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Nenhures

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Por mais que o canonizado Eduardo Lourenço o tenha torpedeado (há já meio século...), recompensa ler António Sérgio, textos com um século ou quase, mas imensamente contemporâneos, na forma e na atitude. E sagazes, caramba. A propósito de reler Camões peguei neste volume IV dos seus "Ensaios", poderosos afianço, legado do meu avô, seu cultor. Livro um pouco em mau estado, nota-se. Mas os textos jovens... Vieram até à tasca comigo.

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Há coincidências, e abundam nisto das leituras. Há dias um amigo que fora ver - e gostara - a antestreia do "O Pior Homem de Londres", filme de Rodrigo Areias, actualmente nos cinemas, resumia-me o argumento. E isso fez-me sorrrir, pois acabara de ler um texto sobre a personagem protagonista do filme, o pelos vistos nada recomendável luso-britânico (?) Charles Augustus Howell, objecto que fora de uma já antiga alusão (1992) em "Esboço de um Valdevinos" que integra este interessante colectânea "O Eixo da Bússola", de Mário Cláudio, publicado pela peculiar (e falida, ao que me constou) editora Quasi em 2007.
 
O livro, que vou lendo pausadamente (cada vez leio menos ficção e mais crónicas, ensaios ou opiniões, coisa da idade, dizia o meu pai), agrega textos publicados na imprensa pelo autor desde finais da década de 80. Estava na estante, esquecido, e ainda bem que o resgatei à ileitura, ainda que alguns sejam agora algo crípticos. Mas é interessante seguir ao ritmo da prosa de Mário Claúdio, diferente daquela que foi instituída na sua geração autoral, num cuidado estilo - ainda que por vezes exagerado, como ao referir-se ao grande Aquilino Ribeiro num "Um dos ângulos mais interessantes do território aquiliano, entendido este como expressão de uma personalidade perpetradora do texto, e como obra extravasante de quem a segrega, resulta da coincidência de um irresistível apego à domesticidade e um forte pendor para as amplitudes do Planeta" (167) - sequência que me convoca um "raisparta, homem, facilita...!".
 
Mas é mesmo recompensador percorrer os textos - como quando lhe encontro um breve "Um Mau Escritor" sobre o espanhol Blasco Ibañez (há 100 anos um best-seller, como tantos de agora que tão elogiados são), de quem tenho os avoengos livros, já puídos, à espera de serem lidos, e que agora decerto não o serão...
 
Enfim, fica a recomendação, quem apanhe este volume nuns quaisquer salvados fique com ele. Vale bem lê-lo.

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Coincidência, em conversa um amigo comenta que leu na última revista Sábado um artigo sobre a (renomada) família Teotónio Pereira. E estava eu a ler este "Tempo, Lugares, Pessoas" (Público, 1996), uma bela colecção de textos de opinião - há quem lhes chame "crónicas" mas, de facto, não o são - do arquitecto Nuno Teotónio Pereira, um dos integrantes dessa genealogia. Estava-me nas estantes, herdado e desconhecido - mas é daqueles livros que decerto poderão ser encontrados em qualquer Feira da Bagageira, injustamente relegados aos montes de monos a 50 centavos cada.

Teotónio Pereira pensava bem, sabia-se - e também assim escrevia. Estes textos concisos, publicados há já três décadas naquele início fulgurante do "Público", quando o jornal era mesmo "de referência", são preciosos. Estão aqui arranjados por temáticas. Alguns convocam um sorriso - como os que incidem na sua defesa da regionalização, essa polémica que tanto durou... Outros são muito actuais, apesar das tantas diferenças, como os que abordam a questão da "Habitação", com o interventivo autor a convocar a tétrica situação pré-1974 e as posteriores tentativas de descentralizar os processos de construção habitacional. Tal como aborda as (então) mais actuais dinâmicas de necessária intervenção municipal.

Mas em cinquentenário do 25 de Abril ainda mais é de referir a dezena de textos evocativos dos movimentos de oposição, grosso modo no último decénio do Estado Novo, em particular os da chamada "oposição católica". E ainda nesse eixo estão os textos para mim mais interessantes - leigo que sou em arquitectura, e sua história -, esses que abordam a influência do Estado Novo na arquitectura nacional, e as diferentes correntes arquitectónicas que foram vigorando. Breves (2, 3 páginas) lições.

Ou seja, tinha uma pérola em casa e não sabia.

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Um belíssimo amigo, meu (bastante) mais-velho, morreu já há cerca de 15 anos. Mas vem-se mantendo presente nas nossas conversas, nas cíclicas alusões à sua verve, seu sarcasmo até ternurento, suas atitudes convocatórias... Agora, há meses, morreu a sua viúva. As filhas, cada uma em seu saudável rumo, desfazem a casa. E nisso dividem entre si a vasta biblioteca do casal, segundo os seus múltiplos interesses respectivos. Depois sou chamado, amigo mais-novo do saudoso pai, para "ir ver" "se há alguma coisa que te interesse...". Acorro até cerimonioso, mas sou admoestado num mui franco "leva tudo o que queiras". Saio ajoujado. E deliciado.
 
E enceto os sacos com este opúsculo, que desconhecia, O Manifesto d'"Os Lusíadas", a prelecção de Adriano Moreira quando recebeu o honoris causa na Universidade do Amazonas (Manaus), naquele 1972 centenário da publicação da epopeia de Camões. Vigorosas 50 páginas, demonstrativas do pujante intelecto de Moreira. E que a mim, leigo que sou em Camões, me despertam a curiosidade sobre as causas do efectivo silêncio nacional, estatal e não só, neste quinto centenário do nascimento do poeta. Ou seja, convocando-me a outras leituras sobre a sua obra e sobre a utilização que dele foi sendo feita em diferentes épocas históricas.
 
Mas, e o que é mais importante, reavivando-me a memória do seu antigo dono. Por isso, Coronel, aqui bebo um uísque consigo enquanto passeio entre livros.

O livro foi publicado pela Dinalivro, pequena editora sem grandes capacidades de distribuição, de disponibilidades financeiras para publicidade e ainda menos de lóbi junto à imprensa "cultural" ou outra - e assim, que eu saiba, o autor não foi nem a "programas da manhã" (onde ficaria muito bem, já agora) nem à RTP2 (onde também não destoaria...), nem mesmo aos inúmeros "podcasts" que grassam (nos quais a sua verve se imporia, aviso desde já). E não contou com qualquer referência na imprensa escrita - ao invés do que teria acontecido se fossem as memórias de um esbirro colonial ou de um exilado antifascista desses tempos, pois para o pobre entendimento dos "culturais" d'agora um bem escrito e bem-disposto testemunho de um tipo despolitizado (que não apolitizado) não conta como "documento"... E como o Nuno não encheu o livro com aquelas piroseiras dos "ocres d'África", "ocasos recortados pelas casuarinas", "savanas a perder de vista" ou "a candura dos indígenas, perdão, africanos" também não colheu a atenção das secções dos (insuportáveis) "livros de viagens".
 
O Nuno veio agora a Lisboa, encontrámo-nos. Perguntei-lhe "como estão as vendas?", daqueles 1000 exemplares botados a público em Maio. "Tenho para aí uns 25 em casa" (que vende por envio postal), "a editora tem uns 140 ainda disponíveis" "e haverá para aí uns 100 distribuídos", sorriu.
 
E ri-me eu, dizendo-lhe que à escala se trata de um verdadeiro fenómeno comercial. Pois, grosso modo, tem a edição praticamente esgotada. Pequena editora, autor desconhecido (e despretencioso), publicidade inexistente, divulgação apenas entre-amigos. E 800 exemplares do saborosíssimo livro vendidos em 6 meses... Ou seja, parece-me que em 2024 já não será muito fácil encontrá-lo à venda.
 
Assim, e porque estamos a chegar ao Natal das prendas, deixo o aviso. Tanto para aqueles que viveram o período colonial (em Moçambique ou alhures), como para aqueles que depois vive(ra)m lá, ou mesmo para aqueles que são daquelas loucas gerações dos 1970s ou 1980s, "Antes que a Gente Morra" comprem agora um livro - para si próprios ou para prenda, aos avós ou aos netos, ou aos amigos ainda distraídos deste. Até porque depois da sua leitura o livro serve de um bom mote de conversas, das memórias próprias e alheias. Sem quaisquer saudosismos, que disso está o livro isento...
 
(Deixo a ligação para o livro no "site" da editora para encomendas. Ou ide às Bertrands e FNACs. Ou mesmo até ao autor. Esgote-se-lhe o livro, a ver se ele escreve outro - que histórias não lhe faltam. Despachai-vos, para que os exemplares cheguem antes da Consoada)
 
Adenda: obrigado à SAPO pelo destaque dado a este postal.

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