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Nenhures

Nenhures

Carlos do Carmo

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Para além do calendário a vida não pára. Ou seja, a morte não pára. A assim abrir o ano. No cantor-fadista sempre senti uma sisudez composta que me desencantava. Mas tanto lembro, eu nos 16 ou 17, do espanto de o ver - na "Avante" ao Alto da Ajuda - a cantar esta Valsa assombrosa. Arrebatador!
 
(Carlos do Carmo, La Valse à Mille Temps, 1980)
 
E horas depois, já em casa, "Pai, que achaste daquilo?". E ele, camarada, "Não é o Brel!... Mas foi muito bom, muito bom". E foi.

Miguel de Vasconcellos

 

Miguel_de_Vasconcellos_(Diario_Illustrado,_1890).png

Cumprem-se hoje 380 anos do assassinato do primeiro-ministro (e antigo ministro das Finanças) Miguel de Vasconcellos e Brito. Afincado europeísta, foi vítima de uma revolta de cariz soberanista (nacionalista, em linguagem actual) - propagandeando uma conservadora ideologia lusófona -, catapultada por uma profunda crise económica que impusera uma política austeritária e concomitante carga fiscal. 

Passaram quase quatro séculos de poderes políticos, de poderes académicos. E não há, que eu saiba, um mero monumento que o recorde com a dignidade devida. Procuro e nem uma biografia, um estudo compreensivo ... Nada, apenas a continuidade de uma memória vilipendiada, a do "defenestrado". E a dos "gloriosos capitães conjurados".

Enfim, é o que é, somos o que somos ... Fiquemos com os feriados, que é o que se aproveita.
 

Eduardo Lourenço

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A sorte não foi ter este livro em casa mas sim tê-lo lido, muito jovem ainda. E depois passar a olhar tantos dos circundantes, sem qualquer soberba mas com a percepção de que "estes não leram o Lourenço", aquele, alguns textos até ainda dos finais dos 1950s! Forma de me ter feito português, minha identidade. Coisa essa a que ele voltou recorrentemente, e que fui lendo - claro que já sem o encanto da descoberta "teenager", até porque cada vez mais afastado do estilo (e daquele psicologismo ou, melhor, "psicanalismo"). Já trintão muito sorri quando Lourenço, no seu estilo até plácido, de facto zurziu o fim de século "lusófono" dos seus compatriotas - e correligionários. Que me lembre ia só nisso, para além do muito mais ácido Alfredo Margarido, olhando aquela incultura lisboeta.
 
Vi-o há poucos anos, na Gulbenkian, numa implícita homenagem rodeada de "decoloniais" que (nada) paradoxalmente ali se congregavam a saudar o império, os "patrimónios de origem lusa", enredados numa radical inconsciência. Nada disse sobre tal coisa, talvez já não lhe fosse importante. E então já era o ilustre posfaciador do Senhor Engenheiro. Não teria precisado de nada daquilo. Mas preferiu assim. O tanto que demonstrou sobre nós todos é muito mais importante do que essas minudências do longo ocaso

Maradona

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Há alguns séculos no leste do Mediterrâneo contavam-se inúmeras histórias populares. Para fixar e preservar essa oratura, ou folclore como também foi chamado, foi constituído o primeiro Centro de Estudos Etnográficos e Filológicos da história. Ficou conhecido como HOMERO (um acrónimo, ao que julgo saber).
 
Uma das histórias que esses etnógrafos recolheram foi a do herói - ou seja, bastardo de deus - Aquiles. Um tipo fora a casa de outro e fugira com a "mulher do dono". Há quem diga que foi um "rapto de mulher", qual sabina, outros - mais românticos - acreditam que foi coisa d'amor, pouco importa. Os amigos do dono juntaram-se e, em bando, foram recuperá-la. Não foi um coisa tipo KKK, pois apesar do atrevido viver na Ásia não era cigano. Nem preto. Foi muito mais uma cena de "padrinhos", que um chefe não rouba a mulher do outro, é isso a honra ...
 
Quando lá chegaram houve zanga, e grave: Aquiles era o nº 1 do ranking, o MVP da equipa, e por isso carregava a nº 10. Mas ainda assim o treinador, pois o "capo del tutti capi", Agamemnon de seu nome, roubou-lhe a escrava que ele usava sexualmente (nem o dr. Ba nem a Comissão da Condição Feminina têm abordado a situação com a atenção devida ...). Indignado, Aquiles amuou e recusou-se a ir a jogo. Cumpriram-se várias jornadas da competição e o torneio estava a correr mal aos forasteiros, desprovidos do seu astro. Então promoveram um sub-23, prometedor, deram-lhe a tal camisola 10 e a titularidade. Correu mal. Ao saber daquilo, do junior desgraçado, Aquiles caiu em fúria excessiva - logo tablóides aventaram, e ainda aventam pois sempre em busca de escândalos, que ambos eram LGBT, e isso apesar de toda a bronca devida à escrava sexual. Mas tablóide é tablóide.
 
Enfim, tão irado ficou o campeão que saiu à liça, teve uma entrada assassina sobre o capitão adversário, devastando-o de tal modo, completamente "à margem das leis", que o treinador adversário, condoído, entrou em campo a pedir calma.
 
(É certo que depois as coisas não vieram a correr bem a Aquiles. Pois num torneio posterior um tal de Erínea, ou terá sido o Nemésis, não sei bem, fez-lhe uma entrada venenosa ao calcanhar, tão grave que lhe acabou a carreira, de modo precoce).
 
A história ficou. E este é o modelo de herói que seguimos, e tanto amamos, há muito tempo. Nós os pérfidos "ocidentais", netos daquela Grécia. E muitos outros (atrevidos na "apropriação cultural" que desavergonhadamente fazem). Herói pois caprichoso, abusador, furioso, glorioso. Excessivo! E interrompido, breve, pois derrotado após um (in)findável ciclo de vitórias. Nisso tudo Semi-Deus. Frágil nisso, para além da Ética.
 
A ele regresso sempre. Mais agora quando vejo tanto rato de sacristia resmungar contra o nada-exemplar Maradona, pois nada molde de bom pai de família, de honesto pároco ou de recto professor. Pobre gente que nada percebe. Dos homens. E, mais do que tudo, dos deuses e seus bastardos ...
 
Aqui deixo Maradona no Argentina-Bélgica no campeonato do Mundo de 1986. Há quem perceba ... E quem não possa perceber.

Luís Macedo

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(Luís Macedo; Fotografia de Steven Governo / Global Imagens, retirada daqui)

Em Maputo pouco privei com Luís Macedo, oficial de Abril e antigo membro do Conselho da Revolução, que ali (mais exactamente na Matola, se não estou em erro) viveu as suas últimas décadas. Algum esparso convívio, intermediado por amigo comum, que com ele comungava a condição de ex-aluno do Colégio Militar, algo que a esses sempre cria uma simpática e peculiar solidariedade. Mas ainda tivemos o privilégio de o recebermos, e à mulher, em nossa casa.

Uma relação distante, não posso dizer que o conheci. Mas era notório o homem confortável em Moçambique. E contido, clarividente, de arguto, com um humor suave (ou pelo menos assim em ambiente algo cerimonioso, pois não íntimo). E, acima de tudo, um Senhor. Daqueles que escasseiam, e que alumiam quando surgem. Entenda-se que alumiam os recantos, pois não adeptos do estardalhaço dos neons.

Na semana passada um amigo telefonara-me, preocupado, informando-me que o Coronel Luís Macedo estava internado, padecendo deste malfadado Covid-19. Morreu em Maputo no fim-de-semana, aos 73 anos. Que se orgulhem os seus do homem que ele foi.

Seninho

Flashback Video: Johan Cruyff Assist for Seninho goal vs. World All-Stars

As décadas passam e vamos esquecendo. Seninho foi um magnífico extremo, rapidissimo e codicioso, com o grande defeito de jogar no F.C. Porto, quando este começou a ganhar títulos no final dos anos 1970. Foi um dos primeiros grandes emigrantes do futebol português, directo ao topo mundial de então - o milionário New York Cosmos, quando se começou a disseminar o futebol nos EUA. Era uma colecção de estrelas, na maioria já veteranas mas ele ainda no apogeu. Aqui está Seninho a marcar um grande golo após um toque genial do monumento Cruyff, num jogo contra uma selecção mundial.

Seninho morreu hoje. As minhas condolências a todos que, como eu, dele foram admiradores. E, claro, de modo especial, à sua família e amigos.

Manu Dimango, "personagem totémica"

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Manu Dibango: artigo na Rolling Stone (anglófona) e outro artigo (francófono), um pouco mais substantivo. 

Entrevista de Manu Dimango à RFI, feita por Claudy Siar, produtor de "Couleurs Tropicales".

Super Koumba, o que fazia em finais da década de 1980s, durante a qual o vi na Festa do Avante, a última vez ali fui.

O banquete final

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Este maldito vírus quebra-nos a vida, angustia-nos presente e até futuro. A morte de Uderzo, ainda que tão natural aos seus 92 anos, e felizmente ocorrida na placidez do sono, sem qualquer ligação a esta pandemia, encontra-nos confinados. Trazendo isto de nem podermos fazer o requerido banquete final, exigível ao final deste episódio, o uderziano. Majestoso.

Que o seu legado, e não só Astérix, nos acompanhe agora, até avivado na memória pela sua morte. No seu humor e beleza servindo mesmo de estratégia da necessária mitigação. Banqueteemo-nos com os livros. E com as memórias das anteriores leituras.

Deixo aqui ligação a um bom e muito informativo texto sobre a obra do autor: Uderzo (na Comiclopédia). Bem recomendável.

 

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