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Nenhures

Nenhures

31
Mai23

O Conde de Ferreira

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Há 11 anos José Capela publicou o livro "Conde de Ferreira e Cª: Traficantes de Escravos", colecção de biografias de comerciantes de escravaturas ("negreiros") do século XIX. Quando ele morreu deixei no "Canal de Moçambique" esta muito breve recensão a esse livro (e a outro que ele publicara no ano seguinte, uma verdadeira pérola: "Delfim José de Oliveira..."). Foi uma espécie de homenagem minha, pois Soares Martins (de pseudónimo Capela) fora muito importante na minha vida e tinha (e tenho) para ele uma enorme gratidão. E um grande respeito intelectual, também (mas não só) por ter passado décadas a vasculhar documentos e a publicar, sem pejo nem adornos, sobre como o comércio de escravos foi estruturante no pré-colonialismo português em Moçambique. E como isso moldou as características do subsequente regime colonial - apesar das tralhas lusotropicalistas e lusófonas que vão subsistindo, já para não falar das dulcificadas invocações dos "bons velhos tempos", que tanto misturam as normais (e respeitáveis) memórias individuais de juventude com pronunciamentos de cariz sociológico. Enfim, talvez com um bocadinho de exagero, mas cheguei aos 50 anos com a sensação de que se tive algum "maître à penser" acabou por ser ele... sem que isso possa macular a sua memória devido às atoardas que vou botando. Mas já estou a divagar, avante,
 
Nesse "Conde de Ferreira..." Capela deixou explícito que vários desses comerciantes de escravos regressaram do Brasil mais ou menos após a ilegalização da actividade e se integraram na sociedade do novo regime liberal (e o financiaram), usando as doações beneficientes para ascenderem socialmente. Nisso também patrocinando instituições que ainda existem (misericórdias, hospitais, etc.).
 
Sei agora por intermédio do historiador João Pedro Simões Marques que aconteceu o que eu esperava há já anos - os cirugiões plásticos da História descobriram o Conde de Ferreira (tão presente por esse Portugal afora, ainda que quase ninguém saiba quem foi). E o "Público" (claro) já está em ardores de expurgar as tais instituições dessa memória...
 
Eu continuo na minha, ao que consta na documentação da época (ainda que um pouco posterior) o malvado D. Pedro I não só castrou um aio devido aos seus ilegítimos actos sexuais (um antecessor do prof. Ventura e seus acólitos, está visto) como matou por mãos próprias uns esbirros do seu pai (e terá até comido parte do coração de um deles, a crer ou no cronista ou na colecção de cromos a que tive acesso). E apesar de tudo isso, que tanto agride os actuais valores, continua ali, plantado no centro do nosso Mosteiro de Alcobaça, como símbolo de amor, ainda por cima. Não será, mesmo, de acabar o que os franceses começaram, e rebentar-lhe com a tumba? Ou, pelo menos, retirá-la dos nossos olhos, evitar aquele elogio à memória da ditadura, da pena de morte e da castração por infidelidade amorosa (invertida ou não)?

13
Mar23

Polémicas literatas

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Não sou muito dado a livros, quase nada às novidades e ainda menos às coisas e causas da literatura portuguesa. E vivi 20 anos fora. Por tudo isto nada percebo destas polémicas literárias, trâmites que associava a um "Chiado" bem recuado, lido no liceu da vida - e nessa candura bem me surpreendera há poucos meses ao saber que o bom do António Cabrita, vindo de Maputo "a banhos", acabara rojado à calçada portuguesa em plena Av. de Roma ao procurar ele (no seu intrínseco civismo) apartar uma contenda entre poetas e críticos algo excêntricos aos escaparates. Bisonho episódio que me alertara para que nesta era de podcasts e tik toks ainda há, a sul do Trancão, quem se exalte em torno de livros... Mas tudo isso se me escapa, pois a última polémica livresca de que me lembro foi sobre este "A Tragédia da Rua das Flores", então confrontando-se os veementes avessos à publicação do calhamaço rascunho e os acalorados defensores da sua imprescindibilidade, tudo isso quando o meu pai teria mais ou menos a minha idade de agora... (e quem o lerá hoje em dia?).
 
Vem-me isto ao teclado diante do actual debate entre os autores, e respectivos amigos e adeptos, das duas recentes biografias de Pessoa, uma dita de pendor "académico", outras vocacionada para ser "popular". A surpresa para mim é tetra (que não tétrica...): 1) que os autores se zanguem em público, e de modo tão desabrido, tanto que até dá para demissões nos "jornais de referência"; 2) algumas das matérias que provocam dissenso - entre as quais avulta a relevante temática sobre se Pessoa frequentaria prostíbulos femininos, era dado aos "prazeres helénicos" ou teria morrido virgem. Isto para além de ser tópico de debate o tamanho do seu membro viril; 3) que tanta gente compre (e até mesmo leia) biografias, já 12 mil da "académica" e a "popular" para lá caminhará!... - mas isso é coisa do meu gosto, avesso que vou a tal molde, para o qual não tenho paciência; 4) o tamanho das tais muito compradas biografias, ao que consta cartapácios de 1200 páginas (a "académica") e quase 1000 (a "popular")! Tanto há para dizer... Enfim, nada tenho contra quem escreve, quem lê, nem mesmo contra quem discute o que escreveu ou leu. Apenas me surpreendo.
 
 
 

07
Set22

Independência do Brasil

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Cumprem-se hoje 200 anos da independência do Brasil. É tonitruante o relativo silêncio, qual murmúrio, em Portugal sobre o assunto - publicações, filmes, documentários, congressos? Nem mesmo o recordar, trazendo para os escaparates, do que foi sendo bem feito sobre essa época. Razões para tal haverá, desde a pequenez (ultramontana) que ao processo ainda sente como "perda" - e que na senda deste Ventura de agora ainda chamará "terroristas" aos Tiradentes - e o patético (identitarista) que se quer "desculpar" da História, a ver se nisso pingam uns subsídios extra para as ONGs e centros de investigação que controlam.

Enfim, deixo aqui memória desta interessante "Oceanos", n. 44 (2000), com  alguns artigos interessantes sobre portugueses no Brasil independente, que foi coordenado pelo antropólogo Robert Rowland - estou a folhear/reler hoje, como celebração...

E deixo um desejo sincero aos meus (poucos) amigos e amigos-FB brasileiros. O de que daqui a 200 anos o Brasil tenha evoluído o suficiente para que os seus problemas já não sejam culpa do colonialismo português. Será difícil, pois até agora não conseguiram libertar-se disso. Mas talvez venha a ser possível...

24
Jun22

Sita

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11
Jun22

Marcel Detienne

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(Marcel Detienne forain chez tous. Comparer l'incomparable, filme de Thomas Lacoste)

(Marcel Detienne, Apollon, le bel assassin de Delphes, 1995)

(Réflexions autour du comparatisme, de l'anthropologie et de l'histoire, 2009, conferência no Institut d'Études Avancées de Nantes)

(Marcel Detienne, Comment être français 1, entrevista de Sylvian Bourmeau)

 

(Marcel Detienne, Sur Claude Lévi-Strauss, entrevista de Sylvian Bourmeau)

 (Marcel Detienne, Sur l’identité nationale, entrevista de Sylvian Bourmeau)

07
Fev22

Ngungunyane, vassalo ou aliado

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Em 2021 morreram vários amigos e conhecidos, foi mesmo um ano tétrico. Em meados de Dezembro juntei-me às minhas estantes e nos tempos seguintes reli vários livros que alguns deles deixaram, não por saudosismo mas como forma de avivar a memória que deles guardarei. Um deles foi Gerhard Liesegang - que recordei aqui, aquando da sua morte -, historiador alemão com largas décadas de investigação e docência em Moçambique. 

Parte substancial do seu trabalho foi escrito em alemão. E deixou vários artigos em português e inglês publicados em revistas, e ainda alguns inéditos (e até algo formalmente dessarumados) que estão na sua página na rede academia.edu. E nisto o único livro exclusivamente seu que tenho nas minhas estantes é este Vassalagem ou Tratado de Amizade? História do Acto de Vassalagem de Ngungunyane nas Relações Externas de Gaza, publicado pelo Arquivo Histórico de Moçambique em 1986. Trata-se de um opúsculo com 36 páginas, muito provavelmente uma condensação de um excerto do seu trabalho de doutoramento. Apesar da curta dimensão é precioso, e não sei - apesar de  naquela época as tiragens dos livros terem sido muito elevadas - se ainda estará disponível no mercado livreiro.

O tema é aliciante, uma resenha das relações diplomáticas entre Gaza e Portugal, grosso modo entre 1860 e 1890, mostrando as negociações e as diferentes leituras que aconteceram nos dois lados sobre o conteúdo dos acordos instituídos. O autor recorda o acordo (ténue, direi eu) de 1861 entre a Gaza do recém-empossado Muzila e o reino português na transição entre Pedro V e Luís I, no qual aquele - imerso na guerra sucessória - acolheu apoio do poder de fogo dos caçadores de elefantes portugueses (entre os quais o célebre Diocleciano Fernandes das Neves), em troca de direitos de caça. E ainda da concessão de terra nas cercanias da então Lourenço Marques, a sul do rio Incomati. E Liesengang deixa indícios da dupla interpretação que esse inicial acordo já levantara, com os portugueses a considerarem que esse acordo indicava ter Gaza aceite uma subalternidade (como "régulo tributário"), enquanto os changanas entenderam que essa concessão de direitos de exploração fundiária implicaria uma subalternidade do entreposto de Lourenço Marques. 

Nas duas décadas seguintes as dinâmicas promovidas pelo acordo de 1861 foram-se desvanecendo. E entretanto as relações diplomáticas de Gaza foram-se pluralizando, com delegações enviadas a vários estados africanos, à novel república dos africanderes e até à Grã-Bretanha. E com a ascensão de Ngungunyane em 1884 outro acordo foi feito. O qual, como o autor demonstra, teve não só uma dupla interpretação, em Gaza e em Portugal, como mesmo uma dupla formulação. Ou seja, na corte de Mossurize o acordo estipulava uma aliança, pela qual era aceite um representante residente português, como se um embaixador, encarregue da intermediação dos assuntos com Portugal - que foi de início José Casaleiro Rodrigues, um veterano na região que fora o negociador deste acordo. Enquanto na corte de Lisboa foi consagrado outro texto - e outra percepção do seu conteúdo -, que afirmava ter o reino de Gaza aceite um estatuto de vassalagem.

Ou seja, o livro são 36 páginas interessantíssimas para entender as relações entre Portugal e as entidades políticas locais antes da "ocupação efectiva". E são, evidentemente, matéria-prima mais do que suficiente para enfrentar os mitógrafos, portugueses e moçambicanos, que continuam a propalar a léria dos "quinhentos anos de colonialismo".

19
Out21

Efemérides Sangrentas

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Dia de efemérides. Passam hoje 35 anos sobre o incidente de Mbuzini, no qual morreu o presidente Machel e quase toda a sua comitiva. Vários amigos e conhecidos moçambicanos assinalam o facto nos seus murais - alguns usando imagens do impressionante monumento idealizado pelo arquitecto José Forjaz para colocação no fatídico local. Acidente ou atentado?, continuam as dúvidas, as versões, as crenças, num processo de interpretação da história algo similar ao acontecido com a morte de Sá Carneiro e comitiva.
 
Por cá cumpre-se hoje o centenário do assassinato do primeiro-ministro António Granjo e de vários vultos da instauração da República, a dita "Noite Sangrenta", um dos momentos maiores do terrorismo político durante a I República, perpetrado pelo que se poderá dizer, sob anacronismo limitado, a "extrema-esquerda" terrorista de então. O Pedro Correia no Delito de Opinião convoca o assunto.
 
O resto da sociedade, a corporação historiadora, os colunistas avençados, os "quadros" da função pública? Seguem fiéis militantes da higienização da I República, da produção da "amnésia organizada" sobre esse directo ascendente (republicano e maçónico) do poder socialista de hoje.
 
Nisso não só vigora o silêncio na imprensa. Mas também o popular, pois poucos (se alguns) se lembram de convocar o assunto nos seus murais. Há que preservar o mito da I República benfazeja. E para isso que faz o Estado, os seus oficiais mais importantes? Usa o dia do centenário deste brutal e tão significativo episódio para se congregar, sob o datado e anacrónico molde panteónico, em homenagem a Aristides de Sousa Mendes, morto há 67 anos, nascido a 19 de Julho e falecido a 3 de Abril. Ou seja, nem sequer há um qualquer vínculo simbólico quase inultrapassável para que a cerimónia decorra hoje.
 
Julgo que nunca tinha assistido a tão descarada manipulação da história política portuguesa. Agora venham-me dizer que é preciso derrubar a estátua do João Gonçalves Zarco. E fazer "introduções contextualizadoras" ao Frei João dos Santos...

 

26
Jul21

A morte de Carvalho

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(Amílcar Cabral e Nino Vieira, entre outros combatentes. Desconheço a autoria da imagem)

1. Em primeira análise devemos o 25 de Abril, a paz e a democracia, o desenvolvimento do país inscrito no assim não tão polimorfo modelo social europeu, as liberdades individuais e colectivas, ao arreganho e quantas vezes até heroísmo dos combatentes do PAIGC, da FRELIMO, e (em moldes mais complexos e até ambivalentes) da FNLA, do MPLA e da UNITA. Foi a sua corajosa acção que então tornou Portugal um país pária e o Estado Novo (fascista, colonial-fascista, ditatorial, autoritário, é-me agora indiferente como o querem catalogar) uma decrepitude anacrónica.

2. Os oficiais subalternos que desde 1973 se organizaram por causas corporativas e que - acima de tudo cansados da desvairada guerra - vieram a fazer os golpes de Março e Abril de 1974 foram nisso, e evidentemente, corajosos. Mas uma coragem menor em grau do que aquela que, tantos deles, haviam demonstrado nas estuporadas e injustas guerras africanas. Não se trata apenas de lembrar que os operacionais desses golpes estavam calejados em bem mais complexos e violentos contextos de guerra. Mas também lembrar que o estado do Estado Novo era já patente (veja-se o percurso de Spínola e, também, de Costa Gomes nesse estertor do marcelismo).

Não nego homenagem a quem arriscou muito nesse início de 1974. Mas trata-se de não sobrevalorizar, mitificar, esses riscos. Enfim, resumo-me: fosse eu um pouco mais ingénuo e surpreender-me-ia com este actual universo ideológico e propagandístico atarefado em decapitar os mitos glorificadores de Diogo Cão, Bartolomeu Perestrelo e afins, enquanto se afadiga em glorificar os oficiais que vieram a Lisboa em 1974 enterrar o já defunto regime, enfrentando para isso alguns dos seus desanimados camaradas de armas, em tantos casos também camaradas de geração de Academia Militar.

3. Figuras relevantes do início da democracia morreram neste XXI. Militares como Rosa Coutinho, Costa Gomes, Eurico Corvacho, Vasco Gonçalves, Dinis de Almeida, Alpoim Calvão, civis como Mário Soares, Almeida Santos, Álvaro Cunhal, Freitas do Amaral, etc. Aquando dessas mortes sempre se levantaram algumas discussões públicas sobre as suas personalidades políticas. E os laivos de acinte que então surgiram vieram, fundamentalmente, de núcleos de gente regressada (ou oriunda, em alguns casos) das ex-colónias, um universo (até geracional) que continuou a personalizar/culpabilizar alguns indivíduos pelo inevitável desenlace da história. Ou seja, para a esmagadora maioria da população as diferenças ideológicas não implicaram desajustados ajustes de contas com os falecidos. Num, de facto, canónico "descanse em paz" dedicado a cada um desses. O sentimento geral é o de que houve desmandos no PREC, houve violência (encetada pelos assassinatos perpretados pelos agentes da PIDE em 25 de Abril), mas que se constituiu um posterior consenso de que "o que aconteceu no PREC ficou no PREC". E nisso decorre uma avaliação diferenciada mas democrática do processo posterior e das suas personagens.

Mas agora na morte deste Carvalho as coisas são diferentes. A repugnância pelo indivíduo é patente em muitos de nós. Pois Carvalho em democracia comandou um grupelho terrorista assassino. Agora, e mais uma vez como em todos os meses de Abril foi habitual, moles de gentes que por aqui andam invectivam o nojo pelo terrorista como característica da "extrema-direita". Tal advém de uma mera táctica, executada por consabidos avençados desta era geringoncica, na qual que convém aos poderes fácticos namorar os resquícios afectivo-ideológicos dos velhos grupelhos m-l. Ou, pura e simplesmente, daqueles que exsudam um efectivo desprezo pela democracia. Ora os crimes que exigem um total repúdio por Carvalho não "ficaram no PREC", são muito posteriores. Os democratas podem ter diferentes visões dos anteriores falecidos, é isso normal. Mas apenas os biltres podem saudar a memória de um assassino.

4. Posso compreender que um militar, camarada de armas, venha agora falar da "bondade" e "generosidade" de Carvalho. Mas a resposta ao nosso respeitável General Eanes só pode ser uma: onde está a generosidade e bondade de quem manda matar 16 vulgares cidadãos em nome de um desvairado e ultra-minoritário ideário?

5. O estado da cultura portuguesa é uma vergonha. O antigo ministro da Cultura João Soares vem dizer que "desculpa as asneiras" de Carvalho. Ou seja, fundar e capitanear um movimento terrorista assassino em democracia são meras "asneiras". É esta a densidade semântica de um gajo que chegou a ministro da cultura. Espero viver o suficiente para lhe escarrar na campa. Na do ex-ministro, entenda-se. 

 

14
Jul21

A Revolução Francesa e a blasfémia

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AKG899674.jpg

(Postal para o meu mural de Facebook)
 
Nos blogs ainda se pode escrever em fascículos, não só porque se pode agregá-los por interligações mas também porque a leitura blogal é mais pausada. No facebook isso não funciona, é uma miragem tentar isso sob este império do scroll down. Ainda assim peço aos meus amigos-reais e aos amigos-FB com os quais mais interajo que retenham este meu postalito, ao qual voltarei em breve, e em resmungo azedo:
 
Cada um tem a "sua" revolução francesa. Para mim, entre tantas outras coisas, ela significa o fim da punição por blasfémia. Não se trata de ateísmo pois os "doutores" anteriores, "founding fathers" se ditos noutra língua, haviam defendido que só deus poderia punir a blasfémia. A República consagrou cedo (26.8.1789) a liberdade de expressão. E logo no código penal de 1791 apagou a "blasfémia" como assunto. A rota deste princípio basilar - fundamental na liberdade de expressão mas também na de culto - foi trôpega, mas foi ali confirmada em 1881, pois consignada na lei de liberdade de imprensa, cujo molde perdurou.
 
Essa via francesa - bem diversa da germânica ou anglófona, para referir outros nossos aliados e fontes culturais - é, grosso modo, a matriz da nossa realidade nacional actual, um modelo político de laicidade (a qual não é sinónimo de ateísmo, descrença ou mero secularismo, como confundem tantos ignorantes encartados e até galardoados) consagrado após 1975 - um Estado nada "mata-frades" mas excêntrico à religião. Uma sociedade que não é concebida como um conjunto de diversas "comunidades de crentes", até politicamente activas - algo que o corporativo (e, de facto, hiper-"reaccionário") Sousa torpedeou imediatamente após ser eleito, com a rábula da reunião ecuménica com os diferentes chefes religiosos, diante do silêncio ignorante da "comunidade intelectual" e dos opinadores.
 
A liberdade de blasfemar é o fio de prumo da liberdade de expressão, de imprensa e, nada paradoxalmente, da própria liberdade de culto. É totalmente legítimo contestá-la, dentro de um quadro intelectual (ideológico) que associe de algum modo, matizado que seja, política a teologia. O que é uma posição intelectual e política respeitável. E combatível. Mas é vil, por excesso de ignorância, que quem se reclame de diferentes tradições - a republicana francesa, hoje celebrada, ou a "republicana, laica e socialista" como celebrizou Mário Soares - venha defender açaimes à blasfémia. Jurídicos ou morais.
 
Por isso tanto me irritei quando alguém me convidou (automaticamente, assim se desculpou quando respondi exaltado) para me associar a uma mera página-FB de apoio a Ana Gomes, a política portuguesa que de forma mais veemente, repetida e ignorante tem defendido a mordaça à blasfémia. A qual, no caso dela, reflecte apenas uma catastrófica ignorância racista - como se os integrantes de algumas (míticas) "comunidades religiosas" não possam ascender além das suas algemas "culturais". E também por isso se me azedam as teclas quando outros políticos dessa agora mera agremiação socratista que antes, in illo tempore, se declarava "laica" surgem nas mesmas poses irreflectidas, ignorantes. E bacocas.
 
Pronto, desabafei.
 
 

Bloguista

Livro Torna-Viagem

O meu livro Torna-Viagem - uma colecção de uma centena de crónicas escritas nas últimas duas décadas - é uma publicação na plataforma editorial bookmundo, sendo vendido por encomenda. Para o comprar basta aceder por via desta ligação: Torna-viagem

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