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Nenhures

Nenhures

Seninho

Flashback Video: Johan Cruyff Assist for Seninho goal vs. World All-Stars

As décadas passam e vamos esquecendo. Seninho foi um magnífico extremo, rapidissimo e codicioso, com o grande defeito de jogar no F.C. Porto, quando este começou a ganhar títulos no final dos anos 1970. Foi um dos primeiros grandes emigrantes do futebol português, directo ao topo mundial de então - o milionário New York Cosmos, quando se começou a disseminar o futebol nos EUA. Era uma colecção de estrelas, na maioria já veteranas mas ele ainda no apogeu. Aqui está Seninho a marcar um grande golo após um toque genial do monumento Cruyff, num jogo contra uma selecção mundial.

Seninho morreu hoje. As minhas condolências a todos que, como eu, dele foram admiradores. E, claro, de modo especial, à sua família e amigos.

Manu Dimango, "personagem totémica"

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Manu Dibango: artigo na Rolling Stone (anglófona) e outro artigo (francófono), um pouco mais substantivo. 

Entrevista de Manu Dimango à RFI, feita por Claudy Siar, produtor de "Couleurs Tropicales".

Super Koumba, o que fazia em finais da década de 1980s, durante a qual o vi na Festa do Avante, a última vez ali fui.

O banquete final

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Este maldito vírus quebra-nos a vida, angustia-nos presente e até futuro. A morte de Uderzo, ainda que tão natural aos seus 92 anos, e felizmente ocorrida na placidez do sono, sem qualquer ligação a esta pandemia, encontra-nos confinados. Trazendo isto de nem podermos fazer o requerido banquete final, exigível ao final deste episódio, o uderziano. Majestoso.

Que o seu legado, e não só Astérix, nos acompanhe agora, até avivado na memória pela sua morte. No seu humor e beleza servindo mesmo de estratégia da necessária mitigação. Banqueteemo-nos com os livros. E com as memórias das anteriores leituras.

Deixo aqui ligação a um bom e muito informativo texto sobre a obra do autor: Uderzo (na Comiclopédia). Bem recomendável.

 

Vasco Pulido Valente: Fátima e a I Guerra Mundial

 

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(Vasco Pulido Valente, desconheço o autor do retrato)

No velho ma-schamba de quando em vez citei Vasco Pulido Valente. Agora, na sua morte, recupero duas dessas citações, a mostrarem quão iconoclasta ele foi. Para nosso bem:

 

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"Perante a óbvia fraqueza do Partido Democrático e, ao mesmo tempo, a sua intolerável violência a Igreja tomava, sem vacilar, a cabeça da oposição política. Os republicanos moderados estavam desfeitos e, aparentemente resignados. O movimento monárquico oficial tinha recebido ordem de Londres para se abster enquanto a guerra durasse. A Igreja católica ocupou o vazio.

Cem anos antes, em 1822, a causa realista fora reanimada por um milagre. A Virgem aparecera a duas pastorinhas em Carnide, para lhes dizer que Portugal sobreviveria à impiedade maçónica. Sob o patrocínio de D. Carlota Joaquina, grandes peregrinações se fizeram aos locais sagrados, em que Deus garantira a dízima, os bens dos conventos e a perenidade das classes dominantes. Povo e nobreza associaram-se nessa devoção, destinada a exorcizar a "pestilenta cáfila dos pedreiros" e a promover o ódio às Cortes, onde eles "campeavam". Quanto a insurreição armada começou uns meses depois, trazia já consigo uma sobrenatural legitimidade.

Em 1915 e 1916 os pastorinhos Lúcia ... Jacinta e Francisco ..., viram oito vezes, em vários sítios da freguesia de Fátima, um anjo, que declarou ser o anjo de Portugal. Ao princípio, o anjo não era muito nítido e não dizia nada. Pouco a pouco, porém, foi-se definindo e explicando. De acordo com a ortodoxia, estas visitas preparavam os acontecimentos de mais consequências que se seguiram. (...) Entre Maio e Outubro de 1917 a Virgem apareceu quatro vezes (...) Alegadamente, a Virgem comunicou que a Segunda Guerra Mundial seria "horrível", uma ideia muito compreensível quando a primeira mostrava diariamente o seu horror, e preveniu também que a Rússia revolucionária se preparava para subverter o mundo, coisa que os jornais de Lisboa publicavam na primeira página, dia sim, dia não, desde Fevereiro. As profecias (...) resumiam as preocupações e a angústia do conservadorismo português da época. (...) reflectiam perfeitamente as opiniões e os sentimentos do padre médio, esmagado pelo triunfo terreno do mal, tremendo com a perspectiva de novas catástrofes e sonhando com a eventual conversão dos pecadores. Que Deus partilhasse as aflições dos inimigos da República era uma coisa insusceptível de espantar o clero português de 1917." (pp. 115-117)

e

"O PRP tinha transformado a causa da guerra na causa da República. ( ...) O problema dele [Afonso Costa] estava só na circunstância despicienda de que nem os Portugueses, em geral, nem os militares, em especial, queriam a guerra. Tratava-se, portanto, de os coagir, tarefa em que sempre brilhavam a experiência e o zelo dos democráticos. Poderá pensar-se que os perigos excediam o razoável. Mas não se deve ignorar que a violência era o modo de vida habitual do PRP e que o fim da operação consistia em conseguir a paz interna através da guerra externa. Como Chagas notava finamente em Paris, quem se atreveria a levantar a mão contra uma República vitoriosa?

O exército (...), resignado a uma pequena presença em África, não queria a intervenção na Flandres. A propaganda belicista tentou mais tarde atribuir esta atitude à mera cobardia da oficialidade. "Heróicos" deputados e jornalistas do PRP, para não falar em médicos e merceeiros, voluntariavam com adequado alarido para o que se denominava sentimentalmente a lama das trincheiras, onde, de resto, raros chegavam. Em contraste, os oficiais, cuja vocação consistia em morrer pela Pátria, se não pela República, recusavam-se a marchar ou marchavam contrariadamente para França. A alegação de cobardia não tem sentido. Em matéria militar, os bravos civis democráticos eram irresponsáveis e portavam-se como os irresponsáveis que eram. Os militares sabiam que o exército português não estava preparado, ou podia ser preparado em tempo útil, para uma campanha na Europa. (...)

Quando no fim de 1917 o desastre se aproximava, alguns dirigentes democráticos e companheiros de caminho, que não estavam ainda completamente cegos, queixaram-se de que o governo não "explicara" a guerra ao país. O que faltava, como de costume, era boa propaganda. (...) Isto presumia, é claro, que a guerra da Flandres podia ser explicada. Mas não podia, porque a sua verdadeira razão, a necessidade de consolidar a República Democrática, embora notória nos círculos informados, tinha de se esconder aos Portugueses e, sobretudo, aos combantentes." (pp. 91-94)

[Vasco Pulido Valente, A República Velha (1910-1917) , Gradiva, 1997]

O Sábado e Tó-Zé Martinho

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Morreu o simpático e popular homem de tv To-Zé Martinho, que a minha geração conheceu no histórico "Visita da Cornelia". A revista Sábado dedica-lhe um afável memorial. E lembra que ele "namorou" (depois no texto confunde-se e fala em casamento) com "a filha de uma rainha de uma tribo africana" lá em Mocambique, aquando da guerra. Não será particularmente relevante . Mas, ainda assim, e diante de tamanho dislate, , não seria de exigir mais cultura ao jornalista? E ao seu chefe de redacção?

Vasco Pulido Valente

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Ler os livros de Vasco Pulido Valente muitas vezes me indispôs. Mas nem sempre. Lembro-me do espanto com que li, há décadas, o seu "Estudos sobre a Crise Nacional" - textos escritos entre 1965 e 1970, mais ou menos, da sua juventude, sobre António Sérgio, António Vieira, etc.. "Caramba, que intelecto!", pensei, face àquela juventude já assim. Mas lembro-me também (e escrevo de cor) do incómodo com que li vários dos outros seus livros (falo dos mais literalmente historiográficos, não das crónicas sobre o agora): todos aqueles agentes portugueses, individuais e colectivos, me apareciam como dotados de uma ... incompetência, inabilidade. Excepto, claro está, o próprio historiador. Talvez esteja errado, seja apenas uma memória minha. Mas é a que ficou. Desse desagrado.

Com uma enorme e fabulosa excepção, este "Glória" que só li em 2014 (julgo que será para aí de 2000 ou perto), quando regressei de Moçambique. A biografia de Vieira de Castro, o político do terceiro quartel de XIX, líder estudantil de Coimbra, publicista, grande orador demagogo, deputado, criminoso, que morreu, já degredado, em Angola (correspondente de Camilo, e só depois de o ler isto descobri/reparei cá em casa o livro de bisavô das cartas que Castelo Branco lhe enviou).

Absolutamente profético, esse livro. Ou por outra forma, uma maneira absolutamente iluminada de usar a História para falar da actualidade. Para a esta dissecar. Como viemos, alguns de nós, a perceber. Outros não, continuam assim. Como ele tanto os desprezou.

Grande, enorme, Vasco Pulido Valente.

Steiner e a barbárie

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(Ilustração de Pablo Garcia - que retirei do La Opinión de Málaga)

Sobre Steiner um belo texto de Thomas Meaney, nada encomiástico, no Times Literary Supplement. Aqui estão acessíveis vários dos seus livros.

Dele muito se dirá. Agora que morreu decerto que mais elogios. E se exagerarão as leituras próprias (cada um reclamando "o meu Steiner"). Li-o, acima de tudo, quando começou a ser muito publicado em Portugal, no final dos meus vintes. E continuei a lê-lo. Foi-me importante, um sinal de perenidade. Assim como que um elevada barricada. Daqui a umas décadas será lido, apreendido. Muitos outros, agora fervilhantes, não o serão.

Um dia escreveu sobre bárbaros e a barbárie. Li-o, há quase trinta anos. E logo guardei o trecho. Anda sempre comigo, é o tal "meu Steiner", aquele que me cabe:

A própria atitude de auto-acusação e de remorso que caracteriza boa parte da sensibilidade esclarecida do Ocidente actual, se revela, uma vez mais, um fenómeno cultural peculiar. (…) O reflexo de um exame de consciência em nome de absolutos éticos é, de novo, um acto caracteristicamente ocidental e pós-voltairiano” (...) “Vendedores de palavras de ordem e pseudofilósofos familiarizaram o Ocidente com a ideia de que o homem branco foi como uma lepra na pele da terra, de que a sua civilização equivaleu a uma impostura monstruosa ou, no melhor dos casos, a um disfarce cruel e astucioso da exploração militar e económica. Ouvimos dizerem-nos, num tom de histeria punitiva, ora que a nossa cultura está condenada – o que corresponde a um modelo spengleriano de um apocalipse racional -, ora que só poderá ressuscitar através da transfusão violenta das energias, dos estilos de sensibilidade, representativos por excelência dos povos do “terceiro mundo.” (…) Trata-se de um neoprimitivismo (ou masoquismo penitencial) cujas raízes mergulham no coração da crise do Ocidente…”

(George Steiner, No Castelo do Barba Azul: Algumas Notas Para a Definição da Cultura. Relógio d'Água: 73, 70).

George Steiner no "O Belo e a Consolação".

Efemérides de Monty Python e não só

No momento em que se comemoram os 50 anos da primeira emissão dos Monty Python e os 40 do "A Vida de Brian" é muito engraçado ver isto (e o debate que reproduzo abaixo é uma verdadeira pérola) -. quando no rincão chovem elogios sem reservas a quem, em funções de Estado neste XXI, justificou ("compreendeu") a fúria assassina idólatra com a diferença entre "liberdade" e "licenciosidade", bem seguido pelos (ex)comunistas que no mesmo âmbito "justificaram" depois o ataque à Charlie Hebdo. Todos adversários do direito à blasfémia - mesmo que "esta" não o seja.

Em que estranho país vivemos ...

 

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