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Nenhures

São patéticos (para não dizer patetas) toda aqueles que foram lestos a criticarem a representação de Portugal na UE (a REPER, o célebre acrónimo) por ter recomendado a leitura do curandeiro Chagas Freitas num qualquer "concurso" internacional, e depois se desunham a partilhar (e "gostar") as pungentes, de inenarráveis, "crónicas" de Luís Osório. É inadjectivável o sucesso que aquela tralha tem...

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Há dias houve (mais) dois episódios bem denotativos do ambiente, muito induzido, vigente nos espectáculos desportivos, que vai passando incólume diante da opinião pública  - que continua a considerar muito normal a "oposição" entre adeptos - e do Estado, apesar dos sucessivos governos produzirem declarações de boas intenções e, até, criarem "organismos" destinados à vigilância e pacificação desses espectáculos. Agora as coisas vieram mais para os escaparates dado que havia crianças envolvidas nos dislates, primeiro em Famalicão, depois no Estoril (como a fotografia ilustra). 
 
A ausência de repressão sobre a ralé clubista é notória, bem como o seu acarinhar, tanto pelas "instituições de utilidade pública" que são os clubes desportivos como pela imprensa, que se desdobra em mesuras e atenções para os "dirigentes" e actividades dessas faunas. E nisso há uma inculta incompreensão sobre as características (repito, muito induzidas) destes processos. 
 
Por isso tanto me chamou a atenção um postal do escritor moçambicano Luís José Loforte), que resume bem a ignorância da imprensa portuguesa que aflora o assunto. Pois há dias disse Loforte: "Nos jogos [de futebol] em Moçambique tenho notado que cada um vai com a camiseta do clube da sua predilecção e senta onde bem lhe apetece, ou onde a sua carteira lhe permitir, sem problemas e onde quer que seja. Foi pungente a imagem do menino português, adepto do Benfica, obrigado a assistir o jogo de tronco nu apenas porque estava entre adeptos do Famalicão. Mais triste ainda foi um jornalista [televisivo] a dizer: "Até parece um país do terceiro mundo!". E quando li tamanha burrice, conclui: como Moçambique, por exemplo!"
 
Não haja dúvida, uma imprensa do "Terceiro Mundo". E uma tutela estatal sobre o desporto que é do "Terceiro Mundo". Isto para se falar de forma a que esta ignorante gente perceba...

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O filme está aqui: o Jornal de Notícias noticia que dois polícias agrediram um homem com um cassetete e que as imagens divulgadas geraram uma onda de indignação. O Expresso é ainda mais enfático, publica a imagem (um fotograma do mesmo filme) acompanhado de uma legenda denunciante,

numa óbvia condenação do acontecido ao "cidadão" (como faz questão de frisar) que estaria "aparentemente desarmado". E o normalmente enfático Correio da Manhã noticia que o homem (o tal "cidadão") ameaçara com "ferros" os polícias depois de o fazer aos transeuntes. E é este "ameaçar com ferros" que é o mais significante de todo este fluxo noticioso sobre a matéria...

Eu, com alguma desatenção, vira o breve filme numa qualquer estação televisiva, que ia acompanhado de uma locução cuja forma não recordo mas que não era simpática aos "agentes da autoridade". Impressionei-me com aquilo, num "lá estão estes gajos outra vez..." (os polícias, claro), aquela meia dúzia de bastonadas num tipo já relativamente imobilizado, mesmo que ainda algo estrebuchando, e - o que mais me impressionou, ainda que tal não seja ilegal - a acção de imobilização através do joelho no pescoço, que ficou mundialmente celebrizada há dois anos quando um polícia americano assim esganou um cidadão, dando azo a grandes manifestações.

Mas nos dias seguintes, e enquanto continuam as denúncias públicas do exagero policial e se anuncia um inquérito a estes dois agentes - os quais muito provavelmente serão punidos, até porque a opinião pública isso parece desejar - percebo outra coisa: os tais meros "ferros" não são ferros... O homem estava na tarde das estreitas vielas do Bairro Alto a ameaçar pessoas. E veja-se a fotografia (fotograma do filme de telemóvel): fazia-o brandindo arma letal - não é exactamente nem sabre, nem espada, nem uma catana, mas a esta se poderá assemelhar, ainda que eu prefira chamar-lhe cimitarra. E o outro "ferro" é uma placa metálica que deverá ter sido usada (imaginada) como um escudo. E diante de um homem assim armado, decerto que exaltado (e muito provavelmente desequilibrado), dois jovens polícias arriscam-se - por dever de ofício - à tarefa de o imobilizar num corpo-a-corpo, e acompanham isso com meia dúzia de bastonadas em zonas do corpo nunca letais, para o aquietar em definitivo. 

Face a isto, filmado ainda para mais, a imprensa chama "ferro" à cimitarra, "cidadão" ao agressor ( - num mundo em que se um tipo chama "gordo" ou "maricas" a outro isso torna-o um agressor, como se definirá um tipo desabrido a invectivar os vizinhos no meio da rua, armado daquela maneira, que não seja como "agressor"? E não "agredido"!) E considera, a imprensa, "agressão" a acção policial. O poder investiga (e tem de o fazer) os dois agentes. A opinião pública resmunga contra a  polícia. 

Há aqui qualquer coisa errada. E não é só o ter sido o homem imediatamente solto (até à sua próxima iniciativa, temo). 

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O caso do treinador português Alberto Lário é interessante. Tendo sido detido em Moçambique por não estar correctamente documentado - e assim ilegal no país - foi libertado e, leio agora, não será deportado, o que muito saúdo.
 
Desconheço o treinador, nunca ouvira falar do seu trabalho, que tem sido muito elogiado, e desconheço completamente o que causou esta desagradável situação administrativa. Mas, assim à distância, retiro três pontos de tudo o que tenho lido nos últimos dias:
 
1. Lário nasceu em Moçambique, saiu em criança aquando da independência. Regressou à sua terra natal e, de acordo com a lei nacional, solicitou a nacionalidade. Está há seis anos à espera de uma decisão. Esta imensa delonga é uma situação... típica, como é consabido.
 
2. Li vários, e outros haverá, testemunhos e declarações de moçambicanos reclamando contra esta situação, afirmando a injustiça que Lário sofre(u). E todos sublinhavam o excelente trabalho que o treinador vem fazendo, em prol do atletismo nacional. É normal essa ênfase quando por exercício de cidadania se toma a defesa de alguém. Mas será conveniente recordar (tanto para Moçambique como para Portugal) que os direitos individuais não dependem da excelência do indivíduo. Ou seja, os atletas treinados por Lário poderiam não ter tantas capacidades, Lário poderia ter métodos de trabalho não tão competentes, ou apenas algum azar poderia ter obstado a que se obtivessem tão bons resultados. E nada disso reduziria os direitos do cidadão Lário. E julgo que esta, até antipática, nota pode servir para reflectir não sobre este caso mas sobre a tipicidade que o abrange.
 
3. Um terceiro ponto que é totalmente excêntrico a esta situação. Deixo aqui ligação à notícia, já velha de dois dias, emanada pela agência LUSA, que foi publicada no "Público". Este jornal tem sido, desde há vários anos, o órgão de comunicação social mais demagógico relativamente às relações entre a sociedade portuguesa e as sociedades africanas. Agora publicou esta notícia, no registo neutral da mera "take" recebida. E contrariamente a tantas outras situações com questões (mesmo que levemente) aparentadas, não teve disponibilidade nem interesse para desenvolver o caso ou para dar palco sobre o assunto ao seu habitual núcleo de colunistas antropólogos, estudiososculturais, historiadores, sociólogos e afins, sempre lestos na gritaria "decolonial", ou aos ali recorrentes propagandistas das ong's dedicadas à "justiça social" internacional. Se fosse preciso algum exemplo para sublinhar a profunda desonestidade intelectual que grassa naquele jornal do grupo SONAE, está bem aqui.
 
Enfim, votos de sucessos desportivos para o atletismo moçambicano. E - como sportinguista que bem se lembra dos destratos sofridos pelo meu saudoso Estádio José de Alvalade aos pés das assistências de concertos rock - os meus votos pela preservação das instalações desportivas no Parque dos Continuadores, questão que terá originado esta detenção do treinador.

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Eu não assino os jornais (nada tenho contra eles, é apenas devido à escassez do vil metal...). Assim, do que não está em acesso livre, vejo os títulos, cabeçalhos e - por vezes, quando são disponibilizadas - as introduções dos artigos. É deste modo que agora - via um cabeçalho do "Público" - vou ao "Expresso" (a imprensa de "referência") onde um afamado colunista, representante da "esquerda", bota o seu juízo sobre o ex-PR angolano Santos. Ancorando as suas práticas nos efeitos de "500 anos de colonialismo"...
 
Ora perorar sobre "500 anos de colonialismo" é, pura e simplesmente, uma indigência intelectual. Ou ignorância alarve ou aldrabice alarve, em plena "imprensa de referência". Mas o que é verdadeiramente pungente nem são as décadas que os jornais passam a acolher esta tralha. São as décadas que os leitores, energúmenos, passam a ler isto.

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