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Nenhures

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Do Manguito e Outros Gestos na Obra de Rafael Bordalo Pinheiro, de Isabel Galhano Rodrigues e João Alpuim Botelho, edição do Museu Bordalo Pinheiro, 2022.

Rafael Bordalo Pinheiro é muito invocado, dito "fundador da caricatura nacional" - para além de minudências cronológicas que lhe encontram "antecessores" - respeitado, amado até, como "cidadão pleno e libertário" e nisso precioso "coleccionador de fraquezas" (como disse João Paulo Cotrim), dessas que lhes eram coevas e as quais dizemos ainda actuantes nesta nossa (gasta) Pátria.

Mas, na realidade, Bordalo é-nos algo desconhecido, até mesmo obscuro. Um pouco como aquele avoengo presente em tantas famílias, evocado em convívios sazonais através de episódios que se querem risonhos ou verdadeiros exempla, historietas mais ou menos inventadas acontecidas nos Dembos e Angónias, entre os seringueiros amazónicos, baleeiros atlânticos, filões de volfrâmios ou, também, naqueles das andanças "a salto", tudo isso sem que nós, a sobrinhada, de facto perceba quem foram tais estranhos aventureiros "tios-avôs" e o que lhes foi acontecendo e como se fizeram acontecer.

Muito desse afastamento se deve a que as obras de Bordalo eram contextualmente enraizadas, raras as personagens por ele criadas - e estas sempre simbólicas -, pois se tratava de um universo centrado na vida política e social portuguesa do fim do século XIX. E, sendo aqueles quadros quase sempre de uma rica encenação, pela pluralidade de elementos expostos, a sua fruição convoca vários níveis de leitura, apelando a um conhecimento mais amplo, seja das personalidades caricaturadas seja dos contextos de cada uma das investidas de Bordalo Pinheiro. Digo-o também por mim, herdeiro de três volumes da "Pontos nos ii" oriundos de bisavô paterno, cuja leitura exige uma nada apressada decifração.

E é devido a essa distância para com o mundo de Bordalo Pinheiro, encapuçada pela aparente similitude das invectivas aos poderes que dele queremos recuperar, que são preciosos os livros a ele dedicados, pela descodificação daqueles contextos, afinal mais diferentes deste hoje do que poderá parecer a leituras de mera adesão. Através deles poderemos perceber bem melhor as suas obras, e, sem juizos anacrónicos (auto)punitivos - como esses que tanto estão na moda -, fruir do verdadeiro encanto que a compreensão permite. Por exemplo, apreender a profusão das suas referências a África e às putativas colónias portuguesas percebendo-o também como "Romântico, positivista e mação, agarrado às colónias como a um simbólico pé-de-meia, boémio, sexista, sentimental e altivo, cioso da dignidade nacional, intuitivo e de repentes, Raphael Bordallo Pinheiro é de facto "o português tal e qual"", como, há mais de três décadas, escreveu Ângela Guimarães em "Bordallo: Face a um Mundo em Turbilhão"*, uma investigação dedicada à refracção no autor da mentalidade colonial e dos anseios africanistas da época, algo que Guimarães cumpriu sem se desviar por bacocos dislates punitivos mas sim olhando Bordalo como uma voz trangressora no seu tempo. Ou essa reedição aquando do centenário da sua morte (2005), com textos de João Paulo Cotrim, do "Álbum de Glórias", que é preciosa para a identificação de inúmeras personalidades caricaturadas e, também, por fazer reviver a prosa de Bordalo e seus corrosivos colaboradores (em particular a de Guilherme Azevedo e a de Ramalho Ortigão).

Enfim, várias obras têm sido dedicadas ao autor. Mas ainda assim é muito atractiva esta nova colecção que o Museu Bordalo Pinheiro começou agora a publicar, pequenos volumes (de pequenas tiragens, 250 exemplares) com incursões temáticas àquelas obras. Comecei por este Do Manguito e Outros Gestos na Obra de Rafael Bordalo Pinheiro, de Isabel Galhano Rodrigues e João Alpuim Botelho, apresentado este mês. O qual comporta uma bem conseguida mescla entre a importância da gestualidade como comunicação não-verbal intra-comunitária e a a genealogia do carismático "Zé Povinho", "[Essa] criança que tem hoje perto de cinquenta anos de idade! (...) Nele concorrem em conjunto todas as partes que nos enlevam e encantam no bom menino - casta inocência, temor de Deus, obediência a seus mestres, humildade, nariz por assoar, dor de barriga às segundas-feiras e santíssima ignorância. Aos carinhosos desvelos de sua extremosa mãe, a Carta, e de seu galhofeiro pai, o Parlamentarismo, se deve o estado miraculoso de infantilidade que tão vantajosamente recomenda este vulto à simpatia e ao espanto de todo o mundo" (Ramalho Ortigão, dito João Ribaixo no "Álbum de Glórias"), descrição bem apropriada a um "Zé Povinho" que Bordalo, apesar da simpatia que lhe votava, invectivava por não se erguer como Povo, preguiça que considerava desamor à Pátria.

Ora vem esta sopesada mescla a propósito do célebre gesto do manguito, o qual sempre associamos, no nosso real afastamento à obra de Bordalo Pinheiro, a uma prática regular, desabafo até contestatário, do "Zé Povinho". Para depois, neste livro, percebermos que, afinal, "No que diz respeito aos gestos obscenos, Rafael Bordalo Pinheiro é muito discreto, evitando representá-los de modo explícito" (49). Ou seja, e contrariamente à nossa ideia feita, não há manguitos (literais, no sentido gestual) nas caricaturas - esse registo mais brejeiro apenas veio a surgir na cerâmica de Bordalo. E foi esta, torna-se assim evidente, que veio a moldar a nossa apreensão, a nossa memória, do trabalho gráfico do autor.

Fosse apenas por isso, por este desvendar, este livro seria já precioso. Mas há bem mais assuntos de interesse - até porque profusamente ilustrado (como não poderia deixar de ser), com explanações sobre o conteúdo de cada uma das ilustrações. E o mesmo se aplicará, presumo, aos outros exemplares desta colecção, um fio que será uma constante "reintrodução" a Rafael Bordalo Pinheiro, esse filão de entendimento sobre, 

"N'este país de compadres; / E de ministros d'estado, / E de vates trovadores, / E de tocadores do fado, / E de casas de penhores, / E de grandes orçamentos, / E de namoros aos centos, / E de parvonezes todos, / E de cem milhões de alferes, / E de homens que são mulheres, / E de eleitoraes engodos; (...)" ["Neste país de compadres e d'eleitoraes engodos", em O António Maria, 28 de Junho de 1883, reproduzido na p. 50), 

pois, se difererenças há em relação àquela época, e imensas há, as semelhanças também vigoram. E muito as incompreendemos quando não conseguimos perceber os detalhes da obra de Bordalo, na tal descodificação. Ou seja, urge ir ler os pequenos volumes desta colecção, a preço bastante acessível.

* Eu só tenho uma fotocópia de texto prévio, "O Riso e a Angústia", que não tenho a certeza de corresponder totalmente ao livro publicado em 1997.

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No Delito de Opinião o Pedro Correia questiona-se sobre os que indiferenciam democracias de ditaduras. Tal não se deve a um mau juízo ou a desconhecimento pois, por fluida que por vezes seja a distinção num ou outro caso real, essa indiferenciação é uma posição de princípio por parte daqueles que são adversários da democracia, os crentes das virtudes das ditaduras, e por estas ansiosos. Aquilo que por vezes pode acontecer é ficarem os amigos da democracia algo confundidos, desprovidos de argumentação diante da propaganda alheia e seus veementes ecos nos adeptos da autocracia. Isto porque os contextos ditatoriais não só têm conteúdos diferentes como estes se têm vindo a alterar. 

Nem que seja por isso, para aclarar algumas ideias que são mais pressentidas do que sistematizadas (falo por mim mas creio que não vou só nisso), é interessante ler este pequeno livro, "O Regresso das Ditaduras?" de António Costa Pinto, uma edição da Fundação Francisco Manuel dos Santos, daquela tão simpática colecção pois segue ao custo de 3,15 euros por volume e se vende em pleno Pingo Doce - isto para além da(s) Feira(s) do Livro(s) se aproximar(em).

O livro já é uma breve (e acessível) súmula da literatura sobre o assunto, pelo que seria descabido fazer eu aqui uma súmula da súmula, mas ainda assim deixo como lamiré algumas ideias que lá colhi. O autor - que há quarenta anos foi meu professor de História Contemporânea e que julgo depois ter enveredado pelo rumo da ciência política - lembra que tem vindo a aumentar o número de Estados sob regimes ditatoriais, num refluxo da "terceira vaga de democratizações" cerca do fim do milénio. E constata que não só têm uma grande variedade institucional como se afirmou um modelo dominante, pois se [tra]"vestem como democracias" , surgindo como "regimes híbridos", "autoritarismos competitivos" - têm eleições multipartidárias e não têm censura rígida mas controlam a informação e manipulam os resultados eleitorais (p. 8). E encontra-lhes traços comuns: uma forte (e crescente) personalização do poder; uma vincada des-ideologização, comparativamente às ditaduras passadas (com particular contraposição face às comunistas e fascistas de XX) - ainda que convocando um nacionalismo e apelando à "ordem e progresso" como função dos regimes; a tal mimetização da parafernália institucional (parlamentos, eleições, "livre" imprensa, etc.) das democracias; uma menor repressão política face às do passado, de cariz mais cirúrgico e preventivo; uma censura de informação menos directiva, num "pluralismo limitado"; uma generalizada integração nos mecanismos de mercado como fundamento da ordem política (pp. 85-88). Mais ainda, recorda que estas ditaduras se vão estabelecendo muito mais pela erosão dos mecanismos democráticos do que por rupturas revolucionárias. Isto explica Costa Pinto em cerca de 80 páginas, num formato de livro de bolso. Justifica-se ler.

Deixo apenas uma adenda: o livro foi publicado em 2021. O seu autor é relativamente conhecido - não só como renomado académico mas também porque presença habitual na televisão. A edição é popular - barata, da Fundação ligada à marca Pingo Doce, de uma colecção que já faz parte do horizonte do público leitor. Ou seja, não é normal que livros destes sejam totalmente ignorados. Ora Costa Pinto recorre a vários exemplos de regimes autocráticos, pretéritos e actuais. Destes últimos na Europa fala da Bielorússia, da Turquia e da Hungria. Mas também recorre, e com insistência, à Rússia de Putin como exemplo da ditadura. Ora, é verdadeiramente surpreendente que um argumento destes num livro destinado ao grande público, de um autor conhecido, tenha passado incólume ao crivo crítico dos nossos generais Branco, Costa e Cunha, do activo ex-deputado António Filipe e do intelectual José Goulão, para não falar de outros do mesmo ramalhete. Distraídos estavam diante desta manobra, insidiosa, da propaganda capitalista...

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(Pedro Bidarra, Azulejos Pretos, Guerra &  Paz, 2020)

Publicado em finais de 2020 este "Azulejos Pretos" parece adequado a este covidoceno, pois a sua acção decorre confinada nuns sanitários - uma latrina com águas correntes, comummente dita sanita ou, em português aburguesado,"retrete" ainda que nada retirada pois metida dentro de casa, tema esse abordado pelo autor com notória pertinência mas alguma incompletude -, à excepção de breves passeios higiénicos à sala feita pista de dança de um longa e sempre-a-mesma festa. A qual vem decorrendo desde a descolonização sita nos Olivais e que ressoa agora num presumível centro da Lisboa algo finória, onde se meneiam aos sons mais ou menos em voga sucessivas gerações de convidados.

Apenas lamento que o livro tenha sido apresentado pelo próprio editor (também) como um "roman à clef " (a descodificar), e ainda dito por crítico como peça de escrita "gonzo", aquela onde autor e protagonista (quantas vezes narrador) se mesclam, coisa não tão rara pelo que talvez desnecessária referência. Pois, entre tantos outros, já Flaubert reclamava ser ele próprio a senhora Bovary, ainda que se diga, história talvez apócrifa mas "bem encontrada", ter ele, nas vascas da sua agonia, resmungado com a ira que lhe restava que a puta ficaria por cá enquanto ele se ia desta para uma pior... Lamento  essas pistas de leitura pois temo que, devido a elas, muitos leitores tenham partido do conhecimento que terão do autor - um publicitário lisboeta afamado -, no intuito (se) reconhecerem entre o ror muitissimo mais vasto e espesso de afinal meros "símios" que naquele seu "colóquio" se agitam em poses culturais e vã verve. 

As 170 páginas são um carrocel de abúlicos - ainda que alguns camuflados de histriónicos -, um vasto rol de falsos e veros homossexuais, bebés de mamas firmes e outras já avoengas, dealers, padres na moda, obesos, poetas e artistas variados, modelos, até influenciadores e quejandos. Todos visitam o protagonista, aboletado nos sanitários nos quais distribui com prodigalidade doses de cocaína, enquanto monologa consigo mesmo, com acertada e acerada verrina, sobre o triste estado das artes, letras e gentes circundantes. Poder-se-ia dizer que parte a loiça toda. Ou, talvez melhor, parte os azulejos todos. Não que se projecte o protagonista num qualquer pedestal de "crítico", intelectual ou coisa que o valha. Pois segue amarfanhado pela "decadência biográfica", angustiado na sua "tonsura santantoninha", consciente até que desliza para a "cara de parvo", pequenas degenerescências que são até suaves avatares da sua condição de "ferreiro deformado e manco", um pobre Hefesto de trazer por casa, tudo nisso  prenunciando um final que só será oxímoro a quem acompanhou o livro como se ensaio moral fosse.

Os tais sanitários - de loiça, soalho e paredes negros - são-nos apresentados como uma nave espacial, a possível, que o protagonista elaborou para defender os restos da civilização, os "valores da urbanidade" através do exercício da "complexa mecânica da equidistância", tarefa que persegue com evidente frenesim, na sua constante disponibilidade para ofertar as por todos desejadas doses de cocaína, num fazer o bem sem olhar a quem, assim um exercício cristão e também civilizador. Mas (sacra) equidistância essa, como o comprovará o infausto final, que é impossibilitada pela fateixa nasal a que está obrigado, e que o consigna ao pântano nada oceânico deste todo vácuo, de poses e anseios.

Ou seja, não há saída. Nem possibilidades.

Azulejos Negros é um belo livro. Que todos estes símios deveriam ler.

 

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(Beco da Corvinha, Lisboa)

Lisboa Deserta / Lisbon Deserted (edição bilingue) é  um livro muito característico, nisso curioso e exemplar testemunho de época. A sua autora, Maria Margarida Chaves Marques, é uma fotógrafa amadora e nele congregou uma colecção de fotografias feitas durante o primeiro confinamento lisboeta. Mas para além do excêntrico estado da cidade de então o que vive no livro é um exemplo das vivências de quem ali se acoitava. 

Luso-moçambicana - e durante décadas funcionária de organização internacional - a pandemia como que bi-confinou a autora, acantonando-a como a todos nós mas também ainda mais apartando-a de família próxima e amigos, pois estes espalhados pelo mundo, desde Maputo, onde reside, a tantos outros lugares. E assim o que aqui temos são verdadeiros postais ilustrados, enviados - via este correio de hoje que são as redes sociais - aos seus tão distantes. Torna-se qual um diário, encetado quando o encerramento doméstico se lhe tornou (e a tantos de nós) insuportável, e se permitiu aos passeios higiénicos que então nos eram autorizados ainda que não verdadeiramente recomendados: "Hoje é Domingo de Páscoa... Com um dia tão bonito lá fora, e cansada de estar fechada em casa desde 18 de Março não resisti a ir dar um passeio curtinho pelos arredores. Como é bela Lisboa, mesmo deserta e despida das suas gentes! Desejo a todos uma Páscoa Feliz", escreveu em 12 de Abril, e nisso começa o livro. E continuou passeando, fotografando nas alvoradas. No livro deixa-nos memória de quinze dias desse mês (as últimas fotos são de 27 de Abril), salpicadas de pequenas notas da sua vivência, detalhes refracções do que ia vergando a cidade, mas despojadas de reflexões abrangentes sobre todo aquele processo, num registo plácido que era a natureza dos tais velhos postais ilustrados: "Hoje acordei com a ideia fixa de ir à Manteigaria do Chiado comprar pastéis de nata para o nosso pequeno-almoço. Bati com o nariz na porta e nem imaginam a frustração. Até a célebre Manteigaria fechou!". 

Habitando a autora nas cercanias da Sé estes ecos dos seus passeios pedonais mostram a cidade antiga embrenhada no vazio humano, o Tejo e alguns laivos da Outra Banda (aquela à qual, por vezes e se bem-disposto, ainda chamo, jocoso, de Catembe, carinho saudoso que a autora decerto compreenderá), para além das praças mais monumentais. Mas, mais do que tudo, traz os recantos, becos e vielas desses velhos bairros circundantes. Todos, sempre, envolvidos no silêncio do vazio humano - com uma ou outra excepção, a que a fotógrafa foi sensível, captando a afinal incessante, ainda que reduzida, contrução civil. Actuante numa ou outra reabilitação do edificado, assim reafirmando que nada findara mas apenas nos suspendêramos.

Por tudo isto livro é uma preciosa memória.

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Lisboa Deserta / Lisbon Deserted, de Maria Margarida Chaves Marques, edição do autor, 2020.

 

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(Paulo Dentinho, Sair da Estrada, Caminho, 2021)

Deste Sair da Estrada deixo apenas as minhas impressões, nada procurando fazer-lhe uma recensão. Nele está como se uma autobiografia do Paulo Dentinho, 30 anos mundo afora com recordações de reportagens em 13 países, algumas sendo trabalhos únicos, outras com visitas sequenciadas e ainda as resultantes de estadas prolongadas, como correspondente da RTP. Nestas 400 páginas ficou um retrato do mundo das últimas décadas, do qual algumas memórias tão significantes se vão esfumando dado o constante turbilhão noticioso: a atenção às guerras e seus efeitos nas nossas antigas colónias (Angola, Moçambique, Timor-Leste), ao início da que viria a ser a maior guerra africana (actual Congo), aos conflitos do sul europeu, com a crise grega, a dissolução da Jugoslávia e o já esquecido projecto de agregação da Turquia à União Europeia. E, claro, no omnipresente conflito do Médio Oriente (Israel, Líbano), nas ondas de choque pós-2001 (Paquistão, França), e nas refracções da que foi chamada "Primavera Árabe" (Síria, Líbia). 

Realço três dimensões que muito me agradam no livro. Conheci o Paulo Dentinho em Moçambique, e ali muito interagimos. Foi-lhe uma estada difícil, tendo saído do país sob uma incessante corrente de ameaças de morte (e recordei isso neste postal). Recordo-me muito bem desse período e afianço que o capítulo agora dedicado a essa época é mesmo fidedigno, diria mesmo que "sem tirar nem pôr". Mais, muito me lembro da ida em 1997 do Paulo ao então Zaire - logo após o frenesim profissional que ambos vivêramos na visita de Jorge Sampaio ao país - e de como ele a contava quando regressado a Maputo. Narrativa que está agora, ressuscitada, no livro. Presumo pois que nos outros 11 capítulos seja também assim, uma colecção de memórias sem quaisquer adornos, reconstruções embelezadoras ou engrandecedoras do autor ou das situações. 

Outro agrado é a forma como o Dentinho apresenta breves enquadramentos das situações em cada país. Pois em nenhum momento se deixa tentar pelo diabo ensaístico, nessas habituais resenhas históricas com intuitos explicativos ou nas recorrentes deambulações sobre um qualquer fio condutor que explique a miríade de males do mundo, qual filosofia de história de pacotilha ou atrevido estipular de cadeias de causas-efeitos, esse pobre efeito sob verniz intelectual que nada mais é do que reflexo das agendas das causas em voga. Pelo contrário, ele dá-nos ágeis contextos do que se passava, bem inscritos no que lhe é fundamental: como trabalhou. Pois este é um livro sobre jornalismo. E nisso - e é este o meu terceiro agrado imediato - o Dentinho, profissional do audiovisual, veio, e sem qualquer "escritor-fantasma", com uma escrita lesta e veemente,  a prender-nos. 

O livro traz-nos o modo de trabalho em "grande reportagem". O Sair da Estrada, escapar-se aos hotéis internacionais onde pululam as informações padronizadas, oficiais e oficiosas, fugir ao asfalto (mais ou menos) seguro, arriscando-se, muito mesmo, nas vielas e subúrbios, pelas veredas e picadas. E nessas andanças encontrar o rumo das notícias, essas de abertura televisiva ou primeira página de jornal, mas também quem lá está, exulta ou sofre. E é muito desses que o livro fala, os que cruzaram o repórter e lhe possibilitaram o trabalho, vários intérpretes ou motoristas, quantas vezes quais pisteiros, colegas, alguns já tombados em acção, bem como uma ou outra colega mais cativante cujos vislumbres acalentaram dias difíceis e excitantes, até combatentes ou meros passantes. E tudo isso sem requebros de romance de correspondente de guerra mas num muito mais relevante "é assim!". E, acima de tudo, traz-nos os seus camaradas de percurso, os homens da câmara, sempre invisíveis no ecrã e treslidos no genérico, correndo os mesmos riscos - até mais, pois mais visíveis -, sofrendo as mesmas ansiedades, co-autores das reportagens. 

E nisto o livro torna-se não apenas uma memória para "contar aos netos" - para que os filhos o venham a ler, como se justifica o autor em entrevista. Mas um verdadeiro livro de cabeceira para futuros jornalistas - pois se a indústria está em crise, a reconfigurar-se, a vocação jornalística estará em crescendo. Nele não poderão os aprendizes receber o "como fazer" manualesco mas avisarem-se da necessidade do improviso, de seguir a intuição própria e perseguir o risco. O trejeito próprio. Com os quais o Paulo Dentinho seguiu ao longo das décadas, conseguindo belas reportagens - ainda me lembro de o ver com José Mattoso nas montanhas de Timor e rir-me num "só este gajo para tornar aventurosa uma pesquisa arquivística", episódio que aflora agora no livro. E entre elas algumas reportagens de eco mundial, raríssimos feitos na imprensa portuguesa, de facto no país apenas comparáveis em eco internacional a algumas conquistas no mundo do futebol, do atletismo ou, em modo mais discreto, da diplomacia.

Mas há um outro país presente ao longo do livro, o nosso, pois subjacente capítulo a capítulo. São várias as notas sobre a radical incompreensão, mesmo desrespeito, que os repórteres de terreno (e que terrenos!) vão sofrendo pelos colegas e administrações, estes apoucando (até desperdiçando) notícias e peças, desvalorizando riscos, efeitos do peso do "modo funcionário" que vigora. O que se traduz em coisas inenarráveis, por vezes fruto de ignorância mas outras sendo mera pesporrência: a equipa detida por milícias em sítio ermo, o repórter telefonando para a RTP identificando o líder da  patrulha que os prende e deste lado recebendo um enfastiado "que é que queres que eu faça com isso?"; ou a equipa preparada para o sacrossanto "directo" no telejornal das 8, sita em local fustigado por fogo algo errático e esperando que decorra a cinzenta agenda dos "passos perdidos" (ouvir, sob fogo há meia hora, "aguenta mais um bocadinho, que o Jorge Lacão está a falar" é de bradar aos céus!), entre tantos outros desaforos e até malevolências. Um contexto laboral que leva o autor a desabafar, entre outros trechos similares (e dolorosos de ler): "Apetece-me vociferar contra estes tipos que construíram as carreiras quase sem fazer uma única reportagem. O único risco deles é gerir favores, fazer salamaleques aos poderes para se irem mantendo de direcção em direcção. Pobre país o meu." (62).

O livro termina no 2015 parisiense, no ataque ao Charlie Hebdo e subsequente captura dos terroristas, emotivamente narrado. Dentinho associa-o, como tem de ser, à perseguição ao dinamarquês Jylland-Posten em 2006, numa total defesa, sem rodeios nem escusas, da liberdade de imprensa, do humor, da blasfémia, dos que fazem "a provocação sistemática de tudo e todos, da extrema-direita aos meios católicos, dos políticos em geral aos jornalistas. "Rire, bordel de Dieu!" contra a apregoada "razão de Estado", agora dita multiculturalista pois respeitadora, sempre desejosa de controlar a imprensa, de facto "uma engrenagem em que a primeira etapa é a autocensura e a última a capitulação" (399). Gosto muito deste final, de cabeça erguida no meio do terror fanático e do censório "democrata". E ainda mais porque vem do Paulo Dentinho, homem de esquerda neste nosso país em que essa tal esquerda no último ano apoiou para Presidente da República uma candidata que reiteradamente atacou essa liberdade, apoucando de modo até soez as vítimas do terrorismo fanático. Esquerda essa que também propôs para o Tribunal Constitucional um candidato que segue a mesma mundivisão, dizendo serem iguais os fundamentalistas terroristas e os artistas/jornalistas democratas. Sem que tal cause qualquer repúdio, mero sobressalto que seja, no seio do tal "modo funcionário" de pensar e actuar, tão dominante este segue.

Os últimos anos já não surgem no livro. Dentinho foi director de informação da RTP [repito-me, escrevo sobre ele e esse processo excêntrico neste postal]. Os postos de chefia não são eternos e ele foi substituído - disse-se que por desconforto da comunidade futebolística devido a um postal seu no Facebook. Mas ninguém disse na época que o desconforto da malta do futebol, de Lisboa e Porto até La Valleta, advinha da sua imediata oposição a outras futebolices. Enfim, ele seguiu o seu rumo, menos agitado desde então. Com o seu renome ainda conseguiu um "furo" (como antes se dizia), uma entrevista a Lula da Silva, então preso. Lá foi, mas privado de um homem de câmara, e para in loco se deparar que lhe tinha sido atribuído um material de recolha audio e visual... danificado. Enfim, o tal "modo funcionário" mau demais, sempre capaz de surpreender pela... negativa.

Ou seja, se o Dentinho passou 30 anos a Sair da Estrada está agora fora da estrada, emprateleirado. Tem o programa "Mundo sem Muros", convenientemente alojado na noite longa da RTP3 (e na RTP Play, claro). Nele se fala sobre o mundo. Ali ele não entrevista políticos no activo, travestidos de "comentadores", nem ex-políticos feitos correias de transmissão de órgãos de soberania, partidos políticos ou grupos de interesse, nem tão pouco académicos catedráticos de "Tudologia". Pois ali o Paulo Dentinho aborda as situações do mundo, sentando-se com .... outros colegas, correspondentes. Faz jornalismo, com jornalistas, como jornalista. E, acima de tudo, como um homem livre.

Paulo, o livro ficou bom. Espero que os teus filhos o venham a ler, como desejas. E que a minha filha o faça. E que os jovens jornalistas e os ainda aprendizes o leiam, inebriando-se até, se possível. E sonho que alguns dos da nossa geração o façam. Entusiasmando-se com o teu meneio nas letras. Divertindo-se com as memórias das nossas vidas que nos trazes. E, ainda mais, que um ou outro de nós te possamos ler, homem livre que seguiste e continuas, concluindo: "como acabei assim?!". E que nisso, nessa amargura, possamos melhorar um bocadito, fazer por aligeirar a nossa canga. Graças a ti.

Enfim, Dente tens estado bem. E no livro estiveste mesmo bem. Abraço.

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