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Nenhures

Nenhures

Lobos

Estes últimas dias, as visões e argumentações, fizeram-me lembrar este "Lobos" de Alexei K. Tolstói. Vasculhei as estantes, encontrei. Partilho-o ...

 

Quando, desertas as aldeias, 

caladas as canções do povo, 

se levanta, encanecida, 

sobre o pântano a neblina: 

das florestas, sorrateiros,

um após outro, pelos campos, 

saem os lobos para a caça.

 

Dos valentes, sete andam juntos, 

e à cabeça a comandar

vai o oitavo que é branco.

O cortejo misterioso

pelo nono lobo é fechado,

deitando sangue da pata,

atrás de todos a mancar.

 

Não há nada que os assuste.

Se acaso vão para a aldeia,

nem o cão lhes há-de ladrar,

e o camponês só de vê-los

nem se atreve a respirar,

murmura a sua oração,

fica mais branco que a cal.

 

Contornam a igreja os lobos,

por largo e sorrateiramente.

Entram para o quintal do padre,

as suas caudas remexendo.

À porta da taberna, à coca,

espetam todas as orelhas: 

há blasfémias lá dentro?

 

Olhos como velas, os dentes

mais aguçados que sovelas.

Carrega lá treze metralhas

com pêlo de cabra, amigo,

sem medo, atira a matar.

Primeiro cairá o branco,

trás dele os outros vão tombar.

 

E quando na aldeia o galo

acordar quem ainda dorme,

nove velhas, e todas mortas,

verás espalhadas pela erva.

A da frente é a mais grisalha,

a de trás coxa, e todas nove 

em sangue ... Valha-nos Deus!

("Lobos", de Aleksei K. Tolstói, 1840. Tradução de Nina e Filipe Guerra. Trancrito de Rosa do Mundo: 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim, 2001, pp. 1066-1067).

O humanismo iluminista

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"Cartas do Meu Moinho" é um conjunto de 24 pequenos textos escritos por Alphonse Daudet nos anos 1860, com primeira edição em livro de 1869. O autor refugiava-se em Fontvieille, perto de Avignon, na Provence e simulou-se proprietário de um moinho, um pouco a la Montaigne e sua torre. A escrita é esplêndida e a pertinência inultrapassável. A um desses textos, "A Arlesiana", utilizou como base de uma peça - com música algo celebrizada de Bizet, a qual não me diz muito - e que nada tem a ver com a célebre série homónima de Van Gogh.

Nisto há um texto maravilhoso, sem que eu possa saber se o sub-texto é meu ou do autor. "O Farol dos Sanguinários" narra a sua estada no farol no arquipélago corso das Ilhas Sanguinárias. Daudet recorda a sua convivência com os três rudes veteranos faroleiros, dois corsos e um marselhês. E como esses todas as noites cumpriam os seus quartos de vigia ao farol lendo em voz alta, em luta contra o sono, esse perigo letal. E lendo o único livro disponível, "Vidas Paralelas" de Plutarco. Que melhor simbolização do humanismo iluminista?

(O meu exemplar é avoengo, de cerca de 1920, publicado pela Livraria Chardron, mas há edições portuguesas mais recentes).

Contos do Insólito

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Não lia Maupassant há décadas - julgo que nunca o tinha feito em português, e neste Contos do Insólito a tradução [de João Costa] funciona bem, pelo menos para um conhecedor sofrível de francês, como eu sou. Surpreende-me encontrar-lhe tamanha novidade nos contos, frescos, contundentes, finos, sob uma ironia deliciosa (que ilustro em trecho que abaixo transcrevo). E uma absoluta actualidade: por exemplo, o tema do conto "O Horrível" é a vulgarização da desgraça, a sua banalização quotidiana. Desvendando como da mescla de atrocidades mundiais que nos submerge se constitui, por critérios até desconhecidos, o excepcional que realmente sentimos como "horror", afinal os factos que são até aparentes minudências.

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"O que há sobretudo de encantador para um rapaz solteiro em ter por amante uma mulher casada é que ela lhe dá um interior sereno, amável, em que todos se ocupam de nós e nos apaparicam, desde o marido até aos criados. Encontramos ali reunidos todos os prazeres, o amor, a amizade, até a paternidade, a cama e a mesa, o que constitui enfim a felicidade da vida, com a vantagem incalculável de podermos mudar de família de vez em quando, de nos instalarmos alternadamente em todos os meios, o Verão, no campo, em casa do operário que nos aluga um quarto, e o Inverno em casa do burguês, ou mesmo em casa da nobreza, se tivermos ambição.

Possuo mais uma fraqueza: é gostar dos maridos das minhas amantes. Confesso até que alguns esposos comuns ou grosseiros me fazem repugnar as suas mulheres, por encantadoras que elas sejam. Mas quando o marido possui espírito ou encanto, fico infalivelmente loucamente apaixonado. Tenho o cuidado, se romper com a mulher, de não romper com o esposo. Arranjei assim os meus melhores amigos; e é deste modo que verifiquei, inúmeras vezes, a incontestável superioridade do macho sobre a fêmea, na raça humana. Esta proporciona-nos todos os aborrecimentos possíveis, faz-nos cenas, censuras, etc.; aquele que teria mesmo o direitos de queixar-se, trata-nos pelo contrári como se fôssemos a providência do seu lar."

(Guy de Maupassant, Misti, Recordações de Um Jovem Solteiro [1884], Contos do Insólito, Ulisseia, 2010, 69-70)

 

 

Racismo cultural

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O racismo português muito assenta, como estudos recentes o demonstram, no "racismo cultural", esse preconceito que desvaloriza as culturas alheias, em particular as das raças outras, ideia que se disseminou devido ao colonialismo europeu. O lamentável é que os textos que transpiram essa perspectiva continuam a ser editados sem quaisquer ressalvas (estudos contextualizadores, prefácios ou posfácios elucidativos, meros rodapés que sejam).

Este é um exemplo desse racismo, um trecho de célebre ficcionista ocidental, desprovido de qualquer consciência "decolonial" ou "póscolonial", publicado em Portugal em 1999, sem quaisquer cuidados explicativos por parte da sua editora.

"Para aqueles homens e aquelas mulheres, não existia doença natural e talvez nenhuma coisa o fosse. O seu universo permanecera no caos e, todos os acontecimentos, mesmo os mais simples, eram para eles mistérios, mas uns eram mais frequentes do que outros, aos quais o uso os acostumava. As fases da Lua, a produção do fogo no seu fogão de cozinha não eram menos inconcebíveis, para eles, do que a abertura de cavernas em pulmões doentes; apenas eram naturais, isto é justas, a seus olhos, as mortes de velhos. E como eram, no entanto, seres humanos, condenados, pelo instinto da sua espécie, à procura e talvez à invenção das causas, atribuíam o definhamento de Amande àquela que era para eles a mais simples, a mais humana, à força cujos efeitos tinham muitas vezes, nas suas vidas, verificado: a inveja, os ciúmes de uma mulher por uma mulher."

(edição de Livros do Brasil, pp. 95-96).

Alterglobalização

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Moinho Saint-Pierre (o moinho de Alphonse Daudet)

"Antigamente fazia-se aqui um grande comércio de moagens e, tôda a gente das herdades, dez léguas em redor, nos trazia o seu trigo para moer ... Em volta da aldeia, as colinas estavam tôdas cobertas de moinhos de vento. À direita e à esquerda não se viam senão asass que volteavam tocadas pelo mistral, por cima dos pinheiros, récuas de burricos carregados de sacos, subindo e descendo ao longo dos caminhos; e tôda a semana era um prazer ouvir lá nos altos o estalido dos chicotes, o ranger da tela e os gritos à esquerda! à direita! dos moços dos moleiros ... esses moinhos faziam a alegria e a riqueza da nossa região.

Infelizmente, uns Franceses de Paris tiveram a ideia de estabelecer uma fábrica de moagem a vapor na estrada de Tarrascon. Outros tempos, outros ventos. Tôda a gente se habituou a mandar o trigo aos moageiros e os pobres moinhos de ventos ficaram se ter que fazer. Durante algum tempo, tentaram lutar, mas o vapor foi mais forte e um após outro, todos êles, coitadinhos, foram obrigados a fechar ... O mistral bem soprava, mas as asas conservavam-se imóveis. Depois, um certo dia, o conselho municipal mandou deitar abaixo êsses casebres em ruina e no seu lugar plantaram-se vinhas e oliveiras.

Contudo, no meio da derrocada um moinho tinha resistido e continuava a fazer girar corajosamente as suas asas no cimo da colina, nas próprias barbas dos moageiros. Era o moinho do tio Corneille, êste mesmo em que estamos agora a fazer o nosso serão.

O tio Corneille era um velho moleiro, que vivia há sessenta anos no meio da farinha e sempre desesperado com a sua situação. A instalação das moagens tinha-o posto como doido. Durante oito dias viram-no correr para a aldeia, juntado em volta de si muita gente em alvorôço, gritando com tôdas as suas forças que queriam envenenar a Provença com a farinha dos moageiros. "Ninguém vá lá abaixo, dizia ele; aqueles bandidos, para fazerem pão, servem-se do vapor que é uma invenção do diabo, enquanto eu trabalho com o mistral e o vento norte, que são a respiração de Nosso Senhor  ...".

(Alphonse Daudet, "O segrêdo do tio Corneille", Cartas do meu Moinho, Livraria Chardron, c. 1915 [1869], pp. 17-19).

 

Moralismo hoje em dia

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"... a disposição mental que leva ao conto de fadas é a da moral ingénua, isto é, a moral que se exerce sobre os acontecimentos e não sobre os comportamentos, a moral que sofre e rejeita a injustiça dos factos, a tragicidade da vida, e constrói um universo em que a cada injustiça corresponde uma reparação." (Italo Calvino, Sobre o Conto de Fadas, Teorema, p. 100).

Necrofagia

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"- Vou dizer a Cornoiller que mate alguns corvos. Estas aves dão o melhor caldo que há.

- Mas não é verdade que os corvos comem os mortos?

- És tola, Nanon! Comem, como tôda a gente, o que encontram. Não vivemos nós dos mortos? Que são então as heranças?"

(Balzac, Eugénia Grandet, Livraria Chardron, c. 1930, p. 71)

 

 

Magnetismo

MagnetismoMagnetismo de F. Scott Fitzgerald


No conto "Magnetismo" o actor George Hannaford personifica o encanto, qual magnete dos sentimentos das mulheres, seguindo ele com alguma desatenção, até fastio, e nisso sofre um breve desarranjo da harmonia familiar que surge aos outros como exemplar. Tem o interesse de ser uma mostra de laivos do mundo da "gente bonita" do cinema mudo, explorando a diferença de estatuto "lendário" entre os iniciais (os de Griffith) e a geração seguinte, sendo Hannaford uma feliz transição dado personificar o rosto "realista" que vinha sendo adoptado. Ler isso agora implica recordar que o impacto sofrido por esse núcleo de actores (o conto é de 1928, na véspera do advento do cinema sonoro).

No breve "A Festa de Crianças" surge uma rixa de duas famílias vizinhas, suburbanas, amparada pela relativa amizade dos dois maridos. O interessante é a aparente inversão que Fitzgerald imprime, pois a rixa das crianças (bebés, de facto - o título original é "The Baby Party") é assumida pelas mães e, depois, pelos pais, com os adultos a mimetizarem o comportamento infantil. A preservação da "criança que há no adulto" sem qualquer tom idílico.

Trecho (sobre o casamento de George Hannaford e de Kay, p. 14): "As vidas de muitas pessoas (pessoas que gozavam de uma segurança por procuração ao contemplarem o casamento deles) teriam ficado privadas de algo se não tivessem permanecido unidos, e o seu amor era fortificado por um certo esforço de correspondência a essas expectativas".


Outras leituras

Raduan Nassar e o bloguismo

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"Três rapazolas turbulentos entram no bar trazendo Zé-das-palhas, que vive fazendo discursos contra o governo. Coitado do seu Zé, ele pensa que o rádio que toca-e-fala serve também pra levar de volta a voz da gente. No fim, todo mundo dá risada. (...)

Desengonçado, o seu Zé sobe na cadeira com os bolsos estufados de palha, ficando de costas pra rua e o nariz no Philips, instalado ali na prateleira num nicho grande entre as bebidas. (...)

Zé-das-palhas gira para trás o botão da rádio, apaga o bolero mexicano que tocava, arruma o brim do terno e a palheta na cabeça, e fica c'um jeito de quem faz pose enquanto se concentra. (...) Não se ouve um pio, até que o seu Zé sapeca a voz rachada no rário, como se falasse num microfone, martelando ao mesmo tempo o dedo no ar, como se passasse um pito: 

"Doutor Getúlio Vargas, o povo brasileiro tá cansado, cansado, cansado: não aguenta mais apertar o cinto, não aguenta mais passar com farinha de mandioca, não aguenta mais o senhor mandar as pessoas pra cadeia ..."

(Raduan Nassar, Menina a Caminho, Companhia das Letras, 1994, pp. 37-39)

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