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Nenhures

Nenhures

75 anos após Hiroshima

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Hoje passam 75 anos após Hiroshima, o advento do horror da guerra nuclear. Na amnésia estruturada que apreende a história muitos esqueceram, e os mais-novos nem vislumbram, o sentimento das gerações que cresceram no pavor da hecatombe nuclear, o constante daquela "guerra fria".

Mas para quem se lembre disso, e saiba um mínimo de história contemporânea, poderá hoje também lembrar esta fotografia, e constatar o execrável presidente que nos preside, aqui mimando um arauto da agressão nuclear.  Para além disto há os guevaristas, gente-miúda. Mas, acima de tudo, há este homem. Que segue assim.

O Padre Vieira e a Coordenadora Martins

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(Catarina Martins) diz que pichagem na estátua do padre António Vieira visou descredibilizar movimento anti-racista.

Podemos concordar ou discordar dos conteúdos intelectuais e políticos do movimento anti-racista, ou das suas expressões públicas. Mas isso não nos impedirá de concordarmos no desagrado com os políticos que mentem. 

Ora estas afirmações da coordenadora Martins são uma óbvia mentira, e ela sabe-o. A alusão a conspirações e a agentes infiltrados, "provocatórios", foi retórica constante no movimento comunista internacional. E se há proclamação que demonstra a continuidade da filiação daquela coligação no ideário comunista é esta falsária atoarda. Apesar de Martins andar por aí a apresentar-se como de "programa social-democrata".

O escárnio gráfico (facilmente reparável) em peças de escasso valor patrimonial não é grave, apenas irritante. E os jovens que meio-militam neste meio-movimento dentro de 10 anos serão doutores, muitos dos quais trabalhando em organismos públicos e nisso ciosos do "seu" património, estatutário no funcionalismo, e o material-simbólico que esteja sob a tutela dos seus chefes. E, pois se agora já algo politizados, logo se inscreverão no PS do momento. Alguns, mais abonados, ainda andarão pelos movimentos que são BE até poderem ambicionar o posto de chefe de secção, e então passarão definitivamente à casa-mãe. Tudo isto sem ondas. Pois não há nada de novo sob este Sol, está escrito num texto que é património.

Mas o agora relevante é a aldrabice da coordenadora comunista, a demonstrar-lhe o âmago. De facto, as pirraças gráficas são um mimetismo do que vem sendo feito noutros países. Mas são também uma tradição portuguesa. E no caso deste movimento dito anti-racista, e que recentemente foi muito propagandeado pela coligação entre secessionistas do BE e plumitivos socratistas, é uma actividade consagrada, e até recomendada, como meio de afirmação. Não é, e Martins sabe-o, obra de "agentes provocadores".

Exemplifico essa consagração deste meio de afirmação. Na imprensa nacional o jornal que mais tem acarinhado este movimento político é o "Público". Em 2 de Fevereiro publicou um longo texto de autoria de 4 académicos "O Padre Vieira no país dos cordiais", no qual, entre outras matérias, é zurzida a nova (e tão pobre) estátua. O artigo é interessante e levanta pontos de forma competente. Acima de tudo, para meu gosto, refere que as críticas ao "anacronismo" destes juízes da História estão também elas pejadas de anacronismos. E nisso têm razão os autores. Ainda que não consigam chegar à conclusão óbvia: as causas exacerbadas conduzem ao estupor argumentativo. Mas porventura nunca poderão aí chegar, devido a limites próprios.

Nesse artigo foi, implicita e intrinsecamente, louvada a acção de "recontextualização" das estátuas (a de Vieira e outras), "intervencionadas" pois "pichadas" com "mensagem (,,,) firme". E foi refutada a acusação de "vandalismo" a tais práticas pois tratam-se de "dissidência cívica": "Porém, trata-se daquilo a que Frédéric Gros chamou dissidência cívica (Désobéir, 2018). Aquilo que os pichadores fazem não é mais do que se reconhecerem a si mesmos como sujeitos políticos, no quadro da reinvenção de uma democracia que se quer crítica e interrogativa. A “merda” que os pichadores do Porto incordialmente demandam que seja retirada é uma estátua mas é também, e sobretudo, a materialidade dos consensos impostos no espaço público; o fim da hegemonia narrativa imposta pelos seus guardiães."

Não estou a dizer que os 4 autores do artigo são instigadores ou responsáveis, ou vândalos. O que digo é que estes urros gráficos são uma constante neste movimento (e noutros) e que são uma expressão consagrada e louvada pelos intelectuais integrantes, esses com estatuto académico e militância política suficientes para acederem ao "Público". E que, em assim sendo, é óbvio que as invectivas gráficas não são obras dos tais imaginários "agentes provocadores" que a coordenadora Martins vem brandir.

Uns rabiscos e uns palavrões numa estátuas a que poucos ligam não são relevantes - mostra-o o estado "grafitado" das cidades portuguesas. O relevante é termos dirigentes políticos que mentem com toda a desfaçatez. Isso é que é importante. E Martins está aqui a mentir com a boca toda, apesar da máscara que usa. E eu troco a patética estátua do Vieira, e mais algumas, por um dirigente, ou mesmo mais alguns, que não minta(m) com tamanha impudicícia. Este movimento, se não fosse apenas meio-movimento de jovens esparvoados e de académicos demagogos, poderia pensar nisso.

Os dias do COVID (21): o meu ponto de ruptura

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(Texto meio-desconexo em registo diarístico. Ou seja, blog:)

1. Saio na alvorada, após as 3 ou 4 horas de sono que vou tendo. Aqui na quinta aquém-Tejo as nêsperas estão a despontar, colho laranjas,  uma ou outra tangerina, limões para a limonada. Passeio sobre o orvalho. Fumo em jejum e fujo à introspecção. Depois tento escrever um trabalho que me é infinito e será infindo, leve-me ou não a gripe. Ensaio projectos que nunca farei - nem nunca teriam os parcos financiamentos que exigiriam, pois quem quererá antropologias agora, no futuro que aí vem? Procuro ler, o de tudo um pouco que trouxe. Mas a mente salta, leva horas a estacionar, nada avança. E resmungo o mundo, resmungo-o no tom superficial, esse que é o adequado ao (meu) bloguismo, procurando espantar os temores. Resmungo as delongas havidas nas medidas sanitárias no meu país, esperando estar a exagerar seus efeitos. Resmungo os delírios da "nova direita" internacional, mergulhada num ideário que irá custar imensas vidas e - também - mais desastres económicos. Resmungos apenas blogais pois não sou intelectual comentador - e agora tanto me dariam  jeito uns trocos avulsos para as contas domésticas, e assim desnudo-me na inveja que tenho desse dinheiro fácil da opinação. 

Mas, de súbito, choco com versões, discursos, que me são ponto de ruptura. Pois iro-me, na vontade do abismo abaixo dessa perfídia alheia. Diante desse desrespeito, malévolo. Se desonesto se irracional nem julgo. Nem apupo. Apenas desembesto. Aqui. Minha forma de sobreviver.

2. Desde meados de 1918 a "gripe espanhola" devastou mais do que a hecatombe da Grande Guerra, entre 20 a 30 milhões de mortos. Também em Portugal - uma das minhas bisavós foi vítima. Durante as comemorações do centenário do armistício apanhei este cartoon numa bela exposição sobre a I GM na Bélgica.  É notável a sua legenda: "Podendo viajar porque espanhola, ela não se poupa: é a gripe "globe-trotter!...", caricaturando a sua chegada à fronteira belga neste formato torero. A mensagem era explícita, anunciando o que agora se diz pandemia, a sua origem e o seu modo de disseminação. E denotava o contexto político de então: a "espanhola", e este toureiro que a ilustra, podia viajar pois a Espanha mantivera-se neutral na I GM.

Sabemos hoje que a gripe de 1918-1919 não teve origem em Espanha. Porventura brotou nos Estados Unidos. E ter-se-á disseminado na Europa através dos contingentes militares americanos, devastando uma população exaurida por quatro anos de guerra. Ora na Espanha neutral, sob regime democrático e imprensa livre, as notícias da epidemia espalharam-se, em contraste com o silêncio imposto pela censura militar vigente nos países beligerantes. Daí o epíteto "gripe espanhola", uma "má fama" assim devida à liberdade de informação. E à paz. À democracia, sempre frágil, sempre manipulável, sempre corrompível. Mas democracia.

3. Um século depois enfrentamos ameaça homóloga mas os seus efeitos serão menores pois amenizados pela parafernália industrial e o conhecimento médico - a "biomedicina", como a apoucam os (pós-)marxistas multiculturalistas identitaristas de retórica new age. Mas mesmo assim este é o pior momento das nossas gerações. Um confinamento generalizado que convoca cenários quase-apocalípticos, tantas vezes cine-ficcionados que assim julgados irrealizáveis.

Em cada um vinga a angústia pela saúde da familia e parentela espiritual. E até pela própria. E com a sua comunidade particular, com o que se passa(rá) no nosso Portugal e nos países outros, mais naqueles que nos são próximos em geografia ou sentimento. E, vá lá, em alguns, mesmo com o mundo. Mas também uma outra angústia, sobre o futuro: pois a crise económica que aí vem amarfanha as esperanças para os próximos anos. 

Nisto vou algo egocêntrico, alvitro sobre o que acontecerá connosco, comigo e com o meu grupo alargado, etário, social. Trememos agora, terrores com a sorte dos nossos filhos, angústia com a dos nossos pais, já avoengos. Suspendemo-nos à espera de "alisar curvas", como se um gráfico fosse totem e nos proteja. Talvez, talvez ... Mas depois dessa "curva achatada", daqui a um mês, dois meses, que nos sobrará para os próximos cada-vez-menos anos que nos restam, àqueles de nós que sobreviverem ao vírus? Que nos restará a nós, os pequeno-burgueses ditos "classe média", os que toda a vida viemos remediados, agora desempregados, profissionais liberais desvalidos, ou meros eventuais, já cinquentões ou sexagenários, aqui chegados em casais naufragados, endividados e tão taxados? A nós, que conseguimos boiar no rescaldo da crise financeira da década passada, pois então ainda algo mais jovens, mas nisso também feitos tão trôpegos? Que ocaso teremos?

Pesadelo comigo e com os outros que me ombreiam. Só imagino uma hipótese. Esperaremos neste "confinamento", e na "mitigação", algumas semanas enquanto for isso lei. E logo que esta aligeirar, e será em breve, pois "as coisas" precisam de voltar a funcionar, o show must go on, teremos de ser os primeiros a sair, antes da madrugada, a calcorrear a praça de Grève - que o agora propagandeado "teletrabalho" será para os outros, para os já empregados, a "aristocracia da classe média" como se disse naqueles séculos anteriores. Seremos assim a segunda vaga de convívio consciente e voluntário com o vírus. Agora os profissionais de saúde, da ordem, dos transportes, cidadãos até heróicos. E depois seremos nós, mas surgindo como lumpen, mão-de-obra não-institucional, apenas disponível, alguns ainda podendo arriscar negócios de parcas esperanças, a maioria procurando trabalhos para os quais não estávamos preparados, desqualificados assim. E teremos ainda outros problema: se então andarilhos poderemos voltar a casa, conviver com os filhos e pais, arriscar contaminá-los? Ou precisaremos, burguesotes habituados a sanitário próprio e banho diário, de nos recolher a compounds por razões sanitárias? E estes existem? Talvez, se o Estado (e as câmaras) convocarem esse demencial manancial de "hostais" e "hoteis" que brotaram no portugal disneylandico, na patética west coast que o país quis ser.

4. Neste meu remoer, nem duas semanas confinado, de súbito cheguei ao meu ponto de ruptura. Pensava um texto - de blog, claro - tipo "manifesto". Sobre a necessidade de articularmos com os países africanos (sim, a propósito de Moçambique, minha  paixão) o combate a esta pandemia. Nos quais os défices hospitalares são enormes. Certo é que as suas composições demográficas são diferentes, e outros serão os impactos da gripe. Mas também letais. Pois será agora que instâncias como a CPLP ou, e ainda mais, o acordo de Cotonu deverão funcionar. Mesmo que estejamos agora com a "corda na garganta". Pois se nos escandalizamos com as reticências do ministro holandês, algo alheando-se da situação espanhola, se exigimos comunhão na UE para o enfrentar da gripe e o avivar das economias, como poderemos virar as costas às realidades pauperizadas com os quais temos compromissos políticos e de ombrear humano?

Todos estes processos, internos, europeus, globais, exigem congregação. Entender o que se passa, e algo concordar com o que fazer - agora mesmo, amanhã. E depois de amanhã. O socorro sem pressupostos é uma obrigação humanitária. Mas a reconstrução, a reabilitação pós-covídeo, exige acordos. Lisura, mesmo que discordante. Em suma, temos que perceber como isto nos aconteceu, como o combater, e como o ultrapassar.

5. A pandemia tem razões naturais. Mas também tem causas políticas, complexas. A gripe foi potenciada pelos mecanismos ditatoriais do comunismo chinês, que protelou a divulgação da informação e as estratégias de combate à então epidemia. E que permitiu a disseminação da população residente na zona da inicial infecção. Foi uma típica reacção de uma burocracia totalitária, como várias que a história de XX tanto comportou. E para isso contou também com a fragilidade das Nações Unidas, e da sua OMS, que foi cúmplice desse protelar, timorata face ao poderio chinês. Assim assassino e devastador.

Há alguma similitude com 1918: então os países sob censura militar calaram a situação, a democracia pacífica anunciou-a e ficou com o ónus da sua origem, cujos custos não terão sido apenas simbólicos. Agora as democracias, na pluralidade das suas reacções e nas delongas habituais nos seus processos de tomada de decisão, estão sob uma enorme pressão. Um desastre. Com temíveis repercussões futuras, económicas, políticas. E culturais. É tempo para nos congregarmos frente ao vírus mas também em defesa da democracia. Adiar um pouco as querelas entre os mais liberais e mais estatistas, mais "politicamente correctos" e mais conservadores, mais do género mais da nação, mais laicos ou mais soberanistas, etc. Conciliar diferentes perspectivas em defesa do que é fundamental. Ou seja, ceder excepto no que é fundamental. Como meter isto num postal de blog, como meter o Rossio na Betesga?

6. Estava nisto, neste blogar, quando fui abalroado, causando o tal meu ponto de ruptura. Ao deparar-me com um postal de Facebook de uma colega minha, moçambicana. Algo soez, vil, abjecto. E, para minha dor, logo subscrito por meus amigos e antigos alunos. A tese propalada, mas não original, pois já por aí grassa, é simples: fomos nós, europeus (entenda-se, a UE) que contaminámos África. Portanto teremos (com os EUA) de pagar aos países africanos por essa praga que lhes enviámos. Não os chineses, frisa ela (e tantos outros), pois esses "respeitaram a quarentena", ao contrário dos indisciplinados europeus, ao contrário dos americanos (e antes dos britânicos) com suas diferentes políticas de absorção viral. 

Locutora e seus subscritores são pessoas com estatuto reconhecido, não meros "populares" prenhes de atoardas. Estou diante de "intelectuais orgânicos" a quem Estados e algumas fundações pagam para pensar e ensinar. Mas doutrinam estas falsidades. Ímpias. Por mais que sempre alardeando a sua refutação dos preconceitos, das discriminações, logo agora surgem reproduzindo, de facto ipsis verbis, o antigo cartoon que encima este postal. Para eles somos nós o torero de então, o agente disseminador, poluidor. Não porque somos um toureiro espanhol mas porque somos o branco "ocidental" - mesmo que tantos destes locutores sejam brancos, até "ocidentais".

Pois o que os move, o que os conduz na produção desta falsificação da história (hiper-contemporânea), é o ódio à democracia, aquela a que repudiam, com desprezo, como "democracia formal". O seu ódio ao mundo "pan-ocidental" (como disse Wallerstein, para o apartar do leste europeu e lhe agregar as antigas colónias de povoamento britânicas). Por isso, por esse efectivo amor ao comunismo e aversão aos países europeus, e ao mundo  democrático, vêm agora - neste catastrófico momento - reclamar que paguemos a África uma infecção que consideram termos causado. Elidem, como agentes do conto do vigário, as práticas chinesas que nos conduziram a este estado das coisas. Louvam a sua "disciplina" - construída, sabe-se, por formas de controlo totalitário com tecnologia intrusiva das liberdades individuais que resistimos a aceitar como desejáveis na democracia liberal [veja-se o breve filme]. E toda e qualquer informação que lhes questione as malvadas teses, o entoar do seu odioso comunismo, consideram falsidades dos americanos, aquilo da invectiva à "voice of America" como nos tempos soviéticos tanto se ouvia ...

 

(This is How China Beat the Corona Virus - should we copy?, por George Thompson)

Mas não é só a apologia do capitalismo de Estado chinês, através da falsificação consciente da realidade (ou seja, da violação grosseira das regras deontológicas que presidem a expressão pública de funcionários públicos académicos).  É a mistificação, doutrinária, de um "Sul" ("abissal" no jargão): por isso seríamos nós condenados a pagar pela pandemia que espalhámos em África. Não a China, que tem enormes contingentes de nacionais nos países africanos, que atrasou o reconhecimento e o combate à epidemia e que permitiu a fuga de milhões de pessoas da zona original do vírus. E não o Brasil, que segue uma política epidemológica ainda mais liberal - e desconexa - do que a dos EUA (ou da Suécia, ou as que a Grã-Bretanha e Holanda ensaiaram). Ou seja, essa apologia do "Sul" conduz a que nem "amarelos" chineses, nem "pardos" brasileiros sejam imputáveis. Apenas nós, "brancos" euro/norte-americanos. Ainda que tendo sido os nossos contextos abalroados e estejamos, repito, com "a corda na garganta". E para esta via intelectual nada importa o fenotipo do "intelectual", apenas o seu can-can de "orgânico" ...

E, para cúmulo da impudicícia destes locutores (e subscritores), tudo isto assenta na total desresponsabilização dos Estados africanos e das suas sociedades, de facto uma forma elíptica de (auto-)racismo. A epidemia é conhecida há já meses (ainda que tendo sido elidida pelo poder chinês, delenda est Carthago ...), e a sua travessia intercontinental acontece há algum tempo. Que fizeram os Estados africanos para se fecharem? Mesmo para barrarem estes horrorosos "diabos brancos", nós-mesmos, que transportamos malévola ou "indisciplinadamente" a temível maleita? Nem isso é questionado. E se nós o perguntarmos decerto que serão invocados, como explicação causal das ausências administrativas, o perene impacto estruturante, assim inibidor, do comércio de escravaturas, do colonialismo, do neocolonialismo, da discriminação dos afrodescendentes. E mais alguns detalhes, mais ou menos avulsos. 

7. Meu ponto de ruptura? O vírus não é um inimigo, é agente de patologia. O inimigo é este tipo de gente. Falsária. Interlocutora. Interna. Melíflua quando precisa (de subsídios, de investimento, de emprego). Abjecta, como agora. Na crise que aí vem é preciso defender a democracia. Não apenas dos soberanistas xenófobos, a crescente extrema-direita. Mas também destes racistas comunistas. Um democrata não defende caças às bruxas ou saneamentos ou limites à liberdade de expressão. Mas temos a obrigação de os apontar, aos falsários, de os refutar. Desprezar. De os combater, sim. Mas também de escarrar para o chão à sua passagem.

O derrube do Muro de Berlim

 

(After the Berlin Wall, um documentário da DW)

30 anos passaram sobre esta enorme festa, tanto tempo já passado a mostrar como a vida corre. Crescer com "vizinhos" daqueles, aquele horror, foi uma experiência ... A sua queda foi era de Júbilo.

(Ainda há quem tenha a desvergonha, pois já não é a ignorância que então alguns ainda tinham, de negar o tenebroso daquilo. Que gente ...)

A construção da catedral

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É o dia seguinte ao incêndio da Notre-Dame, e agora sê-lo-á para sempre. Na manhã sigo ao mercado da praça Dailly, às bancas turcas e belgas, vivas de legumes e frutas, frescos e saborosos. Na Brabançonne, rua ainda com laivos de "património", o alfarrabista aproveitou o tempo soalheiro e, como sempre o faz nos raros dias assim, apôs uma pequena mesa de livros porta fora, como se que a ornamentar o passeio.

Hoje, claro, está centrada em Paris, na sua catedral, como teria que o estar depois da desgraça de ontem. Vejo este livro, "Cathedral: the Story of its Construction", de David Macaulay, que desconheço, a 5 euros. Hesito, folheio, decido comprar, menos legumes, menos fruta levarei, ainda bem que a filha foi de férias, não haverá problemas se mais parca for a ementa.

 

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E como não o levar? O exemplar está em belíssimo estado, como se novo, e numa edição de 1973. E o livro é uma verdadeira pérola. Macaulay ficciona a construção de uma catedral gótica francesa: inventa uma Chutreaux e narra, ilustrando-o, com detalhe todo o processo de construção da catedral.

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O autor deixa então todo esse processo de edificação da imaginária catedral, desde a tomada da decisão em construí-la, em 1252, até à sua conclusão em 1338. E nesse processo demonstra a omnipresença do divino na sociedade, a confluência de toda a cidade na projecto de erigir a maior catedral do país, a congregação de saberes e energias. 

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O texto é elucidativo, breve, explicitando os passos seguidos, numa sobriedade formal que não agride o leitor leigo com excessiva técnica. Bem pelo contrário, torna acessível a compreensão de todos os processos. Mas o cerne do livro são as ilustrações, magníficas, que cobrem as 80 páginas do livro. Descrevendo os ofícios envolvidos, os materiais colectados e produzidos, os passos desde a abertura das fundações até à instalação da sua cumeeira, as técnicas utilizadas, as figuras construídas para ornamentar. E a festa final, o encanto da população - "netos dos que iniciaram o trabalho" como refere (ficciona) Macaulay.

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E nisso mostra não só a tal omnipresença do divino mas também a grandiloquência do construído, explanando o como era assim a dimensão eclesiástica a argamassa unificadora. 

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David Macaulay, tem outros livros, de produção posterior e na mesma linha. A perseguir, decerto, tamanha a qualidade deste.

 

Paul Veyne e o cristianismo

Ligação para o registo audiovisual da conferência "As origens do cristianismo no Ocidente". (na BNF, Gallica).

O registo audiofónico de uma conversa entre Paul Veyne e Lucien Jerphagnon. (Biblioteque Medicis, "autour du christianisme", 20/04/2007, com apresentação de Jean-Pierre Elkabbach).

Em adenda, um trabalho completamente externo a Veyne, em registo mais leve. O documentário "Comment l'Europe est devenu chrétienne", de Margaret Koval, produzido por Kowall Films em 2002.

 

 

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