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Nenhures

Nenhures

O Nobre Colono

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Aos meus 57 anos, 18 deles vividos em Moçambique, aprendo agora - em texto publicado por prestigiado intelectual lusófono, debruado com eruditas citações de escritores franceses algo esquecidos (o que sublinha a culta autoridade do seu citador) - que os portugueses que nasceram naquela ex-colónia têm uma "marca distintiva: uma certa candura, simplicidade, afectuosidade e fácil entrega, em suma, uma total falta de ronha, em língua de boa cepa moçambicana. Coração na boca, capaz dos maiores dislates, mas não intrinsecamente mau, bem ao contrário." Aprendo ainda que aqueles que duvidam dessa beatitude inata dos colonos oriundos da "Pérola do Índico" são vis "Tartufos".
 
E vejo este texto saudado nas redes sociais e replicado (elogiosamente) na imprensa moçambicana. Face ao sucesso deste magnífico trecho analítico, resta-me esquecer de vez as malditas leituras com que fui poluindo a minha mente nestas últimas décadas, algo avessas a estas "personalidades de base" (e talvez mergulhar nos tais clássicos franceses, que ficam sempre bem quando referidos). E louvar o bondoso (pois nascido em Moçambique) coronel Carvalho, aliás, o querido Otelo, mote da eulogia a que aludo. E estender-me em genuflexões diante de Mestre Eugénio Lisboa, autor destas tão doutas palavras.
 
(Poderia, como opção, ter soltado um peludo palavrão. Mas as mulheres da minha família não me deixam. Ou seja, mais vale Tartufo do que malcriado)

A morte de Carvalho

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(Amílcar Cabral e Nino Vieira, entre outros combatentes. Desconheço a autoria da imagem)

1. Em primeira análise devemos o 25 de Abril, a paz e a democracia, o desenvolvimento do país inscrito no assim não tão polimorfo modelo social europeu, as liberdades individuais e colectivas, ao arreganho e quantas vezes até heroísmo dos combatentes do PAIGC, da FRELIMO, e (em moldes mais complexos e até ambivalentes) da FNLA, do MPLA e da UNITA. Foi a sua corajosa acção que então tornou Portugal um país pária e o Estado Novo (fascista, colonial-fascista, ditatorial, autoritário, é-me agora indiferente como o querem catalogar) uma decrepitude anacrónica.

2. Os oficiais subalternos que desde 1973 se organizaram por causas corporativas e que - acima de tudo cansados da desvairada guerra - vieram a fazer os golpes de Março e Abril de 1974 foram nisso, e evidentemente, corajosos. Mas uma coragem menor em grau do que aquela que, tantos deles, haviam demonstrado nas estuporadas e injustas guerras africanas. Não se trata apenas de lembrar que os operacionais desses golpes estavam calejados em bem mais complexos e violentos contextos de guerra. Mas também lembrar que o estado do Estado Novo era já patente (veja-se o percurso de Spínola e, também, de Costa Gomes nesse estertor do marcelismo).

Não nego homenagem a quem arriscou muito nesse início de 1974. Mas trata-se de não sobrevalorizar, mitificar, esses riscos. Enfim, resumo-me: fosse eu um pouco mais ingénuo e surpreender-me-ia com este actual universo ideológico e propagandístico atarefado em decapitar os mitos glorificadores de Diogo Cão, Bartolomeu Perestrelo e afins, enquanto se afadiga em glorificar os oficiais que vieram a Lisboa em 1974 enterrar o já defunto regime, enfrentando para isso alguns dos seus desanimados camaradas de armas, em tantos casos também camaradas de geração de Academia Militar.

3. Figuras relevantes do início da democracia morreram neste XXI. Militares como Rosa Coutinho, Costa Gomes, Eurico Corvacho, Vasco Gonçalves, Dinis de Almeida, Alpoim Calvão, civis como Mário Soares, Almeida Santos, Álvaro Cunhal, Freitas do Amaral, etc. Aquando dessas mortes sempre se levantaram algumas discussões públicas sobre as suas personalidades políticas. E os laivos de acinte que então surgiram vieram, fundamentalmente, de núcleos de gente regressada (ou oriunda, em alguns casos) das ex-colónias, um universo (até geracional) que continuou a personalizar/culpabilizar alguns indivíduos pelo inevitável desenlace da história. Ou seja, para a esmagadora maioria da população as diferenças ideológicas não implicaram desajustados ajustes de contas com os falecidos. Num, de facto, canónico "descanse em paz" dedicado a cada um desses. O sentimento geral é o de que houve desmandos no PREC, houve violência (encetada pelos assassinatos perpretados pelos agentes da PIDE em 25 de Abril), mas que se constituiu um posterior consenso de que "o que aconteceu no PREC ficou no PREC". E nisso decorre uma avaliação diferenciada mas democrática do processo posterior e das suas personagens.

Mas agora na morte deste Carvalho as coisas são diferentes. A repugnância pelo indivíduo é patente em muitos de nós. Pois Carvalho em democracia comandou um grupelho terrorista assassino. Agora, e mais uma vez como em todos os meses de Abril foi habitual, moles de gentes que por aqui andam invectivam o nojo pelo terrorista como característica da "extrema-direita". Tal advém de uma mera táctica, executada por consabidos avençados desta era geringoncica, na qual que convém aos poderes fácticos namorar os resquícios afectivo-ideológicos dos velhos grupelhos m-l. Ou, pura e simplesmente, daqueles que exsudam um efectivo desprezo pela democracia. Ora os crimes que exigem um total repúdio por Carvalho não "ficaram no PREC", são muito posteriores. Os democratas podem ter diferentes visões dos anteriores falecidos, é isso normal. Mas apenas os biltres podem saudar a memória de um assassino.

4. Posso compreender que um militar, camarada de armas, venha agora falar da "bondade" e "generosidade" de Carvalho. Mas a resposta ao nosso respeitável General Eanes só pode ser uma: onde está a generosidade e bondade de quem manda matar 16 vulgares cidadãos em nome de um desvairado e ultra-minoritário ideário?

5. O estado da cultura portuguesa é uma vergonha. O antigo ministro da Cultura João Soares vem dizer que "desculpa as asneiras" de Carvalho. Ou seja, fundar e capitanear um movimento terrorista assassino em democracia são meras "asneiras". É esta a densidade semântica de um gajo que chegou a ministro da cultura. Espero viver o suficiente para lhe escarrar na campa. Na do ex-ministro, entenda-se. 

 

Morreu Artur Ferreira

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A Ceifeira é infatigável. Agora morreu o Artur Ferreira. Decano fotojornalista de automobilismo, com centenas de GP's de F1 no arquivo e inúmeras histórias desse meio, vivia como os bólides que fotografava: terá sido o homem mais acelerado que conheci. Um verdadeiro globetrotter, numa personagem peculiar e com uma mundivisão muito própria que não se coíbia de afixar.
 
Conheci-o em 1997 quando foi a Maputo apresentar uma exposição fotográfica, enorme, a "Por esses Oceanos ao Encontro de Culturas". Fez-se na Associação Moçambicana de Fotografia, então apenas a parte africana do acervo. Voltou depois, e no Camões se apresentou a parte asiática. Nos anos subsequentes dirigiu várias revistas em Moçambique, entre as quais a "Índico" da LAM. Tinha uma capacidade industriosa espantosa, pois tudo isso fazia enquanto viajava constantemente, saltando de continentes como nós íamos à vizinhança.
 
Devo-lhe algo: em 1998 fui em casal à Zambézia. O Artur Ferreira estava em Quelimane a fazer uma reportagem. E deu-nos uma boleia aérea no dia em que foi fotografar os montes Namuli e o Delta do Zambeze. Teria dado uma grande crónica esse dia. Mas ficou uma esplendorosa memória.

Jane Flood

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Leio que a Jane Flood morreu agora, nos seus 63 anos, em Zanzibar. Na sua peculiaridade a Jane também correspondia um pouco à imagem de um certo tipo (até literário) de senhora "british", na sua informalidade mesclada de generosa "flamboyance", de riso solto e genuína empatia pelo que a rodeava. Algo que alguns entendem como candura mas que é, de facto, a inteligência da curiosidade despreconceituosa. Nunca fomos íntimos mas tinha por ela grande simpatia. Algumas vezes nos sentámos juntos, bebendo um copo de vinho branco - com ela eu suspendia a rude cerveja e o agressivo uísque - em conversas soltas, num pidgin em que mesclávamos o seu mau português e o meu atrapalhado inglês.
 
Nessas conversas, e nas tantas vezes que nos cruzávamos, era notório o verdadeiro encanto que a Jane tinha por Maputo, pelo património herdado - arquitectónico, urbanístico, artístico - e pelo pulsar actual, as exposições, os ateliers, os bairros bem para lá do "cimento" burguês, a música. Aquela senhora amou mesmo Maputo e quem lá está. E isso era-me muito agradável de assistir e de fruir, ainda que a minha paixão estivesse alhures, pois pelo país afora.
 
Nisso a Jane acabou por criar a Maputo a Pe Tours, passeios pela cidade muito bem organizados. Eu fiz alguns, aproveitando para conhecer o roteiro da arquitectura de Pancho Guedes - grosso modo, um pouco após o espantoso trabalho de divulgação que a então cônsul portuguesa Graça Gonçalves Pereira realizou.
 
Enfim, nos últimos tempos a morte tem acontecido a muitos dos meus queridos e simpáticos. Isso acabrunha. E hoje fico mesmo triste com a morte da Jane (nesta foto ela é a mulher branca, a terceira a partir da esquerda, entre a equipa da "Maputo a Pé", indo para a Macaneta em 2016). Amanhã ela será cremada em Zanzibar às 9 horas. Uma amiga publicou que ela nos convidou para "ok, chorarmos um pouco mas não muito". E para que vistamos roupas coloridas (claro) e bebamos um copo de vinho.
 
Eu não sou muito desses rituais. Mas amanhã a essa hora certa, matinal, estarei neste meu aqui de verde garrido e beberei dois copos de vinho. Um pela memória da simpatia da Jane e um outro pela da sua risada, única. Aliás, beberei ainda um terceiro: lembrando o amor dela por Maputo.

 

Amadeu Castilho Soares

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(Amadeu Castilho Soares em trabalho de campo na (actual) Guiné-Bissau, 1959-1960)

Aos 90 anos morreu agora Amadeu Castilho Soares, durante décadas gestor de recursos humanos, área laboral na qual foi um dos primeiros presidentes da respectiva associação profissional. Aqui evoco o seu breve período de investigador "africanista" - como então se dizia - e a sua fugaz mas impressiva experiência no governo colonial. Pois esse seu percurso denotou dinâmicas político-administrativas daquele ocaso imperial mas também algumas das suas ambivalências, as quais não deixam de apelar ao matizar de interpretações mais sistémicas dessa era.

Castilho Soares frequentou a Escola Superior Colonial - entretanto renomeada como Instituto Superior de Estudos Ultramarinos (futuro ISCSPU e actual ISCSP) -, instituição na qual logo veio a ser docente. Nesse ambiente formativo foi muito influenciado pelas concepções então reformistas de Adriano Moreira. Foi esse mestre que o integrou em investigações nas colónias, organizadas pela Junta das Missões Geográficas e de Investigações do Ultramar, numa época em que se procurou dinamizar a até então escassa investigação em temáticas antropossociológicas.

Nesse âmbito integrou a Missão de Estudo para a Atracção das Grandes Cidades e Bem-Estar Rural, com estadas de terreno durante as férias lectivas entre 1956 e 1959 em Angola e Moçambique. Nesta podia-se reconhecer a influência de concepções então emergentes, tendentes ao desenvolvimento comunitário rural - consagradas desde o início daquela década pela ONU -, e cooptadas em Portugal também para o esforço reformista do regime colonial em busca da sua legitimação internacional. A posteriori pode-se ainda notar a relação desses intuitos com a preocupação administrativa com o que então se dizia "destribalização", as transformações oriundas dos fenómenos de urbanização, assalariamento e até migrações. Mas o que agora será ainda mais interessante é detectar naquele quadro intelectual  concepções que, salvaguardadas diferenças de objectivos e métodos, ressurgiram décadas depois exactamente sob esse epónimo, o tal "desenvolvimento comunitário" ainda muito em voga neste XXI.

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É interessante para o historial da investigação portuguesa e da sua articulação com os objectivos político-administrativos que dessa longa pesquisa, congregando fundos então algo inusitados, não advieram os resultados colectivos esperados. Pois apenas resultou a tese de licenciatura de Castilho Soares, este “Política de Bem-Estar Rural em Angola”. Tal não se terá devido apenas à particular competência do autor, tornando-o excepção naquele projecto, mas indicia falta de organicidade institucional, a qual fragilizava o desenho e a realização das investigações. E não deixa de denotar que o vínculo entre as pesquisas realizadas e os mandamentos políticos que as convocavam eram, de facto, mais ténues do que interpretações posteriores vieram afirmar, acabando por ser mais um ambiente intelectual do que propriamente uma política cabal.

Foi nesse mesmo contexto que Castilho Soares integrou em 1959-1960, na condição de sociólogo e juntamente com os arquitetos Schiappa Campos e Saragga Seabra, a Missão de Estudo do Habitat Nativo da Guiné, cujo plano indicia o mesmo tipo de preocupações, uma abordagem etnográfica que baseasse o reconhecimento e valorização do modus vivendi populacional. Algo que se pode ligar com os intuitos então proclamados de gerir o povoamento, inclusive através da reorganização administrativa local e de reassentamentos rurais, que viessem a obstar aos fenómenos de "destribalização", estes perspectivados como anómicos e temidos como fonte de processos independentistas. Também neste caso os resultados da investigação não foram imediatos, em parte pela posterior realocação dos investigadores a outros serviços. Assim só em 1970 foi publicado o relatório Habitats Tradicionais da Guiné Portuguesa, abarcando um espectro bem menor do que o objectivo inicial - o que de novo permite referir a fluidez dos laços entre administração e investigação. E só muito recentemente esse precioso material fotográfico foi recuperado, através da exposição "Moranças - Habitats Tradicionais da Guiné-Bissau". (Aqui o folheto). Mas essa esparsa relação entre propósitos políticos e concepção das investigações, bem como o voluntarismo que a estas ancorava, perpassa ainda mais no interessante depoimento que Castilho Soares concedeu à historiadora Cláudia Castelo em 2010. No qual explicitou a disparidade entre os enormes objectivos iniciais e os recursos realmente disponibilizados, bem como a falta de formação metodológica da sua geração. 

Depois, com apenas 31 anos, e também por intermédio de Adriano Moreira, que viria a assumir funções ministeriais, foi nomeado para o governo de Angola, como Secretário Provincial da Educação, Saúde e Trabalho e Segurança Social. Eram, como disse, "as 3 áreas politicamente mais melindrosas quer a nível interno quer face à política internacional", exactamente no período da revogação do Estatuto do Indigenato e de alterações da Lei do Trabalho, ilegalizando a então omnipresente corveia. Nesse período desenhou o inovador projecto de desenvolvimento da Escola rural, o "Levar a Escola à Sanzala", uma verdadeira reforma que procurava alargar a alfabetização, concebida à margem da igreja católica à qual o Estado Novo havia entregue o ensino da população africana e que se veio a opor a esta iniciativa. Também neste caso agora se nota como algumas daquelas concepções foram recuperadas, décadas após as independências africanas, pois são patentes as similitudes com as metodologias actuais das "escolas comunitárias"  construídas pela população rural e sob sua relativa tutela, fornecidas de professores formados pelo Estado. 

Durante esse seu trepidante curto mandato foram criados vários liceus, escolas técnicas, de enfermagem e de serviço social. E iniciou-se o processo de estabelecimento da Universidade em Angola, o qual Castilho Soares acompanhou ainda que dele não fosse responsável. Mas este provocou acesa polémica política e mesmo a eclosão da crise entre os "integracionistas", partidários do centralismo metropolitano, e os crentes nas virtudes descentralizadoras, então emergindo no território angolano. Assim a proclamação provincial da universidade de Luanda veio a ser vetada pelo governo nacional, num processo que aceleraria a posterior abertura dos Estudos Gerais em Lourenço Marques e Luanda (1962 e 1963). Mas esse episódio foi o culminar de uma tensão entre essas correntes políticas e acabou por provocar as demissões do ministro Adriano Moreira e do governo colonial do general Deslandes.

Desse seu fulgurante biénio, e do seu afã reformista, ficaria como fundamental traço o projecto de alargamento da rede escolar, sem tutela eclesiástica. Demitido o governo de que era membro, Castilho Soares regressou a Lisboa sofrendo uma surpreendente represália estatal, bem mostrando como eram fluidas e complexas as concepções então dominantes e espúrias muitas das retóricas propaladas. A esse propósito, e com toda a pertinência, disse o professor Adelino Torres que o "Levar a Escola à Sanzala" se tratou "de um plano em grande escala concebido e corajosamente executado pelo antigo Secretário Provincial da Educação de Angola, Amadeu Castilho Soares. O plano era tão ousado que deu origem à posterior destituição pura e simples deste alto funcionário e ao seu afastamento da carreira universitária, para além de uma perseguição mesquinha de que foi vítima durante anos.

Assim afastado das áreas de investigação a que se dedicara desde a sua juventude Amadeu Castilho Soares inflectiu a sua vida profissional, seguindo uma preenchida carreira na gestão de recursos humanos. Já viúvo deixa agora filhas, netos e bisneto. Foi precedido na morte pelo seu filho, e meu saudoso amigo, João Nuno. O qual tanto recordo nestes dias de pesar.

NotaLista dos textos de Amadeu Castilho Soares

Soares, Amadeu Castilho (depoimento, 2010), IICT, 2011. 16 p. (entrevista concedida a Cláudia Castelo)
 
 
Adenda: para quem tiver interesse sobre esta época deixo - sem quaisquer pretensões de ser exaustivo - estas referências bibliográficas (basta pressionar a ligação para aceder aos documentos em formato pdf): Carla Abrantes, "Repertórios do conhecimento em disputa: trabalhadores indígenas e agricultores no colonialismo português em Angola, 1950"Cláudia Castelo, "Novos Brasis" em África: desenvolvimento e colonialismo português tardio"Fernando Tavares Pimenta, "O Estado Novo português e a reforma do Estado colonial em Angola: o comportamento político das elites brancas (1961-1962)"

Gerhard Liesegang

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Aos 80 anos morreu Gerhard Liesegang, autor de uma preciosa e vasta obra sobre a História de Moçambique, desde o seu doutoramento sobre a história do Estado de Gaza. Seguiu como praticante de Antropologia Histórica, e nisso foi enorme exemplo da irrelevância destas divisões disciplinares de que alguns são tão ciosos. Ele próprio assim se anunciava, não só na simpatia com que olhava os colegas antropólogos como quando deixava cair ter estudado (aquando na Londres dos anos 1960) com professores como Isaac Schapera, Raymond Firth, Robin Fox, Lucy Mair ou Tom Bottomore. De facto, nele subsistiu com pertinência a ambiciosa tarefa boasiana, da extrema abrangência do exercício individual das ciências sociais. Nisso fazendo-o um verdadeiro sábio.

Era um homem de enorme simpatia, a qual nem a sua (aparente) timidez escondia. E dono de uma dicção dificílima de captar - lendária até, e sempre carinhosamente evocada por colegas e ex-alunos. A qual nos convocava para ainda uma maior atenção para o que ele proferia. Lembro-me que em 1994 no meu segundo dia em Moçambique José Soares Martins (Capela) - sabendo que eu ia para o Norte - me mandou ter com ele. Recebeu-me em casa, ali à Polana, e no seu jardim deu-me um enorme "briefing" sobre o Cabo Delgado, numa total disponibilidade diante do miúdo que ali lhe batera à porta, de modo inopinado. Saí dali estupefacto, tanto pela dimensão da minha ignorância como pela sageza e simplicidade do Professor.

A última vez que o vi foi em 2017, quando apresentou o livro "Costumes Ancestrais do Povo Makhwa-Metto, de Montepuez", uma memória etnográfica de João Eduardo de Conceição, organizada pelo filho do autor, o antropólogo Rafael da Conceição. Decorrendo a cerimónia na Matola, diante das autoridades locais, o Professor dissertou sobre a relevância da obra e, depois, com o seu célebre sorriso plácido, aproveitou para inflectir o discurso e deixar uma radical crítica ao descuido com o património arqueológico daquela zona, triturado pelo "desenvolvimentismo", coisa que, como frisou, "já vem do tempo colonial e não mudou". Assim mostrando-se não só sábio como exemplo de intelectual.

Muito do que escreveu está em alemão, língua que não domino. Mas há um manancial em inglês e em português. E a melhor maneira de homenagear um autor não é botar encómios. É lê-lo e relê-lo. Deixo ligação para a sua página na rede Academia.edu e para uma entrevista sua, realizada em 2010 pelo meu colega Guilherme Mussane. E é para onde vou agora, relê-lo. Pois o Professor Liesegang é daqueles que conta

Na morte do Fittipaldi dos Chaimites

(12 de Março de 1975, assassinato de António Ramalho Fialho) 

Morreu Dinis de Almeida, peculiar "militar de Abril". O breve e horrível filme mostra o estado em que estavam as suas tropas em Março de 1975, no período áureo da sua carreira profissional. Dele lembro algumas peculiaridades nesse meu tempo de menino. Entre outras a de ser conhecido como o (Emerson) "Fittipaldi dos Chaimites".
 

Ocorre-me agora, a latere, que esta necessidade de "descolonizar" a história nacional e de reinventar os portugueses, expurgando-nos de memórias e símbolos, deve de imediato denunciar esses "Chaimites", ícones desta II República e do memorialismo abrilista. Pois viciosos elogios ao colonialismo.

(Sobre o 11 de Março de 1975)

A propósito de Marcelino da Mata

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"Não escreves sobre isto do Marcelino da Mata?", perguntam-me provocam-me. E nisso um tipo percebe que os amigos lhe dão estatuto de perorante. Nada, defendo-me. Pois nada sei de especial sobre a Guiné-Bissau actual ou passada, pouquíssimo sobre a sua guerra de independência. E nada sobre o agora falecido. Sei um pouco sobre as 3 guerras coloniais portuguesas - em particular a moçambicana. E sobre o recrutamento massivo de tropas locais. Questão silenciada nas histórias dos novos Estados-Nação - pois avessa às mitografias oficiais, às "imaginações das nações". Questão algo esquecida na história portuguesa - até porque tem componentes nada lustrosas. (Como, por exemplo, a infecta forma como o Estado português passou duas décadas e meias a fugir às responsabilidades com os deficientes das forças armadas em Moçambique. Sim, naturais de Moçambique, negros para quem não perceba bem, que optaram pela nacionalidade portuguesa após a independência e que o Estado fez por esquecer até mais não poder ...).
 
Mas também questão agora agora a ser escondida, como o mostra o bramir atrevido do dr. Ba sobre este falecimento e o coro de elogios que recolhe dos intelectuais do regime, pois difícil de integrar no mito racialista muito em voga. Ou, dito de outra forma, questão difícil, pois complexa, de integrar na discussão "do colonialismo" do modo básico como os intelectuais das "causas" surgem agora, anacrónicos ainda por cima... Pois invectivar o falecido é também forma de vetar referências às múltiplas formas de participação nas guerras por parte de soldados africanos. E ao facto disso denotar - e até explicitar - distinções internas nessas sociedades colonais. Bem como elidir as formas como isso se refractou nessas sociedades. E como os diferentes poderes nacionais vieram a tratar disso - os execráveis guineenses, criminosos de guerra (coisas que os excitados antropólogos, estudiosos culturais, historiadores, sociólogos e etc. que abraçam o dr. Ba nunca dirão); os pragmáticos angolanos; os peculiares moçambicanos.
 
Enfim, haveria coisas muito interessantes para falar sobre isto. Alguém que o faça, se tiver paciência, bem para além de invectivar Marcelino da Mata ou afirmá-lo qual "Infante Santo". Interessante, pois denotativo do ambiente boçal actual, é o facto de que - ao que consta - a imprensa (pelo menos a audiovisual) não ter comparecido no funeral do mítico militar. Apesar do Presidente Sousa (ele que até a banhos de mar leva as equipas de reportagem) lá ter estado. Ou seja, a lumpen-intelectualidade portuguesa (imprensa e academia precarizada) não sabe que fazer com a história recente do país. E prefere - em busca dos milhões de euros que o PS dará para quem minar o Bloco de Esquerda - menear-se com Katar&Ba. O resto pouco importa...
 
Sobre o demagogo Ba (que até faz umas resenhas escolares no jornal "Público") um amigo acaba de me lembrar um texto que lhe dediquei, há já dois anos. Já nem me lembrava disto. Aqui deixo a ligação: nem sobre o dr. Ba nem sobre o lumpen intelectual que tanto o saúda mudei de opinião.

Carlos do Carmo

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Para além do calendário a vida não pára. Ou seja, a morte não pára. A assim abrir o ano. No cantor-fadista sempre senti uma sisudez composta que me desencantava. Mas tanto lembro, eu nos 16 ou 17, do espanto de o ver - na "Avante" ao Alto da Ajuda - a cantar esta Valsa assombrosa. Arrebatador!
 
(Carlos do Carmo, La Valse à Mille Temps, 1980)
 
E horas depois, já em casa, "Pai, que achaste daquilo?". E ele, camarada, "Não é o Brel!... Mas foi muito bom, muito bom". E foi.

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