Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Nenhures

Nenhures

O ataque ao Canal de Moçambique

WhatsApp Image 2020-08-23 at 22.25.47.jpeg

Ontem, domingo, em Maputo a sede do jornal "Canal de Moçambique" foi atacada e as suas instalações totalmente queimadas. As descrições que leio anunciam que foram utilizadas bombas artesanais - presumo que os sempre chamados "cocktails molotov". E que depois foi o edifício regado com combustível, de seguida ateado. A reportagem que acabo de ver na estação moçambicana STV mostra os restos carbonizados da sede e dois recipientes desse combustível, calcinados. O ataque ocorreu no início da noite de domingo, ninguém estava a trabalhar, não há vítimas a lamentar. 

Cumpre-me dizer que às 11.21 de segunda-feira googlei e ainda não vi nenhum "lamento" das instâncias da corporação jornalística portuguesa. Nem do Estado português. Nem mesmo dos sempre loquazes "colunistas" que grassam no "achismo" luso. Sempre tão lestos noutras situações a expressarem "indignação"  ou "solidariedade" ou "preocupação" com acontecimentos alhures. Noto-o, saliento-o, e entristece-me.

O "Canal de Moçambique" é um jornal de oposição, que não exactamente "da" oposição. Critica, por vezes de forma  muito abrasiva, o Estado, o governo, a justiça. A democracia precisa disso, e o seu desenvolvimento precisa disso. E tem, ou deve der, instâncias jurídicas e instrumentos de controlo deontológico que enfrentem hipotéticas vias infundamentadas na imprensa. 

Eu tenho um particular carinho pelo "Canal de Moçambique". Sou amigo do Fernando Veloso, seu primeiro director. Ainda que pense de forma diferente da dele, tanto sobre Moçambique como sobre o resto do mundo. Os homens podem ser amigos, não apenas "conhecidos", nas suas diferenças. Talvez até mais em Moçambique, onde as agruras do processo nacional e as dificuldades da vida sedimentam companheirismos pessoais, do que neste Portugal, pejado de pequeno-burguesotes muito ciosos dos seus "clubes" e redes de auto-protecção. Sabedores dessa amizade muitas vezes outros se me dirigiam criticando Veloso e seus jornais - conheci-o como editor do Mediafax, cargo no qual sucedera a Carlos Cardoso que veio a ser assassinado, lembro-me dele depois numa breve estada no Zambeze - como se que para lhe mandar recados por meu intermédio. Nunca lho terei dito,pois  também não aceitaria que se intrometesse ele na minha docência ou nos meus textos profissionais. 

Depois, um dia, partilhávamos nós uma mesa no Piripiri e disse-me que ia abrir um jornal. Estava ainda a pensar no nome e tinha algumas hipóteses. E ali se fez um  pequeno "brainstorming", uma avaliação dessas suas hipóteses. Bem-disposto, entre 2M's, propus-lhe o nome "Canal de Moçambique", óbvia ambivalência. Veio a aceitar essa minha proposta e eu fiquei ufano, muito mesmo. Anos depois, na mesma esplanada, e dado que eu continuava com a mania de blogar - então no ma-schamba -, perguntou-me a razão de não escrever eu na imprensa. "Porque não me convidam" ripostei. "Ok, então convido-te eu!", contra-atacou, e passei a ter uma página semanal no jornal. À qual chamei "Ao Balcão da Cantina", numa alusão à cantina presente no magnífico "Nós Matámos o Cão Tinhoso" de Luís Bernardo Honwana, forma de eu me situar, de mostrar onde estava no registo convivencial de escrita. Nunca ali falei de política, mas do queijo do Chimoio, encontros universitários, a música de Stewart, pintura, piripiris, arqueologia, etc, num verdadeiro sortido. Um dia as hostilidades armadas entre a Renamo e o Estado reiniciaram-se. Eu não gostei da abordagem do jornal, que me pareceu conjugar uma compreensão sociológica do fenómeno a uma aceitação da inevitabilidade do conflito. E sem resmungar parei de escrever - voltei apenas uma vez, para bramir, devastado com o assassinato do meu amigo, o escultor Alexandria, linchado pela população, esta crente num fantasmático grupo de violadores que assolaria Maputo.

Lembro esta minha ligação pessoal ao jornal para sublinhar a necessidade da imprensa livre, mesmo que discordemos do seu conteúdo. E de que a discordância não impede a colaboração nem impede os ganhos mútuos (prazerosos ou outros). E não implica estes ataques. Soezes, na pérfida violência. No país de quando em vez há jornalistas ou activistas que sofrem atentados, que desaparecem (há jornalistas desaparecidos), que são assassinados. É certo que a longo prazo estaremos todos mortos, mas a médio prazo (a única escala humana relevante) nada se ganha com estas violências. A conflitualidade interna ao bloco de poder e a existente entre diferentes grandes grupos de interesses originam estas explosões de violência, censória, na vertigem rapace. 

O desenvolvimento é um Processo de Democratização em Curso, para glosar a nossa velha expressão. Mesmo que muitas vezes subordinado ao lema "Um passo em frente, dois passos atrás", como Lenine consagrava. E não é uma "apropriação primitiva de capital" feita de forma bárbara. Queimar o "Canal de Moçambique" é, goste-se ou não do jornal, queimar o futuro do país, queimar o desenvolvimento. É a expressão, desesperada, do ganância dos interesseiros.

(E deveria ser também uma lição para os intelectuais nacionais que continuam a seguir adeptos das ditaduras imperialistas. Mas isso é outra conversa, mais demorada).

Serviço público televisivo

fc0942db8524778525f15e1a2be24254.jpg

Trump agradece eficácia de SS a protegê-lo contra manifestantes (RTPNotícias, 12 de Junho)

Esta é a "notícia" que a empresa de serviço público televisivo publicou, acompanhada desta mesma imagem. O que se pode dizer é curto. Pedir o despedimento de alguém é sempre duro. Mas neste caso é inultrapassável. O Estado não pode ter no seu serviço noticioso alguém que tem este entendimento do jornalismo. Não é um caso de incompetência nem um erro. É a vigência, descarada, da concepção de que ser jornalista é manipular factos e opiniões, e sem qualquer limite. É óbvio que quem redigiu esta aldrabice tem que ser despedido. Tal como é que o responsável deste serviço público noticioso (RTPNotícias) que não só deixou passar esta atoarda como não fez por a apagar nas 40 horas subsequentes também tem que ser afastado. Não apenas dessas funções de chefia mas da empresa pública. Entenda-se  bem: despedido. E nós, cidadãos, temos de ser informados pela administração desta empresa pública não só sobre quem são estes dois desonestos profissionais como do momento exacto da sua saída de funções remuneradas por uma empresa estatal.

E isto não tem nada a ver com Trump. Como é evidente. Tem a ver com a desfaçatez destes profissionais. Aldrabões.

 

 

Crónica dos dias do COVID (25)

expresso.jpg

Quem me conhece (ou blogo-conhece) saberá que eu abomino Marcelo Rebelo de Sousa mais do que as brigadas do Al Shabaab odeiam as barracas de bifanas e coiratos no Campo Grande em dia de jogo do Sporting. E que quanto a Costa e seus sequazes tenho frémitos de os enviar para a arena do José de Alvalade (o nome é esse mesmo) rodeados de leões.

Dito isto fica a questão: será que nem os idólatras notam o desvario de uma capa destas? Que não é preciso ser tão rasteiro?

Por outro lado é um aviso: vêm aí tempos ainda mais difíceis para a imprensa. Há que garantir que Armando Vara se disponibiliza a deixar as grandes empresas pagarem publicidade. Não é nada mais do que isso. O "Expresso" está atento.

Crónica dos dias do COVID (7)

cm.jpg

Crónica dos dias do Covid (5): que neste momento, e hoje mesmo, a capa do diário mais lido do país seja esta, com tamanho realce para o teste de Jesus no Brasil, é mais do que significante. Sobre nós e, acima de tudo, sobre as personalidades "de referência" que por cá andam (talvez por este desnudar é que os socratistas andam para aí a gozar com o "Cofina-19". Uma vez escumalha, para sempre escumalha, é-lhes natureza ...).

O Sábado e Tó-Zé Martinho

rainha africana.jpg

Morreu o simpático e popular homem de tv To-Zé Martinho, que a minha geração conheceu no histórico "Visita da Cornelia". A revista Sábado dedica-lhe um afável memorial. E lembra que ele "namorou" (depois no texto confunde-se e fala em casamento) com "a filha de uma rainha de uma tribo africana" lá em Mocambique, aquando da guerra. Não será particularmente relevante . Mas, ainda assim, e diante de tamanho dislate, , não seria de exigir mais cultura ao jornalista? E ao seu chefe de redacção?

80 anos de Sampaio no Público

Homenagem Sampaio Final090465 (1).jpg

O antigo presidente Jorge Sampaio cumpre 80 anos e o jornal "Público" dedicou-lhe bastante espaço. Grande entrevista, artigo encomiástico de um seu colaborador, inúmeros depoimentos de personalidades conhecidas. Eu simpatizo com Sampaio: esteve duas vezes em Moçambique, com elegância e competência. É um grande sportinguista (condição não suficiente mas que me impulsiona o apreço). Mas não é sobre ele que boto. É sobre o jornal. E sobre quem lá trabalha.

No café acabo de folhear o "Público". Leio em vigorosa diagonal as várias páginas sobre o antigo presidente da república, antigo presidente da câmara de Lisboa e antigo secretário-geral do PS. Não há uma única alusão ao momento crucial da sua presidência. Quando - no exercício dos seus legítimos poderes - demitiu um governo maioritário e abriu caminho à ascensão ao poder do seu sucessor no PS, José Sócrates. Não há uma única alusão a isso, repito. Nem uma única reflexão sobre o processo subsequente, de degenerescência do poder político. E da degenerescência do próprio PS, e da esmagadora maioria dos seus apoiantes (alguns dos quais são meus amigos reais e devem ler isto, sabendo, claro, do quanto os desprezo apesar da entristecida amizade que ainda lhes dedico), reduzidos a apoiantes nada envergonhados da roubalheira. A qual continua, neste incessante esforço de esconder e fazer esquecer a cumplicidade de todo o aparelho socialista e dos seus "companheiros de estrada" (e dos prostitutos a la Jugular) com a criminalização do Estado.

E o que temos agora, nas vésperas de mais umas eleições, controlado que já está o aparelho judicial, calados que estão os pequenos núcleos contestatários ou meramente analíticos na imprensa estatal (vejam o que aconteceu ao "Sexta às 9" na RTP, suspenso no período eleitoral pela nova direcção de informação, ali colocada - exactamente como Sócrates fazia com a imprensa toda - para controlar os danos da ladroagem do aparelho socialista)? O que temos agora? O jornal "Público" a fazer o frete ao PS, a produzir "amnésia organizada", a reforçá-la. A propósito de Sampaio tudo o que haveria para saber sobre o "Público" e seus profissionais, e colaboradores cúmplices, está dito.

A morte do jornalismo desportivo

recordLogoShare

Escolho o "Record" porque é o jornal desportivo que mais frequento. Pois este jornal não monopoliza a deriva - ainda que seja o que mais nela se embrenha, comparativamente ao "O Jogo" ou mesmo ao "A Bola".

Escrevo às 17.34 de hoje, 15 de Junho. O sítio do "Record" apresenta-se neste estado (tudo notícias com fotos chamativas): 2ª notícia: as vestes do casamento do capitão do Real Madrid, Sérgio Ramos; 4ª notícia: declarações do pai da mulher que acusou Neymar de violação; 5ª notícia: férias do jogador do Benfica Ruben Dias, foto da namorada anunciando que ela "mostra tudo" (um tópico nos títulos do jornal); 6ª notícia: o estado de espírito de uma adepta fervorosa (e com generoso colo, como antes se dizia, bem iconografado) dos Golden State Warriors, clube de basquetebol americano; 7ª notícia: um jogador da Juventus mostrou uma mulher na sua cama; 8ª notícia: as regras para o vestuário e comportamento no casamento do capitão do Real Madrid; 10ª notícia: sobre a divulgação de imagens da mulher que acusa Neymar de violação; 11ª notícia: a reacção da namorada de Ruben Dias a uma partida que ele lhe fez; 16ª notícia: as imagens do casamento de Sérgio Oliveira, jogador do F.C. Porto; 19ª notícia: desenvolvimentos sobre a acusação a Cristiano Ronaldo de ter violado uma prostituta americana; 20ª notícia: a lista de convidados do casamento do capitão do Real Madrid; 21ª notícia: o advogado da mulher que acusa Neymar de a ter violado; 22ª notícia: uma rapariga muito magra mas com par de mamas bem constituído, dita Júlia Palha, num barco de recreio em bikini; 23ª notícia: fotogaleria dos convidados ao casamento do capitão do Real Madrid; 24ª notícia: uma rapariga voluptuosa em lingerie provocatória sob o título "Bastou alguém chamar-lhe Barbie e o nome pegou"; 25ª notícia: bis, fotogaleria em que a namorada do benfiquista Ruben Dias "mostra tudo"; 27ª notícia: namorada do futebolista Cédric, voluptuosa na piscina, mostra como foi a sua despedida de solteiro; 28ª notícia: as imagens do casamento de Simeone, treinador do Atlético de Madrid; 29ª notícia: fotos das férias dos craques, anunciada com um tipo debruçado sobre uma tipa, em trajes menores; ...

Valerá a pena a continuar? É necessário armar um texto com laivos de semiólogo? Ou basta este rol para provar que aquilo morreu? E fede? (Ainda que as garotas que costumam aparecer tenham, sempre, fartas mamas - lembro que não é ordinarice, é assim que se diz correctamente - e curvas apreciáveis).

 

Mais sobre mim

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.