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Nenhures

Nenhures

Portugal-Bélgica (crónica)

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Na véspera dos oitavos-de-final deste Euro 2020/1 fui infiltrado, o que me criou más expectativas para o encontro pois temi alterações nas condições físicas apropriadas. Mais ainda, no próprio dia recebi a novidade, esperada é certo, de que nas relativas cercanias do estádio de Wembley a minha filha, também ela, assinara pelo clube Pfizer. Algo que me causou uma enorme desconcentração, prejudicial ao embate face aos belgas.

Pois assim me mergulhei em memórias inúteis: de quando na época passada a aguardei, ela com traumatismo asmático, agravado no pesado calendário inglês, para logo nos confinarmos num Nenhures campestre, eu em pânico, inseguro sobre os efeitos que uma hipotética fractura covidesca poderia ter na carreira dela. E isso quando o Presidente da Federação, Sousa, e o director das Relações com as Filiais, Silva, nos garantiam da impossibilidade de fechar fronteiras, sendo que Sousa prosseguia entre festejos em estádios teatrais no reduto de Pinto da Costa. E Freitas, a responsável pelo departamento médico, nos pedia para visitarmos os núcleos de veteranos - onde a minha mãe, antiga campeã de paciência, viria a definhar e morrer enclausurada - e nos alertava para não usarmos máscaras nos treinos nem aceitarmos que nos fizessem testes anti-doping. Já para não falar de Antunes, responsável dos relvados de Alvalade e Alcochete, que se debruçava sobre possíveis transferências de jogadores para o campeonato chinês. Lembrei ainda os meus frémitos quando a minha filha, já nesta época regressada à Premier League, contraiu uma lesão no tendão covidiano, ainda por cima sem que eu tivesse total confiança nos fisioterapeutas do seu clube. Enfim, tamanho foi o meu alívio, até eufórico, com a sua transferência para o Pfizer, que no domingo me alheei dos cuidados tácticos face ao nº 1 do ranking mundial e à ponderação dos titulares necessários para cumprir as matizes estratégicas que se poderiam impor durante o tempo regulamentar e, mesmo, no sempre temível prolongamento.

Tão abstraído estava que nem verdadeiramente notei que a equipa nacional, após entoar o hino, se ajoelhou como se fosse uma qualquer equipa de futebol americano, nisso decerto que arrebitando os ademanes dos holigões socratistas do Sport Campo Grande, do Atlético de Campolide e do Académico de Coimbra, já para não falar do entusiasmo que decerto sentiram os literais "Black Panthers", recém-contratados pelo Desportivo da República, ao verem o enérgico Sanches de "Poder Negro" em riste.

Assim sendo só após soar o apito inicial pude constatar algumas evoluções na filosofia do Engenheiro Santos: poventura para mitigar o número de punhos racistas erguidos no início do jogo cuidou de enviar William Carvalho, sua excentricidade, para a bancada, e Danilo, seu óbvio talismã, para o banco de suplentes. Um pouco mais à frente tudo na mesma como a lesma - como diz o povo, na sua infinita sageza - com os alas da direita e da esquerda (se é que este o era) impassíveis, pobres avatares dos excelentes Bernardo Silva e Diogo Jota que ali estavam encarregados de representar. 

As equipas entraram em cuidadosa fase de estudo, a qual teve direito a 2ª chamada e se prolongou até à 2ª época, o que comprovou o acerto da escolha do Prof. (Jubilado) João Moutinho como titular. Nesse entretanto, e apesar de algumas irreverências do aluno Sanches, decerto que devidas a ser oriundo do ensino técnico-profissional, posso afiançar que foi o período em que mais estive em jogo. Pois decorreu um futebol mastigado, condizente com a nossa claque aqui presente, entregue ao manuseio de uns belos ovos com farinheira (cuja origem não averiguei), uns rojões com molho amostardado do mais fino recorte técnico, uns decentes camarões austrais cozidos debruados com a maionese caseira, tudo circundado com tremoços temperados bem frescos e o pequeno luxo de tijelas de castanha de caju, estas ali em homenagem aos sempre indefectíveis apoiantes africanos da selecção nacional, como bem o comprovou o hino da selecção, o "Vamos Com Tudo" de autoria e trinados do artista David Carreira. Mas nestas manobras reconheci o meu estado de abatimento, o qual nada de bom augurava para o desiderato final, pois acompanhei-as com apenas uma cerveja, a condignamente titular "Super Bock".

Enfim, cerca do final da primeira parte aconteceu o rude golpe belga, selecção que - reconheço-o - muita simpatia me convoca e não só devido a Moulinsart. Ao intervalo o nosso estado era de algum torpor, em murmurados lamentos face à opção de retirar o play-maker Ferro Rodrigues da equipa, substituindo-o por um apático e inexperiente Brandão Rodrigues. Pois não basta ser (quase) homónimo para se poder levar a equipa ao triunfo. Confesso que a segunda parte por cá encontrou uma moldura humana já mais rarefeita e ainda menos confiante. Foi reconhecida, com justiça, a (tardia) afoiteza do Engenheiro, o qual com sucessivas substituições tratou de "meter a carne toda no assador", tentando inverter o agora regressado triste fado luso. Ficará para sempre a dúvida sobre porque não o fez antes, pois foi óbvio - como o demonstrou a inútil arrochada do Tio Pepe, que lhe provocou a reprimenda arbitral - que a carne assada em tão pouco tempo se torna demasiado nervosa, dando-se pouco macia às gengivas adeptas. Ainda assim o Engenheiro não mereceu a traição cometida por Raphael Guerreiro, que decidiu atirar ao poste quando as instruções recebidas eram para repetir exactamente a manobra de Budapeste.

Terminado o confronto de Sevilha, constatado o atentado blasfemo à religião oficial de Estado, retirámo-nos acabrunhados sem mesmo escutar os sacristões congregados nos painéis televisivos. Já no leito algo me reanimei ao ler as doutas declarações do presidente da Federação, Sousa, afiançando-nos que tínhamos sido os melhores e que, mais importante, somos como os melhores. Nisso convocando o nosso fervor para 2022, ano no qual, prometeu o Engenheiro, seremos campeões do mundo. Adormeci, mais pacificado. E sonhei com múltiplas medalhas em Tóquio. E com Eduardo Ferro Rodrigues.

O fedor

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"Então nós íamos mascarados para os oitavos-de-final?!", terá ainda dito Ferro Rodrigues, o inadjectivável presidente da AR  - pois se eu usar um adjectivo que lhe seja adequado ainda me cairá em cima um processo no tribunal, "difamação" ou "injúria" gemerá este tão medíocre político.
 
Já agora, o jogo é no domingo. Nós, os da zona metropolitana de Lisboa, poderemos ir a Sevilha? Esta enésima vaga de Covid terminará até ao fim-de-semana? A decrepitude desta tralha de gente já fede. E há quem a apoie.

Alemanha-Hungria "lgbt"

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Sei que alguns dirão deste postal que é botado por um vil homofóbico. Outros avançarão mesmo que "o velho é mas é um recalcado". Enfim - e sem mais delongas sobre as minhas hipotéticas pulsões -, vejo que a Alemanha receberá a Hungria nesta jornada do Europeu. Os húngaros acabam de aprovar uma lei avessa à sinalização da normalidade da homossexualidade junto de menores, entre outras moralices. E a federação alemã de futebol pondera (ou já decidiu) afrontar isso, decorando o estádio desse jogo iluminando-o com as cores simbólicas do movimento internacional homossexual. Um ministro de Orbán já protestou contra a mistura do futebol e política (como se estivessem apartados). E os paladinos do identitarismo em voga apupam-no enquanto louvam a Alemanha por esta atitude (nesta semana os tipos do BE não dirão que a Merkel é nazi e que o seu país gosta desta crise do Covid-19 porque com ela lucra). 

Daqui a pouco, entre 1 e 5 de Setembro decorrerão duas jornadas da qualificação europeia para o próximo Mundial. Será que as federações nacionais de futebol irão ter proclamações políticas sobre questões relevantes, afrontando selecções adversárias devido a problemáticas como a fragmentação petrolífera, as questões palestiniana e cipriota, a exploração de recursos árticos, o estatuto de Gibraltar (que também joga), a guerra na Ucrânia, etc.? Não, então reinará o tal apartar entre "política" e "desporto". O qual, hoje em dia, só se dilui nas questões "identitárias", como se estas éticas. 

Mas se o fundamental actual são estas coisas "identitárias", das "liberdades individuais", pergunto-me uma outra coisa: o Mundial-22 é no Catar. A federação portuguesa, "instituição de utilidade pública", concordou com isso, e até terá votado favoravelmente. Tal como a alemã. País com o qual Portugal jogará um particular no dia 4 de Setembro. Ora no Catar as pessoas com uma peculiar parecença comigo, com a minha "identidade" como se diz agora ainda que eu não a reclame, podem ser condenadas à morte. Entenda-se, não só é proibido sinalizar a nossa normalidade aos menores de 18 anos. Pode-se ser condenado à morte! Como em vários outros países, para além de outros onde gente com essa semelhança sofre pesadas discriminações. E, se o argumento quantitativo é importante, na Europa são bem mais do que os homossexuais. 

Mas agora, ao fim destes anos todos deste convívio e conúbio, de turismo e negócios conjuntos, e até de tantos futebóis com estes Catares, toca de agitar os bracinhos abespinhados no jogo da bola húngaro, colori-lo com as cores correctas, afrontar os malvados? E depois, muito ciosos da cidadania europeia, arrumar os cachecóis da selecção até ao próximo Mundial? No Catar? Deus Nosso Senhor me perdoe, mas que .... gentinha. Que hipocrisia bacoca.

Alemanha-Portugal (crónica)

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(Postal para o És a Nossa Fé)

É fácil comentar a posteriori e o teor da análise depende(-me) sempre do resultado final, seja lá qual for a maneira como os nossos lá chegaram. Já sobre o jogo com a Hungria botei na minha taberna: "Como é óbvio contestei com vigor e sageza veterana o pendor conservador do nosso engenheiro seleccionador, antevendo uma deslustrada campanha sob tal "motorista". E elogiei a extrema capacidade do nosso engenheiro seleccionador - sempre avesso à fugaz embriaguês do espectáculo - montando uma equipa tacticamente irrepreensível, delineada para enfrentar os gigantes que se sucederão, e clarividente nas letais e oportunas alterações que decidiu, mostrando que iremos longe sob tal "motorista"."  Aparente oscilação devida, claro, à bem sucedida carambola de Raphael Guerreiro aos 80 e tal minutos.

Para o jogo de ontem as minhas expectativas eram sombrias. Não só devido ao tradicional poderio da Mannschaft, já teorizado por Gary Lineker: "Football is a simple game. Twenty-two men chase a ball for 90 minutes and at the end, the Germans always win". Mas também porque Carlos Manuel, notoriamente fora de forma, não foi convocado por Fernando Santos. Ainda assim, e muito devido à influência do meu personal coach Rebelo de Sousa, concentrei-me com afinco para o embate: do Lidl de Nenhures convoquei 2 caixas camarão a cinco euros cada e uma caixa de mines Argus, que se associaram ao bloco Karlsqueel chegado do rival Aldi vizinho, a um pacote de amendoins com casca e a um balde de tremoços temperados oriundos de agremiação local, seleccionados pela restante equipa técnica. Vigorosa estava a maionese mezinha caseira.

As sensações iniciais do jogo foram contraditórias. O inicial golo alemão logo azedou o ambiente, anunciando o algo já esperado, apenas adiado devido ao fora-de-jogo arrancado à unhaca do teutão marcador. Mas logo de seguida o antológico golo do CR7, com arte e engenho surgido do até então pântano luso, veio reanimar as hostes comensais e o espírito de Sérgio Conceição pairou, em tricórnio, sobre a sala. Depois... enfim, já todos o sabemos, o esquerdismo germânico irrompeu, revolucionário, devastando o nosso aburguesado "centrão": os amendoins foram ditos chochos, os tremoços apimentados em demasia, os camarões nada condignos da saudade moçambicana, as cervejas chilras. A própria mezinha afigurou-se já antiga. Ao intervalo houve inflexão táctica, passando-se a privilegiar o recurso ao muro d'Amber Leaf, antes chegado do Continente da vila, comprovando que em dia de selecção não há clubismo comercial.

A segunda parte trouxe novidades televisivas. Jogou aquele rapaz que é um bluff, uma artimanha do Jorge Mendes que o impingiu aos bávaros para favorecer o Benfica, mas que a crise nacional recentemente elevou a D. Fuas Roupinho. E que me lembre também entrou João Moutinho, que "bate bem". E, claro, "se perdermos que se foda", o que é bem verdade, pois "seja o que Deus quiser". Houve outros rapazes que entraram mas já não atentei muito, ocupado em limpar cinzeiros, deitar fora as cascas dos amendoins, tremoços e camarões, lavar a loiça e, acima de tudo, em separar o lixo, por deveres impostos pela sensibilidade ecológica. O jogo terminou e sala e cozinha estavam um brinco.

Sentei-me cá fora a bebericar um café e a minha audiência anuiu no que sentenciei: que em Roma devem ter gostado do que viram pois que grande Rui Patrício! Levou 4 e mais poderiam ter sido, não fora ele. Devem estar ansiosos para receber o verdadeiro "Muro de  Marrazes". E - o que só é novidade para deficientes profundos - que extraordinário é o CR7: um golo antológico, "para mais tarde recordar". E nisso não só igualando Klose como melhor marcador de sempre em finais de Mundiais e Europeus, como também igualando o recorde de passes para golo em Europeus, naquilo de reanimar uma bola quase defunta e dá-la ao codicioso Jota.

Depois, e já bebericando o aprazível Queen Margot adquirido em Lidl lisboeta, assisti às declarações de um ror de painelistas críticos. E, já noite longa, decidi-me a deixar curto ensaio sobre a situação nacional, seguindo a metodologia que Silas apresentou nos comentários que fez em directo ao jogo. Ou seja, professando o "como eu digo", assim fiel à omnisciência própria. Como tal começo por considerar que neste Alemanha-Portugal se notou, como eu digo [e já em 3.3.2020], que urge "Rúben Neves (se o Grande Engenheiro abrir os olhos e se deixe de Adamastores ...) nas armadas de João Félix e Diogo Jota, almirantadas pelo Cristão Ronaldo.". E isso era e é óbvio. Rúben Neves é um belo jogador, tem já enorme experiência de futebol intenso, é um excelente trinco que faz jogar e tem uma magnífica meia-distância. Como é que é possível que esteja sentado enquanto joga Danilo? E, pior, quando joga William, esse que já no Sporting me fazia careca devido ao seu constante footing? Quanto mais agora, anos passados e habitante do banco do sofrível Betis? Enfim, são os tais Adamastores a que me referi.

Fernando Santos, na sua crença mariana, não preparou a equipa para este Europeu. Levou a anterior. E isso é notório ao constatar que Palhinha e Neves nunca jogaram juntos, Palhinha, hoje em dia o homem para jogar a 6, é tipo para jogar a trinco-solo. E muito provavelmente desentender-se-á se num duplo trinco com Rúben Neves, que é homem para jogar a 8 [ou 6,5]. E pior ainda se se estreasse essa combinação num jogo decisivo diante do melhor meio-campo do mundo (Kanté é um gigante). Esta dinâmica de meio-campo (a propalada "casa de máquinas") é o crucial e Santos "achou" que não era problema, que estava tudo como em 2016. Vê-se...

Tudo isto assenta num esquecimento construído, o do verdadeiro trajecto desta selecção muito rica em jogadores mas cujos constantes tropeções fizeram que viesse a cair neste "grupo da morte" no sorteio para este Europeu. De facto a vitória de 2016 foi uma sorte espantosa, tipo a da medíocre Grécia em 2004, mas ainda mais, pois com pior futebol. Apenas a inicial euforia e o posterior e constante patrioteirismo nos impediu de sublinhar isso. O troféu seguinte, secundário, mais mascarou isso: foi conquistado com equipas jogando menos empenhadas e com Portugal muito mais solto, dada a menor responsabilidade. E já o Mundial 2020 foi uma campanha desperdiçada, um belo plantel com um futebol pobre, uma equipa equivocada, resultados cinzentos num futebol algemado. Só não viu isso não quis. Ou seja, o que está a acontecer agora não é surpresa. Certo, pode ser que tudo se arranje, uma passagem à fase seguinte, umas vitórias, e pronto de novo o relativo sucesso, e mais agradecimentos e romarias a Fátima.

Mas para que isso seja possível todos querem mudanças na equipa. Sobre as do meio-campo já resmunguei o suficiente. Mas também se clama pela mudança dos laterais. Mandar Nuno Mendes aos 18 anos, e sem experiência de selecção, para travar Mbappé? Este com Pogba nas costas e Pavard a subir que nem um louco? O miúdo é muito bom, e se calhar até arrancaria um grande jogo, mas colocá-lo agora seria um "fezada". Monta-se uma selecção nacional com "fezadas"? Também se pede Dalot - que é mais experiente mas é ainda mais excêntrico à selecção. Estrear o homem num jogo contra a França, decisivo? Mas o problema não são os laterais - por mais que Nelson Semedo não seja o jogador que anunciaram há anos -, são os alas do meio-campo (quais?, existem?). Pois não defendem, não acompanham os laterais. E nisso dá também para perceber um dado: a nossa selecção não tem extremos, não há um tipo a ir à linha. No país de Futre, Figo, Quaresma, CR7, e tantos outros, já  não há extremos. Haverá Neto, mas está lesionado. O resto são "interiores", tácticos. Que porventura fintam em raid se jogando com o Appoel ou o Tondela. Mas não num Europeu.

Enfim, passe-se ou não às fases seguintes isto é um colapso de Fernando Santos, por mais simpático que nos seja o "engenheiro do Euro". Em 2004 Scolari engoliu em seco o seu falhanço, deu a mão à palmatória, escondeu isso no discurso imbecilizador que tinha, e a partir da derrota inicial meteu o Porto de Mourinho a jogar. Só lhe faltou a sensibilidade táctica para ganhar a final aos pobres gregos - algo que Mourinho teria feito num piscar de olhos. Mas Santos não tem um bloco pronto a utilizar, devia tê-lo pensado.

Já perorei a minha irritação. E muita dela é porque temos uma escola extraordinária de treinadores e levamos com isto, esta selecção algo amarfanhada, desde há anos. Ainda assim, e porque consciente da minha sageza futebolística e do como ela pode contribuir para o sucesso in extremis da nossa selecção nesta campanha, boto a minha equipa para sacar o ponto necessário diante do campeão mundial: 1) o Grande Rui Patrício; 2) Nelson Semedo; 3) Pepe, Magno; 4) José Fonte; 5) Nuno Mendes; 6) Palhinha; 7) Bruno Fernandes (feito ala direita); 8) Ruben Neves; 9) Cristiano Ronaldo; 10) Renato Sanches (ao centro, para a frente, pois não defende e não é nestes dois dias que vai aprender); 11) Rafael Guerreiro.

Mas é claro que se Fernando Santos insistir na sua ideia e tiver sucesso aqui escreverei: "como eu digo" é de elogiar a extrema capacidade do nosso engenheiro seleccionador - sempre avesso à fugaz embriaguês do espectáculo - montando uma equipa tacticamente irrepreensível, delineada para enfrentar os gigantes que se sucederão, e clarividente nas letais e oportunas alterações que decidiu, mostrando que iremos longe sob tal "motorista"." 

O Meu Sporting

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(Matadouro, Ilha de Moçambique, Maio de 2008)

Blogo desde 2003. Dessa verdadeira mania de perorar resultou uma enorme quantidade de textos, irresponsáveis pois sem objectivos, agendas ou causas que não fosse a minha vontade palradora. A alguns ainda lhes encontro sentido. Desses, juntando-lhes alguns outros publicados em jornais, fiz já seis colecções.

Ao longo dos anos fui colocando alguns textos sobre o Sporting. Há cerca de uma década integrei o blog sportinguista És a Nossa Fé!. O que aumentou a minha atenção sobre o clube e o número de textos que lhe fui dedicando. Para mim o futebol é um placebo, sarando as agruras da vida. Ou seja, quanto mais ando em futebóis pior estou, isso é garantido. E não sigo muito institucional, qual adepto modelo, desses mergulhados na vida associativa e no acompanhamento das actividades desportivas. Mas vou botando sobre o assunto, numa mistura mistura entre o adepto, que finge tão completamente que chega a fingir que é clubismo o clubismo que deveras sente, e o bloguista, que julga ser o Sporting, mais do que qualquer outro clube, um verdadeiro microcosmos do país, dos processos vigentes em Portugal. Também por isso me vou deixando levar pelas várias crises directivas do clube.

Agora fiz uma colecção de 41 textos sobre o Sporting e o futebol. Chamei-lhe “O Meu Sporting”. Quem nela tiver interesse bastar-lhe-á "clicar" no título e gravar o documento pdf.

Tal como todas as outras minhas colecções esta é uma memória, dedicada à minha filha Carolina. Pois pode ser que um dia venha a ter curiosidade sobre o que o pai andou a botar em blogs e jornais, nesta escrita inútil e desinteresseira. E se outros encontrarem motivos de interesse e mesmo prazer no aqui agreguei isso ser-me-á agradável. Bastante, mesmo, digo-o desprovido de qualquer pingo desse blaseísmo que tanto abomino.

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As minhas outras colecções de textos (basta "clicar" nos títulos e gravar):

1) Portugal às Avessas  (textos sobre Portugal);

2) Ao Balcão da Cantina  (crónicas sobre vivências e viagens em Moçambique);

3) A Oeste do Canal (textos sobre temas culturais moçambicanos);

4) Torna-Viagem (memórias);

5) Um Imigrante Português em Moçambique (sobre as experiências daquele quotidiano);

6) Leituras Sem Consequências (sobre livros e artistas, na sua maioria moçambicanos).

Hungria-Portugal (crónica)

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Ontem - tal como tantos - acompanhei o jogo no meu camarote-sofá, de cachecol apesar do calor. Como é óbvio contestei com vigor e sageza veterana o pendor conservador do nosso engenheiro seleccionador, antevendo uma deslustrada campanha sob tal "motorista". E elogiei a extrema capacidade do nosso engenheiro seleccionador - sempre avesso à fugaz embriaguês do espectáculo - montando uma equipa tacticamente irrepreensível, delineada para enfrentar os gigantes que se sucederão, e clarividente nas letais e oportunas alterações que decidiu, mostrando que iremos longe sob tal "motorista".
 
Antes do jogo, já em estágio no sofá, tive uma distracção, inadmissível nos antecedentes de um jogo de tal importância que tanto esforço exige do 12º jogador. Pois li que o nosso presidente da República disse para não nos distrairmos com as questões da política sanitária, minudência que nos importuna há 17 meses. Tendo apelado para que nos concentrássemos no que realmente importa, a campanha da selecção de futebol neste Europeu.
 
Confesso que até em Sousa, de longe o pior presidente da república desde 1976, um poço de tétrica demagogia, tamanho desplante me desnorteou por momentos. Felizmente, após alguns minutos de desconcentração, reencontrei o rumo. E pude assim contribuir para a vitória da equipa de todos nós contra os perigosos húngaros ("não é por acaso que os chamam magiares", como alertou em tempos um prestigiado luso).
 
Para quem queira acompanhar os motivos da minha ira diante destas manigâncias presidenciais, deixo ligação a um postal que coloquei no ma-schamba em Junho de 2004, aquando do Euro-2004. Contém a transcrição de uma entrevista a João Nuno Coelho, que estudara a produção do discurso político através do futebol.
 
E insistindo, diante de um PR a dizer-nos para pensarmos na bola e esquecermos esta coisa da política do Covid, deixo ligação para um texto meu de 2011, também no ma-schamba, sobre esta futebolização que nos quer estuporizar.

O terraço de Cristiano Ronaldo

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Sobre a patética polémica devida ao acrescento que Cristiano Ronaldo fez na sua casa lisboeta há hoje dois textos interessantes. Octávio Ribeiro, no "Record", tem um justificado sarcasmo e resume a questão: se a selecção nacional de futebol tornar a ganhar o Europeu esta sala será louvada e o próprio Medina irá inaugurá-la, comovido. Se a selecção perder o título a afinal marquise será vistoriada e penalizada pela CML.

O outro é um belo texto de António Guerreiro no "Público". Como não tem acesso livre deixo transcrição de um excerto: 

"(...) Ouvindo as reacções de José Mateus [arquitecto] à vilipendiada "marquise" que veio "atropelar" a "cultura" e as "autorias", até parece ele que vive num empíreo e que só tem de responder perante quem lhe encomendou a obra e em nome de uma razão estética, de uma abstracta beleza. Ora, embora isso seja uma regra a que já estamos habituados, há momentos como este em que apetece dizer que essa regra é um atropelo ignóbil ao nosso direito à cidade. Os arquitectos daquele edifício sabem seguramente o que significa a verticalização da arquitectura, a transformação do skyline da cidade para oferecer a uns poucos "um conceito único de exclusividade" (como se diz no site do edifício). Entre essas exclusividades, está a paisagem, da qual este e muitos outros edifícios como este se apoderam.
 
Se lermos a descrição do edifício, percebemos que ele foi concebido segundo o modelo urbano a que os urbanistas americanos chamam gate communities, isto é, comunidades fechadas, completamente separadas da cidade, sem alimentar a vida que lhe corre nas veias, de onde se oferece apenas como uma vista panorâmica. As gated communities que se formam nos bairros mais ricos das cidades são "privatopias", isto é, espaços utópicos privados (...). São atentados à cidade. Os arquitectos têm todo o direito de reinvidicar a sua liberdade autoral, mas na medida em que conformam a nossa cidade e determinam o seu destino, eles não podem sentir que só têm de responder à razão estética e à exigência dos clientes que de um modo geral não coincide com o nosso direito a uma cidade habitável e mais produtora de uma "cultura" que animou o "espírito" das grandes cidades. O atropelo estético perpretado no topo do belo edifício desenhado por José e Nuno Mateus é um crime menoríssimo quando comparado com a arquitectura anestesiante que desconhece completamente a responsabilidade profissional de um arquitecto, a questão ética que lhe é inerente. Este vínculo não é de agora, vem de Vitrúvio. A bienal de arquitectura de Veneza, no ano 2000, tinha como título Less Aesthetics, More Ethics. (...) O grande historiador de arte italiano Salvatore Settis (...) propôs que [os arquitectos] deveriam fazer um "juramento de Vitrúvio", por analogia com o "juramento de Hipócrates" (...) Tal como um médico não pode matar o doente, o arquitecto não deve matar a paisagem nem contribuir para saquear a cidade. Mas isso não percebem os autores do "Castilho 203".
 
Para terminar, na quantidade de exaltadas críticas que nos últimos dias li e ouvi sobre isto há algo que retiro. Tendo crescido nos Olivais - urbanização sobre a qual recomendo o artigo do arquitecto Tiago Cardoso de Oliveira -, um bairro multiclassista brotado nos 1960s, sempre percebi que no Estado Novo (tardio) se pensou que urbanistas e arquitectos de topo se dedicassem às edificações para "classes desfavorecidas" (como agora se diz) Ou seja, que os recursos da arquitectura e os expoentes dos seus praticantes não se destinavam às elites ou melhor, por estas não estavam monopolizados e aos seus edifícios de luxo. Mas agora noto que o escândalo advém de se ter "desvirtuado" uma "obra" arquitectónica pois esta luxuosa, num país onde a autoria arquitectónica e a programação urbanística para a população vulgar vêm sendo, como é notório, pontapeadas com mais vigor do que o CR7 imprime nos seus tomahawks. Sem que isso levante quaisquer polémicas populares e mediáticas. Seria pungente se não fosse, acima de tudo, mostra do ambiente cultural desta II República (tardia?). Afinal, quem diria?, tão paradoxalmente ao invés do tal ocaso do salazarismo.

Um batido de morango e banana

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(Batido de Morango e Banana, no sítio Food From Portugal)

Um lisboeta vulgar tem duas maneiras de encarar a sua cidade:
 
1) entretem-se a vociferar "malandro" e "marquise" contra o CR7 por este fazer uma recôndita sala de treino no terraço de um enorme, desnecessário e disruptor falo de vidro a Câmara permitiu. E vai abastecer-se ao supermercado "gourmet" (e caro) - onde consta que os produtos têm sabor - da gigantesca e absurda marquise El Corte Ingles, que a Câmara permitiu naquela vizinhança - saberá o Grande Arquitecto a troco de quê... Este é o abundante tipo de alfacinha que vai contente consigo próprio.
 
2) entretem-se durante o defeso a questionar o destino próximo do CR7 (Juventus?, PSG?, M. United?, Sporting) e de outros futebolistas, enquanto anseia pelo próximo Europeu, no qual a selecção caiu num "grupo de morte". Nos intervalos dessa angústia (ainda que esta omnipresente) abastece-se nos supermercados populares, nos quais vegetais e legumes sabem a quase nada, coisa do como são criados e comercializados. Este é o abundante tipo de alfacinha que anda um bocado chateado com os outros e, em alguns casos, consigo próprio.
 
Para nós, os do grupo 2, há que disfarçar as tralhas que trazemos para casa, "verdes" de imaturas ou já quase-podres, as das "promoções"... Hoje, como é feriado e está dia soalheiro, disfarcei banana e morangos, todos de teor quase neutral, claro, e caminhando rapidamente para a putrefacção, num batido seguindo este tutorial.
 
Refiro-o, ao tutorial, pois denota a grande diferença cultural entre portugueses e brasileiros (abundantes na internet culinária): os brasileiros mesmo para um singelo batido levam infindáveis minutos e usam inúmeros diminutivos. Cá a gente é um "ver se te avias", bons tutoriais, curtos e informativos.

A falsa marquise de Cristiano Ronaldo

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Viva CR7!

Em Lisboa, e não só, os "parvenus" ("arrivistas" se em português arcaico, "parolos" se sob a bigotry do sociólogo Augusto Santos Silva, a qual segue ainda imune às denúncias dos "movimentos sociais") sentem-se muito lesados com a sala de treino que o CR7 instalou no invisível terraço da sua casa. O generalizado clamor ofendido seria suficiente para a declaração de um "estado de emergência cultural", tamanha a calamidade que demonstra. E a apressada promessa municipal de uma vistoria punitiva é mais do que suficiente para uma ampla razia defenestradora.
 

Enquanto não termino esse manifesto sanguinário deixo este meu velho texto, um "Viva o CR7!". Que muito "bate bem", ao invés desta chusma compatriota.

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À saída de Nelspruit não paro nos semáforos desligados, que quando assim funcionam como sinal de "stop", pois nenhum carro se avistava no cruzamento. E logo dois policias saltam à estrada, mandando-me parar. "Estou tramado!", resmungo, antevendo os rands da multa e o atraso na viagem. Desculpo-me, explico-me, eles impávidos. Claro que viram a matrícula moçambicana, e tão habituados estão ao tráfego inter-fronteira, mas perguntam-me para onde vamos ("Maputo", respondo), de onde somos ("portugueses", digo-lhes), se viemos às compras. Que não, esmiúço, em busca de hipotética solidariedade, que ali vim para trazer a miúda ao (orto)dentista, a Carolina a comprová-lo no banco traseiro, com o aparelho dentário tão brilhante, acabado de calibrar na visita mensal. Um deles (suazi? tsonga? sotho?, não lhes consigo destrinçar a origem), inclina-se sobre a minha janela, quase enfiando a cabeça no carro e pergunta "how are you, sissi (maninha)?" e assim percebo que não pagarei multa. Depois diz-me "se você é português vou-lhe fazer uma pergunta" e eu logo que sim, dando-lhe um sorriso prestável, antevendo uma qualquer dúvida sobre ares ou gentes de Moçambique. Mas afinal "Qual é o melhor, Ronaldo ou Messi?". Eu rio-me, num "Ah, meu amigo, são ambos excepcionais, diferentes mas excepcionais", enfatizo, mas ele insiste, "mas qual é o melhor?". "Ok", e enceno-me, olhando à volta, "só vocês é que me ouvem, assim posso falar, sou português mas o maior é Messi", e estou a idolatrar o jongleur, o driblador dono da bola, alegria do povo, nós-todos miúdos de rua. "Não, você está errado" riposta ele (ndebele? zulu? khosa?, não lhe consigo destrinçar a origem), "Ronaldo é o melhor. Messi nasceu assim, Ronaldo é trabalho, muito trabalho!". Ri-se, riem-se, rimo-nos, e conclui num "podem ir". Avanço pela N4 e sorrio a este afinal meu espelho, apatetado europeu (armado em) intelectual com prosápias desenvolvimentistas, a levar uma lição de ética de trabalho de uma pequena autoridade (formal) africana.

 
(Fica a historieta para os que acham mal resmungar com os patrícios que, sistematicamente, apoucam o labor do maior atleta em actividade. Talvez nisso ombreando com Federer, mas muito mais célebre).

Sporting e Cabo Delgado

cabo delgado.jpg

Há demasiado futebol na sociedade portuguesa, omnipresente na imprensa, constante no bate-boca popular, viçoso como "futebolês" no linguajar e, assim, empobrecendo as interpretações do real. Mas isso também corresponde à competência do jogo nacional entre o espectáculo desportivo mais popular no mundo: o campeonato é o 6º europeu mais pontuado, a selecção sénior é a 5ª mundial mais cotada e actual campeã europeia, dados que muito ultrapassam a dimensão económica e a demográfica do país. Nisso treinadores, jogadores e o trio de clubes mais representativos têm uma enorme visibilidade internacional.
 
Neste quadro o Sporting conquista o tão ambicionado título após 19 anos. E assim congrega uma imensa atenção nacional e além-fronteiras. Três dias depois joga o "clássico" dos "clássicos", o Benfica-Sporting, a sempre "taça da 2ª circular" diante do eterno rival. Nas suas camisolas os jogadores trocam o seu nome de campeões pelo dístico "Cabo Delgado", convocando a atenção solidária para o drama ali vivido desde há 3 anos e meio. O qual durante tanto tempo conviveu com o silêncio da sociedade moçambicana, das suas instâncias estatais e da imprensa tradicional bem como, friso, da maioria da intelectualidade do país. E também com a "distração" internacional. Vivi 18 anos em Moçambique, e também no Cabo Delgado, região pela qual então me apaixonei. Muito por isso ontem tanto me comovi ao saber deste inesperado gesto do meu clube - naquilo do gratuito encenado e inútil que é o clubismo.
 
Hoje de manhã corro o FB e vejo reacções lá na "Pérola do Índico". Alguns - uma minoria do que leio - protestam com esta intromissão nos assuntos internos, nessa pantomina a que reduzem o apreço pela soberania. Mais refinado segue o sociólogo Elísio Macamo, um dos mais afamados intelectuais nacionais. Conhecedor da sociedade portuguesa, onde até publica textos de índole política para gáudio dos "decoloniais", enfileirados no demagógico comunismo identitarista que por cá foi grassando, Macamo saúda a acção sportinguista mas não deixa de a apodar como "gesto imperial".
 
Muitos gostam de nos chamar "tugas" da "Tuga", nisso sinalizando o desprezo pelo nosso país e por nós-povo, assim ditos mole de gente rasca. Ao ler estas reacções e, acima de tudo, este "gesto imperial" sinto-me um "tuga", um vero "maguerre". E clamo um matinal "fôôôôôda-se...!", assim mesmo, com circunflexo maiúsculo e longo e arrastado "ô". Não injúria, nunca praga, mas uma verdadeira "onomatopeia imperial".
 
E depois, já azia liberta, regresso-me a burguesote bem-falante. Para findar assim: é isto, são estes clamores, o cerne do "pensamento decolonial". Que se saracoteiem @s académic@s das causas, neste garimpo de "gestos coloniais". Eu? Vou ver a bola...

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