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Nenhures

Nenhures

Handke

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Logo que a guerra acabou fui trabalhar na Bósnia-Herzegovina, colocado em Tesanj. Na Europa muito difícil será encontrar um contexto fisicamente duro, e ali não o foi. Mas, e ainda que apenas tenha sido um mês, foi -me moralmente muito duro. Pois deu para perceber a inacreditável razia que ali acontecera, demoníaca. Anos depois escrevi um textinho, balbuciadas memórias sobre isso, a modos que catarse. E lembro também, já questões pessoais, do meu horrível regresso a Lisboa, um domingo de manhã, abatido pois comovido com tudo aquilo que vira e ouvira, e o chegar a casa para sofrer uma separação totalmente inesperada, por espúrias e até patéticas razões, uma verdadeira crueldade que me derrubou. Isso são outras contas, é certo, mas nunca me lembro da Bósnia sem elas virem ao de cima. Mas o que agora conta é que muito me irrito cada vez que vejo gente a defender os sérvios - e esse é um discurso muito presente nos (ex)comunistas portugueses, ocamente reduzidos a uma eslavofilia. Mesmo sabendo da enorme complexidade daquela guerra jugoslava, do verdadeiro pan-demónio que ali grassou.

Isso é uma coisa. A outra coisa é ver agora as reacções na imprensa, nacional e estrangeira, ao Nobel atribuído a Handke. Li um punhado dos seus livros, autor que esteve em voga. Muito provavelmente o primeiro terá sido este "A Hora da Sensação Verdadeira", uma das primeiras capas - e bem bonita - do meu amigo Emílio Vilar - mais ou menos contemporânea da belíssima linha gráfica que então ele criou para a muito boa colecção "Memória e Sociedade" também da Difel. Lembro-me bem disso, e que foi ele que me deu um dos exemplares que tinha. Depois li o tal punhado de Handke. E marcou-me, em particular o "Para Uma Abordagem da Fadiga" (vou relê-lo agora, como reagirei 25 anos depois?). 

Mas antes fico só com uma questão, que a mim próprio responderei. Pois, e mesmo que nada goste dos defensores dos sérvios, tão malvados que estes então foram, interrogo-me: que gente é esta que avalia os escritores principalmente (ou mesmo somente) pelas suas opiniões políticas? Imprestável. Vizinhos imprestáveis.

 

Amanhã o(s) Prémio(s) Nobel da Literatura

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Amanhã serão anunciados dois prémios Nobel da Literatura, dia muito raro, talvez mesmo original, coisas da confusão que houve na instituição que atribui os prémios. Na sequência da comunicação dos laureados muitos acorrerão às livrarias ou às estantes próprias. Eu farei o mesmo, claro, alegrando-me se o(s) vencedor(es) forem da minha preferência - como quando foram Naipaul, Coetzee e Vargas Llosa, notícias que recebi como se de troféus sportinguistas se tratassem.

Mas amanhã, e porque é por isto mesmo um dia de literatura, irei à estante e lerei, trecho longo que seja, este monumental "As Duas Sombras do Rio" de João Paulo Borges Coelho, o único livro que me "virou" desde os 40 anos. E como lamento que não o leiam. E que não o traduzam. Azar alheio, resmungo ...

Alugam-se Quartos ... (Craveirinha respondeu)

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Li agora o jornal "i", o artigo sobre o aluguer de quartos para estudantes. Uma coisa absolutamente demencial, tétrica. Uma especulação desbragada, quartos até aos 1000 euros mensais, uma vergonha num país com os salários como estão. Haverá muita gente que tudo isto reduz à "lei da oferta e da procura". Gente cristã, maioritariamente católica, gente agnóstica, de extracção cristã, gente islâmica também, decerto, gente ateia. Mas todos, ainda que ateus ou monoteístas, divinizando o tal "mercado", como se este entidade indiscutível.

E, na sequência da insuportável leitura ali na esplanada do café, acorro a casa, pegar neste "Contacto e Outras Crónicas", uma colectânea de textos de imprensa de José Craveirinha, organizada por António Sopa. Pois em 5 de Maio de 1973 José Craveirinha publicava este texto no "Notícias da Beira". Era então, e se muitos o sentiriam também o poeta o pressentiria, o ocaso colonial. Usando retoricamente o género epistolar para o seu já falecido pai, um Craveirinha de Aljezur, apontou o género rapace que acometia a população colona - sobre o financiamento bancário à construção civil, politicamente induzido para fixar a população colona, muito haverá para dizer mas a questão aqui é outra. Craveirinha desnuda como a especulação imobiliária e a mentalidade que esta gera foi o sinal de um fim de época. 

E esta vergonhosa pilhagem de agora, a coberto do turismo e dos universitários deslocados, é mesmo isso: o sinal do final de uma época. Do salve-se quem puder. Digam-me só uma coisa, depois de lerem o trecho: para onde enviarão os vossos contentores?

Mensagem para um ex-algarvio: meu pai

Quando resolveste vir para África e deixaste a tua Aljezur, nem Tu sabes o que viria a acontecer. Pois isto agora está muito diferente, Pai. Não há dúvidas de que os tempos são outros. E as pessoas também. Principalmente as pessoas. Como exemplo há o problema da habitação. Nos teus tempos o problema era ver os escritos nas janelas ao fim do mês. Ninguém pensava nas rendas como se pensa agora: como uma mina. Agora existe uma nova classe de gente que Tu, meu Pai, não havias de gostar de certeza com o Teu feitio. O sr. Senhorio é uma entidade soberana, actualmente. Mas não penses, Pai, que se trata de gente muito instruída: doutores, directores, etc. Não. É gente que anda por aí. Gente que veio quase nos porões com uma camisa e um par de calças no baú. (...) Pois nem fazes uma ideia, meu Pai, o que essa gente faz em matéria de milagres. (...) O egoísmo terrível de alguns desses improvisados proprietários de prédios excede tudo quanto se possa imaginar. E são homens de humilde posição social e de modesta condição trabalhadora. Mas com uma ganância!!! Parece que nem dormem a pensar no modo de abanar a árvore das patacas. E nem olham aos meios para se deitarem à sombra da bananeira. No teu tempo, fazer uma casinha correspondia a uma série de sacrifícioss durante anos e anos e muito trabalho. Pois agora, não. Os mesmos que sofreram para pagar uma renda de casa, depois são os primeiros a especular. Passam a senhorios e tornam-se exigentes, duros, implacáveis. Não querem saber de desgraças alheias. Querem mais, mais, mais. (...)

Certos homens, quando exploram o seu semelhante, não sabem que estão a explorar a sua própria condição de gente. São homens do povo explorando-se a si mesmos. São o próprio cancro. Julgam que ser senhorio é ser Deus. Querem a Terra e o Céu. Espremem o compadre-inquilino sem dó nem piedade: vivem obcecados pelo aumento das rendas. Nunca pedem; exigem.  (...)

Meu Pai: quando deixaste o Algarve e vieste para Moçambique, não era assim! Agora, nem fazes uma ideia! Há  uma Universidade, mas curso de senhorio é o melhor. (...)"

No Xigubo, de Craveirinha

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Dizem os entendidos, e nisso deverão ter razão, que o melhor Craverinha foi o de mais tardia publicação, e de mais íntima verve (o livro "Maria", em seu torno), assim algo desvalorizando, pelo menos comparativamente, as suas primeiras e mais programáticas décadas, aqueles de "Manifesto", o da proclamação da legitimidade cultural e política local. Será, repito, talvez verdade. Mas regresso ao Xigubo, ao velho Craveirinha, então mais novo, claro. E há nacos de uma sapiência ...

"Ajoelham-me aos pés dos seus deuses de cabelos lisos / e na minha boca diluem o abstracto / sabor da carne de hóstias em milionésimas / circunferências hipóteses católicas de pão. / E em vez dos meus amuletos de garras de leopardo / vendem-me a sua desinfectante benção ... / Efígies de Cristo suspendem ao meu pescoço / em rodelas de latão em vez dos meus autênticos / mutovanas da chuva e da fecundidade das virgens / do ciúme e da colheita de amendoim novo."

É este um trecho do seu célebre - e ideologizado dirão os "estetas" de hoje - "África". Escrito lá pelos anos 1950s, presumo. Informo os que não sabem que "mutovana" é um amuleto. E que quase 70 anos depois continua a ser raro - entre boreais e austrais - quem diga, escreva ou pense algo assim. Principalmente lá pelo sul, cada vez com mais crendices cristãs e/ou corânicas. Mas também muito pelo norte.

A actualidade de José Craveirinha

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Em 1999 o incansável António Sopa organizou este curioso pequeno livro duplo: "Contacto e Outras Crónicas" e, do outro lado em formato invertido, "A Seca e Outros Textos" de Rui Knopfli - uma glosa do "verso e anverso" que os dois autores seriam, mutuamente -, duas colecções de textos, textos de opinião de Craveirinha, idem e breves contos de Knopfli, publicados nas décadas de 50 e 60.

Releio bocados - francamente, pouco me diz este Knopfli, bem diferente de quando poeta. Mas Craveirinha? Ui, aguçado como lhe eram as unhas (alguém se lembrará das suas enormes e tratadas unhas?).

Deixo três breves citações, com dedicatórias. A primeira (de 1957) para todos. A segunda (também de 1957) para os sacralizadores lusos no "empreendedorismo" turístico - e lembrando-os que o texto é do poeta nacional moçambicano, que entre outras coisas esteve preso 4 anos por ser independentista; a terceira (de 1964) - que será necessário extrapolar - vai para os gauchistes multiculturalistas, mais ou menos pós-modernos pós-coloniais. E lembrando-lhes a mesma coisa. Se, claro, forem capazes de simples acto intelectual da extrapolação - coisa que, neste país carregadinho de académicos racialistas, muito duvido.

- "Oh, missão ingrata esta, a de escrever verdades" (p. 19).

- "Todos nós sabemos que Lourenço Marques é das cidades mais visitadas por turistas sul-africanos ... Quando se faz turismo não se pretende encontrar fora da terra natal o que se nos tornou banal na nossa. Se não, qual o atractivo do turismo? ... Não se requer subserviência de idioma ... Os barbeiros, cabeleireiros, alfaiates, hoteleiros e outros que tais, estão menosprezando a esperteza do forasteiro, dando-lhe facilidades a mais na vida. Vamos puxar pelos seus reflexos, fazê-lo descobrir a bela língua portuguesa; língua bonita, língua com história ... Escrevendo os letreiros somente em português continuamos amigos à mesma; a diferença é que passamos a dar ao que é nosso o justo valor: o valor das coisas que nos pertencem e fazem parte cá da Casa. Casa esta que é nossa." (em "Barber's shop, boarding house, ice-cream today e outras barbaridades", pp. 21-22).

- "E é crença de muitos esclarecidos que uma temática estritamente enraízada no folclore de Moçambique só poderá ser interpretada por indivíduos de cor. Não." (em "Canção da Angónia", um elogio a Gouvêa Lemos, p. 25) - e, já agora, se me aparecer aqui algum intelectual a apoucar o uso da palavra "folclore" saiba de antemão que deve é ir estudar em vez de se "armar aos cucos".

 

Voltar a casa: Aníbal Aleluia

Laban

Voltar a casa, após um ano. É voltar às estantes, militantemente desarrumá-las, ler bocados, livros a reler, recomeçar os abandonados, reesquecer os esquecidos. Depois, uns dias depois do tal regresso, acampei aqui, esteira e tudo, debaixo das estantes moçambicanas. Reabri e releio, entre tanta outra coisa, dois livros de entrevistas a escritores moçambicanos (melhor dizer, de Moçambique), ambos publicados em 1998, este "Encontro com Escritores" de Michel Laban, 3 volumes, e o "Os Habitantes da Memória", de Nelson Saúte.

Ambos começam com Aníbal Aleluia, o qual infelizmente nunca conheci, falecido antes de eu chegar a Moçambique  pela primeira vez. Grande verve, excelente pensamento, e modo absolutamente excêntrico no país. Noto que perdi o seu MBelele e Outros Contos - e irrito-me comigo mesmo, pois é o tipo de livro que dificilmente reencontrarei, num mundo em que abunda tralha "autorada" por gente iletrada e Aleluia não é reeditado. Será lido? Mas vejo via motores de busca, e assim me "des-irrito", que o Nelson Saúte escreveu, e bem, há pouco um "Elogio a Aníbal Aleluia" - que assim recomendo.

aleluia gajo

Vou agora reler o seu curto "O Gajo e os Outros", o que dele me ficou. E deixo duas citações das suas entrevistas, que muito mostram o perfil: do intelectual e do cidadão. Decerto que foi daqueles homens, inquietos, com quem se aprende. Ao contrário de tantos simpáticos que para aí andam, perorando:

"Fui marcado por um tal de Romão Félix que, sob o pseudónimo de Parafuso, utilizou o método dos blackface minstrels usando um pseudo-linguajar de negro a que muito racicamente chamavam de "pretoguês" para fazer pouco, principalmente, do negro evoluído. Epígonos de Parafusos e macaqueadores de vária espécie recuperam esse linguajar que o nosso poeta nacional [Presumo que Aleluia se refira a Craveirinha] escalpelizou um dia. Na onda de desvios e anfibologias oraculizantes surgem os espíritos levianos e dão-se as mãos em elogios mútuos num cabotinismo concertado. E é assim que esses movimentos parecem vingar, até que um dia apareça um inocente a mostrar a nudez do rei. A tristeza é quando aqueles que de facto têm jeito e sabem distinguir os caminhos a percorrer batem palmadinhas nas costas dos imitadores desajeitados(em Nelson Saúte, Os Habitantes da Memória, p. 29).

E depois (em Michel Laban, Moçambique: Encontro com Escritores, 37) ao apropriar-se de Guerra Junqueiro para referir a sua terra de então. Mas um dito que devemos reclamar de volta, pois radicalmente nosso, não sei dos outros: "Isso que para ai está é uma bacanal de percevejos numa enxerga podre”.

João Paulo Borges Coelho

Quem me conhece - e aqueles que têm paciência para o que boto em blog, pois há quinze anos que repito isto - sabe o quanto gosto da ficção de João Paulo Borges Coelho. O seu "As Duas Sombras do Rio" é um dos livros da minha vida - e o único entre esses que li com 40 anos (de facto, com 39). Tem um punhado de livros excelentes. E é, para além de ficcionista, um intelectual extraordinário. E sem ademanes ou superficialidades.

Finalmente a sua obra é publicada no Brasil. Começa pelo seu segundo livro "As Visitas do Dr. Valdez", um texto riquíssimo. Estranho é que no Brasil tão tardia seja a atenção sobre este escritor. Como sintomática é a relativa desatenção portuguesa sobre este universo ficcional ancorado em Moçambique.

A propósito dessa edição brasileira foi agora divulgada esta entrevista a JPBC, 32 minutos com alguém que se justifica, sempre, ouvir. Que isto a alguns convença a comprar os livros e a lê-los. Dizem-me os interessados que é difícil encontrar-lhe os livros, a gente sabe que a editora Caminho nada ajuda. Insisti. Pois muito se justifica.

Durante a "A Quinta Essência", de Agustina Bessa-Luís

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De Agustina Bessa-Luís o único livro que li foi Sebastião José. Teria mais ou menos vinte anos. Não gostei - pior, lembro ainda a edição feia e desconfortável da Imprensa Nacional mas nada do seu conteúdo. Na década seguinte, tão elogiada seguia a autora, tentei outros. A todos larguei, desinteressado. "Não é o meu mundo" resmungaria depois, quando dela, da sua obra, alguns me falavam. Mas sem com isso querer significar o que se diz dos seus livros, que ancorados num meio social lá nas cercanias da foz do Douro, pois sempre pouco relevante é o que o escritor ecoa, o interessante é o como refracta, rearranja. Ou seja, o tal cerca da foz do Douro é muito mais o meu mundo - literalmente falando - do que Saigão de Fowler, com o qual Greene me anunciara antes de calcorrear eu esse fastidioso Sebastião José e outros excertos abandonados. Nem o meu mundo era, foi ou é, os mares tempestuosos navegados por Macwhirr, esse com o qual Conrad profetizou como ninguém este XXI. Nem o cérebro de Borges, que chegou à verdade. Nem a Roma de Yourcenar ou o veld de Coetzee ou uma praia magrebina excessivamente soalheira ou o sopé de um vulcão mexicano ou a coragem infinda do tão frágil Jack London, ou um punhado de outros "mundos" que eu lera nesse quinquénio tardo-adolescente, fazendo-me, ou que viria ainda a ler, recebendo-o como se com aquela impressionável idade (Coetzee, claro). Pois esse "mundo" que não é o meu é o gosto - não gostei, não gostava.

As décadas passaram - há pelos menos 25 anos que não abria um livro de Agustina Bessa-Luís, e sei-o bem, que estou a menos de um mês de poder dizer que há vinte e cinco anos fiz trinta anos, e é assustador dizê-lo. Agora a escritora morreu. E acorrem elogios imensos, vindos de personalidades que respeito. "Genial", repetem, "a maior" completam. Frederico Lourenço escreve (no FB) que em jovem desgostava pois sentia falha a arquitectura literária mas que Bénard da Costa lhe ensinou que isso de nada interessa. Se dois vultos destes (e que vultos!) o dizem ... é tempo, passado tanto tempo, de voltar a tentar lê-la, talvez possa, agora mais maduro (?), apreendê-la.

Aqui há poucos livros em casa, três estantes, quase tudo entretanto comprado - pois na partida de Maputo  a tralha foi para Lisboa, por lá se acumula a livralhada, em quartos, corredor e cave. Ainda assim há cá um livro "da Agustina", como dizem os cultores, nisso significando a proximidade espiritual, o estatuto de leitor. É o A Quinta Essência, não muito falado - o que não surpreende, tamanha a produção da autora, uma coisa verdadeiramente hercúlea! Tomo alento através da contracapa, da badana, de uma recensão e até de um artigo académico (póscolonial). A trama promete, o desconforto com o 25 de Abril, a ida para Macau (pré-aeroporto) em vingança com o PREC, etc. Entretanto noto que no "Público" um dos autores mais consagrados da "nova geração" (os tipos que ainda não são velhos) a diz "a maior escritora de sempre de língua portuguesa" (o feminino excluirá os homens? ou não, como determina o "falar" actual?). E aduz que é ela, a autora, que escolhe os leitores, uma distinção intelectual (vedada aos mais simplórios, obviamente) para os que não procuram uma "história contadinha de forma certinha." No mesmo Público outro autor, "escritor, poeta" (que definição tão estranha, talvez mesmo falhada ...) e também humorista, diz que a leitura "exige um envolvimento", e nisso deixa implícito que isso não será para todos, percebo-o.

Estou assim preparado e avanço, na sincera esperança de gostar, de me "envolver", de "ser escolhido". Leio o primeiro capítulo, "Um ladrão em casa", 48 páginas. Fico estupefacto. Melhor dizendo, vou ficando estupefacto ao longo das páginas - um estupor, dirão os "escolhidos". Pois é uma redacção. Nem é isso do narrador ser plural e individual, tropeção que será coisa de pouca monta, e ainda menos aquilo da mana Bete a tratar o protagonista na terceira pessoa (e por "menino") mas na segunda pessoa no período exactamente anterior, ou da mulher de um alto funcionário em Hong Kong (ela mesmo) correr o mundo mas nunca ter ido a Macau, e esta é ainda menos, pois coisas incongruentes que apenas beliscam aquele pacto do leitor, "não escolhível", de acreditar no que lê, até porque ela prefere o mano Tomás mas também o mano José Carlos, etc. e tal. Nem é o fazer resumos, "pontos de situação" melhor dizendo - "escrita selvagem a la Dostoiévski", sobre ela também acabo de ler. (E muito menos o "acessor" da página 26 que os revisores da Guimarães Editora deixaram passar apesar desta ser a 5ª edição do livro). Pois isso tudo nem é a tal "arquitectura", serão rodapés, ou mesmo meras rugas ou verrugas de um texto. O que desilude mesmo é aquilo da família apresentada, os Pessanha (ou Santos Pastor), mais o incongruente "ladrão em casa", serem estereótipos. Esboçados apenas, ali no descuido (apressado?, altaneiro?) de quem terá muito para dizer, e decerto que o tem (teve) a crer nos elogios que recebe(u).

Devo eu continuar a ler, passar ao segundo capítulo, quando José Carlos Pessanha, ou Fernandes, como se preferir, avança para Macau (o tal Macau pré-aeroporto)? Devo envolver-me, frisando pertencer aos "escolhidos" pela autora? Hesito, pois o livro tem 374 páginas. Devo continuar e blogar o elogio final, para me mostrar dentro dos tais "escolhidos"? Devo devolver o livro à estante e calar-me, tão mal, tão "baixa classe" parece não conseguir "o envolvimento"? Fecho o livro, passo à banda desenhada. Amanhã (hoje) será outro dia, como se disse no velho cinema.

Na manhã seguinte, o tal hoje, leio Alexandra Lucas Coelho, um bonito texto bastante elogioso sobre a autora. E que me acalma a dúvida. Pois dela diz "Os livros deixavam de lhe interessar no momento em que acabava de os manuscrever, sempre em pouco tempo. Raro emendava, não revia, não deixava marinar, seguia para o próximo." É isso mesmo, raiosparta, a tal sensação que tive, a de ler uma redacção - "blasfémia" dirão os fundamentalistas, "preterido" dirão os seleccionados - cheia de ideias para um livro mas carregadinha de desconseguimentos. Coisas bem mais do que meras imperfeições.

Decido continuar, a tentar aspergir-me, decido. Mas ao reabrir o livro atento na marca que nele deixara. Aqui: "Bete estava um pouco alegre, como se dizia em família, o que queria significar que se embriagara, bebericando whisky puro. Os amigos ingleses, ainda que raros, diziam "intoxicar-se" quando estavam simplesmente bêbedos. Bete tinha o snobismo de só privar com ingleses e adoptar os seus costumes, o chá com leite e a jardinagem [já agora, casara com um, podia vir a propósito referi-lo, digo eu, jpt]. Humilhava os criados diante de toda a gente, o que era possivelmente um traço colonialista. Depois compensava-os largamente." (50). Devo, pergunto-me afinal, deixar-me "intoxicar" com tamanho potlatch de advérbios de modo? Com esta escrita? Não, decido. Que José Carlos Fernandes, ou Pessanha, descendente do Santos Pastor bom, tenha tido o seu sucesso ou insucesso em Macau, e que com isso, nisso, a mundividência demiúrgica tenha soado. Mas não será meu assunto, não é a minha forma. E sigo para outro recanto da (pequena) estante.

Quanto voltar a Portugal lá irei às estantes, gavetas e prateleiras, à procura. Tentar, via Sibila ou similar, ascender aos "escolhidos". Mas, por enquanto, nem pensar. Ficarei neste pobre rebanho dos que querem "histórias contadinhas de forma bem certinha". Pastando, apartado dos seleccionados.

 

Ponta Gea, de João Paulo Borges Coelho

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Gosto imenso dos livros de João Paulo Borges Coelho. Tanto que até já me atrevi a escrever um texto (mais longo) sobre o conjunto da sua obra, fingindo-me oficial de um ofício que não é o meu. E quando o autor publicou este "Ponta Gea", um conjunto (quase)memorialista de 15 histórias sobre a sua infância e adolescência na Beira - Ponta Gea é um bairro daquela cidade -, botei um outro texto (mais curto) sobre o livro, pois imenso dele gostei. É a minha forma de chamar a atenção para livro e autor, que para mais não servirá este tipo de textos. Um convite (que é mesmo convocatória) à leitura que procura enfrentar algum desconhecimento dos leitores e, acima de tudo, o abandono a que o vota a editora do autor - e o caso deste livro é marcante: meros 500 exemplares publicados, os interessados procurando o livro sem o encontrar. Uma irracionalidade. Injusta.

Quando em Março último Sofala foi devastada pelo ciclone Idai, e a Beira inundada, muito me lembrei do livro. E a ele regressei. Não o escrevi então, por mero pudor, pois alguém poderia julgar que estaria a aproveitar a terrível desgraça para ganhos de um livro, mesmo que não fossem meus. Passado este tempo julgo que não parecerá abusivo fazê-lo, lembrar o livro - que ainda para mais deverá estar esgotado. E sinalizar que acompanhei então, cá tão longe, aquela imensa desgraça humana com a releitura deste livro

Pois essas memórias da Beira (anos 1950s e 1960s), essa que agora foi alagada, começam assim: 

"É a primeira e mais persistente lembrança: a água como substância da cidade. Uma água quieta, no mangal como nos capinzais, nos tandos de arroz e nos baldios urbanos cuja noite o monótono som dos grilos trespassava; insidiosa também, na onda paciente que escavava a areia grossa e se espraiava até lamber a raiz torturada das casuarinas, enchendo os corvos de maus presságios e de indignação; e avassaladora, nas chuvadas súbitas e no ar carregado que toldava o horizonte e nos pesava, derrotados, sobre os ombros. Uma água cálida onde nadam todos, aqueles de cujo rasto ainda a espaços me vou apercebendo, e os outros, os que vogam em círculos como peixes aprisionados no aquário do esquecimento.

E o mangal como origem de todas as coisas. A água respirava, subia como se nascesse do âmago da terra, borbulhando nas tocas dos caranguejos e amolecendo o chão até formar um magma frio e baço, o matope que simula o princípio da matéria, aquilo que as pedras foram antes de ser duras, a lama original onde se contorcem os mussopos e os peixes-sapo, animais anteriores a todos os outros animais, imobilizados no gesto de deixar o casulo e, portanto, condenados eternamente à dolorosa repetição do acto de nascer. A frente está já em terra, com os seus olhos míopes e bracinhos diligentes, enquanto o corpo é p0uco mais ainda que uma cauda de peixe, uma língua pastosa e fremente que arrastam em desespero, achando que é aquilo que os impede de voar."

Fica o desafio a quem encontrar um (esquecido) exemplar. Leia-o, apesar da Leya. 

Fabrice Luchini

chegar a esta idade sem conhecer este tipo. (Fabrice Luchini, no programa de Bernard Pivot, com Jacqueline de Romilly, dizendo Rimbaud).

(Fabrice Luchini entrevistado por Léa Salamé no programa "Stupéfiant!".)

(Fabrice Luchini entrevistado no programa On n'est pas couché, 15.10.2016)

 

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