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Nenhures

Nenhures

15
Abr24

Nas falésias

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em inverness.jpg

 
No sentido "romântico" - como nos ensinam a sentir - na minha vida amei três mulheres. Por último, vera última vez, a mãe da minha filha, um amor perene, imorredoiro, não tendo eu sabido blindá-lo aos terramotos da vida. E demonstrá-lo...
 
E antes, anos antes, naquela nossa longa tardia adolescência, dedicando-me a duas vizinhas. Em confuso, pois alternado, monopólio de sentimentos. Nesse tempo seguia eu todo inepto por uma dupla razão: pois apenas uma década depois os Radiohead cantariam a "Creep" que talvez então, se nesse antes tão jovem, me tivesse sossegado, dado a conhecer-me, porventura libertando-me... E, muito pior, pois nesses anos havia eu encarnado uma tétrica mescla de Jack Barnes, de Hemingway, e do Fowler de Greene, um irremediável rumo à trôpega e atemorizada solidão.
 
E foi sob esses miasmas "literários", esse real temor da vida, que aos 21 anos segui em viagem com ambas, juntos ao querido amigo Luís (então sempre dito Ambrósio). Avançámos para um trabalho no norte da Escócia, ao que se seguiria uma incursão festiva a Barcelona.
 
Numa quinta perto de Inverness acampámos um mês, destinados à colheita de framboesa. Logo à chegada o capataz, um anglo-mexicano que agora imagino à imagem de um Santana já quase calvo, se apiedou das belas meninas e do meu delicado amigo, remetendo-nos para o mais suave trabalho fabril. Deixando-nos também escolher as tarefas diárias, eles assim sempre na algo repousada passadeira de selecção dos frutos, eu - evidentemente mais rude - quantas vezes remetido para serviços de carga no armazém frigorífico. O acampamento de trabalhadores sazonais era cosmopolita: os magrebinos tinham sido excluídos desde o ano transacto, dado a sua tendência para perseguir e violar as mulheres europeias. Abundavam os polacos, que os do Jaruzelski deixavam sair no Verão, nos seu Lada em busca de libras... E os cockney, de inglês incompreensível. Para além de norte mediterrânicos de diversos passaportes.
 
Elas, as minhas amadas, eram - deliciosamente - implacáveis: tive de me banhar todos os dias, mudar de roupa (e lavá-la), apesar da chuva constante todos os dias se cozinhava, e para suporte disso tínhamos uma tenda despensa (espanto de toda a comunidade residente). Ao fim do dia, quase sempre, saíamos da herdade, cruzávamos a estrada rumo ao "pub", onde eles os três arejavam e eu bebia "Cutty Sark" (recomendado pelos velhos locais) em doses algo imoderadas.
 
Aos sábados, única folga, íamos a Inverness. Um desses dias, e por mais apaixonado que estivesse - pelos três, elas e ele, de facto -, escapei-me deles, daquela pressão ordeira. E deparei com um alfarrabista. Um mundo - para um lisboeta daquela era - de livros, de viagens e de antropologia. A história foi recontada durante décadas, pois encontraram-me horas depois rua afora carregando uma pilha de "hardcovers". Escrevo ainda agora a uma braçada do que então trouxe, do Max Muller, de sei lá mais o quê, e mesmo à vista, dos de Margaret Mead ("New Lives for Old", "The Golden Age of American Anthropology" e, notem bem, e percebam porque tanto me rio destes de agora que descobriram o "género", do "Male and Female"). É desse dia esta fotografia, tirada pela Inês, eu, a Cristina, o Luís à nossa frente. E, na minha esquerda, um bocado da pilha de livros, a qual sempre desconfiei ser o motivo da fotografia (rara, como o eram então todas).
 
Depois o trabalho acabou, chegara o momento de partir para Barcelona. Ganhara-se pouco, e eu gastara demasiado, entre o referido Cutty Sark e os hardcovers. E não tinha dinheiro para os acompanhar. As meninas tinham algum extra, insistiram em partilhá-lo comigo e que seguissemos juntos. Eu sou um jovem, um miúdo ainda, mas já sei que um homem não aceita tal coisa. Pego na mochila, carrego os tais hardcovers, mais a pesada tenda checa que comprara a outro vizinho e sigo, ajoujado, à boleia em busca de trabalho nas quintas do Sul...
 
Estou hoje numas falésias atlânticas, onde tantos nos congregámos para celebrar a Cristina, que agora morreu, para mim inesperadamente, pois estava eu desavisado. Não choro, um homem não deve chorar em demasia. Distancio-me, estou a lamentar não ter ido a Barcelona naquele Verão, ter fruído mais uns dias daquele sorriso sagaz, do carinhoso bisturi que ela brandia. Minto, lamento não ter fruído mais dias do meu tamanho encanto. Entoo a "Creep", apenas para mim claro. O Zé G., sempre atento no seu jeito, chama-me lá de longe e diz-me, em falso sarcasmo, "não saltes". Eu não salto, claro, para quê?, se sinto já tanto de mim ter morrido...

10
Abr24

Eugénio Lisboa

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eugénio

 
Morreu Eugénio Lisboa, relevante pensador de origem laurentina que - entre outros eixos da sua actividade - nos deixou notável monografia (em registo memorialista, integrando a sua vasta "Acta est Fabula") do ambiente intelectual da burguesia tardo-colonial portuguesa, um documento precioso para se entender o nosso ocaso colonial. Deixo aqui ligação a um bom obituário que o Pedro Correia lhe dedica no Delito de Opinião. E também a um interessante texto que o Nelson Saúte lhe dedicou por ocasião do seu nonagésimo aniversário .
 
"Tive o privilégio" (como sói dizer-se) de o conhecer. Após ter ido viver para Maputo, a primeira vez que vim a Portugal solicitei-lhe um encontro, uma "apresentação de cumprimentos", por assim dizer. O qual se me impunha por respeito intelectual e por considerar que ele poderia ser (e era-o) um agente fundamental para o conhecimento nacional da realidade intelectual e artística moçambicana, neste país cuja intelectualidade estava então alheada das realidades africanas. E isto bem antes da publicação da sua "Acta est Fabula", que acima refiro...
 
Recebeu-me na Comissão Nacional da UNESCO, a que presidia, foi simpático e também algo complacente - teria recolhido algumas informações (talvez pouco laudatórias) sobre mim, foi-me óbvio que me atribuiu alguma candura juvenil, naquela quase inconsciente displicência que agora também me acontece quando diante de qualquer tipo com cabelo ainda azeviche. Mas algo talvez também oriundo - pareceu-me - daquela mundividência dos agentes do "campo literário". Esses que - mesmo que tantas vezes simpáticos - tanto privilegiam os seus pares, como se membros de um panteão de demiurgos e semi-demiurgos, apenas entreaberto a alguns teólogos graduados. Enquanto nós - em particular se antropólogos, quero desejar - cremos mais em Xenófanes, naquilo que o grego disse de "se as cavalgaduras tivessem mãos... desenhariam os deuses como cavalgaduras"... Mas foi, insisto, muito simpático. No fim da pequena reunião perguntou-me "então em que lhe posso ser útil?", e pareceu-me surpreendido, até agradado, quando lhe disse o motivo do meu pedido de encontro, do aquilo "Em nada. Eu é que talvez lhe possa ser útil, vim aqui para me disponibilizar para algo que lhe possa ser interessante lá em Maputo"...
 
Algum tempo depois esteve em Maputo, integrando uma gigantesca comitiva cultural. Seria, entre os seus pares, o que mais conhecia o contexto, e perceberia aquele desajuste luso, verdadeiro disparate. Mas constatei então que a sua argúcia analítica, o seu consabido "avinagrado", estaria mais direccionado para os textos, e não tanto para a realidade "palpável". Ou, então, que o distribuía... estrategicamente. E que naquele momento não lhe interessaria vertê-lo, com ele aspergir os próceres culturais nacionais.
 
Anos passaram, eu já teria algumas cãs. Um dia, no primeiro intervalo de um congresso académico, fui esfumaçar até ao gélido pátio, no qual estava apenas um outro participante, com os mesmos propósitos. Emprestámo-nos um isqueiro e apresentámo-nos. E surgiu Eugénio Lisboa, sorriso aberto. Saudações cumpridas fez-me uma pergunta, algo indiscreta, sobre eu em Moçambique. Retorqui "quer uma resposta franca ou diplomática?", "franca, claro" e assim o fiz. Logo fez outra pergunta, também indiscreta, sobre o mesmo tema, eu em Moçambique, e de novo lhe perguntei "quer resposta franca ou diplomática?" e de novo convocou a minha franqueza. Após a qual fez mais uma pergunta indiscreta, ainda sobre eu em Moçambique, ao que, de imediato, o outro congressista exclamou, veemente, "uma resposta diplomática, por favor!". Rimo-nos, eu e ele, o grande, enorme, Ruy Duarte de Carvalho, e logo ali ficámos amigos para o resto da sua vida... E Lisboa nada mais perguntou.
 
Há cerca de 15 anos, já ancião, Lisboa esteve em Maputo - talvez tenha sido a sua última vez ali, pelo menos até 2015 não terá voltado. Logo acorri à Escola Portuguesa de Moçambique para o ouvir, no que foi uma preciosa abordagem/homenagem a José Régio, por quem tinha enorme admiração. Estava muito emocionado - tanto que, apenas por isso, me pareceu que estivesse doente, já em processo de despedidas. Felizmente não era o caso, e tivemo-lo mais 15 anos a exercer o seu vasto conhecimento. Num verdadeiro "magistério de influência", mesmo que algo recatado.
 
Por vezes implacável, naquilo que consideraria realmente relevante. Como neste magnífico texto "Elogio da Temperança", que publicou nos seus 90 anos, pontapeando o provincianismo luso demonstrado na mania dos elogios fúnebres hiperbólicos. Um texto que é agora, na sua morte, urgente recordar. Pois é evidente que o então nonagenário nele convocou o tino alheio para a hora da sua morte, que decerto previa relativamente próxima.
 
Eugénio Lisboa publicava no excelente blog colectivo De Rerum Natura. Os seus parceiros de blog deixaram-lhe uma homenagem, sentida, publicando-lhe este soneto. Tão denotativo do seu percurso:
 
Na minha outra pátria africana,
não trincávamos maçã nem morango.
O que trincávamos mesmo com gana,
manga verde, encarilado frango,
 
maçaroca e ácida tcintchiva,
ensinava-nos a descobrir mundo,
naquela terra quente e lasciva,
onde tudo ficava mais fecundo.
 
Com tostões, comprava-se um mata-fome
e o caju arrancava-se do ramo.
Os esfomeados unhas-de-fome
 
inebriavam-se, comendo cânhamo.
Era uma pátria cheia de mistério,
que foi pra mim fecundo magistério.

19
Fev24

A partida dos outros

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Envelhecemos para ver morrer outros, os nossos... Em todos estes casos, todas as vezes, limitamo-nos a para nós carpir "Carpe Diem", usando um parco latim, esse que já nos fizerem desconhecer, pois cada tradutor nos traz um Horácio diferente: "De inveja o tempo voa enquanto nós falamos: / trata pois de colher o dia, o dia de hoje, / que nunca o de amanhã merece confiança", resumiu Mourão-Fereira um mais completo "Não interrogues, não é lícito saber a mim ou a ti que fim os deuses darão, Leucônoe ... Sábia, decanta os vinhos, e para um breve espaço de tempo poda a esperança longa. Enquanto conversamos terá fugido despeitada a hora: colhe o dia, minimamente crédula no porvir", arranjou outro. Enfim, e de modo rústico, aproveite-se o dia, cada um deles, que nunca se sabe o que aí vem...
 
E mais, muitíssimo mais, custam as mortes camaradas quando inopinadas, como a que agora assumiu o Filipe. Vizinho de quatro décadas de cruzamentos, mais-velho - ele do progressivo, dos Genesis e outros, eu muito mais aos trambolhões entre Zappa e Clash. Raisparta, um daqueles tipos jóia, sem ponta de maledicência, menos ainda de malevolência. Nem mesmo de verrina. Resguardado no sorriso (bonito, diz este "tóxico"). E feito grande no interesse pelo que o outro diz(ia).
 
Há dias, já neste Fevereiro, a nossa última conversa de esplanada, sempre curta. Nunca com intimismos - que não eram para o nosso estreito entre-nós -, ele com a sua eterna garrafa de água, há 30 anos carregada, eu ainda com o meu cálice viscoso, que não o perturbava. Sorrimos a propósito de uma (serôdia) beldade local, balzaquiana aprazível de nosso apreço comum, ele impávido, na sua serenidade, eu vertendo lamentos (talvez já dado o tal viscoso) pelo amor que desbaratei alhures. E agora, assim de repente, foi.
 
Filipe, dir-lhe-ia agora, eu também gosto dos Genesis. Mesmo o início pós-Peter Gabriel... E sim, não nos podemos distrair, temos de "aproveitar o dia", Carpe Diem.
 
Genesis - I Know What I Like 1976 Live Video

10
Jan24

John (JPR) Williams

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Choco com a notícia da morte de John (JPR) Williams, o melhor 15, um dos ídolos daquela maravilha que era a selecção de Gales nos anos 70s, pejada de Gareth Edwards, Barry John, Phil Bennet, Quinell, JJ Williams...
 

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Na época havia pouco desporto nos breves dois canais televisivos: as finais das Taças de futebol (a nossa, a inglesa, às vezes a espanhola), as finais das "quartas-feiras europeias", no Inverno as fastidiosas "patinagens artísticas" (com as suas prolongadas "notas técnicas" + "notas artísticas"), talvez o ski, ou este terá vindo depois. Também a F1, essa então do tempo de Jackie Stewart, Cevert, Fittipaldi.
 
E, acima de tudo, o "5 Nações" - no qual sempre brilhava a magistral tropa galesa. Eram sábados de encanto a ver aqueles heróis.
 

09
Jan24

Franz Beckenbauer

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De quem eu era mesmo fan era do Sepp Maier - o único guarda-redes que vi jogar que era comparável ao divino Vítor Damas -, mas o seu colega ("libero" como se dizia na altura) Franz Beckenbauer era um jogador fenomenal. Naquele monumental Bayern de Munique dos anos 70s e na malvada selecção alemã...
 
Envelhecer é isto, ver morrer os verdadeiros ídolos da nossa meninice.

21
Nov23

Eduardo White seria hoje sexagenário

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white.jpeg

O Pedro Pereira Lopes não nos deixou esquecer, e assim lembro que hoje seria o 60º aniversário do Eduardo White. Para o recordar o melhor será ir até aos livros dele...
 
Mas junto outra pequena evocação. O White também foi bloguista - infelizmente o seu blog "Apassarado" desapareceu (estava na plataforma weblog.com.pt que foi apagada).
 
Também por isso aqui deixo ligação a 25 postais com (e sobre) ele, que ao longo do tempo fui deixando no meu velho blog ma-schamba. Alguns são textos que ele me ofereceu, propositadamente para o blog. Outros são excertos dos seus textos, ou minhas referências e memórias sobre ele. E vai tudo com o meu carinho e admiração pelo tão idiossincrático Dino...
 
Espero que possam ser agradáveis.

18
Nov23

Eduardo White seria sexagenário

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White por Bruno Mikahil .jpg

Há alguns dias o escritor moçambicano Pedro Pereira Lopes recordou que o Eduardo White faria 60 anos este mês (no dia 21). O Dino morreu há nove anos, escassos dias antes de eu partir de Moçambique. Uma morte que magoou, amargou. Para eulogia poética havia gente mais capaz. Assim apenas deixei no jornal "Canal de Moçambique" uma minha memória dele... - entre um punhado de outras que poderia ter convocado. Para quem tiver interesse deixo aqui a ligação para o breve texto. E no dia 21 beberei dois ou três uísques à memória do White (ele haveria de gostar deste tipo homenagem), enquanto passearei nos seus livros.

03
Set23

Salif Keita

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Viver é ver morrer os nossos, os queridos e os ídolos, um contínuo desmate afectivo. Morreu agora Keita (o Keitá! dos locutores radiofónicos de então, Salif Keita Traoré), o enorme jogador maliano, uma estrela daquela época - e hoje seria uma macro-estrela global... - que o Eterno Presidente, Senhor João Rocha, teve artes de trazer para o Sporting.

Na época o divino Vítor Damas partira para a malvada Espanha, de onde nada de bom vinha, o herói Agostinho andava pelas Franças aos (gloriosos) terceiros lugares, e o nosso Hermes Carlos Lopes fora ultrapassado pelo finlandês Viren. E Yazalde transferira-se - pela fortuna de 12 500 contos (60 mil euros) - para Marselha, bem antes do malandrete Tapie lá mandar. O nosso panteão estava um bocado desertificado, enquanto os atrevidos lampiões controlavam o Portugal do PREC como o haviam feito no ocaso do Estado Novo, e a diabólica parelha Pedroto-Pinto da Costa começava as suas tétricas manigâncias, que ainda hoje perduram.

Mas no José de Alvalade ascendeu uma Trindade, em avatar de "tridente" (como então não se dizia), a preencher-nos o culto. Eram o sempre nosso "Manel" (Fernandes), o fabuloso Rui Manuel Trindade (lá está) Jordão - o que teria este avançado hoje em dia, um génio do futebol! E Keita! Chegado já trintão, veterano de inúmeras pelejas, fugido de Espanha - tal como Jordão - por razões de maus-tratos rácicos na imprensa (os tempos de então eram bem piores do que os de hoje). Classe pura, distribuindo júbilo pelas bancadas - ainda me lembro, ele, mesmo já o tal veterano, a meter a bola por um lado do defesa e a ir buscá-la pelo outro, que jogador é que faz isso hoje, todos amarrados às tácticas, à "posse de bola" e às "coberturas"?... Era o Maior!

17
Ago23

Amélia Neves de Souto

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É o que eu tenho dela, o trabalho hercúleo "Guia Bibliográfico para o Estudante de História de Moçambique" (UEM, 1996), algo inultrapassável para quem quis (e quer) perceber alguma coisa do país, uma bibliografia compreensiva que comprei logo que cheguei para viver no país. E o "Caetano e o Ocaso do "Império": Administração e Guerra Colonial em Moçambique Durante o Marcelismo (1968-1974)" (Afrontamento, 2007), a sua tese de doutoramento. Um texto cuja leitura é obrigatória para se poder entender o tal ocaso do império - e tantos há, imensos, que se atrevem a "opinar" perorando, sem o ter lido e interpretado.
 
Mas o que dela retenho é muito, imenso, mais. Historiadora sim, mas tão mais! Moçambicana lusodescendente, também membro do destacamento feminino, então quase menina decidindo-se guerrilheira de libertação (e contou-me do quão fisicamente duro isso foi), a Amélia era um paradoxo face aos estereótipos. Pois não só simpática, tão gentil e prestável, armada de um belo sorriso e tão cativante gargalhada - pelo menos diante das minhas diatribes no Centro Social do campus da Universidade Eduardo Mondlane. Mas muito mais do que isso, pois verdadeira epítome da ternura. Nisso talvez a melhor pessoa que conheci na vida (e um "talvez" porque estou a sopesar, e nisso convoco apenas a minha maravilhosa irmã, a qual não posso desmerecer).
 
Há pouco soube que estava bastante doente, aqui perto, em Lisboa. Entre as bolandas em que me deixei seguir atrasei o encontro combinado. Vim agora à capital - e sei hoje que a Amélia morreu, uma sua rota final afinal tão rápida. Espero que em Maputo a queiram e saibam honrar. E nisso honrarem-se!
 
Eu apenas choro, chorarei.

28
Jul23

Marc Augé

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[Marc Augé] L'anthropologie aujourd'hui
 
Por vezes resmungo com a imprensa "de referência" portuguesa, cheia de aparências "cultas", e nisso de obituários do showbizz ou de cortesãos, "aparatchicos" tantos deles. Alguns dirão "lá está o reaccionário". Seja!
 
Pois é no Facebook - essa malvada "rede social", tão invectivada por ser território de falsidades e futilidades - que vejo a notícia da morte do grande Marc Augé! Há já quatro dias! Googlo e notícias lusas inexistem - e o que o Google não mostra é porque não existe. Incrível, não só pela notoriedade de Augé como pelo facto dele ter sido dos poucos antropólogos publicados em Portugal - já naquela velha colecção de "livros pretos" das Edições 70 (não os tenho aqui mas pelos menos foram editados o "Domínios do Parentesco" e "A Construção do Mundo" - este último por ele organizado). E depois, mais recentemente, foram sendo publicados vários dos seus livros, isto sob o lema que lhe deram, o de "antropólogo do mundo contemporâneo".
 
Enfim, não me vou por a fazer aqui um "obituário" e muito menos uma eulogia - para o fazer a um homem destes faltar-me-ia o "engenho e a arte". Que algum mais graduado o faça, se alguém o entender. Mas já que os "de referência" nada disseram partilho aqui uma sua palestra, "A Antropologia Hoje" - ele começa a falar aos 13'40''. Lamentavelmente o filme não tem legendas e isto fica para francófonos - atenção, Augé tinha uma bela dicção, quem percebe um pouco de francês poderá acompanhar sem problemas o seu pausado e claro falar.

Bloguista

Livro Torna-Viagem

O meu livro Torna-Viagem - uma colecção de uma centena de crónicas escritas nas últimas duas décadas - é uma publicação na plataforma editorial bookmundo, sendo vendido por encomenda. Para o comprar basta aceder por via desta ligação: Torna-viagem

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