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Nenhures

Nenhures

13
Nov21

Um café (sem uísque)

jpt

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O José Navarro de Andrade (de quem sou co-bloguista no Delito de Opinião e no sportinguista És a Nossa Fé) estreou a semana passada o seu programa de entrevistas "Vamos Beber Um Café..." - que passa na RTP2 mas pode ser visto ad aeternum na RTP Play. O Navarro tem a coisa (muito) boa de ser um entrevistador que interpela os seus entrevistados, assim evitando a conversa mole e as proclamações autorais, até pomposas (estas muito em especial habituais nos consagrados). Vi hoje à tarde o primeiro programa: tem uma entrevista muito interessante com a escritora Djaimilia Pereira de Almeida (que acaba de publicar o romance "Maremoto"), a qual nunca li mas que decerto irei ler depois de a ver aqui. Pois é uma entrevistada como deve ser, sem poses, sem "atitudes", e cheia de pertinência e entusiasmo a falar do seu livro e da sua escrita. Segue-se uma entrevista com o escritor Jaime Rocha, a propósito da sua peça versão da "Filoctetes" de Sófocles - e de repente um tipo pode ver uma interessante e animada conversa sobre tragédia grega e sua refracção actual. Coisa rara e preciosa nos tempos actuais.

Deixo as entrevistas para quem tenha vagar...

(Vamos Beber Um Café..., episódio 1: entrevista a Djaimilia Pereira de Almeida)

(Vamos Beber Um Café..., episódio 1: entrevista a Jaime Rocha)

20
Out21

O Prémio Camões vai para Moçambique

jpt

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Alguns patrícios perguntam-me a opinião sobre o Prémio Camões atribuído hoje à moçambicana Paulina Chiziane. Repito-lhes aquilo que sempre digo sobre este prémio:
 
1) trata-se de um produto político, que procura através da premiação anual sedimentar uma comunidade internacional assente na partilha linguística. Não vem grande mal ao mundo por isso, mas subalterniza critérios literários;
 
2) o costume de alternar a premiação entre Portugal e Brasil - polvilhando o ritmo com algumas atribuições a escritores africanos - sublinha essa secundarização de considerações literárias (porque não sucessivos prémios dados a escritores da mesma nacionalidade, por exemplo?).
 
Para além disso há as minhas inclinações pessoais:
 
3) Desde que em 2010 Ruy Duarte de Carvalho morreu sem que lhe tivesse sido atribuído o Camões - e ainda por cima depois de já 2 angolanos terem sido premiados sob o molde "redistributivo" que referi - deixei de dar relevo às premiações. Autor de uma obra ímpar, excêntrica, vasta e plural, nisso nada canónica, tanto em formato como em densidade do aludido e refractado, o "esquecimento" que os júris lhe votaram, e isso enquanto também consagram ensaístas, desvaneceu-me expectativas. É certo que ao longo dos anos por vezes surgem polémicas sobre os premiados (lembro Aguiar e Silva, Alegre, Queiroz, isto para além da inaudita agressividade do ministro fascista brasileiro contra o grande Nassar) mas essas provieram de motivos ideológicos - realçando o cariz político do Camões. Mas no caso de Ruy Duarte os motivos foram alheios a tais ponderações, tendo(-me) restado apenas a estupefacção diante do evitamento académico de que ele foi alvo.
 
4. Este prémio de 2021 chama a atenção sobre a literatura moçambicana, e isso é bom. É aliás para isso que servem os prémios, para atrair leitores. Sou um mero leitor e estou desactualizado. Sei que há algumas edições recentes que são apetecíveis: hoje em Maputo o Francisco Noa apresentou "No Verso da Cicatriz" de Bento Baloi - que também tem edição portuguesa (Aletheia) -, e que ele recomenda. Há dias o António Cabrita anunciava-me jovens escritores de que ele, sempre infatigável, prepara edições. Mas nestes últimos anos perdi o fio à meada da literatura moçambicana. Ainda assim, e porque hoje me perguntam opiniões sobre o assunto, sumarizo o que ao longo de anos bloguei descomprometidamente - como o tal mero leitor - no blog ma-schamba, nada mais do que as minhas preferências :
 
5. Recomendo imenso a leitura de João Paulo Borges Coelho, do qual estou a ler o seu recente "Museu da Revolução". Sou "fan" da sua obra, o seu "As Duas Sombras do Rio" é até um dos livros da minha vida. E como "fan" não tenho rodeios para o dizer o maior escritor em português em África. E, nem que seja por causa da vigência deste molde "redistributivo" de premiação, se (muitas) outras razões intelectuais não houvesse, há muito tempo que já devia ter sido galardoado com o Camões. O que lhe traria... leitores. Francamente incompreendo este processo.
 
6. Ungulani Ba Ka Khosa é um belíssimo escritor, carregado de verve e garra. E que teve um enorme impacto na ficção nacional, quase (re)fundacional - o que também, num dia como este, deixa a pergunta: "para quando o Camões ao Ungulani?". No seu rumo, sinuoso como o de tantos grandes escritores, o Khosa não dá nada de "curio" nem de afago ao putativo leitor. Com verrina e inultrapassável pertinência disseca a sua sociedade como ninguém o fez antes dele. Se há heroísmo nas letras isso encontra-se nele.
 
7. Aldino Muianga é um escritor interessantíssimo. De ínicio com um estilo menos afoito do que o do Khosa, e menos burilado do que o do Borges Coelho, é evidente que se foi complexificando ao longo da sua já vasta obra, e nisso apresenta-nos um olhar muito completo - e crescentemente ácido - sobre o país, colonial e nacional. Talvez os seus livros sejam mais apelativos a quem conhece o país, na forma como nos ilumina os processos colectivos e mentais que foram decorrendo e que culminam neste hoje.
 
8. Há um livro que é obrigatório para quem tenha interesse na literatura moçambicana (e não só, já agora) e nunca o tenha lido. Pode começar por ele. Trata-se do "Nós Matámos o Cão-Tinhoso", de Luís Bernardo Honwana (de 1964), uma excepcional colecção de contos. Foi já tão recenseado e analisado que não vou perorar sobre ele. Apenas lembro que durante anos escrevi num jornal em Moçambique, nele tinha uma coluna a que chamei "Ao Balcão da Cantina" (título que depois usei para as minhas memórias em Moçambique). Era essa "cantina" a do magnífico conto "Nhinguitimo", uma muda homenagem a um texto que tanto me marcara, a um escritor e homem de grande valor. E a uma literatura nacional que tanto aprecio. E que está hoje em festa! Ainda bem.

 

15
Out21

Bartleby e o Covid

jpt

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É preciso algum desplante, ou mesmo muito, para que um leitor mediano julgue poder dizer algo de novo sobre o incuravelmente desamparado escrivão Bartleby, o tal dito arauto da terrível modernidade, essa do desânimo feito miséria, algemado ao (in)consequente “I would prefer not to”, tornado verdadeira "fobossofia" de vida por mais que aparente um registo meditabundo, por tantos julgado essência do renunciante.

Apenas noto que regressei ao livro neste Covidoceno e senti-o qual premonição das derivas que esta malvada era potenciou: não foi Bartleby - alimentado a meros biscoitos de gengibre e "sentinela perpétua no seu canto" - ao forçar-se inquilino do escritório, tornando-o seu desalmado lar, o verdadeiro precursor deste "teletrabalho" doméstico que agora grassou, para remediado e inane encanto de tantos bartlebys?

Mas mais ainda sendo prenúcio do que agora adveio, pois não foi ele imóvel, sentado na "escrivaninha junto a uma pequena janela lateral ... que primitivamente oferecera uma vista lateral de pátios sujos e muros de tijolos, mas que devido a construções ulteriores não tinha neste momento qualquer vista, embora fornecesse alguma luz. A cerca de um metro dos vidros da janela havia um muro, e a luz vinha muito lá de cima, por entre dois altos edifícios, como se tratasse de uma pequena abertura numa cúpula", nesse seu incessante "em devaneio frente à parede cega", no qual a tudo "preferia não o fazer", o anúncio de todos nós, trancados diante da parede cega de ecrãs feita, entre a profusão de televisão e o frenesim das redes sociais, tudo apenas na aparência de sermos e nisso até agirmos?

Seremos nós, assim, ainda dignos da melancólica piedade de um patrão (que nós mesmos se possível, naquele sonho mito do "patrão de mim mesmo") resistente e benfazejo? Ou talvez já nem isso, pois "Para um ser sensível, a piedade é, não raras vezes, sofrimento. E quando finalmente entende que uma tal piedade não pode levar a uma efectiva ajuda, o senso comum obriga o espírito a ver-se livre dela." Ou seja, estaremos já desempregados? Inúteis? Desamparados?

[Uso a tradução de Gil de Carvalho, publicada por Assírio & Alvim, 1988]

12
Out21

Abdulrazak Gurnah

jpt

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[O blog colectivo Delito de Opinião tem uma rubrica que é a do "Pensamento da Semana", a qual roda entre o conjunto dos co-bloguistas. Esta semana coube-me a mim. Como não sou dado (não tenho jeito para) aforismos, botei isto:]

O léxico é importante. Importantíssimo. Desde que na semana passada foi atribuído o Nobel da Literatura a Abdulrazak Gurnah que vai por aqui e acolá uma acesa discussão. Escritores e proto-escritores, literatos e candidatos a tal estrado, e até jornalistas, botam sobre a "condição" "identitária" do premiado, questão que consideram sumamente importante. Nessa já polémica duas características partilham os opinadores: nada leram do autor; confundem "representante" com "representativo". Insisto, o léxico é importante. Importantíssimo. E mais o deveria ser para estes núcleos de "identidade" laboral.

ADENDA: (meu pensamento do ano) Sobre este assunto a Lusa (agência noticiosa estatal) noticiou que Gurnah é o primeiro escritor africano a receber o Nobel nos últimos 30 anos, saudando que ele "quebrou o "jejum", depois do nigeriano Wole Soyinka ter sido laureado em 1986". O facto de que em 2003 o prémio tenha sido atribuído a Coetzee - um daqueles raros casos em que é curial afirmar ter o Nobel sido galardoado com o Prémio Coetzee - é apagado. Não se trata de um erro, até porque o escritor é muito conhecido e bastante traduzido em português. E porque também apagam os anteriores Mafhouz (1988) e Gordimer (1991). É mesmo uma proclamação, a invectiva ao "branco" - a usual e lamurienta auto-invectiva, neste caso da agência estatal portuguesa. E é essa a sede desta pobre polémica de aparência literária: do que toda esta gente anda a falar é de "raça". Cada um com os seus dislates. A quererem-se assertivos. A assertividade da vacuidade.

18
Ago21

Viver em Hotéis

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Aos fins-de-semana no Delito de Opinião o Pedro Correia tem vindo a colocar uma série de curtas e despretenciosas entrevistas, as quais há já mais de uma década publicara no Diário de Notícias, realizadas a personalidades algo relevantes entre finais de XX e o início de XXI, tantas delas entretanto falecidas. São já 44 republicadas, uma verdadeira colecção que se torna uma aprazível visita àqueles recentes tempos, até porque as perguntas são sempre as mesmas o que sublinha o "ar de época" que delas exsuda. Uma dessas perguntas é se o entrevistado "gostaria de viver num hotel?". Lembrei-me disso agora ao reler "O Prazer da Leitura" de Proust, esse manifesto pela imaginação leitora tão avesso ao "respeito fetichista pelos livros", esse que considera típico do literato qual amanuense. E livro a que regressei, por necessidade, pois é também um receituário da leitura como remédio contra a acédia. Mas, e para o que a este postal importa, disse assim Proust, o que muito me apraz pois - e sem me armar em proustiano - neste trecho sobre hotéis tanto me reconheço:

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"só me sinto feliz ao pôr os pés (...) num desse hotéis de província com compridos corredores frios onde o vento lá de fora luta com êxito contra os esforços do calorífero, onde o mapa detalhado da região é ainda o único ornamento das paredes, onde cada um dos ruídos serve apenas para fazer surgir o silêncio ao deslocá-lo, onde os quartos guardam um odor a fechado que o ar livre vem lavar, mas não apaga, e que as narinas aspiram centenas de vezes a fim de o fazer à imaginação, que com ele se deleita, que o faz posar como um modelo para tentar recriá-lo dentro dela com tudo quanto ele contém de pensamentos e recordação; onde à noite, quando se abre a porta do quarto, se tem a sensação de violar toda a vida que nele permaneceu espalhada, de lhe pegar corajosamente na mão quando, fechada a porta, se entra ainda mais dentro dele, até junto da mesa ou até à janela; de se estar sentado numa espécie de livre promiscuidade com ela no canapé executado pelo estofador da capital do distrito ao que este julgava ser o gosto de Paris; de tocar toda a nudez dessa vida no intuito de nos perturbarmos a nós próprios com a própria familiaridade, pondo aqui e acolá as nossas coisas, fazendo de conta que se é proprietário daquele quarto a transbordar da alma dos outros e que guarda até na forma dos ferros da lareira e nos desenhos dos resposteiros a marca dos sonhos deles, ao andarmos descalços em cima do tapete desconhecido; então, essa vida secreta, temos a sensação de fechá-la connosco quando vamos, a tremer, correr o fecho da porta; de empurrá-la à nossa frente para a cama e de nos deitarmos finalmente com ela nos grandes lençóis brancos que nos tapam a cara, enquanto, ali ao pé, a igreja faz soar pela cidade inteira as horas de insónia dos moribundos e dos apaixonados.

Uso a edição de "O Prazer da Leitura" da Teorema/FNAC de 2003, algo descuidada. A citação é das páginas 19-20. Para quem leia francês o texto original está aqui, com acesso livre. 

17
Ago21

Sobre o Afeganistão

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Sobre esta coisa do Afeganistão deparo-me com vários conhecedores da situação. Desde um ex-deputado e agora candidato em Loures pelo BE que surge no reflexo típico de culpabilizar o Ocidente, cujos governos "bombardeiam (...) governos progressistas". Para outros - decerto que "progressistas" - aquilo é ab ovo culpa dos EUA, pois descobrem que estes apoiaram a guerrilha anti-soviética [note-se que há um já velho filme sobre isso, "Charlie Wilson's War" (Jogos do Poder) com o actual Jimmy Stewart, o grande Philip Seymour Hoffman e a divindade Julia Roberts, não estando assim estes investigadores a dar-nos grandes novidades]. Mas nenhum desses aborda os motivos da invasão soviética, decerto que por os considerarem irrelevantes.
 
Muitos, até não interseccionalistas, lamentam o destino das mulheres afegãs - mas poucos (não leio sequer um) se preocupa com a gente afegã qual eu. Outros, mais interseccionalistas e nisso paladinos da etnicização de Portugal e restante pérfido Ocidente, anunciam que o decadente governo afegão pró-ocidental descurou uma etnia (os pastós), deixando assim entender que a etnicidade é algo problemática, mas estarão certos que apenas nos longínquos vitimizados transeuropeus. Outros ainda, que leio há anos defendendo o status quo luso, apontam que a derrocada do poder de Cabul se prendeu a ter sido muito corrupto, assim anunciando que - decerto que apenas fora de Portugal - a corrupção estatal enfraquece as vias democráticas. E outros ainda, de recorte mais intelectual, concluem que os ocidentais nada percebem sobre o Afeganistão.
 
Continuo a crer que está (quase) tudo nos livros, e só lamento não ter a militância, a disciplina e, acima de tudo, a inteligência para ler o que me falta e, acima de tudo, reler o que me fez. Enfim, daquilo que me passou pela frente deixo um aviso e uma memória: o aviso, superficial, é sobre o que virá aí naquelas bandas. Será de ler "As Novas Rotas da Seda" do Frankopan. Quem o ler poderá fazer postais no FB, e nos blogs. E, alguns, até irão à TV botar faladura.
 
A memória, que é a coisa importante: está tudo no "O Americano Tranquilo" (há várias edições portuguesas) de Graham Greene (1955). Li-o aos 16 anos e descobri-me Thomas Fowler. Não como alter ego, como acontece nas leituras juvenis. Mas como reconhecimento, num "eu sou este gajo". Ainda hoje me surpreendo como me conheci tão cedo. Reli-o três vezes até aos 25 anos e não mudei de ideias. Depois aos 40s e sorri, na comprovação desse reconhecimento. Quando for à capital, às estantes do meu pai, relerei de novo, agora quase aos 60, usando este exemplar paterno, aquele com o qual descobri Fowler (jpt). Não me dará para postais de FB ou de blog. Mas, claro, e como sempre, dá-me para encolher os ombros diante dos convictos a la carte.

16
Jan21

A piedade

jpt

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Começo o confinamento - que afinal não o é tamanha a confusão portuguesa, percebi-o depois - com um regresso ao Bartleby de Melville. 30 anos depois da última leitura, dizem-me os gatafunhos que deixara no livro. O mesmo impacto com este "I would prefer not to" a tudo e todos, aparentemente sem sentido, sem razão, aquela apneia no langor, o sem rumo nada errante da vida da era d'agora mas mais ainda deste por ora ... E depois a desapiedade:

As minhas primeiras emoções haviam sido de pura melancolia e da mais sincera piedade; mas à medida que o desamparo de Bartleby crescia e se desenvolvia na minha imaginação, essa mesma melancolia transformou-se em medo, aquela piedade em repulsa. Tão verdadeiro ele é, e tão terrível também, que até certo ponto o pensamento ou o espectáculo de miséria ganha o melhor dos nossos sentimentos; mas, em certos casos especiais, para além desse limite, não. Erram quantos afirmam que tal se deve, invariavelmente, ao egoísmo inerente ao coração humano. Antes tem a origem num certo desânimo, incapaz de remediar um mal excessivo e orgânico. Para um ser sensível, a piedade é, não raras vezes, sofrimento. E quando finalmente entende que uma tal piedade não pode levar a uma efectiva ajuda, o senso comum obriga o espírito a ver-se livre dela.”

29
Dez20

Rescaldo de 2020

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(Lisboa confinada; Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo)

Entre co-bloguistas, no colectivo Delito De Opinião , estamos a escolher - tal como todos anos o fazemos - o Facto Nacional e o Facto Internacional do Ano, a Figura Nacional e a Internacional do Ano, e a Frase do Ano. Quando (finalmente) entrarmos em 2021 o nosso coordenador blogal, Pedro Correia, publicará os resultados. Deixo aqui a minha votação (até para vos chamar a atenção para o resultado final): 

1. Frase Nacional do Ano: há imensas para escolher (aqui um rol delas, patéticas). Mas escolho uma de Pedro Nuno Santos, o robusto Iznogoud deste governo: "Em 2025, a TAP já estará em condições de devolver algum do dinheiro ao Estado português".

Escolho-a porque as outras são sobre isto que agora decorre. E esta é para o futuro, escrutinável daqui a uns anos. É também dedicada aos interseccionalistas, ou lá como agora se chamam os socratistas. Não tiveram eles a desvergonha abjecta de até com o Berardo gozarem no ano passado? Daqui a cinco anos continuarão na cagança aldrabona da sua superioridade moral e intelectual, o "activismo" como peroram. Será então de lhes perguntar, aos funcionários públicos e aos subsidiados/avençados, aos teclados de aluguer e aos imbecis (in)úteis, se se lembrarão disto. Com toda a certeza que não.

2. Facto Nacional do Ano: O assassinato de Ihor Homeniuk no Aeroporto de Lisboa.

Porque demonstra o estado do Estado. Porque o mísero ministro Cabrita ainda o é. Porque demonstra o miserando estado do "activismo". Porque nos demonstra. 

[Sobre o assunto botei em Junho e em Dezembro]

3. Facto Internacional do Ano: COVID-19. Como é óbvio.

Já agora deixo ligação a um texto mais longo que escrevi sobre isto. Não colheu grande interesse (leitores). Mas foi a única coisa que escrevi neste ano, por isso aqui venho agitar a tralha: “P’ra melhor está bem, está bem, p’ra pior já basta assim”: o capitão MacWhirr e o Covid-19.

4. Figura Internacional do Ano: Li Wenliang
 
Como vénia ao seu percurso, tão breve. De coragem.

Mas também para lembrar os comunistas (aka interseccionalistas do "sul"), que nos odeiam tanto, a nós porque europeus, portugueses, brancos, e democratas - ainda que tantos deles também europeus, também portugueses (aquilo da "dupla"), também brancos, mas nunca democratas, e ainda que também aqui aboletados - que sufragavam a ideia da total irresponsabilidade da "Comunista" China nisto tudo. E que nós - brancos, europeus, portugueses, seus anfitritões/compatriotas e, pior do que tudo, democratas - deveríamos pagar os custos do Covid-19 em África porque nossa culpa.

Acho que nunca desprezei ninguém como esta execrável malta, naquele Março-Abril de 2020.
 

5. Figura Nacional do Ano: Frederico Varandas.

Porque apesar de todas as contingências, mostrou o valor do trabalho, do esforço e da planificação num país dominado pelos lobbies políticos e empresariais, numa área de actividade económica particularmente vilipendiada pelo recurso a actos ilegais por parte dos poderes vigentes.

***

Junto quatro outras escolhas, que me marcaram o 2020. 

 

6. Música (Banda Sonora) do Ano: porque este concerto de Lou Reed [Capitol Theatre, 25 de Setembro de 1984] e alguns outros dele tocaram incessantemente durante as noites de Março, Abril e Maio, lá no bucólico Nenhures.

7. Livro do Ano (ensaio)Les Nouvelles Routes de la Soie, de Peter Frankopan. Enfim, foi releitura (para tirar notas, essa inutilidade viciante) e não foi o melhor. Mas completamente o mais útil. Enquanto os basbaques discutiam Trump e Brexit, já agora:

8. Livro do Ano (ficção): Ilações Sobre um Sabre, de Claudio Magris. Um pequeno-Enorme livro, até já antigo. Daqueles que um tipo ao acabar logo insulta o autor - tanta a raiva invejosa diante de tamanho talento. E, ao mesmo tempo, regurgita de júbilo pela sorte de ter lido.

9. Canção do Ano: "Waves of Fear", de Lou Reed.

04
Out20

Racismo cultural (2): o afã de encontrar racistas ...

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Há algum tempo deixei este postal sobre Racismo Cultural. Com uma citação ilustrativa do que muitos poderão considerar tal coisa: "Para aqueles homens e aquelas mulheres, não existia doença natural e talvez nenhuma coisa o fosse. O seu universo permanecera no caos e, todos os acontecimentos, mesmo os mais simples, eram para eles mistérios, mas uns eram mais frequentes do que outros, aos quais o uso os acostumava. As fases da Lua, a produção do fogo no seu fogão de cozinha não eram menos inconcebíveis, para eles, do que a abertura de cavernas em pulmões doentes; apenas eram naturais, isto é justas, a seus olhos, as mortes de velhos. E como eram, no entanto, seres humanos, condenados, pelo instinto da sua espécie, à procura e talvez à invenção das causas, atribuíam o definhamento de Amande àquela que era para eles a mais simples, a mais humana, à força cujos efeitos tinham muitas vezes, nas suas vidas, verificado: a inveja, os ciúmes de uma mulher por uma mulher." Foi um postal capcioso, e por isso propositadamente não identifiquei nem texto nem autor. O tempo foi passando e ninguém resmungou comigo - o que era o meu objectivo. (E na plataforma Facebook, na qual coloco ligações para os postais do blog, até tive algumas concordâncias).

Trata-se de um trecho do conto "Malefício", incluído no livro "Conto Azul" de Marguerite Yourcenar, o qual inclui três contos de juventude da escritora - um, "A Primeira Noite", tem o particular encanto de ser uma reescrita do único texto ficcional do seu pai. Este "Malefício" foi originalmente publicado em 1933, quando a escritora tinha 30 anos. E o interessante é que aborda um contexto popular italiano. É certo que os mais radicais críticos da actualidade podem clamar que a francesa (e algo belga, pois nascida em Bruxelas e filha de mãe belga, ainda que logo dela orfã) teria um olhar desvalorizador, "racializador" diz-se agora, dos europeus austrais. Poderão também congregar-se na invectiva ao "orientalismo" apoucador da escrita quando abordou - e tanto o fez - a gente do "Mediterrâneo". E que tudo isso constituiria o tal "racismo cultural", desvalorizador de quaisquer outros, mesmo que de tezes similares. Mas tudo isso serão (seriam) construções forçadas. 

Pois o que o pequeno conto narra é uma visão das crenças nas causalidades da doença, tão recorrentes elas são. E as formas como os habituados à medicina moderna (a "biomedicina" na linguagem dos anti-capitalistas new age) encaram as metafísicas construções dessas causalidades da doença e morte. Mais ainda, e mesmo que Yourcenar escrevesse no início da década de 1930 quando os estudos antropológicos não tinham o manancial de reflexão que vieram a ter, e não sendo ela antropóloga, pouco poderá chocar esta sua visão. Certo, não será muito curial aprovar uma formulação como "O seu universo permanecera no caos ...", pois não é disso que se trata. Pelo contrário, a crença na omnipresença do "mau-olhado" letal é um postulado de ordem antropocentrada, remetendo as causas dos incidentes para as práticas humanas. Mas de resto que há a afrontar nesta plácida descrição de uma outra mundivisão? Tão presente nas nossas sociedades, ainda hoje, apesar de séculos de igrejas, católica e protestantes, a tentarem extirpar a crença na feitiçaria/magia, e de alguns outros de medicina moderna. 

Com esta minha citação procurei reforçar duas ideias: a primeira, menos relevante, é o afã das pessoas em gritar "racista" (cultural ou físico), tamanho que até num texto destes o querem reconhecer. Disparam sobre tudo. O que mexe e o que está imóvel. Até sobre a grande Yourcenar ...

Mas a segunda é ainda  mais relevante, denotativa da patetice semi-intelectual que subjaz esta moda que "racistiza" todos os que assomam à soleira da porta ... É que uma coisa é a constatação - construída pelo pensamento "ocidental", em particular pela antropologia - que todos os povos são igualmente racionais, que todas as suas mundivisões (as "culturas") são lógicas e competentes. Outra coisa é esta hipocrisia dos mercenários do "bom-causismo", a da condenação do "racismo cultural" atribuído aos que acreditam que há melhores, pois mais competentes e mais justas, mundivisões ("culturas") do que outras.

Quando essa tralha de gente sai à rua dizendo-nos "racistas" porque acreditamos que há "culturas" mais "civilizadas" do que outras é isso que estão a aldrabar. Pois, de facto, há mundivisões mais justas e mais competentes do que outras. E quando consideramos isso não somos racistas, culturais ou biológicos. Quando uma mulher tem tuberculose não julgamos que foi a vizinha ciumenta que a enfeitiçou - como as personagens do "Malefício" - e procuramos uma cura para os efeitos do bacilo de Koch. Entretanto, alguns de nós, face às perspectivas que nos dominam, usamos instrumentos consagrados, tipo a "dúvida metódica" ou similares. Em outras sociedades isso também acontece. Noutras não. E sabemos destas distinções. Por isso, uns mais conhecedores outros mais espontâneos, hierarquizamos de formas mais ou menos fluídas as "culturas" existentes. Muitos chamam "evolução" à melhoria tendencial das culturas. Outros, mais letrados, evitam julgá-la unilinear. 

O "caos" que Yourcenar assumia lá nos pobres italianos naquela narrativa não existia. O "caos" existe na ladainnha, de facto hipócrita, deste falsário hiper-relativismo. Que afirma "racismo (cultural)" onde existem meras opções, de concepções e noções feitas, do devir social. Que os seus locutores também partilham.

 

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