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Nenhures

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(José Craveirinha, retratado por Sérgio Santimano)

Hoje é o centenário do nascimento de José Craveirinha. Falta-me verve para botar o que gostaria de dizer sobre o que ele escreveu. E as minhas estantes estão para além do Tejo, faltam-me os livros dele, os meus vincos e sublinhados. Sabendo-o ainda por cima poeta "engendrador da nação", na complexidade do que isso é, bem para além do panfletário, muito mais para além.
 
Mas deixo este pequeno excerto de um poema (Hino à Minha Terra) escrito no ano em que eu nasci e no qual diz "“O sangue dos nomes / é o sangue dos homens / Suga-o também se és capaz / tu que não os amas” (...) “todos os nomes que eu amo belos na língua ronga / macua, suaíli, changana, / xitsua, e bitonga” - e talvez os meus amigos possam perceber a minha imensa (recente) irritação com os da "cultura" e das "boas causas" que falam em "dialectos bantu".
 
Mas de facto nem era disso que eu quereria escrever, cá de longe no espaço e no tempo: era mesmo sobre a memória da minha primeira visita à Mafalala, eu espantado (e guloso) com aquele museu de arte moçambicana e a passarmos horas a falar de... futebol e atletismo, naquela então ainda sua mágoa com a emigração da grande Mutola; ou de o encontrar numa manhã no Desportivo e da magnífica conversa sobre a história do desporto em Moçambique, a que se juntou - por feliz acaso - o meu tão querido José Luís Cabaço. Ou a apresentação do "Babalaze das Hienas", após o qual se seguiu uma romaria à sua casa na Mafalala (uma tradição naqueles momentos, afiançaram-me, devido à minha enorme relutância em ir onde não fora convidado), num grupo onde estava o Nelson, a Cesaltina Pinto, e outros, tudo capitaneado pelo Eduardo White, sendo que o Dino levava também o megafone. E o Zé Craveirinha não nos abriu a porta, sem paciência para os jovens barulhentos... E um fim de dia, após ter ele sido condecorado pelo nosso PR Sampaio, em que ficámos os dois sozinhos, ali na Nyerere, ele falando de Aljezur, dos Craveirinhas de lá (que visitara já após a honraria do prémio Camões) e que de facto foi uma hora de loquaz amor filial, lembrando seu pai - algo cuja intensidade só terei percebido anos depois, quando o meu pai também passou a memória. Ou tantos outros detalhes, pequenas maledicências, pensamentos avulsos, num (juro) "você é um gajo porreiro, por isso lhe digo...".
 

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Deixo aqui uma memória, que me é muito cara: quando o Craveirinha fez 77 anos organizei-lhe uma festa (institucional) de aniversário. Ele gostou (até porque naquela época, convulsa, ainda lhe não abundavam as homenagens, algo que pouco depois felizmente começou a ocorrer). Noto agora com prazer saudoso que atrás, nas paredes, estava Shikhani, o meu mais preferido das artes moçambicanas. Foi um belo dia.
 
Para quem tiver interesse deixo ligações para alguns dos postais de blog que ao longo dos anos fui colocando a propósito de Craveirinha:
 
A actualidade de José Craveirinha: (também) sobre o turismo.
 
 
Saborosas Tanjarinas d' Inhambane: o sempre actual poema.
 
Craveirinha e Knopfli: a propósito de um livro do qual tenho o orgulho de ter induzido a edição: "Contacto e Outras Crónicas" de Craveirinha/"A Seca e Outros Textos" de Rui Knopfli, uma antologia organizada pelo excelente António Sopa
 
O Albino e o Hóspede: crónica de uma homenagem que lhe foi feita após a sua morte.
 
Alugam-se Quartos: sobre a especulação.

Craveirinha Póstumo: aquando da publicação do seu primeiro livro póstumo.
 
No Xigubo: um excerto do "África".
 
Adenda: a RTP transmitiu um adequado comentário aquando do centenário do nascimento de José Craveirinha. Está aqui disponível. Tem um formato algo institucional - e poderia ter sido editado, expurgado de algumas, poucas, redundâncias - mas é bastante interessante.

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Como toda a minha geração cheguei a Gir (Jean Giraud) com Blueberry, publicado na semanal Tintin, logo encantando-me  - e só alguns anos depois, já crescidote, conheci Jerry Spring de Jijé, numa cronologia inversa ao dessa maturação dos heróis europeus de "westerns". Entre os quais ficara, também ainda menino, adepto de Comanche de Hermann e Greg, enquanto Hermann teve interesse e paciência nessa série.

Entretanto fui crescendo, o que também aconteceu a Giraud, no qual desabrochou Moebius, a marcar a banda desenhada europeia. A minha relação com este já foi diferente, face a uma arte esplêndida mas um mundo imaginado que menos me cativava. Ficava-me assim um enorme apreço mas desapaixonado. Nisso contrastando com uma enorme vaga de admiração por este real génio, tornada mesmo um verdadeiro culto, como se fosse ele o "Papa dos comics", como suavemente ironiza o próprio no filme que aqui partilho, "In Search of Moebius". Um belo documentário, a ver neste 2022 já uma década após a sua morte:

(In Search of Moebius, Documentário, BBC Four)

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Naquela era, de outro milénio, em nenhuma festinha - daquelas com strobe lights, bolas de espelhos, elas de calças apertadas no joelhos, nós cada um mais ou menos à sua maneira consoante quem queríamos parecer ser, slows, afagos e tampas, rum com cola e cachimbos de prata - deixava de tocar esta canção. Se me perguntarem porquê não responderei, pois nunca o percebi, talvez pelo abanar da cabeça que deixava ou pelos pirosões riffs que todos pantominavam, sérios nisso...
 
Morreu agora o Meat Loaf. Sim, o do magnífico Rocky Horror Show. Mas, acima de tudo, desta insuportável tralha saída do "Bat out of hell". E ainda não esqueci tanta chatice.
 
 

(Meat Loaf - Paradise By The Dashboard Light)

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Fez ontem exactamente um ano que morreu Fernanda Angius, antiga leitora do Instituto Camões em Maputo durante a década de 1990, tendo então exercido na Universidade Pedagógica e no INDE, e que antes ocupara funções similares em Itália e no Zimbabwé. Octogenária, e presumo que padecendo de alguma maleita física, vivia numa residência para a terceira idade em Lisboa. Julgo, mas não o posso afiançar, que terá morrido na sequência de uma infecção com o Covid-19.
 
Não trato aqui de uma homenagem póstuma. Mas sim de partilhar um texto que Fernanda Angius publicou no seu mural de FB pouco antes de morrer, em 2.1.2021., e o qual muito me sensibilizou naquele momento - estando longe (como é óbvio) de imaginar que precedia a sua morte - e que desde então penso em abordar. Em parte porque a minha mãe, que vivera numa residência similar, ainda que felizmente recebendo um enquadramento bem mais mimoso, havia morrido há muito pouco tempo.
 
Mas não só, pois acima de tudo o que me impressionou naquele texto era a demonstração, crua, sem rodeios, de como na nossa sociedade vamos armazenando os nossos mais-velhos, transformando a sua real dependência física numa subordinação moral, esta exercida através de um paternalismo gélido. Desrespeitador. Num fluxo de relações, intergeracionais, que se terá exponenciado durante esta maldita pandemia e seus confinamentos, mas que muito mais é uma característica já pré-existente e que temo vir a enquistar-se neste futuro próximo, transformada num verdadeiro e malvado legado. Pois assume, decerto, um vigor de mundivisão dominante, e não apenas um transitório deslize promovido por práticas constrangidas pelas urgências sanitárias. Nisso tudo traduzindo-se num efectivo destratamento dos velhos.
 
Tudo isso poderá ser pressentido, intuído ou mesmo testemunhado por muitos, ou até conhecido através de queixumes daqueles nossos mais-velhos que sofrem estas rudes despersonalizações. Mas decerto que é raro encontrar alguém já do "outro lado", já "asilado", que mantenha a energia e a pertinência intelectual para nos transmitir o "como é" que vivemos. Os mais-velhos já "lá dentro" e nós, menos-velhos, ainda "cá fora". Por isso aqui partilho este texto, longo, duro de pungente, o relato que Fernanda Angius fez daquele "reveillon", afinal o seu último. Tende coragem para ler...
 
*****
 
Penso na entrada deste Ano Novo que foi, para mim, completamente oposta à entrada do ano anterior. Esperemos que o seu desenvolvimento também se oponha ao desenvolvimento de 2020.
 
A última ceia do Ano Velho foi muito triste embora alguém a tivesse declarado ser de festa. Mas foi uma festa silenciosa pois, na sala de refeições, alguns poucos e tristes balões agarrados às paredes não conseguiam transmitir a ninguém o ambiente de festa que fora anunciada; nem mesmo o pratinho de doces sortidos que, (sobre a mesa de cada residente) aguardava o pós refeição chegava para me fazer sentir a especialidade desta última refeição do ano, tomada em sepulcral silêncio, todas nas costas umas das outras, como colegiais em castigo por mau comportamento.
 
O ambiente festivo resumiu-se aos citados balões e ao pratinho que acompanhava um minúsculo cálice de licor que recebeu uma ginjinha (sem elas).
 
A estagiária que colabora com a Direcção e com a Animadora cultural fazia de ajudante no serviço de mesas e a alegria que a festa normalmente produz não se notava nos silenciosos corpos que apenas ingeriam a refeição como em Vigília fúnebre. Talvez esteja exagerando com o adjectivo, mas o meu sentimento era esse. As lágrimas subiam-me aos olhos pensando na passagem do ano anterior; e não era a saudade daquele último réveillon que me entristecia; eu estava profundamente chocada com o conceito de festa que estaria na cabeça de quem, convictamente, assim tinha classificado aquele jantar de fim de ano.
 
Eu esperava que, a qualquer momento, aparecesse um sinal da tal festa, mas apercebi-me de que as minhas companheiras, à medida que acabavam de comer, começavam a abandonar a sala no mesmo silêncio em que tinham entrado. Então, levantei-me e perguntei às funcionárias que levantavam os pratos se a festa era aquilo. Onde estava o convívio? A música? um aparelho de televisão?...Um rádio?...Enfim, onde um só sinal do respeito pela alegria devida a um ser humano que ainda não morreu e ainda tem direito à diversão tradicional em qualquer final de ano?
 
Afinal a nossa cultura popular e tradicional de séculos é ignorada por desatenção, ou já nos consideram apenas números? Afinal onde ficaram os nossos seres pensantes com memória e lucidez normais? Nenhuma das residentes autónomas foi consultada para se estudar como proporcionar-lhes a tal festa. Não seríamos muitas, mas sei de algumas que estavam tão tristes como eu, embora todas resignadas perante a determinação superior.
Enervada, comecei a expressar o meu descontentamento e as funcionárias, stressadas ao máximo, só me diziam que tinham feito o que lhes tinha sido mandado. Eu sabia-o muito bem mas não consegui calar a minha indignação pois me senti usada como trapo velho que, junta ao facto de estar confinada no interesse da saúde pública, ainda tem de ser tratada como de menor idade, sem direito aos possíveis meios de ocupação dos seus tempos e à comunicação com terceiros.
 
Sabendo que em anos anteriores a solução fora encontrada e de maneira bem simples e racional, não compreendo que em nome de uma eventual proximidade mais arriscada, se imponha o confinamento total, dentro de um Lar de onde não se saiu, não havendo, portanto, risco de se ter apanhado o vírus.
 
De qualquer maneira, é maior o risco para a saúde mental das pessoas autónomas do que o de ser infectada. Como diz a sabedoria popular: não se morre da doença, morre-se da cura...
 
As regras impostas sem justificação são sempre o motivo próximo para a transgressão.
 
Nunca me senti tão desprezada como ser racional de pleno direito e nem nos cinco anos que vivi interna, no colégio fui tão ignorada nos meus direitos de cidadã livre que ainda não passou procuração a ninguém para pensar por ela.
 
Basta de me protegerem! Sei tomar conta de mim e não pretendo infringir regras nacionais. Mas todas as ditaduras se afirmam ser tal em favor dos submetidos a elas. E eu começo a temer que a pandemia dê razão para se inculcarem em certas instituições um paternalismo bacoco que é só garantia de menos preocupação para quem tem de tomar decisões. Guiar um rebanho de ovelhas e mais fácil do que um de cabras. E eu sinto-me mais cabra montês do que carneirinho de Parnúggio.
 
Para culminar um ano que só nos trouxe desgraça, não precisávamos de colocar a cereja no topo do bolo...
 
Mas hoje já passou o primeiro dia do ano; e eu já consegui falar com alguns amigos que me deixaram luz na alma e coragem para afrontar o que mais nos trará este Novo Ano.
 
(Fernanda Angius, 2 de Janeiro de 2021)

(O Gotejar da Luz, realização de Fernando Vendrell, 2001)

Leio que morreu Luís Sarmento, muito amigo de vários dos meus amigos, e sobre quem muitos elogios fui ouvindo, mas ao qual nunca conheci. Recordo este "O Gotejar da Luz" (2001), um bom filme de Fernando Vendrell, com base num conto de Leite de Vasconcelos, no qual Luís Sarmento actuou, com indiscutível mérito.
Aqui fica, em versão completa, para quem quiser (re)ver. Com os meus sentimentos para os seus inúmeros amigos.

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