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Nenhures

Nenhures

24
Ago21

Da Importância das Vacinas

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(Patrícia Portela, Dias Úteis, Caminho, 2017)

Patrícia Portela tem uma ficção peculiar, que alguns críticos dizem inclassificável ou experimental. Para a leitura isso é uma facilidade. Pois quando o autor segue algo canónico, com tramas (quase) lineares e tom homogéneo, convoca a que se aceitem as suas intenções, mesmo que se lhe encontre outros sentidos aos textos. Mas se assim não é, então escancara as páginas para que sejam interpretadas, e até classificadas, à vontade dos fregueses, nós leitores. É bem o caso deste "Dias Úteis", uma aparente colectânea de contos, em 111 páginas ligadas pelo ritmo das jornadas de uma semana, mais intróito e epitáfio, tudo com a aparência de transpirar uma dieta metafórica. A mim pareceu-me algo diferente, um texto de Teologia Moral encadernado como romance. E reli-o agora, pois pareceu-me adequado para acalentar este Verão Segundo do Covidoceno.

No início afirma a universal subordinação humana a um Demiurgo - com ironia nomeado "Jogo"-, entidade ordenadora com desígnios insondáveis, encapotados por uma multiplicidade de leis e mandamentos de conjugação inexacta. Dele são os homens meros títeres, sempre vitimados pelas suas inesperadas acções moralmente abissais, as quais são apresentadas sob uma imagética telúrica, um "alçapão" móvel, verdadeira actualização do Hades clássico e do Inferno cristão. A trama decorre nessa espécie de vida, assim incompleta pois incompreensível e, como tal, desprovida de previsão racional.

A protagonista é Alice Winston Smith, presumível bastarda de uma indita ligação de Carroll e Orwell, à qual é diagnosticada uma doença de alteridade (ou seja, de identidade). Essa Smith, num dos seus avatares - num dos aparentes "contos" -, narra ter cumprido uma Odisseia, cruzando a actual Hélade Global em ritmo bem mais célere do que a homérica. O factor motriz dessa frenética epopeia fora um acelerado ciclo de dádivas e contra-dádivas - como logo o compreende qualquer leitor de Marcel Mauss.

Ora é esta a questão teológica central ao romance. Pois em nenhum momento esta Smith suspendeu o seu afã andarilho para cumprir o fundamental desse ciclo - factor para o qual nos avisou o mestre francês, ainda que muitos o tivessem incompreendido: o ofertar à(s) divindade(s). Ou seja, ela abstém-se de cultuar, segue egoísta na soberba de se restringir ao eterno ciclo de obrigações humanas, esse dar-receber-tornar a dar entre homens. Assim apenas se submete de modo automático - e portanto não agradecido, o que é o mais relevante - à aparente inconstância divina. 

Será castigada por esse seu défice dadivoso: "Perco tudo o que me faltava (...) Desmembro-me como se fosse feita de papel" (p. 68) -, pois aprisionada pelo desamor e pela morte alheia. Mas mais do que a mera infelicidade neste "vale de lágrimas", a grande punição divina é a sua condenação ao imobilismo, até atávico. Isso explana-se no epitáfio clamando o vazio utópico, a impossibilidade do movimento, restringindo a acção humana a uma mimetização do existente sob a ditadura cronológica, do tempo que passa. Vazio esse ilustrado nesse episódio final, o do pintor de longa maturação que desenha o real, desprovido de qualquer capacidade deste constitutiva ("performativa", diriam os que se imaginam emanados do amplexo Ivy League/Russell Group).

Esta condenação ao imobilismo devida à postura increia de Smith é explanada em vários episódios. De facto, a referida Odisseia é-lhe apenas um anseio onírico. E tudo já "antes" (num "conto" colocado em páginas anteriores) fora explicado: planeara ela ir à Escócia cultuar os seus ancestrais, na companhia do seu amor (Ivo). Mas este abandonou-a pouco antes da viagem, num óbvio efeito do "alçapão" do tal "Jogo" - usando a terminologia do livro. Ora face a esta evidente provação de origem divina, Smith não teve suficiente vontade (fé, claro!) para sozinha cumprir essa necessidade moral, o culto dos ancestrais. E troca essa obrigatoriedade pela ambição de um placebo, inútil, o de conhecer a China - outras vestes da tal Odisseia -, mas que não cumprirá, terminando por se restringir a alugar vídeos de kung-fu, pois aprisionada a si  mesma, inane, imóvel.

Todo esse individualismo egoísta da descrença é assim descrito (e por isso o convoco nesta Era Covidocena):

"Pois é, isto de ir à China tem muito que se lhe diga, e eu até só queria ir de férias, (...) é mesmo fundamental não escolher uma época errada para ir à China, um pessoa pode constipar-se, ou pior, apanhar uma pneumonia atípica, ou uma bronquite, e para além de tudo isto, todos me dizem que a melhor altura para ir à China é o outono, mas nessa altura eu não posso mesmo tirar férias, tenho sempre imenso trabalho, (...) para além disso ainda li numa revista especializada em viagens alternativas que é preciso ter atenção às pragas de insectos, que são muito frequentes na China, e é por essas e por outras que é conveniente tomar umas vacinas quatro a seis semanas antes da viagem, pelo menos a vacina contra a raiva e seguir a profilaxia contra a malária, que é mais importante mas também a que dá mais dores de cabeça, vómitos, diarreia, e se eu começo a tomar todas estas medicações um mês e meio antes e depois não consigo ir trabalhar vai ser um problema (...) e se me ponho a levar todas as outras vacinas que me faltam para ter tudo em dia e para estar prevenida como gosto sempre de estar em todas as ocasiões, ainda tenho de levar a vacina contra a cólera, a difteria, o tétano, a hepatite A, B, a japonesa, e ainda precaver-me contra a encefalite, a poliomelite, a gripe atípica,a gripe das aves, que já não está muito na moda, já não se fala muito dessa gripe mas foi lá que tudo começou, e nunca se deve acreditar só nos media, e ainda contra a rubéola que nunca tive, contra a meningite que já tem uma vacina, contra a febre-amarela e contra a febre aftosa, ninguém liga nenhuma a esta última, mas também é muito importante, e segundo os meus cálculos vou perder uma semana de trabalho só em folgas para conseguir lidar com tanta injecção, primeiro porque nunca se consegue marcar todas as consultas necessárias no mesmo sítio, cada uma é num laboratório de um hospital diferente da cidade, depois porque nunca se consegue marcar todas para o mesmo dia ou se até conseguimos marcar duas ou três no mesmo dia são sempre a horas diferentes, cada médico tem o seu calendário, e o pior de tudo é que tenho medo de agulhas, para além de ter uma tendência para fazer alergia a todo o tipo de medicamentos que tomo, seja por via oral ou cutânea, e é por isso que conto sempre com um ou dois dias para descansar e para ir à farmácia comprar os antibióticos que me prescrevem a seguir a qualquer consulta médica, ah, e por falar em farmácias, também não me posso esquecer de levar algo contra o herpes labial. E se isto fosse tudo, eu até acho que ainda ia à China este ano mas ainda há a questão do visto (...)" (59-61)

Enfim, é por tudo isto que encontro o livro como uma convocatória ao culto. Pois se a este formos renitentes Deus (ou qualquer outro nome que lhe dermos) condena-nos ao imobilismo, frustrante e infeliz. 

(Alguns dirão que "contei a história", desfazendo a curiosidade de outros leitores. Mas num livro destes não me parece isso, pois é mesmo um objecto que cada um poderá apreender à sua maneira, dele se apropriar como lhe aprouver)

[Nota: Este postal integra uma série sobre os meus livros do covid].

21
Ago21

Salada

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Salada de Alface

Se és algo panteísta e tens vivo / Esse afagado ideal / Do retrocesso ao homem primitivo, / Que nos tempos pré-históricos vivia / Muito perto do lobo e do chacal; / Se um ligeiro perfume de poesia / Que se ergue das campinas / Na paz, no encanto das manhãs tranquilas, / Te dilata as narinas / E enche de gozo as húmidas, - / Leitor amigo, se assim és, vou dar-te / "Se a tanto me ajudar engenho e arte" / Uma antiga receita, / Que os rústicos instintos te deleita / E frémitos te põe na grenha hirsuta. / Leitor amigo, escuta: /

Vai, como o padre cura, cabisbaixo / Pelos vergeis da tua horta abaixo / Quando no mês d' Abril, de manhã cedo, / O sol cai sobre as franças do arvoredo, / Para sorver aqueles bons orvalhos / Chorados pelos olhos das estrelas / Nos corações dos galhos; / Passarás pelas couves repolhudas, - / Cuidado, não te iludas, / Nem te importes com elas, - / Vai andando... / Mas logo que tu passes / Ao campo das alfaces, / Pára, leitor amigo, / E faze o que te digo: / Escolhe d'entre todas a mais bela, / Folhas finas, tenrinhas e viçosas / Como as folhas das rosas, / E enchendo uma gamela / D'água pura e corrente, / Lava-a, refresca-a cuidadosamente. / Logo em seguida (e é o principal) / Que a tua mão, sem hesitar, lhe deite / Um fiozinho de azeite / Vinagre forte e sal, / E ouvindo em roda o lúbrico sussurro / Da vida ansiosa a propagar-se, que erra / Em vibrações no ar, / Atira-te de bruços sobre a terra / E come-a devagar, / Filosoficamente, como um burro!

(António de Macedo Papança, Conde de Monsaraz, "Salada Primitiva", Musa Alentejana.  Reproduzido em Sandra Silva, Ana Matoso, Receitas Literárias, I, 101 Noites, 2000)

11
Mai21

Hífen, de Patrícia Portela

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A escritora portuguesa que prefiro é esta, Patrícia Portela. O JL dá-lhe este destaque a propósito do romance que agora publica, "Hífen". O qual ainda não li, está visto que terei de me aproximar da capital para o comprar - ainda que hoje em dia ir a uma livraria buscar um livro determinado seja quase sempre uma desilusão, e recordo as minhas recentes quatro tentativas lisboetas para encontrar "Tornado" de Teresa Noronha. Sem sucesso, claro.

Enfim, quem porfia sempre alcança, diz o povo na sua infinita sageza, e em assim sendo estou certo de que irei ler o tal "Hífen" de Portela.

15
Mar21

Malvada história de maldita gente

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Amiga envia-me ligação para programa radiofónico: o vice-presidente da Associação de Professores de Português e um antigo secretário de Estado da Cultura, antigo director de jornal e reconhecido romancista dialogam sobre o "racismo no "Os Maias" de Eça de Queirós", contestando as recentes acusações de uma doutoranda estrangeira pertencente à universidade norte-americana classificada em 217º lugar no rol universitário daquele país. Esta gente tem a cabeça onde? 

Amigo-FB envia-me ligação para um artigo de investigadora anglo-portuguesa, denunciando o silêncio português sobre a história nacional e a manutenção daquilo que considera ser a visão imperialista emanada do fascismo - implicitando a inexistência de historiografia posterior e da sua difusão pública e pedagógica durante os últimos 30-40 anos, e denunciando mesmo que há um centro comercial "Vasco da Gama" - e clamando sobre a necessidade de dar visibilidade ao comércio de escravos. O texto é publicado num canal público do Catar. Esta gente não tem pingo de vergonha. 

(Em cima, retrato de D. Afonso Henriques - figura a ser "desconstruída" e "intervencionada" - em quadro de Eduardo Malta - pintor a ser vituperado -, feito para a Exposição de 1940 - acontecimento a ser denunciado)

02
Fev21

A Super-Marta (feat. Artur Portela)

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Os obituários de 2020 não deverão ter sido mais ricos e variados do que os dos anos anteriores. Mas talvez o ambiente pandémico me tenha feito mais atentar naqueles que findaram. Ou será da idade, isto de me ir vendo cada vez mais desprovido daqueles que me animam ou nos alumiam.

Um dos que morreram foi Artur Portela (Filho, como foi conhecido até ser avô e se ter insurgido contra a manutenção pública desse estatuto júnior). Oposicionista ao Estado Novo e depois julgo que próximo da área do PS. Nas estantes do meu pai estão alguns dos seus livros, dos quais trouxe 3 para este retiro confinado. Dois são volumes de “A Funda”, o 3º e o 4º (Arcádia, 1973 e 1974, respectivamente), recolhas de textos de opinião escritos entre 1972-4. São muito interessantes. É certo que são propositadamente textos de ocasião. Mas em muitos casos é espantosa a sua actualidade, e por mais do que por mera analogia (aliás, no 4º volume está o conhecido “O babygro político”, elogio a Marcelo Rebelo de Sousa – que aqui transcreverei se algum leitor o solicitar, pois não está disponível na internet). Mas também muito pelo que dá a conhecer, a nós mais-novos, do ambiente da “primavera marcelista” e das diferentes figuras que então assomavam.

Mas muito mais do que isso o que convoca é a verve, sarcástica, ferina de cruel. Sem quartel na sua elegância. Para usar este irritante termo que agora acampou na imprensa portuguesa, Portela (então Filho) “arrasava” ambientes e protagonistas – por exemplo José Hermano Saraiva, de tal forma que até me condoí do simpático celebrizado na tv.

Li os volumes neste final de Janeiro de 2021 – e, como sempre acontece quando lhe peço emprestados livros, em diálogo com o meu pai. É o período em que nos tornámos o país mais fustigado pelo Covid-19. Desapareceu o “milagre que é Portugal”. Expirou a imunidade promovida pela vacina da BCG. Descobriu-se que o governo não lê nem ouve as notícias internacionais, sobre “variantes inglesas” e outras … Explodiu uma corrida à célebre “atençãozinha”, umas vacinas para os amigos, tão mostrando o estado do nosso Estado … Ultrapassámos o Brasil de Bolsonaro mas a (tão competente) Mortágua não se indigna. Pior vamos que o reino da Suécia mas os próceres do PS calam a sua voz. Enchem-se os hospitais mas se em algum falta o oxigénio a culpa é do alarmismo da imprensa. Em suma, estamos confinados. E atrapalhados. E, tantos de nós, chorosos. Mas, dizem-nos, não nos cumpre criticar. Pois é hora de “unidade nacional”. E as críticas são “antipatrióticas”.

Pois durante este desatino, desnecessário, acima de tudo desnecessário…, tão fruto de incúria e incompetência, e tanto de inconsciência, fui dar uma volta ao rossio d’agora, o Facebook, a ver as modas. Ali encontro um enorme elogio – exactamente agora, quando isto está como está, depois de um ano disto – à nossa ministra da Saúde. “Super-Marta”, chamam-lhe! Chamou-lhe um, veterano bloguista. E logo a chamam milhares, todos os milhares, e muito são, que partilham o elogio, aplaudindo-o, aplaudindo-a.

Nem estupefacto fico. Pois logo me lembro de Portela – o tal que julgo ter sido próximo do PS, friso. O tal que sinto tão actual. Em Outubro de 1972 escreveu “O Príncipe da Rua do Século” (A Funda 3, Arcádia, pp. 161-163). O mote era um elogio publicado no “A Capital” ao Secretário de Estado da Informação e Turismo, a propósito do 4º aniversário da instauração dessa secretaria de Estado e da nomeação do seu responsável político. Deste, César Moreira Baptista, dizia o jornal tratar-se de príncipe que lá pontifica” e que “conquistou honras de generalato”, entre outras pérolas similares. Portela Filho – com uma nele inusitada placidez e até alguma simpatia (porventura irónica, seria necessário conhecer os meandros daquele tempo para descodificar por completo) pelo membro governamental – investiu impiedoso sobre o articulista:

O dr. César Moreira Baptista não é responsável pelo fundo de “A Capital”. É uma justiça que lhe devemos. Ponho até sérias dúvidas a que se sinta confortavelmente na moldura surrealista que “A Capital” lhe propõe – um Príncipe doublé de general que está servindo uma República.

E eu (…) que sou, definitivamente, contra toda e qualquer espécie de censura – imagino com alguma benevolência o esforço do Secretário de Estado em ultrapassar a tentação de fazer suprimir aquele editorial.

Esforço que resultava de duas contingências: o facto do Secretaria de Estado ser o homem que está levando por diante, no seu campo da Informação, a chamada política liberalizadora, e o facto de o editorial não ser contra mas, embaraçadoramente, dramaticamente, a favor.

É que o Secretário de Estado, seguramente homem de espírito, sabe que há uma coisa mais comprometedora do que um ataque bem feito – é um elogio grotesco.

E isto porque o ataque bem feito enobrece – o elogio grotesco diminui. O ataque bem feito produz o diálogo – o elogio grotesco produz o rubor. O ataque bem feito suscita a atenção – o elogio grotesco suscita a gargalhada. O ataque bem feito merece-nos. O elogio grotesco – compromete-nos.

É que o Secretário de Estado, inevitavelmente homem do mundo, sabe que, se somos um pouco responsáveis pelos nossos adversários, somos muito responsáveis pelos nossos aliados.

O que se torna tremendo quando um dos nossos aliados é o autor do fundo de “A Capital”. Eu serei adversário político do dr. César Moreira Baptista, mas não creio que ele mereça a violência que é este fundo.

Não creio que ele mereça o título de Príncipe. (…)

pela razão, simples e definitiva, de que esse título pertence, inteiramente, ao autor do fundo de “A Capital”. O Príncipe do Jornalismo. O Príncipe da Rua do Século. Manuel José. Homem. De Mello.

Hoje, neste confinamento de facto doloroso, cumpre a cada um encontrar um Manuel José Homem de Mello, reconhecê-lo, reconhecê-los. E, infelizmente, a alguns (muitos, de facto) serem-no.

12
Dez20

José Rodrigues dos Santos e a "solução final"

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(excerto da entrevista à RTP3 de José Rodrigues dos Santos, publicitando o seu livro O Mágico de Auschwitz)

 
Não que eu sacralize/absolutize o Shoah. Horrores feitos pelos maoísmo chinês e cambodjano (nunca vituperados pelos nossos actuais sociais-democratas, já agora) ou pelos ruandeses (fruto - como dizem os nossos interseccionais "não vindos do marxismo" - dos brancos alemães e belgas, que por lá passaram décadas antes mas que eram, como já disse, "brancos" e ainda por cima "ocidentais", e por isso culpados do que o futuro traz) tiveram intensidades e perversões similares. Mas estes ditos do locutor José Rodrigues dos Santos mostram duas coisas: que o homem ou é parvo ou se faz de parvo; que o serviço público de televisão, que dá publicidade extensa (que ficcionista tem ao seu dispor 23 minutos de divulgação de um novo livro?) a esta abjecção intelectual, tem que acabar.
 
*****
 
Tendo colocado este postal no meu mural de FB uma boa amiga diz-me que estou (como tantos outros) a deturpar as palavras do escritor. Respondi em modo coloquial, que não emendarei. E transcrevo essa minha resposta, sem grandes retoques formais:
 
Sei - e já o botei ene vezes ao longo dos blogo-anos - que as citações são apropriações, assim podendo ser truncagens manipulatórias. E sei que JRS é alvo a abater no rossio doutoral lisboeta - não tanto por vender muito mas acima de tudo por não ser "camarada e amigo". Por isso contextualizo esta minha reacção (apropriação! Talvez deturpação ...):
 
1. Eu não venho com o preconceito blasé contra o escritor JRS. Nunca li as suas ficções - leio muito pouca literatura portuguesa actual. (Porque dedicado a Moçambiqeu deveria ter lido "O Anjo Branco",  está nos meus preguiçosos planos, mas ainda não o fiz). E abomino a estuporada posição "não li e não gosto" - muito típica dos doutores de Lisboa, recorrente nos direitolas quando falam de Saramago.
 
2. O que vejo nesta entrevista, e em particular neste trecho, é um tom coloquial, melhor dizendo, um acto coloquial. Não é uma derrapagem, não é alguém a expressar-me com menos ponderação, expressando-me menos acertadamente, a não dizer com exactidão o que quer dizer, devido a uma qualquer incompreensão ou mau manuseio do meio que está a utilizar. Pois este homem há 30 anos que apresenta o telejornal, dominará como poucos as estratégias comunicativas na tv, de aproximação com os ouvintes, de condensação de mensagens. Isto não é uma crítica velada, é uma mera constatação do seu estatuto profissional. Ou seja, não só está totalmente à vontade como sabe imensamente bem como as suas palavras são acolhidas pela sua imensa mole leitora. Que é constituída, na sua maioria, por leitores populares, não exactamente por clones de Carlos Vaz Marques (jornalista que divulgou este excerto) nas suas qualidades e defeitos, nem mesmo por aqueles literatos sub-medianos que dizem serem grandes escritores alguns jornalistas como Lucas Coelho e Araújo Pereira, e que desprezam os leitores de JRS. Sem rebuço, sabe que na sua maioria quem o aprende - e aqui estou a ser assumidamente arrogante, cagão mesmo - é gente menos empenhada nas interpretações textuais.
 
3. Antes de eu partilhar este trecho li o que JRS respondeu a esta polémica: que a culpa é das "redes sociais". Ou seja, nós-cloaca. E nisso segue pensadores como Sousa Tavares ou Pacheco Pereira, vai bem acompanhado ... Reclama que para se avaliar o que ele pensa e quer dizer sobre o Shoah se deverão ler dois dos seus livros - e aqui tem meia-razão. Pois, de facto, em termos absolutos sim. Mas também se pode avaliar o que alguém diz sobre o que escreve. Principalmente quando se trata de alguém que é peixe graúdo no mar em que fala.
 
Há vários textos publicados nesta verdadeira polémica e ele respondeu-lhes. Não vou condensá-los aqui. Mas a minha opinião sobre JRS (escritor) impõe-se como quadro de interpretação. Não pelo que escreve (que não li) mas pelo muito que diz sobre o que escreve. Acho que disse há tempos "sou um divulgador" mas de facto é um simplificador, um simplismo constante sobre temas "polémicos". Foi-o quando entendeu postular (para gáudio de tanta direitalha lusa) que o fascismo vinha do comunismo (ou do socialismo). O que é uma pantomina - caramba, eu não sou um "ilustre lente" mas li alguma coisa na vida, nem me vou por a discutir tamanha simplificação de processos intelectuais, político-sociais, que merecem e exigem muito mais do que esta fast-food. Exactamente tal como agora usa Arendt e a sua "banalização do mal" - que, aliás, tanta ofensa causou quando ela publicou o livro sobre Eichmann, por incompreensão de leitura. A mesma incompreensão feita de leituras lineares que são o objectivo mas também o método de JRS.
 
Por exemplo, se não estou em erro - li aquilo há imenso tempo - Arendt escreveu que muitos judeus (responsáveis) cooperaram com os nazis e foi lido e vituperada como se estivesse a dizer que "colaboraram" com os nazis, e a semântica é tudo nestes casos. É um pouco o mesmo, em sentido inverso, - salvaguardadas as diferenças intelectuais entre o monstro intelectual que Arendt foi e este nosso locutor - como quando JRS anuncia, oralmente, que escreve sobre como os judeus se "adaptaram". Ora que muitos, aqueles a quem foi possível tentá-lo, "estrategizaram" para sobreviver nos campos é muito verdadeiro (basta regressar ás leituras de juventude, Levi ou Wiesel, ou ao magnífico "Maus" de Spiegelman). Mas é isso "adaptação"?
 
4. Sei que há uma espécie de censura moral para quem ofenda uma forma específica de falar do Shoah. Que parece ser uma menorização daquele horror quando se belisca a especificidade, o "único" que aquilo foi como expressão do mal. Isso é muito produto do seu eco cultural, literatura, cinema e historiografia dedicada. E foi isso o que, em modo "lite", resmunguei no postalito, acima. Claro que aquela monstruosidade foi específica (um cume no antisemitismo euro-cristão de séculos. E que tanto sobrevive em muito da arabofilia actual do pós-marxismo. Temos, aliás, a candidata Gomes como referência disso).
 
Trata-se da necessidade, qual mandamento moral, de olharmos Shoah como único, exemplo-mor, e o povo judeu como "Escolhido" pois mártir. Algo que se torna uma censora da forma como daquilo se fala (até Arendt veio a sofrer disso, repito-me). E implica silêncios - sobre o genocídio cigano, dele contemporâneo. Ou, ainda mais silencioso, o facto de 3 décadas antes os alemães pré-nazis terem feito um "holocausto" na Namíbia, em modalidade pré-industrial. Ou o imediatamente posterior massacre chinês no Tibete sobre o qual ninguém perguntará ao candidato Ferreira (nem a punhados de sociais-democratas matisianos). Mas, caramba, reduzir essa especificidade, esse Demo-Único, ao nazismo e ao holocausto judeu, afrontar a "maneira correcta" sobre como ele falar, não é nestes termos mariolas do JRS - "li a transcrição de um documento que augurava ser mais humano matar por gás do que deixar morrer à fome" e isso é algo estruturante da "solução final" industrializada. Isto é demais, é um abastardamento do intelecto. Não sou contra a literatura "lite" (eu vejo séries de tv, e como todos que as vêm não posso negar o apreço pelo registo "lite"). Mas contra este abastardamento sou.

13
Set20

Sociedade por quotas

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Quando era jovem foi a era do Pessoa. Ou melhor do pessoísmo, dos pessoanos e seus seguidores. Não sei porquê, terá sido o Portugal democrático (e assim país muito mais letrado ou a tornar-se letrado) a absorver o poeta. Ou por causa de coisas mais pequenas, as vasculhas do célebre baú, as inúmeras publicações (que edição escolher?, ra's parta!), os estudos em catadupa, os filmes sobre e a propósito, as ficções em torno ... enfim, todos, ou quase, tinham que ter "o seu Pessoa", nisto do desassossego leitor. As coisas mudaram, talvez porque a obra de Pessoa foi "fixada", canonizada. Ou porque as pessoas mergulharam noutras coisas. E assim, ao contrário dos anos 80s e até 90s, é possível cruzar algumas semanas sem que alguém nos venha falar do "seu Pessoa". Nisso um tipo também se distrai e dedica-se a outras coisas, o Sporting, romances novos, Marcelo Sousa, o chef Sá Pessoa, sei lá, uma miríade de ofertas que a vida nos traz ...

A caminho da casa de banho, no corredor, está a minha estante de literatura portuguesa. Caiu-me isto no regaço, sobre a pança ...

 

 

Não! Só quero a liberdade!

Amor, glória, dinheiro são prisões.

Bonitas salas? Bons estofos? Tapetes moles?

Ah, mas deixem-me sair para ir ter comigo.

Quero respirar o ar sozinho,

Não tenho pulsações em conjunto,

Não sinto em sociedade por quotas,

Não sou senão eu, não nasci senão quem sou, estou cheio de mim.

 

Onde quero dormir? No quintal...

Nada de paredes — ser o grande entendimento —

Eu e o universo,

E que sossego, que paz não ver antes de dormir o espectro do guarda-fatos

Mas o grande esplendor, negro e fresco de todos os astros juntos,

O grande abismo infinito para cima

A pôr brisas e bondades do alto na caveira tapada de carne que é a minha cara,

Onde só os olhos — outro céu — revelam o grande ser subjectivo.

 

Não quero! Dêem-me a liberdade!

Quero ser igual a mim mesmo.

Não me capem com ideais!

Não me vistam as camisas-de-forças das maneiras!

Não me façam elogiável ou inteligível!

Não me matem em vida!

 

Quero saber atirar com essa bola alta à lua

E ouvi-la cair no quintal do lado!

Quero ir deitar-me na relva, pensando "Amanhã vou buscá-la"...

Amanhã vou buscá-la ao quintal ao lado...

Amanhã vou buscá-la ao quintal ao lado...

" Amanhã vou buscá-la ao quintal"

Buscá-la ao quintal

Ao quintal

ao lado...

15
Ago20

Um Portugal

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"A falperra, mal. Àquela altura já se havia de andar a semear o milho nas terras de sequeiro, mas o codo não o permitia. O calendário há muito que não regulava. Noutros tempos, chegado o mês da Páscoa, cantava o cuco e recantava. Quem o ouviria? O solo não produzia, cansadinho, cansadinho a mais não poder! Chamavam a Portugal a nação das sete sementes como ao mundo de Cristo o mundo dos sete pecados. Qual, quando se semeava um alqueire e se colhiam quatro, era um louvar. Também ninguém queria mais amanhar a terra! O solo era negro e sujava as mãos. A gente boa sumia-se na emigração. O que sobrenadava era o rebotalho. Pudera, tanto o lavradorzinho da arada como o cabaneiro viviam frigidos com tributos, mais escravos que os negros. Davam de comer à cáfila toda. Sustentavam o fidalgo, o ministro, o doutor, o escrivão, o padre; sustentavam o pedinte, o citote, o ladrão; desfaziam-se em maná, e ficavam nus e viviam nus que nem castanheiros depois de abanados. Queria saber o que lhes valia a eles e aos casacas? Era não fazerem contas."

(Aquilino Ribeiro, Quando os Lobos Uivam, Bertrand Editora, 1995 [1958], 8º edição, p. 29).

É consabido, e se por vezes louvado outras tantas resmungado, que o léxico de Aquilino Ribeiro é amplo, alargado, intenso, extenso. E que muitos de nós, urbanos de gerações televisionadas, com outros usos e costumes e outras palavras para os nomear, algo nos perdemos nessas fragas verbais (olhai eu, como se que a tentar copiá-lo). Então por isso mesmo talvez seja bom referir que "casacas" vem aqui com o significado de "pessoas decentes" ...

Adenda: por mera curiosidade, encontro via google o "relatório da censura sobre o Quando os Lobos Uivam". Outros tempos, outras visões. Hoje em dia olhares tão acerados como este não são "censurados". Mas apenas censurados como "ressabiados", "ressentidos". Até "populistas".

 

31
Jul20

Antes da globalização

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"Via-se lutando também para manter a quinta, calculava os prejuízos daquele ano desastroso. As dificuldades batiam à porta de toda a gente. Iam longe os tempos em que a agricultura fazia fortunas. Agora, o milho e o vinho chegavam doutras regiões, de terrenos férteis, onde a produção era menos dispendiosa. Os armazenistas, a concorrência de preços, obrigavam Mariano Paulo a vender com lucros mínimos e às vezes sem lucro. O velho Paulo deixara ainda a quinta a produzir um rendimento apreciável. Porém, os últimos anos tinham modificado certas coisas. As novas estradas traziam às feiras de Corgos produtos de toda a parte. Pelas estradas, pelo caminho de ferro, no vagões, nas camionetes, o comércio das cidades, das vilas, das aldeias, acelerava-s, levava daqui para ali, fazia permutas, entrechocava-se, explorava todos os mercados. O isolamento dos pequenos meios desaparecia. O velho Paulo não sentira, em toda a plenitude, o torvelinho deste choque de interesses. Mas a quinta esbarrondava-se agora ..."

(Carlos de Oliveira, Casa na Duna, Sá da Costa, 1983 [1943], p. 60-61)

 

10
Jun20

Vitorino Nemésio por Palmela e cercanias

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"Este passeio a Azeitão, Bacalhoa, Setúbal, Outão, Palmela e Arrábida varre da minha alma todos os miasmas possíveis. Ao arfar do automóvel vou reconquistando a minha equação com a terra portuguesa, com a sua expressão áspera e suave, independente dos homens que, não podendo arrancar de si próprios as mensagens sinceras que deviam, fazem com ar hamlética rabulazinhas triviais.  (...)

Verifico em Palmela, nos carrapitos do castelo, a minha ignorância do mais puro e lavado de toda a paisagem portuguesa. Abro a respiração a todos os ventos. O horizonte perde a função restritiva: é um índice de infinidades desdobradas em água, serra e céu. Mas a esta enorme roda visual prefiro a nesga de lombas cor de sangue que as quinas das muralhas inscrevem (...). Desdenho as edificações espúrias do castelo e reduzo Palmela aos adarves do seu princípio (...)

... Setúbal (...), apesar de pintada no Verão, parece-me jogar admiravelmente certa com esta cidade híbrida de vila histórica e de população proletária - jogar sobretudo na sua cercadura de águas, planos e serranias. A estrada de Outão dá-lhe um deslumbramento de riviera; a poucas guinadas de automóvel a Arrábida atira-lhe com uma majestada apetecível e pedregosa: Agora que de todo despedido / Nesta serra da Arrábida me vejo / De tudo quanto mal tinha entendido (Frei Agostinho da Cruz) (...)

Volto a Lisboa à noitinha. As minhas companheiras de viagem acham-me mais humano do que quando parti. Andei sòzinho nas fragas e a Arrábida vem comigo."

(13 de Janeiro de 1935)

(Vitorino Nemésio, "Folha de Viagem", Viagens ao Pé da Porta, Editorial Pórtico, 1967, pp. 13-14)

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