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Nenhures

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É uma total coincidência, devida a que há poucos dias uma querida amiga me disponibilizou uma preciosa pilha de livros. A qual encetei, desconhecendo o seu conteúdo, por este "O Último Adeus" (Adieu), pequena novela de Balzac publicada originalmente em 1830 (em edição Europa-América, tradução de João Gaspar Simões).

A trama romanesca é interessante, ainda que hoje surja algo secundária, até pelo tom de época, de hipérbole sentimental: o coronel Philippe de Sucy - veterano da campanha russa, regressado a França após seis anos na Sibéria como prisioneiro de guerra - reencontra por mero acaso a sua apaixonada, a condessa de Vandières. Esta está tresloucada, devido aos padecimentos sofridos desde que se tresmalhara durante a retirada do exército napoleónico, pois durante a batalha de Berezina enviuvara do general de Vandières e apartara-se de Sucy, que ficara prisioneiro. 

 

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"A tia Júlia ... em qualquer circunstância, no seu tom invariavelmente nasalado, proferia os seus comentários mais corrosivos e acutilantes que se possa imaginar: uma espécie de poesia do criticismo, da acusação e do insulto. Era sempre criativa, e perdoava muito poucas ofensas." (Saul Bellow, "Memórias de um filho de um contrabandista", Granta 1, 2013, tradução de Inês Hugon)

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O José Navarro de Andrade (de quem sou co-bloguista no Delito de Opinião e no sportinguista És a Nossa Fé) estreou a semana passada o seu programa de entrevistas "Vamos Beber Um Café..." - que passa na RTP2 mas pode ser visto ad aeternum na RTP Play. O Navarro tem a coisa (muito) boa de ser um entrevistador que interpela os seus entrevistados, assim evitando a conversa mole e as proclamações autorais, até pomposas (estas muito em especial habituais nos consagrados). Vi hoje à tarde o primeiro programa: tem uma entrevista muito interessante com a escritora Djaimilia Pereira de Almeida (que acaba de publicar o romance "Maremoto"), a qual nunca li mas que decerto irei ler depois de a ver aqui. Pois é uma entrevistada como deve ser, sem poses, sem "atitudes", e cheia de pertinência e entusiasmo a falar do seu livro e da sua escrita. Segue-se uma entrevista com o escritor Jaime Rocha, a propósito da sua peça versão da "Filoctetes" de Sófocles - e de repente um tipo pode ver uma interessante e animada conversa sobre tragédia grega e sua refracção actual. Coisa rara e preciosa nos tempos actuais.

Deixo as entrevistas para quem tenha vagar...

(Vamos Beber Um Café..., episódio 1: entrevista a Djaimilia Pereira de Almeida)

(Vamos Beber Um Café..., episódio 1: entrevista a Jaime Rocha)

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Alguns patrícios perguntam-me a opinião sobre o Prémio Camões atribuído hoje à moçambicana Paulina Chiziane. Repito-lhes aquilo que sempre digo sobre este prémio:
 
1) trata-se de um produto político, que procura através da premiação anual sedimentar uma comunidade internacional assente na partilha linguística. Não vem grande mal ao mundo por isso, mas subalterniza critérios literários;
 
2) o costume de alternar a premiação entre Portugal e Brasil - polvilhando o ritmo com algumas atribuições a escritores africanos - sublinha essa secundarização de considerações literárias (porque não sucessivos prémios dados a escritores da mesma nacionalidade, por exemplo?).
 
Para além disso há as minhas inclinações pessoais:
 
3) Desde que em 2010 Ruy Duarte de Carvalho morreu sem que lhe tivesse sido atribuído o Camões - e ainda por cima depois de já 2 angolanos terem sido premiados sob o molde "redistributivo" que referi - deixei de dar relevo às premiações. Autor de uma obra ímpar, excêntrica, vasta e plural, nisso nada canónica, tanto em formato como em densidade do aludido e refractado, o "esquecimento" que os júris lhe votaram, e isso enquanto também consagram ensaístas, desvaneceu-me expectativas. É certo que ao longo dos anos por vezes surgem polémicas sobre os premiados (lembro Aguiar e Silva, Alegre, Queiroz, isto para além da inaudita agressividade do ministro fascista brasileiro contra o grande Nassar) mas essas provieram de motivos ideológicos - realçando o cariz político do Camões. Mas no caso de Ruy Duarte os motivos foram alheios a tais ponderações, tendo(-me) restado apenas a estupefacção diante do evitamento académico de que ele foi alvo.
 
4. Este prémio de 2021 chama a atenção sobre a literatura moçambicana, e isso é bom. É aliás para isso que servem os prémios, para atrair leitores. Sou um mero leitor e estou desactualizado. Sei que há algumas edições recentes que são apetecíveis: hoje em Maputo o Francisco Noa apresentou "No Verso da Cicatriz" de Bento Baloi - que também tem edição portuguesa (Aletheia) -, e que ele recomenda. Há dias o António Cabrita anunciava-me jovens escritores de que ele, sempre infatigável, prepara edições. Mas nestes últimos anos perdi o fio à meada da literatura moçambicana. Ainda assim, e porque hoje me perguntam opiniões sobre o assunto, sumarizo o que ao longo de anos bloguei descomprometidamente - como o tal mero leitor - no blog ma-schamba, nada mais do que as minhas preferências :
 
5. Recomendo imenso a leitura de João Paulo Borges Coelho, do qual estou a ler o seu recente "Museu da Revolução". Sou "fan" da sua obra, o seu "As Duas Sombras do Rio" é até um dos livros da minha vida. E como "fan" não tenho rodeios para o dizer o maior escritor em português em África. E, nem que seja por causa da vigência deste molde "redistributivo" de premiação, se (muitas) outras razões intelectuais não houvesse, há muito tempo que já devia ter sido galardoado com o Camões. O que lhe traria... leitores. Francamente incompreendo este processo.
 
6. Ungulani Ba Ka Khosa é um belíssimo escritor, carregado de verve e garra. E que teve um enorme impacto na ficção nacional, quase (re)fundacional - o que também, num dia como este, deixa a pergunta: "para quando o Camões ao Ungulani?". No seu rumo, sinuoso como o de tantos grandes escritores, o Khosa não dá nada de "curio" nem de afago ao putativo leitor. Com verrina e inultrapassável pertinência disseca a sua sociedade como ninguém o fez antes dele. Se há heroísmo nas letras isso encontra-se nele.
 
7. Aldino Muianga é um escritor interessantíssimo. De ínicio com um estilo menos afoito do que o do Khosa, e menos burilado do que o do Borges Coelho, é evidente que se foi complexificando ao longo da sua já vasta obra, e nisso apresenta-nos um olhar muito completo - e crescentemente ácido - sobre o país, colonial e nacional. Talvez os seus livros sejam mais apelativos a quem conhece o país, na forma como nos ilumina os processos colectivos e mentais que foram decorrendo e que culminam neste hoje.
 
8. Há um livro que é obrigatório para quem tenha interesse na literatura moçambicana (e não só, já agora) e nunca o tenha lido. Pode começar por ele. Trata-se do "Nós Matámos o Cão-Tinhoso", de Luís Bernardo Honwana (de 1964), uma excepcional colecção de contos. Foi já tão recenseado e analisado que não vou perorar sobre ele. Apenas lembro que durante anos escrevi num jornal em Moçambique, nele tinha uma coluna a que chamei "Ao Balcão da Cantina" (título que depois usei para as minhas memórias em Moçambique). Era essa "cantina" a do magnífico conto "Nhinguitimo", uma muda homenagem a um texto que tanto me marcara, a um escritor e homem de grande valor. E a uma literatura nacional que tanto aprecio. E que está hoje em festa! Ainda bem.

 

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É preciso algum desplante, ou mesmo muito, para que um leitor mediano julgue poder dizer algo de novo sobre o incuravelmente desamparado escrivão Bartleby, o tal dito arauto da terrível modernidade, essa do desânimo feito miséria, algemado ao (in)consequente “I would prefer not to”, tornado verdadeira "fobossofia" de vida por mais que aparente um registo meditabundo, por tantos julgado essência do renunciante.

Apenas noto que regressei ao livro neste Covidoceno e senti-o qual premonição das derivas que esta malvada era potenciou: não foi Bartleby - alimentado a meros biscoitos de gengibre e "sentinela perpétua no seu canto" - ao forçar-se inquilino do escritório, tornando-o seu desalmado lar, o verdadeiro precursor deste "teletrabalho" doméstico que agora grassou, para remediado e inane encanto de tantos bartlebys?

Mas mais ainda sendo prenúcio do que agora adveio, pois não foi ele imóvel, sentado na "escrivaninha junto a uma pequena janela lateral ... que primitivamente oferecera uma vista lateral de pátios sujos e muros de tijolos, mas que devido a construções ulteriores não tinha neste momento qualquer vista, embora fornecesse alguma luz. A cerca de um metro dos vidros da janela havia um muro, e a luz vinha muito lá de cima, por entre dois altos edifícios, como se tratasse de uma pequena abertura numa cúpula", nesse seu incessante "em devaneio frente à parede cega", no qual a tudo "preferia não o fazer", o anúncio de todos nós, trancados diante da parede cega de ecrãs feita, entre a profusão de televisão e o frenesim das redes sociais, tudo apenas na aparência de sermos e nisso até agirmos?

Seremos nós, assim, ainda dignos da melancólica piedade de um patrão (que nós mesmos se possível, naquele sonho mito do "patrão de mim mesmo") resistente e benfazejo? Ou talvez já nem isso, pois "Para um ser sensível, a piedade é, não raras vezes, sofrimento. E quando finalmente entende que uma tal piedade não pode levar a uma efectiva ajuda, o senso comum obriga o espírito a ver-se livre dela." Ou seja, estaremos já desempregados? Inúteis? Desamparados?

[Uso a tradução de Gil de Carvalho, publicada por Assírio & Alvim, 1988]

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