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Nenhures

Nenhures

07
Jun24

Os Xutos em Maputo

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Isto de quando um homem veio para velho sucedem-lhe as memórias, em até frenéticas associações de ideias. E, felizmente, vêm elas em molde selectivo (entenda-se: autocensório), elegendo assim as risonhas e deixando as bisonhas no limbo amnésico. Explico o caso desta manhã:
 
Fui agora ao grupo-FB "Portugueses em Maputo", a publicitar o meu "Torna-Viagem" (que só se pode comprar através desta ligação colocada no título ), na (vã) esperança que algum desses patrícios (e não só...) se possa interessar. E nesse grupo vejo que neste fim-de-semana os Xutos actuarão na cidade... Logo me lembro da estreia deles por lá, há um quarto de século.
 
Uns meses antes haviam aparecido por lá uns funcionários em ambições de organizarem um grande espavento "lusófono", como então se dizia, com "impacto popular", tipo "encher um campo de futebol". E para tal queriam levar a Daniela Mercury, cantora então muito em voga - e que seria uma contratação caríssima, presumi. Ripostei-lhes - depois de em surdina suspirar um ateu "ai, meu Deus!" - que se o objectivo era encher um campo da bola seria melhor levarem o Roberto Carlos! Eles voltaram à pátria (a antiga Metrópole, entenda-se). E passados uns dias o meu amigo António Miguel - que eles haviam contactado para operacionalizar a "coisa" - telefona-me, meio (ou mesmo todo) espantado, "ouve lá, então tu queres levar o Roberto Carlos a Moçambique?, é que me pediram para tratar do assunto!!!". Eu ia caindo da cadeira abaixo, com a gargalhada azeda. Pois esquecera-me que, já naquela época da alvorada da internet, diante de alguns tipos de gente era preciso afixar um emoji quando se ironizava (ou sarcasmava, como fora o caso)...
 
Enfim, passados os tais meses lá aportou a comitiva musical em busca das enchentes. Mas numa selecção menos histriónica, e bem mais plural. Alheio à cena acabei por me associar aos convívios. Por intermédio da querida amiga Isabel Ramos, e conjuntamente com ela, pude oferecer à extensa comitiva musical uma excelente massada de peixe, confeccionada in loco no (velho) Mercado do Peixe pelo cantor Vitorino. Dia agradabilíssimo, durante o qual eu e a minha mulher pudemos conhecer Sérgio Godinho, ali o único verdadeiramente curioso sobre a cena musical (e artística, e literária) do país.
 
Uns dias depois foi o concerto dos Xutos, na velha FACIM. Arregaçaram imenso, como então o faziam. Tanto que às tantas abandonei a pose "sô doutor" e fui lá para a primeira fila, esbracejando Xs, nisso ombreando com o patrício Hernâni, sempre soberbo no seu visual "heavy". No final subi ao camarim e logo fui interrogado pelo Kalu - que não se lembrava de mim mas que eu conhecera anos antes, pois havíamos estado os dois a servir shots de tequila num casamento de amigos comuns - "ouve lá, estes gajos não gostam de rock?", pois a reacção do público não havia sido tão entusiástica como aquela a que estavam habituados (e mereciam, afianço). "Gostam, mas não reagem da mesma maneira...", antropologizei eu em síntese, fugindo a elaborar sobre as formas diferentes de absorção musical. (E sobre os limites da comunicação "lusófona", musical e não só, que isso seria outro assunto, nada adequado àquela noite).
 
E depois seguimos todos para a casa da Nice - a sempre princesa de Pemba - para uma festarola divertidíssima, até às tantas. Eu ficando a bebericar com o Zé Pedro ("sou dos Olivais, pá!", havia-lhe dito), um tipo do caraças, de uma gentileza rockeira única. Única mesmo.
 
Enfim, se estivesse em Maputo, amanhã iria ao Centro Hípico ver os Xutos. Até porque no início dos 80s os vi quando tiveram os Minas e Armadilhas na primeira parte. E, depois, entre tantas outras vezes, no célebre "ao vivo no Rock Rendez-Vous", no 31 de Julho para que cantássemos em coro, já adequadamente "É amanhã dia 1 de Agosto / E tudo em mim é um fogo posto / sacola às costas cantante na mão..." E foi um longo 1º de Agosto, o fogo posto esteve ateado muito tempo. A ver se reatará..., ainda que duvide disso.
 
 

1º de Agosto - Xutos e Pontapés

08
Mai24

Ouvidos livres

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Guiar à noite na estrada é bom. Não tanto pelo carregar no acelerador, coisa que já não faço (bons velhos tempos...) - e não só por causa dos radares, é mesmo a consciência de que já me faltam os reflexos para o que der e vier... Mas dado que não se está tão dependente dos ruídos alheios, coisa do trânsito citadino, nisto de no estrada afora noctívago ser suficiente atentar nos faróis. E assim pode aumentar-se o som da música, até mesmo à demasia. Ontem fiz dezenas de regrados quilómetros, tendo para isso apanhado na 2 o final da 9ª de Beethoven, uma actuação em Berlim de 2023. Há quem a diga o supra-sumo, até ideológico, mas também quem a diga um "significante vazio" (Steiner?, Ricoeur?, estou longe dos meus livros, não os posso consultar, e já sigo desmemoriado...), pois "serve para tudo", de tudo é símbolo. Mas é imponente, "enche" (e por isso vem "servindo para todos").
 
Sorte, disse eu. Só depois, já em casa, percebi - via o sempre interessante blog "Herdeiro de Aécio" - que ontem se comemoravam os 200 anos da estreia da sinfonia. Então por isso ouço-a até quase de madrugada (dirigida por Solti, com a Sinfónica de Chicago, que muito miúdo ofereci ao meu pai em LP duplo) - e eu, que há décadas não ouvia as sinfonias do génio nada surdo, desse registo afastado, enfastiado até, ouço agora duas, a 3ª na Gulbenkian há dias, a 9ª agora para cá do Trancão entre árvores.
 
E hoje ligo o Spotify, deixo-me a ouvir canções tão diferentes, uma selecção feita colectivamente, por amigos, canções "dos nossos tempos", uma celebração de facto de todos nós, amigos de geração em comunhão. Coisas tão diferentes, algumas belas, outras divertidas, outras apenas nostálgicas. Prazerosas, todas, a mostrarem que os ouvidos (pelo menos os ouvidos) não têm donos.
 
De repente aparece-me esta "Only the Lonely", que já quase esquecera apesar do quanto dela ter gostado. "Gostas disto?, mas é uma cançãozinha, de uma bandazinha", lembro-me tão bem de um amigo melómano me ter invectivado há 30 e tal anos. Mas é-me, sempre o foi, uma delícia, e deixo-a em "loop". Depois procuro uma versão "ao vivo" no youtube, para partilhar. Da época há esta, com som e imagem decentes - apesar da introdução televisiva. E há outras, destes últimos anos, com a Martha Davis, desgastada como eu, curvada quase como eu, até com ar de velhinha vizinha nos Olivais, mas a cantar com a voz de então...
 
Mas prefiro partilhar o "tudo" de então. Mesmo para frisar aquilo de que os ouvidos não têm dono. E muito menos... agenda.

 

05
Mai24

A "Nwahulwana", de Wazimbo

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Gastei parte da noite insone a ver na televisão o "A Promessa" ("The Pledge"), um sofrível filme policial realizado por Sean Penn em 2001. Vale sobretudo pela galeria de notáveis actores que vão desfilando, alguns em curtas aparições: o grande Harry Dean Stanton, Vanessa Redgrave numa breve e magnífica actuação. E também dada a presença da sempre perturbante Robin Wright (então casada com Penn). E, mais do que tudo, por Jack Nicholson, ainda por cima porque ali um pouco menos actor histriónico do que tornou hábito nas suas últimas décadas profissionais.
 
Enfim, dito tudo isto, o relevante é bem diferente. A meio do filme, noite longa, até já eu cabeçeando - apesar da referida Robin Wright -, despertei-me, verdadeiramente surpreendido, pois a "banda sonora" do filme integra esta "Nwahulwana" do grande Wazimbo.
 
Fiquei mesmo estupefacto pois nunca soubera que Wazimbo tinha sido cooptado pela indústria de Hollywood, essa grande montra. Escapara-se-me o facto. E, honestamente, até acredito que tal não tenha sido muito divulgado em Moçambique - ou então andava eu muito distraído. Aliás, basta lembrar o escarcéu festivo, impossível de não acompanhar, que foi por cá naquela época quando a "Canção do Mar" de Dulce Pontes surgiu num filme insuficiente, com o Richard Gere...
 
Enfim, o que isto me lembra é que conheci Wazimbo quando ele gravou o disco "Makwêru" em 1997, e nos espectáculos subsequentes, tudo mesmo muito bem produzido pela Conga (do Luís Moreira et al). E de logo me ocorrer, e dizer, entusiasmado, que "se este tipo fosse da África Ocidental seria uma "estrela" internacional", dado que aquela região era então muito vasculhada pela indústria musical.
 
Pois, e é o sumo, Wazimbo é um enorme cantor.
 
 

(Nwahulwana, de Wazimbo)

25
Abr24

25 de Abril Sempre!

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25 de Abril Sempre! E esta é a minha "canção de intervenção" (poderiam ter os Xutos cantado e gravado com os "coronéis" da censura actuantes?, e convém agora perguntar isto aos pategos do voto CHEGA. E aos melífluos da "maioria da direita" actual....). Mas nunca o foram as tralhas a la "Pedra filosofal" e quejandas pinderiquices daquela época, e as patéticas de ignorantes quais "Um homem novo veio da mata", e isto ninguém o diz pois 50 anos depois José Afonso, o sempre "Zeca", continua incriticável.
 
Enfim, 24 de Abril, almoço em restaurante goês, por mim recomendado. Chamuças gloriosas, o meu cabrito soberbo. Infelizmente o caril de camarão dos convivas não justifica a deslocação. Bebinca como deve ser, e entretanto o achar de manga apresentava-se magnífico. À minha frente - pretexto do almoço - um querido amigo, comunista de outras paragens. Atravessar-me-ia por ele, se viesse a ser necessário. E se vier a ser, sublinho, ainda que já não creia em tal coisa, morreremos em paz.
 
Diz-me ele, sempre, ser eu o único reaccionário de que gosta. Quero crer que, se tivesse sido necessário, me teria safo, avisado para que me escapasse ou protegido em algum campo em que estivesse eu recluso, evitado que fosse eu encostado ao célebre, e tão dito virtuoso, "el paredon". Aquelas coisas de sempre aquando mandaram os da sua ideologia.
 
Um dia, há já muitos anos, quis contextualizar o seu pensamento. Ri-me, com carinho, num "conheço-te, és como o meu pai", comunista puro - ainda que o meu pai, o Camarada Pimentel, fosse ainda mais puro, mais crente qu'isto poderia melhorar num rumo benevolente, sem esta percepção de que "a vida é sempre a perder" e por isso "uma vontade de rir nasce do fundo do ser...". Ou talvez a tivesse, o Camarada Pimentel, sabendo bem que "contra tudo lutas, contra tudo falhas, todas as tuas explosões, redundam em silêncio" e por isso, acima de tudo por isso, a sua infinita doçura ortodoxa, essa de nunca reconhecer a descrença. No fim, os famous grouse bebidos, diz-me o meu amigo que amanhã irá marchar "avenida abaixo", comemorando. E que sabe que eu quererei marchar "avenida acima". Conhece-me bem, este meu mais-velho, rio-me.
 
Sigo, e recuo até ao bairro. Sento-me com uma mais-que-querida, mana. Diz-me, provoca-me, e nisso até me surpreende, que irá marchar amanhã, na tal "avenida abaixo", coisa de ser o "cinquentenário". Acompanhada de amigas, as minhas queridas, lindas, ainda mais agora, com um pé ou ambos nos 60s, do que antes o foram. Rio-me, com sarcasmo invectivo-a, digo-lhe que "nem pensar". Convoco-a para que me leia, que o ano passado fui a Bogotá louvar o 25 de Abril explicando porque nunca "desço a Avenida". Insiste, risonha, provoca-me. Hesito, na perspectiva da passeata, da junção com as mais-belas, com os seus maridos, gajos porreiros, na expectativa de uma jantarada posterior... Na mesa um vizinho lembra, telefone na mão, que "os teus" (como se eu os tivesse) "também desfilarão" - para quem não saiba há uns anos a organização comunista do "descer a avenida" impediu os da IL de participar mas desde há dois anos que aceitam os "neoliberais" (aka "fascistas") naquele calcorrear do Marquês abaixo.
 
Sorrio, peço mais uma imperial, toca o telefone, combinam-me uma reunião a meio da tarde. O que me evita as hesitações. Sorrio mais ainda, a tal "vontade de rir nasce do fundo do ser". Pois por mais que as minhas tão queridas me sejam tão queridas, e os seus maridos tão porreiros, a minha vontade de marchar com os António Filipe é tão grande como a de ombrear com os Ventura. E, murmuro, para que ninguém me ouça, pior ainda seria o marchar com os do PS, gente tétrica.
 
Mas 25 de Abril Sempre! Porque "todas as" minhas "explosões redundam em silêncio!"

07
Nov23

Radar Kadafi

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Há uns 40 anos (porra!) alguns dos amigos da minha rua, lá nos Olivais, fizeram uma banda. Evoluíram aquilo da "garagem" (um estúdio lá pelos Olivais Norte, se não estou em erro) até ao então célebre Rock Rendez-Vous, a espectáculos, a um disco (LP, dizia-se), daqueles que passava na rádio - e ainda passa, sei-o. E um pouco de on the road, esse acompanhado por alguns de nós-outros, os da "rua": lembro-me vagamente de uma ida a Cáceres, eles até já em requebros profissionais, acompanhando os Radio Macau (ou engano-me?). De um qualquer ringue ribatejano, com os Xutos (ou só tocaria a "Contentores" na aparelhagem?)... De uma divertidíssima produção independente na Aula Magna (quando esta era "a" Aula Magna) a meias com os grande Mler Ife Dada do Nuno Rebelo... De um reveillon num pavilhão no "Porto" a sul do Douro, com os Heróis do Mar, que me culminou numa directa de andarilho com o Brózalho, Invicta acima e abaixo, pois nem tínhamos onde dormir, tanta gente se aboletara... E da minha única vez - até hoje, até hoje - em Aveiro, da qual a única memória que tenho é a de uma garrafa de vodka que a Mané trouxera de Kiev. E de outras tantas coisas e sentimentos... A última vez que os vi tocar, já num após-grupo - pois cada um seguira o seu rumo -, foi num maravilhoso enlace de casal amigo, em Beja, uma memória rica para todos...
 
Não há vez que ouça ou pense nos Radar Kadafi que não me fique a sorrir, preenchido de carinho. Por eles, pelos que eram seus próximos, por mim mesmo. A alguns vou vendo, à minha mana sempre, e muito, que estou em Lisboa. A outros num esparso jantar e na promessa de que sejam mais frequentes. E, sempre, nos rituais.
 
Agora mesmo a Rita, então musa, mandou-me nota de que os Kadafi, e o seu pop, foram objecto deste programa de rádio: "A Vida Num Só Disco". Deliciei-me a ouvi-lo. Beijos, Rita, obrigado...

23
Out23

...Stones

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Um homem distrai-se na vida. Perde-se... Sorte quando tem amigos que o chamam, avisam, aconselham, assim o renorteiam. Acontece-me, coisa de quem por riqueza tem esses tipos que ombreiam. Foi agora outra vez isso: nem sabia que isto já existia, foi o meu amigo Nuno Quadros a avisar, o último dos Stones já está a rodar... Sei que alguns espertos virão contestar, convocar o "Sticky Fingers", o "Exile..." ou um outro qualquer. Mas que se lixem esses, eu estou já aqui a rockar o "Hackney Diamonds" (como não, se o kiff, the riff segue imparável?), desde a "Angry" da abertura - belo videoclip, que mais pode querer um homem do que aquilo, até a dor mentida da cançoneta -,
 
 
e entre tudo o que vai passando até já tenho este quase-slow que (já não) dançarei com alguém.
 
(E entretanto, alguém tem aí alguma coisa?...)

17
Out23

No Metropolitano de Lisboa

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Nos Restauradores entro no Metro, desço ao cais e fico estuporado pois - ainda que soando algo baixo - reconheço acordes dos Doors, a L.A. Women logo julgo. Sai-me palavrão, peludo - e ainda pior, logo de seguida, ao ouvir a canção interrompida com anúncio a um qualquer cartão ("Viajante"?). São-me palavrões mudos, para mim mesmo, isto de ver os velhos Doors resumidos a "música de metropolitano", que nem de hotel.... E lembro-me, eu puto, do programa musical de António Victorino de Almeida, dizendo que a população de Viena (Viena!!!!, sim, Viena...) votara contra a música ambiente no metro...

Fogo!, que menosprezo, os velhos Doors metidos a música ambiente do Metro lisboeta... Que desplante, o da empresa... Não os ouço há quanto tempo?!, nem nas minhas fileiras do spotify, dizendo-os desengraçados, ao Morrison um histriónico até piroso e - até mais do que tudo - nestes meus já 59 anos não tocando naqueles seus produtos há para aí 40 anos, vade retro, satanás, disse mesmo que ateu, avesso àqueles químicos, depois descrente do vegetal psicotrópico.

Agora, é já noite, e deparo-me comigo, nas mãos tenho este "Uma Oração Americana e Outros Escritos", editado pela Assírio e Alvim (ainda assim escrita), que comprei em Dezembro de 1981... Já tocou, bem alto, e eu cantei, o "Everybody loves my baby, everybody loves my baby, she get high, she get high, she get high, she get high, yeah"!

Agora toca, e eu leio, "As pessoas são estranhas quando nós o somos, / feias são as caras quando nos vemos só. / Toda a mulher que nos rejeita nos parece perversa, / as ruas são tortuosas quando estamos em baixo. / Quando nos sentimos estranhos, surgem-nos caras através da chuva, / quando nos sentimos estranhos, ninguém se lembra do nosso nome, / quando nos sentimos estranhos, quando nos sentimos estranhos, / quando nos sentimos estranhos." (Tradução de Manuel João Gomes). Pois é assim mesmo...

Enfim, afinal... obrigado Metropolitano de Lisboa. E, já agora, alguém por aqui tem aí alguma coisa...?

 

(Obrigado à equipa da SAPO pelo destaque dado a este postal)

27
Ago23

Pai

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Esta semana morreu a mãe de uma querida amiga, também vizinha. Segui até às exéquias, nesse nada supérfluo mas, de facto, sempre superficial ombrear para minorar a solidão alheia. No velório encontrei uma grande amiga dos meus pais, rara sobrevivente - octogenária mas de olhar ainda basto viçoso... Não a via há mais de uma década, desde o funeral do meu pai - pois a minha mãe findou durante a praga Covid. Logo para ela avancei num "não sei se se lembra de mim?", acolhido com um sorriso "claro que sim, ainda por cima és igual à Marília!" - comovendo-me, pois quem é que ainda me diz isso? Trocámos algumas palavras, sem ser de circunstância, e ela diz-me para irmos até ao exterior, desentorpecer as pernas, algo que lhe é ainda mais necessário devido à recente fractura que lhe apôs esta muleta que a acompanha... Logo concordo, automaticamente remexendo o pacote de Amber Leaf, e lá seguimos. A senhora recorda os meus pais, nisso aflorando-os com humor irónico nada saudosista, assim verdadeira saudade. Rio-me, com aquela perspicácia de conhecimento deles feita, e até me apetece beijá-la, tal a gratidão que me invade... Diz-me que conheceu primeiro o meu pai, e que lhe disse "tenho de conhecer a tua mulher, deve ser interessante!"... Isto porque "trabalhavámos juntos", e já há algum tempo. "Trabalhava no CNE?", perguntei, apesar de ela já me ter convocado ao "tu" - e eu, proto-sexagenário, com dificuldades nisso e a perceber que pareço os mais-novos que se torcem quando lhes digo o mesmo... "Não!", ri-se ela (com o tal viço que já referi), "éramos comunistas!...", trabalho militante, pois então. E rio-me também eu agora, nessa alusão às andanças (nunca em casa explicitadas) do Camarada Pimentel. Depois avança e vem a dizer-me "o teu pai achava que tu és muito reaccionário". "E achava muita piada a isso...". Eu rio-me, para não chorar (pois, foda-se!, que saudades tenho eu do meu pai, o Camarada Pimentel). Pois só agora, aqui, tenho a garantia que ele percebera, isso de ter ele ficado, e nisso já algo "heterodoxo" - talvez até demais para o que reconheceria - no Brel e eu já ter vindo no tempo do Rockin' In The Free World... Num mundo deveras diferente.

[Neil Young - Rockin' In The Free World - Accor Hotel Arena Paris 2016]

28
Jul23

Ghorwane em Sines

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Telefona-me um velho amigo, também ele torna-viagem, a desafiar "embora a Sines ver os Ghorwane?!!". "Arranja lá um carro, vá", eu resmungo, os custos - decerto que desabridos -, a falta de energia, tenho lá eu estaleca para ir a um festival, que canseira, aquilo carregado de gente, barulhenta e - pior do que tudo - jovem ("então não foste à Colômbia, Andes acima Andes abaixo?!", poderia ele ter ripostado mas não o fez), "não tenho carro" resolvo eu com a verdade, e acrescento, só por segurança, "e onde dormiríamos?" e o sacana, feito puto, "dorme-se na praia" e avança "eu levo a garrafa de tequilla" - e até já me estou a ver exausto na areia da alvorada, depois de dois ou três Red Bull a beber tequilla pelo gargalo. Rust Never Sleeps, defendo-me ainda, entrincheirado geronte e o tipo faz o ataque final: "não tens uma amiga que nos leve?", provocador no seu remanso conjugal, como se estivesse eu (e ele) nos anos 80s, e alguém ainda me aturasse o suficiente para uma estafa destas...
 
Praguejo, raisparta, o tipo a lembrar-me, mostrar-me, o velho que estou, acomodado. Passa um dia. E estou aqui a matutar. Então vou, vamos, perder os "Bons Rapazes"? Os Ghorwane aqui tão perto, a Sul do Sado...? Camioneta e dormimos na praia, N.? Trazes a tequilla?
 

26
Jul23

Ocorrência

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Bloguista

Livro Torna-Viagem

O meu livro Torna-Viagem - uma colecção de uma centena de crónicas escritas nas últimas duas décadas - é uma publicação na plataforma editorial bookmundo, sendo vendido por encomenda. Para o comprar basta aceder por via desta ligação: Torna-viagem

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