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Nenhures

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Fica este dia de Natal marcado pela morte de Luís Basto, o fotógrafo de um Maputo desenquadrado, desfocado, pejado de contradições, habitado por memórias que se vão desvanecendo, até invisíveis para os olhares sem lentes, pois, como disse: "Muitos nascidos na paz não têm memória das vidas fragmentadas que inundavam a cidade como almas penadas", numa desencantada era em que "não há mais mistérios".
 
Deixo a capa deste seu pequeno álbum de bolso, da Éditions de l'Oeil, inserido numa curta série de livros dedicados a artistas moçambicanos, publicado em 2004. E deixo ainda ligação a um texto que publiquei no "Canal de Moçambique" sobre o livro "Voyage a Mozambique - Maputo", com texto de autores franceses e fotografias dele. E  recordo ainda um pequeno postal que escrevera sobre o mesmo livro e no qual reproduzira esta fotografia: o Luís Basto andava a fotografar para esse livro e encontrou-me. Quando o livro saiu vi que nele me integrara, captando-me na cadeira da minha barbearia em Maputo, ladeado pelo célebre barbeiro Zé Maria, e assim fazendo-me "cidadão" ou, melhor dizendo, "população" da cidade...
 

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O José Navarro de Andrade (de quem sou co-bloguista no Delito de Opinião e no sportinguista És a Nossa Fé) estreou a semana passada o seu programa de entrevistas "Vamos Beber Um Café..." - que passa na RTP2 mas pode ser visto ad aeternum na RTP Play. O Navarro tem a coisa (muito) boa de ser um entrevistador que interpela os seus entrevistados, assim evitando a conversa mole e as proclamações autorais, até pomposas (estas muito em especial habituais nos consagrados). Vi hoje à tarde o primeiro programa: tem uma entrevista muito interessante com a escritora Djaimilia Pereira de Almeida (que acaba de publicar o romance "Maremoto"), a qual nunca li mas que decerto irei ler depois de a ver aqui. Pois é uma entrevistada como deve ser, sem poses, sem "atitudes", e cheia de pertinência e entusiasmo a falar do seu livro e da sua escrita. Segue-se uma entrevista com o escritor Jaime Rocha, a propósito da sua peça versão da "Filoctetes" de Sófocles - e de repente um tipo pode ver uma interessante e animada conversa sobre tragédia grega e sua refracção actual. Coisa rara e preciosa nos tempos actuais.

Deixo as entrevistas para quem tenha vagar...

(Vamos Beber Um Café..., episódio 1: entrevista a Djaimilia Pereira de Almeida)

(Vamos Beber Um Café..., episódio 1: entrevista a Jaime Rocha)

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Hoje é o meu primeiro Dia dos Finados como órfão. Não irei a um cendrário, os túmulos são as memórias deixadas, as flores as coisas que nos foram legadas. Não antes do meio-dia beberei um uísque aos meus pais.
 
Antes, agora, vou às estantes onde eles muito habitam. Em miúdo não queria ser astronauta, como estava em voga, mas sim arqueólogo. Adorava História e fartei-me de a ler, Ceram ou Graves entre Salgari, May e Verne - e ainda hoje me interrogo, invejoso, a que primo terá cabido a avoenga Historia dos Judeos do meu homónimo Flávio Josefo (edição de 1793) que então só folheava.
 
Em 1976, aos meus 12 anos, os meus pais deram-me este "A Expedição Ra", do magnífico e mirabolante Thor Heyerdahl, que imensamente me encantou. E deixaram-me uma dedicatória, aqui na peculiar caligrafia da minha mãe:
 
"Que este livro te faça viver o "sonho de um jovem egípcio" e com ele corras os mares em demanda de um novo mundo. O mundo é tão grande e tão novo ainda que mil aventuras estão à tua espera - se tu lutares para as viver."
 
(Mais uma vez) Agradeço-lhes a prenda. E as palavras. Que funcionaram. Tenho apenas de arranjar ânimo (e sorriso) para as fazer reviver, alumiando-me de novo. Pois, mesmo se já cinquentão, isto da orfandade pesa.
 
Pensando bem, vou mas é fazer já o tal brinde...

 

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(Pedro Bidarra, Azulejos Pretos, Guerra &  Paz, 2020)

Publicado em finais de 2020 este "Azulejos Pretos" parece adequado a este covidoceno, pois a sua acção decorre confinada nuns sanitários - uma latrina com águas correntes, comummente dita sanita ou, em português aburguesado,"retrete" ainda que nada retirada pois metida dentro de casa, tema esse abordado pelo autor com notória pertinência mas alguma incompletude -, à excepção de breves passeios higiénicos à sala feita pista de dança de um longa e sempre-a-mesma festa. A qual vem decorrendo desde a descolonização sita nos Olivais e que ressoa agora num presumível centro da Lisboa algo finória, onde se meneiam aos sons mais ou menos em voga sucessivas gerações de convidados.

Apenas lamento que o livro tenha sido apresentado pelo próprio editor (também) como um "roman à clef " (a descodificar), e ainda dito por crítico como peça de escrita "gonzo", aquela onde autor e protagonista (quantas vezes narrador) se mesclam, coisa não tão rara pelo que talvez desnecessária referência. Pois, entre tantos outros, já Flaubert reclamava ser ele próprio a senhora Bovary, ainda que se diga, história talvez apócrifa mas "bem encontrada", ter ele, nas vascas da sua agonia, resmungado com a ira que lhe restava que a puta ficaria por cá enquanto ele se ia desta para uma pior... Lamento  essas pistas de leitura pois temo que, devido a elas, muitos leitores tenham partido do conhecimento que terão do autor - um publicitário lisboeta afamado -, no intuito (se) reconhecerem entre o ror muitissimo mais vasto e espesso de afinal meros "símios" que naquele seu "colóquio" se agitam em poses culturais e vã verve. 

As 170 páginas são um carrocel de abúlicos - ainda que alguns camuflados de histriónicos -, um vasto rol de falsos e veros homossexuais, bebés de mamas firmes e outras já avoengas, dealers, padres na moda, obesos, poetas e artistas variados, modelos, até influenciadores e quejandos. Todos visitam o protagonista, aboletado nos sanitários nos quais distribui com prodigalidade doses de cocaína, enquanto monologa consigo mesmo, com acertada e acerada verrina, sobre o triste estado das artes, letras e gentes circundantes. Poder-se-ia dizer que parte a loiça toda. Ou, talvez melhor, parte os azulejos todos. Não que se projecte o protagonista num qualquer pedestal de "crítico", intelectual ou coisa que o valha. Pois segue amarfanhado pela "decadência biográfica", angustiado na sua "tonsura santantoninha", consciente até que desliza para a "cara de parvo", pequenas degenerescências que são até suaves avatares da sua condição de "ferreiro deformado e manco", um pobre Hefesto de trazer por casa, tudo nisso  prenunciando um final que só será oxímoro a quem acompanhou o livro como se ensaio moral fosse.

Os tais sanitários - de loiça, soalho e paredes negros - são-nos apresentados como uma nave espacial, a possível, que o protagonista elaborou para defender os restos da civilização, os "valores da urbanidade" através do exercício da "complexa mecânica da equidistância", tarefa que persegue com evidente frenesim, na sua constante disponibilidade para ofertar as por todos desejadas doses de cocaína, num fazer o bem sem olhar a quem, assim um exercício cristão e também civilizador. Mas (sacra) equidistância essa, como o comprovará o infausto final, que é impossibilitada pela fateixa nasal a que está obrigado, e que o consigna ao pântano nada oceânico deste todo vácuo, de poses e anseios.

Ou seja, não há saída. Nem possibilidades.

Azulejos Negros é um belo livro. Que todos estes símios deveriam ler.

 

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Alguns patrícios perguntam-me a opinião sobre o Prémio Camões atribuído hoje à moçambicana Paulina Chiziane. Repito-lhes aquilo que sempre digo sobre este prémio:
 
1) trata-se de um produto político, que procura através da premiação anual sedimentar uma comunidade internacional assente na partilha linguística. Não vem grande mal ao mundo por isso, mas subalterniza critérios literários;
 
2) o costume de alternar a premiação entre Portugal e Brasil - polvilhando o ritmo com algumas atribuições a escritores africanos - sublinha essa secundarização de considerações literárias (porque não sucessivos prémios dados a escritores da mesma nacionalidade, por exemplo?).
 
Para além disso há as minhas inclinações pessoais:
 
3) Desde que em 2010 Ruy Duarte de Carvalho morreu sem que lhe tivesse sido atribuído o Camões - e ainda por cima depois de já 2 angolanos terem sido premiados sob o molde "redistributivo" que referi - deixei de dar relevo às premiações. Autor de uma obra ímpar, excêntrica, vasta e plural, nisso nada canónica, tanto em formato como em densidade do aludido e refractado, o "esquecimento" que os júris lhe votaram, e isso enquanto também consagram ensaístas, desvaneceu-me expectativas. É certo que ao longo dos anos por vezes surgem polémicas sobre os premiados (lembro Aguiar e Silva, Alegre, Queiroz, isto para além da inaudita agressividade do ministro fascista brasileiro contra o grande Nassar) mas essas provieram de motivos ideológicos - realçando o cariz político do Camões. Mas no caso de Ruy Duarte os motivos foram alheios a tais ponderações, tendo(-me) restado apenas a estupefacção diante do evitamento académico de que ele foi alvo.
 
4. Este prémio de 2021 chama a atenção sobre a literatura moçambicana, e isso é bom. É aliás para isso que servem os prémios, para atrair leitores. Sou um mero leitor e estou desactualizado. Sei que há algumas edições recentes que são apetecíveis: hoje em Maputo o Francisco Noa apresentou "No Verso da Cicatriz" de Bento Baloi - que também tem edição portuguesa (Aletheia) -, e que ele recomenda. Há dias o António Cabrita anunciava-me jovens escritores de que ele, sempre infatigável, prepara edições. Mas nestes últimos anos perdi o fio à meada da literatura moçambicana. Ainda assim, e porque hoje me perguntam opiniões sobre o assunto, sumarizo o que ao longo de anos bloguei descomprometidamente - como o tal mero leitor - no blog ma-schamba, nada mais do que as minhas preferências :
 
5. Recomendo imenso a leitura de João Paulo Borges Coelho, do qual estou a ler o seu recente "Museu da Revolução". Sou "fan" da sua obra, o seu "As Duas Sombras do Rio" é até um dos livros da minha vida. E como "fan" não tenho rodeios para o dizer o maior escritor em português em África. E, nem que seja por causa da vigência deste molde "redistributivo" de premiação, se (muitas) outras razões intelectuais não houvesse, há muito tempo que já devia ter sido galardoado com o Camões. O que lhe traria... leitores. Francamente incompreendo este processo.
 
6. Ungulani Ba Ka Khosa é um belíssimo escritor, carregado de verve e garra. E que teve um enorme impacto na ficção nacional, quase (re)fundacional - o que também, num dia como este, deixa a pergunta: "para quando o Camões ao Ungulani?". No seu rumo, sinuoso como o de tantos grandes escritores, o Khosa não dá nada de "curio" nem de afago ao putativo leitor. Com verrina e inultrapassável pertinência disseca a sua sociedade como ninguém o fez antes dele. Se há heroísmo nas letras isso encontra-se nele.
 
7. Aldino Muianga é um escritor interessantíssimo. De ínicio com um estilo menos afoito do que o do Khosa, e menos burilado do que o do Borges Coelho, é evidente que se foi complexificando ao longo da sua já vasta obra, e nisso apresenta-nos um olhar muito completo - e crescentemente ácido - sobre o país, colonial e nacional. Talvez os seus livros sejam mais apelativos a quem conhece o país, na forma como nos ilumina os processos colectivos e mentais que foram decorrendo e que culminam neste hoje.
 
8. Há um livro que é obrigatório para quem tenha interesse na literatura moçambicana (e não só, já agora) e nunca o tenha lido. Pode começar por ele. Trata-se do "Nós Matámos o Cão-Tinhoso", de Luís Bernardo Honwana (de 1964), uma excepcional colecção de contos. Foi já tão recenseado e analisado que não vou perorar sobre ele. Apenas lembro que durante anos escrevi num jornal em Moçambique, nele tinha uma coluna a que chamei "Ao Balcão da Cantina" (título que depois usei para as minhas memórias em Moçambique). Era essa "cantina" a do magnífico conto "Nhinguitimo", uma muda homenagem a um texto que tanto me marcara, a um escritor e homem de grande valor. E a uma literatura nacional que tanto aprecio. E que está hoje em festa! Ainda bem.

 

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