europa – o Alargamento da União: Desafios e Consequências”. Trata-se das actas de uma conferência organizada pela Gulbenkian, em Outubro de 2004. Dedicada à problemática do alargamento da União Europeia. Várias personalidades reconhecidas foram falar (Daniel Hamilton, Roxane Silberman, Michael Zuckert, Thérèse Delpech, Yegor Gaidar, Antoine Compagnon, Josef Jarab, Michael Emerson, Willem H. Buiter ou Jean-Claude Trichet). E também o presidente da república, Jorge Sampaio (discurso de Jorge Sampaio).

Li o livro na diagonal, mas com a suficiente atenção para ver que quase todos referiam os "problemas" e as "dificuldades" que o recente alargamento da UE impunha. Mas também se anunciava a necessidade de integrar a Turquia na UE. Uma necessidade apresentada como inevitabilidade, qual corolário quase tautológico da integração europeia. E também como evidência ética. Não houve naquela colecção de conferências um texto verdadeiramente crítico do conteúdo e das modalidades da União Europeia, nem das suas instituições. E muito menos uma voz dissonante relativamente à integração turca. Ou seja, na pluralidade de tons e sons normal numa série de potentados retóricos, assistiu-se ali a um pensamento único. E plácido, naquele estilo do reconhecer "problemas" de facto menores mas sem presumir "problemas" de facto maiores. Aqueles que atrapalham o tal pensamento único. Plácido. Assim inútil face à polvorosa que é sempre o mundo. E na história, europeia e não só, repetem-se as ultrapassagens sofridas por quem pensa politicamente assim.

Ok, a conferência foi em 2004. Não se pode exigir aos grandes académicos, aos políticos retirados ou aos políticos no activo (e aos assessores que escrevem os discursos) que sejam áugures. Que imaginem o imediato futuro ou o longínquo. Mas podemos exigir que não tenham um pensamento plácido. Muito feito de "deveres-seres". E muito feito na monotonia do exercício do poder, alimentado da bononia que isso traz.

Convirá lembrar o quanto todos os que se opuseram (opusemos) à entrada da Turquia foram "fascistados", "racistados". Entretanto a Erdoguização turca fez fenecer o projecto. E o mundo, europeu e alhures, tudo mudou. Agora veio o Brexitismo. Também ele "fascistado" (e um pouco "racistado").

Ficaria, num mundo melhor, para este pós-Brexit um desafio: o da exigência aos políticos e aos grandes académicos que saíssem do pensamento plácido, o dos "deveres-seres". Que saíssem do conforto das grandes conferências a repetirem-se, entoando coros. Missas laicas. Que tentassem antever o mundo, não à medida dos seus pontos de tomada de vista (dos seus horizontes), mas o mais panopticamente que pudessem. Ou seja, exercendo a verdadeira utopia intelectual e política, a inteligência abrangente.

Mas isso seria num mundo melhor. Neste mundo? Seria interessante ir perguntar aos turcófilos de então como avaliam o seu desempenho intelectual dessa altura. E sublinhar-lhes a extrema incompetência. Ou seja, apeá-los do estatuto de curandeiros que, injustificadamente, reclamam. O resto, a História. Essa segue, indomável aos fracos esforços destes sossegados intelectuais-políticos.

Ratzinger sobre a Europa

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(Postal para a rubrica "Pensamento da Semana" no Delito de Opinião)

"O nacionalismo não só levou, de facto, historicamente a Europa à beira da ruína, como contradiz ainda o que a Europa é pela natureza espiritual e política, embora ele haja dominado as últimas décadas da história europeia. Daí que sejam necessárias instituições políticas, económicas e jurídicas supranacionais, que certamente não pretendem construir uma super-nação mas que, ao contrário, devem devolver, fortalecidas, às diferentes regiões europeias o seu rosto e peso próprios. Instituições regionais, nacionais e supranacionais devem imbrincar-se de tal modo que tanto o centralismo como o particularismo sejam excluídos."

(Joseph Ratzinger, Os Fundamentos Espirituais  da Europa. Leça da Palmeira: Letras e Coisas, 2011, p. 32. Citação do texto da conferência "Uma herança responsabilizante para os cristãos", 1979.) 

Bettel e Boris

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(Postal para o Delito de Opinião)

Luxemburgo tem a fama (e terá o proveito) de ser um paraíso fiscal. Há dias o seu primeiro-ministro teve uma atitude inadmissível para o PM britânico, Boris Johnson. Estúpida, pois só reforça as posições brexitianas na GB, contrariamente ao pretendido por Bettel (é o nome do menino). Anti-democrática, apesar da retórica, pois totalmente avessa àquilo do voto, o britânico. Com um enorme desplante organizou uma conferência de imprensa a 10 metros de manifestantes anti-Boris/Brexit. E como aquele recusou participar na conferência de imprensa naquelas condições, falou sozinho e gozou com o PM britânico. De modo estúpido e arrogante. Imbecil.

Acredito que muita gente concordará com ele. Principalmente à esquerda, subitamente toda europeísta. Portanto organizem-se lá: quando o morcão cá vier vão lá a S. Bento, ou ao CCB. E peçam ao Costa para abancarem a 10 metros dele. E gritem-lhe os impropérios devidos a um tipo que governa um recanto corrupto de evasão fiscal. Ou é a este tipo de escroques que apreciam? Ainda para mais porque mui romântico, com o seu primeiro-damo, meneio que o imunizará às críticas mais que merecidas?

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