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Nenhures

Nenhures

01
Out21

A Capa Alquímica

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[Postal para o Delito de Opinião]

A capa desta última "Sábado" é ordinária, abjecta. Remete para um texto da jornalista Maria Henrique Espada, que levou o algo desengraçado título "34 Histórias do Senhor 34% em Lisboa". Mas tem uma característica interessante, rara: tudo nela provém do texto mas não tem nada do que está no texto. Pois a capa transmuta os elementos que combina. É assim alquímica. E nisso demoníaca, pois apenas os desvirtua.

De facto, pode-se gostar ou desgostar do texto de Espada mas tem de se reconhecê-lo como curial. Trata-se de uma breve biografia do novo presidente da câmara lisboeta, num registo que é comum na imprensa e, julgo, de agrado dos leitores: isso de mesclar alguns detalhes da vida pessoal com o trajecto profissional e político daqueles que ascendem a posições de destaque. O trabalho assenta numa conversa com Moedas, já após as eleições, e em material de arquivo de imprensa, com ênfase em pretéritas declarações dele próprio. E se a abordagem de Espada é algo neutral, pois o texto não é um panegírico, nela até se detecta alguma simpatia para com o seu biografado. Ou, pelo menos, nem no explicitado nem num hipotético sub-texto se notam verrina ou alçapões para especulações avessas.

Quantos aos elementos apostos na capa, a tal poção alquímica: o texto alude à infância bejense de Moedas e lembra a sua alcunha de miúdo, mas sem qualquer malvadez. Pois quase todas tivemos alcunhas em miúdos - os mais pequenos são (quase) sempre os "minorcas" ou "inhos" - e isso é um tópico neste tipo de textos. E refere o episódio conjugal mas sem nada de sumarento, de espreitadela moralmente indevida: ecoa declarações do próprio Moedas aludindo aos efeitos pessoais do excesso de trabalho (aquando no governo), aludindo a problemas tão comuns entre os casais. Também a nota sobre o alcoolismo paterno assenta em descomprometidas declarações de Moedas, sendo que o seu pai é referido e citado no texto com respeito e até desvelo. Tal como a doença da irmã não é dramatizada mas surge no âmbito de um bom ambiente familiar. Finalmente, mesmo a referência aos "negócios imobiliários" surge plácida, inserida no percurso profissional de Moedas e sem qualquer alusão especulativa sobre um assunto que poderia (e poderá) dar mais azo à maledicência, isso do presidente da câmara ter experiência nessa actividade económica. Ou seja, vejo a indignação com esta capa no twitter, fb e no meu whatsapp. Mas presumo - ainda que não conheça Maria Henrique Espada e nada saiba sobre os procedimentos internos na "Sábado" - que a pessoa mais incomodada com a capa será a jornalista, ela-própria. Com o que nela conspurcaram o seu trabalho. 

Será certo que a feitura desta capa pretende torná-la comercialmente apelativa, incrementar vendas e tráfego electrónico. E nisso terá algum resultado, momentâneo. Mas é evidente que tem outra força motriz, um azedume revanchista, que procura achincalhar alguém que surpreendeu a paz podre dominante. E os seus fluxos redistributivos. O qual incrementa este ambiente político que convoca direcções editoriais ao denegrir e/ou apoucar das figuras de oposição. Em verdadeiras campanhas orquestradas - como, em verdadeira via obscurantista, um consagrado avençado da "Sábado" quer negar. Cumpre-nos punir estas vergonhas, negando aos produtos dessa imprensa a compra e os clics. Mas também olhando com desdém esses colunistas, constantes ou episódicos, que (se) abrilhantam na "Sábado", sempre alcandorados a estatutos críticos, escavando estratégias e defeitos alheios. Mas que agora, hoje na internet, para a semana na próxima edição da "Sábado", se calarão, incapazes por doença de conivência de se demarcarem desta abjecção. Desta, repito-me, alquimia demoníaca.

22
Set21

A Antropóloga?

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No Facebook noto a partilha de um texto, "A Antropóloga". Claro que o título me convoca a atenção e avanço até à leitura. Trata-se de uma croniqueta publicada no último "Expresso". Num registo plácido, apolítico, não se trata ali de enfrentar posições próprias ou alheias, mas sim de uma mera minudência com roupagem de alegoria. Mas é apenas um texto estúpido. Tão estúpido que "até apita". Tanto é que "googlo" o seu autor, José Gameiro, o qual desconhecia. E encontro-o carregado de títulos académicos. Como é possível que alguém com esse currículo escreva uma tralha destas? E para quê escrevê-la? Para quê publicá-la? Sim, o "Expresso" - e os jornais - estão cheios de tralha mas isso são coisas com "agendas" ou frutos de corrupio de jornalistas generalistas.
 
Agora uma patetice destas, a la mau escriba do século XIX? Perorando sobre as "tribos massais" (sic), invocando o velho tópico da oferta sexual que os africanos (os tais "massais") fazem das suas mulheres aos brancos (aos turistas dos safaris, neste caso...), etc. e tal. Como é possível que o jornal publique, como é possível que haja gente a "partilhar" isto? E centenas a aplaudir - agora diz-se "laicar"? Que mediocridade. Ficaria naquilo da vergonha pelos alheios. Se não me irritasse.

29
Ago21

Sair da Estrada, de Paulo Dentinho

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(Paulo Dentinho, Sair da Estrada, Caminho, 2021)

Deste Sair da Estrada deixo apenas as minhas impressões, nada procurando fazer-lhe uma recensão. Nele está como se uma autobiografia do Paulo Dentinho, 30 anos mundo afora com recordações de reportagens em 13 países, algumas sendo trabalhos únicos, outras com visitas sequenciadas e ainda as resultantes de estadas prolongadas, como correspondente da RTP. Nestas 400 páginas ficou um retrato do mundo das últimas décadas, do qual algumas memórias tão significantes se vão esfumando dado o constante turbilhão noticioso: a atenção às guerras e seus efeitos nas nossas antigas colónias (Angola, Moçambique, Timor-Leste), ao início da que viria a ser a maior guerra africana (actual Congo), aos conflitos do sul europeu, com a crise grega, a dissolução da Jugoslávia e o já esquecido projecto de agregação da Turquia à União Europeia. E, claro, no omnipresente conflito do Médio Oriente (Israel, Líbano), nas ondas de choque pós-2001 (Paquistão, França), e nas refracções da que foi chamada "Primavera Árabe" (Síria, Líbia). 

Realço três dimensões que muito me agradam no livro. Conheci o Paulo Dentinho em Moçambique, e ali muito interagimos. Foi-lhe uma estada difícil, tendo saído do país sob uma incessante corrente de ameaças de morte (e recordei isso neste postal). Recordo-me muito bem desse período e afianço que o capítulo agora dedicado a essa época é mesmo fidedigno, diria mesmo que "sem tirar nem pôr". Mais, muito me lembro da ida em 1997 do Paulo ao então Zaire - logo após o frenesim profissional que ambos vivêramos na visita de Jorge Sampaio ao país - e de como ele a contava quando regressado a Maputo. Narrativa que está agora, ressuscitada, no livro. Presumo pois que nos outros 11 capítulos seja também assim, uma colecção de memórias sem quaisquer adornos, reconstruções embelezadoras ou engrandecedoras do autor ou das situações. 

Outro agrado é a forma como o Dentinho apresenta breves enquadramentos das situações em cada país. Pois em nenhum momento se deixa tentar pelo diabo ensaístico, nessas habituais resenhas históricas com intuitos explicativos ou nas recorrentes deambulações sobre um qualquer fio condutor que explique a miríade de males do mundo, qual filosofia de história de pacotilha ou atrevido estipular de cadeias de causas-efeitos, esse pobre efeito sob verniz intelectual que nada mais é do que reflexo das agendas das causas em voga. Pelo contrário, ele dá-nos ágeis contextos do que se passava, bem inscritos no que lhe é fundamental: como trabalhou. Pois este é um livro sobre jornalismo. E nisso - e é este o meu terceiro agrado imediato - o Dentinho, profissional do audiovisual, veio, e sem qualquer "escritor-fantasma", com uma escrita lesta e veemente,  a prender-nos. 

O livro traz-nos o modo de trabalho em "grande reportagem". O Sair da Estrada, escapar-se aos hotéis internacionais onde pululam as informações padronizadas, oficiais e oficiosas, fugir ao asfalto (mais ou menos) seguro, arriscando-se, muito mesmo, nas vielas e subúrbios, pelas veredas e picadas. E nessas andanças encontrar o rumo das notícias, essas de abertura televisiva ou primeira página de jornal, mas também quem lá está, exulta ou sofre. E é muito desses que o livro fala, os que cruzaram o repórter e lhe possibilitaram o trabalho, vários intérpretes ou motoristas, quantas vezes quais pisteiros, colegas, alguns já tombados em acção, bem como uma ou outra colega mais cativante cujos vislumbres acalentaram dias difíceis e excitantes, até combatentes ou meros passantes. E tudo isso sem requebros de romance de correspondente de guerra mas num muito mais relevante "é assim!". E, acima de tudo, traz-nos os seus camaradas de percurso, os homens da câmara, sempre invisíveis no ecrã e treslidos no genérico, correndo os mesmos riscos - até mais, pois mais visíveis -, sofrendo as mesmas ansiedades, co-autores das reportagens. 

E nisto o livro torna-se não apenas uma memória para "contar aos netos" - para que os filhos o venham a ler, como se justifica o autor em entrevista. Mas um verdadeiro livro de cabeceira para futuros jornalistas - pois se a indústria está em crise, a reconfigurar-se, a vocação jornalística estará em crescendo. Nele não poderão os aprendizes receber o "como fazer" manualesco mas avisarem-se da necessidade do improviso, de seguir a intuição própria e perseguir o risco. O trejeito próprio. Com os quais o Paulo Dentinho seguiu ao longo das décadas, conseguindo belas reportagens - ainda me lembro de o ver com José Mattoso nas montanhas de Timor e rir-me num "só este gajo para tornar aventurosa uma pesquisa arquivística", episódio que aflora agora no livro. E entre elas algumas reportagens de eco mundial, raríssimos feitos na imprensa portuguesa, de facto no país apenas comparáveis em eco internacional a algumas conquistas no mundo do futebol, do atletismo ou, em modo mais discreto, da diplomacia.

Mas há um outro país presente ao longo do livro, o nosso, pois subjacente capítulo a capítulo. São várias as notas sobre a radical incompreensão, mesmo desrespeito, que os repórteres de terreno (e que terrenos!) vão sofrendo pelos colegas e administrações, estes apoucando (até desperdiçando) notícias e peças, desvalorizando riscos, efeitos do peso do "modo funcionário" que vigora. O que se traduz em coisas inenarráveis, por vezes fruto de ignorância mas outras sendo mera pesporrência: a equipa detida por milícias em sítio ermo, o repórter telefonando para a RTP identificando o líder da  patrulha que os prende e deste lado recebendo um enfastiado "que é que queres que eu faça com isso?"; ou a equipa preparada para o sacrossanto "directo" no telejornal das 8, sita em local fustigado por fogo algo errático e esperando que decorra a cinzenta agenda dos "passos perdidos" (ouvir, sob fogo há meia hora, "aguenta mais um bocadinho, que o Jorge Lacão está a falar" é de bradar aos céus!), entre tantos outros desaforos e até malevolências. Um contexto laboral que leva o autor a desabafar, entre outros trechos similares (e dolorosos de ler): "Apetece-me vociferar contra estes tipos que construíram as carreiras quase sem fazer uma única reportagem. O único risco deles é gerir favores, fazer salamaleques aos poderes para se irem mantendo de direcção em direcção. Pobre país o meu." (62).

O livro termina no 2015 parisiense, no ataque ao Charlie Hebdo e subsequente captura dos terroristas, emotivamente narrado. Dentinho associa-o, como tem de ser, à perseguição ao dinamarquês Jylland-Posten em 2006, numa total defesa, sem rodeios nem escusas, da liberdade de imprensa, do humor, da blasfémia, dos que fazem "a provocação sistemática de tudo e todos, da extrema-direita aos meios católicos, dos políticos em geral aos jornalistas. "Rire, bordel de Dieu!" contra a apregoada "razão de Estado", agora dita multiculturalista pois respeitadora, sempre desejosa de controlar a imprensa, de facto "uma engrenagem em que a primeira etapa é a autocensura e a última a capitulação" (399). Gosto muito deste final, de cabeça erguida no meio do terror fanático e do censório "democrata". E ainda mais porque vem do Paulo Dentinho, homem de esquerda neste nosso país em que essa tal esquerda no último ano apoiou para Presidente da República uma candidata que reiteradamente atacou essa liberdade, apoucando de modo até soez as vítimas do terrorismo fanático. Esquerda essa que também propôs para o Tribunal Constitucional um candidato que segue a mesma mundivisão, dizendo serem iguais os fundamentalistas terroristas e os artistas/jornalistas democratas. Sem que tal cause qualquer repúdio, mero sobressalto que seja, no seio do tal "modo funcionário" de pensar e actuar, tão dominante este segue.

Os últimos anos já não surgem no livro. Dentinho foi director de informação da RTP [repito-me, escrevo sobre ele e esse processo excêntrico neste postal]. Os postos de chefia não são eternos e ele foi substituído - disse-se que por desconforto da comunidade futebolística devido a um postal seu no Facebook. Mas ninguém disse na época que o desconforto da malta do futebol, de Lisboa e Porto até La Valleta, advinha da sua imediata oposição a outras futebolices. Enfim, ele seguiu o seu rumo, menos agitado desde então. Com o seu renome ainda conseguiu um "furo" (como antes se dizia), uma entrevista a Lula da Silva, então preso. Lá foi, mas privado de um homem de câmara, e para in loco se deparar que lhe tinha sido atribuído um material de recolha audio e visual... danificado. Enfim, o tal "modo funcionário" mau demais, sempre capaz de surpreender pela... negativa.

Ou seja, se o Dentinho passou 30 anos a Sair da Estrada está agora fora da estrada, emprateleirado. Tem o programa "Mundo sem Muros", convenientemente alojado na noite longa da RTP3 (e na RTP Play, claro). Nele se fala sobre o mundo. Ali ele não entrevista políticos no activo, travestidos de "comentadores", nem ex-políticos feitos correias de transmissão de órgãos de soberania, partidos políticos ou grupos de interesse, nem tão pouco académicos catedráticos de "Tudologia". Pois ali o Paulo Dentinho aborda as situações do mundo, sentando-se com .... outros colegas, correspondentes. Faz jornalismo, com jornalistas, como jornalista. E, acima de tudo, como um homem livre.

Paulo, o livro ficou bom. Espero que os teus filhos o venham a ler, como desejas. E que a minha filha o faça. E que os jovens jornalistas e os ainda aprendizes o leiam, inebriando-se até, se possível. E sonho que alguns dos da nossa geração o façam. Entusiasmando-se com o teu meneio nas letras. Divertindo-se com as memórias das nossas vidas que nos trazes. E, ainda mais, que um ou outro de nós te possamos ler, homem livre que seguiste e continuas, concluindo: "como acabei assim?!". E que nisso, nessa amargura, possamos melhorar um bocadito, fazer por aligeirar a nossa canga. Graças a ti.

Enfim, Dente tens estado bem. E no livro estiveste mesmo bem. Abraço.

20
Ago21

O "Público" despublica

jpt

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Em Abril de 2020 estávamos confinados, e a maioria muito ansiosa com o Covid-19. Nisso muito se lia e debatia sobre o assunto. No dia 15 o epidemologista Pedro Caetano publicou no "Observador" um texto veementemente crítico dos discursos dominantes em Portugal, manuseando os dados estatísticos para afirmar que se escondia uma situação gravíssima. 

Foi um clamor generalizado, e nesse dia o texto foi mais pontapeado do que defendido, com enorme arreganho, coisas do ambiente tenso que então se vivia. E muitos atacaram o jornal por o ter publicado - lembro-me de ter lido um jornalista (que fora o mais activo nos blogs entre o jornalismo português) defender que o "Observador" não deveria ter autorização para... existir. E do meu nojo diante de tal afirmação vinda de um jornalista, mas percebendo-a denotativa da mundivisão socratista, linha essa em que esse se perfilhou sob o capuz de "independente". Em suma, foi um dia em que muito se bateu no cientista e no jornal, este dito de "extrema-direita" e, como amiúde implicita Pacheco Pereira, mero instrumento de grupos económicos. 

No dia seguinte o "Observador" publicou um artigo do biólogo João Correia. Também ele manuseando os dados estatísticos (e uma bela ironia, já agora) opôs-se explicitamente ao artigo da véspera, dando uma visão bastante diferente da situação sanitária do país. E, claro, também esse texto foi bastante discutido na imprensa, blogs e no eixo FB/Twitter (e muito louvado, diga-se, pois também terá servido um pouco de paliativo para as nossas angústias de então). Ainda assim eu não li um elogio que fosse à estratégia editorial do jornal de apor visões tão opostas sobre assunto tão candente. Mas pelo menos nesse dia não vi apelos ao seu encerramento e alusões à sua esconsa agenda fascizante. 

Ontem o jornal "Público" publicou um artigo do médico Pedro Girão. Avesso à vacinação dos menores - o que é uma posição legítima -, e clamando a falta de comprovação científica das vacinas - o que sendo uma atoarda é legítimo de ser dito, pois não viola deontologia nem é calúnia. É certo que o "Público" tem todo o direito ao seu critério de selecção editorial, mas este texto foi publicado. Assim, e se afinal contrariada, a direcção do jornal poderia ter vindo afirmar a sua discordância com o seu conteúdo. Ou poderia ter escrito ou induzido a escrita de um texto mais informativo de teor inverso, até explicitamente crítico. Mas não, o jornal "Público" sob o director Manuel Carvalho, pura e simplesmente apagou o texto ("despublicou-o", neste falsário jargão de agora). 

Convoco o exemplo de Abril de 2020 (também sobre o tema Covid) para, na comparação, ilustrar como este episódio de ontem tanto demonstra um jornal a bater no fundo, e com estrondo. E esclarece bem o tipo de mentalidade dos seus leitores, que isto aceitam. Pior ainda, mostra o teor colaboracionista dos seus "colaboradores" - que se os jornalistas da casa têm de ganhar o salário já os "colaboradores" não têm qualquer desculpa para pactuar com coisas destas. Quanto ao "grupo económico" por detrás do "Público", isso já é matéria para as elaborações de Pacheco Pereira.

10
Ago21

Em Cabo Delgado

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Sobre Moçambique é importante ler (e ouvir) o que vêm dizendo alguns intelectuais e jornalistas nacionais, e este artigo é um bom resumo. Por um lado, a constatação - que surge também como um lamento - de que a situação militar no Cabo Delgado se alterou radicalmente com a recente chegada de um pequeno contingente ruandês (ao qual se seguiram vários contingentes dos países da SADC), culminando na recente reconquista de Mocimboa da Praia. E o quanto isso é demonstrativo da fragilidade do Estado moçambicano (e não só das suas forças armadas). 

Por outro lado, a consciência de que a abordagem governamental - que muito se reforçará com os presumíveis sucessos da força militar internacional - continua a não reconhecer as causas sociais, económicas e políticas endógenas que vêm alimentando este conflito. E nesse sentido é importante ouvir o filme (5 minutos) incluído no artigo, com declarações muito ponderadas de Elísio Macamo. Ou seja, e como é patente há vários anos, se é urgente combater a guerrilha é também fundamental reestabelecer um contrato social, não só no Cabo Delgado mas em todo o país.

Há outros dois assuntos (entre tantos) que me ocorrem: os EUA acabam de publicar um rol de responsáveis locais do movimento internacional islamista em África, incluindo a liderança no Cabo Delgado. Que isto sirva para sedimentar a ideia de que se este conflito não se resume a uma agressão islamista externa, também não lhe é excêntrico - como muitas das ênfases nas causalidades internas propalaram ao longo do último ano e meio. 

Finalmente, e para nós portugueses interessados nesta temática: as causas da actual situação moçambicana são múltiplas e as dinâmicas (e putativos efeitos) da missão militar internacional são complexas. E algumas serão até, por enquanto, indiscerníveis. Mas para tentarmos perceber o processo convirá afastar-nos da poluição de uma imprensa demagógica. Eu sei que o "Público" já se me tornou numa "bête noire" (e ao longo dos anos que vivi em Moçambique quantas vezes bloguei resmungando com as incompetências daquele jornal sobre o país). Mas quando, como recentemente, o "Público" proclama que esta intervenção estrangeira é "uma guerra por procuração da França", reduz-se à indigência, ao "grau zero" analítico, à mera teoria conspirativa - por mais que estejamos conscientes da influência dos macro-interesses da indústria extractiva. Ou seja, que os meus compatriotas evitem comprar/visitar esse boletim. Para as questões moçambicanas e, note-se bem, para as restantes tralhas.

14
Jul21

A Revolução Francesa e a blasfémia

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(Postal para o meu mural de Facebook)
 
Nos blogs ainda se pode escrever em fascículos, não só porque se pode agregá-los por interligações mas também porque a leitura blogal é mais pausada. No facebook isso não funciona, é uma miragem tentar isso sob este império do scroll down. Ainda assim peço aos meus amigos-reais e aos amigos-FB com os quais mais interajo que retenham este meu postalito, ao qual voltarei em breve, e em resmungo azedo:
 
Cada um tem a "sua" revolução francesa. Para mim, entre tantas outras coisas, ela significa o fim da punição por blasfémia. Não se trata de ateísmo pois os "doutores" anteriores, "founding fathers" se ditos noutra língua, haviam defendido que só deus poderia punir a blasfémia. A República consagrou cedo (26.8.1789) a liberdade de expressão. E logo no código penal de 1791 apagou a "blasfémia" como assunto. A rota deste princípio basilar - fundamental na liberdade de expressão mas também na de culto - foi trôpega, mas foi ali confirmada em 1881, pois consignada na lei de liberdade de imprensa, cujo molde perdurou.
 
Essa via francesa - bem diversa da germânica ou anglófona, para referir outros nossos aliados e fontes culturais - é, grosso modo, a matriz da nossa realidade nacional actual, um modelo político de laicidade (a qual não é sinónimo de ateísmo, descrença ou mero secularismo, como confundem tantos ignorantes encartados e até galardoados) consagrado após 1975 - um Estado nada "mata-frades" mas excêntrico à religião. Uma sociedade que não é concebida como um conjunto de diversas "comunidades de crentes", até politicamente activas - algo que o corporativo (e, de facto, hiper-"reaccionário") Sousa torpedeou imediatamente após ser eleito, com a rábula da reunião ecuménica com os diferentes chefes religiosos, diante do silêncio ignorante da "comunidade intelectual" e dos opinadores.
 
A liberdade de blasfemar é o fio de prumo da liberdade de expressão, de imprensa e, nada paradoxalmente, da própria liberdade de culto. É totalmente legítimo contestá-la, dentro de um quadro intelectual (ideológico) que associe de algum modo, matizado que seja, política a teologia. O que é uma posição intelectual e política respeitável. E combatível. Mas é vil, por excesso de ignorância, que quem se reclame de diferentes tradições - a republicana francesa, hoje celebrada, ou a "republicana, laica e socialista" como celebrizou Mário Soares - venha defender açaimes à blasfémia. Jurídicos ou morais.
 
Por isso tanto me irritei quando alguém me convidou (automaticamente, assim se desculpou quando respondi exaltado) para me associar a uma mera página-FB de apoio a Ana Gomes, a política portuguesa que de forma mais veemente, repetida e ignorante tem defendido a mordaça à blasfémia. A qual, no caso dela, reflecte apenas uma catastrófica ignorância racista - como se os integrantes de algumas (míticas) "comunidades religiosas" não possam ascender além das suas algemas "culturais". E também por isso se me azedam as teclas quando outros políticos dessa agora mera agremiação socratista que antes, in illo tempore, se declarava "laica" surgem nas mesmas poses irreflectidas, ignorantes. E bacocas.
 
Pronto, desabafei.
 
 

03
Jul21

O Secretário de Estado Galamba

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"Jovem segura sombrinha para que o Secretário de Estado Galamba não apanhe sol na moleirinha.", ironiza Rui Rocha.

Galamba está no poder - e numa posição importante - devido aos seus intensos serviços de propaganda socratista, muitos deles cumpridos no blog colectivo Jugular, constituído por radicais socratistas e do qual emanou (foi a Professora Palmira Silva que o instruiu) um blog anónimo remunerado de contra-informação e de disseminação do que agora se chama "fake news", o Câmara Corporativa, sempre pelos "jugulares" louvado e defendido. Se se pode torcer o nariz a estes antecedentes galambianos também se pode conceder que são adequados ao vigente socratismo sem Sócrates.
 
Enfim, a historieta deste "pequeno mal" do pacote de jornalistas, activistas e académicos que serviram com denodo a corrupção socratista e que continuam em funções, no governo, na política activa e na imprensa (até escandalosamente no "serviço público" da RTP, como Vale de Almeida), está mais do que sabida e redita. Mas tem alguma pertinência lembrá-la nesta semana. Durante a qual um dos mais afamados membros desse grupo e, in illo tempore, sabida promotora deste Galamba, câncio, provocou debate sobre a pérfida objectivação das mulheres por causa de um vestido atrevido (há quem lhe chame combinação) de uma assistente do inenarrável programa "Preço Certo" - como se o problema não fosse o programa, por si mesmo inaceitável numa televisão pública.
 
Mas a tal propagandista do socratismo (com ou sem o "animal feroz"), seus inúmeros "partilhadores" e concordantes, calam-se diante desta imensa objectivação das mulheres, deste rebaixar do "pessoal menor", nisto de em 2021 uma merdita de secretário de estado - e de um partido que se diz "socialista" - aceitar que uma mulher lhe seja apenas haste de guarda-sol.
 
Isto é o Portugal de hoje. Esta escumalha imunda Jugular a colher aplausos. "Anunciada na tv". E a chegar ao governo, para gerir os interesses nas minas. E parte, substancial, do povo pronta para lhes segurar seja o que for...
 
Como eu prefiro eu uma quarentona voluptuosa em vestes generosas! Antes o "Preço Certo" que estes "jugulares".

27
Jun21

Sonhámos Um País

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(Texto para o grupo de Facebook Nenhures - no qual divulgo as publicações deste blog):
 
Algumas impressões ainda a propósito do filme moçambicano "Sonhámos Um País" do Camilo de Sousa e da Isabel Noronha, que foi transmitido na passada semana pela RTP2 :
 
1 - Não vou aqui debater o filme. Pois - e apesar de eu, ao longo dos anos, ter depurado blog(s) e o meu FB dos dichotes alheios mais abrasivos - sobre a temática dos processos independentistas há sempre o risco de se cair num exasperado ambiente de "prós" vs "contras", de invectivas aos "tugas" (neo)colonos e aos "turras" comunistas. E não tenho paciência para isso, o que é razão mais do que suficiente para este meu evitamento.
 
2 - Mas alerto quem não o viu para que se trata de um belíssimo filme. Uma querida amiga - que investigou sobre a história cultural do país mas não é moçambicana e nunca ali viveu -, por mim alertada para a transmissão, escreveu-me "obrigada, chorei ao ver". 
 
Também eu me comovi e não tanto por conhecer o protagonista-realizador. Mas por no filme reencontrar - mesmo num objecto destes, um sofrido memorialismo analítico - os constrangimentos intelectuais impostos pela socialização no nacionalismo e, ainda mais, pelo impacto omnipresente do carisma da I República, em particular de Machel (Samora, como se o nomeia em Moçambique, forma óbvia de exaltante aproximação afectiva). Ilustro isso com a forma como a este se refere um dos três protagonistas do filme, um dos seviciados: repetidamente alude ao "saudoso marechal". Ou como quando Camilo de Sousa refere as instruções recebidas para documentar a situação dos campos de reeducação sendo que depois estes recrudesceram. Isto denota as contradições no poder de então mas também a ambivalência (quase sempre apagada) do próprio Machel. Mas mais interessante ainda, em particular para quem não esteja preso à "avaliação" retrospectiva do processo político - num verdadeiro "ajuste de contas", por vezes apenas revanchista mas na sua maioria devotado a reclamar legitimidade no presente - é reconhecer através do filme a força imensa que teve o moralismo, puritano mas também profundamente racista (e "tribalista", para usar o termo de então), naquela fase política mas também como molde de interiorização de uma forma particular de nacionalismo. Os quais, moralismo e racismo, se mantêm como adubo dos valores que são consagrados, no espaço político e privado.
 
E também por isso, por no filme se encontrarem estes nós górdios ideológicos que demarcam a análise do processo - mesmo num magnífico trabalho como este - que volto a recomendar a entrevista de Camilo de Sousa ao José Navarro de Andrade (a partir dos 30'30'' nesta ligação ao programa "Muito Barulho Para Nada", edição de 22 de Julho de 2020). Ambos sábios, sem oposição nem afronta por parte do entrevistador (como é tão costume na tv) mas uma verdadeira conversa, de facto sobre mundivisões. Desiludidas.
 
3. Nos comentários, no grupo "Nenhures" e em outros murais de FB, percebi que o filme nunca foi projectado ou transmitido em Moçambique. Estreado em 2020 em parte isso dever-se-á à contracção que o Covid-19 provocou. Mas talvez não só, pois presumo que haja algum evitamento local dado que é um objecto de difícil digestão interna: trata-se de uma dolorosa análise crítica "por dentro". Pois o Camilo é um "antigo combatente" e nunca "dissidiu" (para usar a velha terminologia). É então necessário procurar evitar o relativo silenciamento que este tipo de obras sempre promovem - naquele país e em tantos outros. E assim que pelo menos a RTP-África o transmita, o que seria um verdadeiro acto de "serviço público". Mas também que instituições culturais em Moçambique, nacionais ou estrangeiras, organizem a sua projecção pública, nas quais muito mais se induzem debates e memorialismos.
 
4. Sobre o período dos campos não inexistem textos. João Paulo Borges Coelho publicou "Campos de Trânsito" (em 2007) e Ungulani Ba Ka Khosa o "Entre Memórias Silenciadas" (em 2013). Seria interessante saber o impacto que estas obras realmente tiveram no contexto letrado do país. No qual este assunto dos "Campos de Reeducação", e da "Operação Produção", continua a ser mais aludida do que dissecada. E seria ainda mais interessante voltar-se a esses livros, debatê-los, o que é forma de os fazer ler, convocar a curiosidade sobre eles. E também Licínio de Azevedo fez dois filmes incidindo nesse período e na ideologia de moral pública então dominante, "A Última Prostituta" (1999) e "Virgem Margarida" (2012).
 
5. Finalmente quero chamar a atenção para uma excelente tese de doutoramento sobre esta matéria, realizada pelo investigador moçambicano Benedito Machava, "The Morality of Revolution: Urban Cleanup Campaigns, Reeducation Camps, and Citizenship in Socialist Mozambique (1974-1988)" [basta carregar no título que se pode gravar o documento completo]. É tempo desta tese sair do remanso dos esconsos acervos universitários e ser traduzida, publicada e lida. E, acima de tudo, debatida. O mesmo se aplica à tese de doutoramento de Isabel Noronha, co-autora deste filme, intitulada "Tacteando o Indizível", a qual ainda não li mas que decerto será contributo para um debate alargado (e ponderado, se possível) sobre este processo histórico, suas práticas e dimensões ideológicas.

09
Jun21

A RTP e a "Carta Portuguesa dos Direitos Humanos na Era Digital"

jpt

Na SIC Conceição Lino sobre a nova lei dita "Carta Portuguesa de Direitos Humanos na Era Digital". Aceite pelo presidente Sousa após ter sido aprovada por unanimidade sem aclamação na AR - o deputado que eu ajudei a eleger (o "meu" deputado) absteve-se, não lhe encontrou grande mal, devia então estar preocupado naquilo de como é o que o Benfica gasta 100 milhões e fica em terceiro, que é o que o preocupa diante dos dados sistémicos da situação nacional... E quanto aos outros? São o que são.
 
É importante ver estes 3 minutos. E também com eles ver a diferença entre esta jornalismo na SIC, problematizador. E o execrável "serviço público" da RTP, no aparente bon chic, bon genre desta petty lisbon da apresentadeira Cautela. A sufragar esta lei, escondendo-lhe estas pérfidas vertentes, para isso esfregrando-se literalmente no seu escriba Magalhães e no próprio presidente Sousa, este assim associando-se de modo tão vergonhoso à lamentável tarefa.
 
E nesta diferença entre estações vemos não só a prostituição da RTP como o lamentável presidente que elegemos.

08
Jun21

No fundo do barril do biscoito

jpt

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Estamos já no fundo do barril do biscoito, e nisso grassa escorbuto moral. Isto ultrapassa tudo. Serve para isto o "serviço público", presta-se a isto a presidência da República. Resta o que João Gonçalves convoca de Jorge de Sena: “... onde se morre em dignidade humana/ a dor de haver nascido em Portugal/ sem mais remédio que trazê-lo n’alma.” (Jorge de Sena)

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E esta mulher - que é, como apresentadora, um cúmulo de ordinarice, ainda que os invectivadores de Cristina Ferreira a aplaudam - também se esfregou em Magalhães, enquanto defendeu até à última a problemática lei de vigilância que este socialista maçónico elaborou. É o que a foto de cima parece? É, sem dúvida.

 

 

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