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Nenhures

Nenhures

O Cabricionário de Leite de Vasconcelos

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Sobre o jornalista e escritor Leite de Vasconcelos (Arcos de Valdevez, 1944 - Maputo, 1996) já aqui deixei uma pequena nota. Mas recordo este "Pela Boca Morre o Peixe", o conjunto das crónicas finais do autor, publicadas na imprensa moçambicana. Já doente, Leite de Vasconcelos não descansou. A verve era abrasiva, denunciando o que considerava desmandos estatais, afrontando a via liberal assumida pelo seu partido Frelimo. E criticando as intervenções estrangeiras - um dos seus alvos era a implantação das transmissões da RTP-África, que considerava afrontarem a soberania e serem instrumento de neo-colonialismo. De facto, 25 anos depois, podemos dizer que eram algo exageradas as suas opiniões. E, mais do que tudo, que não acompanhava a internacionalização das transmissões televisivas, já então em curso. Mas o relevante é a memória que este livro traz, da sua coragem (o que ele dizia do então ministro do Interior), mas também como vibrante exemplo da postura intelectual dos intelectuais da I República, os que se poderão dizer "samoristas". 

Nisto tudo, Leite de Vasconcelos utilizava o sarcasmo de forma agudíssima. Transcrevo aqui o seu "Cabricionário", um dicionário da era do "cabritismo", esse corolário do ascensão da realidade de que "o cabrito come onde está amarrado", o dito tão generalizado em países africanos. Transcrevo-o não apenas para lembrar a verve imparável de Leite de Vasconcelos. Nem para aludir ao poder moçambicano. Mas para (me) lembrar que o "cabritismo", e esta sua enciclopédia, não são um fenómeno moçambicano ou africano. Pois o cabritismo é global, como também qualquer português poderá perceber.

Cabricionário

AC - Acrónimo polémico. Alguns especialistas consideram significar "Antes do Cabritismo"; outros defendem que representa "Antes do Caos". Prefere-se o consensual ANE - Antes da Nossa Era.

Al Cabrone - Personagem da mitologia norte-americana, patrono da liberdade de associação cabrital em grupos informais designados "gangs" e do direito de marrada. 

Bode espiatório - Cabrito que faz a segurança dos pastos.

Bode expiatório - Um cabritinho ainda de cornadas mansas que se apresenta à opinião pública em vez de um bode em vias de ser apanhado com os dentes no capim.

Bodeado - O mesmo que falido. Situação normal de empresa ou sector após seis meses de gestão cabrital. 

Bodismo - Principal religião cabrital, fundada por Judas Chibo, dito o Mééssis, que ensinou o princípio moral "faz aos outros antes que eles te façam a ti".

Bodo - Dinheiro, alimentos, roupa e outras ofertas que a comunidade internacional dá aos pobres, mas enriquece os cabritos. 

Bodum - Cheiro activo e característico de bode sem cabresto em busca de pasto.

Cabra Cega - Jogo infantil através do qual se ensina às crianças o princípio moral "morder sem ver a quem".

Cabraão - Prefiguração do mal. Personagem que preferiu matar um cabrito a imolar uma criança.

Cabriola - Cambalhota ideológica característica do cabrito.

Cabriolé - Carro de cabrito, normalmente do topo de gama e pago pelo Estado.

Cabritalismo - Sistema económico e social caracterizado pela estatização dos pastos para usufruto privado. A política de distribuição faz-se segundo o princípio "de cada um segundo a paciência a cada um segundo o tamanho da corda".

Cada pasto um posto - Lema que resume a política de pleno emprego na administração pública cabrital.

Capricórnio - Signo do Fodíaco sob o qual está tudo zodido.

Conselho de cabritação - Grupo nomeado para digestão do pasto público.

Dente de SISE - O que o cabrito arreganha quando vê o pasto em perigo.

Escabroso - Qualidade ideal dos actos da administração pública cabrital.

Forrobodó - Fase superior da organização política e social do cabritalismo, por isso também designada de Forrobodismo por certos teóricos maximalistas como Cabrando Mèèbuzi e Cabrael Bodúni.

Jacobro - Personagem mítica, filho de Cabraão, patrono das finanças e das alfândegas.

Manual Quelónio - Também chamado Jesus Quisto pelo jornalista Angústias de Cabralho. Dotado de carapaça à prova de vergonha, dirige bandos fardados que cometem assaltos à mão armada e à vista desarmada. 

Ministro sem pasto - Governante descontente.

Pasturiente - Dirigente pronto a despachar favoravelmente um pedido de pasto público.

Pé de cabra - Antigo instrumento de arrombador. Símbolo oferecido pelo município da cidade cabrital aos visitantes ilustres. 

Rendimento per cábrita - Índice económico. Obtém-se dividindo o rendimento anual do cabrito pelo número médio mensal das suas amantes.

(27.5.96).

Dia da independência em Moçambique

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Hoje é o dia da independência em Moçambique. Na alvorada folheio alguns livros. O Eduardo White é sempre dito como figura-mor na literatura desde os 1980s, libertando-a da obrigação dos temas sociopolíticos, da agenda mobilizadora. Divergindo sobre o seu "eu", dores, amores e desamores. Mas ainda assim em 1987 ele escreveu Homoíne e leio-o hoje, no dia da efeméride. Depois do meio-dia beberei um uísque com ele, e resmungaremos, cada um à sua maneira, invectivando os vermes necrófagos:

"Os nossos mortos são muitos / são muitos os nossos mortos / dentro das valas comuns / e a terra está sangrando de repente, / tem sede e sangra lentamente / e tem espadas vivas e silvando como o vento / e muros altos estancando cada minuto do tempo, / os nossos mortos são muitos, / são muitos os nossos mortos / dentros das valas comuns / e há um enorme pássaro que se encanta, é o pássaro lento do esquecimento, pássaro de sangue, pássaro que se levanta / dos vermes que estão comendo os nossos mortos por dentro ..."

Os mortos de Muidumbe, de Nelson Saúte

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(Guerrilheiros islâmicos em vídeo publicado após o ataque a Muidumbe, a 8 de Abril)

A 8 de Abril os terroristas islâmicos assassinaram 52 jovens no distrito de Muidumbe, em Cabo Delgado, por terem resistido ao recrutamento por esse movimento. Foi um dos massacres que têm vindo a ocorrer na província. O escritor Nelson Saúte acaba de divulgar este seu poema:

 

Os mortos de Muidumbe

 

Quem de nós não morre quando todos morremos em Muidumbe?

Quem sobrevive incólume diante dos impiedosos algozes

daqueles nossos infaustos concidadãos de Muidumbe?

O sacrifício dos que foram assassinados em Muidumbe

não é bastante para sangrar os jornais além das efémeras notícias

que não abalam a nossa moçambicaníssima complacência?

Quem fica de joelhos pelos mortos de Muidumbe?

A galhardia daqueles que foram metralhados

sem comiseração

em Muidumbe

não sufraga a honra das nossas ruas?

Por que nada exigimos?

Por que razão nenhum clamor fazemos?

Os nossos punhos não se compadecem

por todos os que morreram por nós em Muidumbe?

Os mortos de Muidumbe não concitam a nossa dor?

Os mortos de Muidumbe desmerecem a nossa compaixão?

Os mortos de Muidumbe não tributam o nosso sofrimento?

Somos misericordiosos com os outros mortos

e postergarmos os nossos mortos de Muidumbe.

O sangue vertido em Muidumbe não é nosso sangue?

Onde estão as vigílias

as velas

as praças exaltadas?

As missas

liturgias

eucaristias.

Nenhuma cidade se levanta perante os mortos de Muidumbe.

Porquê?

Os mortos de Muidumbe resistem sem rosto.

Os mortos de Muidumbe são apenas um número

para a estatística

para o cadastro

para o catálogo da nossa humilhação colectiva

para a recensão da desonra

para o arquivo e para o esquecimento.

Os mortos de Muidumbe não cantam.

Os mortos de Muidumbe não falam.

Os mortos de Muidumbe não reclamam.

Os mortos de Muidumbe não sonham.

Os mortos de Muidumbe não gabam a quimera dos seus epitáfios.

Nem esperam o requiem dos outros defuntos.

Os seus gritos não conclamam os deuses

porque os deuses estão ensimesmados com outros mortos.

Os mortos de Muidumbe foram enterrados

mas permanecem insepultos.

Nenhuma necrologia inscreve os seus nomes.

Os jornais não têm letras de sangue

para os que morreram em Muidumbe.

Não há obituários para os mortos de Muidumbe.

Os jornais são omissos quanto ao massacre de Muidumbe

o genocídio de Muidumbe

os fuzilamentos de Muidumbe

o extermínio de Muidumbe

a carnificina de Muidumbe.

Os mortos de Muidumbe perseveram no anonimato

como os decapitados de Mocímboa da Praia

Quissanga 

Mueda

Palma

Metuge

Macomia

a Norte onde se aniquila o futuro do nosso passado.

Os mortos de Muidumbe não desconsolam o mundo

o mundo está assoberbado com outros mortos

o mundo urge para os outros mortos

o mundo não tem empatia com os mortos de Muidumbe.

Há um pérfido alheamento pelos mortos de Muidumbe.

Os mortos de Muidumbe não fazem parangonas

não abrem telejornais.

Quem morremos com os mortos de Muidumbe?

Será que não morremos todos com os mortos de Muidumbe?

Ninguém de nós se condói pelos mortos de Muidumbe?

Que país é este que não se enternece com os mortos de Muidumbe?

Os nossos pêsames

a nossa consternação

a nossa comiseração

a nossa humanidade

não são dignos dos mortos de Muidumbe?

Que luto é este que escolhe não velar os mortos de Muidumbe?

Que mortos sufragamos nós para carpir as nossas lágrimas?

Que angústia é essa tão insolente quanto aos mortos de Muidumbe?

Que silêncio é este perante o silêncio dos que foram silenciados em Muidumbe?

Quem de nós não morre quando todos morremos em Muidumbe?

 

Nelson Saúte

Junho de 2020

Moçambique

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Amigos perguntam-me o que penso sobre o que se passa em Moçambique, em especial sobre o conflito de Cabo Delgado, diante de tão díspares versões sobre as causas. Será aquilo efeito das maquinações dos "americanos", abordagem dos "franco-atiradores" mercenários, rapina dos "cleptocratas", globalização da ideologia integrista islâmica?

Não sei, nem respondo (respondi). Estou longe, longe demais para sopesar a realidade dessas várias interpretações. E para tentar depurar as versões da poluição que os seus locutores lhes colocam, essa por vezes proveniente dos interesses desses "intérpretes" mas muito mais do olhar embaciado de cada um de nós, até embaciadíssimo em tantos.

Mas respondo. Comigo está, trouxe-o num saco, este "Silêncio Escancarado" de Rui Nogar, poeta interventivo (para o situar aos leitores portugueses poderei dizer que uma espécie de Manuel Alegre local). Homem do seu tempo, como todos o somos, ainda que alguns se eximam um pouco a essas algemas. Como? Na dúvida, essa única máquina do tempo de que dispomos. 

Nogar foi, repito, um homem do seu tempo, sua característica não defeito. E é um exemplo das nossas limitações. As ideológicas, do como cada um procura o pobre conforto das certezas alheias. E as vivenciais, de como o nosso sítio nos limita o entendimento. Conjugadas essas algemas, as da crença e as do tempo/espaço, a bruma é enorme. Até com efeitos formais, nisso estéticos.

O que quero dizer? Em 1967 o poeta, preso na cadeia da Machava, deixava este elogio  "Diante das cinzas dispersas de Che" [ lágrimas rastejando / pela agreste crosta / desta angústia lacerante / dois guerrilheiros / na última emboscada / contra a iniquidade / dos muros vidrados  / da nossa madrugada / dois guerrilheiros / combatendo lado a lado / tu e a humanidade inteira], preso (algemado) à mistificação da figura de Ernesto Guevara que o movimento comunista internacional promoveu (e de que Manuel Alegre foi um já serôdio e anacrónico paladino). Não conheci Nogar, morrera já quando eu cheguei a Moçambique. Mas pelo que me contaram dele, empenhado escritor e divulgador literário, não seria homem de questionar a produção iconográfica do movimento ideológico que abraçara. Mas mais importante do que isso, como homem do seu tempo e mesmo que quisesse demarcar-se dessa iconologia dificilmente o faria: nem em 1967 nem depois ele teria conhecimento de quem era Ernesto Guevara. Sim, saberia da sua brutalidade, que talvez até louvasse. Talvez não da sua arrogância boçal, do "fuzilamos e continuaremos a fuzilar" em plena ONU. Que se calhar também por ele seria louvada. Mas não sabia, decerto, da incompetência política e militar do argentino e, acima de tudo, do seu profundo racismo, patenteado na sua passeata africana. 

É isso que ditaduras, arquivos fechados, prisões, falta de informação provoca. Não apenas meros, e mesmo maus, versos mas um desconhecimento que alimenta malvados ídolos de pés de barro, pobre estatuária, ineptas versões do real. E, pior, sonhos pesadelos.

Mas numa "alma" (uma vontade) poética há quase sempre um vislumbre do caminho a ter. Mostrou-o Nogar, em 1964, ano do meu nascimento e também do início da guerra de independência moçambicana, no seu "Escreveram de longe pedindo-me versos". No qual terminou "oh não, não me peçam versos agora". Julgo que será a melhor forma de responder a quem me pergunta o que penso sobre Moçambique: "não me peçam versos agora". 

Pois não estou, não sinto, não apalpo, não sei ... Permito-me apenas lembrar livros - e é essa uma das vantagens da democracia, não termos tutelas sobre o que se pode ou não ler [e esta é afirmação suficiente para sustentar o princípio de que cada académico ou intelectual, catedrático ou não, que ande a higienizar ditaduras que praticam a censura oficial é um desprezível inimigo]. E então, nessa liberdade de leituras que iluminem possibilidades interpretativas, mas não as limitem num mero seguidismo, talvez coisas de há 30 anos sejam boas pistas. Quando Mbembe chamou a atenção para a necessidade de novas linguagens do poder em África, e Bayart e Geshiére (por exemplo) ligaram os discursos religiosos - a que nós, em pobre topologia evolucionista, chamamos feitiçaria - às dinâmicas políticas continentais. Velhos e novos conflitos e porosas e flutuantes linguagens sobre estes. 

Dá mais jeito, é mais higiénico, negar isso e convocar teorias da conspiração? Nisso, de facto, apenas clamar feitiços alheios, qual chupa-sanguismo? Bem, se se é académico é um pouco estranho. Mas não há tantos deles religiosos, assim supersticiosos? Assim sendo, aqui no aquém-Tejo, deixo o discurso aos crentes. Eu estou blindado, aliás. Talvez a "vacina" tenha já prescrito, tantos anos passaram. Mas o meu remédio, a vacina biomédica chamada "dúvida" continua a funcionar. Apenas, e repito, "ah, não me peçam versos agora".

 

Jorge de Sena em Moçambique

Em época da comemoração do centenário do seu nascimento descubro esta entrevista de Jorge de Sena. É um momento magnífico (entre os 10 minutos e a 1 hora e 43 minutos desta gravação). E tem a particularidade de ter sido gravada (e censurada, pois só foi emitida em 2010) em Moçambique na viagem que Sena fez em 1972. Quando contactou com as gentes da extraordinária "Caliban", e também visitou a Ilha e a partir dela escreveu. Mas o que tornará o documento ainda mais interessante para alguns que aqui passarão é o ser uma entrevista feita por Leite de Vasconcelos, homem tão importante na imprensa em Moçambique. O qual ainda conheci, brevemente, pois pouco antes da sua morte, por gentil iniciativa do Camilo de Sousa e da Isabel de Noronha.

(Deixei aqui um pequeno apontamento dedicado aos livros de Leite de Vasconcelos)

João Paulo Borges Coelho, uma tradução em castelhano

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas e texto

Devagar, demasiadíssimo devagar para o que realmente valem, os livros de João Paulo Borges Coelho vão sendo traduzidos. Agora vejo uma edição em castelhano do seu imperdível "Crónica da Rua 513.2", publicada na Colômbia. Que encontre leitores e que outras traduções se sucedam. (E que os meus patrícios, submersos entre tantos livros "novidades", encontrem alma e ritmo para lerem este olhar único, bem para além do nosso pequeno tempo).

Amanhã o(s) Prémio(s) Nobel da Literatura

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Amanhã serão anunciados dois prémios Nobel da Literatura, dia muito raro, talvez mesmo original, coisas da confusão que houve na instituição que atribui os prémios. Na sequência da comunicação dos laureados muitos acorrerão às livrarias ou às estantes próprias. Eu farei o mesmo, claro, alegrando-me se o(s) vencedor(es) forem da minha preferência - como quando foram Naipaul, Coetzee e Vargas Llosa, notícias que recebi como se de troféus sportinguistas se tratassem.

Mas amanhã, e porque é por isto mesmo um dia de literatura, irei à estante e lerei, trecho longo que seja, este monumental "As Duas Sombras do Rio" de João Paulo Borges Coelho, o único livro que me "virou" desde os 40 anos. E como lamento que não o leiam. E que não o traduzam. Azar alheio, resmungo ...

As Visitas do Dr. Valdez no Brasil

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Desde ontem, 16.9.19, que está disponível a primeira edição brasileira de um livro de João Paulo Borges Coelho. E logo este "As Visitas do Dr. Valdez", romance chave de um olhar único, avesso às simplicidades tonitruantes e aos meneios do exotismo. Àqueles, brasileiros e/ou residentes no Brasil, que por aqui passem deixo o desafio: ide lá ver, sff. Ou seja, ide lá ler, sff.

(Mais informações sobre a publicação, responsabilidade da editora Kapulana, estão aqui)

Ponta Gea, de João Paulo Borges Coelho

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Gosto imenso dos livros de João Paulo Borges Coelho. Tanto que até já me atrevi a escrever um texto (mais longo) sobre o conjunto da sua obra, fingindo-me oficial de um ofício que não é o meu. E quando o autor publicou este "Ponta Gea", um conjunto (quase)memorialista de 15 histórias sobre a sua infância e adolescência na Beira - Ponta Gea é um bairro daquela cidade -, botei um outro texto (mais curto) sobre o livro, pois imenso dele gostei. É a minha forma de chamar a atenção para livro e autor, que para mais não servirá este tipo de textos. Um convite (que é mesmo convocatória) à leitura que procura enfrentar algum desconhecimento dos leitores e, acima de tudo, o abandono a que o vota a editora do autor - e o caso deste livro é marcante: meros 500 exemplares publicados, os interessados procurando o livro sem o encontrar. Uma irracionalidade. Injusta.

Quando em Março último Sofala foi devastada pelo ciclone Idai, e a Beira inundada, muito me lembrei do livro. E a ele regressei. Não o escrevi então, por mero pudor, pois alguém poderia julgar que estaria a aproveitar a terrível desgraça para ganhos de um livro, mesmo que não fossem meus. Passado este tempo julgo que não parecerá abusivo fazê-lo, lembrar o livro - que ainda para mais deverá estar esgotado. E sinalizar que acompanhei então, cá tão longe, aquela imensa desgraça humana com a releitura deste livro

Pois essas memórias da Beira (anos 1950s e 1960s), essa que agora foi alagada, começam assim: 

"É a primeira e mais persistente lembrança: a água como substância da cidade. Uma água quieta, no mangal como nos capinzais, nos tandos de arroz e nos baldios urbanos cuja noite o monótono som dos grilos trespassava; insidiosa também, na onda paciente que escavava a areia grossa e se espraiava até lamber a raiz torturada das casuarinas, enchendo os corvos de maus presságios e de indignação; e avassaladora, nas chuvadas súbitas e no ar carregado que toldava o horizonte e nos pesava, derrotados, sobre os ombros. Uma água cálida onde nadam todos, aqueles de cujo rasto ainda a espaços me vou apercebendo, e os outros, os que vogam em círculos como peixes aprisionados no aquário do esquecimento.

E o mangal como origem de todas as coisas. A água respirava, subia como se nascesse do âmago da terra, borbulhando nas tocas dos caranguejos e amolecendo o chão até formar um magma frio e baço, o matope que simula o princípio da matéria, aquilo que as pedras foram antes de ser duras, a lama original onde se contorcem os mussopos e os peixes-sapo, animais anteriores a todos os outros animais, imobilizados no gesto de deixar o casulo e, portanto, condenados eternamente à dolorosa repetição do acto de nascer. A frente está já em terra, com os seus olhos míopes e bracinhos diligentes, enquanto o corpo é p0uco mais ainda que uma cauda de peixe, uma língua pastosa e fremente que arrastam em desespero, achando que é aquilo que os impede de voar."

Fica o desafio a quem encontrar um (esquecido) exemplar. Leia-o, apesar da Leya. 

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