Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Nenhures

Nenhures

Rumo à sexta capicua

Neil Young & Crazy Horse - Hey Hey, My My ( Into the Black ) live 1991 HD

Lamento mas a minha quinta capicua acabou, resta-me a via para a sexta, se a Sorte me apoiar. Foi um "grand finale", nas belas primeiras sardinhas no Gafanhoto jagoz com a sunshine of my life, apple of my eye, como cantou o piroso Stevie, ela resguardada dos meus devaneios por trio de (nunca)tios da velha guarda olivalense, seguindo-se visita à minha mãe dela avó, encarcerada pela maldita gripe, meia hora mais bónus, e o retorno ao bairro matriz a acolher boa garrafa de vinho oriunda desse a quem comprei o meu VW nos anos 80s, além de uma antiguidade Chivas, advinda doutro desses vetustos, e mais seguimos a preencher a esplanada, já nossa desde os 70s, agregando parentela espiritual, conluiando-nos entre padrinhos e afilhados, terminando-nos em núcleo duro face ao frango take away regado de piripiri industrial e dos conteúdos das tais garrafas, e ainda de outras ....

Alguns deste nós já estavam na minha primeira capicua, todos na segunda. Nesta seguia eu ainda titubeante, mas já em alergia a tantos desses que então esvoaçavam alardeando "conceitos" de lavra própria, jargão da época, pateta gente que se queria iluminada pois pavoneando-se "dandy" julgando que para tal bastaria ser "blasé", e escorando-me eu nesta minha tribo, bem alheia a tais meneios. Depois as capicuas sucederam-se e a minha via seguiu por outros lados. Regresso agora a casa, à minha gente. Alguns vamos trôpegos, outros balançamos, até demais, caímos por vezes, até caídos seguimos. Há vezes em que nos morremos. Mas não nos meneávamos dantes. E não nos meneamos agora. É uma cultura, local, "tribal". Superior.

Sigo para a sexta capicua. Não com muita força. Mas sem meneios. E sem pinga de paciência para meneantes, aqueles dos ademanes. Os das culturas inferiores. E, mal de mim, também para aquelas dessas ....

 
 

Do Minnesota a Portugal

Como João Campos e Maria Dulce Fernandes abordaram o caso do cidadão americano assassinado pela polícia reproduzo aqui um postal sobre o assunto que coloquei no meu mural de FB, num registo mais solto e coloquial do que o blogal, até porque lhe integro nacos do que fui colocando em comentários (dada a porrada que fui levando). Mas junto-lhe a grande canção "American Skin" de Bruce Springsteen, que se não diz tudo tudo sente sobre este acontecimento americano. E que aqui fica também para que alguns irredutíveis não resmunguem que eu estou a apoucar o inapoucável:

Leio no FB emotivas partilhas do fait-divers de que uma jornalista da TVI se comoveu ao apresentar a notícia do assassinato de George Floyd, morto por um polícia após 8 minutos a sufocar, tendo sido incapaz de a concluir. A notícia vem com fotografia e percebo-lhe o fenotipo, presumo-a mestiça ("mulata" como se diz em Moçambique, sem preocupações etimológicas) ou será negra, não posso precisar nem essa destrinça me é relevante.  Vejo também aqui vários amigos reais, e imensas ligações-FB, até académicos, mesmo antropólogos, até antropólogos com trabalho em Moçambique, a partilharem insurgências próprias e lamentos contra este horror acontecido em Minneapolis, no estado do Minnesota, EUA.

Eu tenho duas questões: 1) será que a jornalista da TVI se comoveu até à inacção quando apresentou a notícia do assassinato de um eslavo (lembrai-vos do nome dele? Ihor Homeniuk) cometido por um grupo de agentes do SEF no aeroporto da Portela, na cidade de Lisboa, distrito de Lisboa, Portugal? E, para pormenores aduzo que o tal eslavo - e, já agora, sabeis da ligação etimológica entre "eslavo" e "escravo", e do que isso deixa deduzir sobre as categorias antropológicas negativamente discriminatórias? principalmente diante de um candidato a imigrante ...-, Ihor Homeniuk, não foi asfixiado durante horrorosos oito minutos mas seviciado durante horrorosas não sei quantas horas. Será que a dita jornalista se comoveu tanto que interrompeu a locução do acontecido ali à Encarnação, antes de Sacavém? A menos de 5 euros de taxi da minha casa? E será que estes cândidos, mesmo académicos, até antropólogos com trabalho em Moçambique, se ornamentaram com insurgências, lamentos e perfis eslavófilos? Será que alguém se lembra que Ialta, o apogeu do "compromisso histórico" que obrigou a rasurar tanta da historia de XX, foi há 77 anos? Mas que o 20º congresso do PCUS foi há 64 anos e o fim da URSS há 29. E que com isso não é necessário manter o silêncio, a "dessignificação" da História. Lembrando, por exemplo, que a URSS, avatar da Rússia, e a nossa actual grande aliada Alemanha, mataram mais ucranianos, a deles alteridade, do que todos os mortos, directos e indirectos provocados pelos colonialismos europeus em África durante XX? E nem falo do passado, tão complexo naquela região, como em quase todas as outras. E aduzo, entre não-lágrimas alheias, que nenhum jogador da bola se ajoelhou em homenagem a Homeniuk, nenhum intelectual português usou ícones a propósito de Homeniuk, assassinado, repito, ali à Rotunda do Aeroporto, a 10 minutos do mercado de Alvalade, onde há um bom restaurante de peixe. E mais junto, isto da minha certeza de que um qualquer sueco, alemão ou britânico, também presumivelmente louro, não seria morto ali nos escritórios a cinco minutos da Praça Franciso Sá Carneiro, a sempre Areeiro. Se Homeniuk fosse um sírio, seria uma gritaria a propósito da morte de um "refugiado de guerra". Mas como era ucraniano, provavelmente louro, pouca foi a ira. Se fosse um magrebino, tentando passar a imigrante "indocumentado", seria uma desgraça, mas como era ucraniano, provavelmente louro, nenhuma corrente indignista brotou. Se viesse daquela "África Negra" de antanho seria uma onda de repúdio, mas vindo da eslavónia pouco conta entre os bem-pensantes nacionais. Apesar, não sei se já disse, de ter sido morto a meia dúzia de estações de metro do El Corte Ingles da pequena-burguesia lisboeta.

2) Há um mês dois polícias espancaram até à morte um homem na cidade da Beira, capital de Sofala, Moçambique, cidade celebrizada pela calamidade de 2019. "Os dois polícias interromperam um jogo de futebol de adolescentes em cumprimento das recomendações do estado de emergência devido à covid-19, e depois começaram a jogar, o que levou Abdul Razak, que se encontrava no local, a ameaçar filmá-los.". Não vi quaisquer imagens, só posso presumir os fenotipos dos dois polícias e do cidadão Abdul Razak (e presumo-o cidadão moçambicano pois se não o fosse muito provavelmente não teria criticado a polícia e teria sido identificado pela imprensa como estrangeiro). Mas a notícia informa que ele morreu não após oito minutos de horrorosa asfixia mas após 3 horas de horrorosas sevícias na esquadra da Munhava.

A minha questão é a mesma. Será que a jornalista da tvi se emocionou até à inacção ao ler a notícia da morte de Abdul Razak? E os indignados do FB, mesmo académicos até antropólogos com trabalho em Moçambique, se ornamentaram com insurgências, lamentos e perfis moçambicanófilos? (Sim, eu sei, a notícia nem correu no rincão ...).

Não se trata de discutir a dimensão de um crime, ou a realidade de um qualquer país. Trata-se da pertinência de importar essa realidade, e os seus critérios classificatórios, para entender o resto do mundo. Para direccionar a atenção sobre o resto do mundo. Para balizar e animar os sentimentos, tão bem intencionados, da como a pobre jornalista da tvi. E dos não tão bem intencionados funcionários públicos ou privados pagos para pensarem a realidade. Utilizando este falsário molde sentimentalão para perseguir objectivos próprios em casa própria.

Dia da Argentina

Verano Porteno -9- ASTOR PIAZZOLLA y su Quinteto Tango Nuevo -live in Utrecht (1984)

Hoje, 25 de Maio, é o dia da Argentina. E o de África (aquela que não é um país). E é também o aniversário da minha filha, que chega agora mesmo à maioridade. Que a banda sonora da vida lhe seja bela.

Dois meses confinados: rescaldo

(Lou Reed Live, "Vicious")

Daqui a pouco, a 13.5, cumprirei dois meses confinado aquém-Tejo, em magnífica companhia anfitriã. Quero partilhar alguns momentos cruciais deste excêntrico período:

1. Tenho 55 anos e está a tocar, bem alto, o cd "Lou Reed Live".

2. Estreei-me no focinho do porco e nas caras de bacalhau. A minha ética e o meu palato aprovaram.

3. Passei imenso tempo com a minha filha. Julguei que ser pai é a melhor coisa do mundo. Mas agora mesmo, a propósito de um desgraçado filicídio, aprendi na facebookpedia, com doutos lentes, que a família é um mero e vil mito afectivo que, sob tutela do Estado capitalista, reproduz as (exploratórias) diferenças sociais. Voltei a 1983, àquele inicial ISCTE. E duvido se não há gente confinada desde então ...

4. Perdi o meu nome: (ex?)amigos, da geração dos assistentes dos reedfeet dos 80s, desnomearam-me quando me irritei com a ignomínia de me dizerem culpado pela disseminação do Covid-19 em Moçambique. E que pagasse por isso. Falando sem rebuço? Brancos a comprarem o espaço que ninguém lhes vende. Eu estou numa quinta, cuspo para o chão ... (é para ti, Isabel, que eu não desnomeio as pessoas).

5. O vil dr Vitor Gaspar passou 850 milhões de euros ao banco do amigo do prof. Cavaco Silva e o dr. Passos Coelho fingiu que nada sabia disso. Nós, na esquerda, manifestámo-nos contra este neoliberalismo.

6. Os liberais (que significa "fascistas" no linguajar actual dos académicos da esquerda) suecos, bielorussos, nicaraguenses e brasileiros, não confinaram a população.

7. A economia portuguesa desde os 1960s que não estava tão bem, segundo um mandarim (és tu, João, e eu estou numa quinta, escarro para o chão).

8. O Queen Margot não aumentou de preço e a cerveja do Lidl é bebível se bem gelada.

9. A "Vicious" ainda mexe comigo ...

10. Um dia destes desconfinar-me-ei. A ver se chegado além-Tejo não me deparo logo com um mandarim.

...Stones, bater no ar

Os Stones por Zoom (a empresa que mais terá beneficiado com esta pandemia), cada um em sua casa, ontem no festival Together At Home, tocando o ícone You Can't Always Get What You Want, uma das (a?) canções da minha vida. E que magnífico Charlie Watts ...

Vendo estes mais-velhos (Watts já com 78) e sabendo do gigantesco "Live Aid" que isto foi ilumina um pouco a dimensão deste confinamento generalizado, melhor até do que as notícias o fazem.

E, entre outras coisas, lembrei-me de alguns liberais lusos (uns até ex ou ainda bloguistas) que desde há um mês andam frenéticos a bradarem que tudo isto, a suspensão dos contactos, o interrupção do trabalho, é fruto da imaginação, uma loucura, etc. (e até um bocadinho daquilo do "marxismo cultural"). Conheço alguns, são boas pessoas. Mas portam-se exactamente como os maluquinhos do BE há 15 anos ou mais. E são agora muito mais velhos, é um bocado pungente vê-los assim histriónicos. E acho que ninguém tem a piedade de lhes dizer isso.

Então digo eu, a ver se eles percebem que só o Charlie Watts pode bater no ar e soar.

Apoio estatal à música

(António Chainho, "Escadinhas do Duque")

As políticas de preservação face à pandemia gripal levaram à suspensão da actividade económica. Face aos problemas levantados a empresas e trabalhadores pediram-se apoios públicos, estatais (da República) e multilaterais (à UE agora, depois talvez a outras instituições). E vários estarão, presumo, a ser dados ou planeados e operacionalizados. Para as várias áreas de actividade económica, para os vários estratos sociais.

Foi entretanto anunciado um programa de apoio aos músicos portugueses. Suspensos os espectáculos (e sabendo nós que discos não vendem e que as remunerações do digital são marginais) é forma fundamental e urgente de apoio aos agentes dessa actividade profissional.

Consta que o financiamento estatal a essa área de actividade será de cerca de um milhão de euros. (Já agora, como imagem, é algo como 20% da licença desportiva do lateral-direito suplente do meu Sporting, clube que, como todos os outros, deve centenas de milhões à banca - tão sustentada esta pelo Estado - e colheu (e colherá) imensos apoios estatais - directos e indirectos - ao longo de décadas.).

E há por aqui pessoas, inúmeras, boçais, energúmenas, javardas, imundas, que se congregam em gritaria, dichotes, abaixo-assinados, contra isto. Assim, sem mais.

Espero mesmo que este Covid as leve desta para pior. Que nojo de imbecis que para aqui andam.

José Mucavele

José Mucavele, Mufana wa Livala

O sistema-FB avisa que hoje o magnífico José Mucavele se torna septuagenário. Confinado aqui aquém-Tejo estou longe dos meus discos, por isso cruzo a alvorada ouvindo as escassas (e roufenhas) reproduções existentes no youtube.

E com elas ascendem-me algumas memórias. Entre elas a de um espectáculo dele, noite longa até à madrugada no Xiphefo de Inhambane, em Janeiro de 1998, cidade na qual ele não tocava desde 1979, coisas também dos efeitos da guerra civil. Um momento verdadeiramente único. E polissémico, no meu sentir.

Mas mais ainda lembro um episódio nem musical: uma noite, talvez ainda em XX, fomos em trio até uma discoteca, aquela que ladeia (ladeava?) a Assembleia da República - foi mudando de nome, esqueci-o, só recordo que tinha uma pista de dança com soalho em madeira, que até a mim fazia dançar [Adenda: é óbvio, como pude esquecer o nome?, que se trata do Matchedje, como me lembra um comentador]. A casa estava bastante cheia, gente muito jovem. E o que me tocou, e muito, a reacção à sua chegada, ele informal como sempre, e o enorme, profundo respeito, que de imediato o rodeou. Não a excitação, o êxtase, com que habitualmente os jovens recebem os ídolos da música e da tv. Mas algo diferente, denso de tão pausado. E nós sentados, ele com a sua água, nós com as nossas cervejas, e os mais-novos, paulatinamente, vindo saudá-lo. Ao Mestre? Mais até como se ele Herói (no sentido grego, semi-divino).

Nós não entendemos as líricas, sempre alguém tem que as traduzir. E as gravações escasseiam. Mas crede, o (agora mesmo) mais-velho é Grande.

Saudações e Parabéns. Ou seja, muita Saúde e todo o Bem.

Crónica dos dias do COVID (24): pensar

Coronavirus, il "Va pensiero" è virtuale: il coro dedicato ai medici (publicado no sítio do La Repubblica)

Que voe bem alto a Razão, que nos ampare neste exílio, que nos inspire e harmonize diante de tamanho sofrimento

(não sou muito de Verdi. Mas ao ver um punhado de músicos cantarem o que tanto nos é preciso e com toda esta atitude ... Caramba. Isto é resistência, pundonor)

 

Manu Dimango, "personagem totémica"

manu-dibango.jpg

Manu Dibango: artigo na Rolling Stone (anglófona) e outro artigo (francófono), um pouco mais substantivo. 

Entrevista de Manu Dimango à RFI, feita por Claudy Siar, produtor de "Couleurs Tropicales".

Super Koumba, o que fazia em finais da década de 1980s, durante a qual o vi na Festa do Avante, a última vez ali fui.

Mais sobre mim

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.