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Nenhures

Nenhures

Jorge de Sena em Moçambique

Em época da comemoração do centenário do seu nascimento descubro esta entrevista de Jorge de Sena. É um momento magnífico (entre os 10 minutos e a 1 hora e 43 minutos desta gravação). E tem a particularidade de ter sido gravada (e censurada, pois só foi emitida em 2010) em Moçambique na viagem que Sena fez em 1972. Quando contactou com as gentes da extraordinária "Caliban", e também visitou a Ilha e a partir dela escreveu. Mas o que tornará o documento ainda mais interessante para alguns que aqui passarão é o ser uma entrevista feita por Leite de Vasconcelos, homem tão importante na imprensa em Moçambique. O qual ainda conheci, brevemente, pois pouco antes da sua morte, por gentil iniciativa do Camilo de Sousa e da Isabel de Noronha.

(Deixei aqui um pequeno apontamento dedicado aos livros de Leite de Vasconcelos)

João Paulo Borges Coelho, uma tradução em castelhano

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Devagar, demasiadíssimo devagar para o que realmente valem, os livros de João Paulo Borges Coelho vão sendo traduzidos. Agora vejo uma edição em castelhano do seu imperdível "Crónica da Rua 513.2", publicada na Colômbia. Que encontre leitores e que outras traduções se sucedam. (E que os meus patrícios, submersos entre tantos livros "novidades", encontrem alma e ritmo para lerem este olhar único, bem para além do nosso pequeno tempo).

Amanhã o(s) Prémio(s) Nobel da Literatura

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Amanhã serão anunciados dois prémios Nobel da Literatura, dia muito raro, talvez mesmo original, coisas da confusão que houve na instituição que atribui os prémios. Na sequência da comunicação dos laureados muitos acorrerão às livrarias ou às estantes próprias. Eu farei o mesmo, claro, alegrando-me se o(s) vencedor(es) forem da minha preferência - como quando foram Naipaul, Coetzee e Vargas Llosa, notícias que recebi como se de troféus sportinguistas se tratassem.

Mas amanhã, e porque é por isto mesmo um dia de literatura, irei à estante e lerei, trecho longo que seja, este monumental "As Duas Sombras do Rio" de João Paulo Borges Coelho, o único livro que me "virou" desde os 40 anos. E como lamento que não o leiam. E que não o traduzam. Azar alheio, resmungo ...

As Visitas do Dr. Valdez no Brasil

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Desde ontem, 16.9.19, que está disponível a primeira edição brasileira de um livro de João Paulo Borges Coelho. E logo este "As Visitas do Dr. Valdez", romance chave de um olhar único, avesso às simplicidades tonitruantes e aos meneios do exotismo. Àqueles, brasileiros e/ou residentes no Brasil, que por aqui passem deixo o desafio: ide lá ver, sff. Ou seja, ide lá ler, sff.

(Mais informações sobre a publicação, responsabilidade da editora Kapulana, estão aqui)

Ponta Gea, de João Paulo Borges Coelho

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Gosto imenso dos livros de João Paulo Borges Coelho. Tanto que até já me atrevi a escrever um texto (mais longo) sobre o conjunto da sua obra, fingindo-me oficial de um ofício que não é o meu. E quando o autor publicou este "Ponta Gea", um conjunto (quase)memorialista de 15 histórias sobre a sua infância e adolescência na Beira - Ponta Gea é um bairro daquela cidade -, botei um outro texto (mais curto) sobre o livro, pois imenso dele gostei. É a minha forma de chamar a atenção para livro e autor, que para mais não servirá este tipo de textos. Um convite (que é mesmo convocatória) à leitura que procura enfrentar algum desconhecimento dos leitores e, acima de tudo, o abandono a que o vota a editora do autor - e o caso deste livro é marcante: meros 500 exemplares publicados, os interessados procurando o livro sem o encontrar. Uma irracionalidade. Injusta.

Quando em Março último Sofala foi devastada pelo ciclone Idai, e a Beira inundada, muito me lembrei do livro. E a ele regressei. Não o escrevi então, por mero pudor, pois alguém poderia julgar que estaria a aproveitar a terrível desgraça para ganhos de um livro, mesmo que não fossem meus. Passado este tempo julgo que não parecerá abusivo fazê-lo, lembrar o livro - que ainda para mais deverá estar esgotado. E sinalizar que acompanhei então, cá tão longe, aquela imensa desgraça humana com a releitura deste livro

Pois essas memórias da Beira (anos 1950s e 1960s), essa que agora foi alagada, começam assim: 

"É a primeira e mais persistente lembrança: a água como substância da cidade. Uma água quieta, no mangal como nos capinzais, nos tandos de arroz e nos baldios urbanos cuja noite o monótono som dos grilos trespassava; insidiosa também, na onda paciente que escavava a areia grossa e se espraiava até lamber a raiz torturada das casuarinas, enchendo os corvos de maus presságios e de indignação; e avassaladora, nas chuvadas súbitas e no ar carregado que toldava o horizonte e nos pesava, derrotados, sobre os ombros. Uma água cálida onde nadam todos, aqueles de cujo rasto ainda a espaços me vou apercebendo, e os outros, os que vogam em círculos como peixes aprisionados no aquário do esquecimento.

E o mangal como origem de todas as coisas. A água respirava, subia como se nascesse do âmago da terra, borbulhando nas tocas dos caranguejos e amolecendo o chão até formar um magma frio e baço, o matope que simula o princípio da matéria, aquilo que as pedras foram antes de ser duras, a lama original onde se contorcem os mussopos e os peixes-sapo, animais anteriores a todos os outros animais, imobilizados no gesto de deixar o casulo e, portanto, condenados eternamente à dolorosa repetição do acto de nascer. A frente está já em terra, com os seus olhos míopes e bracinhos diligentes, enquanto o corpo é p0uco mais ainda que uma cauda de peixe, uma língua pastosa e fremente que arrastam em desespero, achando que é aquilo que os impede de voar."

Fica o desafio a quem encontrar um (esquecido) exemplar. Leia-o, apesar da Leya. 

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