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Nenhures

Nenhures

Feliz de mim ..

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Deixa os que têm favor lá das estrelas

gabar-se de prosápias, honrarias.

Arreda-me a Fortuna o merecê-las,

o que mais honro guarda-me alegrias.

Favoritos de reis ostentam flores,

mas como o malmequer ao sol recolhe

em si mesmos enterram esplendores

e um sobrecenho as pompas já lhes tolhe. 

O esforçado guerreiro no combate,

depois de mil vitórias, se vencido,

ao rol das honras vê o seu abate

e tudo quanto fez ser esquecido.

         Feliz de mim porque amo e sou amado

         e não tiro nem posso ser tirado.

 

Let those who are in favour with their stars

Of public honour and proud titles boast,

Whilst I, whom fortune of such triumph bars,

Unlooked for joy in that I honour most; 

Great princes' favourites their fair leaves spread

But as the marigold at the sun's eye,

And in themselves their pride lies buried,

For at a frown their in their glory die.

The painful warrior famoused for worth,

After a thousand victories once foiled,

Is from the book of honour razed quite,

And all the rest forgot for which he toiled: 

        Then happy I, that love and am beloved

        Where I may not remove, nor be removed.

(William Shakespeare, Os Sonetos ... [soneto 25], tradução de Vasco da Graça Moura, Bertrand 2002).

 

 

Crónica dos dias do COVID (19): A guerra aos porcos

diario da guerra aos porcos.jpg

Permito-me recomendar a leitura deste "Diário da Guerra aos Porcos" de Bioy Casares, ainda que o meu livro esteja lá além-Tejo, assim não podendo ilustrar este meu atrevimento com citações ou com uma douta e fresca recensão.

A história é simples: em Buenos Aires os jovens caçam e exterminam os velhos, acelerando o "curso natural da vida", numa ideologia sanitária, por assim dizer. Os velhos movem-se, resistindo, na calada da noite.

E agora algum mundo virou esse Buenos Aires. Mas não temos noite. A incúria do comunismo chinês foi estufa disto. Pois deste vírus. E há por aí colaboracionistas, teclistas lestos a criticar o "ocidente", e seus líderes, e a louvar a "disciplina" chinesa, os feitos que têm tido. É pena que o "estado de emergência" não nos permita rapar o cabelo das mulheres que papagueiam essas loas. E a internar os homens que andam nos mesmos propósitos. Por tempo indeterminado ...

Mas mais próximos daqui temos muitos destes "eugénios". Trump está a assumi-lo, preferindo resistir numa guerra económica, recusando trancar a produção e ficar à mercê da economia chinesa, esta já quase pós-covidiana. Porventura o número de baixas americanas será terrível. Mas ele preferirá abater os velhos a ceder espaço (económico). Bolsonaro é ainda mais histriónico nisso, convoca manifestações, persegue quem procura o confinamento, ele-próprio convive. Nele será muito mais estupidez do que estratégia. É o drama de um país estúpido. E Boris meteu-se nisso, também, mas teve que recuar, provavelmente tarde demais para evitar uma hecatombe. Idiossincrasia "brexitiana", fazer diferente dos pérfidos e fracos "continentais". Burro. Convencido. Nada de novo, nesse contexto de brexiteers ... Nos últimos anos um segmento locutor luso andou entusiasmado com estes alarves, até se autodenominaram "nova direita" ou tralha similar. Nesse frenesim pu(lu)lam alguns doutores, até pelo FB/twitter/blogs. Alguns travestidos de liberais, outros de soberanistas, vão doutorando. Mas agora estarão confinados em casa, a teclarem no whatsapp ...

Próximo livro a recomendar? Um de Boris Vian, "Hei-de Cuspir-vos na Campa" - se me safar, cinquentão fumador que vou.

Rejuvenescendo, agora no temor

Figura-4-Imagem-da-capa-de-Os-Sonetos-de-Shakespea

Não deixes pois que a mão do inverno duro
destrua o verão em ti sem destilares: 
faz doce ampola e dá lugar seguro
a teu tesouro antes de o matares.
Não é usura proibida essa
que a quem paga o que deve traz contento,
é tu nutrires o que em ti começa, 
dez vezes mais feliz, se a dez por cento.
Dez vezes mais feliz tu te sentisses
se em dez de tais dez vezes te cunhasses; 
pois que faria a morte se partisses,
deixando-te a viver em quem gerasses?
   Não teimes. Tens beleza demasiada 
   pra conquista da morte aos vermes dada.
 
 
Then let not winter’s ragged hand deface
In thee thy summer, ere thou be distilled.
Make sweet some vial; treasure thou some place
With beauty’s treasure, ere it be self-killed.
That use is not forbidden usury
Which happies those that pay the willing loan;
That’s for thyself to breed another thee,
Or ten times happier, be it ten for one.
Ten times thyself were happier than thou art,
If ten of thine ten times refigured thee.
Then what could death do if thou shouldst depart,
Leaving thee living in posterity?
  Be not self-willed, for thou art much too fair
  To be death’s conquest and make worms thine heir.

 

(6, tradução de Vasco Graça Moura)

Fazer da vida "Um voo cego a nada"

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Na era blogal, aquela primeira década de XXI, raros eram os blogs portugueses que se debruçavam sobre Moçambique de modo interessante. Havia, claro, entre esses alguns tão poucos, o Um Voo Cego a Nada, que seguia sob o verso do grande (e tão esquecido) Reinaldo Ferreira: 

Eu, Rosie, eu se falasse eu dir-te-ia / Que partout, everywhere, em toda a parte, / A vida égale, idêntica, the same, / É sempre um esforço inútil, / Um voo cego a nada. / Mas dancemos; dancemos / Já que temosA valsa começada / E o Nada / Deve acabar-se também, / Como todas as coisas. / Tu pensas / Nas vantagens imensas / De um par / Que paga sem falar; / Eu, nauseado e grogue, / Eu penso, vê lá bem, / Em Arles e na orelha de Van Gogh... / E assim entre o que eu penso e o que tu sentes /A ponte que nos une - é estar ausentes. 

O Um Voo Cego a Nada fora pioneiro, começado em Julho de 2001, antes da onda bloguística se generalizar. E tornou-se veterano, resistiu às modas, flutuações, mudanças. Sempre esteve ali, no mesmo endereço, coisa tão rara nos blogs. O seu autor, um tipo letrado, nitidamente plácido e atento - pois, claro, "cego a nada" ... -, homem (também) de gatos e banda desenhada, vinha com uma bela visão do real, e nele fez o seu diário de "visualizações", das atenções havidas, leituras, memórias, episódios, sem agendas ou manifestos, e que ele considerava uma espécie de diário aberto, um lugar que me dá, ao mesmo tempo, o aconchego da intimidade e a liberdade do anonimato ... Como era a intenção original deste suporte, a de se fazerem diários de bordo, descomprometimento que tantos de nós, bloguistas, desconseguimos continuar, na volúpia do falar de cátedra. E sempre me atraía o que notava sobre Moçambique, país onde crescera - e onde tem família, lá pela Ilha - , num olhar de memória sem saudosismos, de atenção sem revanchismos, de interesse sem ressabiamentos, derivas essas tão presentes em tantos outros sítios, blogais e não só, nos quais o fel do após-império tantas vezes brotava. Um olhar de carinho e encanto que encontrei também no À Sombra dos Palmares, antiquérrimo blog de excertos literários de autores em Moçambique, que se não lhe pertenceu poderia ter pertencido - aliás, sempre associei os dois blogs mas não comprovei, nunca perguntei.

O Um Voo Cego a Nada acabou agora, o autor não resistiu à maldita doença que há tanto o devastava. E que foi, sem rebuço, explicitando / lamentado ao longo dos últimos tempos.

Do discurso correcto

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Releio-o mais ou menos uma vez por década. Cuidando de me depurar da versão de Visconti e da banda sonora que o filme lhe pregou. E também dos, tantos, textos que lhe são dedicados, agora inúmeros na internet, coisas desta época, mergulhados na (homos)sexualidade, louvando-a ou aludindo-a, e/ou na pedofilia, a esta vituperando ou dulcificando, neste caso classicizando-a. Enfim, canduras alheias, e a cada um a sua própria. Sob a minha a "coisa" do livro é-me outra, uma narrativa magnífica (que a velha tradução Europa-América não assassina, como tantas vezes aconteceu na história da editora). E esta temática:

"E ali estava ele sentado, o mestre, o artista que soubera ganhar a dignidade, o autor de O Abjecto, que de forma tão exemplarmente pura renegara a boémia e os recônditos turvos, denunciara qualquer simpatia pelo abismo e repudiara o repudiado, que subira tão alto que, cominando o seu reconhecimento e libertando-se de toda a ironia, se ajustara aos compromissos da fama, que desfrutrava de glória oficial, de um nome nobilitado, cujo estilo era modelo imposto às crianças na escola - ali estava ele sentado, de pálpebras caídas, só deixando de vez em quando escapar uma olhadela de viés, irónico e aflito, que depressa recolhia, e os lábios flácidos, desenhados a rouge, formulavam palavras soltas do discurso que o seu cérebro meio adormecido produzia pela lógica estranha do sonhos. 

Porque a beleza, Fedro, repara bem, só a beleza é divina e simultaneamente visível, e por isso ela é também caminho do artista para o espírito. (...)

Vês agora que nós, os poetas, não podemos ser sábios nem dignos? Que embarcamos necessariamente no erro, permanecemos necessariamente devassos e aventureiros do sentimento? A mestria do nosso estilo é mentira e logro, a nossa fama e respeitabilidade uma farsa, a confiança da multidão em nós, altamente risível, a educação do povo e da juventude pela arte, um empreendimento ousado, a interditar. Pois como podia prestar para educador aquele que possui uma tendência inata, incorrigível e natural para o abismo? Nós bem gostaríamos de o renegar para ganharmos em dignidade, mas, sempre que queremos desviar-nos, ele aí está a atrair-nos. É por isso que renegamos o conhecimento desintegrador, porque o conhecimento, Fedro, não tem qualquer dignidade ou severidade; é sabedor, compreensivo, indulgente, não tem posição nem forma: tem simpatia pelo abismo, ele é o abismo."

Thomas Mann, Morte em Veneza (1912) (Europa-América, 124-125).

Handke

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Logo que a guerra acabou fui trabalhar na Bósnia-Herzegovina, colocado em Tesanj. Na Europa muito difícil será encontrar um contexto fisicamente duro, e ali não o foi. Mas, e ainda que apenas tenha sido um mês, foi -me moralmente muito duro. Pois deu para perceber a inacreditável razia que ali acontecera, demoníaca. Anos depois escrevi um textinho, balbuciadas memórias sobre isso, a modos que catarse. E lembro também, já questões pessoais, do meu horrível regresso a Lisboa, um domingo de manhã, abatido pois comovido com tudo aquilo que vira e ouvira, e o chegar a casa para sofrer uma separação totalmente inesperada, por espúrias e até patéticas razões, uma verdadeira crueldade que me derrubou. Isso são outras contas, é certo, mas nunca me lembro da Bósnia sem elas virem ao de cima. Mas o que agora conta é que muito me irrito cada vez que vejo gente a defender os sérvios - e esse é um discurso muito presente nos (ex)comunistas portugueses, ocamente reduzidos a uma eslavofilia. Mesmo sabendo da enorme complexidade daquela guerra jugoslava, do verdadeiro pan-demónio que ali grassou.

Isso é uma coisa. A outra coisa é ver agora as reacções na imprensa, nacional e estrangeira, ao Nobel atribuído a Handke. Li um punhado dos seus livros, autor que esteve em voga. Muito provavelmente o primeiro terá sido este "A Hora da Sensação Verdadeira", uma das primeiras capas - e bem bonita - do meu amigo Emílio Vilar - mais ou menos contemporânea da belíssima linha gráfica que então ele criou para a muito boa colecção "Memória e Sociedade" também da Difel. Lembro-me bem disso, e que foi ele que me deu um dos exemplares que tinha. Depois li o tal punhado de Handke. E marcou-me, em particular o "Para Uma Abordagem da Fadiga" (vou relê-lo agora, como reagirei 25 anos depois?). 

Mas antes fico só com uma questão, que a mim próprio responderei. Pois, e mesmo que nada goste dos defensores dos sérvios, tão malvados que estes então foram, interrogo-me: que gente é esta que avalia os escritores principalmente (ou mesmo somente) pelas suas opiniões políticas? Imprestável. Vizinhos imprestáveis.

 

Amanhã o(s) Prémio(s) Nobel da Literatura

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Amanhã serão anunciados dois prémios Nobel da Literatura, dia muito raro, talvez mesmo original, coisas da confusão que houve na instituição que atribui os prémios. Na sequência da comunicação dos laureados muitos acorrerão às livrarias ou às estantes próprias. Eu farei o mesmo, claro, alegrando-me se o(s) vencedor(es) forem da minha preferência - como quando foram Naipaul, Coetzee e Vargas Llosa, notícias que recebi como se de troféus sportinguistas se tratassem.

Mas amanhã, e porque é por isto mesmo um dia de literatura, irei à estante e lerei, trecho longo que seja, este monumental "As Duas Sombras do Rio" de João Paulo Borges Coelho, o único livro que me "virou" desde os 40 anos. E como lamento que não o leiam. E que não o traduzam. Azar alheio, resmungo ...

Alugam-se Quartos ... (Craveirinha respondeu)

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Li agora o jornal "i", o artigo sobre o aluguer de quartos para estudantes. Uma coisa absolutamente demencial, tétrica. Uma especulação desbragada, quartos até aos 1000 euros mensais, uma vergonha num país com os salários como estão. Haverá muita gente que tudo isto reduz à "lei da oferta e da procura". Gente cristã, maioritariamente católica, gente agnóstica, de extracção cristã, gente islâmica também, decerto, gente ateia. Mas todos, ainda que ateus ou monoteístas, divinizando o tal "mercado", como se este entidade indiscutível.

E, na sequência da insuportável leitura ali na esplanada do café, acorro a casa, pegar neste "Contacto e Outras Crónicas", uma colectânea de textos de imprensa de José Craveirinha, organizada por António Sopa. Pois em 5 de Maio de 1973 José Craveirinha publicava este texto no "Notícias da Beira". Era então, e se muitos o sentiriam também o poeta o pressentiria, o ocaso colonial. Usando retoricamente o género epistolar para o seu já falecido pai, um Craveirinha de Aljezur, apontou o género rapace que acometia a população colona - sobre o financiamento bancário à construção civil, politicamente induzido para fixar a população colona, muito haverá para dizer mas a questão aqui é outra. Craveirinha desnuda como a especulação imobiliária e a mentalidade que esta gera foi o sinal de um fim de época. 

E esta vergonhosa pilhagem de agora, a coberto do turismo e dos universitários deslocados, é mesmo isso: o sinal do final de uma época. Do salve-se quem puder. Digam-me só uma coisa, depois de lerem o trecho: para onde enviarão os vossos contentores?

Mensagem para um ex-algarvio: meu pai

Quando resolveste vir para África e deixaste a tua Aljezur, nem Tu sabes o que viria a acontecer. Pois isto agora está muito diferente, Pai. Não há dúvidas de que os tempos são outros. E as pessoas também. Principalmente as pessoas. Como exemplo há o problema da habitação. Nos teus tempos o problema era ver os escritos nas janelas ao fim do mês. Ninguém pensava nas rendas como se pensa agora: como uma mina. Agora existe uma nova classe de gente que Tu, meu Pai, não havias de gostar de certeza com o Teu feitio. O sr. Senhorio é uma entidade soberana, actualmente. Mas não penses, Pai, que se trata de gente muito instruída: doutores, directores, etc. Não. É gente que anda por aí. Gente que veio quase nos porões com uma camisa e um par de calças no baú. (...) Pois nem fazes uma ideia, meu Pai, o que essa gente faz em matéria de milagres. (...) O egoísmo terrível de alguns desses improvisados proprietários de prédios excede tudo quanto se possa imaginar. E são homens de humilde posição social e de modesta condição trabalhadora. Mas com uma ganância!!! Parece que nem dormem a pensar no modo de abanar a árvore das patacas. E nem olham aos meios para se deitarem à sombra da bananeira. No teu tempo, fazer uma casinha correspondia a uma série de sacrifícioss durante anos e anos e muito trabalho. Pois agora, não. Os mesmos que sofreram para pagar uma renda de casa, depois são os primeiros a especular. Passam a senhorios e tornam-se exigentes, duros, implacáveis. Não querem saber de desgraças alheias. Querem mais, mais, mais. (...)

Certos homens, quando exploram o seu semelhante, não sabem que estão a explorar a sua própria condição de gente. São homens do povo explorando-se a si mesmos. São o próprio cancro. Julgam que ser senhorio é ser Deus. Querem a Terra e o Céu. Espremem o compadre-inquilino sem dó nem piedade: vivem obcecados pelo aumento das rendas. Nunca pedem; exigem.  (...)

Meu Pai: quando deixaste o Algarve e vieste para Moçambique, não era assim! Agora, nem fazes uma ideia! Há  uma Universidade, mas curso de senhorio é o melhor. (...)"

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