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Nenhures

Nenhures

A piedade

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Começo o confinamento - que afinal não o é tamanha a confusão portuguesa, percebi-o depois - com um regresso ao Bartleby de Melville. 30 anos depois da última leitura, dizem-me os gatafunhos que deixara no livro. O mesmo impacto com este "I would prefer not to" a tudo e todos, aparentemente sem sentido, sem razão, aquela apneia no langor, o sem rumo nada errante da vida da era d'agora mas mais ainda deste por ora ... E depois a desapiedade:

As minhas primeiras emoções haviam sido de pura melancolia e da mais sincera piedade; mas à medida que o desamparo de Bartleby crescia e se desenvolvia na minha imaginação, essa mesma melancolia transformou-se em medo, aquela piedade em repulsa. Tão verdadeiro ele é, e tão terrível também, que até certo ponto o pensamento ou o espectáculo de miséria ganha o melhor dos nossos sentimentos; mas, em certos casos especiais, para além desse limite, não. Erram quantos afirmam que tal se deve, invariavelmente, ao egoísmo inerente ao coração humano. Antes tem a origem num certo desânimo, incapaz de remediar um mal excessivo e orgânico. Para um ser sensível, a piedade é, não raras vezes, sofrimento. E quando finalmente entende que uma tal piedade não pode levar a uma efectiva ajuda, o senso comum obriga o espírito a ver-se livre dela.”

Rescaldo de 2020

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(Lisboa confinada; Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo)

Entre co-bloguistas, no colectivo Delito De Opinião , estamos a escolher - tal como todos anos o fazemos - o Facto Nacional e o Facto Internacional do Ano, a Figura Nacional e a Internacional do Ano, e a Frase do Ano. Quando (finalmente) entrarmos em 2021 o nosso coordenador blogal, Pedro Correia, publicará os resultados. Deixo aqui a minha votação (até para vos chamar a atenção para o resultado final): 

1. Frase Nacional do Ano: há imensas para escolher (aqui um rol delas, patéticas). Mas escolho uma de Pedro Nuno Santos, o robusto Iznogoud deste governo: "Em 2025, a TAP já estará em condições de devolver algum do dinheiro ao Estado português".

Escolho-a porque as outras são sobre isto que agora decorre. E esta é para o futuro, escrutinável daqui a uns anos. É também dedicada aos interseccionalistas, ou lá como agora se chamam os socratistas. Não tiveram eles a desvergonha abjecta de até com o Berardo gozarem no ano passado? Daqui a cinco anos continuarão na cagança aldrabona da sua superioridade moral e intelectual, o "activismo" como peroram. Será então de lhes perguntar, aos funcionários públicos e aos subsidiados/avençados, aos teclados de aluguer e aos imbecis (in)úteis, se se lembrarão disto. Com toda a certeza que não.

2. Facto Nacional do Ano: O assassinato de Ihor Homeniuk no Aeroporto de Lisboa.

Porque demonstra o estado do Estado. Porque o mísero ministro Cabrita ainda o é. Porque demonstra o miserando estado do "activismo". Porque nos demonstra. 

[Sobre o assunto botei em Junho e em Dezembro]

3. Facto Internacional do Ano: COVID-19. Como é óbvio.

Já agora deixo ligação a um texto mais longo que escrevi sobre isto. Não colheu grande interesse (leitores). Mas foi a única coisa que escrevi neste ano, por isso aqui venho agitar a tralha: “P’ra melhor está bem, está bem, p’ra pior já basta assim”: o capitão MacWhirr e o Covid-19.

4. Figura Internacional do Ano: Li Wenliang
 
Como vénia ao seu percurso, tão breve. De coragem.

Mas também para lembrar os comunistas (aka interseccionalistas do "sul"), que nos odeiam tanto, a nós porque europeus, portugueses, brancos, e democratas - ainda que tantos deles também europeus, também portugueses (aquilo da "dupla"), também brancos, mas nunca democratas, e ainda que também aqui aboletados - que sufragavam a ideia da total irresponsabilidade da "Comunista" China nisto tudo. E que nós - brancos, europeus, portugueses, seus anfitritões/compatriotas e, pior do que tudo, democratas - deveríamos pagar os custos do Covid-19 em África porque nossa culpa.

Acho que nunca desprezei ninguém como esta execrável malta, naquele Março-Abril de 2020.
 

5. Figura Nacional do Ano: Frederico Varandas.

Porque apesar de todas as contingências, mostrou o valor do trabalho, do esforço e da planificação num país dominado pelos lobbies políticos e empresariais, numa área de actividade económica particularmente vilipendiada pelo recurso a actos ilegais por parte dos poderes vigentes.

***

Junto quatro outras escolhas, que me marcaram o 2020. 

 

6. Música (Banda Sonora) do Ano: porque este concerto de Lou Reed [Capitol Theatre, 25 de Setembro de 1984] e alguns outros dele tocaram incessantemente durante as noites de Março, Abril e Maio, lá no bucólico Nenhures.

7. Livro do Ano (ensaio)Les Nouvelles Routes de la Soie, de Peter Frankopan. Enfim, foi releitura (para tirar notas, essa inutilidade viciante) e não foi o melhor. Mas completamente o mais útil. Enquanto os basbaques discutiam Trump e Brexit, já agora:

8. Livro do Ano (ficção): Ilações Sobre um Sabre, de Claudio Magris. Um pequeno-Enorme livro, até já antigo. Daqueles que um tipo ao acabar logo insulta o autor - tanta a raiva invejosa diante de tamanho talento. E, ao mesmo tempo, regurgita de júbilo pela sorte de ter lido.

9. Canção do Ano: "Waves of Fear", de Lou Reed.

Racismo cultural (2): o afã de encontrar racistas ...

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Há algum tempo deixei este postal sobre Racismo Cultural. Com uma citação ilustrativa do que muitos poderão considerar tal coisa: "Para aqueles homens e aquelas mulheres, não existia doença natural e talvez nenhuma coisa o fosse. O seu universo permanecera no caos e, todos os acontecimentos, mesmo os mais simples, eram para eles mistérios, mas uns eram mais frequentes do que outros, aos quais o uso os acostumava. As fases da Lua, a produção do fogo no seu fogão de cozinha não eram menos inconcebíveis, para eles, do que a abertura de cavernas em pulmões doentes; apenas eram naturais, isto é justas, a seus olhos, as mortes de velhos. E como eram, no entanto, seres humanos, condenados, pelo instinto da sua espécie, à procura e talvez à invenção das causas, atribuíam o definhamento de Amande àquela que era para eles a mais simples, a mais humana, à força cujos efeitos tinham muitas vezes, nas suas vidas, verificado: a inveja, os ciúmes de uma mulher por uma mulher." Foi um postal capcioso, e por isso propositadamente não identifiquei nem texto nem autor. O tempo foi passando e ninguém resmungou comigo - o que era o meu objectivo. (E na plataforma Facebook, na qual coloco ligações para os postais do blog, até tive algumas concordâncias).

Trata-se de um trecho do conto "Malefício", incluído no livro "Conto Azul" de Marguerite Yourcenar, o qual inclui três contos de juventude da escritora - um, "A Primeira Noite", tem o particular encanto de ser uma reescrita do único texto ficcional do seu pai. Este "Malefício" foi originalmente publicado em 1933, quando a escritora tinha 30 anos. E o interessante é que aborda um contexto popular italiano. É certo que os mais radicais críticos da actualidade podem clamar que a francesa (e algo belga, pois nascida em Bruxelas e filha de mãe belga, ainda que logo dela orfã) teria um olhar desvalorizador, "racializador" diz-se agora, dos europeus austrais. Poderão também congregar-se na invectiva ao "orientalismo" apoucador da escrita quando abordou - e tanto o fez - a gente do "Mediterrâneo". E que tudo isso constituiria o tal "racismo cultural", desvalorizador de quaisquer outros, mesmo que de tezes similares. Mas tudo isso serão (seriam) construções forçadas. 

Pois o que o pequeno conto narra é uma visão das crenças nas causalidades da doença, tão recorrentes elas são. E as formas como os habituados à medicina moderna (a "biomedicina" na linguagem dos anti-capitalistas new age) encaram as metafísicas construções dessas causalidades da doença e morte. Mais ainda, e mesmo que Yourcenar escrevesse no início da década de 1930 quando os estudos antropológicos não tinham o manancial de reflexão que vieram a ter, e não sendo ela antropóloga, pouco poderá chocar esta sua visão. Certo, não será muito curial aprovar uma formulação como "O seu universo permanecera no caos ...", pois não é disso que se trata. Pelo contrário, a crença na omnipresença do "mau-olhado" letal é um postulado de ordem antropocentrada, remetendo as causas dos incidentes para as práticas humanas. Mas de resto que há a afrontar nesta plácida descrição de uma outra mundivisão? Tão presente nas nossas sociedades, ainda hoje, apesar de séculos de igrejas, católica e protestantes, a tentarem extirpar a crença na feitiçaria/magia, e de alguns outros de medicina moderna. 

Com esta minha citação procurei reforçar duas ideias: a primeira, menos relevante, é o afã das pessoas em gritar "racista" (cultural ou físico), tamanho que até num texto destes o querem reconhecer. Disparam sobre tudo. O que mexe e o que está imóvel. Até sobre a grande Yourcenar ...

Mas a segunda é ainda  mais relevante, denotativa da patetice semi-intelectual que subjaz esta moda que "racistiza" todos os que assomam à soleira da porta ... É que uma coisa é a constatação - construída pelo pensamento "ocidental", em particular pela antropologia - que todos os povos são igualmente racionais, que todas as suas mundivisões (as "culturas") são lógicas e competentes. Outra coisa é esta hipocrisia dos mercenários do "bom-causismo", a da condenação do "racismo cultural" atribuído aos que acreditam que há melhores, pois mais competentes e mais justas, mundivisões ("culturas") do que outras.

Quando essa tralha de gente sai à rua dizendo-nos "racistas" porque acreditamos que há "culturas" mais "civilizadas" do que outras é isso que estão a aldrabar. Pois, de facto, há mundivisões mais justas e mais competentes do que outras. E quando consideramos isso não somos racistas, culturais ou biológicos. Quando uma mulher tem tuberculose não julgamos que foi a vizinha ciumenta que a enfeitiçou - como as personagens do "Malefício" - e procuramos uma cura para os efeitos do bacilo de Koch. Entretanto, alguns de nós, face às perspectivas que nos dominam, usamos instrumentos consagrados, tipo a "dúvida metódica" ou similares. Em outras sociedades isso também acontece. Noutras não. E sabemos destas distinções. Por isso, uns mais conhecedores outros mais espontâneos, hierarquizamos de formas mais ou menos fluídas as "culturas" existentes. Muitos chamam "evolução" à melhoria tendencial das culturas. Outros, mais letrados, evitam julgá-la unilinear. 

O "caos" que Yourcenar assumia lá nos pobres italianos naquela narrativa não existia. O "caos" existe na ladainnha, de facto hipócrita, deste falsário hiper-relativismo. Que afirma "racismo (cultural)" onde existem meras opções, de concepções e noções feitas, do devir social. Que os seus locutores também partilham.

 

Lobos

Estes últimas dias, as visões e argumentações, fizeram-me lembrar este "Lobos" de Alexei K. Tolstói. Vasculhei as estantes, encontrei. Partilho-o ...

 

Quando, desertas as aldeias, 

caladas as canções do povo, 

se levanta, encanecida, 

sobre o pântano a neblina: 

das florestas, sorrateiros,

um após outro, pelos campos, 

saem os lobos para a caça.

 

Dos valentes, sete andam juntos, 

e à cabeça a comandar

vai o oitavo que é branco.

O cortejo misterioso

pelo nono lobo é fechado,

deitando sangue da pata,

atrás de todos a mancar.

 

Não há nada que os assuste.

Se acaso vão para a aldeia,

nem o cão lhes há-de ladrar,

e o camponês só de vê-los

nem se atreve a respirar,

murmura a sua oração,

fica mais branco que a cal.

 

Contornam a igreja os lobos,

por largo e sorrateiramente.

Entram para o quintal do padre,

as suas caudas remexendo.

À porta da taberna, à coca,

espetam todas as orelhas: 

há blasfémias lá dentro?

 

Olhos como velas, os dentes

mais aguçados que sovelas.

Carrega lá treze metralhas

com pêlo de cabra, amigo,

sem medo, atira a matar.

Primeiro cairá o branco,

trás dele os outros vão tombar.

 

E quando na aldeia o galo

acordar quem ainda dorme,

nove velhas, e todas mortas,

verás espalhadas pela erva.

A da frente é a mais grisalha,

a de trás coxa, e todas nove 

em sangue ... Valha-nos Deus!

("Lobos", de Aleksei K. Tolstói, 1840. Tradução de Nina e Filipe Guerra. Trancrito de Rosa do Mundo: 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim, 2001, pp. 1066-1067).

O humanismo iluminista

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"Cartas do Meu Moinho" é um conjunto de 24 pequenos textos escritos por Alphonse Daudet nos anos 1860, com primeira edição em livro de 1869. O autor refugiava-se em Fontvieille, perto de Avignon, na Provence e simulou-se proprietário de um moinho, um pouco a la Montaigne e sua torre. A escrita é esplêndida e a pertinência inultrapassável. A um desses textos, "A Arlesiana", utilizou como base de uma peça - com música algo celebrizada de Bizet, a qual não me diz muito - e que nada tem a ver com a célebre série homónima de Van Gogh.

Nisto há um texto maravilhoso, sem que eu possa saber se o sub-texto é meu ou do autor. "O Farol dos Sanguinários" narra a sua estada no farol no arquipélago corso das Ilhas Sanguinárias. Daudet recorda a sua convivência com os três rudes veteranos faroleiros, dois corsos e um marselhês. E como esses todas as noites cumpriam os seus quartos de vigia ao farol lendo em voz alta, em luta contra o sono, esse perigo letal. E lendo o único livro disponível, "Vidas Paralelas" de Plutarco. Que melhor simbolização do humanismo iluminista?

(O meu exemplar é avoengo, de cerca de 1920, publicado pela Livraria Chardron, mas há edições portuguesas mais recentes).

Contos do Insólito

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Não lia Maupassant há décadas - julgo que nunca o tinha feito em português, e neste Contos do Insólito a tradução [de João Costa] funciona bem, pelo menos para um conhecedor sofrível de francês, como eu sou. Surpreende-me encontrar-lhe tamanha novidade nos contos, frescos, contundentes, finos, sob uma ironia deliciosa (que ilustro em trecho que abaixo transcrevo). E uma absoluta actualidade: por exemplo, o tema do conto "O Horrível" é a vulgarização da desgraça, a sua banalização quotidiana. Desvendando como da mescla de atrocidades mundiais que nos submerge se constitui, por critérios até desconhecidos, o excepcional que realmente sentimos como "horror", afinal os factos que são até aparentes minudências.

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"O que há sobretudo de encantador para um rapaz solteiro em ter por amante uma mulher casada é que ela lhe dá um interior sereno, amável, em que todos se ocupam de nós e nos apaparicam, desde o marido até aos criados. Encontramos ali reunidos todos os prazeres, o amor, a amizade, até a paternidade, a cama e a mesa, o que constitui enfim a felicidade da vida, com a vantagem incalculável de podermos mudar de família de vez em quando, de nos instalarmos alternadamente em todos os meios, o Verão, no campo, em casa do operário que nos aluga um quarto, e o Inverno em casa do burguês, ou mesmo em casa da nobreza, se tivermos ambição.

Possuo mais uma fraqueza: é gostar dos maridos das minhas amantes. Confesso até que alguns esposos comuns ou grosseiros me fazem repugnar as suas mulheres, por encantadoras que elas sejam. Mas quando o marido possui espírito ou encanto, fico infalivelmente loucamente apaixonado. Tenho o cuidado, se romper com a mulher, de não romper com o esposo. Arranjei assim os meus melhores amigos; e é deste modo que verifiquei, inúmeras vezes, a incontestável superioridade do macho sobre a fêmea, na raça humana. Esta proporciona-nos todos os aborrecimentos possíveis, faz-nos cenas, censuras, etc.; aquele que teria mesmo o direitos de queixar-se, trata-nos pelo contrári como se fôssemos a providência do seu lar."

(Guy de Maupassant, Misti, Recordações de Um Jovem Solteiro [1884], Contos do Insólito, Ulisseia, 2010, 69-70)

 

 

Racismo cultural

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O racismo português muito assenta, como estudos recentes o demonstram, no "racismo cultural", esse preconceito que desvaloriza as culturas alheias, em particular as das raças outras, ideia que se disseminou devido ao colonialismo europeu. O lamentável é que os textos que transpiram essa perspectiva continuam a ser editados sem quaisquer ressalvas (estudos contextualizadores, prefácios ou posfácios elucidativos, meros rodapés que sejam).

Este é um exemplo desse racismo, um trecho de célebre ficcionista ocidental, desprovido de qualquer consciência "decolonial" ou "póscolonial", publicado em Portugal em 1999, sem quaisquer cuidados explicativos por parte da sua editora.

"Para aqueles homens e aquelas mulheres, não existia doença natural e talvez nenhuma coisa o fosse. O seu universo permanecera no caos e, todos os acontecimentos, mesmo os mais simples, eram para eles mistérios, mas uns eram mais frequentes do que outros, aos quais o uso os acostumava. As fases da Lua, a produção do fogo no seu fogão de cozinha não eram menos inconcebíveis, para eles, do que a abertura de cavernas em pulmões doentes; apenas eram naturais, isto é justas, a seus olhos, as mortes de velhos. E como eram, no entanto, seres humanos, condenados, pelo instinto da sua espécie, à procura e talvez à invenção das causas, atribuíam o definhamento de Amande àquela que era para eles a mais simples, a mais humana, à força cujos efeitos tinham muitas vezes, nas suas vidas, verificado: a inveja, os ciúmes de uma mulher por uma mulher."

(edição de Livros do Brasil, pp. 95-96).

Alterglobalização

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Moinho Saint-Pierre (o moinho de Alphonse Daudet)

"Antigamente fazia-se aqui um grande comércio de moagens e, tôda a gente das herdades, dez léguas em redor, nos trazia o seu trigo para moer ... Em volta da aldeia, as colinas estavam tôdas cobertas de moinhos de vento. À direita e à esquerda não se viam senão asass que volteavam tocadas pelo mistral, por cima dos pinheiros, récuas de burricos carregados de sacos, subindo e descendo ao longo dos caminhos; e tôda a semana era um prazer ouvir lá nos altos o estalido dos chicotes, o ranger da tela e os gritos à esquerda! à direita! dos moços dos moleiros ... esses moinhos faziam a alegria e a riqueza da nossa região.

Infelizmente, uns Franceses de Paris tiveram a ideia de estabelecer uma fábrica de moagem a vapor na estrada de Tarrascon. Outros tempos, outros ventos. Tôda a gente se habituou a mandar o trigo aos moageiros e os pobres moinhos de ventos ficaram se ter que fazer. Durante algum tempo, tentaram lutar, mas o vapor foi mais forte e um após outro, todos êles, coitadinhos, foram obrigados a fechar ... O mistral bem soprava, mas as asas conservavam-se imóveis. Depois, um certo dia, o conselho municipal mandou deitar abaixo êsses casebres em ruina e no seu lugar plantaram-se vinhas e oliveiras.

Contudo, no meio da derrocada um moinho tinha resistido e continuava a fazer girar corajosamente as suas asas no cimo da colina, nas próprias barbas dos moageiros. Era o moinho do tio Corneille, êste mesmo em que estamos agora a fazer o nosso serão.

O tio Corneille era um velho moleiro, que vivia há sessenta anos no meio da farinha e sempre desesperado com a sua situação. A instalação das moagens tinha-o posto como doido. Durante oito dias viram-no correr para a aldeia, juntado em volta de si muita gente em alvorôço, gritando com tôdas as suas forças que queriam envenenar a Provença com a farinha dos moageiros. "Ninguém vá lá abaixo, dizia ele; aqueles bandidos, para fazerem pão, servem-se do vapor que é uma invenção do diabo, enquanto eu trabalho com o mistral e o vento norte, que são a respiração de Nosso Senhor  ...".

(Alphonse Daudet, "O segrêdo do tio Corneille", Cartas do meu Moinho, Livraria Chardron, c. 1915 [1869], pp. 17-19).

 

Moralismo hoje em dia

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"... a disposição mental que leva ao conto de fadas é a da moral ingénua, isto é, a moral que se exerce sobre os acontecimentos e não sobre os comportamentos, a moral que sofre e rejeita a injustiça dos factos, a tragicidade da vida, e constrói um universo em que a cada injustiça corresponde uma reparação." (Italo Calvino, Sobre o Conto de Fadas, Teorema, p. 100).

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