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Nenhures

Nenhures

16
Abr24

Cobrir os cabelos?

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Há um punhado de anos o Sporting foi jogar ao Restelo. Às tantas o Rui Patrício chutou a bola, esta embateu num jogador do Belenenses e entrou na baliza. Pouco depois a publicidade da SAGRES - talvez patrocinadora do Belenenses - gozava um "Frango à Belém". Entre a massa adepta do SCP foi um frenesim de protestos e logo o anúncio - incompetente, pois ferindo a sensibilidade de largo espectro de consumidores - foi retirado. Passados todos estes anos continuo a não comprar SAGRES - bebo-a, decerto, em formato "imperial", mas nunca mais a comprei em lojas ou a pedi em restaurantes. É uma sorridente birra minha, diante de uma minudência irrelevante - o Rui Patrício continuou a sua extraordinária carreira, as agruras e sucessos do SCP independe(ra)m daquilo. Mas é a única reacção que podemos ter como consumidores diante de algo (não ilegal) que as empresas fazem e que nos agride ou desagrada. É pouco, claro, mas é a única arma possível. A outras marcas fiz o mesmo: as batatas fritas Lay's patrocinavam a Liga dos Campeões quando um árbitro russo roubou tanto o Sporting que até o director do clube alemão beneficiado lamentou a situação. Nunca mais comprei. E nunca na vida me passaria pela cabeça comprar azulejos Revigrés - que durante décadas financiou a clique de Pintos portistas cujo imensas aldrabices (e violências) faziam as delícias deste falso liberal Mayan Gonçalves - que anda para aí em bicos dos pés - ou do autarca Rui Moreira.
 
Vejo agora que ontem uma jornalista ("jornalista", note-se) da SIC foi entrevistar o embaixador do Irão em Lisboa e cobriu os cabelos. Desconheço o seu nome, não posso assim dedicar-lhe o insulto mais do que devido. Isto não é uma minudência da bola, não convoca uma "birra sorridente". É até mais do que um acto político, é uma questão de valores. Como é possível que uma mulher, profissional de comunicação em Lisboa, seja tão indigna? Já vi, há pouco tempo, aquela ordinária Catela a esfregar-se (literalmente falando) no então deputado socialista-maçónico José Magalhães, defendendo a lei censora (que veio a ser revogada) de que ele fora autor. E durante anos vi a inominável Câncio defender até à exaustão a tropa socratista. Mas nunca vira uma abjecção desta dimensão.
 
Compro uma Sagres, petisco umas Lay's. E prometo a mim mesmo que aos produtos (falidos, ao que consta) do doutor Pinto Balsemão não mais consumirei. É a minha única arma. Pois não tenho paciência para este tipo de mulheres ordinárias (eufemismo, devido à autocensura que a minha família me impõe). Nem para os seus proxenetas

10
Abr24

O jornalismo "de referência"

jpt

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No decadente contexto da imprensa portuguesa o "Público" continua a receber o estatuto de "jornal de referência". Como seu antigo leitor dele tenho uma experiência que me leva ao sorriso. Durante as duas décadas que vivi em Moçambique no jornal fui vendo vasto rol de dislates sobre o país - muitos deles produzidos durante e após reportagens longas. Não se tratava apenas do efeito de um olhar enviesado (a patetice "lusófona", o paternalismo bacoco, o "póscolonial" de algibeira, o "exotismo" de pacotilha, etc...), mas também de apatetados erros factuais. Sobre algumas dessas asneiras fui escrevendo em blog. Entretanto, desde há largos anos que no jornal se sedimentou uma "célula" de "activistas" "decoloniais", que sobre África - a pouca "África" a que alude -, e a "afrodescendência", vai vertendo um "jornalismo" demagógico, para isso cooptando "colaboradores" entre os "activistas académicos", mais frenéticos das causas identitaristas, e ecoando os desbragados rugidos dos políticos esquerdistas que se alimentam dessa retórica. E recordo, como ilustração deste rumo, o desvelo com que no jornal foi tratada a deputada Moreira do partido LIVRE.

Mas para além desse viés ideológico continuam os mais simples e rasos disparates e desatenções. Ainda há pouco tempo o "Público" se "esqueceu" de noticiar o assassinato do jornalista moçambicano João Chamusse - e eu permito-me aventar o barulho que aquela redacção teria feito se um jornalista negro tivesse sido assassinado num qualquer país europeu ou um "pardo" no Brasil... E não só se esqueceu de o fazer como se atreveu a permitir que o seu "provedor de leitores", José Alberto Lemos, tivesse o desplante de vir mentir aos seus leitores - como aqui referi - fundamentando essa "falha" na ausência de informação proveniente da LUSA (uma falsidade, agredindo colegas de profissão) e no facto de apenas um jornalista do "Público" escrever sobre temas africanos, o reconhecimento da indigência vigente.

Mas nada disto obsta a que o jornal continue a receber o benevolente estatuto "de referência". Decerto porque mantém um leque de doutores, ali elevados a colunistas ou consentidos como meros colaboradores avulsos, que escrevem as suas "opiniões", ou seja, ali "produzem opinião pública" em função de agendas políticas. 

Cada vez que eu resmungo sobre mais um disparate profundo, um rumo mais demagógico, um olhar mais vácuo, seja sobre Moçambique ou sobre África em geral, logo alguém - usualmente jornalista, ex-jornalista, ou boa alma - socorre aquela indigência, fundamentando-a no estafado estado da imprensa escrita, carregada de profissionais subremunerados, estagiários sobreexplorados e de remanescentes veteranos supraexauridos. E assim assoma a piedade, esta feita factor de manutenção do tal epíteto "de referência" e, como tal, também da credibilidade dos disparates "decoloniais" do "Público".

Enfim, hoje de madrugada um amigo de Maputo envia-me por Whatsapp esta foto, reproduzindo um artigo de página inteira dedicado à actualidade política moçambicana, país no qual se debate sobre as personalidades que concorrerão à liderança dos grandes partidos e às eleições presidenciais deste ano.

O artigo estrutura-se sobre a ascensão dos filhos dos antigos presidentes da Frelimo à liderança dos dois grandes partidos moçambicanos - indiciando esse factor como situação denotativa. Por um lado Samora Machel Jr. (dito Samito), aventado como futuro presidente do Frelimo, filho de Samora Machel, primeiro presidente do país.

Por outro lado, Venâncio Mondlane, um já veterano político, deputado, antigo candidato ao conselho municipal (a nossa câmara) de Maputo. E no artigo publicado no jornal "de referência" dito filho de Eduardo Mondlane, primeiro presidente da então Frelimo. 

Acontece que Pedro Nuno Santos não é filho de Almeida Santos, Sérgio Sousa Pinto não é filho de Mota Pinto, Jerónimo de Sousa não é irmão de Marcelo Rebelo de Sousa, nem Pedro Passos Coelho sobrinho de Jorge Coelho. Tal como Venâncio Mondlane não é filho de Eduardo Mondlane, e até nasceu 5 anos depois da morte deste... E não há piedade suficiente para aturar disparates destes. Principalmente num jornal "de referência" que depois nos quer "ensinar" a urgência de um olhar "póscolonial" sobre África. E sobre nós-mesmos. E se não há piedade suficiente para isto também não há paciência para os tontos que continuam a fazer as mesuras ao tal "jornal de referência".

15
Jan24

O estado do "jornalismo de referência"

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Aqui reproduzo o "lamento" do "jornal de referência" Público - ontem emitido numa rubrica curiosamente chamada "coluna do provedor" - por não ter noticiado o assassínio de João Chamusse, jornalista moçambicano, acontecido no passado 14 de Dezembro. A razão (desculpabilizadora) apontada remete para que o único jornalista daquela empresa que atenta sobre "África" estava de folga e a LUSA não ter noticiado o facto.

Retiro algumas conclusões: 1) na própria madrugada do acontecido recebi a notícia por WhatsApp. Compungido, de imediato lamentei o facto no Delito de Opinião. Assim disto retiro a primeira ideia, até mais privada: no Público não lêem blogs (e porventura também se isentam das "redes sociais"), decerto que por serem vis locais de "fake news" e populismos (que não os identitaristas); 2) naquela casa um assassínio de um jornalista se este africano é um assunto de "África", decerto que ao invés do que se for americano, asiático, oceânico ou europeu, porventura devido às tais questões de "identitarismo", dir-se-á racial neste caso; 3) os serviços em português da DW e da RFI logo noticiaram o assassínio, o que mostra que no Público não se lê a imprensa gratuita internacional; 4) no mesmo dia o "popular" e "populista" Correio da Manhã noticiou o facto ecoando a nota da LUSA, o que demonstra que no Público não só não se lêem os outros jornais portugueses como se indevidamente apontam falhas a agências noticiosas conterrâneas (e colegas) para se desculparem, bem a posteriori, desinteresses próprios.

Este é o estado do jornalismo de "referência". Do seu exercício e da sua provedoria.

(Postal no Delito de Opinião)

 

28
Out23

O hífen na RTP-África

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Enfim, sou um chato, cada vez mais um velho chato... Ontem liguei a RTP-África (um canal do serviço público, para quem se possa ter distraído). Procurava notícias sobre a situação em Moçambique - inexistiam, tal como inexistem nos outros canais da RTP. Paciência, a gente sabe da modorra e desinteresse do funcionalismo público instalado naquela empresa. 

Mas não é isso que me traz aqui. Pois andava eu vasculhando para trás e para a frente na transmissão,  à cata de algo que tivesse chegado do (efervescente) Maputo, quando me deparei com este programa, que será de variedades e tem aspecto de ser simpático. Mas acontece uma coisa: a RTP é estatal, cumpre (algo esbatidas) funções do tal "serviço público". Para que ela funcione nesse enquadramento os portugueses pagam impostos. E concordam também que concorra com outras empresas televisivas no mercado da publicidade, contribuindo para o estado depauperado em que essas vão subsistindo. Tudo isso porque se acorda que o papel da RTP é fundamental.

Sendo assim conviria informar os serviços de produção que "Bem Vindos", o nome inscrito nos cenários deste programa, é um erro. Não é um acto criativo, não é  uma "liberdade literária". É pura e simplesmente um erro, falta-lhe um hífen. Que haja erros nas legendas ou nos rodapés (que agora os incultos incautos chamam "oráculos") é criticável mas é normal, humano, falhas avulsas e individuais sob a pressão da inscrição célere. Agora um erro perene num cenário, não (r)emendado, assim reproduzindo-se entre espectadores? Para preguiça empresarial não haverá melhor exemplo.

Será que alguém pode ir ali a Chelas, à porta da RTP, informar o recepcionista "falta-vos um hífen na RTP-África"? Faltarão mais coisas. Mas pelo menos este hífen eles deverão conseguir arranjar.

14
Out23

A RTP-África

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Quando há mais de um quarto de século fui viver para Moçambique a RTP-África emitia há pouco tempo. Durante os primeiros anos várias vezes falei - até profissionalmente - sobre o seu conteúdo. Não sobre a dimensão dos seus recursos e a forma como eram patentes no conteúdo, nem sobre a competência dos seus quadros. A questão sempre me foi a pertinência do olhar, da programação. Pois então sempre me pareceu uma RTP-I - esta vocacionada para os emigrantes (como então se chamava à agora dita "diáspora") portugueses, polvilhada com alguns núcleos "para africano ver"... Ou seja, não uma questão de falta de recursos mas sim de alguma preguiça conceptual. Os anos passaram, deixei de ver. Depois voltei a Portugal, nem atentei ao seu estado.

Anteontem houve eleições municipais em Moçambique. Não tenho acompanhado a política do país, não atentei neste processo eleitoral. Mas ontem - numa rápida incursão no FB - li notícias e opiniões que algo me surpreenderam. Os partidos da oposição - que eu julgava em crise - clamam vitória em algumas das grandes cidades do Centro e do Norte, em várias das quais já tinham o poder autárquico (Beira, Nampula, Quelimane), o que não é surpreendente - mas muito o é a notícia da detenção do presidente de Quelimane, entretanto já libertado, algo que faz temer desatinos pós-eleitorais. Tal como não será de estranhar a vitória do Frelimo no Chimoio, ao que consta ancorado na excelência do seu candidato, presidente em exercício. Mas o verdadeiramente surpreendente é que o Renamo reclama vitórias, até expressivas, no Maputo e na Matola. O que, a acontecer, seria uma tremor de terra político.

Assim sendo, a curiosidade venceu-me. Ao levantar-me vim procurar notícias. A imprensa portuguesa privada, dita de "referência" (dn, publico, expresso, observador) nada diz sobre a matéria - apesar de todos esses de quando em vez albergarem uns doutores, proto-Milhazes africanistas, a perorarem sobre a grandeza da lusofonia, as "valências" da CPLP, as relações privilegiadas, etc...

Avancei então para um café diante da televisão. Desiludo-me ao perceber que o moçambicano STV desapareceu do meu painel de canais. E vou até ao serviço estatal, a RTP-África,. Entre as 7 e as 10 horas daqui - a alvorada nos diferentes fusos horários em África, a hora em que as pessoas ouvem notícias, a rádiotelevisão - a RTP-África emite o programa "Bom Dia, Portugal". Ouço notícias sobre um documentário sobre Messi, outra sobre Emerson Fittipaldi, e uns incêndios em Portugal. Recuo a emissão e o teor é similar.

Enfim, quase 30 anos de emissões dedicadas aos... países africanos de língua oficial portuguesa. E a RTP-África continua isto, uma desadequação. Modorrenta, descalibrada. Às custas do dinheiro dos impostos, não esquecer.

Bebo o café, volto ao computador. E vou ao privado Facebook, do magnata capitalista Zuckerberg, tão menos virtuoso do que o Estado português. E avanço para as páginas de informação moçambicanas que lá estão alojadas.

E é isto a RTP-África.
 
(Fiquei grato à equipa da SAPO que deu destaque a este postal)

22
Set23

Taremi e a sonolência da Entidade Reguladora para a Comunicação Social

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O iraniano Taremi, avançado do Futebol Clube do Porto, é um bom avançado. E é manhoso, perito naquela consagrada tarefa de "cavar penalties" - e os mais-velhos lembrar-se-ão do sempre entusiástico Paulo Futre, então ainda jogador, a declarar qualquer coisa como "fui para a área para cavar o penalti". Nisto das grandes penalidades a nossa percepção, opinião, convicção, muito depende das marés que os trazem. Nos finais de 1983 o grande Chalana mergulhou para a grande área do (literalmente seu) estádio da Luz, o herói Rui Manuel Trindade Jordão converteu o justíssimo penalti, a malvada União Soviética foi assim arrasada, perestroikada / glasnostada avant la lettre, e a Pátria seguiu à bela campanha do Euro-84, 18 anos após a primeira (e então única) qualificação para um torneio de selecções. Já em 2000 um falsário árbitro inventou um penalti aos 119 minutos da meia-final do campeonato da Europa, afirmando ser mão a óbvia coxa de Abel Xavier e assim possibilitando que as potências do pérfido Eixo discutissem o triunfo final.

São apenas exemplos maiores do que acontece todos os fins-de-semana - aliás, todos os dias, nesta era digital, em que é preciso encher de bola os milhares de canais televisivos globalizados. E todos os adeptos, sem excepção, tendem a "puxar a brasa à sua equipa". Uns mais descaradamente, outros menos. Mas, repito, todos... Ainda assim nas últimas décadas algo vem mudando: primeiro com mudanças nos regulamentos disciplinares, com punições aos saltimbancos menos talentosos. E depois através da disseminação das ajudas tecnológicas às arbitragens, associada à tal globalização da televisão digitalizada, o que tornou as escandaleiras muito mais... escandalosas. Ou seja, a aldrabice dentro de campo passou a ser mais punida, menos produtiva e - exactamente por estas razões - menos respeitada.

Neste âmbito e nesta época Taremi será um dos "últimos moicanos", até um item de património cultural intangível, pois um lídimo representante de eras passadas. Pois atira-se para o chão sem rebuço e colhe lucros com a risonha desfaçatez com o que o faz. O que lhe será facilitado pelo seu enquadramento laboral, protegido que está pelo truculento e histriónico falso azedume regionalista do seu patrão e das massas a este congregadas.

É óbvio que os adeptos do seu clube sobre ele pensam, sentem e opinam de modo diferente - por questões da mera bola mas também "animados" pela propalada "alma" regional, essa que nos campos de futebol se imagina gritando até à exaustão "São Jorge!" contra os "mouros" ditatoriais, totalitários, cleptocratas, os centralistas que colonizam e esmagam o sacro Portucale. Por isso as quedas de Taremi são-lhes sempre naturais, legitimamente causas de castigos à Besta Alheia, pois efeitos de intencionais acções dos demónios coloniais, essas energias eólicas, hídricas, fósseis, animais, mesmo metafísicas. E, por  vezes, até humanas.

Mas, de facto, o homem vem exagerando nas suas coreografias. Como aqui narrei há algumas semanas, fartei-me de rir ao vê-lo num Porto-Arouca, jogo que ficou celebrizado pelos 20 e tal minutos de descontos dados, a ver se o Porto não perderia o jogo, tamanha a desfaçatez com que ia fingindo ser alvo de incorrecções alheias. Seria até ridículo se os árbitros, sempre temendo as influências portistas e o crivo crítico do batalhão portista de comentadores radiotelevisivos e da imprensa escrita, não tendessem a aceitar as evidentes pantominas. Assim, pura e simplesmente, falsificando... as apostas desportivas, acção que julgo punível por lei extra-futebolística.

Leio agora que Carlos Xavier - antigo excelente jogador do Sporting e agora comentador do canal televisivo desse clube - "passou-se" com as constantes trapaças taremianas. E disse na televisão o que os adeptos dizem quando entre amigos. Qualquer coisa como o sacaninha deste estrangeiro veio para cá e agora é um fartar vilanagem.... Mas em vez de estrangeiro chamou-lhe "muçulmano", no que foi um verdadeiro autogolo. Cai o Carmo e a Trindade, hoje em dia entidades ecuménicas... E logo se conhecem invectivas de instituições consagradas na abjecta ditadura iraniana, que apresentam queixas de "racismo". Os mariolas regionalistas (de retórica secessionista) do FC Porto associam-se a esta inadmissível intervenção. Em vez de matizarem, como seria curial, a situação, para melhor entendimento estrangeiro do mero "fait-divers"...

Entretanto o agora comentador Carlos Xavier retractou-se (e não "retratou-se", como escrevem os patetas do AO 90, pois isso trata-se de outra coisa completamente diferente). Ainda assim a Federação Portuguesa de Futebol - essa instituição tutelada pelo Estado e que deste vem recebendo inúmeros apoios, o que não a impede de tentar descaradamente tornear o regime fiscal quando contrata trabalhadores - tem o atrevimento, decerto que inconstitucional, de instaurar um processo contra o canal televisivo do Sporting por causa do que um comentador disse. Estamos em 2023, nas vésperas do 50º aniversário do 25 de Abril. E a FPF instaura um processo destes. E o Dr. Fernando Gomes, seu presidente, não só não é rispidamente chamado à atenção por parte dos eleitos para os órgãos de soberania máximos da República, como decerto é e continuará a ser anfitrião e visita, muito cumprimentável, do PR, do PM, do PAR, de ministros, deputados, juízes, procuradores e etc. Se assim é para quê comemorar os 50 anos do regime? Para que irão gastar bons dinheiros em exposições, livros, conferências dos professores Fernando Rosas, José Pacheco Pereira e outros, sobre censura, e etc.

E entretanto uma tal de Entidade Reguladora para a Comunicação Social - sobre a qual apenas sei o que era a Alta Autoridade para a Comunicação Social, coisas risonhamente contadas pelo meu grande amigo Aventino Teixeira, que a essa pertenceu durante anos - tem também o desplante de anunciar que está "a analisar" as declarações de Carlos Xavier. Sobre o clima de guerra no comentariado futebolístico que grassa há tantos anos, e sua influência nas mundivisões mas também nas acções violentas do público dos espectáculos desportivos, nada diz a tal de ERC. Sobre o aldrabismo militante do jornalismo futebolístico, tantas vezes obviamente encomendado pelos agentes económicos envolvidos, nada diz a tal de ERC. Sobre o ataque à liberdade de imprensa efectivado pelo inaceitável processo instaurado pela FPF - como se esta fosse um Estado (ditatorial, censório) dentro do nosso Estado - nada diz a ERC. Está sim a analisar uma "gaffe" deselegante, inapropriada, excitada, do bom e íntegro Carlos Xavier.

Isto não é uma Entidade Reguladora para a Comunicação Social filiada ao actual "wokismo". É apenas a sua sonolência. A sonolência dos pequenos mandarins avençados, ali instalados pelos poderes...

Deixemo-nos de coisas. Taremi é um sacaninha, um jogador estrangeiro que no nosso país constantemente aldraba o jogo - mas em outros não o faria, pois seria constantemente castigado se fizesse coisas destas. Quer ele continuar assim, quer o seu patrão que continue assim? Ok, então faça-se isso sem queixumes, invectivas ao "racismo" e "xenofobia" alheia... Façam-no com elegância, até humor... Há trinta anos o grande avançado Jurgen Klinsmann tinha a fama (e o proveito) de se atirar para o chão nas grande-áreas adversárias, de "mergulhar". Foi contratado pelo Tottenham para a então ainda inicial, mas já milionária, Premier League. Logo se estreou a marcar. E introduziu este "mergulho" comemorativo - esse que ainda tanto se vê, mundo afora... Nessa festiva ironia mostrando que em nada se restringia à mera aldrabice, abjecta. 

Nem à tal sonolência bem-remunerada dos pequenos mandarins.

 

(Jurgen Klinsmann's first Tottenham goal)

17
Set23

Sobre as mudanças no "A Bola"

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Jornal A Bola - Armazém Leonino

 
 
Li há uns dias que o jornal "A Bola" fora vendido a um grupo internacional (dizem-no "suíço", mas presumo que seja uma bandeira de conveniência), especializado no comércio noticioso digital. É, evidentemente, a "crónica de uma morte anunciada". As primeiras informações sobre o processo são... as habituais: à "aquisição" (o jargão "científico" para "compra") seguiu-se o despedimento de uma percentagem (muito) elevada dos trabalhadores. Ou, para falar como agora, a "descolaboração" com os "colaboradores". Dá-me a sensação, leigo na Economia, que é o primado do misticismo na referida ciência económica: o que interessa é a "marca" (entidade metafísica) e não o "produto" (a mezinha).
 
Enfim, parece-me evidente que pouco mais durará o já velho periódico, fundado em 1945 pelo mítico Cândido Oliveira (também seleccionador de futebol), Ribeiro dos Reis e Vicente de Melo, um trio sempre invocado.
 
Ainda que com alguma mescla de sentimentos, pois o jornal estava muito fraco, lamento tudo isto. Lembro-me que há pouco mais de uma década o "A Bola" lançou uma edição moçambicana. A Maputo deslocou-se o então ministro Miguel Relvas e saudando essa iniciativa disse "aprendi a ler no "A Bola"". Cairam-lhe as críticas furibundas em cima, da intelectualidade subsidiada/avençada pelo PS e do magma trotskista-maoísta agregado no BE, invectivando-o de "inculto" para baixo. Eu então sorri, desdenhando a mole socratista e a tropa esquerdista. Pois, ainda que não gostando de Relvas com ele partilhava esse dado biográfico. Eu aprendi a ler com "A Bola". Vindo de Hergé, Goscinny, Martin, estúdios Disney, Enid Blyton, dos colectivos que produziam as colecções "Apache" ou "Falcão", o Major Alvega, Karl May, Verne, Salgari, Féval, etc os primeiros textos adultos que li, ainda na primária, foram os célebres apontamentos de reportagem "Hoje jogo eu" que o jornal desportivo tinha... De facto, tal como Relvas, e decerto que muitos outros da minha geração, também eu aprendi a ler no "A Bola".
 
Depois, décadas depois, o jornal - que agora entra em cuidados paliativos - muito degenerou. Por isso aqui recupero, para quem tenha interesse, um postal antigo - que já publicara aqui no Nenhures - as minhas memórias com "A Bola".
 
***
 

O meu pai António nunca leu um jornal desportivo – lá em casa lia-se o “Século” de manhã e o “Diário de Lisboa” à tarde, e as coisas da bola eram-lhe indiferentes, até incomodativas. Nas férias, em São Martinho do Porto, eu ia-lhe buscar os jornais à papelaria na “rua dos cafés” e ele dava-me dinheiro para que eu também comprasse “A Bola”, que saía 3 vezes por semana. Ele achava piada (ou seja, bem) que eu lesse jornais, eu queria-os pelos nomes do ciclismo, do “Tour” e também da “Vuelta”, com os quais decorávamos as caricas para os “grandes prémios” nas pistas de praia, e também pelas notícias de Deus Nosso Senhor Vítor Damas, do Yazalde, do Nelson, do Marinho e Manaca, do Dinis e Bastos e Alhinho, e depois do Fraguito (sempre) de meias-caídas, também do Carlos Lopes, Fernando Mamede, Aniceto Simões, Nelson Albuquerque, da belíssima Conceição Alves, Jorge Theriaga, Manuel Brito, Ramalhete, Rendeiro, Sobrinho, Xana e Livramento e tantos outros.

Assim cresci, desde a escola primária, a ler “A Bola” daquela ínclita geração de jornalistas, aqueles que também animavam a memorável coluna “hoje jogo eu”, em que botavam o olhar sobre o mundo, deriva então tão escassa: o director Carlos Miranda, das epopeias do ciclismo, o jovem Santos Neves dos automóveis, o entrevistador Rebelo Carvalheira que veio a morrer assassinado nuns quaisquer meandros, o intelectual da bola Victor Santos, o genial benfiquista-comunista irónico-mor Carlos Pinhão, o direitista estorilista Alfredo Farinha, o sisudo camarada Homero Serpa, o analista Aurélio Márcio, vários tantos outros, e punhados de correspondentes, locais ou de “lá fora”, como então se chamava ao estrangeiro (José Augusto na malvada URSS, Renato Caldeira no longínquo e inatingível Moçambique, Bruno Santos em Paris de França, Duda Guennes, que falava em Lisboa do Brasil, sei lá quantos mais). “A Bola” era um bocado, até bastante, vermelha (o que lhe dava bastante crédito junto do meu pai, comunista encartado) e imensamente encarnada. E era um belíssimo jornal.

As décadas passaram. Ali nos finais de 80s, já nas mudanças geracionais, para lá entraram camaradas olivalenses, o Afonso de Melo, que fora meu adversário de subbuteo, o João Matias, meu vizinho de rua, amigo e colega de turma de liceu e faculdade. O encanto desvanecera-se, talvez porque o jornal já diário, sem largar tinta nos dedos de quem o folheava, e nem aquele lençol sempre esvoaçante, ou até porque eu crescera. Mas era jornal. Ainda.

Depois foi decaindo. Imenso, imensamente. Há décadas que não o compro, apenas folheio, nos cafés. E nele clico, espreitando até com fastio, após ler o “Record”, jornal com o qual tenho relação utilitária. Mas com “A Bola” tenho esta relação, a da enorme primeira paixão feita amor desavindo. Mas ainda ciumento. E a sua degenerescência dói-me.

Nos últimos dias vem noticiando (sublinho, noticiando) a transferência de um treinador (Jesus) para o estrangeiro. Não aventa a hipótese. Não ecoa rumores. Não explicita vontades. Nem afirma cenários. Coisas que cabem no jornalismo. Mas não faz isso. Anuncia, ou seja, noticia o processo em curso. Um processo que, dizem de Paris de França, é “ridículo”, desadequado à realidade. Há quem diga que “não há fumo sem fogo”. Mas o certo é que há, e qualquer leitor o poderá dizer, quem ateie … fumos. O velho “A Bola” hoje em dia é isto, tipos a atearem fumos. Mentiras. E há muito tempo que o é. Ou seja, apenas um jornal que encena “factos” para se vender. A autoridade para a comunicação, a ordem dos jornalistas (ou sindicato ou lá o que é) nada dizem. Os tribunais também nada … Se algum jornal/jornalista mente sobre cultura (saiu um livro, um filme, abriu uma exposição, que, afinal, não existe) é rebaixado. Se sobre clima, falhando escandalosamente o boletim meteorológico, é gozado. Se sobre política é desacreditado. Se sobre economia pode até ser processado. Mas se mente sobre a bola, se “A Bola” mente sobre o futebol – e os clubes estão na bolsa, as mentiras sobre os plantéis têm influência na bolsa – isso passa incólume. Ninguém protesta. Nem, e isso é uma vergonha, os colegas da corporação. Nem o Estado que deveria ser regulador. Pois é só bola (mas depois vão-se abanicar nos triunfos patrióticos).

A minha “A Bola”, o meu primeiro amor, tornou-se uma velha prostituta. De esquina, barata. E eu tenho imensa pena. E, envergonho-me até disso, nojo.

(Postal no "O Flávio")

 

24
Jul23

Ao ministério da Defesa

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É fácil cair numa visão escatológica do poder, aquilo do isto estar pior do que nunca... Pois a realidade sempre parece dura, também devido à memória selectiva que nos faz matizar as agruras passadas. E sempre surgem problemas na governação. Tudo isso sublinhado pelo democrático escrutínio feito pela imprensa. 

As actuais interrogações na Defesa, por hábito sector secundário para a opinião pública, são exemplo de tudo isto. Mas este mero fotograma enfrenta esse decadentismo espontâneo. Pois o ombrear dos dois últimos ministros da Defesa obriga a lembrar aquele que os antecedeu, Azeredo Lopes. O do episódio mais pungente deste regime, quando se defendeu em tribunal afirmando-se intelectualmente incapaz de compreender os relatórios sobre os assuntos que tutelava. Goste-se ou não dos seguintes, Cravinho e Carreiras, não é crível que estes venham a descer a tamanha indignidade. Ou seja, por este lado se deduz que nem tudo está a resvalar para o Apocalipse!

Mais importante para se ultrapassar o tal decadentismo é perceber que não é muito fiável o fluxo informativo crítico do rumo nacional. Não por acinte ideológico ou interesses esconsos das empresas da imprensa e seus trabalhadores. Mas devido à sua incultura incompetente, que lhes impede a compreensão do real. E assim lhes inviabiliza qualquer análise fidedigna. Também disso esta imagem é exemplo maior. No rodapé (aquilo a que os básicos chamam agora "oráculo", algo que os torna credores de péssimos, até mortais, augúrios) a SIC anuncia que "(o ministro) Cravinho foi novamente no Parlamento". Este linguajar boçal é uma empresarial onamatopeia intelectual. Algo recorrente, ali e alhures, mas raramente tão gutural. Entenda-se, esta gente que forma a opinião pública não tem os instrumentos básicos (léxico, sintaxe, quejandos) para pensar com discernimento. Por isso quando com afã professam o tal decadentismo convém recordar que nem sabem falar. Sendo assim, ao invés do que tantos propalam, não estamos a resvalar para o Apocalipse. Ou seja, há futuro...!

 

(Postal para o Delito de Opinião, como "Pensamento da Semana")

28
Jun23

O jornal "Público" vê-se grego

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Volta e meia leio algo publicado no "Público" - o "boletim da SONAE", como digo em dias mais mal-humorados, nos quais me interrogo, sem me dar resposta, sobre que interesse(s) terá aquele grupo económico para estas décadas de financiamento a um jornal com tamanho, e progressivo, viés político.  O apoio aos "poderes fácticos" (o PS, entenda-se) - sob o sempre reclamado cognome "jornalismo de referência" - é compreensível economicamente. E o acolitar do bloquismo terá tido causas também sociológicas, dada a atrapalhada adesão à coalizão m-l de feixes de uma geração letrada lisboeta pequeno-burguesa. Mas o mais recente coito dado aos constantes dislates do marxismo racializado, ecoando esta incessante tralha "decolonial" avessa à "branquitude" e papagueada entre nichos académicos desnorteados (sem Norte e nisso julgando-se pró-"Sul"), sitos nos eixos Campo Grande-Campolide e "do Choupal até à Lapa", será menos compreensível, advirá mesmo de causas internas à empresa, de um enquistamento ideológico na sua redacção. 

Muitos, crentes nessa tal entidade benfazeja "jornalismo de referência", negam tal viés. E escudam-se no pluralismo presente no jornal, lembrando ocasionais investidas sobre derivas mais esconsas nos poderes instalados e, acima de tudo, a presença recorrente de colunistas menos geringôncicos, dos quais o exemplo mais referido é João Miguel Tavares. Nisso não faltam à verdade, aquele ramalhete opinativo é orlado desse e de alguns outros nomes, constantes ou episódicos. Mas isso não obsta ao frenesim esquerdista encapsulado pela agenda socialista que comanda o jornal.

Enfim, avante. O viés do "Público" é notório e não justifica o tal epíteto "de referência". Não porque uma linha editorial política não se possa articular com qualidade. Mas porque o estratégico servilismo face ao poder político é o avesso dessa propalada valorização. Exemplo radical dessa agenda político-ideológica é o noticiar do processo grego. É certo que os directores do jornal vão mudando. E é também certo que há alguma diferença entre o contexto actual neste 2023 e o vigente em 2015, então ressaca da crise do final da década transacta e das políticas de austeridade que provocou. Ainda assim, muito se denota a essência do "Público" na comparação entre o relevo dado aos resultados das eleições legislativas gregas do passado domingo - enorme vitória do centro-direita - e o atribuído aos resultados de 2015. Quando o Syriza ganhou, Tsipras foi para o poder (cumprir as políticas europeias...), António Costa rejubilou, Varoufakis se catapultou como sex-symbol académico e best-seller e best-speaker.

Para quem ache que eu estou a exagerar deixo as capas dos dias subsequentes às duas eleições. E  nem faço análise aos conteúdos do que o "Público" foi noticiando sobre os dois processos eleitorais. Pois bastam estas duas imagens para demarcar mesmo o que é o tal "boletim da SONAE".

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(26 de Junho de 2023)

(26 Janeiro 2015)

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O estado da imprensa portuguesa

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"Como eu já disse, considero o Bernardo Silva o jogador mais inteligente do mundo, seja lá o que isso quer dizer!"  - dito durante o jogo Manchester City-Inter, final da Liga dos Campeões, pelo comentador da TVI (provavelmente Rui Santos, não posso confirmar pois depois de uma atoarda passei para o canal Eleven no qual também se transmitia o jogo).

Não há melhor exemplo do vácuo perorar em que vegeta a imprensa - desportiva e não só - nacional.

Bloguista

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