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Nenhures

Nenhures

19
Out21

Efemérides Sangrentas

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Dia de efemérides. Passam hoje 35 anos sobre o incidente de Mbuzini, no qual morreu o presidente Machel e quase toda a sua comitiva. Vários amigos e conhecidos moçambicanos assinalam o facto nos seus murais - alguns usando imagens do impressionante monumento idealizado pelo arquitecto José Forjaz para colocação no fatídico local. Acidente ou atentado?, continuam as dúvidas, as versões, as crenças, num processo de interpretação da história algo similar ao acontecido com a morte de Sá Carneiro e comitiva.
 
Por cá cumpre-se hoje o centenário do assassinato do primeiro-ministro António Granjo e de vários vultos da instauração da República, a dita "Noite Sangrenta", um dos momentos maiores do terrorismo político durante a I República, perpretado pelo que se poderá dizer, sob anacronismo limitado, a "extrema-esquerda" terrorista de então. O Pedro Correia no Delito de Opinião convoca o assunto.
 
O resto da sociedade, a corporação historiadora, os colunistas avençados, os "quadros" da função pública? Seguem fiéis militantes da higienização da I República, da produção da "amnésia organizada" sobre esse directo ascendente (republicano e maçónico) do poder socialista de hoje.
 
Nisso não só vigora o silêncio na imprensa. Mas também o popular, pois poucos (se alguns) se lembram de convocar o assunto nos seus murais. Há que preservar o mito da I República benfazeja. E para isso que faz o Estado, os seus oficiais mais importantes? Usa o dia do centenário deste brutal e tão significativo episódio para se congregar, sob o datado e anacrónico molde panteónico, em homenagem a Aristides de Sousa Mendes, morto há 67 anos, nascido a 19 de Julho e falecido a 3 de Abril. Ou seja, nem sequer há um qualquer vínculo simbólico quase inultrapassável para que a cerimónia decorra hoje.
 
Julgo que nunca tinha assistido a tão descarada manipulação da história política portuguesa. Agora venham-me dizer que é preciso derrubar a estátua do João Gonçalves Zarco. E fazer "introduções contextualizadoras" ao Frei João dos Santos...

 

26
Jul21

A morte de Carvalho

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(Amílcar Cabral e Nino Vieira, entre outros combatentes. Desconheço a autoria da imagem)

1. Em primeira análise devemos o 25 de Abril, a paz e a democracia, o desenvolvimento do país inscrito no assim não tão polimorfo modelo social europeu, as liberdades individuais e colectivas, ao arreganho e quantas vezes até heroísmo dos combatentes do PAIGC, da FRELIMO, e (em moldes mais complexos e até ambivalentes) da FNLA, do MPLA e da UNITA. Foi a sua corajosa acção que então tornou Portugal um país pária e o Estado Novo (fascista, colonial-fascista, ditatorial, autoritário, é-me agora indiferente como o querem catalogar) uma decrepitude anacrónica.

2. Os oficiais subalternos que desde 1973 se organizaram por causas corporativas e que - acima de tudo cansados da desvairada guerra - vieram a fazer os golpes de Março e Abril de 1974 foram nisso, e evidentemente, corajosos. Mas uma coragem menor em grau do que aquela que, tantos deles, haviam demonstrado nas estuporadas e injustas guerras africanas. Não se trata apenas de lembrar que os operacionais desses golpes estavam calejados em bem mais complexos e violentos contextos de guerra. Mas também lembrar que o estado do Estado Novo era já patente (veja-se o percurso de Spínola e, também, de Costa Gomes nesse estertor do marcelismo).

Não nego homenagem a quem arriscou muito nesse início de 1974. Mas trata-se de não sobrevalorizar, mitificar, esses riscos. Enfim, resumo-me: fosse eu um pouco mais ingénuo e surpreender-me-ia com este actual universo ideológico e propagandístico atarefado em decapitar os mitos glorificadores de Diogo Cão, Bartolomeu Perestrelo e afins, enquanto se afadiga em glorificar os oficiais que vieram a Lisboa em 1974 enterrar o já defunto regime, enfrentando para isso alguns dos seus desanimados camaradas de armas, em tantos casos também camaradas de geração de Academia Militar.

3. Figuras relevantes do início da democracia morreram neste XXI. Militares como Rosa Coutinho, Costa Gomes, Eurico Corvacho, Vasco Gonçalves, Dinis de Almeida, Alpoim Calvão, civis como Mário Soares, Almeida Santos, Álvaro Cunhal, Freitas do Amaral, etc. Aquando dessas mortes sempre se levantaram algumas discussões públicas sobre as suas personalidades políticas. E os laivos de acinte que então surgiram vieram, fundamentalmente, de núcleos de gente regressada (ou oriunda, em alguns casos) das ex-colónias, um universo (até geracional) que continuou a personalizar/culpabilizar alguns indivíduos pelo inevitável desenlace da história. Ou seja, para a esmagadora maioria da população as diferenças ideológicas não implicaram desajustados ajustes de contas com os falecidos. Num, de facto, canónico "descanse em paz" dedicado a cada um desses. O sentimento geral é o de que houve desmandos no PREC, houve violência (encetada pelos assassinatos perpretados pelos agentes da PIDE em 25 de Abril), mas que se constituiu um posterior consenso de que "o que aconteceu no PREC ficou no PREC". E nisso decorre uma avaliação diferenciada mas democrática do processo posterior e das suas personagens.

Mas agora na morte deste Carvalho as coisas são diferentes. A repugnância pelo indivíduo é patente em muitos de nós. Pois Carvalho em democracia comandou um grupelho terrorista assassino. Agora, e mais uma vez como em todos os meses de Abril foi habitual, moles de gentes que por aqui andam invectivam o nojo pelo terrorista como característica da "extrema-direita". Tal advém de uma mera táctica, executada por consabidos avençados desta era geringoncica, na qual que convém aos poderes fácticos namorar os resquícios afectivo-ideológicos dos velhos grupelhos m-l. Ou, pura e simplesmente, daqueles que exsudam um efectivo desprezo pela democracia. Ora os crimes que exigem um total repúdio por Carvalho não "ficaram no PREC", são muito posteriores. Os democratas podem ter diferentes visões dos anteriores falecidos, é isso normal. Mas apenas os biltres podem saudar a memória de um assassino.

4. Posso compreender que um militar, camarada de armas, venha agora falar da "bondade" e "generosidade" de Carvalho. Mas a resposta ao nosso respeitável General Eanes só pode ser uma: onde está a generosidade e bondade de quem manda matar 16 vulgares cidadãos em nome de um desvairado e ultra-minoritário ideário?

5. O estado da cultura portuguesa é uma vergonha. O antigo ministro da Cultura João Soares vem dizer que "desculpa as asneiras" de Carvalho. Ou seja, fundar e capitanear um movimento terrorista assassino em democracia são meras "asneiras". É esta a densidade semântica de um gajo que chegou a ministro da cultura. Espero viver o suficiente para lhe escarrar na campa. Na do ex-ministro, entenda-se. 

 

14
Jul21

A Revolução Francesa e a blasfémia

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(Postal para o meu mural de Facebook)
 
Nos blogs ainda se pode escrever em fascículos, não só porque se pode agregá-los por interligações mas também porque a leitura blogal é mais pausada. No facebook isso não funciona, é uma miragem tentar isso sob este império do scroll down. Ainda assim peço aos meus amigos-reais e aos amigos-FB com os quais mais interajo que retenham este meu postalito, ao qual voltarei em breve, e em resmungo azedo:
 
Cada um tem a "sua" revolução francesa. Para mim, entre tantas outras coisas, ela significa o fim da punição por blasfémia. Não se trata de ateísmo pois os "doutores" anteriores, "founding fathers" se ditos noutra língua, haviam defendido que só deus poderia punir a blasfémia. A República consagrou cedo (26.8.1789) a liberdade de expressão. E logo no código penal de 1791 apagou a "blasfémia" como assunto. A rota deste princípio basilar - fundamental na liberdade de expressão mas também na de culto - foi trôpega, mas foi ali confirmada em 1881, pois consignada na lei de liberdade de imprensa, cujo molde perdurou.
 
Essa via francesa - bem diversa da germânica ou anglófona, para referir outros nossos aliados e fontes culturais - é, grosso modo, a matriz da nossa realidade nacional actual, um modelo político de laicidade (a qual não é sinónimo de ateísmo, descrença ou mero secularismo, como confundem tantos ignorantes encartados e até galardoados) consagrado após 1975 - um Estado nada "mata-frades" mas excêntrico à religião. Uma sociedade que não é concebida como um conjunto de diversas "comunidades de crentes", até politicamente activas - algo que o corporativo (e, de facto, hiper-"reaccionário") Sousa torpedeou imediatamente após ser eleito, com a rábula da reunião ecuménica com os diferentes chefes religiosos, diante do silêncio ignorante da "comunidade intelectual" e dos opinadores.
 
A liberdade de blasfemar é o fio de prumo da liberdade de expressão, de imprensa e, nada paradoxalmente, da própria liberdade de culto. É totalmente legítimo contestá-la, dentro de um quadro intelectual (ideológico) que associe de algum modo, matizado que seja, política a teologia. O que é uma posição intelectual e política respeitável. E combatível. Mas é vil, por excesso de ignorância, que quem se reclame de diferentes tradições - a republicana francesa, hoje celebrada, ou a "republicana, laica e socialista" como celebrizou Mário Soares - venha defender açaimes à blasfémia. Jurídicos ou morais.
 
Por isso tanto me irritei quando alguém me convidou (automaticamente, assim se desculpou quando respondi exaltado) para me associar a uma mera página-FB de apoio a Ana Gomes, a política portuguesa que de forma mais veemente, repetida e ignorante tem defendido a mordaça à blasfémia. A qual, no caso dela, reflecte apenas uma catastrófica ignorância racista - como se os integrantes de algumas (míticas) "comunidades religiosas" não possam ascender além das suas algemas "culturais". E também por isso se me azedam as teclas quando outros políticos dessa agora mera agremiação socratista que antes, in illo tempore, se declarava "laica" surgem nas mesmas poses irreflectidas, ignorantes. E bacocas.
 
Pronto, desabafei.
 
 

05
Jun21

As amplas liberdades

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(AS CAUSAS MÍTICAS DA DIVERGÊNCIA ECONÓMICA PORTUGUESA - MEL, Movimento Europa e Liberdade)

Não sou economista nem historiador. E fui lendo ao longo da vida mais ou menos o típico (a moda, no duplo sentido: referente à quantidade; aludindo ao que esteve em voga) de um tipo que estudou ciências sociais. (Ainda assim li o suficiente para não ter paciência para os brutos que põem aspas sarcásticas neste "ciências sociais"). Assim apresentado avanço.
 
Nuno Palma (de quem nunca ouvira falar) é professor universitário na Grã-Bretanha. Falou numa convenção - é o primeiro interveniente do filme, durante 20 minutos - sobre, grosso modo, o regime político português ancorando a sua reflexão na história económica portuguesa. Defende, é explícito, uma postura de direita e uma posição liberal. E analisa a produção do discurso oficial sobre o passado recente, a "narrativa" histórica promovida pelas instâncias estatais, dizendo coisas consabidas (ou que o deviam ser). O que ali avança - em particular sobre a economia e educação no Estado Novo, referindo-se ao "atraso económico e político do país", que apresenta como estrutural - não é particularmente inovador (nem ele o terá procurado).
 
Eu, que li alguma coisa sobre a história do sistema colonial português, volta e meia vou ao blog resmungar contra este actual (e serôdio) discurso anti-colonial que demoniza o Estado Novo enquanto higieniza a I República, que foi veementemente colonialista. E sei, por leituras abrangentes, que se o Estado Novo não foi "desenvolvimentista", no sentido que lhe damos agora, não é nele que radica o atraso económico do país, e isso nota-se bem no delinear das políticas coloniais de XIX e XX. De facto, e fazendo-o de forma vulgar, é mais ou menos o que Palma diz, ele com mais sageza e reflexão, e com um âmbito mais alargado: temos uma "narrativa" (na Escola, na Universidade, no jornalismo de "referência") que amputa a história portuguesa de algumas das suas características estruturantes e inventa outras, para com isso moldar a la carte as sensibilidades da acção política actual - também por isso se quer agora, no seio de demagógicos "movimentos sociais", pontapear António Vieira e não Afonso Costa, ou denunciar Afonso de Albuquerque enquanto se louva Humberto Delgado, por exemplos.
 
Enfim, o relevante - para quem não saiba deste caso - é que o académico Nuno Palma nada disse que seja errado. É um intelectual e teve um contributo intelectual condigno, na sua subjectividade, numa convenção política. Logo um ex-ministro e actual nº1 dos eurodeputados socialistas veio deturpar a argumentação, tanto o explicitado como o que lhe está subjacente, acusando-o de fazer a apologia do Estado Novo, o que é uma vilania intelectual. E, bem pior, surge um outro académico, Francisco Santos Silva, do Centro de História de Além-Mar da Universidade Nova, que o denunciou à Universidade de Manchester, empregadora de Palma. A miséria moral e a incompetência deontológica deste tipo de intelectuais activistas chega a este ponto. E hoje no "Público" José Pacheco Pereira, que foi meu professor (e que professor!) segue nesse mesmo ímpio caminho. E são estes "camaradas e amigos" (para citar Pacheco Pereira quando foi à Aula Magna fundar a futura geringonça) que se reclamam paladinos das "liberdades". Pouco amplas, constata-se todos os dias...

18
Mai21

Gerhard Liesegang

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Aos 80 anos morreu Gerhard Liesegang, autor de uma preciosa e vasta obra sobre a História de Moçambique, desde o seu doutoramento sobre a história do Estado de Gaza. Seguiu como praticante de Antropologia Histórica, e nisso foi enorme exemplo da irrelevância destas divisões disciplinares de que alguns são tão ciosos. Ele próprio assim se anunciava, não só na simpatia com que olhava os colegas antropólogos como quando deixava cair ter estudado (aquando na Londres dos anos 1960) com professores como Isaac Schapera, Raymond Firth, Robin Fox, Lucy Mair ou Tom Bottomore. De facto, nele subsistiu com pertinência a ambiciosa tarefa boasiana, da extrema abrangência do exercício individual das ciências sociais. Nisso fazendo-o um verdadeiro sábio.

Era um homem de enorme simpatia, a qual nem a sua (aparente) timidez escondia. E dono de uma dicção dificílima de captar - lendária até, e sempre carinhosamente evocada por colegas e ex-alunos. A qual nos convocava para ainda uma maior atenção para o que ele proferia. Lembro-me que em 1994 no meu segundo dia em Moçambique José Soares Martins (Capela) - sabendo que eu ia para o Norte - me mandou ter com ele. Recebeu-me em casa, ali à Polana, e no seu jardim deu-me um enorme "briefing" sobre o Cabo Delgado, numa total disponibilidade diante do miúdo que ali lhe batera à porta, de modo inopinado. Saí dali estupefacto, tanto pela dimensão da minha ignorância como pela sageza e simplicidade do Professor.

A última vez que o vi foi em 2017, quando apresentou o livro "Costumes Ancestrais do Povo Makhwa-Metto, de Montepuez", uma memória etnográfica de João Eduardo de Conceição, organizada pelo filho do autor, o antropólogo Rafael da Conceição. Decorrendo a cerimónia na Matola, diante das autoridades locais, o Professor dissertou sobre a relevância da obra e, depois, com o seu célebre sorriso plácido, aproveitou para inflectir o discurso e deixar uma radical crítica ao descuido com o património arqueológico daquela zona, triturado pelo "desenvolvimentismo", coisa que, como frisou, "já vem do tempo colonial e não mudou". Assim mostrando-se não só sábio como exemplo de intelectual.

Muito do que escreveu está em alemão, língua que não domino. Mas há um manancial em inglês e em português. E a melhor maneira de homenagear um autor não é botar encómios. É lê-lo e relê-lo. Deixo ligação para a sua página na rede Academia.edu e para uma entrevista sua, realizada em 2010 pelo meu colega Guilherme Mussane. E é para onde vou agora, relê-lo. Pois o Professor Liesegang é daqueles que conta

15
Mar21

Malvada história de maldita gente

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Amiga envia-me ligação para programa radiofónico: o vice-presidente da Associação de Professores de Português e um antigo secretário de Estado da Cultura, antigo director de jornal e reconhecido romancista dialogam sobre o "racismo no "Os Maias" de Eça de Queirós", contestando as recentes acusações de uma doutoranda estrangeira pertencente à universidade norte-americana classificada em 217º lugar no rol universitário daquele país. Esta gente tem a cabeça onde? 

Amigo-FB envia-me ligação para um artigo de investigadora anglo-portuguesa, denunciando o silêncio português sobre a história nacional e a manutenção daquilo que considera ser a visão imperialista emanada do fascismo - implicitando a inexistência de historiografia posterior e da sua difusão pública e pedagógica durante os últimos 30-40 anos, e denunciando mesmo que há um centro comercial "Vasco da Gama" - e clamando sobre a necessidade de dar visibilidade ao comércio de escravos. O texto é publicado num canal público do Catar. Esta gente não tem pingo de vergonha. 

(Em cima, retrato de D. Afonso Henriques - figura a ser "desconstruída" e "intervencionada" - em quadro de Eduardo Malta - pintor a ser vituperado -, feito para a Exposição de 1940 - acontecimento a ser denunciado)

24
Fev21

Remover Padrão e afins...

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A semana do Império (5):

Vem aí a Primavera. E a bazooka financeira europeia, cujas virtudes indutoras não nos vão sendo aventadas, enquanto a sua fiscalização alhures foi já algo acautelada. A prevenção invernosa da epidemia foi uma catástrofe. O início da vacinação foi algo atrapalhado, com uns mariolas do poder a palmarem umas doses para uso próprio. Sob uma ministra da saúde que tende a considerar criminosos os que se lhe opõem, as críticas a tal desatino são consideradas antipatrióticas. Com tudo isso concorda um punhado de intelectuais, ditos antifascistas, que, ao consagrado estilo de José Sócrates, se erguem contra "as perguntas do Correio da Manhã", apelando ao controlo dos meios de informação e ao descarado expurgar de críticas ao governo - entre outros surgem escritores (atrás de minha casa a escola chama-se Alice Vieira, estamos a formar crianças no respeito a uma censora e isto vem pacífico à sociedade); académicos (notória a presença do abissal CES nesse painel de patrióticos censores), ou o antigo e a actual directores do Museu do Aljube (estes dois militantes do PCP nem têm o pudor de tentar fazer esquecer o execrável vínculo  nepotista que manusearam na conquista daquele lugar na administração pública). Entretanto outras coisas menores vão acontecendo: a TAP intervencionada soçobra, com o autoproclamado "corajoso" Pedro Nuno Santos aos comandos da aeronave; ninguém atenta enquanto o engenheiro Sócrates jagoza sem acusações que se vejam; e o banqueiro do regime constata, decerto que aliviado, que nunca será Fouquet. O ministro da Educação incumpre sonantes e repetidas promessas. Os profissionais do sector cultural, na maioria de mundivisões "à esquerda", constatam - talvez antipatrioticamente - o tipo de ministra que lhes coube em tutela. E, lá bem no fundo, até pouco relevante, a economia nacional é uma "devastada armada" e mesmo que o infame Passos Coelho nos mande emigrar não há, agora, quem e onde nos acolham...

No meio de todo este deserto de problemáticas, a actualíssima "questão colonial" veio congregar atenções, catapultadas pela investida do codicioso dr. Ba, que o demonstra poderoso ariete do "team" governamental, qual Ibrahimović (eu preferiria dizer Lukaku, até pelo seu extraordinário desempenho no último derby milanês, corolário do recente conflito pessoal entre os dois magníficos avançados. Mas decerto que, face às sensibilidades actuais, alguns diriam "racista" essa minha analogia), capaz de driblar atenções e preocupações da "moldura humana", em épocas transactas dita, e temida, "eleitorado volátil".

É no âmbito desta "operação racial" que a remoção do Padrão dos Descobrimentos lisboeta acaba de ser colocada a debate público pelo Partido Socialista, por intermédio de um dos seus deputados à Assembleia da República. Passada uma semana dessa proposta o carácter partidário - e não meramente pessoal - desta iniciativa torna-se notório, mesmo evidente, face ao silêncio (sempre ele anuência) que colheu da direcção do PS e, também, do presidente da Câmara de Lisboa, até porque este figura grada do partido e sempre dito putativo seu futuro líder. Para confirmar a dimensão partidária deste novo conflito político - e não meramente "questão cultural", como alguns resumem - logo de seguida o PAN, um dos partidos que sustentam o actual governo, propôs a remoção de pinturas da Assembleia da República, devido aos motivos históricos que nelas constam. Pois dirá o dr. Costa, e seus fiéis correligionários, antes discutam a "Pátria" de antanho do que façam críticas antipatrióticas actuais. Ou seja, que digam mal do governo, como é timbre desta plebe viciosa e desrespeitosa.

23
Fev21

Enquanto Vasco da Gama Dormia

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A semana do Império (4): na sequência das polémicas ocorridas na semana passada, desde a questão do funeral de Marcelino da Mata até, e fundamentalmente, às propostas de destruição dos monumentos apresentados por deputados socialistas e animalistas, o meu amigo Tiago Matos Fernandes publicou este texto no seu mural do FB. Pedi-lhe para o reproduzir. Como lhe disse este texto é "o mundo num postal de facebook". Sinto-o (e, confesso, invejo-o) como se meu fosse. E muito para além do pequeno "portugal" destes locutores d'agora e daqui. Entenda-se bem, há gente na "sociedade civil" (para se usar o jargão) tão mais capaz, sagaz e sábia do que estes possidentes do sistema político, a la Ascenso Simões. E do que na pobre Academia das causas...

*****

Enquanto Vasco da Gama Dormia

Faltavam poucos meses para as primeiras eleições autárquicas do país, quando o presidente Chissano decidiu visitar a Ilha de Moçambique, sem pompa mas com circunstância. Como não tinha o tempo contado, acabou por dar um salto ao Centro de Recursos, em frente da mesquita central, onde eu trabalhava como voluntário. Um séquito leal acompanhava-o.

Pouco tempo antes, eu tinha organizado uma exposição sobre o património da ilha, com os alunos da escola secundária. Ao longo de duas salas, a exposição mostrava desenhos e pinturas juvenis da Fortaleza de São Sebastião, do Palácio do Governador, dos edifícios públicos, das igrejas, das mesquitas e do templo hindu, assim como fotografias dos grupos de dança do tufo, além de amostras de contas de vidro e pedaços de faiança recolhidos na praia (libertados, com o movimento das marés, do fundo de navios árabes e portugueses naufragados ao largo). Zainal, o irmão de Rahimo Satar, proprietário do Cinema Nina, emprestou-nos duas belas imagens a preto e branco que viriam a ocupar o lugar central da exposição: a fotografia de uma corrida de touros realizada no interior da fortaleza de São Sebastião, na época colonial; e uma fotografia da estátua de Vasco da Gama em grande plano, com o Palácio de São Paulo ao fundo.

Depois de ter realizado uma visita aos ateliers do Centro de Recursos, o presidente Chissano, para nossa surpresa, manifestou grande interesse em ver a exposição. Eu observava tudo de fora, tentando manter-me discreto o tempo todo, desconfortável com todo o peso do protocolo. Porém, não consegui ficar assim por muito tempo: “MX”, meu colega de trabalho, chamou-me à margem e disse-me que não havia mais ninguém que pudesse ser guia do senhor Presidente, senão eu próprio. Por mais que eu quisesse, não tinha como fugir, nem para onde, a não ser que quisesse importunar pessoalmente o Sua Excelência, o Chefe de Estado. Com os olhos, “MX” fez-me um sinal, e eu furei a cortina de gente que cercava Joaquim Chissano, pondo-me humildemente à sua disposição. Fi-lo consciente de que aquela era uma oportunidade única – porventura a derradeira – de privar com um dos heróis da revolução moçambicana; e consciente também de que aquela vez que fui levado para a esquadra por não ter parado a minha bicicleta a menos de cinquenta metros da bandeira nacional (que era também a bandeira da FRELIMO), no momento em que era arriada e se cantava o hino, era uma experiência menor, quando comparada a suprema provocação que, inadvertidamente, poderia causar com aquela exposição descaradamente luso-tropicalista...

Ao longo da minha apresentação, Chissano não tirava os olhos do que via, enquanto se deixava levar pelo fio de História, contado pela voz de um jovem voluntário, branco, português e, sobretudo, muito ingénuo... Paciente e silencioso, deixou-me terminar a explicação, antes de, finalmente, pousar os olhos sobre mim, com um sorriso amável. Tomando o seu tempo, o séquito percebeu que ele ia finalmente tomar a palavra. “Os portugueses fizeram um excelente trabalho na ilha”, começou por dizer. Não pude duvidar da sua sinceridade, pois a obra estava à vista de todos, e eu também pensava o mesmo... Seguidamente, olhou para o seu staff, procurando a sua aprovação e a inspiração para o que iria dizer a seguir: “Porém...” – prosseguiu – “aqueles edifícios que vocês construíram no Lumbo, do outro lado da ponte... são mesmo feios!...”. Ao dizê-lo, abriu lentamente a boca e presenteou-me com um sorriso de Mona Lisa, bem ao seu estilo. Novamente, tive mentalmente de lhe dar razão, é verdade, não sei o que nos deu para tamanha falta de gosto, aqueles caixotes de três andares, dizem que foram construídos no início dos anos setenta, são horrorosos, não têm jeito nenhum. Encaixei a crítica e sorri, anuindo na sua observação. Como eu começasse a achar que tinha ganho a confiança do senhor Presidente, ele guardou algum silêncio, antes de completar o raciocínio, assegurando-se primeiro que todos o estavam a ouvir. “Não dá mesmo para perceber o que se passou...” disse-me, baixando os olhos. E voltando a fazer uma breve pausa, voltou a olhar para a fotografia que tinha à sua frente, para finalmente rematar, sem sequer olhar para mim: “Se calhar era já a pressa para se irem embora...”.

O pessoal que o rodeava abriu o sorriso com grande satisfação com aquela alfinetada e fitou-me, em silêncio, para ver a minha reação à provocação do senhor Presidente. Não sei se ele esperava alguma réplica da minha parte, porque eu senti-me a desvair e não tive ânimo para defender a honra da lusa pátria. Que poderia fazer? Chissano preparara-se uma vida inteira para mudar o curso da história do seu país – já eu era apenas um rapaz de 24 anos, que achava candidamente que, três décadas depois, as contas entre Portugal e Moçambique estavam todas saldadas... Atordoado, limitei-me a replicar com um sorriso acabrunhado, e procurei um buraco para me esconder. Aquela provocação rebentou na minha cabeça como um tiro da Kalashnikov que enfeita a bandeira de Moçambique. Quando voltei a sentir a pulsação, pensei: “Puseste-te a jeito... agora toma... embrulha e aprende!”. Dando por terminada a visita, despedi-me, peguei nas minhas coisas e fui rapidamente à minha vida.

De regresso a casa, sentei-me junto à janela do meu quarto, com vista para a Igreja da Misericórdia, no coração da “cidade de pedra e cal”. A Igreja ficava paredes meias com o Palácio de S. Paulo, em frente do qual, virado para o continente, se localizava a praça com o coreto e o pedestal da estátua do Vasco da Gama. Apenas o pedestal, porque, naquele tempo, Vasco da Gama pernoitava nas oficinas da capitania. Os pés de cobre mantinham-se fixados à base, apoiada sobre o chão, na posição ereta; o que restava do navegador recostava-se, numa grande cama de metal rolante, de barriga para cima, olhando fixamente a humidade do telhado. Vasco da Gama para ali fora trasladado, nos dias mais quentes da revolução, quando foram mandadas derrubar todas e quaisquer figuras que fizessem recordar os horrores da ocupação colonial. E foi assim que para ali ficou, patético, contando carneiros até adormecer, sonhando que alguém por ali passasse e se lembrasse dele... 

Na rua da Igreja, a seguir ao café “Âncora d‘Ouro”, já perto da contracosta, vivia Joaquim, a sua mulher e os filhos, numa antiga casa colonial, ocupada por várias famílias. Joaquim era o zelador da casa de hóspedes da OIKOS, onde eu me encontrava alojado. Como tantos outros, Joaquim viera do mato nos tempos da guerra civil, em busca de um refúgio seguro na ilha. Era um machambeiro que aqui teve de se reinventar como cozinheiro. E que talento tinha! Os melhores filetes de peixe-papagaio da ilha saiam sempre do seu grelhador... Joaquim aprendera depressa e era um trabalhador esforçado, que acabava sempre a falar com desdém das idiossincrasias dos macuas da ilha, e da sua inenarrável preguiça. Andava pelos trinta e muitos anos, e tinha uma alma alegre, adornada por uma enorme fileira de dentes brilhantes.

Aos fins-de-semana, Joaquim escapulia-se da sua casa, atravessava a rua dos Arcos e chegava rapidamente à praça da capitania. O fantasma de Vasco da Gama nunca teve sequer o prazer de ver a sua sombra, porque Joaquim seguia a passo apressado, na direção da cidade de macuti, onde se situava o recinto do antigo paiol. Era aqui que, todos os fins-se-semana, vinha ouvir uma banda de músicos tanzanianos interpretar temas clássicos do soukous congolês. A cadência frenética das guitarras era amplificada por poderosas colunas de som, que mantinham toda a gente acordada. Ninguém se incomodava, muito pelo contrário: uma horda de ilhéus inundava regularmente o espaço e aqui ficava a dançar até de madrugada. Possuído pela espiral melódica, interminável e obsessiva, Joaquim acabava frequentemente alcoolizado à conta da Enika, a marca local de aguardente de banana que ele consumia como se não houvesse amanhã... Joaquim terminava as noites a dormir em parte incerta. A meio da noite, receando a reação da esposa, refugiava-se na entrada da casa de hóspedes, até que a ressaca passasse – e o ciúme também.

Quando de madrugada o encontrava deitado na esteira, e lhe perguntava o que andara a fazer noite fora, Joaquim rasgava sempre um sorriso do tamanho do mundo e os olhos vítreos do álcool abriam-se-lhe ainda mais, como que a sair-lhe das órbitas, antes de me responder com um ar esforçadamente sério, trocando os dês pelos tês, como um verdadeiro macua: “Nata patrrão, nata!!”. Acabava sempre por rematar a resposta soltando uma gargalhada fenomenal, antes de voltar a adormecer com uma criança. E com isso se encerrava mais um interrogatório, até à próxima sessão.

Um dia, quando se celebrava o quinto centenário da chegada da Vasco da Gama à Ilha de Moçambique, perguntei-lhe se sabia que o grande navegador ali tinha chegado havia precisamente quinhentos anos. Joaquim encostou-se à janela, levou a mão pensativa ao queixo, olhou o vazio e disse finalmente: “Xiiii, patrrão! Eu só cheguei há oito anos e já estou tão farto!”. Mentalmente, soltei uma risada farta. E, no entanto, a resposta do Joaquim fazia todo o sentido. Realmente, só um tonto suportaria viver meio milénio naquela sepultura do Índico. Como é que alguém se entretém tanto tempo parado naquela língua de coral, onde Judas perdeu as botas, não há machambas e a água é salobra? E mais, o que faria esse tal de Vasco da Gama, para se suster e à sua família? Biscates? Poesia? Bahhh!... Para isso já lá tinha estado o Camões, aborrecido e teso como um carapau, sem dinheiro sequer para regressar a casa. Provavelmente, esse tal de Vasco da Gama era só mais um inútil macua, que passava ainda mais fome do que ele, que tinha cinco bocas para alimentar. Não, definitivamente, esse Vasco não regulava bem, e só mesmo um mucunha como eu para lhe falar da sua chegada a Muhipiti. A conversa terminou ali, e nunca mais voltamos a falar do assunto. Como as autoridades também não quisessem celebrar a efeméride, fui eu sonhar com a entrada da armada na baía do Mossuril.

Vasco da Gama aportou na ilha no dia 2 de março de 1498, na sua primeira viagem à Índia. Diz que o sultão da ilha (Mussa Bin Bike, cuja corruptela viria a dar nome ao país) o recebeu inicialmente com simpatia, e depois com desconfiança, quando percebeu que o visitante não era turco, mas sim cristão; mas que mesmo assim concordou em conceder-lhe dois pilotos para lhe mostrar o caminho até à Índia; e também que os pilotos tinham sido secretamente incumbidos de o matar à traição, logo que surgisse a oportunidade, o que apenas não sucedeu porque um deles fugiu e o outro acabou por dar conta dos planos. Diz também que a sua passagem pela ilha deu origem, oito anos depois, ao início do processo de edificação e ocupação do lugar pelos portugueses, fundamental como porto de abrigo das intempéries causadas pelas monções e entreposto comercial servido de um canal navegável junto da costa. O património físico da ilha é maioritariamente o resultado dessa conturbada passagem da armada pela baía do Mossuril. Mas também diz a história que Vasco da Gama era afinal muito grosseiro, rude e violento; que pilhou navios, assaltou portos, avassalou povos, matou e torturou muita gente; e também que desejou a todo o custo ganhar fortuna e estatuto social, por ser filho ilegítimo de baixa nobreza.

Por essa razão, quando, pouco tempo depois da visita do presidente Chissano, as autoridades decidiram recolocar a estátua de Vasco da Gama no pedestal da praça de São Paulo, a surpresa foi total. O que é que lhes passou pela cabeça? Como é que a FRELIMO, presumivelmente tão hostil aos símbolos da ocupação colonial, suportava tal provocação? O que é que poderia explicar a sublimação do homem a quem se devem os primórdios da ocupação colonial portuguesa e a transformação da ilha numa gigantesca plataforma comercial destinada ao tráfico de escravos em grande escala? As perguntas sempre me intrigaram, mas, numa rara conversa com xehe Abudo Amur, obtive uma parte importante da resposta.

Abudo Amur era, à época, o mais respeitado líder religioso da Ilha de Moçambique. Para isso muito contribuía o facto de ser filho do venerável Amur bin Gimba, natural das Comores, fundador da primeira confraria de origem sunita da ilha. Abudo Amur (ou “Gimba”, como era mais conhecido) herdou os pergaminhos do pai e desenvolveu a humildade dos homens grandes: “Chamo-me Abudo Amur Rahamane. Abudo significa escravo. Mas agora escravo de quem? De Rahamane, Deus”. Acaso eu não compreendesse a importância simbólica do seu apelido, o xehe explicava-me: “Não pode ser só Abudo, Abudo é um contínuo. De onde? De onde ele trabalha. Tem de ser um contínuo do Conselho Executivo, ou da Associação dos Amigos da Ilha”.

Na juventude de Abudo Amur ainda havia “escravos sem ser de Deus”. Traficavam-se clandestinamente e eram levados para São Tomé e Príncipe onde faziam trabalho pesado. Mas, explicou-me, era já o declínio de uma época de tráfico de escravos em grande escala, que nos séculos XVIII e XIX tinha dado azo a muitas disputas entre mercadores portugueses, franceses, brasileiros e afro-asiáticos ao longo dos principais portos do litoral norte de Moçambique. Os negreiros, aliados aos chefes macuas muçulmanos, majojos e ajauas, capturavam e vendiam contingentes significativos de escravos, que iam buscar até o lago Niassa e com eles desciam até ao litoral, na esteira das caravanas de marfim, acabando finalmente por exportá-los para o Brasil. Estima-se que, apenas entre 1825 e 1830, foram vendidos no Rio de Janeiro 25 mil escravos oriundos da Ilha de Moçambique. O velho Gimba sabia muito bem que o tráfico de escravos fora um negócio em que havia poucos inocentes. Além de esclarecido, era um homem alto e elegante, com as suas balalaicas engomadas e o seu cofió enfiado no cocuruto da cabeça. As cataratas denunciavam-lhe a idade física, mas não o espírito. Não precisava de falar muito para exibir a sua inteligência suave.

Ao longo dos anos seguintes, tive a oportunidade de confirmar e alargar a lição do velho Gimba. Em linguagem académica, diria que coligi vários estudos de caso, em vários países. Quando foram construídos os primeiros entrepostos esclavagistas no litoral do então Reino de Dahomey (hoje Benim), eram os Fon, poderosa tribo local, e não os portugueses, quem capturava os escravos de outras etnias, que os negreiros enviavam depois, em grandes quantidades, para o Brasil e para as Caraíbas. De resto, o maior negreiro de que há memória na Costa do Ouro, não era sequer natural de Portugal, mas sim do Brasil. Francisco Félix de Souza (mais conhecido por Xaxá) nasceu na Bahia, filho de português e de índia, e na idade adulta ocupou-se do forte português de São João Baptista de Ajudá. Ao aliar-se ao Rei de Dahomey, o seu maior fornecedor de escravos (que todos os anos sacrificava umas boas dezenas de prisioneiros de guerra, para honrar os seus antepassados), Xaxá enriqueceu principescamente e recebeu o título de Vice-Rei de Ajudá pela coroa portuguesa. Morreu aos 94 anos, deixando mais de oitenta filhos e, já na sua fase de decadência, dois mil escravos. Paradoxalmente, grande parte dos africanos que conheci veneram os descendentes da família Souza, como se fossem os “Kennedy da África Ocidental”. Na verdade, não surpreende que os Souzas sejam muito numerosos, a ponto de ter encontrado descendentes do Xaxá nos confins do Sahel...

No Gana, surpreendeu-me poder encontrar fortes construídos pelos suecos e, mais tarde, pelos dinamarqueses ao longo de toda a Costa do Ouro, em apoio ao comércio de escravos em grande escala, mais ainda do que a imponente feitoria de São Jorge da Mina. Afinal, aqueles que tantas vezes apontam o pecado original do império português, como inibidor de uma discussão objetiva e imparcial das modernas políticas de desenvolvimento desses países, também tiverem a sua quota-parte de responsabilidade no tráfico transatlântico.

No Togo, visitei Agbofrafo, onde John Henry Wood, um traficante de escravos escocês, construiu uma casa em estilo afro-brasileiro, suficientemente distante da orla marítima para que não pudesse ser vista pelas autoridades, numa altura em que o tráfico de escravos era oficialmente proibido (e policiado) pela Inglaterra. Wood escondia centenas de escravos em condições deploráveis, num vão com menos de um metro de altura, localizado sob o estrado de madeira da sala principal, ao qual ainda hoje se pode aceder através de um alçapão.

Na Gâmbia, explorei a minúscula ilha de Santo André, batizada por Luís de Cadamosto, navegador veneziano ao serviço da coroa portuguesa, em honra do oficial homónimo falecido durante a célebre expedição de exploração do rio Gâmbia, e que ali foi enterrado há 580 anos. A ilha (hoje St James Island) tornou-se depois num pequeno entreposto dos traficantes de escravos britânicos, que para aqui os traziam, com o objetivo de os enfraquecer com um jejum forçado de duas semanas, antes de serem levados para Gorée, no Senegal, e daí para as Américas. Quanto mais fracos, menos capazes seriam de se rebelar...

Em Gorée, reencontrei uma irmã gémea da Ilha de Moçambique. Praticamente do mesmo tamanho, igualmente dividida entre uma cidade de pedra e uma cidade de adobe (ainda que ali seja uma elevação e não uma depressão). Também ela património da humanidade, elevada a must see do turismo cultural africano, Gorée é basicamente uma ilha-postal com uma interessante arquitetura colonial, mas em que uma morna amnésia parece adoçar os traços mais grossos do seu passado escravocrata. Tristemente, foram os próprios senegaleses (com o presidente Senghor à cabeça) que decidiram promover a imagem de Gorée como lugar central na história do tráfico transatlântico, com o objetivo de a vender como atração turística (o que efetivamente lograram fazer). A verdade é que, de um total de 12 milhões de escravos transportados da África para as Américas, apenas 500.000 terão embarcado desde Gorée...

A minha caderneta de cromos poderia continuar – e continua. Mas não necessariamente com estórias do passado longínquo, ou estórias com os do costume. Infelizmente, vi muito registos de ódio e racismo entre os próprios africanos – ou, para ser mais rigoroso, entre os nascidos no continente africano (para os etíopes, somalis e eritreus, africanos são os negros de origem bantu – eles são povos hamíticos, logo não são africanos).

Inevitavelmente, a minha memória mais difícil prende-se com o Ruanda. É impossível ficar indiferente ao genocídio de 800 mil pessoas (entre tutsis e alguns hutus moderados). Uma ação organizada ao milímetro e executada em três meses, às mãos das milícias radicais hutu, com especial destaque para os “interahamwe” (“aqueles que atacam juntos”). Mas também às mãos dos próprios vizinhos hutu. Ou dos próprios cônjuges, forçados a perpetrar os crimes, por serem de etnia diferente. Ou às mãos de colegas de escola, tão crianças como eles. Com catanas, paus e machados, distribuídos diligentemente pelo próprio governo. Em Kigali, visitei o Memorial do Genocídio, onde uma laje de cimento, dividida em secções, esconde uma vala comum, onde jazem 250 mil corpos, 30% da população tutsi, à data do genocídio. Foi-me impossível digerir os números de forma racional. Julgo ter tido uma experiência semelhante àquela de quem visita Auschwitz-Birkenau. Levei um murro no estômago e fiquei sem palavras.

Mas a experiência que mais me impressionou foi a visita à Igreja de Nyamata, na região de Bugesera (onde, à data do genocídio, viviam predominantemente tutsis). Assim que o genocídio começou, milhares de tutsis correram para a Igreja católica de Nyamata, na esperança de aí não serem atacados. Puseram um ferrolho na porta de ferro, trancaram-se lá dentro e rezaram. Rezaram muito, foram forçados a jejuar, e aguardaram a misericórdia de Deus. Os hutu, mesmo aos milhares, não conseguiram abrir a porta da Igreja. Tiveram de chamar os “interahamwe”, que só apareceram uma semana depois. Com uma granada, rebentaram o ferrolho e parte do portão, e entraram na Igreja, onde encontraram uma horda de gente faminta, demasiado fraca para oferecer qualquer resistência. O que se seguiu foi uma selvajaria indescritível. Com revólveres, machados, facas, paus e catanas, esquartejaram todos os fiéis que encontravam no interior da Igreja. Fizeram-no com requinte e compassadamente. Liquidaram um a seguir ao outro. Homens, mulheres, crianças, idosos – afinal não passavam todos de “inyenzi” (baratas). Dez mil tutsis morreram naquela manhã. O cenário foi tão deplorável e tanta gente morreu, que os cadáveres apodreceram antes que pudessem ser retirados. Mas as roupas e os pertences ficaram. Até hoje. Ficaram exatamente como se apresentavam naquela manhã. Ficaram no mesmo lugar onde se encontravam os donos, a recordar a sua memória. Ficaram como fantasmas alinhados para assistir a uma missa eterna.

Com o passar dos anos, compreendi, enfim, que embora o tráfico transatlântico de escravos tenha sido uma mancha horrível na história da humanidade, não foi apenas a obra dos europeus. Compreendi que muitos daqueles que mais julgam o pecado original da nossa expansão marítima, também acabaram por participar diretamente no comércio de escravos. Compreendi que os africanos também têm uma relação dúplice com a história, ora criticando, ora tolerando, ora mesmo admirando algumas das figuras que ficaram associadas ao tráfico transatlântico. Compreendi que o escravismo pode ser vendido como um poderoso instrumento de atração turística. E compreendi também que o ódio e o racismo não são filhos únicos do escravismo, podendo florescer mesmo onde ele não existe.

Mas apenas quando tomei conhecimento da estória pessoal da minha amiga Alima*, consegui ver o programa com todas as suas cores. Alima, natural da Ilha de Moçambique, foi uma dessas jovens mulheres que, logo a seguir à independência, foi levada à força para um “centro de reeducação”. Acusadas de prostituição, muitas dessas mulheres eram apenas mães solteiras, ou mulheres indocumentadas, ou simplesmente vestiam-se de maneira diferente, pintavam-se e usavam batom. No auge da revolução, a FRELIMO seguia à risca cartilha marxista e tinha a convicção que, através da disciplina e dos trabalhos forçados, essas mulheres se regenerariam e transformariam na "Mulher Nova", livres dos vícios burgueses do capitalismo e da mancha do colonialismo. Os centros de reeducação foram a versão moçambicana dos campos da morte do Camboja e dos gulags soviéticos, e traduziram-se em milhares de mortes e desaparecimentos. Quem para lá fosse enviado, não beneficiava de qualquer proteção legal e estava à mercê dos funcionários do SNASP, o serviço paramilitar e de inteligência do governo de Moçambique. A permanência nos centros funcionava como no tempo colonial, na base do chibalo, ou seja, na base da semiescravidão, da bofetada e da ameaça constante de alguns comandantes cruéis. Alguns dizem mesmo que era pior que chibalo, pois não sabiam sequer quem era o “patrão”. Eram verdadeiros “escravos sem dono”.

A Alima também não tinha “patrão” nem “dono”. Sempre com o coração ao pé da boca, era apaixonada e exuberante. Estava claramente fora do seu lugar e à frente do seu tempo, pensava pela sua cabeça e tinha sede de mundo. Um dia, em 1977, quando se passeava pelas ruas do Maputo, de regresso a casa, Alima foi detida pelas autoridades. Como em tantos outros casos, o motivo da detenção era bastante prosaico: a Alima “dava demasiado nas vistas”, “usava anéis” e “unhas de esmalte”. A acusação estava feita e não admitia defesa, nem recurso. Ponto-final-parágrafo. Embora sabendo que esses “excessos” eram expressamente proibidos, Alima pôs-se a jeito e, como consequência do seu atrevimento, acabou por ser enviada para o centro de reeducação de Lichinga, onde permaneceu três anos, privada de qualquer contacto com o exterior. À semelhança de tantas outras mulheres, foi sujeita a trabalhos forçados e a sevícias enquanto lá esteve, e que só por vergonha e respeito francamente não consigo aqui reproduzir. Não consta que se tenha regenerado, nem transformado numa “Mulher Nova”. Imagino mesmo que a experiência no centro só tenha reforçado os traços da “Mulher Original” que sempre fora...

Como se não bastasse, em 1981, e já em liberdade, o Governo decidiu retirar-lhe a nacionalidade moçambicana. Sem hipóteses de permanecer no seu país, Alima pegou na sua filha (nascida no campo, poucos meses depois de Alima lá chegar), saiu do país como apátrida e pediu asilo no Brasil, que lhe foi prontamente atribuído pela Polícia Federal. No Brasil, Alima fez contas com o passado: do quase-nada, arrumou todos os seus demónios num armário e tornou-se numa empreendedora bem-sucedida. Na novilíngua cor-de-rosa das revistas de negócios, dir-se-ia ter tornado numa “mulher de sucesso”. Aos seus olhos, porém, e apesar de ter apanhado o elevador social tão bem e tão depressa, o Brasil era apenas um lugar entre dois parênteses... E foi assim que, um dia, dezassete anos depois de ter saído de Moçambique, e já perto dos quarenta, Alima resolveu regressar à ilha. Não para ajustar contas com o país, que a Alima não era pessoa dessas coisas, mas sim por causa um ilhéu simpático, de conversa muito fácil e olhos expressivos, a sua grande paixão da juventude. Foi nessa época de torna-viagem que a conheci.

Ao longo destes vinte cinco anos de explorações africanas, aprendi que a identidade de um país é feita de muitas estórias. É como um processo contínuo, um quadro inacabado, um enorme lego em construção. No caso de Moçambique, a identidade nacional construiu-se, até ao período pós-independência, a partir de um discurso de exaltação das virtudes culturais dos povos explorados, por oposição aos vícios morais da ocupação colonial. Sempre houve muito de negritude neste discurso, muito de Césaire, muito de Senghor, e muito de Gramsci também... na verdade, esta posição sempre transmitiu uma visão unívoca e parcial da relação como o povo colonizador, uma ode gloriosa aos valores culturais dos povos negros, a ponto de se tornar paradoxalmente racista, como os próprios autores do movimento viriam a reconhecer.

Do mesmo modo, é-me difícil partilhar a fé que Nelson Mandela tinha na filosofia ubuntu, supostamente definidora de um modo de pensar comum africano, alicerçado na máxima zulu de que “uma pessoa é uma pessoa através das outras pessoas”. De fato, como é possível defender esta suposta consciência de pertença do indivíduo à comunidade, alegadamente geradora de solidariedade incondicional e respeito pela vontade coletiva, perante um genocídio como o do Ruanda, a guerra civil do Sudão ou o tribalismo sanguinário na Somália? Ou, perante o colaboracionismo de alguns povos africanos na escravidão e tráfico dos seus irmãos? Ou ainda perante a prisão de uma jovem como a Alima, votada aos trabalhos forçados e ao ostracismo na flor da idade?

A memória de um país é uma pele cheia de cicatrizes que se trata no divã do psicanalista. Não é real, carece de objetividade, e apenas pode ser representada simbolicamente. É o espelho da forma como lidamos com a história, mas não é, ela própria, a história do país.

A grande virtude dos africanos é que foram forçados a gerir os seus traumas muito mais depressa do que as nações colonizadoras. Alguns aprenderam a lidar com os seus fantasmas, outros nem por isso, outros ainda encontraram formas criativas de gerir a sua memória, exorcizando os seus medos. Em geral, os africanos que conheço são muito resilientes. Testemunho essa resiliência, quase todos os dias, num grupo Whatsapp de que faço parte, juntamente com outras quarenta pessoas, provindas dos quinze Estados-membros da CEDEAO. São todos diretores e ex-comissários desta organização regional e todos meus ex-alunos. Eu sou o único branco – embora eles, carinhosa e sabiamente, me chamem de berbere. Tenho o raro privilégio de poder ler as longas conversas e diatribes entre eles, a forma como se referem a nós, os brancos, sem filtros nem salamaleques. Mas sobretudo a forma apaixonada como discutem o futuro da sua África. Às vezes também participo nas conversas, embora prefira assumir um papel de observador-participante, antropologicamente neutro.

Recentemente, dei os parabéns aos muitos nigerianos presentes no fórum pela eleição de Ngozi Okonjo-Iweala para a presidência da Organização Mundial do Comércio, embora lamentando o facto de a notícia dada pela CNN – “uma mulher negra vai ser a líder da organização cimeira do comércio internacional pela primeira vez” – ter realçado a cor da pele e não a sua competência. Muazu Umaru, Diretor da GIABA, uma poderosa agência que há anos se dedica a combater a lavagem de dinheiro nos países da região, replicou-me imediatamente: “Factos são factos: primeira mulher, primeira africana, primeira negra... o problema não são os factos, mas o preconceito”. A sua única preocupação residia nas expetativas geradas em torno da sua eleição, sendo fundamental que ela exceda as expetativas, para calar de vez a miopia generalizada. Muazu representa a África nova que tenho tido o prazer de conhecer: a África que segura no destino com as próprias suas mãos, que assume orgulhosamente as suas conquistas, que responsabiliza os seus líderes pelo destino das suas nações, que não culpabiliza os seus fracassos num discurso miserabilista e profundamente datado.

Testemunhei a mesma resiliência e plasticidade dos africanos, noutros moldes e com outras estórias, na Libéria, na República Centro-Africana, na Eritreia, mas também em Moçambique. Quando a estatua equestre que homenageava Mouzinho de Albuquerque (o herói português que capturou Gungunhana), derrubada em 1975, foi trasladada para o Fortaleza de Maputo, poucos imaginariam o deleite que ela representaria para os recém-casados, que a passaram a utilizar como plano de fundo para as suas fotografias de casamento. Já a estatua que representava Salazar, derrubada em 1974 e que até então se encontrava no centro do Maputo, foi recolocada na Biblioteca Nacional de Moçambique. O velho ditador foi colocado de frente para a parede, como que estando de castigo, a forma encontrada para ilustrar, com suprema ironia, o sentimento generalizado dos moçambicanos sobre o seu passado colonial. Como quem pega um touro de cernelha, não eliminaram a estátua, nem a vandalizaram, apenas mudaram de perspetiva...

No caso de Vasco da Gama, o navegador foi recolocado na mesmíssima posição em que se encontrava ao tempo colonial, virado a poente, apreciando o vai vem silencioso das dhows ao largo do canal de Moçambique. Talvez por muitos reconhecerem que o artista esculpiu a estátua de Vasco da Gama com costas muito largas, mas não tanto que possam ser-lhe assacadas todas as culpas da história desse lugar complexo, onde vítimas e algozes não escolheram religião, nem raça, nem género, nem época.

O Joaquim não chegou a ver o meu amigo Vasco imortalizado por mais quinhentos anos. Faleceu prematuramente, vítima de cólera, no hospital central da Ilha, que não encontrou meios para o salvar. Quando me deram a notícia, encontrava-me a caminho de Évora, e tive de parar o carro. Chorei a bom chorar. Destilei as emoções agarradas à pele desse tempo feliz na sua companhia alegre. Sem o saber, dei-me conta que lhe erigira uma enorme estátua de sal no meu coração. Continuo a rever a sua graça por essa África fora, celebrando a sua memória. Na verdade, mais de vinte anos depois da minha aventura no Índico, continuo a acreditar que é para os Joaquins da OIKOS que devemos todos trabalhar. Nós e os Joaquins Chissanos. Cientes das nossas responsabilidades partilhadas, mas sem complexos, nem memórias retorcidas.

23
Fev21

“Cesse tudo o que a musa antiga canta…”

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A semana do Império (3): um texto do Miguel Valle de Figueiredo, escrito para este blog. As fotografias também são dele.

 
“Cesse tudo o que a musa antiga canta…”  
 
O Exmo Senhor Dr. Ascenso Simōes sugere, entre outros e variados dislates, a demolição do Padrão das Descobrimentos. O excelso deputado, um socialista socrático - o que diz mais dele que do seu mentor - tem sido confundido com qualquer pessoa medianamente inteligente nos intervalos das suas declarações. Estas, por sua vez, quando chegam ao conhecimento público, mal interpretadas com toda a certeza, não ajudam a cimentar a primeira impressão que o seu silêncio normalmente cria. Há um padrão de inanidades descobertas sempre que esta excelência debita e que deve ser considerado. Corre nos burladeros alfacinhas que o homem não está bem. Se é de um destrambelhamento intelecto-mental, daqui lhe envio os desejos de melhoras mas, enquanto o estado se mantiver, talvez um retiro para lá de onde veio fosse uma opção saudável. Ascenso Luis pensa-se um revolucionário polemista enquanto que quem o lê ou ouve, pensa-o um estulto mal-criadote, um patetista encartado. Façanhudo e voluntarioso, destrata quem o sustenta. Vai tudo a eito com este paladino da modernidade que Portugal precisa e merece. Seja o juiz presidente do tribunal constitucional, seja o parvo comum que se encontra no Povo, nunca esquecendo a velha Teodora que queria as contas à moda dela. Trata os eleitores, que, sem lhe sequer conhecer a existência, permitem que se vá coçando lá nas bancadas traseiras da AR de eventual urticária nas partes baixas que parece afligi-lo. Não se retracta nunca - era o que faltava, seria confissão de fraqueza deste forte e temido tribuno, deste pontiagudo aríete da Democracia... - mas apagou, por exemplo, a conta de “Twitter” que, depois de apanhado com as calças na mão, tentou fazer passar por falsa. Ou diz que o que afirmou não é aquilo que percebemos. Estamos em presença de um erudito dado à figura de estilo e não de um solerte "boy" como parece ser. Porém, e segundo os aleivosos do costume, tudo aquilo é resultado de almoçaradas bem regadas que o hepático não aguenta. Outros, mais cientificamente, entendem que o proeminente político é possuidor de um cérebro de funcionamento intermitente. De qualquer maneira, pelas razões apontadas pelo insigne Ascenso, o monumento fascista ia raso. Considera o conjunto de Cottineli Telmo e Leopoldo de Almeida um mamarracho, para além da leitura simbólica que lhe atribui. Notando-lhe um certo ar patibular, medievo, pode pensar-se que está o Ascenso Luis a falar dele próprio depois de se ver reflectido numa qualquer superfície mais polida, talvez numa lata de solarina. Adiante, uma vez aberto o precedente, poupava-se tempo e o erário público, e corria-se pela vizinhança: rebentava-se com o Mosteiro de Santa Maria dos Jerónimos, obviamente com a Praça do Império e sua fonte brasonada - Império que o protestante afirma ter sido uma construção salazarista visto nunca ter existido essa designação plástica que só aparece primeiramente na Constituição de 33…, de seguida ia a cabra da Torre de Belém, para logo dinamitar os pilares do regime fascista que desde 1966 sustentam a ponte baptizada com o nome do ditador. Isto para começar. Parece que conhece a zona da Reitoria da Universidade de Lisboa, aquele conjunto de arquitectura austera tão querida do regime. Dada a extensão do “ campus”, um bombardeamento cirúrgico e era uma limpeza. Uns passos mais e tratava-se do Hospital de Santa Maria, está bem de ver. Talvez uma implosão fosse uma boa solução para aquela reaccionária construção. É cinematográfico e emulava o seu ex-chefe (a Torralta ali em Tróia). Isto só para começar e em Lisboa, porque o país tão atrasado como rico, tem de se ver livre por uma vez de tudo o que possa lembrar o antigo regime, como escolas, tribunais, barragens, outros hospitais, etc, etc. Apagando esses traços fascizantes, lava-se o passado, acaba-se com os fascistas e o futuro espera-nos radioso. Enquanto isso não acontece, mando respeitosamente Sua Excelência à merda.
 
Enfim, como se sabe, cada um diz aquilo que lhe apetecer. A questão está em saber em que posição se está para que os devaneios do pensamento traduzidos na famosa liberdade de expressão, serem admissíveis ou, pelo contrário, entrarem no rol das estultícias constantes de um futuro Anedotário Nacional. O maçador é sermos nós a pagar os salários, as despesas de representação dos cargos que gente sem préstimo conhecido vai ocupando.
 
Deixo ainda uma imagem de meados dos anos 80 que fiz a bordo de um héli da FAP. Um Aloueite daqueles que andou na Guerra Colonial ou do Ultramar, como se preferir, acompanhada da ideia do supra-citado cidadão Simões. Repare-se que se mantém o aterro porque senão lá iam os barcos à vela para próximo do que foi a doca do Bom Sucesso (será que o Ascenso, culto como é, saberá que todo aquele terreno já foi rio?) e a ferrovia que nos leva até Cascais. Por falta de talento não acrescentei uma sugestão artística à fotografia que talvez fosse do agrado estético do Ascenso: um conjunto escultórico equestre. Depois, aos Domingos à tarde para entreter a populaça entre dois pastéis de Belém, podia a obra contar com elementos vivos. Usar este pândego em substituição de um equídeo, a resfolegar-se de tanto escoicear, um seu hábito, seria uma animação e fonte de receita para os arranjos paisagísticos necessários posteriores à intervenção do caterpillar. Fica a ideia.

18
Fev21

Ainda os arranjos florais da Praça do Império

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Estas saídas maximalistas valem o que valem, mas ainda assim não é escandaloso aventar que Francisco Bethencourt será a figura portuguesa mais relevante das gerações activas nas áreas de ciências sociais/humanidades. Acaba de deixar um interessante texto sobre a polémica dos arranjos florais com brasões municipais coloniais na zona ribeirinha lisboeta.
 
Nele mostra o historial desse ajardinamento (que a maioria desconhece - tal como desconhece os próprios arranjos, já agora). E urge-se contra as petições que o defendem: uma das quais assinei. Tal como botei em tempos um texto em sua defesa.
 
Do texto de Bethencourt retiro: 1) uma ideia central; 2) uma atenção (encetada); 3) uma proposta.
 
1) Aquele arranjo, patrimonial, é datado e foi obra propagandística de um regime colonial injusto e exploratório - e então mobilizador de esforço de guerra. Concordo, sem qualquer dúvida.
 
Poder-se-á dizer que todo o património é datado, que (quase) todo o monumental foi produzido, preservado, reabilitado e, acima de tudo, assim classificado por processos de propaganda dos meios possidentes. Isso é saber básico (dessacralizador), pois necessário, sobre estas questões.
 
Mas sobre isto há dois pontos: nas imediações há um Museu de Arte Popular, construído um pouco antes pelo mesmo poder (injusto e exploratório) e ideologia. Cuja destruição foi há anos impedida, exactamente por ser ele-próprio, o Museu enquanto tal, considerado um património demonstrativo de determinada época. Tal como este jardim é um dado e assim poderá ser apresentado. Não por estagiários de comissários políticos, graduados em doutrina, mas como objecto de época, em si mesmo. Ora a questão aqui tem contornos diferentes pois estes arranjos são apresentados (pela própria Câmara) como "ofensivos". Ofendem quem? Alguns tonitruantes actuais? Francamente...
 
2) Bethencourt enceta a atenção sobre um ponto central neste episódio, o toponímico. Como também o referi, ele lembra que os arranjos florais estão sitos na "Praça do Império". Ora o arreganho (da edilidade, dos activistas, dos académicos) contra tais brasões associado ao silêncio sobre esta toponímia mostra mesmo a superficialidade destas críticas, a sua propensão para o mero "show-off". Felizmente que alguém com o peso de Bethencourt o refere. Pois como contestar a minudência e esquecer o pormaior simbólico?
 
Mas recordo que na exacta era em que o Estado Novo tardio, já beligerante, instalou estes brasões municipais coloniais também edificou em Lisboa um bairro multiclassista, os Olivais, que é um explícito "bairro colonial", e no mesmo eixo de conteúdos - nomeou os arruamentos com todos os municípios e localidades coloniais e com os soldados portugueses mortos em África. Ora a "ofensa" com estes brasões fronteiros aos Jerónimos coexiste com o silêncio diante da toponímia afro-colonial de um (ex-)subúrbio lisboeta, propaganda que reconstruía (divulgava, impregnava) o Império e consagrava os seus defensores - e isso, repito, numa urbanização que se pretendia, e foi, habitada por várias classes/estratos. Também nisto se mostra a superficialidade argumentativa protestatória destas críticas, o tal "show-off".
 
A qual também denota outro vector superficializador: uma visão urbanística restrita ao "turístico" vigente, a preocupação com o simbólico patente numa zona "nobre", "histórica" e assim "patrimonial" e a desatenção pela cidade habitada. Vivida, se se quiser ser radical. No fundo, trata-se de uma mescla do "épater le bourgeois" com o "para inglês [de facto "americano" de campus] ver".
 
(Não que eu defenda a reforma toponímica dos bairros lisboetas. Sim a sua vivificação, se para isso houver agentes culturais. E não a defendo pois não acredito que os transeuntes que cruzem o popular "Bairro das Colónias" - como ainda patente nas placas camarárias - e partam da Praça das "Novas Nações", sempre dita das "Colónias", e cruzem da rua do Zaire até à de Moçambique, antes de ascenderem até à rua Newton ou à Poeta Milton, antes de chegarem às ruas de Liverpool e de Manchester, se sintam empolgados na defesa do Mapa Cor-de-Rosa e gritem, patriotas imperialistas, "contra os bretões marchar, marchar").
 
3. Atento à questão toponómica, como englobante do tema floral, Bethencourt propõe a mudança de nome daquela praça face aos Jerónimos. O que tem pertinência total para quem refute aqueles brasões. Mas é tão interessante a sua proposta. Pois a esta vetusta "Praça do Império", símbolo do mau antes, propõe que se suceda uma "Praça da Amizade", decerto para simbolizar o bem hoje e amanhã.
 
Ora esta "amizade" é o eco, até inconsciente, do ideário da "Lusofonia", essa proclamação acrítica da amizade/"comunhão de sentimentos" que une povos do ex-império injusto. De facto, trata-se do mero aggiornamento pós-Abril do lusotropicalismo, o reviver da comunidade de língua e sentimentos já proposta pelo tardo-salazarismo. Isto apesar de ser Bethencourt insuspeito de haver propagandeado qualquer lusofonice ao longo dos anos. Ou seja, isso é o que veicula apesar dele-próprio. Sinal do peso, subreptício, das ideologias. Mesmo num intelectual deste quilate.
 
4. É necessário purgar o património para enfrentarmos a história e melhorarmos o actual? Ok. Arranquem-se os tais floreados colonialistas. E mude-se o nome da praça tão simbólica, cartão de visita lisboeta. Substitua-se por "Praça da Diplomacia", simbolizando uma nova era de negociações constantes entre iguais, confrontando interesses múltiplos, divergentes, contrastantes, conflituantes, convergentes, belicosos e, por vezes até, amistosos. Ou seja, depuremo-nos. Dos trinados estatais, veiculados pelos seus contratados. E, acima de tudo, reconheçamos a realidade e coloquemo-la inscrita na toponímia, se esta necessariamente "iluminista".
 
5. E mais, bem para além desse grande intelectual que é Francisco Bethencourt: deixemo-nos de mimetizar os EUA. Nos quais as "relações raciais" (velho epíteto, a la Boxer) entre "negros" e "brancos" (e até "latinos") advieram historicamente do comércio de escravaturas e da forma como estas foram sendo codificadas e perpetuadas em XVII e XVIII. E percebamos que as nossas "relações raciais" ("negros"/"brancos") foram fundamentalmente matrizadas não no comércio escravista mas desde o finalíssimo XIX, num extremar de desvalorização racial de negros e mestiços. Concepções e práticas que foram então alteradas, sistematizadas e divulgadas via progressiva generalização do ensino e, depois, popularizadas pela efectiva colonização demográfica. Ou seja, em XX. Entenda-se, I República e Estado Novo.
 
Assim sendo, quer-se afrontar a memória histórica do que constituiu o racismo colonial e suas actuais refracções através de "intervenções" progagandísticas sobre o "património"? Tão extirpada foi após 1974 a toponímia e a monumentália dedicada ao Estado Novo que o caminho fácil é "intervencionar" os parcos resquícios das Comemorações Henriquinas de 1960 e afins.
 
Eu diria o contrário. Mais vale deixar em paz os bustos dos Diogo Cão, Bartolomeu Perestrelo e semelhantes. Pois são apenas anacronicamente atacáveis e, de facto, não foram constitutivos das práticas e concepções vigentes no colonialismo. Para isso dediquem-se a derrubar as evocações desses grandes agentes racializadores e colonizadores, os Afonso Costa e seus congéneres e seguidores, já que de Salazar e seus pouco resta.
 
Mas isso, "intervencionar" os grandes vultos da colonialista e racista I República, invectivar os "pais fundadores" deste regime actual e, em especial, os ascendentes do nosso Partido Socialista? Nem pensar. Pois isso não colheria simpatia estatal, não dá postos de trabalho. Nem dinheiro. E sempre são, para já, 15 milhões. O que não é pouco.

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