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Nenhures

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(Postal para o Delito de Opinião)

Luís Menezes Leitão, no "O descrédito das instituições", José Meireles Graça, no "Dissolução", Paulo Sousa, no "O lamaçal" e Sérgio Almeida Correia, no "Em que condições chegaremos a Março", já aqui abordaram a trapalhada constitucional em que assenta a decisão presidencial de suportar este governo demissionário até às calendas gregas. Leigo em questões jurídicas - matéria sobre a qual da minha frequência universitária apenas retive a difusa ideia de que "onde há dois advogados há três opiniões" - apenas faço fé na estupefacção dos co-bloguistas e de outros locutores sobre a matéria. Mas para além disso há o óbvio derrame político, sobre o qual todos opinamos, independentemente dos saberes próprios, lamentava-se um grego antigo. Derrame esse que começou, em público, no sábado com Costa a exceder-se, e em privado, nas manobras subsequentes ao começo da "operação influencer", como já se nota no estado terminal do "governador" do Banco de Portugal.

As opções mostram quem é o Presidente. A sua agenda política, claro. Mas também perfil (contorno) e conteúdo. Rebelo de Sousa tem uma biografia política assente na divulgação da sua extraordinária inteligência e competência - em tempos transcrevi um elogio nesse âmbito que, ainda antes do 25 de Abril, Artur Portela (então Filho) lhe publicou, uma espécie de nascimento do mito. Quando saiu da actividade partidária e foi fazer campanha política para a televisão, como super-comentador, disseminou essa imagem de si mesmo, o do sábio inteligentíssimo e cultíssimo. E fez-se eleger presidente numa candidatura individual ("supra-partidária"), exactamente assente nos seus méritos intelectuais.

Eu gostaria de associar toda esta trapalhada constitucional e os custos políticos que dela emanam - entroncados na decisão presidencial - com algo que escrevi em Março de 2022. Quando após a crise pandémica Portugal viveu meses sob uma governação limitada, devido aos incríveis problemas havidos na contabilização dos votos dos emigrantes:

"(Os futuros historiadores) constatarão que Portugal enfrentou este final da crise pandémica mundial e o ressurgimento da guerra na Europa numa peculiar - e talvez até absurda, dado o contexto - governação. Pois o actual presidente da República decidiu, motu proprio, dissolver um parlamento funcional e promover eleições legislativas. E que estas, apesar de decorrerem após meio século de democracia parlamentar, ocorreram sob uma incúria legislativa e executiva tal que obrigou o Tribunal Constitucional - apesar do próprio Presidente, já em funções há 6 anos, ser um renomado constitucionalista - a prolongar a sua realização. 

Devido a este abstruso processo, Portugal enfrenta o final da crise Covid-19, o impacto do recrudescer do choque energético e a inesperada guerra na Europa, com um governo de gestão em funções durante 5 meses. Ao qual se seguirá, como a imprensa anuncia, um governo com várias alterações no seu organograma, implicando reformulações legislativas e reconfigurações na administração - sempre indutoras de delongas nos serviços. Se tudo isto é insignificante, então algo tem de ser constatado sobre a real importância do exercício governativo. Mas se não é insignificante - como julgo não o ser - então algo terá que constatado, e decerto que o será pelos futuros historiadores, sobre a competência do garante da ordem política, o actual presidente da República. O qual não só promoveu esta situação como permitiu que decorresse desta forma, decerto que por superficial desatenção e deficiente análise. E a futura avaliação deste mandato terá que ser imensamente negativa, até surpreendida num "como foi aquilo possível?". "

Espero que, pelo menos com o somatório destas duas longas situações de governabilidade mitigada causadas por Rebelo de Sousa, no final do seu mandato nos possamos libertar do mito criado da sua "inteligência". E se possa constatar a profunda incompetência deste presidência. Assim dele guardando a memória necessária, a da desadequação deste tipo de indivíduos políticos (perfis e conteúdos) para o exercício de altas funções públicas.

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O Presidente da República decidiu intervir, isentando a priori o cardeal de Lisboa (e o seu antecessor) de qualquer responsabilidade na ocultação de crimes de pedofilia e, por inerência, na preservação de pedófilo(s) em funções - e fê-lo numa conferência de imprensa decorrida a propósito da visita de um Chefe de Estado estrangeiro (!), assim sublinhando o desatino desta atitude de Rebelo de Sousa.

É consabida a incontinência verbal do presidente, o seu afã de sobre quase tudo pontificar - um desvio atitudinal que o leva a extremos tais que é possível vê-lo, até, a comentar jogos de futebol no cenário das entrevistas imediatas (flash) em pleno campo de jogos. Será legado psicológico das décadas de comentariado televisivo que o conduziram a Belém. Há quem aprecie, nisso veja uma salutar aproximação da instituição com o eleitorado, há quem veja nessa encenação de familiaridade uma depreciação da instituição. 

Mas, independentemente do que se possa pensar desta pose presidencial, não é aceitável que o PR intervenha numa gravíssima situação destas, deixando a sua presunção (pois nada mais é do que isso) desresponsabilizadora. A igreja católica enfrenta um problema gravíssimo, de âmbito mundial. Os seus efeitos institucionais chegaram agora a Portugal. Vive, e desde há séculos, sob uma cultura institucional que (pelo menos) induz a sexualidade pedófila, hetero e homossexual. Algo que, é evidente, deriva do seu molde organizativo - o qual nem sequer assenta em dogmas fundamentais mas em opções estratégicas de cariz económico (para quem tenha interesse deixo este célebre The Development of the Family and Marriage in Europe do antropólogo Jack Goody, que explicita o desenvolvimento histórico do celibato eclesiástico).

Diante do que se passa, da generalizada (auto)consciencialização dos contextos católicos - e da sua instituição religiosa matriz - da horrível chaga que vêm acoitando, não me parece que seja admirável recuperar um anticlericalismo "iluminista" setecentista nem o exaltado "mata-fradismo" tão vigente até à nossa I República. Poderemos, crentes e incréus, aceitar a religião que nos é estruturante (mas não mandante) e a sua instituição fundamental. E nisso exigir, mas com esta última ombreando, o seu expurgar das horríveis práticas que os seus oficiais vêm cometendo. Ou seja, deverá a sociedade portuguesa - tal como tantas outras - exigir a responsabilização e combater silêncios e os biombos que a pesada instituição clerical veio procurando manter nestas últimas décadas. Como têm sido noticiados em tantos outros países. Ora nenhuma destas posições, justas, "humanistas" (no sentido de humanitárias e também no de vivificadas pelo respeito aos saberes antigos), ecuménicas no respeito às religiões, se acolhem sob esta intempestiva intervenção do presidente. Apenas um apressado, destravado até, acto de conivência com as autoridades clericais - e é importante recordar que noutros países várias autoridades eclesiáticas, até cardinalícias, foram apontadas pelo acto de denegação sem que tivessem sido alvo de defesa apriorística por parte das autoridades políticas democráticas. Ou seja, Rebelo de Sousa, nas suas funções de presidente, opta por defender - aprioristicamente, repito - não só os cardeais. Pois nisso, também, procura socorrer a igreja católica, desvalorizando à partida a hipótese das suas responsabilidades, minimizando as teias de silêncio a que esta recorre(u).

Esta inaceitável atitude do presidente não advém do seu catolicismo. Mas da sua concepção política. Sobre esta insisto naquilo que já escrevi: Rebelo de Sousa tem o projecto mais conservador ("reaccionário", para utilizar o velho termo) que este regime já acolheu. Por um lado, e num verdadeiro mimetismo do Estado Novo tardio, encena uma pose política que intenta a efectiva despolitização da sociedade - um populismo "lite", que invoca já não um pater familias até autoritário mas sim um "magister familias", o Professor afável - num rumo que é, verdadeiramente, antidemocrático ainda que nada ditatorial.

E por outro lado - e sem que isso tenha convocado reacções na sociedade, seja no espectro partidário, atrapalhado com outras circunstâncias, nem na intelectualidade ou na vasta sub-intelectualidade estabelecida no comentariado nacional -, Rebelo de Sousa investiu contra a laicidade do Estado, que é característica do nosso regime. Fê-lo, sem qualquer rebuço, desde o início do seu mandato - recordo que no dia do seu primeiro empossamento se deslocou a um templo lisboeta para se reunir com uma série de autoridades clericais de várias congregações religiosas, assim assumindo-as explicitamente como interlocutoras políticas. O que é um traço do secularismo estatal mas não é, bem pelo contrário, uma característica dos regimes laicos. E nesse viés anunciado colheu total silêncio por parte das elites partidárias, dos intelectuais e dos sub-intelectuais radiotelevisivos.

Enfim, agora surge com estas declarações sob assunto tão gravoso. As quais não lhe eram requeridas, bem pelo contrário. Poderiam ser "inaceitáveis" se efectivamente o fossem, se não estivesse a sociedade obnubilada pelo "Marcelo", tudo lhe aceitando. E assim serão consideradas apenas como mais um episódio do afável e gentil "Marcelo", justificadas (apolitizadas, entenda-se) pelo seu "catolicismo" e pela "amizade" pessoal que vota aos cardeais. 

E não haverá muito mais a dizer, tudo isto segue politicamente impune. E até moralmente impune. Sobre o assunto - de facto é mesmo (também) sobre esta matéria - recordo um postal que escrevi em 27.09.2018, encimado pela mesma fotografia. Porque disse tudo o que tinha a dizer...

Marcelo Rebelo de Sousa diz que não saudou o presidente americano por respeito à posição portuguesa sobre o multilateralismo ( 25.9.2028  ). Ou seja, explicita que as suas formas de saudação denotam a posição do país, dado que ele é Presidente da República. Muito bem. E a posição portuguesa, do Estado e da sociedade, sobre a laicidade, essa conquista da democracia? Pode o Presidente da República, nessa condição, saudar o Papa neste gesto de "islão", de submissão expressa no beijo ao anel? Não. A "direita" portuguesa, mais ou menos católica, (pelo menos disto) gosta. A "esquerda" portuguesa, entre os descendentes da capela do Rato e a igreja PCP, encolhe os ombros. Está-lhe grata, pela protecção ao governo na cena dos fogos, pela protecção ao regime na cena da substituição da Procuradora-Geral da República - e é estruturalmente avessa à laicidade [Nem a compreendem, ignorantes seguem confundindo-a com um secularismo de tempero multicultural] (...) E os "tudólogos"? Falam do resto ... 

 

 

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Percebi (tardiamente) que os meus amigos bem preferem que bote eu sobre gastronomia, deixando-me de politiquices, assunto a reservar para os oficiais daquele ofício. E assim passei a fazer. Mas como ontem foi o meu aniversário - o dia permitido de regresso a menino - não falarei hoje de comidas, mas de recordações dos tempos de rapazola.
 
Pois lembrei-me desta "Batalha Naval", a qual joguei com o meu pai, com os amigos em dias que seriam invernosos, e - confesso - amiúde durante as aulas do Ciclo Preparatório.
 
E isto porque agora mesmo me veio à memória uma temida frase desse jogo: "Tiro no Porta-Aviões!". Pois foi o que pensei, antecedida de um "Pumba!", ao ler as declarações de Santana Lopes sobre a trapalhada de Marcelo Rebelo de Sousa no Brasil...
 
(Prometo que no próximo postal continuarei afastado das politiquices).

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(Publicado no "O Flávio")

O vício blogal é tramado, um tipo lê as notícias de uns dias e, por mais que diga "tenho mais que fazer, que se lixe ...", cai nas teclas: MRS diz que não saudou o PR americano por respeito à posição portuguesa sobre o multilateralismo. Ou seja, explicita que as suas formas de saudação denotam a posição do país, dado que ele PR. Muito bem. E a posição portuguesa, do Estado e da sociedade, sobre a laicidade, essa conquista da democracia? Pode o PR saudar o Papa neste gesto de "islão", de submissão expressa no beijo ao anel? Não. A "direita" portuguesa, mais ou menos católica, (pelo menos disto) gosta. A "esquerda" portuguesa, entre os descendentes da capela do Rato e a igreja PCP, encolhe os ombros. Está-lhe grata, pela protecção ao governo na cena dos fogos, pela protecção ao regime na cena da PGR - e é estruturalmente avessa à laicidade: eu recordo o meu espanto, então recente torna-viagem, com o sucesso, aplausos e partilhas, de tantos intelectuais compatriotas ao abjecto texto do padre Leonardo Boff a defender limites ao direito à blasfémia logo após o atentado ao Charlie Hebdo. E passeiam-se por aí, a dizerem-se democratas, anti-censura. E os "tudólogos"? Falam do resto ...

Aos 13 na escola li "Esteiros" de Soeiro Pereira Gomes (e depois o "Engrenagem"). Antes lera "Os Putos" de Altino de Tojal (livro que vendia imenso). Chamavam-lhes neo-realistas, havia um Alves Redol (que nunca li) ou um Manuel da Fonseca (que li logo depois e gostei - tenho que lá voltar) e acho que um jovem Cardoso Pires, se não estou em erro. Nas casas de muitos burgueses, e para além de bustos de Lenine e obras de Marx e Engels, constavam reproduções dos desenhos de Cunhal. E de Cipriano Dourado, e talvez outros. E juntavam o Gorki ao Caldwell e ao Saroyan, enquanto desdiziam um bocado do Jorge Amado, "apesar de ...", pois "enfim ...". A coisa era apresentar a todos nós, burgueses, a grandeza e a beleza ética e estética dos outros, esconsos e oprimidos, seus modos de vida e legítimas aspirações. O (neo-)realismo foi saindo de moda, tinha havido até umas polémicas, e poucos quererão hoje saber das mentes e desejos das belas e robustas catarinas eufémias e dos valentes proletas da praça da grève. O "must" de agora, nada (neo-)realista, diz-se, é louvar a ética e a estética dos gajos que metem chicotes pelo ânus acima ... "Épater le bourgeois", seja com a virilidade proletária seja com a do lumpen prostituído, mas nada mais do que isso. Bom para os "tudólogos".

De resto, em 3-4 dias? O ministro da defesa ainda o é (ele que disse que se calhar não tinha havido roubo em Tancos - estamos a brincar?, não é óbvio o que o homem sabia?); a polícia da tropa vê os seus graduados presos; os generais assobiam, quais meros milicianos da administração do rancho. O ministro da saúde manda à merda a democracia e diz que só vai ao parlamento daqui a 6 meses. O PM goza com o ter faltado à "palavra de honra" (mas tudo está bem, há uma entrevista da mãe dele a confirmar que ele é bem educado; e o Ferreira Fernandes, já agora, lembrou que o pai dele era antifascista e anticolonialista, não vá a gente esquecer-se). A ministra do mar põe a sócia a dirigir os portos, é ilegal, mas (também ela) não tem agenda para responder aos jornalistas. Nem para se demitir. O arquitecto Salgado surge em mais uma marosca, e logo tudo desaparece das notícias. Um antigo professor meu publica um texto contra Medina, a propósito da apropriação privada de um miradouro - logo partilhado pelos "companheiros de estrada" naquela "esquerda". Afirma(m) que Medina tudo faz para preparar a cidade para os turistas. Alto, mas não é isso que se critica ao presidente da câmara, essa sua ideologia do "jardinismo", desde há anos? Ah, sim, mas a gente é de "direita", somos só ressabiados. Eles não, agora a crítica é justa (e pós-Robles, já agora: "cá se fazem, cá se pagam").

As deputadas portuguesas fotografam-se contra Bolsonaro. Este é um traste. Um cafajeste, como se dizia nas velhas novelas dos anos 1970s. Aliás, o homem é um fascista, não é preciso outro adjectivo ou outro insulto. Mas as senhoras deputadas não acham que têm, portas dentro, tralha suficiente (ainda que não tão abjecta) para estarem contra? Não querem fazer, não acham que o deviam, uma "usie" contra esta cloaca? E a semana ainda vai a meio. Sabe-se lá o que antes do fim-de-semana ainda virá, neste estertor de regime ...

Mourinho está com problemas no Manchester United. E o tipo que foi do Rio Ave para o Nantes também. Mas o Eder(zito) marcou um grande golo na taça da Rússia. Há esperança.

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