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Nenhures

Nenhures

À bolina

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(Postal que publiquei no És a Nossa Fé, antes da azáfama no Sporting acontecida esta semana, sobre a qual publiquei outros cinco postais que aqui não replico pois muito mais específicos das "coisas da bola", mas para os quais deixo ligações: The Next Big Thing, All In, Obviamente, Demite-se, Sem Ponta por Onde se lhe Pegue, e o mais jogoso Força, Rúben Amorim. A este replico-o, porque de âmbito mais geral do que as aventuras e desventuras da contratação pelo clube de um novo treinador. E, acima de tudo, porque me diverti a escrevê-lo.)

Jogar à bolina é uma verdadeira arte. Não será para todas as equipas, pois o célebre "triângulo latino" é uma  táctica  - uma espécie de 5x3x2 muito plástico - que exige uma grande disponibilidade física. E, sempre, um bom timoneiro, um 10 quase "box-to-box" arguto e eficaz, daqueles "à antiga". Mas em havendo isso pode-se jogar olhos nos olhos, e em qualquer campo, contra ventos e até marés. Dias, grande jogador que injustamente nunca ganhou a "Bola de Ouro", foi nisso perito, e como poucos. O  que o levou a ter sido o primeiro a apurar-se para o Cabo. Razão pela qual depois, já veterano, fez a campanha de apuramento na selecção de 98, com Gama. E ainda foi fundamental no campeonato seguinte,  com Cabral, durante o qual se lesionou gravemente, tendo ali terminado a carreira sem jogar a final. Para os mais novos, que não o viram jogar, Dias foi uma espécie do que será Ruben Neves (se o Grande Engenheiro abrir os olhos e se deixe de Adamastores ...) nas armadas de João Félix e Diogo Jota, almirantadas pelo Cristão Ronaldo.

Lembro agora esse grande capitão de equipa, figura até lendária do nosso clube, por causa do que aconteceu nas meias-finais de 88, o célebre jogo de Port Elizabeth (no estádio que hoje leva o belo nome "Nelson Mandela", então chamado "Lagoa"). Como se sabe a campanha estava a ser um sucesso mas o plantel, já exausto devido ao terrível calendário, pois a selecção caíra num verdadeiro "grupo da morte", exigiu mudanças. E Dias, um grande líder, percebeu a situação, soube recuar, mudou a táctica e os objectivos mas mantendo os princípios de jogo, assim salvaguardando a equipa num necessário "que se lixe a taça". E uma década depois o clube foi campeão. E voltou a sê-lo pouco depois, numa senda de sucessos até Queirós e Santos. Sempre, repito, com esta filosofia de jogo, neste ideal da bolina.

É certo que este modelo de jogo, ziguezagueante, por vezes até soluçante, é menos popular. As "molduras humanas" preferem o raçudo "armada invencível" castelhano, o rendilhado da táctica flamenga do tiqui-taca, o coriáceo "quadrado oco" transalpino (dito catenaccio). Ou mesmo o "sem quartel", a imperial razia do pontapé-e-correria britânica. As hostes animam-se vendo os jogos dessas equipas, dizem-nos "jogatanas". E nem pensam nos custos milionários das esquadras que os praticam, impraticáveis na nossa mareação. Por isso assomam aos promontórios, às Superiores e Centrais, ancoram nos areais, quais o Alcochete que não o de Caminha, e imprecam o bolinar, aos plantéis votam escorbutos e sífilis. E até lhes acenam sudários brancos, augurando-lhes a morte. Por vezes acorrem aos cais para os apedrejar, se e quando aportados sem troféus de saques. E aos capitães anseiam chicoteá-los, e apenas isso porque agora proibidas as fogueiras, por sábia e pia determinação da Santa Federação.

Lembro este bolinar por dois acontecimentos destes dias. Idos agora a terras do Mafoma, a dois minutos do final da peleja os nossos marcaram o golo necessário à glória. Nessa mesma noite logo os louvámos, em concorrida procissão entre o Cais da Portela e a Sé do Lumiar, tantos dos mais populares flagelando-se em agradecimentos. A Silas, vero general, outorgámos o devido cognome, Senhor da Selva. E içámos-lhe triunfo, pela boa táctica com que conduziu o combate, sobrevivendo até a erros dos nossos mais novos. Pela argúcia de ter colocado o núbio Doumbia para trancar o castelo de popa, pela coragem de ter resguardado o caboclo Plata, lançando-o aquando os infiéis já exaustos e assim tornando-o tão decisivo. E pela confiança que vem transmitindo à nossa grei, visível nestes recentes triunfos, sucessivos e esclarecedores de que algo vai melhorando, fruto também das nossas preces. 

(Hum, o Diabo desviou a bola para a barra? É tudo tão diferente ... Silas é afinal só selvagem, nem cristão-novo, pagão mesmo. O resto é miserável, gente pecaminosa assim desprovida de favores divinos.)

E consta também que não há dinheiro. Que os banqueiros da Flandres, e os venezianos e genoveses, e, piores do que todos, os malditos judeus, querem que se lhes pague os empréstimos, todo esse ouro e prata com que se armaram as equipagens dos anos anteriores, tantas delas naufragadas, outras regressadas com contas bem esconsas daquelas andanças pelas índias. "Aqui d'El-Rei!", grita-se, urra-se, e até aqui neste rossio blogal. Que se acorra ao paço, que se defenestre Varanda fora, clamam. Pois que venha mais ouro, que se largue a prata. Que se gaste! Que se gaste! Que se ganhe! Que se ganhe!

E aquilo da bolina? Do à bolina? Como, se nem para as galés esta gente serviria?

O mito da "União"

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(Postal para  o És a Nossa Fé)

(Há leitores [demasiado] apaixonados pelo tema [e desabituados de ler sobre outras coisas, o que se nota na forma como desinterpretam, invectivam, "julgam"]. São esses que, em não concordando com um texto, logo reagem apenas em função do "sei bem o que é que este gajo quer...". Por isso insisto em convocar o que fui escrevendo ao longo dos anos sobre o SCP. Não é que não mude de ideias, mas é na continuidade do que fui botando que devo ser discordado, desprezado, insultado e não em função desse miserável e corrente "sei bem o que é que este croquette filhodaputa quer ...":

Em 8.6.18 disse-me avesso a Varandas; em 9.7.18 insisti que Varandas não era o homem adequado. Em 4.2.19 apontei a sua falta de ponderação ... que causara "este naufrágio, este descalabro anunciado". Em 29.9.19 insisti que o presidente falhava e que as eleições antecipadas iriam acontecer, mais tarde ou mais cedo. Antes, neste blog, terei sido dos últimos (eu julgo que fui o penúltimo) a apoiar Bruno de Carvalho, ainda que com alguma ironia já desencantada, descrente que ele se reequilibrasse: 10.4.18 #JeSuisBruno. O qual vinha elogiando, como em 5.6.15 por tentar fugir à pérfida economia do futebol. E o qual dissera a personalidade portuguesa do ano em 2013.

Bem antes,  vivendo muito longe, fui vendo como o Sporting ia decaindo num rosário de presidências algo estranhas: a 28.4.06 questionei como podia Soares Franco queixar-se da herança de ... Sousa Cintra. Em 14.3.08. irei-me sobre a rábula do "Projecto Roquette", algo encetado então há quase 15 anos, e que devastou o clube (ainda há pouco li a notícia sobre o início do projecto imobiliário nos terrenos do antigo estádio, coisa que não será pacífica). A 6.11.09 notava a total inaptidão de Bettencourt. Etc.)

Encimo este postal com a fotografia do convívio da Juventude Leonina (que agora, para minha vergonha, um co-bloguista chama em retórica ilusionista "grupo organizado de adeptos"), ocorrido em Fafe, cerca de dois meses após o ataque a Alcochete. Não é necessário grande elaboração. Apenas repetir o óbvio. A crise futebolística e económica que o clube sofre é, em grande percentagem, devida ao indigno e inaceitável ataque que o tal "grupo organizado de adeptos" fez às instalações do clube. Nem discuto se o então presidente teve responsabilidades, directas ou indirectas, nem se os jogadores se aplicavam ou não o suficiente, nem se tinham ou não direito moral e jurídico para rescindir. Digo que o mais antigo e conhecido "grupo organizado de adeptos" do clube, com as suas lideranças participantes, atacou as instalações do clube, agrediu funcionários e causou enormes prejuízos, económicos e morais, ao clube. Digo que meses depois, em confraternização, os outros "adeptos" "organizados" em "grupos" demontraram solidariedade com os agentes dessa acção. E digo que desde então não houve qualquer demonstração de repúdio dessa acção por parte dos "adeptos" que se "organizam" nesse "grupo": nem cisões dentro do "grupo", nem abandonos em massa por parte desses "adeptos", nem eleições internas sob o signo da ruptura. Mais ainda, digo que as suas atitudes nos estádios e pavilhões não têm demonstrando nem repúdio por este passado, nem inflexões comportamentais, nada disso.

Mais, como nos lembrou Paulo Bento, esta pressão agressiva destes "grupos organizados de adeptos" sobre as direcções do clube tem sido constante ao longo já de décadas, com efeitos morais lamentáveis e económicos e desportivos gravosos.

A questão actual fundamental não é se Frederico Varandas é ou não um bom presidente, se é competente ou não na gestão do futebol. Para avaliar se o presidente deve ficar ou se é fundamental realizar eleições antecipadas, convirá saber como estão as finanças e a economia do clube. E se a gestão actual é dolosa. Ou se nessa área tem conseguido, dentro dos constrangimentos conhecidos, conduzir o clube num sentido positivo ("sentido positivo" quer dizer "um bocado melhor do que antes"). Quanto às outras actividades julgo que nada de gravoso se passa. Resta o futebol sénior: onde o panorama é ... algo habitual. Um pouco mais cinzento do que em anos transactos, mas não pior do que em alguns deles. Tudo o resto - como dizer que isto é o pior de que há memória, - não é uma democrática divergência de opiniões, é pura demagogia. Pois não tem base em dados factuais, apenas numa ileitura do passado recente. E do real actual. 

Ontem houve uma manifestação contra a direcção. Faz parte. Há notícias que houve agressões a membros da direcção e a uma familiar. As reacções são tétricas, e mostram o tipo de gente com quem se partilha a paixão clubística: a) alguns dizem que como não há imagens, não será verdade. Ou seja, na cabeça de alguns destes meus concidadãos o que não está filmado não é crível. O que significa isto? Que tenho em meu torno abjectos cidadãos que querem tudo filmado. Isto não é exagero meu. É apenas a reacção ao fedor da bronquidão circundante, de "adeptos organizados" e de "adeptos atomizados"; b) outros exclamam que se é a direcção que o afirma então é uma falsidade. Ou seja, desconfia-se não dos "grupos organizados de adeptos" que têm este historial de violência, intra e extra-muros, mas sim de cidadãos normais que, por paixão, se dedicaram à administração do clube (com alguma falta de jeito para tal, penso eu, mas isso é outra coisa).

Há muita gente, e neste blog também, que continua a defender que é necessário "unir" os sportinguistas, quem ataque os "divisionistas", aqueles a quem repugna a co-pertença desta gente. Só me pergunto, que género de comunhão é possível com este tipo de cidadãos? Que objectivos comuns se têm (ganhar a "taça"?)? Que racionalidade comum se tem? Aqueles que pugnam pela necessidade da união com a malta das catacumbas, dos insultos, das agressões, pugnam por terem os mesmos valores, de algo comungarem com essa turba? Alguns dirão que o valor é o "Sporting" mas seria interessante que explicitassem isso, sem debitarem o lema "Esforço, Dedicação, Devoção e Glória", pois isso é o lema, não são valores. Que comunhão há com esta gente? Gritar ao mesmo tempo quando uma bola entra entre postes? É importante que o explicitem. Um clube é uma associação desportiva, "é-se" de um clube por "associação" voluntária com outros. Que associação tendes com estes holigões, que associação quereis ter com estes holigões, que ideias e práticas comungais com estes holigões? São importantes porque fazem barulho no estádio? "Animam"? Não vedes o resultado, moral, económico, securitário, desportivo, desse "barulho", dessa "animação"?

Finalmente: um blog é um espaço de diálogo. Mas até que ponto é que é aceitável produzir textos, promover o debate entre gente que partilha a paixão do clube, ou a paixão de clubes (temos aí um pequeno núcleo de comentadores benfiquistas, que nos vem cutucar), e ao longo de anos acoitar, e nisso até promover, vozes insanas, adeptas da violência, do desrespeito cívico, da apropriação do património moral e da dissipação do património económico do clube? Qual é a lógica de continuar a aceitar a boçalidade, a agressividade, o insulto, a perfídia caluniosa, e até a ameaça, a aleivosia constante, que alguns continuam a deixar, continuamente, nos comentários deste blog? Democracia não é aceitar isso. Democracia é aceitar que estas gentes, na sua hediondez, têm direito a ter blogs, a neles escreverem. E aí dizerem as baboseiras que os caracterizam, e a pugnarem pelas desideias que os comandam. Ou seja, qual a razão de continuarmos, nós, co-bloguistas, a aceitar este lixo internético neste espaço gratuito, sem agenda interesseira? Porque damos nós palco a isto? Chega.

Parabéns CR7

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(Postal para o És a Nossa Fé)

35 anos, é hoje o aniversário deste quase-velhote. E continua ... imparável. O nosso maior de sempre. Grande Sportinguista!

Campeão europeu de selecções; Vencedor da Liga das Nações; 5 Ligas dos Campeões; 4 campeonatos mundiais de clubes; 2 Supertaças europeias; 6 campeonatos nacionais (Inglaterra, Itália e Espanha); 3 taças nacionais (Espanha, Inglaterra); 2 taças da liga; 5 supertaças nacionais (Inglaterra, Espanha, Itália, Portugal). Mais de 700 golos de carreira, maior goleador da liga dos campeões; 2º melhor goleador nas selecções nacionais, 4º melhor marcador da história do futebol; mais internacional de sempre por Portugal (154)., Inúmeros troféus de melhor marcador, nacional e internacional. 5 vezes eleito melhor jogador do mundo.

O que é necessário para o futuro

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(Postal para o És a Nossa Fé)

(Antes que os leitores disparem:)

1. Quando no imediato pós-Alcochete, Frederico Varandas avançou para a candidatura logo aqui resmunguei, várias vezes, que não era o homem certo. Nada me movia contra o arreigado sportinguista. Mas aquela insistência no "capitão do Afeganistão" que crê que "a cadeia de comando é sagrada" soou-me a vácuo.

2. Em 29.9.19 aqui escrevi: "E é notório que Varandas não se percebe a si próprio, devido às suas características. ... trata-se de alguém basto auto-convencido -. o que não é defeito, é característica. E que gere segundo intuições, crê na sua intuição, e em demasia. Isso dá azo a imprudências, e a opção Keizer disso foi exemplo. Letal. A ponderação, a prudência, apesar do tom repousado da sua expressão pública, é-lhe estranha. Varandas será um belo profissional da medicina. É com toda a certeza um grande sportinguista, dadivoso. A sua disponibilidade para liderar o clube após o descalabro do anterior presidente é mais do que elogiável. Tudo aponta para que seja um homem probo. Mas torna-se óbvio, e ontem a televisão mais uma vez o demonstrou, que não tem as capacidades intelectuais necessárias para administrar um clube como o Sporting. 

Como tal, mais do que discursos louvando a "estabilidade" ou sacralizando regulamentares prazos de mandatos, é importante que se perceba que vai haver eleições a curto ou médio prazo no clube. Pois após apenas um ano a direcção Varandas está esgotada, na trapalhada da gestão do futebol, nos tiques autoritários (o caso da elisão do campeão mundial de judo é totalmente inaceitável), na incapacidade de apreensão do real, na demagogia (o financista Salgado Zenha especulando sobre futebol), na desastrada comunicação com os associados e a massa adepta. Etc. Ou seja, estes corpos sociais ofertaram-se, generosamente, ao clube. E falharam. Urge compor  nova opção, e o quanto antes para evitar maiores maleitas."

(E agora o postal para hoje)

3. O Sporting é um enorme clube, carregado de títulos e de atletas magníficos. Mas não ganha no futebol sénior. Nos meus 55 anos só me lembro de 5 campeonatos nacionais ganhos. O clube está numa crise monumental: identitária, pois moral; organizativa, pois aos constantes solavancos; financeira, e porventura económica.

O que o clube precisa é de prudência, de ponderação prudente. O pior que pode acontecer não é Varandas continuar, é ser substituído por alguém que venha prometer títulos no imediato - vendendo a SAD, pressionando árbitros, batendo no peito, reclamando pergaminhos bancários, augurando investidores "chineses", toda essa demagogia avulsa. Comum.

O clube precisa de recomeçar. O futebol de se reorganizar. Só precisa disso. Há alguns dias aqui escrevi - com alguma ironia pois não devemos levar a bola demasiado a sério -, que "o futuro é radioso". E sê-lo-á se for ponderado. Sem gulodices. Preparando ano após ano um ressurgimento de grande clube de futebol.

Por isso ilustro este postal com a imagem de José Peseiro. Não que esteja a propor o seu regresso. Pois creio que o seu tempo no Sporting passou definitivamente. E porque não acredito - até por tudo o que disse acima - em "Salvadores do Clube". Mas porque me parece óbvio que, independentemente dos méritos e deméritos de José Peseiro, se Varandas tivesse tido a prudência de o manter na época transacta, num ano sem grandes expectativas, alguns frutos teriam surgido. Talvez não duas taças (que aqui já disse terem sido "vitórias de Pirro"). Mas estabilidade. E depois, com tempo, poderia até ter mudado de treinador, se assim o entendesse. 

Foi a imprudência, a gulodice, a "fezada", que conduziu Varandas a este angustiante e apressado final da sua presidência. Depois de tudo o que de irracional houve na presidência anterior, o que ainda torna mais imperdoável esta sua metodologia, esta administração por repentes.

Vamos ultrapassar este ciclo. Pensando ponderadamente, escolhendo ponderadamente. Seguindo prudentemente. Ou então continuaremos assim, mergulhados na internet a pedir cabeças cortadas após cada derrota. O que é uma grande seca, diga-se.

O politicamente correcto

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A aparente "esquerda" actual, o identitarismo escolar, vem convicta da sua superioridade moral. E quer ser pedagogicamente moralista. Isso crisp/ma-se no politicamente correcto. A correcção dos pequenos actos e, acima de tudo, do verbo é a garantia da justeza ideológica, da adesão às boas causas. Os exemplos são constantes, e fastidiosos. E alguns perniciosos. Mas é claro que este policiamento implica a sua negação. Para esses correctistas referir a existência de uma prática e de uma  mundivisão "politicamente correcta" é uma afirmação espúria, falsa. Coisa de "direita", ou seja, no linguajar de décadas, falar do "politicamente correcto" é coisa de "fascista". Para eles não há nada disso. E resmungam, até abespinhados, "o que é que não se pode dizer?".

O politicamente correcto não é apenas um policiamento verbal. É uma pantomina moralistóide, uma coerção sobre acções sociais, tantas delas desprovidas de efeitos prejudiciais ou de sentidos depreciativos. Apenas alheias ao rame-rame da agit-prop militante. O politicamente correcto é uma mundivisão, muito  new age, ainda que laica, na sua aparente placidez, irenismo. De facto, é uma "filosofia" (com aspas) totalitária, que tudo quer controlar.

O exemplo mais sonante dessa patética mundivisão aconteceu ontem, num campo de futebol: o futebolista Neymar fez uma estrondosa finta a um adversário. O árbitro acorreu e puniu-o com uma repreensão (cartão amarelo). Pois tamanho drible, tamanha demonstração de talento, lhe surge como uma humilhação do adversário.

É diante desta triste gente que estamos.

 

O anti-clímax: o fora-de-jogo pós-VAR

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(Postal para o És a Nossa Fé)

A propósito das discussões sobre o VAR lembro-me de dois postais que escrevi há alguns meses sobre o tema. E por isso parcialmente os repito na crença de que, apesar do ditado, esta voz chegue ao céu. Pois a matéria me é causa.

1. (No Delito de Opinião) Alerto para o anti-clímax que está a ser o vídeo-árbitro. Tecnologia que é preciosa, para reduzir erros e para combater a mariolagem arbitral. Mas cuja utilização trouxe uma vertente "tecnocrática", uma mania de "justiça" que de tão maximalista, pois milimétrica, não é ... justa. Eu gostaria de lhe chamar um justicialismo mas a palavra está usurpada por um outro sentido, histórico (o peronismo), do qual bem que podia ser libertada pois faz falta para coisas de hoje - até porque dizer (neste caso, condenar) um apotropismo, uma crença apotropaicista, não convenceria ninguém, mais que não seja devido à fonética. 

Feito intelectual da bola, julgo que para manter o entusiasmo do jogo e para preservar a boa tecnologia são precisas duas mudanças: uma alteração legislativa e uma diferente jurisprudência.

(No És a Nossa Fé) O VAR foi influente no jogo (Manchester City-Tottenham). O 5-3 nos descontos finais, a suprema reviravolta, é a festa do futebol, o apogeu da ideia de clímax na bola. E depois anulado pelo VAR, o cume do anti-clímax. Ora isso está a acontecer imensas vezes, e é óbvio que vem retirando brilho, paixão, ao jogo. O VAR é fundamental, é óbvio que reduz os erros dos árbitros e que é um grande instrumento contra a protecção aos grandes clubes e contra a corrupção - promovida pelos clubes e por essa relativa novidade das apostas desportivas privadas e avulsas. Mas ao quebrar o predomínio da paixão e da festa arrisca a tornar o jogo mais cinzento e, nisso, a ilegitimar-se. Assim as suas imensas capacidades tecnológicas de observação desumanizam o jogo. Ontem foi exemplo disso. Para que o VAR seja protegido dever-se-á pensar a aplicação das regras, refrear a tendência legalista que ele trouxe, uma verdadeira ditadura milimétrica promovida pela tecnologia. Urge regressar, e reforçá-las, a tradições na jurisprudência futebolística, pois humanizadoras, cuja relevância ontem foi demonstrada:

No fora-de-jogo há que recuperar o ideal da protecção do avançado em caso de dúvida na aplicação desta lei, de uma (muito) relativa indeterminação. Anda tudo a aplicar ilegalidades ínfimas, se o calcanhar de um está adiante ou não, se o nariz do avançado pencudo está à frente das narinas achatadas do defesa. Veja-se a imagem do tal 5-3, que beneficiaria o City: Aguero está em linha, de costas para a baliza tem apenas o rabo gordo à frente do defesa. Que interessa isso para o fluir do jogo? Urge recuperar essa ideia do "em linha", e permitir que o avançado esteja "ligeirissimamente" à frente do defesa: se confluem, relativamente, numa linha horizontal ... siga o jogo. Claro que depois se discutirá se o calcanhar dele estava ou não em linha com a biqueira do defesa. Mas serão muito menos as discussões. E haverá mais golos. E, acima de tudo, menos anulações diferidas. Donde haverá mais festa, mais alegria exultante. É esse o caminho para a defesa da tecnologia. E da paixão. Julgo eu, doutoral aqui no meu sofá.

Sporting-Benfica 2020

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(Postal para o És a Nossa Fé)

Voltei a ir à bola, agora com familiares benfiquistas - um sobrinho cobrou-me uma promessa com 40 anos, alega ele, a de irmos juntos ao futebol. A terceira ou quarta vez dele num jogo, desportista nada dado a futebóis. Diverti-me. E muito com todo aquele ardor do petiz, sobrinho-neto lampião. Depois, lá pela segunda parte soltou-se a imunda ralé sportinguista, a turba das claques. Estava aquela gentalha algo perto, deu para lhes ver  as caras, notar os esgares irracionais, ouvir-lhes os urros. São compatriotas, inenarráveis e arrebanhaveis. No futebol ou alhures. Urge a repressão.

O resto são pormenores: o Benfica ganhou bem, tem melhor equipa, melhores jogadores. A nossa equipa é fraca, alguns jogadores nada por aí além, outros parecendo apardalados. Aquilo  não  vai bem, decerto. O treinador não sei, leio agora que quando entrou a equipa estava a 7 pontos da liderança. Já vai a 19. Deslizar que não lhe augura longo futuro no clube. A direcção falhou rotundamente, o presidente é voluntarioso mas é notória a sua incompetência e a incapacidade em se rodear de bons conselheiros. O clube - que é um clube movido a futebol - tem que escolher outra direcção, e o quanto antes. Já o disse aqui, seria o mais elementar sportinguismo ceder o lugar a quem possa fazer melhor.

Mas isso são pormenores. O pormaior é fazer sobreviver o clube. Conheço sportinguistas medianamente inteligentes, até bloguistas, que julgam que todos os sportinguistas são o Sporting. Raciocinam como se isto fosse um partido político, a precisar de votos. Mas não é. Um clube é uma comunhão de princípios, algo fluidos, e de objectivos. Uma comunidade. Esta turba não tem objectivos, nem sequer consegue reflectir - e por isso não vale a pena tentar argumentar racionalmente, pois nada pode apreender. Apenas quer festa, poder urrar em vitórias. E clama a falta dessas vitórias-viagras de que precisa para julgar ser algo, sentir qualquer emoção. Haverá entre ela alguns mais mariolas que têm remunerações nessa "economia de claque". Mas a maioria não tem, apenas tem, deseja, necessita, a remuneração do êxtase colectivo que supra a merda de vida que tem.

Ou seja, sim, é absolutamente secundário que o Sporting tenha perdido com o Benfica, que esteja a não sei quantos pontos, que não vá ganhar qualquer título, que se calhar (pelo andar da carruagem) nem se apure para as competições europeias. O relevante é mesmo decidir o que se quer do clube. Se um patético conglomerado abarcando este lumpen imundo. Ou se uma associação desportiva congregando cidadãos. Esse será o primeiro passo para um dia, porventura longínquo, o Sporting nos dar a alegria de ser campeão. De futebol, que do resto se vai ganhando, e muito. E sabeis porque se ganha noutras modalidades o que não se ganha no futebol? Ok, por causa dos árbitros, do Vieira, do Papa, do não-sei-o-quê, da Cofina, do Jorge Mendes, etc. Mas, acima de tudo, ganha-se nas outras modalidades porque os seus plantéis e departamentos não foram devastados pelas claques e porque não são geridas directamente por Frederico Varandas.

Ou seja, ampute-se o clube deste lixo. E mude-se a direcção. E depois o caminho far-se-á caminhando ...

 

Um pai como deve ser

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(Postal para o És a Nossa Fé)

A  notícia está no Record, e será já do conhecimento de muitos. Mas aqui fica: um miúdo de nove anos, adepto do Atlético de Madrid, chorou aquando da recente derrota diante do Real  Madrid, naquele torneio das arábias. O pai escreveu-lhe esta carta (que abaixo transcrevo, traduzida, retirada do jornal). Um pai como deve ser. E seria bom que muitos dissessem também: "um vizinho como deve ser". Pois de Espanha também vem bom vento e bom casamento ...

"Gonzalo, filho, ser do Atlético é duro, vais entender isso. Fácil é ser do Barça ou do Real Madrid. Dá os parabéns ao Adrian ou a outro qualquer porque um dia vamos vingar-nos. 
O futebol é um sentimento. É um orgulho para mim que sintas tanto o Atlético. Mas o importante é estudar, amar quem te é mais próximo, ser uma boa pessoa ...
Não discutas por causa do futebol, ao fim ao cabo é uma maneira de nos divertirmos, de fazer amigos, de ser uma boa pessoa, que é o que me interessa, é dar os parabéns ao rival.
Se não fosse pelo Courtois teriam perdido, estamos mais perto do que eles pensam. Vais sofrer muito com o Atlético, mas quando ganharmos algo, vais desfrutar o triplo.
Adoro-te" 

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(Postal para o És a Nossa Fé)

Entre o nosso terrível 18, o ano que vivi no estrangeiro e os altíssimos preços dos bilhetes da bola, há mais de dois anos que não ia ao estádio. E mesmo na tv não tenho visto os jogos - não assino canais desportivos e quando acorro a casas de amigos a pretexto dos jogos grandes logo nos distraímos entre vinhos e cozinhados, pois já quase longínquos vão os tempos das destiladas e dos petiscos, e conversas várias. Aqui entre nós, cada vez tenho menos paciência para o jogo, o da bola. Não por causa da roubalheira, coisa habitual desde há décadas - eu estava no estádio naquilo do Inácio de Almeida, já nada me pode surpreender. Nem as tropelias várias das jumentudes (na bela expressão do Pedro Correia). É mesmo este futebolismo que me cansa, os jornais cheios de tralhas disto, os canais de tv apinhados de mariolas mais ou menos engravatados a debitarem imbecilidades, e o povo, nós-próprios, numa infinita e insana ladainha sobre as futebolices. De facto, enjoei, desliguei-me e nem adepto de sofá vou. Mantenho-me fiel no café, o do bairro, onde todos os dias o sô João me deixa ler o Record durante a bica ou, se atrasado, na imperial pós-matinal (nunca antes das 12 horas, mandam as regras do cavalheirismo).  E no qual vigoro em acaloradas e quási-diárias discussões sobre o(s) jogo(s), enfrentando com galhardia fanáticos lampiões e andrades e ombreando com magníficos adeptos do nosso Sporting Clube de Portugal. Todos nisto mais ou menos como eu, ainda que um ou outro ainda assine os canais de tv "da especialidade", dado o interesse nos campeonatos inglês, italiano e espanhol - e agora até no brasileiro. São diatribes que apimentam o dia-a-dia, rápidas introduções a outras coisas, num almanaque de temas bem mais relevantes ou, melhor dizendo, interessantes.

Enfim, ainda assim, ontem fui à bola. Um bom amigo recém-regressado de Moçambique tinha um par de bilhetes, desafiou-me a acompanhá-lo. Um lugar agradável, com uma televisão próxima, a permitir rever as situações mais interessantes ou polémicas. Foi simpático o convívio, ele acompanhado de gentis familiares, entre os quais um grande campeão do clube, meu ídolo de infância. Quanto ao jogo pouco a dizer, podia o Sporting ter ganho, mas perdeu. Outros farão análises mais conhecedoras. Do que percebi foi que os morcões das claques lá estavam, imundos. O jovem guarda-redes tem futuro, é óbvio. Doumbia não é, nem de perto nem de longe, tão mau como os intelectuais o dizem. Acuña pode ser, e é, um retardado emocional, mas é jogador. Vietto é uma boa contratação - mas isso já tinha percebido nos resumos que vou vendo. Bolasie é codicioso, como se dizia no meu tempo. E confirmei o que tão bem sei, que Coates é um verdadeiro substituto de Anderson Polga, mesmo sem ser brasileiro nem campeão do mundo. Há quem aprecie, que fazer?, quem sou eu para os desdizer? Quanto ao resto, também tenho uma análise táctica: a quinze minutos do fim (perspectivando o tempo extra), estando o Sporting a perder 1-2, o treinador fez duas substituições - depois ainda fez mais uma, metendo um balotteli de terceira - e esfrangalhou a equipa, que nunca mais fez nada de jeito. Não é por nada, nem para me armar em sábio, mas aquando das duas trocas logo comentei para o lado "estamos fodidos". E estávamos. Mas pronto, quem sou eu para contestar as opções de quem é profissional da poda?

O meu momento do jogo foi quando, lá na bancada, vi o lance que acima afixei. Pois logo pulei ululando "foda-se, caralho, é penalti". Um bocado constrangedor, a simpática senhora, sobrinha do meu amigo, ali mesmo ao lado. Certo que não será a primeira vez que vê reacções destas mas "não havia necessidade ...". Até porque, como logo pude comprovar, as leis do jogo do futebol actual dizem que isto não é pénalti. Já nem ninguém grita "gatuno" ao Xistra ou Sousa, ou lá como se chamava o sô árbitro.

Enfim, daqui a dois ou três anos voltarei a ir à bola. Quando me esquecer desta merda.

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