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Nenhures

Nenhures

Botar Abaixo o Hemingway?

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Há em várias cidades um punhado de estátuas de Hemingway. Deixo um excerto do autobiográfico "As Verdes Colinas de África", escrito em 1935. Talvez seja um exemplo apropriado para uma era em que as sensibilidades pretéritas andam a ser avaliadas. A preto e branco ...

"M'Cola foi, aos saltos, pela montanha abaixo e, através do riacho, mesmo no lado oposto ao nosso, surgiu um rinoceronte a correr, num trote ligeiro, pela parte de cima da margem. Quando o observávamos, apressou o passou e correu, em trote rápido, perpendicularmente à beira da estrada. Era de um vermelho sujo, o chifre muito visível, e não havia nada de pesado nos seus movimentos, rápidos e deliberados. Ao vê-lo, senti-me excitado. 

- Vai atravessar o regato - observou Pop - Está ao alcance do tiro.

M'Cola pôs-me a Springfield na mão. Abri-a para me certificar de que estava carregada. O rinoceronte estava fora da minha vista, mas distinguia-se o agitar do capim alto. 

- A que distância julga que pode estar?

- A uns quatrocentos metros.

- Hei-de apanhar esse malandro.

Conservei-me alerta, procurando deliberadamente acalmar-me, fazendo cessar a excitação como quem fecha uma válvula, entrando naquele estado impessoal que se atinge ao fazer pontaria. 

O animal surgiu no regato baixo e pedregoso. Naquele momento apenas pensava em que era perfeitamente possível alvejá-lo, mas que para isso era necessário alcançá-lo e ultrapassá-lo. Alcancei-o, ultrapassei-o e disparei. Ouvi o ruído da bala e, como animal seguia a trote, esta pareceu-me ter explodido mais à frente. Com um resfolegar sibilante, caiu prostrado, esparrinhando água e roncando. Disparei de novo, levantando uma coluna de água atrás dele. Como tentasse escapar-se para a relva, voltei a disparar. (...)

Droopy correu. Carreguei a espingarda e corri atrás dele. Metade dos homens do acampamento estavam espalhados pelas colinas (...). O rinoceronte tinha-se dirigido precisamente para debaixo do lugar onde eles se encontravam e subia o vale em direcção ao sítio onde se perdia na floresta. (...)

O rinoceronte estava no capim alto, atrás de uma qualquer moita. Enquanto avançávamos, ouvimos um roncar surdo, quase um gemido. O ruído voltou a ouvir-se, terminando desta vez com um suspiro sufocado pelo sangue. Droopy ria.  (...) Sabíamos onde estava o animal e, ao aproximarmo-nos, lentamente, abrindo passagem pelo mato alto, descobrimo-lo. Estava morto, caído sobre um dos flancos. (...)

Quando chegou o grupo todo, voltámos o rinoceronte de forma a ficar como que numa posição de ajoelhado e cortámos o capim em volta para tirarmos fotografias. (....) ali estava com a sua comprida carcaça, pesados flancos, de aspecto pré-histórico, a pele como borracha vulcanizada e vagamente transparente, com a cicatriz de uma ferida causada por uma cornada e depois picada pelos pássaros, a cauda grossa, redonda e aguçada, carraças de mil patas formigando-lhe no corpo, as orelhas franjadas de pêlos, olhinhos de porco, com musgo na base do chifre, que lhe saía da parte de frente do focinho. (...) Era um animal dos diabos! (...)

- Estou louco de satisfação - confessei."

(Ernest Hemingway, As Verdes Colinas de África, Livros do Brasil, 77-81. Tradução de Guilherme de Castilho. Edição original em inglês de 1935)

 

A Tragédia de Macbeth

Why should you read "Macbeth"? - Brendan Pelsue (TEDEd); Animação de Silvia Petrov.

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Para quê reler Macbeth aos cinquenta e tal anos? Talvez para nunca esquecer a dúvida sobre a virtude do poder, aquilo que diz Malcolm a Macduff, antes de partir à reconquista do reino de que era legítimo herdeiro, e que fora usurpado por Macbeth: 

"... penso que a nossa terra se afunda debaixo do jugo. Chora e sangra e, em cada novo dia que passa, junta-se mais uma ferida às suas chagas. ( ...) Mas, apesar de tudo isso, quando esmagar a cabeça do Tirano, ou a erguer na ponta da espada, terá a minha pobre Pátria ainda mais vícios do que tinha antes, mais sofrimentos e misérias do que nunca sob o reino daquele que lhe suceder. (...) É de mim próprio que falo, de mim em que conheço tantos vícios que, quando libertos, o negro Macbeth parecerá tão puro como a neve, e o pobre Estado o tomará como cordeiro, se o comparar com as minhas infinitas malfeitorias. (...) Sei que ele é sanguinário, libidinoso, avarento, falso, desonesto, violento, mau, pejado de todos os pecados que se podem nomear. Mas não tem fundo a minha libertinagem (...) É melhor Macbeth do que um tal Rei". (Tradução de João Palma-Ferreira, edição Livros do Brasil 171-173).

(Macbeth de Orson Welles) - é ver já, antes que seja bloqueado

 

"William Shakespeare and the Roots of Western Civilization" - Paul Cantor

 

Paul Cantor on Shakespeare and Politics (I, II): Conversations with Bill Kristol

Livro em inglês ( edição colocada no sítio The Complete Works of William Shakespeare);

Livro em edição bilingue inglês-português (do Brasil), com tradução de Rafael Raffaelli.

Julgar a História, apear monumentos

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Muitos resmungam ou indignam-se com a campanha contra as estátuas e monumentos, devido à sua mácula colonial ou pré-colonial. Espantam-se também com a censura de uma empresa televisiva ao "E Tudo o Vento Levou". Estão enganados. Todas as gerações que foram actuantes fizeram uma avaliação do seu legado cultural e seleccionaram aquilo que deve ser preservado e retransmitido às novas gerações, construindo mundivisões consideradas adequadas. Chama-se a isso educação.

Entretanto, reli há dias este livrinho, afamado, do poeta francês Charles Baudelaire, um oitocentista ainda algo lembrado. O que ele diz das mulheres é totalmente inaceitável, propagandeando a sua inferioridade, naturalizando-as. Exemplo de discriminação negativa, pura e simplesmente.

Urge expurgá-lo, ao poeta, dessa educação. Cercear o acesso à sua obra. Reservá-la, porventura, apenas aos estudiosos dos processos opressivos.

E há, decerto, mais exemplos. Deitemos "mãos às obras".

Vitorino Nemésio por Palmela e cercanias

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"Este passeio a Azeitão, Bacalhoa, Setúbal, Outão, Palmela e Arrábida varre da minha alma todos os miasmas possíveis. Ao arfar do automóvel vou reconquistando a minha equação com a terra portuguesa, com a sua expressão áspera e suave, independente dos homens que, não podendo arrancar de si próprios as mensagens sinceras que deviam, fazem com ar hamlética rabulazinhas triviais.  (...)

Verifico em Palmela, nos carrapitos do castelo, a minha ignorância do mais puro e lavado de toda a paisagem portuguesa. Abro a respiração a todos os ventos. O horizonte perde a função restritiva: é um índice de infinidades desdobradas em água, serra e céu. Mas a esta enorme roda visual prefiro a nesga de lombas cor de sangue que as quinas das muralhas inscrevem (...). Desdenho as edificações espúrias do castelo e reduzo Palmela aos adarves do seu princípio (...)

... Setúbal (...), apesar de pintada no Verão, parece-me jogar admiravelmente certa com esta cidade híbrida de vila histórica e de população proletária - jogar sobretudo na sua cercadura de águas, planos e serranias. A estrada de Outão dá-lhe um deslumbramento de riviera; a poucas guinadas de automóvel a Arrábida atira-lhe com uma majestada apetecível e pedregosa: Agora que de todo despedido / Nesta serra da Arrábida me vejo / De tudo quanto mal tinha entendido (Frei Agostinho da Cruz) (...)

Volto a Lisboa à noitinha. As minhas companheiras de viagem acham-me mais humano do que quando parti. Andei sòzinho nas fragas e a Arrábida vem comigo."

(13 de Janeiro de 1935)

(Vitorino Nemésio, "Folha de Viagem", Viagens ao Pé da Porta, Editorial Pórtico, 1967, pp. 13-14)

Crónica dos dias do COVID (19): A guerra aos porcos

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Permito-me recomendar a leitura deste "Diário da Guerra aos Porcos" de Bioy Casares, ainda que o meu livro esteja lá além-Tejo, assim não podendo ilustrar este meu atrevimento com citações ou com uma douta e fresca recensão.

A história é simples: em Buenos Aires os jovens caçam e exterminam os velhos, acelerando o "curso natural da vida", numa ideologia sanitária, por assim dizer. Os velhos movem-se, resistindo, na calada da noite.

E agora algum mundo virou esse Buenos Aires. Mas não temos noite. A incúria do comunismo chinês foi estufa disto. Pois deste vírus. E há por aí colaboracionistas, teclistas lestos a criticar o "ocidente", e seus líderes, e a louvar a "disciplina" chinesa, os feitos que têm tido. É pena que o "estado de emergência" não nos permita rapar o cabelo das mulheres que papagueiam essas loas. E a internar os homens que andam nos mesmos propósitos. Por tempo indeterminado ...

Mas mais próximos daqui temos muitos destes "eugénios". Trump está a assumi-lo, preferindo resistir numa guerra económica, recusando trancar a produção e ficar à mercê da economia chinesa, esta já quase pós-covidiana. Porventura o número de baixas americanas será terrível. Mas ele preferirá abater os velhos a ceder espaço (económico). Bolsonaro é ainda mais histriónico nisso, convoca manifestações, persegue quem procura o confinamento, ele-próprio convive. Nele será muito mais estupidez do que estratégia. É o drama de um país estúpido. E Boris meteu-se nisso, também, mas teve que recuar, provavelmente tarde demais para evitar uma hecatombe. Idiossincrasia "brexitiana", fazer diferente dos pérfidos e fracos "continentais". Burro. Convencido. Nada de novo, nesse contexto de brexiteers ... Nos últimos anos um segmento locutor luso andou entusiasmado com estes alarves, até se autodenominaram "nova direita" ou tralha similar. Nesse frenesim pu(lu)lam alguns doutores, até pelo FB/twitter/blogs. Alguns travestidos de liberais, outros de soberanistas, vão doutorando. Mas agora estarão confinados em casa, a teclarem no whatsapp ...

Próximo livro a recomendar? Um de Boris Vian, "Hei-de Cuspir-vos na Campa" - se me safar, cinquentão fumador que vou.

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