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Nenhures

Nenhures

Rachmaninoff e o Covid-19

(Rachmaninoff: Piano Concerto no.2 op.18, Anna Vinnitskaya e a Orquestra Sinfónica de Colónia)

Temos que ser uns para os outros. E muito mais nesta era covidocena. Falo, coração nas mãos, da saúde mental de nós-todos, gente confinada, do apoio, avisos e conselhos que podemos trocar, mesmo deste modo virtual. Aqui segue o meu: a Music3 (estação belga) está a transmitir este célebre Rachmaminoff sob esta pianista. Não sou melómano para discutir da competência de Vinnitskaya nem para elaborar sobre o compositor, sua pertinência coeva e etc. Nem sobre este concerto 2, que se tornou padrão. Mas posso afiançar aos confinados doridos: talvez seja melhor não se ouvir isto nestes momentos. Não sei porquê, nem explicar. Apenas resmungo que é melhor ir buscar outra coisa. Que fira menos

Hoje (1)

Domingo nebuloso, partes chuvoso, estou com a Margot, ela sempre rainha, sós de mão dada, soa a canção de sempre, a "nossa", em ininterrupto "vira o disco e toca o mesmo". Vou até ao muro, iço-me para espreitar o mundo, estes que ali vão, mais as vacinas e o resto, sinto-me " mr. Jimmy", escorrego no musgo, arroto um "que se fodam", olho para a Margot, que já foi linda, húmida e segue já velha, seca, sem-sentido. E troco-a por uma nova. Pois sei-a(s) barata(s).

Carlos do Carmo

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Para além do calendário a vida não pára. Ou seja, a morte não pára. A assim abrir o ano. No cantor-fadista sempre senti uma sisudez composta que me desencantava. Mas tanto lembro, eu nos 16 ou 17, do espanto de o ver - na "Avante" ao Alto da Ajuda - a cantar esta Valsa assombrosa. Arrebatador!
 
(Carlos do Carmo, La Valse à Mille Temps, 1980)
 
E horas depois, já em casa, "Pai, que achaste daquilo?". E ele, camarada, "Não é o Brel!... Mas foi muito bom, muito bom". E foi.

Rescaldo de 2020

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(Lisboa confinada; Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo)

Entre co-bloguistas, no colectivo Delito De Opinião , estamos a escolher - tal como todos anos o fazemos - o Facto Nacional e o Facto Internacional do Ano, a Figura Nacional e a Internacional do Ano, e a Frase do Ano. Quando (finalmente) entrarmos em 2021 o nosso coordenador blogal, Pedro Correia, publicará os resultados. Deixo aqui a minha votação (até para vos chamar a atenção para o resultado final): 

1. Frase Nacional do Ano: há imensas para escolher (aqui um rol delas, patéticas). Mas escolho uma de Pedro Nuno Santos, o robusto Iznogoud deste governo: "Em 2025, a TAP já estará em condições de devolver algum do dinheiro ao Estado português".

Escolho-a porque as outras são sobre isto que agora decorre. E esta é para o futuro, escrutinável daqui a uns anos. É também dedicada aos interseccionalistas, ou lá como agora se chamam os socratistas. Não tiveram eles a desvergonha abjecta de até com o Berardo gozarem no ano passado? Daqui a cinco anos continuarão na cagança aldrabona da sua superioridade moral e intelectual, o "activismo" como peroram. Será então de lhes perguntar, aos funcionários públicos e aos subsidiados/avençados, aos teclados de aluguer e aos imbecis (in)úteis, se se lembrarão disto. Com toda a certeza que não.

2. Facto Nacional do Ano: O assassinato de Ihor Homeniuk no Aeroporto de Lisboa.

Porque demonstra o estado do Estado. Porque o mísero ministro Cabrita ainda o é. Porque demonstra o miserando estado do "activismo". Porque nos demonstra. 

[Sobre o assunto botei em Junho e em Dezembro]

3. Facto Internacional do Ano: COVID-19. Como é óbvio.

Já agora deixo ligação a um texto mais longo que escrevi sobre isto. Não colheu grande interesse (leitores). Mas foi a única coisa que escrevi neste ano, por isso aqui venho agitar a tralha: “P’ra melhor está bem, está bem, p’ra pior já basta assim”: o capitão MacWhirr e o Covid-19.

4. Figura Internacional do Ano: Li Wenliang
 
Como vénia ao seu percurso, tão breve. De coragem.

Mas também para lembrar os comunistas (aka interseccionalistas do "sul"), que nos odeiam tanto, a nós porque europeus, portugueses, brancos, e democratas - ainda que tantos deles também europeus, também portugueses (aquilo da "dupla"), também brancos, mas nunca democratas, e ainda que também aqui aboletados - que sufragavam a ideia da total irresponsabilidade da "Comunista" China nisto tudo. E que nós - brancos, europeus, portugueses, seus anfitritões/compatriotas e, pior do que tudo, democratas - deveríamos pagar os custos do Covid-19 em África porque nossa culpa.

Acho que nunca desprezei ninguém como esta execrável malta, naquele Março-Abril de 2020.
 

5. Figura Nacional do Ano: Frederico Varandas.

Porque apesar de todas as contingências, mostrou o valor do trabalho, do esforço e da planificação num país dominado pelos lobbies políticos e empresariais, numa área de actividade económica particularmente vilipendiada pelo recurso a actos ilegais por parte dos poderes vigentes.

***

Junto quatro outras escolhas, que me marcaram o 2020. 

 

6. Música (Banda Sonora) do Ano: porque este concerto de Lou Reed [Capitol Theatre, 25 de Setembro de 1984] e alguns outros dele tocaram incessantemente durante as noites de Março, Abril e Maio, lá no bucólico Nenhures.

7. Livro do Ano (ensaio)Les Nouvelles Routes de la Soie, de Peter Frankopan. Enfim, foi releitura (para tirar notas, essa inutilidade viciante) e não foi o melhor. Mas completamente o mais útil. Enquanto os basbaques discutiam Trump e Brexit, já agora:

8. Livro do Ano (ficção): Ilações Sobre um Sabre, de Claudio Magris. Um pequeno-Enorme livro, até já antigo. Daqueles que um tipo ao acabar logo insulta o autor - tanta a raiva invejosa diante de tamanho talento. E, ao mesmo tempo, regurgita de júbilo pela sorte de ter lido.

9. Canção do Ano: "Waves of Fear", de Lou Reed.

O Sequestro da Minha Mãe

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(A Mãe de Franz Marc, 1902)

A minha mãe Marília tem 94 anos. Há pouco mais de uma década que vive numa "residência". Foi ela e o meu pai António que nos anunciaram a sua opção de assim continuarem, suprema forma de consciência e, mais do que tudo, coragem. Alguns anos depois o meu pai morreu. Ela seguiu, continua. Cada vez mais só, desaparecida a sua geração, familiares, amigos, colegas, até alunas. Valem-lhe os bons cuidados "residenciais". E a estremosa filha, genro e noras. E tanto também o meu mano-velho, que o Atlântico apenas fisicamente aparta. Não tanto o meu angustiado descuido. E alguns lampejos de netos e bisnetos, em família carregada de emigrantes.

Desde Março que dela nos apartámos, em precauções até anteriores às normas estatais. Pois família informada e racional, e também de médicos, de gente nada negacionista dos cuidados face à gravidade disto que passamos. Depois, meses passados, já na alvorada do Verão, passámos a ter direito a visitá-la. Um visitante por semana, meia hora apenas, no exterior das instalações, no aprazível jardim. E em grupos íamos vê-la, alguns apenas à "paliçada" do jardim, saudávamos, a mostrarmo-nos, e falávamos breves minutos. Depois um de nós entrava para o breve período, conversando sob as árvores e junto ao lago onde tartarugas fazem as vezes da fauna bravia.

Há mais de dois meses surgiu um surto de Covid-19 na residência. Infecções em vários funcionários e em metade dos residentes, estes octogenários e nonagenários. Mas não na minha mãe. As visitas foram canceladas, mesmo aos residentes que não haviam sido infectados. Como é óbvio sem qualquer razão sanitária para a estes se lhes vedar as visitas, nos moldes sanitários vigentes. Mas compreendemos a angústia da instituição e a escassez de recursos humanos que adveio - e mesmo sabendo nós, até profissionalmente, que este isolamento nos idosos acelera, e muito, os síndromes demenciais.

Os residentes foram recolocados, apartando os infectados dos outros. E confinados aos aposentos. A minha mãe - pela primeira vez desde os seus tempos de estudante - passou a partilhar um quarto com uma "vizinha". Lamentou-se-me um pouco, dessa partilha de espaço e de ao quarto estar confinada. Bisneta de militar, neta e sobrinha-neta de militares, filha e sobrinha de militares - de oficiais da Flandres a cadetes do 28 de Maio, tantos depois coronéis que in illo tempore o meu pai, algo civilista, dizia que aqueles almoços de família lhe faziam pensar que estava na Grécia -, irmã de militar, mãe de militar, mãe, sogra, tia de vários mobilizados para as "guerras d'África", diante desse seu lamento, eu, o benjamim estapafúrdio apesar de já neste estado, mobilizei-a para a guerra: "Mãe, a senhora ao seu lado não é sua colega ou vizinha, é uma camarada, isso não é um quarto é uma camarata! Esta é a sua campanha, a guerra contra os Covid-19!". Numa réstia de força riu-se, de lá, num "é isso, filho, esta é a minha guerra!". Mas à minha irmã confessou-lhe, em visceral ironia, "aqui fechada no quarto estou a cumprir uma pena?".

Entretanto passaram meses, nenhum dos residentes infectados adoeceu. E cumpridas foram as sucessivas rondas de testes requeridas. E há já três semanas que não há qualquer razão para que se impeçam as visitas. A não ser as delongas burocráticas - dizem-me que as autorizações da Administração da Saúde, uma qualquer absurda "desinfecção do edifício", sei lá o que mais.  Entenda-se bem, a única razão para que não possamos visitar a minha mãe é o pânico institucional, a histeria. E a modorra burocrática. Uma mescla que é apenas crueldade. Inconsciente crueldade. E assim está a minha mãe sequestrada! Apenas isso, tudo isso. E, tão audivelmente, a definhar. Tão dolorosamente a definhar.

"Escreve", dizem-me, autorizam-me ... "escreves sobre tudo, escreve sobre isto", sobre o sequestro da minha mãe. E, decerto, o das mães e pais de tantos outros. Há semanas que o ensaio. Mas que dizer?, pois quando o começo só ouço Brel, o Brel do meu pai que me faz falta, o Brel do meu pai com a minha mãe. Porque ele cantou tudo isto, nisso dizendo o que era necessário. E cantou que fossemos homens. Sede-o, sejamo-lo. Conscientes mas sem esta absurda, disparatada, crueldade.


(Les Deux Fauteuils, original de 1953)

J'ai retrouvé deux fauteuils verts / Dans mon grenier tout dégoûtant / C'est le fauteuil de mon grand-père / Et le fauteuil de grand-maman // L'un est usé jusqu'à la corde / Souvent l'on dormit dans ses bras / Il est lourd de la sueur qu'il porte / C'est le fauteuil de grand-papa // L'autre presque neuf n'a de-ci de-là / Que quelques tache d'argent / Sur le dossier et sur les bras / Grand-mère y a pleuré dedans // Tout petit home de grande joie / Vous les connûtes encore amants / Se tenant tendrement les doigts / Disant les mots qu'on aime tant // J'ai retrouvé deux fauteuils verts /Dans mon grenier tout dégoûtant / C'est le fauteuil de mon grand-père /Et le fauteuil de grand-maman
 
 
E por isso prossigo: 
 
 
(Les Vieux, original de 1963)
 
Les vieux ne parlent plus ou alors seulement parfois du bout des yeux / Même riches ils sont pauvres, ils n'ont plus d'illusions et n'ont qu'un cœur pour deux / Chez eux, ça sent le thym, le propre, la lavande et le verbe d'antan / Que l'on vive à Paris, on vit tous en province quand on vit trop longtemps / Est-ce d'avoir trop ri, que leur voix se lézarde quand ils parlent d'hier? / Et d'avoir trop pleuré, que des larmes encore leur perlent aux paupières? / Et s'ils tremblent un peu, est-ce de voir vieillir la pendule d'argent / Qui ronronne au salon, qui dit "oui", qui dit "non", qui dit: "Je vous attends"?
 
Les vieux ne rêvent plus, leurs livres s'ensommeillent, leurs pianos sont fermés / Le petit chat est mort, le muscat du dimanche ne les fait plus chanter / Les vieux ne bougent plus, leurs gestes ont trop de rides, leur monde est trop petit / Du lit à la fenêtre, puis du lit au fauteuil et puis du lit au lit / Et s'ils sortent encore, bras dessus, bras dessous, tout habillés de raide / C'est pour suivre au soleil l'enterrement d'un plus vieux, l'enterrement d'une plus laide / Et le temps d'un sanglot, oublier toute une heure la pendule d'argent / Qui ronronne au salon, qui dit "oui", qui dit "non", et puis qui les attend
 
Les vieux ne meurent pas, ils s'endorment un jour et dorment trop longtemps / Ils se tiennent la main, ils ont peur de se perdre et se perdent pourtant / Et l'autre reste là, le meilleur ou le pire, le doux ou le sévère / Cela n'importe pas, celui des deux qui reste se retrouve en enfer / Vous le verrez peut-être, vous la verrez parfois en pluie et en chagrin / Traverser le présent en s'excusant déjà de n'être pas plus loin / Et fuir devant vous une dernière fois la pendule d'argent / Qui ronronne au salon, qui dit "oui", qui dit "non", qui leur dit: "Je t'attends" / Qui ronronne au salon, qui dit "oui", qui dit "non" et puis qui nous attend
 
E termino com o que é necessário:
 
 
 
(Le Bon Dieu, original de 1977)
 
Toi / Toi, si t'étais l'bon Dieu / Tu f'rais valser les vieux / Aux étoiles / Toi, si t'étais l'bon Dieu / Tu allumerais des bals / Pour les gueux // Toi / Toi, si t'étais l'Bon Dieu / Tu n's'rais pas économe / De ciel bleu / Mais / Tu n'es pas le Bon Dieu / Toi, tu es beaucoup mieux / Tu es un homme // Tu es un homme / Tu es un homme

Rumo à sexta capicua

Neil Young & Crazy Horse - Hey Hey, My My ( Into the Black ) live 1991 HD

Lamento mas a minha quinta capicua acabou, resta-me a via para a sexta, se a Sorte me apoiar. Foi um "grand finale", nas belas primeiras sardinhas no Gafanhoto jagoz com a sunshine of my life, apple of my eye, como cantou o piroso Stevie, ela resguardada dos meus devaneios por trio de (nunca)tios da velha guarda olivalense, seguindo-se visita à minha mãe dela avó, encarcerada pela maldita gripe, meia hora mais bónus, e o retorno ao bairro matriz a acolher boa garrafa de vinho oriunda desse a quem comprei o meu VW nos anos 80s, além de uma antiguidade Chivas, advinda doutro desses vetustos, e mais seguimos a preencher a esplanada, já nossa desde os 70s, agregando parentela espiritual, conluiando-nos entre padrinhos e afilhados, terminando-nos em núcleo duro face ao frango take away regado de piripiri industrial e dos conteúdos das tais garrafas, e ainda de outras ....

Alguns deste nós já estavam na minha primeira capicua, todos na segunda. Nesta seguia eu ainda titubeante, mas já em alergia a tantos desses que então esvoaçavam alardeando "conceitos" de lavra própria, jargão da época, pateta gente que se queria iluminada pois pavoneando-se "dandy" julgando que para tal bastaria ser "blasé", e escorando-me eu nesta minha tribo, bem alheia a tais meneios. Depois as capicuas sucederam-se e a minha via seguiu por outros lados. Regresso agora a casa, à minha gente. Alguns vamos trôpegos, outros balançamos, até demais, caímos por vezes, até caídos seguimos. Há vezes em que nos morremos. Mas não nos meneávamos dantes. E não nos meneamos agora. É uma cultura, local, "tribal". Superior.

Sigo para a sexta capicua. Não com muita força. Mas sem meneios. E sem pinga de paciência para meneantes, aqueles dos ademanes. Os das culturas inferiores. E, mal de mim, também para aquelas dessas ....

 
 

Do Minnesota a Portugal

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(Ihor Homeniuk)

Sobre este assunto começo pela grande canção "American Skin" de Bruce Springsteen, que se não diz tudo tudo sente sobre este acontecimento americano. E que aqui fica também para que alguns irredutíveis não resmunguem que eu estou a apoucar o inapoucável:

Leio no FB emotivas partilhas do fait-divers de que uma jornalista da TVI se comoveu ao apresentar a notícia do assassinato de George Floyd, morto por um polícia após 8 minutos a sufocar, tendo sido incapaz de a concluir. A notícia vem com fotografia e percebo-lhe o fenotipo, presumo-a mestiça ("mulata" como se diz em Moçambique, sem preocupações etimológicas) ou será negra, não posso precisar nem essa destrinça me é relevante.  Vejo também aqui vários amigos reais, e imensas ligações-FB, até académicos, mesmo antropólogos, até antropólogos com trabalho em Moçambique, a partilharem insurgências próprias e lamentos contra este horror acontecido em Minneapolis, no estado do Minnesota, EUA.

Eu tenho duas questões: 1) será que a jornalista da TVI se comoveu até à inacção quando apresentou a notícia do assassinato de um eslavo (lembrai-vos do nome dele? Ihor Homeniuk) cometido por um grupo de agentes do SEF no aeroporto da Portela, na cidade de Lisboa, distrito de Lisboa, Portugal? E, para pormenores aduzo que o tal eslavo - e, já agora, sabeis da ligação etimológica entre "eslavo" e "escravo", e do que isso deixa deduzir sobre as categorias antropológicas negativamente discriminatórias? principalmente diante de um candidato a imigrante ...-, Ihor Homeniuk, não foi asfixiado durante horrorosos oito minutos mas seviciado durante horrorosas não sei quantas horas. Será que a dita jornalista se comoveu tanto que interrompeu a locução do acontecido ali à Encarnação, antes de Sacavém? A menos de 5 euros de taxi da minha casa? E será que estes cândidos, mesmo académicos, até antropólogos com trabalho em Moçambique, se ornamentaram com insurgências, lamentos e perfis eslavófilos? Será que alguém se lembra que Ialta, o apogeu do "compromisso histórico" que obrigou a rasurar tanta da historia de XX, foi há 77 anos? Mas que o 20º congresso do PCUS foi há 64 anos e o fim da URSS há 29. E que com isso não é necessário manter o silêncio, a "dessignificação" da História. Lembrando, por exemplo, que a URSS, avatar da Rússia, e a nossa actual grande aliada Alemanha, mataram mais ucranianos, a deles alteridade, do que todos os mortos, directos e indirectos provocados pelos colonialismos europeus em África durante XX? E nem falo do passado, tão complexo naquela região, como em quase todas as outras. E aduzo, entre não-lágrimas alheias, que nenhum jogador da bola se ajoelhou em homenagem a Homeniuk, nenhum intelectual português usou ícones a propósito de Homeniuk, assassinado, repito, ali à Rotunda do Aeroporto, a 10 minutos do mercado de Alvalade, onde há um bom restaurante de peixe. E mais junto, isto da minha certeza de que um qualquer sueco, alemão ou britânico, também presumivelmente louro, não seria morto ali nos escritórios a cinco minutos da Praça Franciso Sá Carneiro, a sempre Areeiro. Se Homeniuk fosse um sírio, seria uma gritaria a propósito da morte de um "refugiado de guerra". Mas como era ucraniano, provavelmente louro, pouca foi a ira. Se fosse um magrebino, tentando passar a imigrante "indocumentado", seria uma desgraça, mas como era ucraniano, provavelmente louro, nenhuma corrente indignista brotou. Se viesse daquela "África Negra" de antanho seria uma onda de repúdio, mas vindo da eslavónia pouco conta entre os bem-pensantes nacionais. Apesar, não sei se já disse, de ter sido morto a meia dúzia de estações de metro do El Corte Ingles da pequena-burguesia lisboeta.

2) Há um mês dois polícias espancaram até à morte um homem na cidade da Beira, capital de Sofala, Moçambique, cidade celebrizada pela calamidade de 2019. "Os dois polícias interromperam um jogo de futebol de adolescentes em cumprimento das recomendações do estado de emergência devido à covid-19, e depois começaram a jogar, o que levou Abdul Razak, que se encontrava no local, a ameaçar filmá-los.". Não vi quaisquer imagens, só posso presumir os fenotipos dos dois polícias e do cidadão Abdul Razak (e presumo-o cidadão moçambicano pois se não o fosse muito provavelmente não teria criticado a polícia e teria sido identificado pela imprensa como estrangeiro). Mas a notícia informa que ele morreu não após oito minutos de horrorosa asfixia mas após 3 horas de horrorosas sevícias na esquadra da Munhava.

A minha questão é a mesma. Será que a jornalista da tvi se emocionou até à inacção ao ler a notícia da morte de Abdul Razak? E os indignados do FB, mesmo académicos até antropólogos com trabalho em Moçambique, se ornamentaram com insurgências, lamentos e perfis moçambicanófilos? (Sim, eu sei, a notícia nem correu no rincão ...).

Não se trata de discutir a dimensão de um crime, ou a realidade de um qualquer país. Trata-se da pertinência de importar essa realidade, e os seus critérios classificatórios, para entender o resto do mundo. Para direccionar a atenção sobre o resto do mundo. Para balizar e animar os sentimentos, tão bem intencionados, da pobre jornalista da tvi. E dos não tão bem intencionados funcionários públicos ou privados pagos para pensarem a realidade. Utilizando este falsário molde sentimentalão para perseguir objectivos próprios em casa própria.

Dia da Argentina

Verano Porteno -9- ASTOR PIAZZOLLA y su Quinteto Tango Nuevo -live in Utrecht (1984)

Hoje, 25 de Maio, é o dia da Argentina. E o de África (aquela que não é um país). E é também o aniversário da minha filha, que chega agora mesmo à maioridade. Que a banda sonora da vida lhe seja bela.

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